Antes de eu fazer 5 anos, morava com meus pais.
Me lembro
que todo final de semana saímos para lugares pra ter mais
tempo em família, curtir e rir bastante.
Em um dia qualquer recebi a notícia que me devastou por
meses, meu pai havia morrido em um acidente de carro. Minha
mãe ao ouvir isso caiu em lágrimas. Para uma criança de
apenas 6 anos ainda era bastante confuso, eu não estava
entendendo o porquê da minha mãe estar chorando. Me
perguntei diversas vezes se eu havia feito algo que a tivesse
feito ficar assim.
Depois de escutar a frase: ´´ O seu pai foi morar com os anjos,
filho´´ entendi o porquê da mamãe estar tão triste assim.
Com o passar dos meses, mamãe ficou muito diferente do que
costumava ser antes. Ela saía todas as noites, me deixava com
fome e simplesmente fingia que eu não existia. O sorriso que
antigamente ela tinha foi substituído por uma carranca, olhos
vermelhos e inchados, um rosto totalmente o contrário do que
costumava mostrar antes do meu pai morrer.
A cada dia que passava, minha mãe se tornava algo que nem
mesmo conseguia controlar. Eram madrugadas em festa e se
afundando cada vez mais no álcool.
Eu tentava diversas vezes ajudá-la, mas ela sempre gritava
comigo.
É horrível você tentar salvar alguém que não quer ser salvo.
Como sempre, mamãe estava em uma festa ou em algum bar
qualquer só para se afogar nas garrafas de cerveja e fingir que
está superando tudo, mas na realidade não está.
Eu conheço a mulher que me deu a luz, ela não está bem, eu
também não estou completamente bem, mas temos que
superar e seguir em frente.
Na mesma madrugada, me levantei para beber um copo de
água. Olhei para os lados e mamãe ainda não havia voltado.
Abri a geladeira, peguei um copo e o enchi de água. De
repente, ouço o barulho alto das chaves do lado de fora do
nosso apartamento. Corri para a porta esperando que fosse
mamãe. Quando a porta foi aberta, vi uma mulher frágil, olhos
vermelhos e fundo por causa de noites mal dormidas, era
mamãe, ou uma mulher que costumava ser ela.
Observei a aparência desgrenhada da mulher que havia me
dado a luz, não era bonita. Eu não quero essa versão de
mamãe, eu me recuso a aceitá-la.
Por favor, Deus traga a minha mãe de volta.
Ela me observou de cima a baixo e fez uma cara de nojo
-Sai da frente, Peter -disse irritada, me empurrou com força e
eu bati minha cabeça na quina da mesa onde ficava a TV.
Coloquei a mão na cabeça para massagear a dor, mas senti um
cheiro de ferro. Tirei a mão da cabeça para ver e me assustei.
Era sangue, era o meu sangue.
Comecei a chorar instantaneamente, pois a dor estava
começando a ficar pior. Olhei para mamãe esperando que ela
pudesse vir me ajudar, mas o meu choro a irritou muito mais.
Ela veio na minha direção com seus passos moles e
desajeitados por estar embriagada. Parou na minha frente, me
puxou pelo colarinho e acertou um tapa estridente em meu
rosto.
Virei meu rosto para o lado pela força do impacto, a marca da
mão de mamãe com certeza iria ficar visível em meu rosto por
dias. Antigamente, mamãe nunca levantava o tom de voz ou a
mão para mim. Nunca.
-Engole o choro, eu não quero ouvir mais nenhum pio, você
me entendeu? - Disse aos gritos e lágrimas escorreram do meu
rosto.
-Era pra você ter morrido no lugar do seu pai, seu moleque
idiota -Acertou o meu rosto mais uma vez e senti o gosto
metálico em minha boca.
-Por que, Peter? Era pra você ter morrido. Eu te odeio tanto, o
meu desejo era que você sumisse, mas infelizmente eu tenho
que cuidar de ti. Você é um inútil, só serve para chorar e me
irritar.
Com o passar do tempo, as agressões ficaram mais frequentes.
Todas as vezes que ela saiu me agredia.
5 ANOS DEPOIS:
Agora que eu já tinha 15 anos, entendi a minha verdadeira
paixão. Eu sou completamente apaixonado pela ciência. Eu
amo muito, meu sonho é ser cientista.
Na escola, tínhamos acabado de começar o nono ano. E, com
isso, veio algumas complicações. Muitas matérias difíceis, mas
nada que eu não consiga passar.
Mesmo que eu tenha problemas em casa com a minha mãe, eu
nunca deixei de estudar. Na minha cabeça, se eu estudasse
bastante e desse orgulho pra minha mãe, talvez ela parasse de
fazer isso comigo.
Quando começamos a estudar as mutações genéticas, foi a
gota d'água. Estudei e fiz perguntas que nem um maluco, mas
o importante é que sempre tirei 10 em biologia e química.
Eu passava a maior parte do tempo trancado no quarto
estudando. Me recusava a sair do quarto. Se eu só pisasse um
pé fora do quarto eu já sofreria agressões. Então, eu me recuso
a sair desse quarto.
Como eu já estava acostumado com as saídas dela, já nem me
importava mais com as vezes que ela aparece bêbada. Mas
tudo mudou quando ela vendeu os meus livros e
principalmente o que eu tinha do ´´Theodore L. Brown´´. Esse
livro custou metade do meu salário.
E ela simplesmente vendeu, pois não tinha mais dinheiro para
comprar mais álcool. Fugi de casa muito irritado. Não sei para
onde ir, mas de uma coisa eu sei, me recuso a voltar pra casa.
Eu odeio tudo lá e odeio principalmente a mulher que vive lá.
Corri para um lugar qualquer. Não me importo com o frio
congelante que está, eu só não quero voltar pra casa. Avistei
uma parada de ônibus abandonada e resolvi que iria pelo
menos tentar dormir um pouco. Me deitei e acabei cochilando.
O sonho foi maravilhoso e muito melhor do que a minha vida.
Lá, a minha mãe me amava, meu pai estava vivo e orgulhoso
de mim.
-Peter? É você?- Ouvi essa voz arrastada em meio sonho. Fui
sacudido e acabei acordando.
-Senhora Davis? O que a senhora está fazendo aqui? -Esfreguei
meus olhos pra ver se era mesmo verdade.
-Eu vi você aqui e fiquei preocupada. Mas o que você está
fazendo aqui? Esse bairro é muito perigoso, a sua mãe deve
estar preocupada com você.
Confesso que senti uma vontade de sorrir. Aquela mulher
estaria preocupada com qualquer coisa, menos comigo. Mamãe
nunca se preocupa comigo.
-Senhora, minha mãe não se preocupa comigo, disso eu te
garanto. -Ela fez uma careta confusa.
-Como assim? -perguntou preocupada.
Expliquei a minha situação para ela. A senhora Davis ficou
horrorizada a cada vez que contava as agressões que sofria de
Emily, minha mãe. Lágrimas desceram de seus olhos e ela me
abraçou como se a qualquer momento eu fosse quebrar que
nem um boneco de porcelana.
-Eu sinto muito, Peter. Nunca imaginei que você estava
passando por isso. -Limpou as lágrimas e me afastou do abraço
-Você tem algum lugar para onde ir? -Neguei com a cabeça e
ela deu um sorriso fraco
-Pronto, você vai dormir lá em casa. Irá dormir no quarto do
meu falecido filho, tudo que lá está arrumado.
A senhora Davis já era uma senhora de idade, na faixa etária
de 54 anos. Era uma mulher gentil e muito bondosa. Há 7 anos
atrás, o filho dela foi assassinado por um bandido em um
assalto. Ele reagiu e o bandido o assassinou. Senhora Davis
passou um ano afastada da escola para poder se recuperar e
se acostumar a viver sem o filho. É triste, mas todos os nossos
parentes só querem o nosso bem, mesmo que infelizmente eles
não estejam mais conosco.
Peguei minha mochila e a segui até sua casa. O local era
pequeno, mas muito aconchegante. A casa tinha molduras de
madeira como se estivessem há muito tempo.
Ela me levou até o quarto e sorriu ao ver as antigas coisas do
filho.
-Pronto, você vai dormir aqui. Se precisar de alguma coisa é só
chamar -sorriu e depois saiu. Fiquei admirado pela beleza do
quarto. Ele era lindo e havia fotos de jogadores de basquete.
Acordei com o cheiro de panqueca e mel no ar. Me levantei da
cama e fui em direção ao cheiro. Era a senhora Davis que
estava fazendo o café da manhã. Ao ver a senhora Davis fazer
o café da manhã, me lembrei de Emily, amada e adorada mãe
que era. Todas as manhãs, Emily sempre fazia café para mim e
pro meu pai. Mas agora isso é apenas uma lembrança que não
volta mais.
-Você já acordou? Desculpa se fiz muito barulho.
-Não precisa se desculpar, eu só acordei porque o cheiro está
delicioso.
Ela colocou as panquecas na mesa e serviu o meu prato.
-Peter, se você quiser pode vir aqui mais vezes. Eu adoraria ter
a sua companhia.
-Claro, com certeza eu irei vir aqui mais vezes. Me desculpe
caso eu tenha dado trabalho.
A partir desse dia passei a ir com mais frequência na casa da
senhora Davis. Ela é uma mulher incrível, fofa, atenciosa, ela é
como se fosse uma mãe pra mim
-Peter, o que você acha de morar aqui? Eu amo muito a sua
companhia -Sorriu e depois me abraçou. Senti o seu corpo ficar
trêmula e sua voz ficar arrastada.
-Você me lembra ele, Peter -Se afastou e disse com lágrimas
nos olhos.
-Você me lembra o meu filho
-Senhora, eu não sei se realmente devo morar aqui.
- É claro que pode. Você já é de casa.
Voltei para casa pra arrumar minha coisa e me mudar.
Finalmente irei sair desse lugar. Eu não aguentava mais viver
naquele lugar. Ao abrir a porta vi minha mãe sentada no sofá,
uma garrafa de cerveja estava em suas mãos.
Ignorei sua presença e fui direto para o quarto arrumar minhas
coisas.
-Aonde você pensa que está indo? -Disse com a voz
embriagada. Ignorei sua pergunta e continuei a colocar minhas
roupas na mochila. Ela se aproximou e jogou a garrafa na
parede. Por pouco a garrafa não acertou o meu rosto.
-VOCÊ ESTÁ ME OUVINDO? SEU MERDINHA. - Serrei os dentes e
segurei a minha vontade de sair correndo.
-Eu não vou mais viver aqui, não aguento mais você me
agredindo e me maltratando.
- E você vai morar aonde? Embaixo da ponte? Você só tem eu,
garoto. Não viaja, moleque. -Disse em um tom de zombaria e
se afastou, indo em direção a porta.
-Se eu for morar embaixo da ponte ou não, isso não é da sua
conta. Vê se vive bem, nunca mais quero ver você. Você é um
monstro. -Saí do quarto às pressas. Nunca mais quero voltar
para esse lugar.
-Peter, Peter. Volta aqui agora. -Ordenou, e pela primeira vez
eu não senti medo, eu estava feliz.
-VOLTA AQUI, GAROTO -Começou a gritar que nem uma maluca
-SE VOCÊ FOR NUNCA MAIS VAI VOLTAR PARA ESSA CASA. -
Gritou irritada e eu ignorei, apenas saí de casa.
Lágrimas escorreram do meu rosto, mas elas não eram de
tristeza, e sim de felicidade. Finalmente eu saí daquele lugar.
Nunca mais quero ver aquela mulher. Nunca mais voltarei para
aquele lugar. Nunca mais.
Mas de uma coisa eu tenho certeza, aquela mulher vai me
pagar, nem que seja a última coisa que eu faça na vida. Eu vou
fazer ela se arrepender , pode ter certeza.
Cheguei na casa da Senhora Davis e ela me recebeu com o
maior carinho do mundo.
A partir desse dia conheci o verdadeiro significado de amor
materno. Davis me trata com muito carinho. No começo achei
que ela era igual Emily, mas ela nunca se tornou um monstro
que nem aquela mulher era. Davis ou melhor, Luce, minha
nova mãe.
Luce e eu fomos para a delegacia denunciar Emily por tudo o
que ela fez comigo. Agressões, noite em que passei fome e até
mesmo o seu vício em álcool e algumas substâncias ilícitas.
Emily foi condenada a 15 anos de prisão a regime fechado.
Luce infelizmente não era a minha mãe biológica, mas
independentemente disso, ela virou minha verdadeira mãe…
Com o passar do tempo, estudei e estudei que nem um maluco.
Eu nunca irei desistir dos meus sonhos. Eu vou me tornar um
cientista.
Luce sempre me apoiou e me incentivou a estudar química,
biologia e ciências. A cada dia que passava eu ficava mais
inteligente e me apaixonava mais pela minha profissão.
Quando fiz 19 anos, fui aprovado em uma das melhores
universidades que tem na cidade, a renomada Harvard. Fiquei
extremamente feliz com a notícia, mas o que mais me ansiava
era a minha sede por vingança. Querendo ou não, Emily iria
pagar por tudo o que me fez sofrer. Eu iria fazer ela pagar. Esse
momento vai chegar, e quando chegar eu vou faze-lá sofrer.
Os anos em Harvard foram um borrão focado, uma imersão
quase monástica nas disciplinas que prometiam as chaves para
remodelar a própria vida – ou, mais precisamente, para
desmantelar outra.
Mergulhei nos estudos de biologia humana, química, física e
biomedicina com uma intensidade que beirava o fanatismo.
Meus professores me viam como um prodígio, um talento bruto
com uma sede insaciável de conhecimento.
Mal sabiam eles que cada equação dominada, cada processo
celular mapeado, cada isótopo radioativo compreendido era
apenas mais uma ferramenta afiada para o meu arsenal, mais
um passo calculado na longa marcha para a vingança.
[...]
Não me contentava com os currículos. Devorava artigos
obscuros, explorava teorias de fronteira, aquelas que a
comunidade científica respeitável hesitava em tocar.
Comecei a ver o corpo humano não como um templo sagrado,
mas como uma máquina complexa, um conjunto de sistemas
bioquímicos e elétricos que poderiam ser... otimizados. Ou
corrompidos.
A ideia de que o fim justifica meios extremos, que o avanço do
conhecimento (ou a satisfação pessoal) pode exigir sacrifícios –
começou a permear meu pensamento.
Não buscava criar vida, mas sim dissecar e alterar uma
existência que me causara dor incomensurável.
Minha mãe adotiva, a querida Senhora Davis, via meu sucesso
acadêmico com orgulho, alheia à escuridão que crescia sob a
superfície. Para ela, eu era a prova viva de que a adversidade
podia ser superada, um testemunho de resiliência.
Ela me ofereceu um lar, apoio e amor genuíno, e uma parte de
mim sentia uma pontada de culpa por usar essa segurança
como plataforma para meus planos sombrios. Mas a imagem da
minha mãe biológica, bêbada, gritando que eu era um erro, que
me odiava, era um fogo frio que consumia qualquer hesitação.
Enquanto os anos passavam, meus três experimentos deixaram
de ser meros conceitos raivosos de um adolescente ferido e se
tornaram protocolos detalhados, repletos de cálculos precisos,
listas de materiais e cronogramas.
Fui atrás da mulher que me deu a vida para dar início ao meu
verdadeiro plano.
O Experimento 1, o transplante de órgãos animais, evoluiu.
Percebi que a rejeição imunológica seria um obstáculo quase
intransponível e grosseiro. Minha abordagem tornou-se mais
sutil: o uso de xenoenxertos celulares modificados, células-
tronco animais induzidas e reprogramadas, destinadas a se
integrar – ou falhar espetacularmente – nos sistemas da cobaia.
O objetivo não era a cura, mas a observação da instabilidade
biológica, a introdução de um elemento alienígena no âmago
do seu ser.
O Experimento 2, a alteração do DNA via radiação, tornou-se
um estudo de precisão macabra. Não se tratava de bombardear
aleatoriamente, mas de usar feixes de radiação ionizante
cuidadosamente calibrados, talvez combinados com vetores
virais modificados para entregar cargas genéticas específicas,
visando sequências associadas à memória, ao envelhecimento
celular, talvez até à própria capacidade de sentir empatia.
Queria reescrever não apenas seu corpo, mas a essência do
que restava dela, observando as aberrações se manifestarem
em nível molecular e comportamental.
O Experimento 3, a busca pela "pior" mutação, era o mais
filosófico e, talvez por isso, o mais perturbador. Não era sobre
criar um monstro físico, mas sobre induzir um estado de
existência que fosse uma tortura contínua.
Seria uma falha neurológica que a deixasse consciente, mas
incapaz de interagir? Uma condição degenerativa acelerada
que a fizesse testemunhar o próprio corpo desmoronar em
tempo real? Ou talvez uma alteração psicológica que a
prendesse em um loop de seus piores medos e
arrependimentos? A radiação seria a ferramenta, mas o
verdadeiro experimento era definir e infligir o sofrimento
máximo dentro dos limites da biologia…
Os quinze anos da sentença da minha mãe biológica se
esvaíram como areia na ampulheta. Usei meu brilhantismo
acadêmico e as conexões que fiz para garantir acesso a
recursos que normalmente estariam fora do alcance de um
recém-formado.
Fundos de pesquisa desviados sutilmente, equipamentos
"emprestados" de laboratórios universitários tarde da noite,
produtos químicos adquiridos através de canais menos
escrupulosos.
Montei meu laboratório não em um porão gótico, mas em um
espaço alugado discreto, isolado, com paredes revestidas de
chumbo e sistemas de ventilação independentes – um
santuário estéril para a minha ciência profana.
O dia da libertação dela chegou. Eu a esperei do lado de fora
do presídio, não com um cartaz ou um abraço, mas com a
postura fria de um pesquisador observando um espécime ser
liberado de volta ao seu habitat – ou, neste caso, para um novo
tipo de cativeiro.
Ela estava visivelmente envelhecida, os anos de prisão e a
abstinência forçada do álcool haviam deixado suas marcas,
mas havia também um olhar diferente, talvez um vislumbre de
remorso, ou apenas o vazio de quem perdeu tudo.
— Filho? —
sua voz era um sussurro rouco, [Link] não respondi ao
título. Aproximei-me com a calma calculada que havia
aperfeiçoado.
— Há assuntos pendentes entre nós. E eu tenho... propostas
para o seu futuro. Um lugar para ficar, cuidados médicos.
—Minhas palavras eram precisas, clínicas. Desesperada, sem
ter para onde ir, ela aceitou. A confiança de uma mãe, mesmo
uma quebrada e abusiva, no filho que ela rejeitou, era uma
variável patética e previsível. Levei-a para o meu "santuário".
O medo começou a surgir em seus olhos quando viu o
equipamento, a esterilidade do ambiente, a falta de qualquer
conforto doméstico. _Mas era tarde demais..._
Os experimentos começaram. Não com agulhas e gritos
imediatos, mas com "suplementos nutricionais"
cuidadosamente dosados, "terapias de luz" que eram, na
verdade, exposições controladas à radiação, e "tratamentos
regenerativos" que introduziam as células modificadas em sua
corrente sanguínea. Eu monitorava cada parâmetro vital, cada
alteração em seus exames de sangue, cada mudança sutil em
seu comportamento ou cognição.
[...]
Meus cadernos se enchiam de observações frias e objetivas:
*Dia 17: Início de leve tremor nas extremidades. Marcadores
inflamatórios elevados consistentes com resposta a
xenoenxerto celular. Cobaia relata 'cansaço incomum'.
*Dia 35: Exposição direcionada à região do hipocampo
(Protocolo Exp. 2). Observada dificuldade crescente em tarefas
de memória de curto prazo. Aumento da irritabilidade. A cobaia
questiona a natureza do 'tratamento'. Sedação leve
administrada.
*Dia 58: Lesões cutâneas anômalas surgindo nos antebraços.
Biópsia revela proliferação celular atípica, origem
indeterminada (Exp. 3). Cobaia demonstra sinais de paranoia,
mencionando 'sombras' e 'sussurros'. Resposta neurológica à
radiação (Exp. 2/3) ou deterioração psicológica induzida?"A
parte mais macabra não era a transformação física, que era
sutil no início, mas a erosão de sua identidade. Ela se tornava
mais fraca, mais confusa, mais temerosa.
[...]
As memórias que eu queria que ela confrontasse – as noites de
bebedeira, os gritos, os tapas – pareciam se fragmentar e se
misturar com delírios induzidos. A "pior mutação" talvez
estivesse se revelando não como uma monstruosidade física,
mas um lado estremamente frágil de si mesma...
[...]
Eu observava tudo com um distanciamento gélido. Aquele
menino de 10 anos chorando no corredor havia desaparecido,
substituído por algo que via a mãe não como a mulher que o
abandonou e agrediu, mas como um conjunto fascinante de
dados biológicos respondendo a estímulos cuidadosamente
aplicados. A vingança não era um ato de paixão, mas a
conclusão lógica de um experimento longamente planejado.
Não havia gritos lancinantes ou sangue nas paredes. O horror
era silencioso, clínico, medido em gráficos de computador e
notas de laboratório. Era o horror de um filho que se tornou tão
desumanizado pela dor que infligir sofrimento se tornou apenas
mais uma forma de pesquisa.
Ela pagaria, não com a morte rápida, mas com a lenta e
observada desintegração de seu corpo e mente, uma obra-
prima de ciência aplicada, dedicada ao menino que ela destruiu
e ao monstro que ele se tornou.
O experimento final, a definição da "pior mutação", continuava.
E eu, o cientista, o filho, e também, como claro, o vingador,
continuaria a observar, a registrar, a melhorar meus métodos,
talvez buscando novas cobaias no futuro. Afinal, o
conhecimento é ilimitado, ou seja, "se posso descobrir algo,
então deverei fazê-lo, independente do preço a se cobrar não
é?"
E algumas dores só podem ser compreendidas através da
dissecação de seu próprio ser…