CRIANÇA
Pessoa de pouca idade, que produz cultura, é nela produzida, brinca, aprende, sente, cria,
cresce e se modifica, ao longo do processo histórico que constitui a vida humana. As
crianças são constituídas a partir de sua classe social, etnia, gênero e por diferenças físicas,
psicológicas e culturais. Diversas concepções teóricas sobre a criança são encontradas na
Filosofia, na Psicologia e na Sociologia. No âmbito da Filosofia, a teoria crítica da cultura e
da modernidade considera que a criança cria cultura, brinca, dá sentido ao mundo, produz
história, recria a ordem das coisas, estabelece uma relação crítica com a tradição. “As
crianças são especialmente inclinadas a buscarem todo local de trabalho onde a atuação
sobre as coisas se processa de maneira visível. Sentem-se irresistivelmente atraídas pelos
detritos que se originam da construção (...) Nesses produtos residuais, elas reconhecem o
rosto que o mundo das coisas volta exatamente para elas, e somente para elas. Neles, estão
menos empenhadas em reproduzir as obras dos adultos do que em estabelecer uma relação
nova e incoerente entre esses restos e materiais residuais. Com isso, as crianças formam o
seu mundo de coisas, um pequeno mundo inserido no grande.” (BENJAMIN, 2002).
Segundo essa concepção, a arte em geral e o cinema e a literatura em particular ajudam a
apreender o olhar infantil e a ver o mundo do ponto de vista da criança. Para a Psicologia
histórico-cultural, a criança supera sua condição natural através da linguagem fazendo-se na
história ao mesmo tempo em que faz história. “Falar de desenvolvimento cultural da
criança (...) é falar da construção de uma história pessoal no interior da história social.”
(PINO, 2000). Relações sociais se convertem em funções mentais (VIGOTSKI, 2000),
assim, o que importa é entender os processos sociais que atuam sobre a criança para que ela
desenvolva as funções mentais superiores que são produto dessa ação. O ser humano se
constitui na relação com o outro; na interação social, as dimensões cognitiva e afetiva não
podem ser dissociadas. Quando interagem, as crianças as aprendem, formam-se, criam e
transformam; são sujeitos ativos que participam e intervêm na realidade; suas ações são
maneiras de reelaborar e recriar o mundo. Aos adultos cabe a importante função de
mediação. “O desenvolvimento do pensamento e da linguagem depende dos instrumentos
de pensamento e da experiência sociocultural da criança.” (VIGOTSKI, 2001). O papel do
KRAMER, S.; MOTTA, F.M.N. Criança. In:OLIVEIRA, D.A.; DUARTE, A.M.C.; VIEIRA, L.M.F.
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outro é fundamental tanto na constituição do eu, quanto no desenvolvimento e
aprendizagens que o sujeito faz ao longo da vida. Esses processos, manifestos na infância,
constroem realidades individuais e históricas que se traduzem na subjetividade de cada um.
A criança constitui seu eu a partir de outros eus, uma subjetividade necessariamente
dialógica. E, desde bem pequenas, as crianças criam e imaginam, expressando seus desejos
e emoções. (VIGOTSKI, 2009). Para a Sociologia da Infância, a criança possui uma dupla
inserção na sociedade: estrutural, enquanto geração e concreta, enquanto cada sujeito
histórico. As perspectivas estruturais tomam a infância como categoria geracional: as
crianças pertencem à mesma faixa etária, ao mesmo tempo, e sofrem as ações da estrutura
social em que estão inseridas. As perspectivas interpretativas partem também do
pertencimento da criança à categoria social da infância e estudam processos de
subjetivação, nas interações com adultos e com seus pares, recriando as culturas onde estão
inseridas. As crianças devem ser estudadas a partir de seu próprio campo e não apenas sob
uma perspectiva adultocêntrica (SARMENTO, 2008). As crianças de todas as raças/etnias,
religiões, classes sociais, origens e locais de moradia, gêneros, independente da condição
dos pais, têm direito à educação de qualidade que amplie seu desenvolvimento, seu
universo cultural e o conhecimento do mundo físico e social, a constituição de sua
subjetividade e autoestima, favoreça trocas e interações. As práticas educativas, em todos
os tipos de instituições, devem respeitar e acolher as crianças em suas diferenças e
deficiências; entendendo que são cidadãs de direitos à proteção e à participação social, a
experiências culturais onde se combinam saberes da experiência, fruto de vivências das
crianças e conhecimentos que integram a natureza, a produção e o patrimônio cultural na
perspectiva da formação humana. A linguagem e a brincadeira são articuladoras entre
saberes e conhecimentos. As instituições e os adultos devem favorecer a brincadeira,
entendida como experiência de cultura e forma privilegiada de expressão da criança. As
crianças têm direito à atenção, à “proteção, à vida e à saúde, mediante a efetivação de
políticas públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em
condições dignas de existência” (BRASIL, 1990). As crianças “têm direito à liberdade, ao
respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como
sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis”
KRAMER, S.; MOTTA, F.M.N. Criança. In:OLIVEIRA, D.A.; DUARTE, A.M.C.; VIEIRA, L.M.F.
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(BRASIL, 1990). É inadmissível qualquer tipo de violência - física ou simbólica - ou
negligência contra as crianças.
SONIA KRAMER
BENJAMIN, W. Reflexões: a criança, o brinquedo e a educação. São Paulo: Duas Cidades,
Ed. 34, 2002.
BRASIL. Lei 8.069 de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o estatuto da criança e do
adolescente e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 13 jul. 1990.
PINO, A. Editorial. Educ. Soc. 2000, vol.21, n.71, p. 07-17.
SARMENTO, M. Sociologia da Infância: correntes e confluências. In: SARMENTO, M.;
GOUVEA, M. C. S. (Orgs.). Estudos da infância: educação e práticas sociais. Petrópolis,
RJ: Vozes, 2008, p. 17-39.
VIGOTSKI, L. S. A formação social da mente. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
_____________. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins
Fontes, 2001. Trad. Paulo Bezerra.
_____________. Imaginação e criação na infância. São Paulo: Ática, 2009.
KRAMER, S.; MOTTA, F.M.N. Criança. In:OLIVEIRA, D.A.; DUARTE, A.M.C.; VIEIRA, L.M.F.
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