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SADC: Integração e Desenvolvimento Regional

O documento analisa a integração regional e o desenvolvimento na Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC), destacando que, embora tenha havido avanços, não é possível determinar o quanto esses progressos são atribuíveis à integração. A SADC, criada em 1992, visa promover o desenvolvimento político e econômico entre seus membros, enfrentando desafios históricos e contemporâneos. A pesquisa utiliza documentos da SADC e indicadores internacionais para avaliar o impacto da integração no desenvolvimento dos países da região entre 2005 e 2016.

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SADC: Integração e Desenvolvimento Regional

O documento analisa a integração regional e o desenvolvimento na Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC), destacando que, embora tenha havido avanços, não é possível determinar o quanto esses progressos são atribuíveis à integração. A SADC, criada em 1992, visa promover o desenvolvimento político e econômico entre seus membros, enfrentando desafios históricos e contemporâneos. A pesquisa utiliza documentos da SADC e indicadores internacionais para avaliar o impacto da integração no desenvolvimento dos países da região entre 2005 e 2016.

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COMUNIDADE PARA O DESENVOLVIMENTO DA ÁFRICA AUSTRAL (SADC):

INTEGRAÇÃO REGIONAL E DESENVOLVIMENTO

Kelly Cristine Oliveira Meira1 Patrícia Nasser de Carvalho2 RESUMO A integração


regional é um fenômeno que ocupa um papel central em diversas áreas de estudo. O
continente africano, em especial a África Austral, é uma região de grande diversidade
geográfica, econômica, política e social. Considerando o desenvolvimento como o objetivo
principal da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral, buscaremos
demonstrar se a SADC, contribuiu para o desenvolvimento dos países membros. Os
resultados indicam que houve avanço no desenvolvimento e na integração dos países em
diversas áreas, embora não seja possível afirmar o quanto disso é devido à integração.
Palavras-chave: Integração Regional; Desenvolvimento; África Austral; SADC. Área
temática: Relações Econômicas Internacionais 1 Mestranda em Ciência Política e Bacharela
em Relações Econômicas Internacionais pela Universidade Federal de Minas Gerais -
UFMG. 2 Professora Adjunta da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG). Doutora em Economia Política Internacional pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 1. INTRODUÇÃO A década de 1990 foi
acompanhada de importantes mudanças no âmbito regional e internacional, como o fim da
Guerra Fria, a dissolução da União Soviética, o aprofundamento da globalização, entre
outras, que impulsionaram o processo de integração e permitiram maior colaboração entre
os Estados nas questões políticas, econômicas e de segurança. A Comunidade para o
Desenvolvimento da África Austral (SADC) , bloco de integração regional 3 que é objeto
deste estudo, foi oficialmente criada em 1992, a partir dos dois blocos já existentes o
Estados da Linha de Frente (ELF) e a Conferência de Coordenação para o
Desenvolvimento da 4 África Austral (SADCC) . Diferentemente da maioria dos acordos
que possuem a integração 5 econômica regional como objetivo, a SADC possui como as
principais metas o desenvolvimento político e econômico. (SHAMS, 2003). Considerando
o desenvolvimento como o objetivo principal da Comunidade, buscaremos demonstrar se a
SADC, enquanto bloco de integração regional, contribuiu para o desenvolvimento dos
países membros. O propósito desta pesquisa é demonstrar o avanço no desenvolvimento e
na integração dos Estados da SADC no período de 2005 a 2016. No que diz respeito aos
aspectos metodológicos, será realizado uma análise dos documentos produzidos pela
SADC, uma análise teórica da integração regional em busca de produções acadêmicas para
embasar este estudo, privilegiando as pesquisas que giram em torno do desenvolvimento e
do processo de integração regional da África Austral, e, o uso de indicadores de
desenvolvimento e integração fornecidos por organizações internacionais. As pesquisas
bibliográfica e documental possuem a intenção de abordar um tema ainda limitado.
ÁFRICA AUSTRAL: UMA BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA

Visando apresentar um panorama geral dos aspectos relacionados ao processo de integração


regional no sul da África, este tópico está estruturado em quatro partes. A primeira parte
aborda o período da década de 1930 até a independência de parte dos países africanos, que
atualmente são membros da Comunidade

Estados da Linha de Frente (ELF)

A região da África Austral foi marcada por uma história de conflitos que abrangem
colonialismo, apartheid, guerras de independência, Guerra Fria, golpes de estado, entre
outros. A cooperação foi uma saída encontrada para enfrentar os conflitos próprios da
região. (OMARI; MACARINGUE,

2007).

Desde antes da descolonização já existiam mecanismos e estruturas de segurança na região


da África Austral. Nas primeiras décadas a partir dos anos 1950, os objetivos eram a
descolonização e o fim dos regimes minoritários na antiga Rodésia do Sul (atual
Zimbábue), Sudeste da África

(Namíbia) e África do Sul. (CILLIERS, 1999). De acordo com Branco (2003), o conceito
de ELF surgiu a partir de reuniões Comitê de Libertação da OUA e da atuação da Tanzânia
como apoiadora dos movimentos de libertação da África Austral.

Omari e Macaringue (2007) defendem que o ELF foi precedido de diversos agrupamentos
regionais que apesar de divergirem de tamanho, foco e estrutura, possuíam objetivos
semelhantes, como, liberdade política e econômica regional. Os três acordos mais
importantes que precederam o ELF foram, 1) Movimento Pan-Africano de Liberdade para a
África Oriental, Central e Austral/Movimento Pan-Africano de Liberdade para a África
Oriental e Central (PAFMECSA6/PAFMECA) ; 2) Conferência de Países Africanos do
Leste e do Centro (CECAC) ; e, 3) 7 8 Mulungushi Club.

O ELF foi constituído como um fórum informal e os chefes de estado da Botsuana,


Tanzânia,

Zâmbia e Moçambique são considerados os fundadores em 1975, Angola se uniu em 1976,


o Zimbábue se juntou em 1980, Namíbia em 1990 e a África do Sul em 1994, o Zaire não
foi

incluído. O foco principal era de coordenar os esforços e recursos para apoiar os


movimentos de libertação da região, o Congresso Nacional Africano (ANC) e o Pan
Africanist Congress of Azania 9 (PAC) na África do Sul, a SWAPO na Namíbia, e a
Zimbabwe African National Union (ZANU) e Zimbabwe African People’s Organisation
(ZAPU) na Rodésia do Sul (Zimbábue). (CILLIERS, 1999; BRANCO, 2003; OMARI;
MACARINGUE, 2007).

Schütz (2014) defende que, apesar das similaridades entre o ELF e outras organizações, o
ELF possuía características que o diferenciava das demais. Ao contrário das organizações
anteriores, o ELF possuía reconhecimento internacional tendo mandato na OUA e na ONU
e trabalhava com a Grã-Bretanha, o que reforçava seu prestígio. Houve a criação do Comitê
de Segurança e Defesa Interestatal (ISDC) , que visava a coordenação de políticas de
segurança dos países membros, tanto 10 em nível individual quanto coletivo e as discussões
do Comitê não se limitavam à política.

(OMARI; MACARINGUE, 2007; SCHÜTZ, 2014).

Conferência de Coordenação para o Desenvolvimento da África Austral (SADCC)

Segundo Murapa (2002) a independência de Angola, Moçambique e Zimbábue fizeram os

representantes do ELF perceberem que cuidar das questões econômicas era uma
necessidade. O presidente da Tanzânia, Julius Nyerere, convocou uma reunião em 1979
para discutir a
harmonização das políticas econômicas. Optou-se, então, pela criação de um mecanismo
para coordenar as questões referentes ao desenvolvimento da região, que ficou conhecido
como

Conferência de Coordenação para o Desenvolvimento da África Austral (SADCC).

A criação da SADCC ocorreu em 1º de abril de 1980 em Lusaka (Zâmbia) durante uma


reunião do ELF (Angola, Botsuana Moçambique, Tanzânia e Zâmbia), na qual se juntaram
os representantes do Lesoto, Malauí, eSwatini e Zimbábue. Ao fim da reunião foi assinada
a declaração África

Austral Rumo à Independência Econômica, também conhecida como Declaração de


Lusaka.

(BRANCO, 2003).

De acordo com Evans (1984/5), a criação da SADCC foi uma vitória estratégica do ELF,
que

destruiu efetivamente as intenções da África do Sul de tornar as economias da região


dependentes dela por meio da Constelação de Estados da África Austral (CONSAS).

De acordo com Murapa (2002), a SADCC precisou coordenar os esforços e as estratégias


para resistir às agressões da África do Sul, ao mesmo tempo em que apoiavam os
movimentos de libertação. Era necessário reduzir a dependência que os países da África
Austral possuíam em relação à África do Sul, ao mesmo tempo que integravam as
economias. Assim sendo, Murapa (2002) identificou como os quatro objetivos estratégicos
da SADCC: 1) reduzir a dependência do exterior, especialmente da África do Sul; 2)
promover a autoconfiança dos países membros; 3) possibilitando a coordenação econômica
de acordo com setores; e, 4) garantir o apoio internacional para o projeto da SADCC.

Visando alcançar os objetivos nacionais por meio da ação regional, cada Estado membro
assumiu a responsabilidade de coordenar um ou mais setores da economia considerados
essenciais para o desenvolvimento e alcance dos objetivos acordados na Declaração de
Lusaka. Essa coordenação envolvia propostas de políticas e estratégias para cada âmbito, a
monitoração dos progressos e aapresentação de relatórios ao Conselho de Ministros da
SADCC. Segundo Murapa (2002), o sucesso de cada setor foi distinto, e, entre os motivos
para isso, se destacam a capacidade humana e de capital, o empenho e a capacidade de cada
país obter doações financeiras.

Para Schütz (2014) foi essa divisão setorial feita pela SADCC que a diferencia de outros
processos de integração regional e revela a preocupação com o desenvolvimento
econômico e social da região. Essa visão é reforçada pelo fato de que a SADCC optou pela
coordenação econômica e pela cooperação em vez de liberalizar o comércio. (JAMINE,
2009).

Jamine (2009) também defende que o comércio não era o objetivo final da SADCC, mas
sim um meio para equilibrar o desenvolvimento, e, portanto, a Conferência exigia o
equilíbrio do comércio em vez do livre comércio. E, para alcançar o equilíbrio do
desenvolvimento entre os Estados da região, o modelo de projetos setoriais foi o escolhido.

Segundo Murapa (2002), a dependência dos países em relação ao exterior não diminuiu, na
verdade, ficou ainda maior já que os países passaram a depender do auxílio dos doadores
internacionais.

Mas, segundo o autor, ocorreram algumas melhorias, principalmente porque o


financiamento

externo ajudou a manter unido um bloco de países que se caracterizava pelo


desenvolvimento

regional desigual.

Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC)

A década de 1990 trouxe importantes mudanças para o continente africano, especialmente


para a África Austral, que impulsionaram o processo de integração regional, como, os
processos de democratização, a resolução de conflitos e guerras civis, e, na arena
internacional, o fim da Guerra Fria e a dissolução da União Soviética. Essas mudanças
permitiram maior colaboração entre os 11 Do inglês, Constellation of Southern African
States

Estados nas questões políticas e de segurança. (JAMINE, 2009; SCHÜTZ, 2014).


As mudanças citadas acima, permitiram aos países se concentrar nos esforços de
desenvolvimento, assim, em 17 de agosto de 1992 os Chefes de Estado da SADCC assinam
a declaração e o Tratado Southern Africa Development Community, a SADC, na cidade de
Windhoek, na Namíbia. Esse tratado dava estatuto jurídico à Comunidade com obrigações
por parte dos Estados. Nesse momento são membros da SADC, Angola, Botsuana, Lesoto,
Malauí, Moçambique, Namíbia, eSwatini, Tanzânia, Zâmbia e Zimbábue. (SADC, 1992). O
Tratado de criação da SADC também estabelecia a criação de seis órgãos: a Cúpula dos
Chefes de Estado e Governo, o Conselho dos Ministros, as Comissões, o Comitê
Permanente de Oficiais, a Secretaria e o Tribunal. (SCHÜTZ, 2014).

Após o fim do regime do apartheid e da vitória do ANC na África do Sul, o país ingressa na
SADC em 1994. Um ano depois, em 1995, Maurício se une ao bloco. Em 1998, no
encontro de Blantyre, ingressam no bloco a República Democrática do Congo e Seicheles,
Madagascar ingressou em 2005 na Cúpula do Jubileu de Prata e o último país a ingressar no
bloco foi a União das Comores em 2018. (SCHÜTZ, 2014).

Atualmente a SADC possui dezesseis membros, são eles: África do Sul, Angola, Botsuana,
Maurício, Lesoto, Madagascar, Malauí, Moçambique, Namíbia, República Democrática do
Congo, Seicheles, eSwatini, Tanzânia, Zâmbia, Zimbábue e União das Comores, contudo,
este último ingressou na SADC em 2018 e desde que este estudo compreende o período de
2005 a 2016 este país não integrará as análises.

Sobre os objetivos que constam no Tratado da SADC, Cilliers (1999) os divide em três
categorias: política e segurança, desenvolvimento econômico e geral/outros. Na categoria
de política e segurança estão, (1) a promoção e defesa da paz e segurança, e, (2) evolução
dos valores políticos comuns, sistemas e instituições.

Na categoria de desenvolvimento econômico, (1) desenvolvimento e crescimento


econômico, alívio da pobreza, melhoria do padrão e qualidade de vida através da integração
regional, (2) desenvolvimento auto-sustentável através da auto-confiança coletiva e
interdependência dos Estados membros, (3) maximizar a produção, emprego e utilização
dos recursos da região, e, (4) utilização sustentável dos recursos naturais e proteção eficaz
do meio ambiente.
Na categoria de objetivos gerais/outros, (1) a complementaridade entre as estratégias e
programas nacionais e regionais, e, (2) o fortalecimento e consolidação do histórico de
longa data de afinidades sociais e culturais e ligação entre os povos da região.

Segundo Murapa (2002) o tratado da SADC estabeleceu diversos protocolos que visavam o

aumento da integração nas áreas de comércio, educação, energia e turismo. Sendo o de


comércio, o mais importante, que precisou de ⅔ dos membros para ser efetivado e tinha
como objetivos: (1) liberalizar mais o comércio de bens e serviços através de acordos
justos, mutuamente benéficos e complementados por outros protocolos garantindo uma
produção eficiente e refletindo as vantagens comparativas dos países; (2) melhorar os
investimentos entre as fronteiras e externos; (3) estimular o desenvolvimento econômico,
diversificação e industrialização; (4) intensificar a integração regional por meio do aumento
do comércio na região facilitando o comércio entre os países.

DESENVOLVIMENTO E INTEGRAÇÃO REGIONAL NA ÁFRICA AUSTRAL

Este item está estruturado em três partes objetivando demonstrar o estado da arte do
desenvolvimento e da integração regional de modo geral e, específico, na região da África
Austral.

Na primeira parte, é definido o conceito de desenvolvimento, abordado sob o prisma de


diversas áreas. Na segunda parte, a integração regional é tratada sob a perspectiva do novo
regionalismo que surge após a Guerra Fria, em um contexto multipolar, marcado pelo
processo de globalização e pela atuação de atores não estatais. Na última parte, é explorado
o tratamento dispensado pela SADC ao desenvolvimento no âmbito da Comunidade.

Desenvolvimento

A SADC, em seu tratado, não define o que é desenvolvimento, embora, tanto no nome do
bloco quanto nos objetivos fica claro que a finalidade principal da Comunidade é o
desenvolvimento. E, ainda que não esteja explícito o que é ou quais tipos de
desenvolvimento estão sendo almejados, é possível inferir, pelos objetivos que constam no
Tratado e em outros documentos oficiais, que para a SADC o desenvolvimento envolve
diversos âmbitos.

Para analisar o conceito de desenvolvimento, Santos et al., (2012) optaram pelo uso de
várias

dimensões.

Segundo Santos et al. (2012) a preocupação com o desenvolvimento se originou na área


econômica com os trabalhos de Adam Smith (1776), Thomas Malthus (1798), David
Ricardo (1817) e Karl Marx (1867) que apresentaram o desenvolvimento como um aspecto
indispensável para a consolidação do capitalismo. Mas foi somente após a Segunda Guerra
Mundial, com o surgimento de uma nova ordem econômica e política polarizada, de um
lado EUA e de outro a União Soviética, 12 Do inglês, Report on the Review of Operations
of SADC Institutions 13 Do inglês, Organ on Politics, Defense and Security e com as
mudanças e novos desafios que surgiram, é que a área de pesquisa conhecida como
Economia do Desenvolvimento possibilitou a construção de métodos e teorias para a
promoção de uma sociedade industrial e urbana baseada no acúmulo da renda monetária.
Entretanto, essa nova

área não foi suficiente para explicar as contradições do sistema capitalista e as críticas ao
desenvolvimento por meio do crescimento econômico tornou clara a necessidade do
desenvolvimento econômico associado à sustentabilidade. (SANTOS et al., 2012).

Na área política, o termo desenvolvimento foi empregado pela primeira vez no discurso de
Truman, presidente dos EUA, em 1949, e com ele foi criado o desejo dos países ricos em
auxiliar os países atrasados no seu desenvolvimento, remetendo à ideia de uma possível
mudança (SANTOS et al., 2012). Ainda de acordo com os autores, o conceito de
desenvolvimento dentro da ciência política pode ser analisado de três perspectivas:
desenvolvimento como produto do mundo ocidental, desenvolvimento como mecanismo de
cooptação política do capitalismo e do socialismo, e, desenvolvimento como orientação
teórica.

No campo social, diversos sociólogos latino-americanos defendem que o


subdesenvolvimento é uma condição que se originou no século XVI, na integração do
subcontinente ao sistema de trocas internacionais e não o resultado do isolamento
geográfico e falha de acesso à tecnologia, capital e valores ocidentais, como defendido por
alguns estudiosos. Essa discussão, no período da Guerra Fria, contribui para a inserção no
âmbito social do conceito de desenvolvimento que deveria extrapolar o crescimento
econômico e valorizar o ser humano. O estado de bem estar social assume, então, a
responsabilidade pela oferta de serviços essenciais para o desenvolvimento humano social,
tais quais saúde, educação, alimentação e outros. (SANTOS et al., 2012).

Diante do que foi exposto, verificou-se a necessidade de definir desenvolvimento como um


aspecto que abrangesse os diversos níveis do desenvolvimento e não apenas o econômico
ou político ou social.

Integração Regional

Ao analisar o processo de integração da África Austral é fundamental identificar sob qual

perspectiva o bloco de integração está inserido. Ao contrário de seus predecessores, a


SADCC e o ELF, que surgiram no contexto do velho regionalismo marcado pela Guerra
Fria, a SADC é instituída no contexto do novo regionalismo que tem como marco inicial o
fim da Guerra Fria.

O novo regionalismo está inserido em um contexto multipolar; compreende múltiplos


propósitos, abrangendo questões sociais, ambientais, econômicos e políticos; engloba
diversos atores além dos Estados - a sociedade civil, empresas transnacionais; e, está ligado
à globalização. (SOKO, s.d.; SCHÜTZ, 2014). De acordo com Soko (s.d.) uma das
principais características do novo regionalismo é a integração cada vez maior dos países em
desenvolvimento que antes eram mantidos à margem da economia capitalista.

Para Schiff e Winters (2003) apesar dos acordos de integração serem amplos, eles têm o
objetivo de reduzir as barreiras entre os Estados membros do bloco. De acordo com
Schmitter (2010) a integração regional é um processo e, uma vez iniciada, pode seguir
caminhos e produzir efeitos que não foram previstos. Ainda segundo o autor, são os
interesses em comum dos países que levam à integração.

Segundo Peters-Berries (s.d.) os modelos políticos e econômicos prevêem que se


implementado com sucesso, a integração é capaz de melhorar o bem estar econômico,
aumenta as chances dos países se tornarem democráticos e seguros, além de satisfazer as
necessidades fundamentais para o desenvolvimento como paz e justiça.

Murapa (2002) também afirma que a cooperação e a integração regional isoladas não são
capazes de fomentar o desenvolvimento e solucionar os problemas estruturais. Para que a
integração produza resultados que beneficiem o país é necessário existir um cenário
nacional, político e econômico, favorável para sustentar o processo de integração e que
políticas desenvolvimentistas que estimulem a produção, os investimentos e o comércio
sejam implementadas.

Segundo Bach (2005) a representação da África ainda está associada ao estereótipo de


Estados fracos e cujas fronteiras são um campo fértil para o terrorismo e isso, se reflete na
abordagem da integração regional na literatura, na qual o continente africano é raramente
mencionado.

Aparentemente, há pouco interesse no estudo de um continente que é considerado


periférico na economia e política internacional, e, de acordo com o autor, o empoderamento
dos países africanos está limitado ao seu poder de voto nas organizações internacionais.

Bach (2005) destaca que existem vários desafios ao regionalismo africano, entre os quais
podem ser destacados: a distância existente entre a criação de instituições e a
implementação das políticas, a existência de projetos cujos prazos têm sido adiados por
décadas e o fato dos países serem membros de diversas comunidades econômicas regionais
ao mesmo tempo.

Desenvolvimento na SADC

O tratado de formação da SADC, Rumo a uma Comunidade de Desenvolvimento da África


Austral, foi assinado em agosto de 1992 na cidade de Windhoek, Namíbia, pelos chefes de
governo dos dez países membros naquele momento.

O conceito de desenvolvimento para a Comunidade não é explicitado no tratado, entretanto,


é claro, pelos princípios e objetivos, que o desenvolvimento, não apenas econômico, é a
meta central. No artigo 4 do capítulo 3 do tratado de 1992, constam os princípios que a
SADC e os Estados membros deverão seguir, são eles: a) igualdade soberana de todos os
Estados membros; b) solidariedade, paz e segurança; c) direitos humanos, democracia e o
estado de direito; d) equidade, equilíbrio e benefício mútuo; e) resolução pacífica de
controvérsias. (tradução própria, TRATADO DA SADC, 1992).

Já o artigo 5 do mesmo capítulo aborda os objetivos da SADC e o que deve ser feito para
atingi-los.

São eles: a) alcançar o desenvolvimento e o crescimento econômico, aliviar a pobreza,


melhorar o padrão e a qualidade de vida dos povos da África Austral e apoiar os
socialmente desfavorecidos através da integração regional; b) evoluir valores, sistemas e
instituições políticas comuns;

c) promover e defender a paz e segurança; d) promover o desenvolvimento autossustentável


com base na autossuficiência coletiva e na interdependência dos Estados membros; e)
alcançar a complementaridade entre programas e estratégias nacional e regional; f)
promover e maximizar o emprego produtivo e a utilização dos recursos da região; g)
alcançar a utilização sustentável dos recursos naturais e proteção efetiva do meio ambiente;
e, h) fortalecer e consolidar antigas afinidades históricas, sociais e culturais e laços entre os
povos da região. (tradução própria, TRATADO DA SADC, 1992).

As medidas que devem ser implementadas, para alcançar os objetivos citados acima, são:

a) harmonizar as políticas e os planos políticos e socioeconômicos dos Estados; b)


encorajar os povos

da região e suas instituições a tomar iniciativas para desenvolver laços econômicos, sociais
e culturais em toda a região e a participar plenamente na implementação dos programas e
projetos da SADC; c) criar instituições apropriadas e mecanismos para a mobilização de
recursos necessários para a implementação de programas e operações da SADC e suas
Instituições; d) desenvolver políticas voltadas para a eliminação progressiva de obstáculos à
livre circulação de capitais e mão-de-obra, bens e serviços e os povos da região em geral,
entre os Estados membros;

e) promover o desenvolvimento de recursos humanos; f) promover o desenvolvimento,


transferência e domínio tecnológico; g) melhorar a gestão e desempenho econômico através
da cooperação regional; h) promover a coordenação e harmonização das relações
internacionais dos Estados;
i) assegurar a compreensão, cooperação e apoio internacionais, e mobilizar o ingresso de
recursos públicos e privados na região; j) desenvolver outras atividades que os Estados
membros possam decidir em prol dos objetivos deste Tratado. (tradução própria,
TRATADO DA SADC, 1992).

Posteriormente, em 2011, foi lançado o Texto Consolidado do Tratado da Comunidade para


o Desenvolvimento da África Austral que incluiu o tratado da SADC de 1992 e mais cinco
acordos de alteração do tratado original que expandiu os objetivos do bloco e incluiu novos,
como, o combate ao HIV/AIDS ou outras doenças mortais e transmissíveis. O Texto
Consolidado do Tratado foi assinado pelos chefes de Estado dos países membros da
Comunidade. (TEXTO CONSOLIDADO DO TRATADO DA SADC, 2011).

Educação na SADC

Para a análise da situação educacional na SADC, será usada a taxa de alfabetização de


adultos, ou seja, a porcentagem da população com 15 anos ou mais, de cada país que é
alfabetizada. Por alfabetização, é considerada a capacidade de compreender, ler e escrever
uma declaração simples sobre a vida cotidiana e fazer cálculos aritméticos simples. Esse
indicador foi calculado dividindo o número de alfabetizados com idade igual ou superior a
15 anos pela população do grupo etário correspondente e multiplicando o resultado por 100.
Esses dados foram obtidos o Banco Mundial, mas fornecidos pela UNESCO. (BANCO
MUNDIAL, 2017c).

Para esse indicador os dados estão disponíveis somente a partir de 2007 e não abrange
todos os países em todos os anos, para Botsuana, por exemplo, não há dados em nenhum
ano. O país com o maior índice de alfabetização é a África do Sul com 94,4% da população
com 15 anos ou mais alfabetizada em 2015 e o país com o menor índice é Moçambique
com 50,6% da população alfabetizada em 2009.

Economia na SADC

O PIB é a soma do valor agregado bruto de todos os produtos produzidos na economia,


acrescido de quaisquer impostos sobre produtos e menos quaisquer subsídios não incluídos
no valor dos produtos. O PIB per capita é o PIB dividido pela população. A taxa de
crescimento percentual anual do PIB é a preços de mercado com base na moeda local
constante. Todos esses dados foram obtidos do Banco Mundial e a origem é dos dados das
contas nacionais do Banco Mundial e arquivos de dados das Contas Nacionais da OCDE.
(BANCO MUNDIAL, 2017d).

Em 2016 o país da SADC com o maior PIB foi a África do Sul com US$
[Link],11 e o país com o menor foi Seicheles com US$ [Link],10. Em
relação ao PIB per capita de 2016, o país com o maior valor e o país com o menor valor
foram, respectivamente, Seicheles com US$ 15.075,72 e Malauí com US$ 300,79. O país
cujo PIB mais cresceu em 2016 foi a Tanzânia com um crescimento de 6,96% e o país no
qual o PIB menos cresceu foi o eSwatini com um valor negativo de -2,22%.

Pobreza e Desigualdade na SADC

A tabela 4 demonstra a pobreza e desigualdade nos países membros da SADC. A


desigualdade é medida pelo índice de Gini que mede até que ponto a distribuição de renda
(ou, em alguns casos, a despesa de consumo) entre indivíduos ou famílias dentro de uma
economia se desvia de uma distribuição perfeitamente igual. Assim, um índice Gini de 0
representa igualdade perfeita, enquanto um índice de 100 implica desigualdade perfeita, em
outras palavras, quanto mais próximo de 0 for o índice de Gini, menor é a desigualdade. Os
dados são baseados na pesquisa domiciliar de agências estatísticas governamentais e de
departamentos do Banco Mundial. (BANCO MUNDIAL,

2017d).

A pobreza é medida pela taxa da população que vive com menos de 1,90 dólar por dia ao
preço internacional de 2011, e pelas taxas de população urbana e rural que vivem abaixo da
linha nacional da pobreza. Os dados são compilados a partir de fontes oficiais do governo
ou são computados pelo Banco Mundial usando linhas de pobreza nacionais, ou seja,
específicas do país. (BANCO MUNDIAL, 2017e).

De acordo com a tabela 4, o país da SADC com o maior índice de Gini e, portanto, o mais
desigual é a África do Sul, que em 2005 registrou o índice de Gini em 63,4, por outro lado,
Maurício é o país com o menor índice, 35,8 em 2012, ou seja, o menos desigual.

Em relação à taxa de população que vive com menos de 1,90 dólar, Madagascar é
considerado o mais pobre com 77,8% da população vivendo com menos de 1,90 dólar por
dia em 2012, no extremo oposto, Maurício é o país da SADC com a menor população
vivendo nessa condição, apenas 0,5% para dados de 2012.

Porém, um fator que deve ser considerado ao analisar esses dados é que eles não são de um
único ano, os dados da África do Sul são de 2005, enquanto para a Zâmbia são de 2015, ou
seja, há um intervalo de 10 anos entre eles.

Índice de Integração na SADC

O Banco de Desenvolvimento da África, a Comissão Econômica da ONU para a África e a

Comissão da União Africana desenvolveram o Índice de Integração Regional da África que


é composto por 5 dimensões, que são consideradas as mais importantes categorias
socioeconômicas para a África, e 16 indicadores, esse Índice e a avaliação das
Comunidades Econômicas Regionais (CER) Africanas estão disponíveis no Relatório do
Índice de Integração Regional da África de

2016.

As cinco dimensões e indicadores são:

1) Integração comercial, que é formado por 4 indicadores: nível de direitos aduaneiros


sobre as importações, participação nas exportações intrarregionais de bens (% do PIB),
importações intrarregionais de bens (% do PIB) e participação total no comércio
intrarregional de bens (% total do comércio intra comunidade) (AUC; AfDB; ECA, 2016);

2) Infraestrutura regional, que é composto por 4 indicadores: custo médio de roaming,


comércio regional total de eletricidade (líquida) per capita, proporção de voos
intrarregionais e o Índice de Desenvolvimento de Infraestrutura: transporte, eletricidade,
TIC (tecnologia da informação e comunicação), água e saneamento (AUC; AfDB; ECA,
2016);

3) Integração produtiva, que é composta por 3 indicadores: participação nas exportações

intrarregionais de bens intermediários (% de exportações intrarregionais), participação nas

importações intrarregionais de bens intermediários (% das importações intrarregionais) e


Índice de Complementaridade do Comércio de Mercadorias (AUC; AfDB; ECA, 2016);
4) Livre movimentação de pessoas, que é formado por 3 indicadores: proporção de países
membros da comunidade econômica internacional cuja entrada não exige visto, ratificação
(ou não) do protocolo da comunidade sobre a livre circulação de pessoas e proporção dos
países membros da comunidade onde os nacionais recebem um visto na chegada (AUC;
AfDB; ECA, 2016);

5) Integração financeira e macroeconômica, que é composta por 2 indicadores:


convertibilidade regional de moedas nacionais e diferencial de taxa de inflação (baseado no
Índice Harmonizado de Preços ao Consumidor (HPCI)) (AUC; AfDB; ECA, 2016).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AFRICAN UNION COMMISSION (AUC); THE AFRICAN DEVELOPMENT BANK


(AfDB); ECONOMIC COMMISSION FOR AFRICA (ECA). Relatório dos Índices de
Integração Regional na África 2016.

BACH, D. The Global Politics of Regionalism: Africa. In: FARRELL, M.; HETTNE, B.;
LANGENHOVE, L. V. (Eds) Global Politics of Regionalism: Theory and Practice.
London: Pluto Press, 2005. BANCO MUNDIAL, 2017a. Disponível em:
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