Contribuições das Culturas Africana na Formação da
Identidade Brasileira.
O Brasil é certamente um dos países mais diversificados do mundo, pelas
misturas étnicas, culturais e a diversidade de pessoas que convivem no mesmo
espaço.
O nosso país era habitado por diferentes grupos indígenas e quando os
portugueses chegaram, dominaram alguns desses grupos e dizimaram a
população de nativos através de batalhas desiguais, considerando a existência
de uma grande diferença entre as armas utilizadas pelos portugueses e as
armas mais simples dos indígenas e também em função das doenças trazidas
pelos europeus, contra as quais os indígenas não possuíam qualquer forma de
imunidade. Vendo os portugueses que o trabalho com os índios não estava
dando o resultado esperado, resolveram ir até as suas colônias na África e
escravizar os negros habitantes daquelas colônias.
Desta forma os negros saíram de suas terras de forma brutal, sem qualquer
chance de reação, encararam uma viagem muito difícil na qual, muitos não
resistiram e morreram. Chegaram a uma terra completamente nova e hostil,
onde eles teriam que se adaptar a um trabalho desumano e tentar retomar
seus ritos e costumes na nova “casa”, dando início a uma das raízes mais
marcantes da nossa cultura. A história dos negros escravizados no Brasil se
relaciona com a lenta transição do regime feudal ao regime capitalista, ocorrida
na Europa Ocidental da segunda metade do século XV ao final do século XVIII.
Era preciso a manutenção da Burguesia Mercantil por meio da exploração das
colônias, por isso o comércio de escravos tornava-se algo altamente lucrativo.
As demandas comerciais europeias tiveram grande influência sobre a formação
da sociedade brasileira.
A sociedade brasileira, então se organizou em torno da produção de produtos tropicais
para abastecer os mercados metropolitanos. Durante séculos todo o sentido da vida
social no Brasil só será encontrado nessa forma de ligação com o mundo Europeu. A
maneira de ocupar e explorar terras e vidas humanas só ganha significado quando
pensada em relação às necessidades do capitalismo comercial em desenvolvimento
na Europa. (VITA, 2001, p.12)
Como uma forma de evitar que os negros se organizassem e com isso
ganhassem mais força, numa sociedade que era formada por indivíduos de
diferentes origens, os portugueses misturavam esses povos a fim de não haver
nenhuma unidade entre eles.
A maior parte dos africanos trazidos para o Brasil veio da África Atlântica, ou seja, da
parte ocidental e centro ocidental, destacando-se dois grandes grupos, segundo as
suas procedências e características culturais e linguísticas: sudaneses e bantos.
Sudaneses oriundos da África Ocidental, Sudão e da Costa da Guiné, trazidos
principalmente para a Bahia [...] Bantos: oriundos de Angola, Congo, Moçambique e
Cambinda (Sul da África) que predominavam no sudeste [...] existindo também em
menor escala no Ceará, Maranhão, Pernambuco, Alagoas e litoral do Pará [...]
também não se podem esquecer as minorias fulas e mandes (malês), carregado de
fortes influências mulçumanas [...] (FARIAS, 2015, p.27)
INFLUÊNCIAS NO BRASIL
Os africanos contribuíram para a cultura brasileira em uma enormidade de
aspectos: dança música, religião, culinária e idioma. Essa influência se faz
notar em grande parte do país, especialmente em estados como Bahia,
Maranhão, Pernambuco, Alagoas, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e
Rio Grande do Sul, contudo a presença dos africanos se deu em todo o
território nacional em maior ou menor escala.
Podemos observar no dicionário brasileiro, uma variedade de termos que
usamos em nosso dia a dia, que tenhamos a noção de sua origem africana.
Entre os exemplos encontramos: abadá, caçamba, cachaça, cachimbo, caçula,
candango, canga, capanga, carimbo, caxumba, cochilar, corcunda, dengo,
fubá, gibi, macaco, maconha, macumba, marimbondo, miçanga, moleque,
quitanda, quitute, tanga, xingar, banguela, babaca, cafofo, cafundó, cambada,
muquirana, muvuca, entre inúmeras outras palavras.
DANÇAS:
A dança brasileira recebeu influência indígena e africana. De acordo com
Souza (2015, p. 113) Das danças ao ritmo de tambores podiam ser apenas
diversão, mas geralmente tinham um componente mágico - religioso.
A Capoeira
Uma dança, uma luta, uma arte marcial, a capoeira apresenta-se hoje como
uma mistura de arte marcial, esporte, cultura popular e música.
No passado, os africanos eram proibidos de jogar a capoeira, como expressão
da revolta contra o tratamento violento a que eram submetidos, passaram a
praticar a luta tradicional do sul de Angola nos terrenos de mata mais rala
conhecidos como capoeiras.
Souza (2014, p.131), define:
Hoje, a capoeira é uma luta dançada, na qual dois antagonistas dão golpes de pernas
e cabeça, usando as mãos como apoio, saltando para um lado e outro, mostrando
grande habilidade e força física. É uma das manifestações da cultura afro-brasileiras
mais difundidas entre todas as classes sociais e também no exterior […] a partir dos
anos 1930, tornou-se uma das marcas da identidade brasileira. […] Os elementos
africanos da capoeira são evidentes: os instrumentos musicais (tambor e berimbau), a
formação em roda, a ginga, os ritmos, muitas das letras dos pontos cantados, os
passos de dança.
A música é um componente fundamental de uma roda de capoeira, determina o
ritmo e o estilo do jogo que é jogado.
Composta por três berimbaus, dois pandeiros e um atabaque, geralmente
acompanhados de um bater de palmas. O significado de capoeira de acordo
com Aurélio, 2016:
Arte marcial com origem em crioulos brasileiros. Praticante de capoeira. Indivíduo,
geralmente munido de arma branca, que, com meneios rápidos e característicos,
praticava atos criminosos no Brasil do século XIX.
De acordo com Tavares (2009, p. 12):
Um ano depois da aclamação da capoeira à condição de patrimônio imaterial
brasileiro, ato promulgado pelo Ministério da Cultura, em 2007, e peça cabal do
reconhecimento governamental à intensidade da cultura afro-brasileira, constatamos a
plena atividade desta arte, que, presente em mais de 153 países, pelos cinco
continentes, indica-nos uma capacidade de permanente renovação e expansão.
Atualmente é conhecida em todo o mundo e mantém seus componentes
originais, tais como os movimentos rápidos Tavares (2009, p.14 e 16):
Desde que alcançou este novo patamar internacional na sua existência em festival
consagrado à arte negra, a saga da capoeira jamais foi interrompida. Reiterando a
sina de se correr em círculos com giros rápidos, chutes, caminhadas com a cabeça
para baixo, botando o mundo da vida de pernas para o ar, e, sobretudo, de, através da
metáfora da roda e do movimento, promover o mundo da ginga, na gira do mundo, a
capoeira tem magnetizado a todos. [...] Outro aspecto importante que deve ser
assinalado é que, como performance corporal, a capoeira é, reconhecidamente, a
mais singular entre todas as artes marciais.
Tambor de Crioula
Tambor de Crioula é uma dança típica do Maranhão de origem africana
praticada por descendestes de africanos que viveram escravizados, em louvor
a São Benedito, um dos santos mais populares entre os negros.
Tambor de Crioula no Maranhão, é uma dança de negros ao som de tambores, sobre
a qual, até hoje ainda há poucos trabalhos divulgados. É dança de umbigada
semelhante a outras do mesmo gênero no país. No Maranhão possui características
específicas e só aqui é conhecido com este nome. […] Lamentavelmente, esse
patrimônio cultural brasileiro de alta beleza e profundo refinamento, fonte viva de
história, religião, arte e identidade para muitas comunidades afrodescendentes, vem
sendo sistematicamente ignorado pela “grande cultura” e pelos meios de comunicação
de massa. (FERRETTI,2006, p.93).
É uma dança alegre, marcada por muito movimento dos brincantes e muita
descontração. É considerado Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro desde
2007, pois é uma forma de expressão afro-brasileira que envolve dança circular
e percussão de tambores.
Frevo
Da junção da capoeira com o ritmo do frevo nasceu o passo, a dança do frevo
foi utilizada inicialmente como arma de defesa dos passistas que remetem
diretamente à luta, resistência e camuflagem, herdada da capoeira e dos
capoeiristas, que faziam uso de porretes ou cabos de velhos guarda-chuvas
como arma contra grupos rivais. Foi da necessidade de imposição e do
nacionalismo exacerbado no período das revoluções Pernambucanas que foi
dada a representação da vontade de independência e da luta na dança do
frevo. A palavra frevo vem de ferver, por corruptela, frever, que passou a
designar: efervescência, agitação, confusão, rebuliço; apertão nas reuniões de
grande massa popular no seu vai e vem em direções opostas. Na década de
1930, surge a divisão do frevo em três tipos: Frevo-de-rua; Frevo-canção e
Frevo-de-bloco.
Carimbó
O carimbó é uma dança de roda do litoral do Pará, no Brasil. O nome também
se aplica ao tambor utilizado nesse estilo de dança. Sendo, também, uma das
principais fontes rítmicas da lambada. Na forma tradicional, o carimbó é
acompanhado por tambores de tronco de árvores afinados a fogo. A dança se
espalhou também pela Região nordeste do Brasil. O carimbó é considerado um
gênero de dança de origem indígena, porém, como diversas outras
manifestações culturais brasileiras, miscigenou-se, recebendo outras
influências, principalmente de negros.
É famoso pela batida dos tambores, instrumentos de cordas como o banjo e
também chocalhos. O carimbó tem, como característica, ser mais solto e
sensual, com muitos giros e movimentos onde a mulher tenta cobrir o homem
com a saia. As mulheres dançam descalças e com saias coloridas que vão até
os pés muito franzidas e amplas. A saia normalmente possui estampas florais
grandes. Blusas brancas, pulseiras e colares de sementes grandes. Os cabelos
são ornamentados com ramos de rosas ou camélias. Os homens dançam
utilizando calças, geralmente brancas e simples, comumente com a bainha
enrolada, costume herdado dos ancestrais negros que utilizavam a bainha da
calça desta forma devido às atividades exercidas, como, por exemplo, a coleta
de caranguejos nos manguezais.
Maracatu (ritmo)
Maracatu é um ritmo musical, dança e ritual de sincretismo religioso cristão
com as crenças africanas com origem no estado de Pernambuco. Conforme o
"baque" ou batida, existem dois tipos: Baque virado (Maracatu Nação) e Baque
Solto (Maracatu Rural). O primeiro é bastante comum na Região Metropolitana
do Recife; e o segundo é característico da cidade de Nazaré da Mata (Zona da
Mata norte de Pernambuco).
É caracterizado pelo uso predominante de instrumentos de percussão de
origem africana. Com o ritmo intenso e frenético, teve origem nas congadas,
cerimônias de coroação dos reis e rainhas da Nação negra. Na percussão
chama a atenção os grandes tambores, chamados alfaias que são tocados
com talabartes (baquetas especiais para o instrumento). Estes dão o ritmo ou o
baque da música e são acompanhados pelos caixas ou taróis, ganzás e um
gonguê ou agogô.
O maracatu se distingue das outras danças dramáticas e das danças negras
em geral pela sua coreografia. Há uma presença forte de uma origem mística
na maneira com que se dança o Maracatu, que lembra as danças do
Candomblé. Balizas e Caboclos dançam todo o cortejo. Baianas e Damas do
Paço têm coreografias especiais. Todos Caboclos e Guias fazem muitas
acrobacias, que parecem com os passos dos frevos de carnavalescos.
Os cortejos de maracatu são uma tentativa de refletir as antigas cortes
africanas, que ao serem conquistados e vendidos como escravos trouxeram
suas raízes e mantiveram seus títulos de nobreza, para o Brasil.
Congo
Congo é um dos muitos conjuntos de danças, músicas e manifestação
religiosas trazidas pelos africanos escravizados ao Brasil no Período Colonial.
É particularmente caracterizada pelo uso de tambores em variados tamanhos,
trajes e coreografias típicas e cânticos que invocam os Deuses. Atualmente é
uma manifestação folclórico/religiosa, onde se prestam homenagens a São
Benedito e a Nossa Senhora da Penha, em festas que acontecem ao longo dos
meses de dezembro e janeiro. São comuns no Espírito Santo as festas
dedicadas a São Benedito, onde se derruba uma árvore alta, cortam-se os
galhos deixando só o tronco, que será o "mastro de São Benedito", que é
levado pelas ruas e fixado em um pátio da festa, onde se coloca um estandarte
com a figura do santo.
Um ensaio ou peça do Congo é chamado de Puxada. Recentemente a batida
do Congo foi levada ao cenário da música pop com os conjuntos Casaca e
Manimal. As maiores demonstrações do Congo se dão nas festas de São
Sebastião e São Benedito nas cidades de Serra, de Fundão e na Barra do Jucu
município de Vila Velha, no Espírito Santo. Além das manifestações do Congo
na Região Metropolitana da Grande Vitória há também grupos no sul e interior
da Bahia.
MÚSICA
Na música a cultura africana contribuiu com os ritmos que são a base de boa
parte da música popular brasileira. Gêneros musicais coloniais de influência
africana, como o lundu, terminaram dando origem à base rítmica do maxixe,
samba, choro, bossa-nova e outros gêneros musicais atuais. Também há
alguns instrumentos musicais brasileiros, como o berimbau, o afoxé e o agogô,
que são de origem africana. O berimbau é o instrumento utilizado para criar o
ritmo que acompanha os passos da capoeira, mistura de dança e arte marcial
criada pelos escravos no Brasil colonial.
INTRUMENTOS MUSICAIS:
Afoxé
Afoxé é um instrumento musical de percussão formado por uma cabaça
redonda coberta por uma rede de bolinhas ao redor de seu corpo. O som é
produzido quando se giram as bolinhas em um sentido, e ao cabo no sentido
oposto. É um instrumento musical muito utilizado nos rituais de umbanda e
pelos grupos de samba e reggae.
Berimbau
Berimbau é um instrumento de corda usado para fazer percussão na capoeira.
É um arco feito de uma vara de madeira, de comprimento aproximado de 1,20
m a 1,60 m, e um fio de aço (arame) preso nas extremidades da vara. Em uma
das extremidades do arco é fixada uma cabaça que funciona como caixa de
ressonância. Para a realização do som, é necessária a utilização de uma pedra
ou moeda, vareta ou caxixi.
Agogô
O Agogô é também conhecido como gã é um instrumento musical formado por
um único ou múltiplos sinos, originados da música tradicional yorubá da África
Ocidental. Pode ser também o instrumento mais antigo do samba. Faz parte da
"bateria" da roda da capoeira, onde é mais conhecido por "gã" - nome este que
vem de akokô, palavra nagô que significa "relógio" ou "tempo", assim como um
som extraído de um instrumento metálico.
Pode ser composto de duas ou três campânulas presas por uma haste de ferro,
pertence ao Orixá Ogum, usado no candomblé onde também é chamado de Gã
e em outras religiões afro-brasileiras, por isso é o primeiro instrumento que
deve ser tocado nas liturgias dos cânticos. Como é um objeto sagrado, antes
do seu uso deve passar por rituais litúrgicos de consagração, isso implica
banho de folha, ervas, sacrifícios vegetais, animais e minerais para adquirir o
(axé) "força vital" no sentido de interferir no transe dos iniciados. No candomblé
é tocado com o aquidavi.
RELIGIÃO
Os negros africanos ao chegarem ao Brasil, na condição de escravizados,
trouxeram na bagagem suas crenças. Mas, como era proibido cultuar sua
religião, encontraram no sincretismo com o catolicismo uma forma de preservar
as tradições africanas. Souza (2015, p. 116) relata:
O ensino do catolicismo a todo africano escravizado era obrigação dos senhores, o
que também serviu de caminho para a organização de novas comunidades negras,
principalmente quando agrupadas em irmandades leigas de devoção a um
determinado santo. […] elas também foram um espaço de organização e construção
de novas identidades. Os principais santos de devoção das irmandades de “homens
pretos” eram Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia e São Benedito. Além de
cuidar do culto do santo elas faziam o enterro dos irmãos mortos, mandavam rezar
missas pelas suas almas e amparavam suas famílias caso elas não tivessem nenhum
recurso.
Como principais religiões afro-brasileiras, o candomblé e a umbanda tem forte
penetração no país, especialmente em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Rio
Grande do Sul e na Bahia.
Candomblé
Prandi (2004):
No curso da década de 1960, entretanto, o velho candomblé surgiu como forte
competidor da umbanda. Com sua lógica própria e sua capacidade de fornecer ao
devoto uma rica e instigante interpretação do mundo, o candomblé foi se espalhando
da Bahia para todo o Brasil, seguindo a trilha já aberta pela vertente umbandista. Foi
se transformando e se adaptando a novas condições sociais e culturais.
Religião afro-brasileira que cultua os orixás, deuses das nações africanas de
língua ioruba dotados de sentimentos humanos como ciúme e vaidade. O
candomblé chegou ao Brasil entre os séculos XVI e XIX com o tráfico de
escravos negros da África Ocidental. Sofreu grande repressão dos
colonizadores portugueses, que o consideravam feitiçaria. Para sobreviver às
perseguições, os adeptos passaram a associar os orixás aos santos católicos,
no sincretismo religioso. Por exemplo, Iemanjá é associada à Nossa Senhora
da Conceição; Iansã, a Santa Bárbara, etc.
As cerimônias ocorrem em templos chamados territórios. Sua preparação é
fechada e envolve muitas vezes o sacrifício de pequenos animais. São
celebrados em língua africana e marcados por cantos e o ritmo dos atabaques
(tambores), que variam segundo o orixá homenageado. No Brasil, a religião
cultua apenas 16 dos mais de 300 orixás existentes na África Ocidental.
A história nos mostra que o samba se originou ao som dos atabaques de
Candomblé. As escolas de samba sempre preservaram essa ligação ao
fazerem enredos com referência às entidades e divindades da cultura afro-
brasileira. Em 1969, por exemplo, o Salgueiro inovou quando colocou na
avenida o enredo "Bahia de Todos os Deuses" que exaltava a importância da
Bahia como o primeiro berço da cultura afro e a força da sua religiosidade.
Umbanda
Segundo Souza (2015, p.133), a define:
Nome dado às religiões afro-brasileiras de origem banta, nas quais são cultuados
ancestrais e espíritos da natureza, como forte presença de elementos das religiões
indígenas e também influência do espiritismo, de origem europeia.
Mistura de crenças e rituais africanos e europeus. A raiz umbandista encontra-
se em duas religiões trazidas da África pelos escravos: a cabula, dos bantos, e
o candomblé, na nação nagô. A umbanda considera o universo povoado de
entidades espirituais, os guias, que entram em contato com os homens por
intermédio de um iniciado (o médium), que os incorpora. Tais guias se
apresentam por meio de figuras como o caboclo, o preto-velho e a pomba-gira.
Os elementos africanos misturam-se ao catolicismo, criando a identificação de
orixás com santos. Outra influência é o espiritismo kardecista, que acredita na
possibilidade de contato entre vivos e mortos e na evolução espiritual após
sucessivas vidas na Terra. Incorpora ainda ritos indígenas e práticas mágicas
europeias.
CULINÁRIA
A influência da cultura africana é também evidente na culinária regional,
especialmente na Bahia, onde foi introduzido o dendezeiro, uma palmeira
africana da qual se extrai o azeite-de-dendê. O dendê trazido pelos
portugueses para queimar em lamparinas e iluminar as noites escuras do novo
continente logo foi parar na panela das mucamas. Este azeite é utilizado em
vários pratos de influência africana como o vatapá, o caruru e o acarajé.
As negras africanas começaram a trabalhar nas cozinhas dos Senhores de
Engenho e introduziram novas técnicas de preparo e tempero dos alimentos.
Também adaptaram seus hábitos culinários aos ingredientes do Brasil. Assim,
foi incorporado aos hábitos alimentares dos brasileiros o angu, o cuscuz, a
pamonha e a feijoada, nascida nas senzalas e feita a partir das sobras de
carnes das refeições que alimentavam os senhores; o uso do azeite de dendê,
leite de coco, temperos e pimentas; e de panelas de barro e de colheres de
pau. Os traficantes de escravos também trouxeram para o Brasil ingredientes
africanos como é o caso da banana, ícone de brasilidade mundo afora e da
palmeira de onde se extrai o azeite de dendê.
Em síntese, todos os pratos vindos do continente africano foram reelaborados,
recriados, no Brasil, com os elementos locais.
DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA E ENSINO NAS ESCOLAS
O Dia da Consciência Negra é uma data celebrada no Brasil no dia 20 de
novembro. Este dia está incluído na semana da Consciência Negra e tem como
objetivo uma reflexão sobre a introdução dos negros na sociedade brasileira.
O dia 20 de novembro foi escolhido como uma homenagem a Zumbi dos
Palmares, data na qual morreu, lutando pela liberdade do seu povo no Brasil,
em 1695. Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, foi um personagem que
dedicou a sua vida lutando contra a escravatura no período do Brasil Colonial,
onde os escravos começaram a ser introduzidos por volta de 1594. Um
quilombo é uma região que tinha como função lutar contra as doutrinas
escravistas e também de conservar elementos da cultura africana no Brasil.
Zumbi nasceu na Serra da Barriga, Capitania de Pernambuco, atual União dos
Palmares, Alagoas, livre, no ano de 1655, mas foi capturado e entregue a um
missionário português quando tinha aproximadamente seis anos. Batizado
'Francisco', Zumbi recebeu os sacramentos, aprendeu português e latim, e
ajudava diariamente na celebração da missa.
Por volta de 1678, o governador da Capitania de Pernambuco, cansado do
longo conflito com o Quilombo de Palmares, se aproximou do líder de
Palmares, Ganga Zumba, com uma oferta de paz. Foi oferecida a liberdade
para todos os escravos fugidos se o quilombo se submetesse à autoridade da
Coroa Portuguesa; a proposta foi aceita pelo líder, mas Zumbi rejeitou a
proposta do governador e desafiou a liderança de Ganga Zumba. Prometendo
continuar a resistência contra a opressão portuguesa, Zumbi tornou-se o novo
líder do quilombo de Palmares.
Em 2003, a Lei 10.639 foi criada com o objetivo de levar para as salas de aula
mais sobre a cultura afro-brasileira e africana do que a escravidão negra no
Brasil. Propondo novas diretrizes para valorizar e ressaltar a presença africana
na sociedade, além de ser um instrumento contra a discriminação e o
preconceito racial, a Lei ainda não é cumprida em todas as escolas.