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Políticas Públicas e Sustentabilidade na Amazônia

O documento discute as políticas públicas e a sustentabilidade na Amazônia, destacando os desafios enfrentados pelo Serviço Social em um contexto de desigualdade social e exploração capitalista. A análise aborda a crise civilizatória e suas implicações para os povos originários e para a atuação dos assistentes sociais, que se veem pressionados por um cenário de retrocesso nas políticas sociais e direitos trabalhistas. Além disso, o texto enfatiza a importância do compromisso ético-político do Serviço Social frente às adversidades contemporâneas, incluindo a pandemia de Covid-19.
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Políticas Públicas e Sustentabilidade na Amazônia

O documento discute as políticas públicas e a sustentabilidade na Amazônia, destacando os desafios enfrentados pelo Serviço Social em um contexto de desigualdade social e exploração capitalista. A análise aborda a crise civilizatória e suas implicações para os povos originários e para a atuação dos assistentes sociais, que se veem pressionados por um cenário de retrocesso nas políticas sociais e direitos trabalhistas. Além disso, o texto enfatiza a importância do compromisso ético-político do Serviço Social frente às adversidades contemporâneas, incluindo a pandemia de Covid-19.
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POLÍTICAS PÚBLICAS &

SUSTENTABILIDADE NA AMAZÔNIA:
pauta de desafios e potencialidades para o Serviço
Social
Maria do Perpétuo Socorro Rodrigues Chaves
Gizelly Caroline França Guimarães
Camila Fernanda Pinheiro do Nascimento
Thamirys Souza e Silva

1. INTRODUÇÃO

O trabalho em pauta discute a natureza das políticas públicas,


a partir dos parâmetros de sustentabilidade no cenário da Amazônia e
dos direcionamentos e desafios para a constituição de estudos orienta-
dos pelo projeto ético-político do Serviço Social realizados pelo Grupo
Interdisciplinar de Estudos Socioambientais e de Desenvolvimento de
Tecnologias Sociais na Amazônia – Grupo Inter-Ação. Para abordar as
problemáticas específicas na cena da Amazônia, a exposição inicia com
o debate sobre a dinâmica da expansão das relações capitalistas de pro-
dução na região e as investidas progressivas que se abatem sobre as
formas de organização sociocultural, política e de manejo dos recursos
naturais locais.
O ritmo crescente e frenético da ofensiva da 4ª Revolução1 que
ordena um novo paradigma técnico econômico avança aprofundando o
abismo (gap) vigente das desigualdades sociais entre capital e trabalho,
entre as classes sociais, como resultado das contradições inerentes ao
modo de produção e consumo na sociedade ordenada sob a égide do
sistema capitalista. Sob os vínculos da nova ordem é possível identi-
1 Movimento de reestruturação produtiva do capital, com instituição de um novo ci-
clo econômico, que abrange indústrias criativas, empresas inovadoras, Tecnologias da
Informação e Comunicação (TICs), Internet das Coisas, cidades inteligentes e outras
tendências tecnológicas formando a indústria 4.0. Este conjunto de inovações aumenta,
em nível global, a capacidade e eficiência do setor produtivo, amplia o fluxo das redes
de comunicação, circulação de pessoas, informação, capital e mercadorias e afetam ra-
dicalmente a produção de bens e serviços, as formas de organização/gestão do trabalho,
as condições e relações de trabalho, o conteúdo do próprio trabalho, elevando a compo-
sição técnica e de valor do capital.

- 231 -
ficar o fenômeno de superexploração dos trabalhadores, fruto de uma
interconexão orgânica entre diferentes processos e fluxos societários e
produtivos.
Para Santos (2020, p. 54), esses fenômenos são resultado de três
processos interdependentes nas esferas: produtiva pela constituição de
novos mecanismos de exploração da força de trabalho que afetam di-
retamente as relações e condições de trabalho; pública pela ação do
Estado no ordenamento de seu perfil na viabilização de políticas, tais
como: (des)regulamentação do trabalho, supressão de direitos sociais
e os processos de privatização/mercantilização do patrimônio público;
sociocultural, que abrange a dinâmica da vida da classe trabalhado-
ra pelas mudanças infligidas às organizações culturais, ideológicas e
na sociabilidade no modo de ser e viver. A dinâmica e interação entre
os processos fazem emergir uma profunda crise civilizatória que afeta
todo o planeta, cujas contradições delimitam os contornos da relação
sociedade-natureza, pelo uso indiscriminado e predatório dos recursos
naturais, enquanto o caráter expropriador desencadeia uma cascata de
conflitos fundiários e socioambientais que, por sua gravidade, redunda
no agravamento da pauperização, dos riscos e das vulnerabilidades so-
ciais e ambientais.
Ao lançar um olhar para o terreno contemporâneo da formação
social histórica do Brasil, Mattik (1976 apud CHESNAIS, 2013, p. 26)
considera que “(...) cada crise concreta se compreende na relação que
ela mantém com o desenvolvimento da sociedade global”. Assim, o
Brasil, no 1º trimestre de 2021, passa por (re)ajustes da contrarreforma
trabalhista que fazem fluir uma volumosa cascata de riscos e vulne-
rabilidades sociais que, além de limitar as formas de proteção social
daqueles que integram as forças produtivas, faz avançar o desempre-
go que alcançou 14,805 milhões de pessoas e empurrou 38,2 milhões
de trabalhadores para a fornalha do trabalho informal, formando uma
multiplicidade de cidadãos que obtêm o sustento de seus grupos fami-
liares pela via da autoexploração e da ausência de direitos de cidadania
(IBGE, 2021). O padrão da contrarreforma faz dilatar o grau de paupe-
rização e exclusão social nas diferentes regiões do país, deixando alija-
dos do mercado de trabalho 76,483 milhões de pessoas e 6,0 milhões de
pessoas desalentadas (IBGE, 2021).
Constata-se que em menos de uma década as elites conserva-
doras e reacionárias brasileiras granjearam amplitude e profundidade,

- 232 -
ganhando terreno ao minar as formas de enfrentamento das forças po-
líticas de vanguarda representadas pelos governos democráticos que
estiveram à frente do Estado (entre as décadas de 1990 e 2016). O
golpe encetado em 2016 no governo da presidente Dilma Rousseff,
pela direita conservadora, criou as condições favoráveis para o avan-
ço do reacionarismo com a radicalização da truculência, disseminação
do ódio étnico-racial, acirramento de todas as formas de violência, re-
pressão e criminalização das lutas sociais, cuja expressão máxima foi o
estelionato eleitoral com o governo Bolsonaro (eleito para 2019-2022),
que associado aos ditames de fortalecimento do movimento do capital
global aportou trazendo toda a pujança das consequências da crise de
empregabilidade.
Na Amazônia, os rebatimentos desta crise e os determinantes da
lógica que ordena o sistema capitalista, bem como os limites impostos
para o acesso às políticas públicas, alcançam e afetam de modo impera-
tivo os povos originários (etnias indígenas), cujas formas de organiza-
ção sociocultural e tradicionais guardam formas singulares de produção
e gestão do manejo dos recursos naturais locais. O conjunto das mudan-
ças no campo societário, além de incidirem diretamente nas relações
sociais, comprometem, sobretudo, as condições laborais de acesso ao
emprego pelos trabalhadores, afetando o campo dos direitos trabalhis-
tas e sociais. Estas, no caso dos Assistentes Sociais, solapam tanto as
condições de empregabilidade e de trabalho, quanto urdem pressões
socioinstitucionais e políticas que ameaçam o projeto ético político do
Serviço Social.

2. SERVIÇO SOCIAL E O COMPROMISSO ÉTICO POLÍ-


TICO: dilemas impostos pelo contexto pandêmico

A emergência sócio-histórica do Serviço Social guarda víncu-


lo estreito com o desenvolvimento do sistema capitalista. Viana et al.
(2015) afiança que em seus primórdios o trabalho dos assistentes so-
ciais foi caracterizado pela subalternidade, como meros executores de
políticas sociais e mantedores da ordem e controle social, sob ditames
de ordem da autocracia burguesa. A teoria social de Karl Marx (1818-
1883), ao ser adotada na formação de profissionais e na afirmação de
seus fundamentos, auxiliou no acúmulo crítico coletivo do Serviço So-
cial fornecendo suporte importante e necessário para avançar nas pes-
quisas, na intervenção profissional e nos compromissos de luta da clas-

- 233 -
se trabalhadora, em suas diversificadas formas de resistência.
Partindo desse pressuposto, entende-se que a instituição do
Movimento de Reconceituação do Serviço Social (MRSS), instaura-
do durante a vigência da ditadura militar (1964-1985), representou um
efetivo processo de renovação do Serviço Social. Este Movimento re-
presentou um importante marco histórico para o Serviço Social, demar-
cando a emergência e a consolidação de uma visão crítica em relação
ao trabalho profissional, pela percepção da necessidade de consolidação
das políticas sociais como direitos, do compromisso com a luta da clas-
se trabalhadora, da firmação profissional do Serviço Social, em seus
pressupostos éticos políticos.
A partir dos direcionamentos do Movimento, a formação e o tra-
balho profissional passaram a ser norteados pela abordagem analítica
crítica da realidade social, visando construir instrumentais teórico-prá-
ticos para enfrentar a questão social, numa efetiva busca de superação
das práticas tradicionais do Serviço Social (VIANA et al., 2015). Logo,
o MRSS serviu como alicerce para adoção da teoria social no processo
de formação e no exercício profissional do assistente social, cujo traba-
lho vigorou mediante as lutas da categoria e do fortalecimento de uma
identidade profissional.
Netto (2005 apud VIANA, 2015) identifica no processo de re-
novação do Serviço Social as perspectivas: modernizadora, de reatua-
lização do conservadorismo e a intenção de ruptura. A modernizadora2
representa a preocupação dos profissionais de Serviço Social com o
aperfeiçoamento do instrumental operativo, com os procedimentos me-
todológicos e técnicos e com padrões de eficiência. A perspectiva nomi-
nada como reatualização do conservadorismo manifesta-se na comple-
xa dialética de ruptura e continuidade com o passado profissional, sem
prejuízo dos elementos renovadores que apresenta. Enquanto a intenção
de ruptura mirava no rompimento com o Serviço Social tradicional, vi-
sando dissociar-se do conservadorismo, inerente à tradição positivista,
de seus procedimentos metodológicos, ideológicos, teóricos e práticos,
adotando o pensamento marxista (NETTO, 2005 apud VIANA, 2015).
É importante reconhecer que no cotidiano do trabalho do/a
assistente social, sob o fluxo da realidade marcada pelas contradições,
a ordem institucional pode vir a demandar de modo impositivo o
2 Perspectiva baseada nos documentos dos seminários de Araxá (1967) e de Teresópolis
(1970), organizados pelo CBCISS (Centro Brasileiro de Cooperação e Intercâmbio de
Serviço Social).

- 234 -
desempenho de ações que conflitem e/ou sejam antagônicas aos
princípios norteadores da profissão, por não corresponderem a uma
intervenção pautada na concepção de cidadania defendida pela
categoria, como resultado de anos de luta como classe trabalhadora.
Barroco (2015, p. 633) afirma que o Serviço Social, no exercício pro-
fissional, desempenha “tarefas policialescas”, por exemplo, nas desocu-
pações truculentas de áreas de ocupação, em deslocamentos de mora-
dores de rua e usuários de droga, na censura e no controle dos usuários,
cumprindo os objetivos de instituições tradicionalmente conservadoras
pautadas pela moral e a tradição.
Para assegurar a regulamentação dos princípios defendidos no
Movimento de Reconceituação, a categoria é impulsionada pelas enti-
dades organizativas da categoria (CFESS-CRESS, ABEPSS e ENES-
SO) que atuam diligentemente para compor instrumentais normativos
com bases/fundamentos e diretrizes para o exercício profissional, daí a
relevância da consolidação do Código de Ética do/a Assistente Social,
de regulamentação da profissão. Sant’ana e Silva (2013, p. 182) no-
meiam como processo inspirador para “revisão e o amadurecimento do
Código de Ética do Assistente Social, a definição de diretrizes nacionais
para a formação [...], a criação de um Projeto Ético-Político Profissional
[...] lutas sociais dentro e fora dos espaços de atuação profissional”.
Neste estudo, adota-se o enfoque de que o Serviço Social é uma
especialização do trabalho social e que o Assistente Social é um profis-
sional que atua diretamente junto às expressões da questão social. No
Brasil, desde a instauração e consolidação do Movimento de Recon-
ceituação, predomina na atuação dos profissionais de Serviço Social,
seja no campo da formação e/ou do trabalho profissional, uma intensa
e relevante articulação com os movimentos sociais e da classe traba-
lhadora no enfrentamento das expressões da questão social mediante as
políticas sociais (BOSCHETTI, 2017).
Tal approach baseia-se na referência fornecida por Iamamoto
(2017, p. 27), que afirma que (...) o Serviço Social tem na questão so-
cial a base de sua fundação como especialização do trabalho, sendo
percebida como o conjunto das expressões das desigualdades. Para
identificar e interpretar analiticamente a questão social na contempo-
raneidade, nas palavras de Iamamoto (2007, p. 114), faz-se necessário
“decifrar os determinantes das múltiplas expressões da questão social”.
Partindo desse pressuposto, entende-se que objeto de trabalho cotidiano

- 235 -
do Assistente Social, assim como as políticas sociais, são a forma de
acesso aos direitos pelos cidadãos, cujo conjunto das expressões das
desigualdades presentes a serem enfrentadas abrangem um amplo do-
mínio de problemáticas relativas ao acesso aos bens e serviços sociais,
direitos humanos e sociais que possuem determinações locais e gerais.
Vale reconhecer que, assim como o neoconservadorismo e o
ideário neoliberal afetam sobretudo as políticas sociais, eles também
fomentam um processo de retorno ao conservadorismo no Serviço So-
cial, sendo preciso criar formas de resistência a este processo, para ha-
bilitar os mesmos para enfrentar os maiores desafios impostos ao traba-
lho dos/as assistentes sociais nesta conjuntura. Nesse sentido, Boschetti
(2017, p. 68) afirma que: “são incidências conservadoras que remo-
delam a atuação do Serviço Social nas políticas sociais e podem fazer
retroceder as históricas conquistas alcançadas nos últimos três decênios
e que marcaram a ruptura com o Serviço Social acrítico”. De acordo
com Sant’ana e Silva (2013, p. 191), os aportes teórico-metodológico e
ético-político servem como elementos formadores do fazer profissional
e instituem um extenso horizonte de possibilidades para o exercício crí-
tico, pela instauração de um campo de lutas e de construção de alterna-
tivas possíveis, “ontologicamente dadas e carentes de potência humana
que as ponha em movimento sem recaídas idealistas.”
Na conjuntura de início da terceira década do século XXI, com
o (re)surgimento das ofensivas neoconservadoras que promulgam os
ideários neoliberais, faz-se notória a prevalência de um significativo
retrocesso em relação à viabilização das políticas sociais. Nesse senti-
do, Barroco (2015, p. 626) afirma que “a ofensiva neoliberal do grande
capital diversificou e ampliou a degradação do trabalho e da vida social,
atingindo duramente as condições de existência da classe trabalhado-
ra e dos setores marginalizados”. Partindo desse pressuposto, Barroco
(2015, p. 630) revela que os ataques às políticas sociais baseadas em
ideários neoconservadores, “além de reforçar a moralidade punitiva,
revela[se] também uma estratégia presente na ofensiva direitista atual”.
Tal ordenamento, firmado pela necropolítica do governo Bolso-
naro (2019-atual), é conduzido de maneira incansável para minar, en-
fraquecer e desacreditar as forças democráticas do país. Em meio às
agressivas contrarreformas, em 2020 a pandemia do novo Coronavírus
(SARS-COV-2), agente causador da Covid-19, alastrou-se da China
para todos os continentes de maneira veloz. A pandemia adveio oca-

- 236 -
sionando grande risco e agravos para a saúde dos indivíduos, com alta
letalidade, principalmente acometendo os segmentos com morbidades,
enquanto os sobreviventes arcam com variadas sequelas. As conse-
quências da pandemia ampliam as condições de riscos para os agen-
tes sociais, mas atingem em maior monta os setores empobrecidos da
população, acrescendo vulnerabilidades e ampliando as desigualdades
sociais. Em janeiro de 2021, a cidade de Manaus serviu como palco
para a necropolítica do governo, exibindo sua face mais cruel. As debi-
lidades das políticas públicas foram potencializadas por um conjunto de
fatores agravantes da desigualdade social e da prevalência de ações que
erodem o Sistema Único de Saúde e amplificam as carências, resultan-
do num quadro devastador de penúria, sofrimento e morte que incidem
com maior força nos segmentos sociais da periferia da cidade. A negli-
gência no fornecimento de itens básicos para atendimento dos doentes
(oxigênio, remédios e equipamentos de proteção) expôs a população a
um dos piores índices de contaminação e óbitos por COVID-19.
Navarro (2015 apud PEREIRA & PEREIRA-PEREIRA, 2021,
p. 42), ao analisar as políticas sociais no contexto pandêmico, indica
que “o exorbitante aumento da desigualdade de renda e riqueza que
está por trás, não apenas da invulgar desigualdade social prevalecente”,
e o crescimento do chamado capitalismo cassino (prática de especula-
ção com capital financeiro), propagado por todo o sistema econômico
mundial, jogam um papel central nas consequências geradas pela pan-
demia que atinge com maior força a classe trabalhadora. Outrossim, a
pandemia é, efetivamente, expressão da crise socioambiental planetária
que combina a dinâmica de produção e consumo na sociedade contem-
porânea, que impulsionam as mudanças climáticas, sob o prisma do
movimento político conservador, denotando causas, interesses, razões
e consequências.
Por outro lado, nesta conjuntura, de modo a arregimentar forças
para avançar e não esmorecer diante das ameaças concretas do vale da
sombra e da morte, vale buscar forças ao contemplar quantas vitórias
temos a celebrar, como: o 1º. curso de Serviço Social na América La-
tina, criado no Chile, em 1925; o 1º. curso de Serviço Social no Brasil
(atual PUC-SP) completa 85 anos de criação; duas décadas de vigência
das Diretrizes Curriculares do Serviço Social brasileiro, de 1993; 70
anos da Associación Latinoamericana de Enseñanza y Investigación
en Trabajo Social (ALAEITS) e da Associação Brasileira de Ensino e
Pesquisa em Serviço Social - ABEPSS; meio século do Movimento de

- 237 -
Reconceituação do Serviço Social.
Assim, visto que as políticas sofrem ataques constantes das ba-
ses neoconservadoras e legitimação pelos ideários neoliberais, este tra-
balho segue em busca de desvendar a natureza das políticas públicas
na Amazônia.

3. POLÍTICAS PÚBLICAS NA AMAZÔNIA: configuração


política

Nesta parte, discute-se a configuração das políticas públicas na


Amazônia. É mister distingui-las das políticas sociais que represen-
tam ações de enfrentamento das expressões da questão social. Almeida
(2011, p. 63) indica que as políticas sociais: “expressam um conjun-
to de ações dirigidas para a manutenção, dentro dos limites, que não
comprometa a própria lógica da acumulação crescente do capital, [em]
patamares mínimos de consumo da classe trabalhadora”, não atingindo,
desse modo, o cerne da questão social. Ao mesmo tempo em que o
Estado atende a classe que detém o poder, atende também às demandas
da classe trabalhadora, como forma de se legitimar perante a sociedade.
As políticas sociais são modeladas como forma de enfrentamen-
to das diversas expressões da questão social que perpassam a realidade
social, fruto de um intenso jogo de forças que as tornam eivadas de con-
tradições. O conceito de política social é complexo e de difícil definição
(PEREIRA, 2011), Titmuss (1981 apud Pereira, 2011) afirma que por
trás de cada definição prevalecem ideologias, valores e perspectivas
teóricas que competem entre si, portanto, não há neutralidade em sua
acepção. A perspectiva da autora, na discussão sobre política social,
refere-se à sua constituição como repleta de conflitos entre capital e
trabalho, entre Estado e sociedade. Porém, as políticas sociais são parte
das políticas públicas moldadas para atender a demandas antagônicas,
como aquelas oriundas da luta da classe trabalhadora, desde que res-
guardem a base de continuidade do sistema.
No que tange às políticas públicas, estas são ações estratégicas
viabilizadas a partir dos determinantes que envolvem investimento pú-
blico, sua destinação, repartição e/ou transferência de recursos para a
sociedade. Sendo que, nos governos de caráter democrático, a formu-
lação de políticas públicas compreende um espaço no qual os governos
explicitam suas finalidades em planos, programas e ações, cuja viabili-

- 238 -
zação, por via de suas instituições, gera resultados ou as transformações
necessárias na cena social (SOUZA, 2003, apud ROSSINI, 2017).
No contexto amazônico, as políticas públicas de corte social,
conforme indicam alguns estudos que fazem um apanhado histórico das
últimas três décadas (REFKALEFSKY, 2009; CHAVES, 2001), consta-
tam a prevalência de um cenário marcadamente desigual e excludente,
pois ao lançarem um olhar para a trajetória sócio-histórica da região
percebem que, desde os primórdios de sua ocupação, a associação entre
colonizadores e as elites políticas e econômicas locais, com patrocínio
das políticas públicas, transformaram a Amazônia em fornecedora de
matérias-primas para o mercado mundial, acatando os interesses do ca-
pital nacional e internacional. Todavia, neste artigo a exposição sobre
estes fenômenos será esquemático, com o intuito de ilustrar o perfil das
políticas públicas e sociais na região.
Os diversos ciclos econômicos de expansão do capital patroci-
naram a ocupação territorial e a conformação das políticas públicas na
região. Dentre outros, o que causou maior transformação na cena regio-
nal foi o ciclo da borracha que ocorreu no fim do século XIX e início
do século XX e durante a II Guerra Mundial, cujo sistema de avia-
mento sujeitava os seringueiros (migrantes nordestinos e ribeirinhos)
a condições de vida extremamente precárias. Enquanto os produtos do
extrativismo eram exportados gerando riquezas que se concentravam
nas mãos dos seringalistas, do comércio (Casas Aviadoras), com apoio
do Estado, enquanto a região padecia da falta de infraestrutura e de
bens e serviços sociais para atender às necessidades dos trabalhadores
(CHAVES, 2001).
Desde os meados do século XX, no período de ditadura dos go-
vernos militares (1964-1986), as políticas de desenvolvimento regional
implementadas pelo Estado, orientadas sob o signo da integração da re-
gião aos circuitos do capital, abriu as fronteiras amazônicas aos grandes
projetos, alterando a face da região pela modernização conservadora.
Para Barbosa (2009), a questão social na Amazônia evidenciou-se his-
toricamente, por meio do processo de descolonização e mudanças nas
relações de produção tradicionais, com a formação de um mercado de
trabalho dependente em condições extremamente precárias.
O Estado do Amazonas, cuja capital Manaus foi palco da criação da
Zona Franca, serviu como porto aduaneiro, zona de livre comércio, com a
montagem de um enclave dos interesses dos segmentos industriais nacio-

- 239 -
nais e estrangeiros (CHAVES, 2001). Segundo Barbosa (2009, p. 72):
A miséria e os conflitos sociais, portanto, começam a aparecer, de
um lado, devido à penetração dos grandes projetos agro-exporta-
dores e minero-metalúrgicos assentados sob diferentes formas de
expulsão das chamadas populações tradicionais (quilombolas, po-
pulações indígenas, populações ribeirinhas etc.) e de outro, pela
intervenção do Estado no controle dos conflitos fundiários [...]”.

O advento da Zona Franca, na década de 1960, do século XX,


impulsionou o crescimento populacional, no campo e na cidade, levan-
do à precarização das condições de vida da população. Tal modelo de
desenvolvimento ampliou as expressões da questão social na região,
a partir da “expropriação territorial, da apropriação privada das terras
pelo capital, dos conflitos pela posse da terra, do êxodo rural, das con-
dições precárias ou inexistentes de acesso a bens e serviços sociais, da
agudização da pobreza e da miséria em contraste com a abundância dos
recursos naturais (minerais, hídricos, da floresta e da biodiversidade”
(BARBOSA, 2009).
A partir dos anos 80, a Amazônia tornou-se o foco das lutas dos
movimentos ambientalistas internacionais e das lutas de resistência dos
povos tradicionais locais. Os movimentos sociais rurais amazônicos,
conforme Almeida (1994), organizam-se para fazer frente ao Estado e
encaminhar suas pautas de reivindicações. Numa explícita denúncia das
desigualdades sociais e dos problemas socioambientais que colocam
em xeque a sua reprodução social, o direito à terra, à caça, à pesca, à
agricultura, o que os leva à organizarem diversas formas de mobiliza-
ção em favor dos seus direitos de cidadania, “objetivando garantir o
efetivo controle de domínios representados como territórios fundamen-
tais a sua identidade e, inclusive, para alguns deles, a sua afirmação
étnica” (ALMEIDA, 1994, p. 522).
As lutas encetadas evidenciam fatores étnicos, religiosos, am-
bientais, de gênero, dinâmicas sociais que aludem à autoconsciência
cultural. Para Teixeira (2009), o desafio para geração de igualdade e
justiça social, consolidada na apropriação da riqueza e em sua redistri-
buição:

(...) exige a superação da subalternidade em que a região está sub-


metida às relações econômicas e políticas nacionais e internacio-
nais, exige a superação do latifúndio, a garantia das terras indígenas,
do território coletivo dos povos da floresta, exige que seja sustada a
devastação do meio ambiente, a poluição de nossos piscosos rios e

- 240 -
o desaparecimento de nossa biodiversidade. A Amazônia tem uma
vocação para a abundância, a escassez foi introduzida pelo capital
[...].” (p. 32).

Mediante este quadro social, Becker (2009) defendeu a neces-


sidade de formulação de novos paradigmas de desenvolvimento para
preservar a rica sociobiodiversidade3, os saberes tradicionais, para ge-
rar renda e favorecer a participação e o protagonismo das populações
locais. Nesta perspectiva, as políticas públicas devem encarar um leque
de desafios para que os direitos de cidadania das populações tradicio-
nais amazônicas sejam reconhecidos e garantidos, para que assim haja
a possibilidade de manterem a reprodução social e cultural de seus gru-
pos.
A crise socioambiental e as problemáticas dela decorrentes,
como a degradação ambiental, repercutem na vida social, econômi-
ca, política e cultural dos homens e mulheres na contemporaneidade.
A questão ambiental é, antes de tudo, uma das expressões da questão
social, e seu efetivo enfrentamento demanda a crítica às políticas de
caráter ultraneoliberais em suas nefastas formas de negação de direitos
sociais, daí a relevância de tratar os modelos das políticas públicas sob
o foco da sustentabilidade. Pois, em face à vigência da crise socioam-
biental, sem paralelo na história da humanidade, faz-se imprescindível
reconhecer os limites da capacidade de recuperação e manutenção dos
recursos naturais na sociedade contemporânea. O grau de acirramento
da problemática ambiental, enquanto parte das expressões da questão
social, resulta da relação de dominação e exploração inerente à ordem
capitalista e vai permeando todas as tramas da vida em sociedade, da
relação dos homens entre si em sociedade e da forma como lidam com a
natureza. Nos marcos sócio-históricos da sociedade burguesa, a relação
homem natureza concretiza-se orientada pela prioridade absoluta de ex-
ploração e uso exacerbado dos recursos naturais, formas perdulárias de
usufruto (consumo) visando a produção de bens para acumulação de
riquezas.
Todavia, os resultados concretos desta ordem econômica preda-
tória são socializados de maneira desigual, enquanto o lucro é priva-
do, os passivos, sequelas, danos e implicações gerados são postos no
dorso dos trabalhadores, seja no campo ou na cidade. Haja vista que
3 Termo cunhado pelos movimentos sociais para indicar a diversidade de todas as for-
mas de vida (humana, animal e vegetal).

- 241 -
aqueles que vivem do trabalho também assumem o papel de consumi-
dor, em geral um consumo reprimido e de produtos de qualidade infe-
rior, e são empurrados para áreas com infraestrutura insuficiente, com
acesso limitado a bens e serviços sociais essenciais e alto risco social
e ambiental.
Alguns autores analisam a crise socioambiental sob o prisma do
crescimento da população em relação com a capacidade de suporte do
planeta – teoria difundida desde o século XVIII pelo economista inglês
Robert Malthus, outros discutem a finitude dos recursos naturais. Para
Leff (2002, p. 17), a crise ambiental é a expressão de uma crise maior,
a crise de civilização, que questiona a racionalidade econômica e tec-
nológica dominante, assim, os problemas socioambientais “se manifes-
tam como sintoma de uma crise da civilização, marcada pelo modelo
de modernidade regido pelo predomínio do desenvolvimento da razão
tecnológica sobre a organização da natureza.”
O conceito de sustentabilidade foi difundido a partir da segunda
metade do século XX, a partir da criação do Clube de Roma em 1968.
Ferreira (1995 apud NOGUEIRA e CHAVES, 2005, p. 132) afirma que
foi a partir deste momento que “o desperdício e a poluição deixaram de
representar apenas um problema referente às condições de vida e con-
sumo das populações humanas, mas dizem respeito à própria base de
reprodução da esfera produtiva”. Para Rampazzo (2002, p. 161), a crise
ambiental ganhou visibilidade global e os debates passaram a questio-
nar o “crescimento ilimitado” nos países ocidentais, seu caráter “eco-
logicamente predatório, socialmente perverso e politicamente injusto”.
Em 1970, Ignacy Sachs (2002) formulou os princípios básicos
do conceito de Ecodesenvolvimento como desenvolvimento endógeno,
dependente de suas próprias forças, submetido à lógica das necessida-
des do conjunto da população, consciente de sua dimensão ecológica
e buscando estabelecer uma relação de harmonia entre o homem e a
natureza (SACHS, 1993, p. 52). Sachs (2002) defende que o desenvol-
vimento deve possibilitar que cada indivíduo revele suas capacidades
e seus potenciais com autorrealização, mediante esforços individuais e
coletivos, para redução da pobreza com a potencialização das habilida-
des locais e a criação de oportunidades com tecnologias adaptadas às
necessidades econômicas e ambientais de cada território. Ele apregoa
a busca da autonomia (self-realiance) dos países em desenvolvimento
frente aos desenvolvidos (relação geopolítica norte-sul), e pela satis-

- 242 -
fação das necessidades básicas das populações. Para Sachs (2002), o
processo de desenvolvimento envolve um conjunto de pilares que ga-
rantem a sustentabilidade. São eles:
• Sustentabilidade econômica – condição sine qua non para que
ocorram mudanças, ampliação de investimentos públicos e pri-
vados na viabilização de políticas sociais e manejo e distribuição
eficiente dos recursos naturais;
• Sustentabilidade política – instituição de um sistema político
descentralizado e participativo, de espaços públicos comunitá-
rios, com autonomia e descentralização da gestão dos recursos;
• Sustentabilidade ambiental – uso racional dos recursos, otimi-
zação/ aproveitamento dos potenciais dos diversos ecossistemas,
com menor nível de deterioração;
• Sustentabilidade territorial – envolve a relação urbana/rural
com elaboração/implementação de políticas públicas que priori-
zem o combate às disparidades inter-regionais;
• Sustentabilidade cultural – valorização dos conhecimentos tra-
dicionais/culturais locais;
• Sustentabilidade social – distribuição equitativa de renda, aces-
so a bens e serviços sociais e ações para redução das desigualda-
des socioeconômica existente na sociedade.

Estes pilares envolvem solidariedade sincrônica – satisfação das


necessidades básicas dos seres humanos no presente e solidariedade
diacrônica – responsabilidade com as gerações futuras; programas de
desenvolvimento com participação popular; conservação/preservação
dos recursos naturais; construção de um sistema social com garantia
de emprego, segurança e social e respeito a outras culturas; programas
educativos (ANDRADE, 2002 apud NOGUEIRA & CHAVES, 2005).
O desenvolvimento para uma melhor qualidade de vida deve ter
como base bens e valores que os sujeitos elegem, divisão equitativa da
riqueza socialmente produzida, acesso universal aos bens e serviços so-
ciais e respeito às particularidades étnico culturais (GOULET, 2002). O
grande desafio da humanidade é criar estratégias para redução dos danos
socioambientais, menos desperdício, tecnologias apropriadas acessíveis
e políticas públicas condizentes com as particularidades dos territórios:
um modelo de desenvolvimento socialmente equitativo, ambientalmen-
te equilibrado, economicamente produtivo e politicamente democrático

- 243 -
(BECKER, 2012; CHAVES, 2014). Para as políticas públicas operarem
um combate: à comodização e ao saque de recursos naturais dos ecos-
sistemas do Bioma Amazônico; à expropriação dos povos originários e
tradicionais de seus territórios ancestrais; licenciamento/transferência
de áreas protegidas para exploração por agentes econômicos.

4. EXPERIÊNCIA DO GRUPO INTER-AÇÃO EM PES-


QUISA & EXTENSÃO

Nesta parte, far-se-á uma breve exposição da experiência do Gru-


po Interdisciplinar de Estudos Socioambientais e de Desenvolvimento
de Tecnologias Sociais na Amazônia - Grupo Inter-Ação, do Diretório
5.0 CNPq, criado em janeiro/2001, com ações abalizadas pelas atribui-
ções da docência numa Instituição de Ensino Superior, a UFAM, com
vínculos entre ensino, pesquisa e extensão, compromisso socioinstitu-
cional de formação em Serviço Social, orientado pelo reconhecimento
de que nesta área a investigação científica constitui-se como elemento
fundante da formação e do trabalho do/a assistente social. Sob a lide-
rança da Profa. Maria do Perpétuo Socorro Rodrigues Chaves, o grupo
desenvolve estudos sobre a dinâmica socioambiental e organizacional
dos povos na Amazônia, oportuniza a produção de conhecimentos téc-
nico-operativo e científicos sobre a realidade das comunidades, urbanas
e rurais, visando à criação de subsídios para a formulação de políticas
públicas na região.
O trabalho do grupo adota como principal premissa o princípio
de conhecer para atuar, como contínua construção do agir e da valo-
rização da capacidade criadora e recriadora dos atores sociais envolvi-
dos. Tal abordagem viabiliza-se a partir da metodologia de intervenção
e investigação científica, centrada nos princípios da pesquisa-ação, que
ocorre de forma transdisciplinar, envolvendo diversas áreas de conhe-
cimento técnico-científico, o que tem propiciado a construção de uma
relação entre as diversas formas de apreensão da realidade social. Dessa
forma, busca-se desenvolver atividades socioeducativas, tendo como
característica marcante o diálogo instrutivo, democrático e pedagógico,
pela valorização dos saberes e das habilidades dos agentes sociais.
Os estudos sobre as questões sociais apoiam ações relativas à
dinâmica das políticas públicas e da organização dos povos tradicionais

- 244 -
(extrativistas, varjeiros4, pescadores, ribeirinhos e outros). Sob o foco e
o enfoque da Metodologia Inter-Ação, estimula-se o estabelecimento de
um processo multicomplexo que envolve atuação em diversos campos
(meio ambiente, direito internacional) de direitos (sociais, trabalhistas,
humanos). Com ações de Pesquisa, Extensão, Inovação Social e campo
de Estágio Curricular para formação de competências dinâmicas.
As ações de Pesquisa, Extensão, Inovação Social do Grupo In-
ter-Ação abrangem:
• Expedições científicas interdisciplinares às comunidades para
identificar as necessidades e potencialidades, com apreensão crítica dos
processos socioambientais, políticos econômicos e culturais;
• Sensibilização, mobilização, capacitação dos participes e ma-
peamento da organização para acesso às políticas públicas e sociais;
• Consultoria/assessoria e articulação às entidades e movimen-
tos sociais nas comunidades na elaboração de plano de desenvolvimen-
to sustentável local;
• Organização de espaço de aprendizagem partilhada, valoriza-
ção do modus vivendi tradicional (saber-fazer e práticas de ajuda mútua)
potencializando as capacidades e habilidades em práticas sustentáveis;
• Apoio aos grupos de mulheres de defesa de direitos, empode-
ramento e ações socioeducativas (oficinas de linguagem corporal, dan-
ça, iniciação musical, poesia e fantoche) com crianças e adolescentes;
• Manejo sustentável de plantas nativas para conservação das
espécies para geração de renda e melhoria da qualidade de vida com
aproveitamento dos rejeitos da floresta;
• Parcerias com OGS, ONGS, agências de fomento e outras in-
ciativas para geração de trabalho, renda via cooperativismo e ações afir-
mativas de cidadania e protagonismo social;
• Projetos de pesquisa/extensão interdisciplinar em redes de pes-
quisa locais e internacionais de tecnologias sociais apropriadas às ne-
cessidades das comunidades e grupos sociais;
• Geração e fornecimento de subsídios qualificados para as po-
líticas públicas e sociais nas áreas socioambiental, política, cultural e
econômica.
Este conjunto de ações cria possibilidades de intervenção do As-
sistente Social frente à questão socioambiental na Amazônia e cumpre
as premissas das Diretrizes Curriculares da ABEPSS. Em 20 anos, o
grupo alcançou com suas ações em torno de 1.000 comunidades, 09
(nove) Estados da Região Norte, 45 municípios e 03 (três) países (Bra-
4 Pequenos produtores da várzea (área de terra alagável).

- 245 -
sil, Peru e Colômbia).Vale ressaltar, ainda, que a perspectiva de ciência
adotada pelo grupo toma como referência a discussão apresentada por
Iamamoto (1999, p. 29), ao indicar que o desafio que se apresenta ao
Assistente Social é desvendar as múltiplas expressões da questão so-
cial, sua gênese e as novas características que assume na contempora-
neidade, atribuindo transparência às iniciativas voltadas à sua reversão
e/ou enfrentamento imediato. Diante disso, no que concerne à propo-
sição da construção de estratégias de base realista, para superação do
modelo atual de desenvolvimento para outros com potencialidades e
capacidade para efetivar a conexão entre fatores culturais, socioeco-
nômicos, político-institucionais e ambientais, faz-se imprescindível
a aliança entre os conhecimentos tradicionais e os técnico-científicos
(CHAVES, 2001).
O processo de formação profissional dos/as assistentes sociais,
sob as bases do projeto ético-político do Serviço Social, pautado pela
matriz crítica, alcança relevância categórica para atuar na sociedade
contemporânea, requerendo conhecimentos qualificados, instrumen-
talização técnico-científica das competências dinâmicas. Igualmente,
é imperativo compromisso social e profissional, tanto para fornecer
subsídios para formulação quanto para operacionalizar o trabalho no
âmbito de políticas públicas, visando torná-las coerentes e eficazes às
demandas dos segmentos sociais da região.
Os desafios pela materialização dos direitos sociais atualizam-se
numa luta continua, que requer uma intervenção profissional direcio-
nada para consolidação da cidadania no campo das políticas públicas
e sociais, em que pese as intensas pressões e limites impostos na atual
conjuntura a esse modelo de intervenção (BOSCHETTI, 2017). O
maior desafio aos pesquisadores consiste na construção de estratégias
profissionais, em meio ao arranjo das forças políticas conservadoras
e políticas ultraneoliberais prevalecentes. Tendo em vista que os mes-
mos partem do pressuposto de que o trabalho do Assistente Social, na
atual conjuntura da sociedade brasileira, requer, além da sua capacida-
de investigativa e interventiva pautada na teoria social de Karl Marx
(1818-1883), de fazer ciência com (re)afirmação do compromisso ético
e político profissional.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A histórica dependência econômica e sujeição aos países centrais

- 246 -
e as façanhas entreguistas das elites locais e nacionais geraram gran-
des e indeléveis impactos com rastros nefastos e destrutivos nos povos,
ecossistemas e na economia da Amazônia, que sobrevive entre fluxos
de prosperidade e crise dos ciclos econômicos do capital. Para manter
as lutas em prol do ideário emancipatório, prosseguindo lançando tri-
lhas e caminhos a partir dos preceitos preconizados pelo projeto ético-
político, requer exercício de resiliência com manutenção e ampliação
das conquistas na arena dos direitos humanos e sociais, na defesa dos
princípios democráticos, na ampliação do acesso e controle social das
políticas públicas, no fortalecimento dos vínculos com as forças políti-
cas organizativas dos trabalhadores.
Os trabalhos desenvolvidos pelo grupo, mediante à rica e com-
plexa realidade social, política, cultural e econômica da população que
vive no contexto urbano e rural da Amazônia, com ações de investi-
gação para produção de conhecimentos, afirmação de cidadania com
construção de respostas coletivas no combate às condições de exclusão
e atendimento às demandas existentes; estruturação de técnicas, habili-
dades e mecanismos que gerem alternativas viáveis e apropriadas à rea-
lidade local, assim como as contribuição aos debates do tema em fóruns
locais, regionais, nacionais e internacionais, em que pese os limites,
revelam a disposição e o compromisso ético-político de atuar respeitan-
do os valores e saberes e às identidades étnico raciais dos amazônidas.

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