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Periodização da História de Moçambique

O documento aborda a periodização da História de Moçambique, definindo cronologia e periodização como ferramentas essenciais para entender os eventos históricos. Propõe uma divisão da história do país em cinco períodos distintos, desde as comunidades primitivas até a era pós-independência, destacando características e marcos importantes de cada fase. Além disso, discute a importância das fontes históricas, ressaltando a escassez de documentação escrita e a relevância da tradição oral na reconstrução da história moçambicana.
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Periodização da História de Moçambique

O documento aborda a periodização da História de Moçambique, definindo cronologia e periodização como ferramentas essenciais para entender os eventos históricos. Propõe uma divisão da história do país em cinco períodos distintos, desde as comunidades primitivas até a era pós-independência, destacando características e marcos importantes de cada fase. Além disso, discute a importância das fontes históricas, ressaltando a escassez de documentação escrita e a relevância da tradição oral na reconstrução da história moçambicana.
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Escola Secundária de Boquisso

Ficha de apoio da 12ª classe – História

UNIDADE I: Periodização da História de Moçambique


Conceitos de Periodização e Cronologia

“Cronologia é uma ciência que tem por objectivo o estudo do tempo decorrido desde um determinado facto ocorrido na
História do mundo, tomando como referencia qualquer outro acontecimento, de forma a fixar as datas dos diferentes eventos e
respectivos intervalos” – Enciclopédia Luso-brasileira da cultura número 6, Lisboa, 1967.
Cronologia (do grego chronos, que significa tempo + logos, que significa estudo) é a ciência cuja finalidade é a de determinar
as datas e a ordem dos acontecimentos históricos, principalmente, descrevendo-os e agrupando-os numa sequência lógica. Esta
disciplina insere-se numa ciência maior, que é História. Cronologia- é a listagem dos acontecimentos por datas, começando pelo
mais antigo até ao mais recente. Veja o exemplo que segue de uma Cronologia da história recente de Moçambique.
Para a Cronologia de Moçambique, verifica-se que antes da chegada dos árabes à costa moçambicana, as datas são raras e
mesmo as existentes do período após a chegada dos árabes não revelam a evolução histórica de todo o país, apenas dizem
respeito à zona Norte do país até a região de Sofala.

Periodização da História de Moçambique


Periodização- é a divisão dos acontecimentos históricos em grandes épocas, destacando as características principais que
distinguem um período do outro. Periodização da História- é a divisão, para fins didácticos, da História em épocas, períodos ou
idades.
Exemplos:
 Antiguidade: do 4º milénio a. C. ao séc. V;
 Idade Média: do séc. V a meados do séc. XV;
 Idade Moderna: de meados do séc. XV ao fim do séc. XVIII;
 Idade Contemporânea: dos finais do séc. XVIII aos nossos dias.
Periodizar é encontrar o que fundamentalmente distingue, num processo histórico dado, as diferentes épocas históricas. Há que
salientar que os marcos cronológicos que são seleccionados não são absolutos; tem como objectivo principal disciplinar o
ensino e o estudo da história, isto é, a data que é escolhida para separar as épocas históricas, não constitui uma barreira
intransponível entre épocas. Embora qualquer articulação no processo histórico seja artificial e passível de críticas, essa prática
torna-se indispensável para que o conhecimento histórico se torne inteligível. Desse modo, pode haver tantas divisões, quantos
pontos de vista culturais, etnográficos e ideológicos. Não há como definir um padrão único ou consensual.
A periodização em História baseia-se em factos históricos, os quais, considerados mais importantes, aqueles que pela sua
dimensão provocaram grandes impactos nas sociedades ao ponto de a partir dos mesmos se poder encontrar dois momentos
diferentes.
A importância que cada facto tem varia de historiador para historiador, sendo os de natureza política, económica, social ou
cultural, e destes, em muitos manuais escolares são marcos divisórios de um período para o outro, factos de carácter político.
NB: A periodização tem um carácter relativo e subjectivo pois depende do historiador, das fontes utilizadas e dos critérios de
periodização.
Para a História de Moçambique propomos a seguinte periodização e as suas características:
Proposta da Periodização da História de Moçambique
Características Gerais dos Períodos da História de Moçambique:
1° Período: Dos primeiros Homens em Moçambique até séculos. III ou IV (anos 200 ou 300):
Comunidades de Caçadores e Recolectores/Comunidade Primitiva
Características:
 Predomínio da economia recolectora (recolecção e caça);
 Predomínio da técnica lítica;
 Viviam nas cavernas e grutas;
 Nomadismo;
 Divisão natural de trabalho (sexo e idade);
 Uso de instrumentos rudimentares (pedra, ossos, paus, fibra, marfim, etc,);
 Imediatismo na produção e no consumo;
 A prática de pinturas de arte rupestre;
 Não tinham classes sociais;
 Fraca relação de parentesco; Principal instrumento era a pedra.
1
2° Período: Desde séc. III ou IV (anos 200 ou 300) até séc. IX (800): Expansão e Fixação Bantu – Comunidade dos
Agricultores e Pastores.
Características:
 Introdução e desenvolvimento das actividades agrícolas, pecuária, metalurgia, artesanato e pesca;
 Desenvolvimento das comunidades sedentárias semipermanentes;
 Organização das comunidades em linhagens onde o poder dos chefes era de ordem moral e não político;
 Surgimento das primeiras comunidades sedentárias;
 Aparecimento do excedente de produção;
 Assiste-se uma transição da economia recolectora para uma economia produtiva o que permitiu o crescimento da
população;
 Estes homens viviam em aldeias perto dos cursos das águas.
3° Período: Desde o séc. IX (800) até séc. XIX (1886/1890): Penetração Mercantil Árabe Persa e Europeia
O período Mercantil subdivide se em duas fases:
1ª Fase: De séc. IX (800) até séc. XVI (1505): Fase de Penetração Mercantil Árabe Persa – Relacionamento Comercial de
Moçambique com os Árabes Persas.
Características:
 Fixação Árabe Persa na região Austral (costa oriental Moçambicana);
 Intercâmbio comercial entre mercadores Asiáticos e comunidades Moçambicanas;
 Edificação das primeiras sociedades de classes e dos primeiros estados (ex: o Estado de Manyikeni, Muenemutapa e
Marave);
 Surgimento dos reinos afro-islámicos da costa: Sultanatos e Xeicados.
 O produto mais comercializado nesta fase era o ouro;
 Surgimento de núcleos linguísticos na costa norte de Moçambique;
 Estabelecimento dos primeiros núcleos islamizados na costa nortenha de Moçambique;
 Predomínio da cultura swahili no norte de Moçambique.

2ª Fase: De séc. XVI (1505) até séc. XIX (1886/1890): Fase de Penetração Mercantil Europeia / Portuguesa
Características:
 A chegada e a penetração mercantil europeia – portuguesa;
 Desenvolvimento do comércio de ouro, marfim e escravo;
 A fixação portuguesa e a fundação da feitoria de Sofala em 1505;
 Conflitos entre Árabes e Portugueses;
 Em 1507 os Portugueses fundam a feitoria na Ilha de Moçambique;
 Em 1522 os Portugueses fundam a feitoria na Ilha da Quirrímbas (Cabo Delgado);
 Em 1530 os Portugueses fundam a feitoria de Sena;
 Em 1544 os Portugueses fundam a feitoria em Quelimane e descobrem a baia de Lagoa (Maputo);
 Fase do ciclo de ouro (séc. XIV-XVII);
 Fase do ciclo do marfim (XVII-XIX);
 Fase do ciclo dos escravos (metade do séc. XVIII até a primeira metade do séc. XIX);
 Emergência dos Estados Militares do vale de Zambeze Prazos da Coroa, Ajaua e Afro Islâmicos da Costa e Estado de
Gaza;
 Desagregação de vários Estados moçambicanos.

4° Período: Desde séc. XIX (1886/90) até séc. XX (1974/5): Período Colonial – Moçambique e a Direcção Imperialista
Este período contém três (3) fases:
1ª Fase: De 1886 até 1926/30: Domínio de Capital Estrangeiro não Português.
Características:
 Montagem de companhias Majestáticas e Arrendatárias: Companhia de Moçambique (Manica e Sofala), Companhia de
Zambézia (Tete e Zambézia), Companhia de Niassa
 (Cabo Delgado e Niassa);
 Ocupação efectiva e a montagem do Aparelho Administrativo Político Colonial;
 O sul de Moçambique e o trabalho migratório;
 A província de Nampula estava na dualidade de poderes.

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2ª Fase: De 1926/30 até 1962/64: Nacionalismo Económico de Salazar – o Colonialismo Fascista
Características:
 Implantação do Nacionalismo Económico de Salazar.
 Extinção ou eliminação das companhias Majestáticas e Arrendatárias.
 Unificação da Administração de Moçambique.
 Introdução de culturas obrigatórias (algodão, sisal, arroz, etc.)
 Intensificação da exploração colonial.
 Aprovação do acto colonial de 1930.
 Introdução da caderneta de Indígena.
 Introdução do Sistema de educação separado (para brancos, /assimilados e para indígenas);
 Introdução de Planos de Fomento e Sistemas de Colonatos;
 Surgimento de Movimentos de protesto contra a presença colonial em Moçambique;
 A fuga de Moçambicanos para colónias Inglesas vizinha;
 A formação de Movimentos Nacionalistas;
 Desenvolvimento do Pró-Nacionalismo;
 Transformação de colónias em províncias ultramarinas;
 Colonatos e introdução dos planos de fomento.

3ª Fase: De 1962/64 até 1974/75: Crise e Reestruturação do Colonialismo português/Luta de Libertação Nacional.
Características:
 Abolição do estatuto de indigenato e das culturas obrigatórias;
 Introdução das propriedades dos colonos;
 Fundação da Frelimo;
 Desencadeamento da luta armada e emergência de zonas verdes;
 Institui-se nesta altura a Política de Portas Abertas e a Construção de Cahora-Bassa com o objectivo de
internacionalizar a guerra em Moçambique e impedir o avanço da luta armada de libertação nacional;
 A emergência das zonas libertadas;
 Crise do Nacionalismo Português, com o golpe de Estado em Portugal em 25 de Abril de 1974;
 Acordos de Lusaka em 7 de Setembro de 1974 (entrega da soberania aos Moçambicanos, reconhecimento da Frelimo
como representante do povo Moçambicano);
 Governo de Transição de 1974 até 1975;
 Independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975.

5º Período: Desde 1974/5 até aos nossos dias: Moçambique Pós – Independência.
Este período compreende duas fases:
1ª Fase: De 1974 / 75 até 1990/94: Monopatidária.
Características:
 Proclamação da República Popular de Moçambique;
 Institucionalização de um Estado de origem Socialista;
 Planos económicos de Desenvolvimento;
 Centralização da Economia com sistemas de cooperativas e lojas do povo;
 Plano Estatal Central e Plano Prospectivo Económico;
 Início da guerra civil em 1976 (Frelimo e Renamo);
 Acordo de Nkomati a 16 de Março de 1984;
 Morte de Samora Moisés Machel em 19 de Outubro de 1986;
 Introdução do Plano de Reabilitação Económica em 1987;
 Constituição de 1990;
 Assinatura dos Acordos de Paz de Roma a 4 de Outubro de 1992;
 Cessar-fogo em Moçambique a 15 de Outubro de 1992.

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2ª Fase: De 1990/94 até aos nossos dias: Fase Multipartidária:
Características:
 Década 90 -É aprovada e posta a constituição Multipartidária em Moçambique;
 4 De Outubro de 1992 assinado o Acordo de Paz em Roma para Moçambique - era o fim da Guerra Civil iniciada em
1976;
 Chegada da ONUMOZ (capacetes azuis) para manutenção da paz;
 Economia de Mercado;
 1994 - Primeiras eleições gerais de Moçambique;
 Reconstrução Económica, Social e Política de Moçambique;
 1999 - Segundas eleições gerais multipartidárias;
 2003 - Realização da Cimeira da União Africana em Maputo;
 2003 - Introdução da reforma do sector público em Moçambique;
 2004 - Terceiras eleições gerais multipartidárias;
 2009 - Quartas eleições gerais multipartidárias;
 2015 - Quintas eleições gerais multipartidárias;
 2019 - Sextas eleições gerais multipartidárias;

As Fontes da História de Moçambique


Segundo Henri Irénée Morrou, Fonte de História ou Documento Histórico é, “toda a fonte de que o espírito do historiador sabe
tirar qualquer coisa para o conhecimento do passado humano, encarado sob o ângulo da pergunta que lhe foi feita”.
Fontes de História são os materiais de que o historiador se serve, ao exercer o seu ofício (MENDES, 1987). Lucien Febvre
escreveu: “A História faz-se com documentos, sem dúvida. Quando existem. Mas pode fazer-se, deve fazer-se com tudo o que o
engenho do historiador lhe pode permitir utilizar”. Cabe ao historiador seleccionar convenientemente as suas fontes, quando
elas são submetidas. Quando são escassas impõe-se-lhe um trabalho ainda difícil, o de preencher as lacunas, procurando novos
documentos.
No que concerne ao continente africano, diz Josef Ki-Zerbo, “é preciso reconhecer que o manuseio das fontes é particularmente
difícil. Três fontes principais constituem os pilares do conhecimento histórico: os documentos escritos, os testemunhos
arqueológicos e a tradição oral. Essas três fontes são apoiadas pela linguística e pela antropologia, que permitem matizar e
aprofundar a interpretação dos dados, por vezes excessivamente brutos e estéreis sem essa abordagem mais íntima.”
A maioria dos estudiosos da História de Moçambique é unânime e peremptória em reconhecer que a historiografia colonial
deixou uma base fragilíssima em termos de estrutura de fontes. Sendo as fontes escritas de origem colonial. Elas dão relevo aos
aspectos que mais interessavam aos colonos como; as rotas, as características dos povos a conquistar, etc. A
documentação legada é rica em descrições de natureza etnográfica, memórias de viajantes, epopeias dos militares
portugueses, legislação colonial, descrições das audácias nas guerras com os reinos e Estados então existentes em
Moçambique, apresentando tendências para um registo fraco das lutas populares contra o sistema colonial, da
introdução desse sistema e do seu impacto na formação social moçambicana, tornando muito difícil uma reconstituição
da história do país. (...) (MENDES, 1987:17).
A maioria dos historiadores afirma que antes da chegada dos portugueses as fontes escritas eram raras, limitando-se quase
exclusivamente aos escritos árabes que fazem referência à zona costeira do norte de Moçambique até à região de Sofala. Para
este período existem alguns testemunhos arqueológicos.
Para o período após a chegada dos portugueses, os estudiosos reconhecem que a historiografia colonial deixou uma base
fragilíssima em termo de estrutura de fontes.
A reconstrução de certos períodos da História de Moçambique enferma muitas vezes de uma falta de informações escritas fiáveis
ou de fontes inacessíveis aos investigadores. Deste modo, em muitos casos a informação oral acaba sendo a única fonte
disponível.
Os Tipos de Fontes
Para a reconstrução da História de Moçambique as fontes podem distribuir-se: Fontes materiais ou arqueológicas, fontes
escritas, fontes orais e fontes monumentais e ou iconográficas.

Fontes Materiais ou Arqueológicas


Vestígios materiais do homem (fósseis, restos de utensílios domésticos, monumentos, objectos de arte, ou paisagens com marcas
dos homens que a trabalharam).

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As fontes materiais ou arqueológicas dizem respeito a todos os vestígios materiais do homem, desde os objectos e às paisagens.
Fontes arqueológicas e não fontes monumentais, porque abrangem além dos objectos artísticos, ou conjuntos de grandes
dimensões, pequenos e humildes utensílios, desde o pente e espelho a uma arca ou peça de vestuário, desde a escudela ao grão de
trigo.

Estas fontes normalmente são seguras, por duas (2) razões:


 Em primeiro lugar, porque graças à matéria de que são feitas, conservam-se melhor e resistem à falsificação;
 Em segundo lugar, porque constituem documentos involuntários, isto é, regra geral não foram construídos para provar ou
informar pelo que não deturpam a realidade que testemunha.
A documentação material é objectiva, interessa-se por todas as classes e grupos sociais, constitui uma fonte insubstituível e
complementar das fontes escritas. Para a sua interpretação cuidada torna-se necessário o recurso a fontes escritas coetâneas
(contemporâneas) e à pesquisa etnológica. É necessário proceder ao seu enquadramento no espaço e no tempo para se identificar
o seu papel nas sociedades que as produziu.

A Técnica do Carbono14 (C14)


A datação sob C14 é uma técnica científica que serve para datar as fontes materiais, isto é determinando o tempo e o material
usado para o seu fabrico. A datação por Carbono 14 é uma maneira de determinar a idade de certos artefactos arqueológicos de
origem biológica com até 50 mil anos.

As fontes Escritas
Quando não são raras, tais fontes encontram-se mal distribuídas no tempo e no espaço. Os séculos mais “obscuros” da história
africana são juntamente aqueles que não se beneficiam do saber claro e preciso que emana os testemunhos escritos, por exemplo,
os séculos imediatamente anteriores e posteriores ao nascimento de Cristo (a África do Norte é uma excepção).
As fontes escritas situam-se entre as fontes arqueológicas e as fontes orais. O seu suporte material, duro como a pedra, macio
como o papiro (planta ciperácea que, depois de certa preparação, era utilizada pelos Egípcios na escrita), pergaminho
(documento escrito em pele de carneiro, cabra, etc.) e papel, sensível como as bandas magnéticas, exige o recurso a técnicas
específicas.

As fontes escritas subdividem-se em:


a) Epigráficas – inscrições gravadas em materiais duros como a pedra, o bronze, ou a cerâmica. Geralmente são textos curtos,
com fins comemorativos, funerários, etc.
b) Arquivísticas ou Diplomáticas: documentos de carácter oficial (diplomas, tratados, etc); ou de carácter jurídico (escrituras
notariais, actas de assembleias, inventários, sentenças, registos, paroquiais, Legislação geral ou especial, documentação geral,
etc).
c) Literários ou Narrativas: Livros, oratória, anais e crónicas, hagiografias, narrativas diversas.

Fontes Orais
Paralelamente às duas primeiras fontes da história africana (documentos escritos e arqueológicos), as tradições orais aparecem
como repositório e vector do capital de criações socioculturais acumuladas pelos povos ditos sem escrita: um verdadeiro museu
vivo.
Os seus guardiões são os velhos de cabelos brancos, voz cansada e memória um pouco obscura, rotulados às vezes de teimosos e
meticulosos. Cada vez que um deles desaparece, é uma página da história que se perde.
A tradição oral é a fonte histórica mais íntima, mais suculenta e melhor nutrida pela seiva da autenticidade. “A boca do velho
cheira mal, mas ela profere coisas boas e salutares”. – Provérbio africano.
Fontes Orais são informações transmitidas de geração a geração, estas fontes normalmente são menos seguras, uma vez que a
ausência de suporte material as expõe, mais que às outras, à deturpação. Por outro lado, o testemunho oral constitui, não raras
vezes o único meio de escrever a história imediata - que diz respeito a períodos muito recentes servindo-se, primordialmente, de
inquéritos e entrevistas - e clandestina de certas categorias ou grupos sociais.
De um modo geral, pode-se falar da multiplicidade, heterogeneidade e complementaridade das fontes históricas. As fontes,
muitas vezes, até à segunda metade do século XIX, são descontínuas, apresentam lacunas que impedem ou dificultam a
constituição de séries e revelam-se de qualidade medíocre.
A tradição oral não é apenas uma fonte que se aceita por falta de outra melhor, e à qual nos resignamos por desespero de causa.
É uma fonte integral, cuja metodologia já se encontra bem estabelecida e que confere à história do continente africano uma
notável originalidade. Eis a razão por que hoje em dia, se procuram fixá-las.

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A Importância da Tradição Oral
 É um estudo dos grupos que são excluídos na documentação mantida nos arquivos;
 Permite articular as experiências daqueles que, a partir de uma perspectiva histórica, estão desarticulados, isto é, por
experiência vivida por pessoas e povos;
 Democratização da própria história e a vitalidade em uma história que desenvolve às pessoas seu próprio passado com
suas próprias palavras;
 Permite uma relação de incorporar indivíduos em sua individualidade ou colectividade, mas também permite o estudo
de actos e situações que racionaliza um momento histórico concreto;
 Permite um fundamento na história de grupos sociais que, por razões diversas, estiveram marginalizados ou quase
ausente das fontes documentais escritas;
 Nos permite penetrar no processo histórico feito por indivíduos ou grupos concretos;
As fontes orais muitas vezes as únicas fontes disponíveis para se escrever a História de Moçambique. A tradição oral é de
extrema riqueza para o auxílio e efectiva construção historiográfica de Moçambique. Nas sociedades africanas a memória oral é
muito forte, muito rica e veiculada de geração em geração.
Segundo Ki-Zerbo (1982:29), “indubitavelmente, a tradição oral é a fonte histórica mais íntima, mais suculenta e melhor nutrida
pela seiva da autenticidade”.
“A tradição oral é como uma autobiografia das sociedades sem escrita alfabética, é constituída pelos mitos, contos, sistemas de
crenças, histórias e outros relatos. É, portanto, o registo da memória e o instrumento de transmissão da cultura e de história das
sociedades sem escrita”. Franz Boas (adaptado).

As suas Limitações
“Mas no seio desta problematização, não podemos esquecer, no entanto, que, em qualquer época ou período histórico, a classe
que está no poder determina um certo tipo de produção histórica, manipulação para a qual os investigadores sociais devem estar
sempre atentos” – Teresa Cruz e Silva e Alexandre José.
Há várias limitações na reconstrução da História de Moçambique que se referem sobretudo à disponibilidade, credibilidade,
acesso, e distribuição das fontes. Neste sentido, torna-se muito importante que os cidadãos moçambicanos tenham o cuidado e a
preocupação de preservar as fontes que existem. É só com o conhecimento das fontes que se consegue reconstruir a História de
uma sociedade.

Disponibilidades das Fontes


As fontes históricas não existem segundo a vontade do historiador. É necessário saber que elas às vezes são escassas para
determinados períodos e assuntos que são trazidos para o estudo, muitas vezes abundantes para outros e há casos em que elas
não existem para a construção de muitos aspectos da vida do passado que o historiador procura conhecer. Todas as fontes têm as
suas limitações. Através delas só é possível obter uma parte da realidade. No historiador tem, por isso, de desenvolver um novo
trabalho de pesquisar com vista à busca de novas revelações no longo caminho da procura da verdade histórica.

Credibilidade das Fontes


Qualquer investigação da História do nosso país tem de passar por um trabalho de análise rigorosa das fontes, pois a maior parte
delas levanta sérios problemas de credibilidade. Os criadores das fontes podem manipular a historiografia da época. As fontes
escritas, como as leis e outros documentos semelhantes, são produzidas por quem está no poder naquele momento. Assim, os
historiadores têm de estar atentos a esse condicionalismo e analisar com forte espírito crítico aqueles documentos.
As fontes materiais, como monumentais, por exemplo, também são construídas de acordo com o regime em vigor. As fontes
orais também podem vincular no seu discurso de geração em geração falsidades ou adulterações históricas. Na análise de todo
tipo de fontes, o historiador tem de ser crítico e analítico.

Acesso às Fontes
Para o estudo das fontes é necessário saber onde encontrá-las. Para o estudo das fontes escritas, podem pesquisar-se arquivos
históricos públicos, bibliotecas públicas e, também, arquivos pessoais e familiares. Nos últimos tempos, têm sido desenvolvidos
esforços para tornar públicas algumas colecções de documentos e livros, através de sites.
Para o estudo das fontes materiais devem-se visitar campos de arqueologia, museus, monumentos, etc. Para os estudos das fontes
orais devem-se consultar os relatos escritos existentes, mas, sobretudo, deve-se interrogar os próprios moçambicanos sobre os
temas do passado.

6
Distribuição
 Para se escrever a História de Moçambique temos uma igual distribuição das fontes?
 Há semelhante número de fontes quer para o Sul quer para o Centro e Norte de Moçambique?
 Temos fontes para todos os períodos da História de Moçambique?
 Há fontes para todas as temáticas da História do nosso país?

Não há respostas satisfatórias para estas questões. No entanto, é certo que para a História de Moçambique há o predomínio dos
relatos de etnografia e da Natureza.
As limitações das fontes de História de Moçambique que se apontaram tornam a tarefa do historiador demasiado difícil. Assim, é
sempre importante:
 Preservar os vestígios que existem;
 Recolher ao máximo todos os vestígios sobre a temática em causa;
 Seleccionar de forma criteriosa os vestígios quando estes são numerosos;
 Levantar hipóteses que permitam questionar os “silêncios” das fontes.

UNIDADE II: Moçambique – Da Comunidade Primitiva Ao Surgimento Das Sociedades De Exploração


Sabes de classes anteriores, que os primitivos habitantes de Moçambique foram os KHOISAN. Estes povos eram caçadores,
recolectores e pescadores; tinham um modo de vida nómada; seus instrumentos de trabalho eram muito primitivos; estavam
organizados socialmente em bandos; o trabalho era dividido por sexo e idade e o produto final distribuído equitativamente para
todos que tinham trabalhado: eram pois sociedades sem exploração do homem pelo homem.
Mas, por volta dos séculos II/III d.C., povos provenientes da orla noroeste da Grande Floresta Equatorial, em vagas sucessivas,
chegam à região austral de África – os povos Bantu.

Os povos de origem bantu: a expansão bantu


Causas da Expansão Bantu
• Alargamento do deserto de Saara;
• Aumento populacional na orla noroeste da floresta equatorial;
• A falta de terras cultiváveis;
• A difusão da tecnologia de ferro;
• A prática da actividade agro-pecuária.
O que se pode ter como certo, é que a expansão demográfica bantu em Moçambique ocorreu como consequência do
conhecimento da agricultura e do processo do fabrico de ferro .
De entre vários autores consagrados, destaque particular para o trabalho realizado por MARTIN HALL, que resumiu em três
aspectos fundamentais as grandes discussões que linguistas, arqueólogos e historiadores têm realizado sobre a expansão bantu:

1º Aspecto (Teoria Rácica)


Os povos bantu eram uma nova raça que teria imigrado para o sul, substituindo ou absorvendo as comunidades primitivas que
habitavam a África Austral- é a concepção rácica da expansão, prontamente criticada e abandonada.
2º Aspecto (Teoria Linguística)
Os povos bantu não eram uma nova raça, mas sim povos falantes de línguas aparentadas entre si – o bantu. É a chamada teoria
linguista. (O termo bantu passou a ser utilizado a partir de 1862, graças ao trabalho do linguista alemão Bleek, que descobriu um
grande parentesco em cerca de 300 línguas faladas na região austral).
Esta teoria, tem várias vertentes para explicar a expansão bantu:
i) Para GREENBERG, Joseph, a migração bantu deu-se em direcção ao sul, a partir da zona de fronteira entre os
Camarões e a Nigéria;
ii) GUTHRIE, Malcom, defende que o centro da expansão teria sido a região do Luba, na província do Shaba, no
Zaire.
iii) OLIVER, Roland, concorda com ambos, defendendo que suas teorias se complementam e acrescenta um novo
dado- a expansão obedeceu a quatro fases distintas.
iv) PHILLIPSON, David, defende que a origem da expansão encontra-se na floresta dos Camarões, com dois
movimentos distintos: um que contornou a Grande Floresta para a região dos Lagos (a oriente) e o outro que o
seguiu, atravessando a floresta em direcção ao Zaire e Angola;

7
v) EHRET, Cristopher, acredita que as línguas bantu espalharam-se através da zona tropical, com um período de
diferenciação local nas regiões de floresta de savana, antes da sua expansão final para oriente e região sul –
oriental.

3º Aspecto (Teoria da Domesticação dos Animais e Flora e o Uso da Tecnologia de Ferro)


Segundo esta teoria, expansão Bantu estaria ligada à domesticação das plantas e animais, à cerâmica e ao trabalho do ferro. O
desenvolvimento desta economia mista (agricultura, pastorícia e metalurgia), permitiu a sedentarização das populações, a
especialização no trabalho e o surgimento da desigualdade social.
Os bantu já dominavam a técnica da metalurgia do ferro. Com a utilização de instrumentos feitos de ferro, a vida das populações
na África Austral melhorou consideravelmente.
No que se refere a nova tecnologia de ferro, teve sua importância na migração Bantu, uma vez que a descoberta deste metal
permitiu a esta população o fabrico de instrumentos mais cortantes, resistentes e eficazes, contribuindo desta maneira no
aumento da produção e da produtividade o que criou condições para o surgimento do excedente. Dentre os vários cereais
cultivados pelo povo Bantu pode-se destacar a Mapira e a Mexoeira.
Em Moçambique, evidências da expansão bantu, teriam sido gradualmente reveladas em diversas estações arqueológicas, na
Matola, em Xai-xai, Vilanculos (Chibuene, Bazaruto), Marrape, Holahola (Save), Mavita (Manica), Chongoene, Bilene,
Zitundo, Serra Maúa, Monte Mtukwe (Niassa), entre outros locais.

As sociedades moçambicanas após a fixação bantu


Após a fixação Bantu e antes do impacto colonial mercantil, que principiou no século XVI, as características mais gerais da
sociedade moçambicana podem ser indicadas a quatro níveis:

Actividades Económicas
A base fundamental da economia consistia na agricultura de cereais, principalmente da mapira e mexoeira. Em algumas regiões
a sul do rio Zambeze, essa actividade económica era acompanhada pela criação de gado bovino. A norte daquele rio, a
recolecção constituía um contributo indispensável à dieta alimentar.
Actividades Complementares: A caça, pesca, olaria, tecelagem e metalurgia de ferro eram actividades complementares da
agricultura, estavam bastante desenvolvidas, mas só em alguns casos, como por exemplo, no Estado de Zimbabwe, os artesãos
puderam construir um grupo social reactivamente especializado e independente da agricultura.
A terra, meio de trabalho principal, era património da comunidade, onde todos tinham acesso a ela, mas cabia aos membros
seniores a distribuição e o controlo da sua correcta exploração.
Os excedentes agrícolas, quando existiam, e as produções artesanais ou o marfim, as peles e os minérios eram trocados entre as
diferentes unidades de produção, quer a nível local, quer em mercados distantes. Estes excedentes, que eram possuídos por um
grupo reduzido da população, geralmente os parentes mais velhos, herdeiros e guardiães das experiências e tradições da
comunidade, contribuíram para o aparecimento de uma economia de exploração, através do pagamento do tributo, que podia ser
em trabalho ou em género.

Relações de Produção
A agricultura determinava as relações de produção permanente. A nível da comunidade aldeã, as unidades de produção
constituíam-se em torno de um grupo de parentes consanguíneos definidos por via paterna a sul de Zambeze e por via materna a
norte.
Designa-se por linhagem um grupo de parentes que descendem de um antepassado comum através de uma filiação materna ou de
uma filiação paterna.
Entre os Macuas, esse grupo de parentes era designado pelo termo Nlocko, entre os Ajaua por Liwele, entre os Cheua por Pfuko,
entre os Tsonga por Ndangu e entre os Chona por Bvumbo. A pesca e a caça não configuravam nas relações de produção tão
duráveis como na agricultura.
No fim de cada caçada ou de cada campanha de pesca, os grupos desfaziam-se e o produto era dividido pelos participantes,
segundo regras consuetudinárias bem definidas. A divisão técnica e social de trabalho fazia-se na base de sexo e idade.
Como produtoras, as mulheres detinham uma certa autoridade e controlo sobre os celeiros, mas estavam geralmente excluídas da
posse de bens mais valiosos e duradouros, como o gado.

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Organização Social e Política
A relação de produção baseada na estrutura de linhagens condicionou a criação de uma estrutura
política, onde à frente de cada linhagem ou da família alargada estava um chefe (Mwene, Humu,
Asyene Mbumba, etc.) com poderes políticos, jurídicos e religiosos e um conselho de anciãos.
As funções políticas eram exercidas pelos homens, onde em algumas regiões, no sul do Zambeze, o poder passava do irmão mais
velho para o irmão a seguir na idade, noutras regiões do pai para o filho e, noutras ainda, a norte do Zambeze, do tio materno
para o sobrinho.
O solo era património das linhagens, cabendo ao chefe a função de assegurar periodicamente a
distribuição das machambas pelos membros das diversas células produtivas de base, componentes da linhagem, a manutenção
das relações entre os membros da linhagem, resolução de litígios, o controlo de impostos, o controlo das alianças matrimonial
(por exemplo o lobolo no sul de Moçambique). A terra podia ser usada, mas não alienada.
Em consequência de conquistas militares, a linhagem vencedora passava a exercer uma supremacia política sobre todas as
outras, as quais por intermédio dos respectivos guardiães, principiava a pagar um tributo ao chefe da linhagem vencedora,
chamado Mpewe, Mwene Alupale, Mwini Dziko, Fumu, Mambu, etc.
O conjunto de chefes e anciãos constituía a classe dominante da sociedade. Surge, então, uma nova divisão social de trabalho,
onde os produtores tinham de produzir cada vez mais um subproduto para pagar o imposto. A classe dominante dos chefes e dos
anciãos alargava-se rapidamente aos membros da linhagem do chefe do território, passando a constituir a aristocracia da
sociedade.
Abaixo da aristocracia estava a camada dos homens livres, também com as suas linhagens. As
linhagens estrangeiras e recém chegadas pagavam um tributo bastante pesado e a sua condição era inferior à dos outros homens
livres, e por fim encontravam-se os escravos domésticos.
No norte de Moçambique, as linhagens estavam agrupadas em clãs (Nihimo, Lokolo, Mutupo,
etc), cujo número era estável nas diferentes sociedades matrilineares.
Chefe da Linhagem
Conselho de Anciãos
Homens Livres e Estrangeiros
Escravos Domésticos
Esquema da organização sociopolítica nas sociedades Bantu

A Ideologia
As crenças mágico-religiosas e outros aspectos ideológicos, desempenharam nessas sociedades,
um papel muito importante, constituindo uma arma fundamental do poder, coesão social e da
aparente imobilidade.
Os chefes das linhagens e os chefes territoriais imploravam aos antepassados, para si e para o seu
povo, a chuva, a saúde, a protecção para a caça e para as viagens, etc. Como elo de ligação entre os anciãos mortos e vivos, o
chefe sacerdote detinha uma função que era a base do poder. Em Tete, Manica e Sofala, nas formações dos Estados
centralizados, desenvolveram cultos territoriais como Mpondoro (entre os Chonas) e o Mwari, Nkwaya e Mbengulu (com os
Tsongas) que eram assistidos por especialistas.
Porém, eram as crenças na feitiçaria, a acção dos curandeiros contra-feiticeiros, que exprimiam os conflitos sociais, as coerções
mortais e políticas e as dependências familiares.
Alguns Conceitos Importantes
Família alargada – Vários elementos com ligações de parentesco, entre ascendentes e
descendentes.
Clã – Várias famílias alargadas.
Tribo – Conjunto de clãs.
Linhagem – Série de geração de uma família. um grupo de parentes que descendem de um
antepassado comum através de uma filiação materna ou de uma filiação paterna.
O Inicio da Diferenciação Etnolinguística em Moçambique:
As linhagens Matrilinear e Patrilinear
Em Moçambique existem dois tipos de linhagens ou sistemas:
 A norte do rio Zambeze, predomina a linhagem Matrilinear;
 E ao sul do mesmo rio, predomina a linhagem Patrilinear.
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Características gerais da linhagem matrilinear
Como resultado da influência nesta região, assiste-se as diferenças entre a região norte e sul do
Zambeze. A norte do Zambeze devido ao impacto da mosca Tsé-Tsé, impediu numa primeira fase a prática da
pecuária, sobretudo o gado bovino e privilegiando a prática da agricultura, actividades que maioritariamente eram
praticadas pelas mulheres, o que teria originado comunidades matrilineares.
Estas sociedades desenvolveram-se no norte do Zambeze. Devido a prática da agricultura, conferiu a mulher poderes
sobre o homem. As suas características podem ser:
 O filho nascido de um casamento pertence à família da mãe;
 Pratica-se a uxorilocalidade, isto é, com o casamento o homem transfere-se da sua povoação para a da
mulher;
 Nestas sociedades, se no casal a mulher morre, o homem era obrigado a casar-se com a irmã da sua defunta
mulher. A esta prática chama-se Surrurato;
 O dote de maior significado é entregue pelo homem à mulher (mahari, em Makua);
 A educação dos filhos é assegurada pelo tio materno e não pelo pai;
 A transmissão do poder obedece mais ou menos a mesma regra: com a morte de um chefe o poder passa
para o sobrinho, filho da irmã mais velha e não para o filho mais velho;
 A caça, pesca e a construção de casas eram as únicas actividades masculinas relevantes;
 As mulheres praticavam a agricultura na qual asseguram o sustento das comunidades;
 Praticavam cultos como Makewana, Mbona, etc., todos ligados a terra…

Características Gerais da Linhagem Patrilinear


Estas sociedades desenvolveram-se no sul do Zambeze. Devido a prática da pastorícia, actividade praticada pelo
homem, conferiu ao homem poderes sobre a mulher. Destacam-se, dentre outras, as seguintes características:
 O filho nascido de um casamento pertence à família do pai;
 Pratica-se a virolocalidade, isto é, por ocasião do casamento, a mulher transfere-se da sua povoação para a
do marido, o que significa um indicador do papel preponderante que os homens desempenham na vida
económica e social;
 Se no casal o homem morre, a mulher tem a obrigação de casar-se com o irmão do seu defunto marido. A
esta prática chama-se liverato (kutxinga);
 O dote (lobolo) pago pelo noivo aos sogros aparece como mecanismo de estabilidade dos casamentos e de
subordinação da mulher em relação ao homem;
 A transmissão do poder e da herança é do pai para o filho mais velho e não do tio materno para sobrinho
como ao norte do rio Zambeze;
 A prática da pastorícia, actividade masculina por excelência, conferia aos homens o acesso a um bem
duradouro, principalmente expresso em gado bovino. O gado era o meio principal de pagamento do lobolo e
simbolizava o poder económico, ou melhor, representava a capacidade de adquirir esposa.

Localização dos Grupos Etnolinguísticos em Moçambique


Com o impacto mercantil Árabe-Suahili, com o desenvolvimento das trocas comerciais, com as migrações e as guerras,
começam a surgir diferenciações regionais, a nível cultural, linguístico, a nível dos costumes, etc., bem como a nível político
com o aparecimento de reinos ou de chefaturas. Os grupos etnolinguísticos que conhecemos hoje são resultado de um longo
processo de
transformações e assimilações, não apenas de diferenciações entre os primeiros bantu imigrados entre 200 e 300, como também
de diferenciação entre povos de filiação matrilinear e patrilinear. Assim, os nomes das unidades etnolinguísticas surgiram em
períodos diferentes:
 Os nomes Makua, Lolo ou Lómuè (Bororo) já existiam nos finais do século XVI;
 Com o desaparecimento dos Estados Marave afirmam-se nomes etnolinguísticos como
Nianja (Niassa), gente do lago, e Yao, gente à volta da montanha Yao;
 Mwani, gente da costa de Cabo Delgado;
 Chopi e Ndau surgem por volta de 1830, durante o Mfecane;
 Os Tsonga como designação geral para Ronga, Changana e Tsua.
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Em suma, podemos ter como principais grupos etnolinguísticos de Moçambique os seguintes:
a) Cheua: grupo que se localiza Norte do rio Zambeze: Macua e Lómuè em Nampula, Sul de Cabo Delgado, Norte de
Zambézia e Sudeste de Niassa; Yao no Niassa; Chuabo na Zambézia.
b) Chona: grupo que se localiza a sul do rio Zambeze até rio Save: Nianja em Tete; Sena e Ndau em Sofala e Tete.
c) Tsonga: grupo que se localiza a sul de Save até todo sul de Moçambique: Changana em Gaza e Maputo; Ronga em
Maputo; Guitonga, Chopi e Tsua em Inhambane.

UNIDADE III: Os Estados Moçambicanos E A Penetração Mercantil Estrangeira


A Penetração Mercantil Estrangeira
Penetração Mercantil estrangeira é o período em que as relações entre as comunidades Moçambicanas e outros povos
se traduziram a trocas comerciais a partir das quais se verificou uma penetração estrangeira gradual em todas as
esferas da vida daquelas, no período que se estendeu desde os anos 800 até 1886 ou seja, entre os séculos IX à XIX.
Relações deste tipo em Moçambique conheceram duas etapas fundamentais:
 Penetração mercantil Afro-asiática e;
 Penetração mercantil Europeia e indiana.

Características da Fase da Penetração mercantil Afro-asiática


 Fixação Árabe Persa na região Austral (costa oriental Moçambicana);
 Intercâmbio comercial entre mercadores Asiáticos e comunidades Moçambicanas;
 Edificação das primeiras sociedades de classes e dos primeiros estados (ex: o Estado de Manyikene, Mwenemutapa e
Marave);
 Surgimento dos Reinos Afro Islâmicos da costa: Sultanatos e Xeicados.
 O produto mais comercializado nesta fase era o ouro;
 Surgimento de núcleos linguísticos na costa norte de Moçambique;
 Estabelecimento dos primeiros núcleos islamizados na costa nortenha de Moçambique;
 Predomínio da cultura swahili no norte de Moçambique.

Características da Fase da Penetração Mercantil Europeia


 A chegada e a penetração mercantil europeia – portuguesa;
 Desenvolvimento do comércio de ouro, marfim e escravo;
 A fixação portuguesa e a fundação da feitoria de Sofala em 1505;
 Conflitos entre Árabes e Portugueses;
 Em 1507 os Portugueses fundam a feitoria na Ilha de Moçambique;
 Em 1522 os Portugueses fundam a feitoria na Ilha da Quirrímbas (Cabo Delgado);
 Em 1530 os Portugueses fundam a feitoria de Sena e Tete
 Em 1544 os Portugueses fundam a feitoria em Quelimane e descobrem a baia de Lagoa (Maputo);
 Fase do ciclo de ouro (séc. IX/XIV-XVII);
 Fase do ciclo do marfim (XVII-XIX);
 Fase do ciclo dos escravos (metade do séc. XVIII até a primeira metade do séc. XIX);
 Emergência dos Estados Militares do vale de Zambeze, Prazos da Coroa e o Estado de Gaza, Ajaua e Afro Islâmicos da
Costa;
 Desagregação de vários Estados moçambicanos.
 Se tivermos em conta aos produtos maioritariamente traficados nestas trocas é possível destacar três ciclos ou fases de
penetração sendo os seguintes:
 Ciclo de Ouro (1505-1693);
 Ciclo de Marfim (1693-1762);
 Ciclo de Escravos (1762-1836), em termos do tráfico legal.

É importante salientar aqui que estas fases se sucederam, sem no entanto significar que o começo
duma etapa fosse a extinção completa da fase subsequente ou anterior. Fora destes três ciclos de penetração (Ouro,
Marfim e Escravos), também foram comercializados os seguintes produtos: pele de animais, carapaças de tartaruga,
cerra de abelha, etc.

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Estas três fases ou ciclos de penetração, são historicamente determinados pelo forte impacto que a procura de cada
uma destas mercadorias teve sobre as comunidades locais.
É também importante referir que a penetração mercantil estrangeira corresponde a primeira grande etapa da
integração da costa oriental africana no comércio internacional. Foi no contexto da penetração mercantil estrangeira
que se fortificaram e desapareceram os grandes Estados e Impérios, formaram-se grandes e pequenos Estados
Militares do Vale do
Zambeze, Reinos Afro- Islâmicos da costa (Sultanatos e Xeicados), os Prazos de Coroa e que algumas estruturas de
parentesco foram abaladas.

A Penetração Mercantil Árabe-Persa (Século IX-XVI)


Contexto Geral da Penetração Mercantil Árabe-Persa em África
A necessidade de expandir a religião Islâmica, a desertificação da parte da Arábia, a procura de mercados seguros, dadas suas
tradições comerciais, foi entre outras razões que levaram a que grupos Árabes, deixassem a sua terra natal – região do Golfo
Pérsico e se fixassem na costa oriental africana a partir do século VII, tendo se sustentado que a primeira fixação em
Moçambique tenha ocorrido nos anos 800 (século IX). A partir do século VII, verifica-se a fixação na costa oriental africana do
povo proveniente do Golfo Pérsico, da Península Arábica, da Pérsia, da Índia e da China.

Factores da Penetração Mercantil Árabe-Persa


De forma sucinta, os factores da penetração mercantil Árabe-Persa foram quatro, a saber: geográficos, técnicos, económicos e
ideológicos.

Factores Geográficos ou Naturais


A península Arábica apresenta-se como um território maioritariamente árido e infértil. A maior parte da paisagem da Península
Arábica é desértica, o que levou os seus habitantes a procurarem novos territórios, não só habitáveis como, fundamentalmente,
propícios para a prática de actividades económicas. A proximidade geográfica de África e, em particular Moçambique também
pode ser considerada um factor da expansão Árabe-Persa. África, ou Moçambique apresentou-se como uma boa resposta para o
povo persa porque era relativamente perto e alcançável por mar e por terra.

Factores Técnicos
A expansão islâmica foi possível também porque os Árabes tinham um grande conhecimento da arte de navegação. Para além da
arte de bem navegar, os islâmicos eram excelentes cartógrafos e consequentemente conheciam bem a costa leste do continente
Africano. Para realizarem uma boa navegação, os Árabes tinham conhecimento consolidados em astronomia.

Factores Económicos
Os Árabes, tanto em outros tempos como na actualidade, foram e são bons comerciantes. África
do século VIII, apresentou-se como um bom mercado tanto para a venda de produtos árabes como para a compra de produtos
africanos.

Factores Ideológicos
Um dos pressupostos de algumas religiões consiste na sua expansão a fim de cativar e converter os fiéis. O Islão também teve
uma fase de forte expansão inicial, logo depois da ascensão de Mahomé. Neste caso, os Árabes expandiram-se para África e, no
caso concreto, Moçambique com a motivação de difundirem o Islão.

Os Contactos ao Longo da Costa e Suas Repercussões


Esta penetração fez-se sentir quase em toda costa oriental africana, desde Mogadíscio na Somália até Sofala em Moçambique.
Foram estes povos que entraram em contacto comercial com os povos africanos, formando-se intermediários no comércio entre
África oriental e Ásia. Esta actividade levou a criação de entrepostos comerciais ao longo da costa oriental, dando origem a
grandes cidades como Mogadíscio, Melinde, Mombaça, Kílwa, Zanzibar e mais tarde a sul da costa de Moçambique
Angoche e Sofala. Entre os séculos IX e XIII encontramos evidências de uma progressiva e lenta fixação de povos provenientes
principalmente do Golfo Pérsico, com objectivos meramente comerciais.

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Consequências da Presença Árabe-Persa em Moçambique
Os contactos com carácter permanente entre as populações moçambicanas na costa norte e os mercadores asiáticos contribuíram
para o desenvolvimento de transformações sociopolíticas, económicas, religiosas e culturais
a) A Nível Político
 Emergiram e desenvolveram-se unidades políticas nas costas de Cabo Delgado e de Nampula com predominância de
características marcadamente não africanas;
 Aprofundamento das desigualdades sociais;
 Os Reinos Afro-islâmicos, tais como o Sultanato de Angoche e os Xeicados de Sangage, Quitangonha e Sancul
tiveram a sua origem na actividade mercantil e foram estruturados exactamente para dar maior dinâmica a essa
actividade; Introdução de artigos que, pela sua raridade, ascendiam, nas formações africanas, a categorias de bens de
prestígio contribuiu para a elevação do padrão de consumo das camadas privilegiadas e estimulou de certa forma a luta
pelo poder. Pode-se sustentar que a presença de mercadores asiáticos contribuiu directamente para um factor externo
que catalisou o processo de formação dos primeiros Estados centralizados em Moçambique.

b) A Nível Cultural
No plano cultural, os casamentos, os contactos comerciais e o surgimento de novos hábitos e línguas resultantes da
fusão de hábitos e línguas africanas e árabes, por exemplo, foram responsáveis pela origem e desenvolvimento da
cultura Swahili na Tanzânia e no Quénia. Em Moçambique a longa coexistência estimulou o aparecimento de novos
núcleos linguísticos nas costas de Cabo Delgado e Nampula: os Mwani na costa de Cabo Delgado; os Naharra na
costa de Nampula e Ilha de Moçambique; os Koti em Angoxe, etc. Outras línguas como o Sena e Ndau em Sofala e
Guitonga de Inhambane preservam empréstimos de Swahili;
As maneiras de vestir, uso de brincos no nariz, nas construções, nos casamentos, no enterramento dos mortos, na
língua…As religiões na costa norte da Moçambique converteram-se ao islamismo;

c) A nível económico
Acumulação por parte dos aristocratas de bens de prestígio. Acumulação primitiva do capital por parte dos comerciantes.
Introdução de algumas culturas como banana, Coco, Laranja, Limão, Cana-de-açúcar e arroz.
A Abordagem Teórica Sobre a Origem do Estado
Sabe-se, que o Estado não existe desde a eternidade. Na comunidade primitiva, por exemplo, onde o trabalho era dividido por
sexo e idade, se praticava a caça e a recolecção, se utilizava instrumentos de trabalho rudimentares, onde a principal forma de
organização social era os bandos e mais tarde famílias alargadas e clãs, onde todos trabalhavam e o produto final era distribuído
deforma igual para todos os membros da comunidade, não se pode falar da existência do Estado, pois não existia a diferenciação
social. Mas, a partir do momento em que o homem descobre a agricultura e a pastorícia, se torna sedentário, introduz novos
instrumentos de trabalho, provocando o aumento da produção (e da população), surgindo o excedente, começam a surgir os
primeiros sinais de diferenciação social, quando os chefes se apropriam dos excedentes da população. Assim, para defender os
seus interesses, os chefes criam uma equipa de pessoas capazes de administrar e organizar a sociedade em seu próprio
benefícios- É o ESTADO.
O Estado foi sempre um aparelho separado da sociedade e composto por um grupo de pessoas a ocuparem-se exclusivamente da
tarefa de governar.
Os homens dividem-se em governados e em especialistas na arte de governar, os quais estão acima da sociedade e se chamam
governantes, representantes do Estado. Este grupo de pessoas que governa os outros, serve-se sempre de instrumentos
ideológicos coercivos: polícia, exército, tribunais, cadeias, religião, imprensa, educação, etc.

Da Antiguidade até aos nossos dias podemos distinguir os seguintes tipos de Estado:
 Esclavagista;
 Feudal;
 Burguês/Capitalista;
 Socialista

O que é Estado, País e Nação?


Estado - é uma comunidade organizada politicamente, ocupando um território definido, (normalmente sob Constituição) e
dirigida por um governo, também possuindo soberania reconhecida internamente e por outros países.
País -Um país é um território social, política, cultural e geograficamente delimitado.

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Nação - Conjunto dos indivíduos, geralmente da mesma raça, que habitam o mesmo território, falam a mesma língua, têm os
mesmos costumes e obedecem à mesma lei.
De forma simplificada, o Estado é uma criação humana destinada a manter a coexistência pacífica dos indivíduos, a ordem
social, de forma que os seres humanos consigam se desenvolver, e proporcionar o bem-estar a toda sociedade.
É o Estado o responsável por dar força de imposição ao Direito, pois é ele que detém o papel exclusivo de aplicar as penalidades
previstas pela Ordem Jurídica.
Assim o Estado pode ser definido como o exercício de um poder político, administrativo e jurídico, exercido dentro de um
determinado território, e imposto para aqueles indivíduos que ali habitam.

Algumas Teorias Sobre a Origem do Estado


1. Teoria Marxista – O Estado é uma organização do poder político numa sociedade de classes, uma máquina destinada a
manter o domínio de uma classe sobre a outra. Como dizia Lenine, “o Estado é o produto e a manifestação do carácter
irreconciliável das contradições de classes. O Estado surge onde, quando e no grau em que as contradições de classes não
podem, objectivamente, conciliar-se. E vice-versa: a existência do Estado demonstra que as contradições de classes são
irreconciliáveis.
Para os Marxistas, o Estado tem funções de tipo técnico - administrativo e de dominação política.
2. Teoria Liberal – a missão do Estado consiste em eliminar todos os obstáculos que se opõem a uma vida agradável, isto é, a
função do Estado reduz-se a assegurar a manutenção da ordem estabelecida, em que os interesses individuais e o jogo livre dos
mesmos constituem o interesse geral.

3. Teoria Totalitária – o Estado substitui-se ao corpo político e identifica-se à comunidade nacional. Pretende-se o único meio
de canalização e de expressão da vida cívica.
4. Para os autores democráticos, o Estado é uma instituição organizada política, social e juridicamente, ocupando um território
definido, onde a lei máxima é uma constituição escrita, e é dirigido por um governo que possui soberania reconhecida interna e
externamente.
5. Teoria da Força - Também chamada “da origem violenta do Estado”, afirma que a organização política resultou do poder de
dominação dos mais fortes sobre os mais fracos.
Dizia Bodim que “o que dá origem ao Estado é a violência dos mais fortes”.

Segundo Jacques Maritain, “O Estado é apenas a parte do corpo político cuja função especial consiste em manter a lei,
governar nos limites da constituição, promover a prosperidade comum e a ordem pública e administrar os negócios públicos. O
Estado é uma parte especializada nos interesses de todos. Não é um homem nem um grupo de homens: é um conjunto de
instituições que se constituem com o objectivo de formar uma máquina reguladora, ocupando o todo da sociedade.”

Os estados de Moçambique e a penetração mercantil estrangeira - O grande zimbábwe


Origem
Nos primeiros séculos da nossa era, antes do século IV, os primeiros agricultores e metalúrgicos bantu chegaram ao sul do
Zambeze, vindos dos Grandes Lagos.
Fixaram-se numa região rica em ouro e misturaram-se com as populações que aí viviam, de origem khoisan. Dedicavam-se à
exploração mineira, tendo localizado a maior parte das minas de ouro actualmente conhecidas. Também se dedicaram à
exploração do cobre, estanho e ferro.
Mais tarde, um grupo separou-se deste núcleo e foi instalar-se ao sul do Limpopo. Deste modo, com os Sotho, Tswana, Tong e
Nguni constituíram a população da região austral de África.
As condições geográficas favoráveis savana sem mosca tsé-tsé, sem paludismo, sem grandes florestas nem pântanos, com uma
pluviosidade suficiente para uma agricultura variada e fácil permitiram a fixação de agricultores e pastores.

No século XI, nova migração trouxe ao planalto entre o Zambeze e o Limpopo, povos pastores shona, grandes construtores de
muralhas de pedra (Zimbábwe), de que restam hoje centenas de ruínas espalhadas pelo território por eles ocupado. Essas
fortificações, designadas por “zimbábwe” que significa “casas de pedra” (normalmente para os chefes), testemunham a
existência de comunidades muito organizadas. O estado do Zimbábwe, entanto que tal existiu, aproximadamente entre 1250 e
1450. As mais importantes dessas ruínas são de as de Mapungumbwe e de Zimbábwe. Em Moçambique, Manyikeni, que fazia
parte do território de Sendanda, foi um dos vários “centros regionais” do Grande Zimbabwe.

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Actividades Económicas
O povo vivia em aldeias e as suas principais actividades económicas eram agricultura, pastorícia, metalurgia de ferro,
comércio e a mineração. Antes da chegada dos mercadores estrangeiro a mineração, praticada em períodos que não
comprometiam a agricultura, tinha como objectivo principal a aquisição da matéria-prima necessária para os artesãos fabricarem
instrumentos de trabalho e objectos de adorno. Com a metalurgia, também faziam enxadas e pontas de setas.
O comércio era uma das actividades do Estado do Zimbabwe e estava muito bem organizado, onde estabelecia relações
comerciais com os chineses, indianos e árabes. O comércio era controlado pela classe dominante que vendia aos árabes ouro,
cobre, ferro, marfim e recebia em troca bens de prestígio, como tecidos, missangas, porcelanas, louça de vidros, etc.

O comércio a longa distancia, alimentado essencialmente de ouro, introduziu bens que nas formações africanas perdiam o seu
valor de troca, passando a circular como bens de prestígio, só acessíveis às classes privilegiadas. Este comércio (sobretudo de
ouro), com mercadores estrangeiros, fez de Manyikeni um entreposto comercial de grande importância. O comércio não
criou o Estado de Zimbabwe, mas desempenhou um papel preponderante ao criar condições para o alargamento do padrão de
consumo e incentivar as ambições territoriais dos chefes. Sustentamos que o Estado de Zimbabwe, não é produto da actividade
mercantil, porque as formações sociais pré-mercantis, do peso considerável dos laços de parentesco, funcionavam com estruturas
bem hierarquizadas e com uma complexidade que já apontava para formas de organização características de um Estado ainda
numa fase embrionária.

Organização Político-Social
A sociedade shona encontrava-se organizada da seguinte forma: no topo estava o rei, que vivia no Grande Zimbabwe, auxiliado
por um Conselho de Anciãos, na base da pirâmide estava a comunidade aldeã, que vivia fora dos Madzimbabwes.
As classes dominantes deviam ter um número aproximado dos mil. A demais população Zimbabweana era composta pelos
camponeses e exploradores mineiros, constituindo o povo e viviam fora das muralhas.
Fontes Económicas do Poder dos Chefes As populações do Estado de Zimbabwe entregavam como tributo produtos como
mapira, bois, cabras, ouro e marfim e tinham que dar ao chefe todos os meses alguns dias de trabalho para a construção de
muralhas.

O Aparato Ideológico - As crenças mágico - religiosas e outras práticas ideológicas, desempenharam, nestas sociedades um
papel muito importante. As crenças mágicas - religiosas constituíam uma arma fundamental do poder, da coesão social e de
aparente imobilidade. O rei e os chefes das linhagens imploravam aos antepassados, para si e para o seu povo, a chuva, saúde,
protecção para a caça e para as viagens. O rei era o elo de ligação entre os vivos e os mortos, possuindo, assim, uma função que
era uma base do poder.

Decadência
A decadência do Estado de Zimbabwe pode estar relacionada com os seguintes factores:
 O abandono pela maior parte dos seus habitantes;
 Conflitos frequentes entre os chefes dos clãs Rozwi e Torwa devido ao controlo do comércio na costa;
 A procura de terras férteis para a agricultura;
 Aumento da população numa região pouco fértil;
 O aumento demográfico na região do planalto e a procura de sal
 A necessidade de troca comercial com os Árabes no Vale do Zambeze;
 A seca do rio Save, que dificultava a comunicação com a costa;

Porém, não são claras as razões do abandono. Aponta-se ainda a invasão do planalto zimbabweano pelo exércitos de Mutota.

Significado do Amuralhado
 Traduziam uma ostensiva demonstração do poder;
 Como instrumento físico do domínio de uma classe, desempenhavam a função de protegê-la militarmente.
 Isto é, os madzimbabwe para além de garantirem a defesa, simbolizavam o poder político e económico das classes
dirigentes.
NB: É importante referir que, o Grande Zimbabwe não constitui nenhum Estado moçambicano. Contudo, o estudo do mesmo é
muito relevante como forma de entender melhor Manyikeni (que constituía um entreposto comercial de Zimbabwe) e também,
para compreender mulher a origem do Estado dos Mwenemutapas, que é consequência directa do declínio do Grande Zimbabwe.

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O Estado dos Mwenemutapa
Origem
O Império de Mutapa floresceu entre os séculos XV e XVII na região a sul do Zambeze estendendo-se provavelmente até ao rio
Limpopo. Os seus limites compreendiam ainda os planaltos de Zimbábwe e o Oceano Índico. Foi um dos mais importantes e
poderosos impérios que ocupou as terras moçambicanas antes da penetração colonial neste país.
Documentos orais indicam que entre 1440 e 1450, Nyantsimba Mutota, um homem que vivia no Grande Zimbábwe, saiu da sua
terra e fixou-se em Dande, no vale do rio Zambeze, levando consigo seus guerreiros, familiares e gado. Entre as razões que
levaram a migração são:
 A procura de terras férteis para agricultura e pastorícia;
 As lutas entre famílias ou clãs pelo controlo do comércio com o exterior;
 A procura de sal, etc.

A região do vale do Zambeze permitia o acesso ao mar, o que facilitava em grande parte o comércio com os árabes que vinham
até a costa moçambicana. Alguns autores como D. P. Abraham, refere que o Estado dos Mwenemutapas foi fundado por um
membro dissidente da dinastia do Grande Zimbabwe, chamado Mutota. Outros ainda, como Pacheco (1883:206), referem que a
sua origem foi o resultado de um processo de infiltração de invasores caçadores de elefantes que vinham do sul, das regiões de
Shangwe-Dande-Chidima durante um período prolongado de seca, do qual Mutota era chefe.
Outros ainda referem que é provável que a fixação dos Swahili em Angoche, Ilha de Moçambique e Quelimane, antes da
chegada dos portugueses, esteja relacionado com o surgimento deste império. Newitt (1982:358),afirma que esta última posição
é defendida porque a fixação Swahili na segunda metade do século XV, coincide com o período da emergência do Monomotapa.
O Estado dos Muenemutapas nasceu do deslocamento da parte da população do Grande Zimbabwe para o vale de Zambeze, sob
a direcção do clã Rozwi. Da desintegração do Zimbabwe nasceram dois Estados:
 A população que ficou na região do Grande Zimbabwe, do Estado Zimbabwe, sob direcçãodo clã Torwa, formou o
Estado de Torwa, com a capital em Khami;
 A população que se deslocou para a região do vale do Zambeze, sob direcção do clã Rozwi, chefiado por Nhantsimba
Mutota, formou o Estão Muenemutapa, por volta de 1450, com capital em Dande, ou Zuangombe, localizada entre-os-rios
Mazoe e Luia.
Foram várias as razões que levaram Nhantsimba Mutota a transferir o seu Estado de Zimbabwe para o vale de
Zambeze, tais como:
 Conflitos frequentes entre os chefes dos clãs Rozwi e Torwa devido ao controlo do comércio na costa;
 A procura de terras férteis para a agricultura;
 Aumento da população numa região pouco fértil;
 A necessidade de troca comercial com os Árabes no Vale do Zambeze.

O Estado dos Muenemutapas nasceu da desintegração do Estado Zimbabwe, por volta de 1450.
Para Souto (1996:40), sitando Mudenge, afirma que, após a morte de Mutota, sucedeu-lhe seu filho Matope, que foi,
provavelmente, o maior conquistador e governante de todos os mutapas, conquistando diversos territórios e desenvolvendo
políticas de alianças. Foi entre 1450 a 1500 que iniciou o período de ascendência política do Monomotapa a norte do actual
Zimbabwe e sul da província de Tete. A questão de sucessão, foi sempre um dos grandes problemas dos Estados em África, na
medida em que ela era um teste crucial à estabilidade do Estado, tendo conduzido muitas vezes a lutas sangrentas e à sua
fragmentação.
O Estado do Monomotapa não ficou isento deste problema, sendo uma das maiores fraquezas do seu sistema estatal, na medida
em que, o sistema de sucessão colateral produzia mais do que um pretendente ao trono. Mudenge refere, por exemplo que das 28
sucessões que tiveram lugar no Estado dos Monomotapas entre 1692 e 1902, a força militar foi usada em 16 delas.

Formação
O processo de formação do Estado Muenemutapa foi através de violentas campanhas militares, tendo conquistado e submetido
maior parte das populações dos pequenos reinos, tornando-se o chefe dos Muenemutapas. O grosso dos efectivos do grupo
invasor deu origem no vale de Zambeze a uma etnia denominada pelos povos locais por Macorecore. O Império Mwenemutapa
era uma aliança das tribos Shona, que se agruparam à volta de Mutapa, o chefe do clã Rozwi. O núcleo dirigente do grupo
invasor que deu origem a essa dinastia constituiu-se desde o início em aristocracia dominante, dominando as populações
preexistentes no local.

16
Limites do Estado dos Muenemutapas
Os Muenemutapas organizaram um imenso território cujos limites se estendiam do rio Zambeze ao Limpopo e do Oceano Índico
ao deserto de Kalaari, isto é:
 A Sul, pelo rio Limpopo;
 A Norte, pelo vale do Zambeze;
 A Este, pelo Oceano Índico; e
 A Oeste, pelo deserto de Kalaari.

Organização Social, Política e Administrativa do Estado

O poder central localizava-se entre-os-rios Luia e Mazoe e era circundado por uma cintura de Estados vassalos ou satélites, entre
os quais encontram-se: Sedanda, Quiteve, Quissanga, Manica, Bárue, Maungwe, etc. As classes dominantes desses Estados,
constituídas por parentes dos Muenemutapas e por estes nomeados, tinham tendências a rebelar-se quando o poder central
enfraquecia.
A sociedade Chona estava dividida em dois níveis socioeconómicos distintos:
- A comunidade aldeã (a Musha ou o Incube), relativamente autárcica e estruturada pelas relações de parentesco, e a
- Aristocracia dominante, que controlava o comércio a longa distancia e a vida das comunidades.

Estrutura Político-administrativa

Mwenemutapa – Chefe Supremo


1

Mazarira, Inhaahanda e Nambuzia – as três principais mulheres do


2
soberano, com funções importantes na administração.
Nove altos Funcionários – responsáveis pela defesa, comércio,
3
cerimónias mágico-religiosas, relações exteriores, festas, etc.
Mambos – chefes dos reinos conquistados.
4

Fumos ou Encosses – chefes provinciais


5

Mukuru ou Mwenemusha – chefes das mushas (comunidades


6
aldeãs)
Linhagem – unidade produtiva base, constituída por parentes
7
consanguíneos.

A estrutura sócio-económica:

A sociedade shona estava dividida em dois níveis sócio-económicos distintos: a comunidade aldeã (musha ou incube) e a
aristocracia dominante.
A articulação entre a aristocracia dominante e as comunidades aldeãs encerrava relações de exploração do homem pelo
homem, materializadas pelas obrigações e direitos que cada uma das partes tinha para com outra.
As comunidades aldeãs (mushas), sob a direcção dos mwenemushas garantiam com o seu trabalho a manutenção e a reprodução
da aristocracia, e esta concorria para o equilíbrio e reprodução social de toda a sociedade shona com o desenvolvimento de
inúmeras actividades não directamente produtivas.

a) Obrigações das mushas:


Impostos em trabalho
 Mineração do ouro quer para alimentar o comércio à longa distância quer para a importação de produtos que na sociedade
shona ascendiam á categoria de bens de prestígio (os jazigos auríferos situavam-se essencialmente nas terras planálticas –
Chidima, Dande, Butua e Manica)
17
 Prestação de alguns dias de trabalho nas propriedades dos chefes (zunde);
 Construção de casas para membros das classes dominantes;
 Transporte de mercadorias de e para os estabelecimentos comerciais.
Imposto em géneros:
 Primícias das colheitas (tributo simbólico) e uma parte da produção (tributo regular);
 Marfim, peles e penas de alguns animais e aves respectivamente;
 Materiais para a construção da classe dominante: pedras, palhas, etc..

b) Obrigações da classe dominante:


 Orientar as cerimónias de invocação das chuvas;
 Garantir a segurança das pessoas e dos seus bens;
 Assegurar a estabilidade política e militar no território;
 Servir de intermediário entre os vivos e os mortos;
 Orientar as cerimónias mágico-religiosas contra as cheias, epidemias, calamidades naturais, etc.

A base económica e riqueza do Estado situava-se sobretudo na agricultura, na pastorícia, no comércio, mineração, tributos, taxas,
presentes e na manufactura de indústrias de pequena escala.

A ideologia
A religião foi um factor integrador fundamental do sistema político shona. Proprietários do “saber”, garantes da fecundidade da
terra e depositários da ordem do mundo, os mwenemutapas constituíam os antídotos mais eficazes contra o caos.
Um culto forte entre os shona era o dedicado aos espíritos dos antepassados, os MUZIMU, que comportaria os antepassados de
cada um, bem como os antepassados de cada linhagem. Entre os MUZIMU, os mais representados e temidos, eram os dos reis.
Era prática regular as classes dirigentes do Estado de Mwenemutapa e dos estados satélites, contactarem os seus MUZIMU,
através de especialistas médiuns, designados por SWIKIROS. Estes estavam associados ao poder político e especialmente às
sucessões. Eles eram o suporte das classes dirigentes e, estas, as executoras das ordens dos antepassados, mortos em vida e vivos
na morte.

A decadência:
Decadência do Império de Muenemutapa
Os Mwenemutapas dominaram na zona sul do rio Zambeze até finais do século XVII, perdendo depois a sua posição em favor
da dinastia dos Changamires, cujo papel no levante armado contra a penetração mercantil portuguesa foi de grande importância.
A decadência do Estado de Muenemutapa iniciou por volta de 1480, após a morte de Matope devido a vários factores dos quais
se destacam:
 A luta pelo controle do comércio;
 A fixação de mercadores portugueses na costa moçambicana a partir de 1505, com a ocupação de Sofala, introduzindo
profundas transformações na estrutura socio-política e económica da sociedade Shona, contribuindo para a decadência
do Estado Muenemutapa;
 As lutas pela independência dos Mambos sobre influência dos árabes favoráveis a tais independências uma vez que eles
obteriam vantagens no comércio do ouro com o território do império;
 Traições de certos Muenemutapas, especificamente o acordo de Mavura com os Portugueses;
 A invasão dos povos Nguni provenientes da Zululândia, liderados por Zuangendaba e
Mzilikazi;
 Desenvolvimento dos Prazos do Vale do Zambeze;
 Intervenção dos Portugueses nos assuntos internos do Estado e a intensa cristianização prosseguida pelos missionários.
NB: Quando morria o Muenemutapa e até à eleição do novo Mambo, o poder era exercido por um personagem que usava o
nome de Nevinga sem ser portador de qualquer atributo régio, era morto logo após a eleição do mambo de direito.

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Questionário
1. Completa o quadro
Estado Ano da Actividades Organização Classes Formas de Fontes Económicas Ideologia Decadência
fundação Política/Admi- do poder dos chefes
Económicas Sociais Exploração
nistrativa

Zimbabwe
Mutapa

. Exercícios-1
1. Dê o conceito de cronologia, periodização, História e fontes de História.
2. Diferencia cronologia da periodização.
3. Explica a importância da cronologia para o estudo da História

Exercícios-2
1. Dê o conceito de Bantu.
2. Identifique as causas da expansão Bantu.
3. Faça a localização das rotas da expansão bantu.
4. Identifique as teorias da expansão bantu.
5. Explique a importância do uso de ferro para as comunidades Bantu
6. Caracteriza o povo Bantu nos aspectos políticos, sociais, economico
Exercícios-3
2. Muito antes da chegada dos portugueses ao território que hoje é Moçambique já aqui comercializavam os asiáticos
muito em particular os árabo-persas e Swahili.
a) Identifique os vestígios resultantes da influência destes mercadores da Ásia.
3. Desde quando Sofala é referida nos relatos árabes?
4. A primeira fase da penetração mercantil (que antecedeu a chegada dos europeus à Moçambique), correspondeu à
primeira etapa da integração da costa oriental africana no comércio internacional.
a) Indica os principais intervenientes nesta fase.
b) Há quem diga que ”o comércio teria criado condições para o início da exploração dos Estados Moçambicanos “Concorda com
esta afirmação? Justifica a tua resposta
Exercício 4
1 Explica o processo que ditou o surgimento da diferenciação etnolinguistica em Moçambique
2 Caracteriza as sociedades matrilineares e patrilineares
3 Explica com detalhes o processo do surgimento do Estado
4 Explica até que ponto o Estado se apoia das seguintes instituições ( religião, exercito, tribunais, educação, policia) no seu
funcionamento
5 Questionário 5
1 Quais foram os factores da penetração mercantil árabe persa em Moçambique?
2 Entre os Árabes e os portugueses quem chegou primeiro?
3 Explica as consequências para Moçambique da presença Árabe nos níveis políticos, económicos, sociais e cultural
Questionário 6
1 Localize o Grande Zimbabwe
2 Quem foram os povos fundadores deste Estado?
3, teria sido o comércio responsável pela criação deste Estado? Justifica a sua afirmação
4. Menciona as principais actividades económicas deste reino
5. Explica a sua organização social e os factores da sua decadência
6 Qual era o significado dos amuralhados?
Questionário 7
1 Explica a os factores da fundação e o fundador do Estado dos Mwenemutapas
2,localize este Estado e mencione as suas actividades económicas, os estados satélites e as classes sociais deste
estado e as suas obrigações.

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