Maria Antónia Pires de Almeida
Almeida, Maria Antónia Pires de (2002), “Pastor”, Conceição Andrade Martins, Nuno
Gonçalo Monteiro (orgs.), A Agricultura: Dicionário das Ocupações, Nuno Luís
Madureira (coord.), História do Trabalho e das Ocupações, vol. III, Oeiras, Celta
Editora, pp. 230-237. ISBN: 972-774-133-9.
Pastor.
Grupo: Trabalhadores.
Variantes: Alavoeiro, Alfeireiro, Alfeireiro das ovelhas, Alganame, Almocouvar,
Carneireiro, Chicadeiro, Com Carneiros, Conhecedor, Conhecedor das ovelhas,
Dueira, Ganadeiro dos carneiros, Guardador de ovelhas, Homem dos alfeiros das
ovelhas, Maioral das ovelhas, Maioral das ovelhas alfeiras, Maioral da vacas, Maioral
dos alfeiros, Maioral dos carneiros, Maioral dos pastores, Ovelheiro, Ovelheiro do
alfeiro, Para guardar as ovelhas, Para o Alavão, Pasteiro, Pastor das ovelhas, Pastor de
cabras, Pastor de porcos, Pastor de vacas, Pastora, Pastorador, Pegureiro, Porcariço,
Porcário, Pousadeiro, Rabadão, Vaqueiro.
Este termo implica maioritariamente o guarda das ovelhas. Também pode indicar o
porqueiro ou o cabreiro, mas são casos muito raros. Silva Picão (Elvas, 1903) define-o
como o Ganadeiro* dos lanígeros. Orlando Ribeiro salienta a importância da
pastorícia na região mediterrânica, na qual praticamente todo o território português se
inclui, mas com especial incidência para o Alentejo e as Beiras: “A ovelha e a cabra
desempenham, na economia destas terras pobres, papel da maior importância:
fornecem o leite, o queijo, a carne e a pele, a lã e o pêlo. Uma indústria caseira típica
de toda a região (Mediterrâneo) é a tecelagem de panos grosseiros, de mantas, tapetes
e tapeçarias”, (Ribeiro, 1968). Este autor descreve também a chamada “oscilação
transumante”, um retrato de comportamentos ancestrais que ainda se verificavam nos
anos 60 do século XX: “Durante o Verão, a erva seca nas terras baixas e há que
procurar pastagens frescas na montanha; no Inverno arrefecem os cimos e cobrem-se
de neve, e os rebanhos buscam abrigo e alimento nas planícies e nos vales. (…)
Enquanto o pastoreio se confina à montanha, na maior parte dos casos acima dos
limites da cultura permanente, aparta-se quase por completo da vida agrícola ou traz-
lhe, com um pouco de estrume, ainda algum benefício. (…) os conflitos surgem,
inúmeros e intermináveis, nos caminhos pastoris que passam perto das povoações e
das culturas.” Estes movimentos transumantes de rebanhos verificavam-se entre a
Serra da Estrela e Ourique, no Baixo Alentejo, no séc. XVII. Nesta época, “a cultura
dos campos ressent(ia)-se desta praga que, periòdicamente, a montanha derrama nas
terras baixas.” A situação dos pastores nas Beiras era bastante dura, devido a estas
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longas viagens durante o inverno inteiro, durante o qual saíam com rebanhos que
incluiam reses de diferentes proprietários, e usavam as pastagens das terras mais a sul,
por vezes em troca do estume que as ovelhas lá deixavam.
No Alentejo estas transumâncias limitavam-se às terras possuídas ou arrendadas pelo
dono do rebanho, nas quais o pastor e respectivos ajudas podiam percorrer centenas
de hectares, acompanhando o rebanho noite e dia durante semanas. Por este motivo
nesta região o Pastor era um Criado da Lavoura*, que, tal como os restantes
ganadeiros, tinha uma situação privilegiada, pois tinha direito ao pegulhal ou
provilhal, isto é a posse de algumas cabeças de gado no rebanho que guardava,
incluído nos termos do seu contrato anual que também previa as habituais comedorias
e o direito a uma casa no monte (sede da lavoura), onde a sua família habitualmente
residia. Com os resultados da venda do provilhal, o pastor conseguia em grande parte
dos casos, juntar mais dinheiro que um Trabalhador* da lavoura, e com ele comprar
casa própria, que podia arrendar. Estas situações são verificáveis nos Livros de
Décimas: por exemplo em 1778, em Avis, há um pastor com umas casas na vila, o
que mostra que já nesta altura eram mais ricos que os outros trabalhadores. Ainda nos
finais do século XX foram verificados casos destes (fontes orais). No entanto, nos
finais do século XVIII as ovelhas eram ainda o gado que menos mão-de-obra ocupava
neste concelho: no mesmo livro de 1778, entre os 172 trabalhadores justos arrolados,
o conjunto dos pastores de ovelhas representa apenas 8%, em último lugar na lista dos
Criados da Lavoura. De qualquer modo esta profissão está presente em todos os anos
desde 1690, com as grafias Pastor / Paystor / Paztor / Pastor das ovelhas.
Isto pode mostrar que havia menos ovelhas do que cabras e porcos em Avis nos finais
do século XVIII, pois as extensões de montado e de mato eram ainda muito maiores
do que as áreas desbravadas. Ainda não tinha havido a célebre arroteia da charneca
alentejana, que se desenrolou sobretudo a partir dos finais do século XIX com as leis
de incentivo à produção de trigo. Por outro lado, as cabras exigem maior mão-de-obra
que as ovelhas. Um rebanho de ovelhas entregue a um pastor pode ir até algumas
centenas de cabeças, enquanto que um rebanho de cabras não ultrapassa as poucas
dezenas de cabeças.
Nos finais do século XIX há um aumento da percentagem de pastores em relação aos
restantes ganadeiros do concelho estudado: nas listas de doentes do Hospital da
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Misericórdia de Avis, entre os 83 ganadeiros internados de 1847 a 1956, 39% são
porqueiros, 27% são pastores, 27% são cabreiros e 7% são vaqueiros.
A melhoria dos transportes com a introdução do caminho-de-ferro nos finais do
século XIX e início do século XX pode ter incentivado também a criação deste gado
nesta região, para abastecimento de carne às cidades e de lã às indústrias de tapeçaria,
situadas sobretudo em Arraiolos (para a produção dos típicos tapetes) e em Portalegre.
Encontraram-se mais de 30 classificações para esta profissão, que variam de A a Z,
sem contar com os respectivos ajudas!
A classificação medieval para o pastor era a de Conhecedor ou Conhecedor das
ovelhas, presente na Lei da Almotaçaria em 1253 (Ribeiro, 1857) e na Figueira e
Barros em 1269 (Saraiva, 1997). Viterbo define-o como “O que conhece bem o estado
e a qualidade de um rebanho ou vacada” (Viterbo, 1798).
Se esta classificação perdeu completamente o seu uso, outros termos medievais
chegaram ao século XX, como é o caso do Adueiro, que tanto pode ser usado para o
pastor das ovelhas como dos porcos (Actas de Vereação de Loulé, séc. XIV) e do
Alfeireiro (Évora, 1264, Pereira, 1885 e (Figueira, 1269). Rebelo da Silva afirma que
esta profissão estava presente nas posturas agrárias de Évora no reinado de Affonso
III (Silva, 1868). Segundo Silva Picão, “São todos os entregues de qualquer espécie
que se ocupam com rebanhos do alfeiro. Por alfeiro denomina-se o gado novo (de um
a três anos no gado vacum e cavalar, e de um ano a ano e meio nos suínos, lanígeros e
caprinos) de um ou de ambos os sexos, que constituem rebanho em separado, sem
nele se misturarem reses paridas ou de prenhez adiantada”. Leite de Vasconcelos
define o alfeiro como um rebanho de cerca de 500 animais, acrescentando que o
alfeireiro é o pastor “que anda com as ovelhas que não estão paridas, e por isso não
dão leite” (Vasconcelos, 1933). Também se define alfeire ou alfeiro como o gado que
não tem crias (Figueiredo, 1925); é sinónimo de tomado de cio, irrequieto. O
AlFarreiro / alfeireyro / Alfeyreyro / Alfeirão / Alfeiro está ainda presente nos Livros
de Décimas, Arraiolos e Avis, 1643, 1753, 1778, tanto na vila como no termo e nos
registos paroquias (Avis, 1729-32). Entre 1730 e 1890 passa a ter as designações de
criado de servir-pastor e Pastor de ovelhas. O Alfeireiro ou o Homem do alfeiro das
ovelhas também está incluído nos criados do “Lavrador Setecentista” estudado por
Jorge Fonseca em Montemor-o-Novo (1995). Ainda em pleno século XX esta
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profissão é destacada nos livros de cantabilidade das lavouras de Lopes de Azevedo,
Avis, 1915-19 e no Monte Padrão, Figueira, 1959-60, no grupo dos trabalhadores
fixos. Nestas lavoura toma ainda as designações de Maioral ou Moural das Ovelhas
Alfeiras, Maioral dos Alfeiros ou Ovelheiro do Alfeiro.
Por outro lado existe o Alavoeiro, que pertence ao grupo do pessoal transitório da
lavoura: “Quando se apartam os alavões – rebanhos de ovelhas que na Primavera se
ordenham para o fabrico do queijo –, os entregues e ajudas respectivos chamam-se-les
alavoeiros.” (Silva Picão, Elvas, 1903). Este pastor guardava os rebanhos que tinham
crias e, portanto, davam leite para o fabrico de queijos (ver Roupeiro*), que tanto
podiam ser consumidos pelo agregado familiar do lavrador, como ser usados para o
pagamento de comedorias ou para a venda no exterior. Este termo também está
presente nas referidas lavouras, com as designações de alavueiro, Rapás com o alavão
da casa (ovelhas) ou Para o Alavão.
A posição hierárquica superior nesta profissão pertencia ao Alganame, ou Maioral dos
Pastores, classificado por Silva Picão como o “Chefe de todos os pastores, apascenta
igualmente um rebanho, sempre o que demanda maior dedicação e cuidados”.
Segundo Teófilo Braga, o termo Alganáme continuou a ser usado “por persistencia
dos costumes árabes” (Bragam 1885). Rebelo da Silva afirma que já estava presente
nas posturas agrárias de Évora no reinado de Affonso III (Silva, 1868); foi também
encontrado na Figueira em 1269 e em Évora em 1280 (Pereira, 1885). Viterbo define-
o como “O pastor principal, que toma sobre si a obrigação de conservar e aumentar o
rebanho; é superior ao zagal, conhecedor, pousadeiro, e outros criados. A palavra
deriva do árabe al-ganam ‘pastor’, derivado de Ganam, ‘carneiro’, ‘gado miúdo’”.
Nos Livros de Décimas de Avis o Maioral das ovelhas é frequente entre 1690 e 1778,
só no termo, com as grafias: Maioral das ovelhas / mayoral das ovelhas / maioral das
evelhas / Mouyral das ouelhas. Na Lavoura de Lopes de Azevedo (1915) existe o
Moural das Ovelhas e o Moural dos Carneiros. Também na Casa do Barão de
Almeirim existe esta categoria entre 1918 e 1928.
Na posição imediatamente inferior ao Alganame encontramos o Almocouvar, um
simples guarda de rebanhos, sem especialização, também presente na Figueira em
1269 e em Évora em 1280 e 1302. Viterbo define-o como “O pastor que tem a seu
cargo guardar o rebanho. Aparentemente deu-se-lhe este nome por ser o seu vestido,
vigilância e mais comportamento à maneira de Almogávar. Era equivalente ao zagal,
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criado do maioral, e superior àquele, a que os espanhóis chamam rabadan.” Mas não
só os espanhóis usam o termo Rabadão: também no Alentejo era usado no século XIII
(Figueira, 1269, in Saraiva, 1997) e foi definido por Figueiredo como “aquele que
guarda gado miúdo”. A posição hierárquica mais insignificante era a do Zagal (ver
Ajuda de Gado*), presente em várias fontes, mas apenas até ao século XVIII. O
mesmo se passa com o Pousadeiro, encontrado apenas no século XIII. Segundo
Viterbo, era um dos zagais do rebanho, que tinha a seu cargo prever o lugar mais
cómodo para as ameijoadas. Abaixo dele havia ainda outros pastores mais pequenos e
de menor soldada.
O pastor propriamente dito também vem da época medieval a chega ao século XX
como o resumo de todas as classificações referidas. Foi encontrado em 1328 em
Montemor-o-Velho (Coelho, 1983) e nos Forais Manuelinos, 1510-1520. Jorge
Fonseca refere pastores em Évora em 1538, tanto na situação de donos de escravos
como de escravos (Fonseca, 1997). Existe também nos Livros de Décimas, desde o
século XVII ao XIX; nos Róis de Moradores de Évora em 1720 (Arcebispado); em
Samora Correia em 1790 (Nazareth, 1988); em Trás-os-Montes, 1796 (Mendes,
1981); nas Contribuições Municipais (Arraiolos, 1938), nos Recenseamentos
Eleitorais da Covilhã e de Avis, 1853-1964 e nas Lavouras de Parreira Cortez, Serpa,
1866, Barroca d’Alva e Rio Frio, Alcochete, 1872, Palma, 1872 e Monte Padrão,
1938-60.
Encontram-se ainda outras especializações: Ovelheiro, encontrado na Figueira, 1269;
Entre-Tejo-e-Guadiana, 1362 (Rau, 1982); em Alcobaça no século XV (Gonçalves,
1989) e no Porto em 1431 (AMP). No livro de décimas de Arraiolos em 1643 tem as
grafias Ouilheiro / obilheiro e na lavoura de Lopes de Azevedo, Avis, 1915-19, está
classificado como ovilheiro – moural e Para guardar as ovelhas. Nos livros de
doentes do Hospital da Misericórdia de Avis entre 1860 e 71 existe a categoria do
Guardador de ovelhas. Carneireiro, o que guarda os carneiros (Picão, Elvas, 1903),
encontrado no livro de décimas de Avis em 1778, com a grafia Carnareyro; e nas
lavouras de Lopes de Azevedo (1915-19) e do Monte Padrão (1959-60). Tem ainda a
variante do Ganadeiro dos carneiros, também nas lavoura de Lopes de Azevedo e de
Com Carneiros, Palma, Alcácer do Sal, 1889. Chicadeiro, o “guardador ou pastor de
chicada: (província do Alentejo) pequeno grupo de ovelhas, com borregos muito
novos” (Figueiredo, 1925). Este termo foi encontrado nos livros de décimas de
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Monsaraz em 1789 (Rocha, 1994). Como sinónimo de pastor, e por ter direito ao já
referido Pegulhal, Leite de Vasconcelos refere a classificação de Pegureiro, termo
também encontrado nos Forais Manuelinos em S. Cristóvão de Nogueira, 1513.
No Alentejo esta profissão é exclusivamente masculina; no entanto, noutras regiões
encontraram-se algumas Pastoras e Dueiras, mulheres que tomam conta dos rebanhos
(Vasconcelos, 1933). Em Monsanto, por exemplo, o Romanceiro tradicional da região
inclui esta personagem em vários poemas (Buescu, 1958). E no Ribatejo também se
usava enviar rapariguinhas para o campo guardar ovelhas, segundo relata a Ti Elvira,
avó do Constantino Guardador de Vacas e de Sonhos, um dos mais populares
romances de Alves Redol (1961): “Quando em pequena me mandavam para o monte
com mais de trinta ovelhas, aprendi a conhecer os animais. (…) Mandavam-me para
aquele degredo sozinha, e eu tinha de me calar, a comer pão duro com o molho dos
olhos, que é o molho mais amargo que se pode comer. (…) Não há bicho pior para
guardar do que a ovelha… Nem a cabra. (…) No meu tempo era só trabalho e
porrada…”