CAPÍTULO 49
O RESÍDUO DE NIÓBIO E SUAS POTENCIAIS
APLICAÇÕES NA CONSTRUÇÃO CIVIL: UMA REVISÃO
DA LITERATURA
[Link]
ALVES; Jordane G.S.1; MAZZARO; Filipe S.1; ALMEIDA; Fernando C.R.1
1
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
E-mail do autor correspondente: fernando@[Link]
RESUMO: A construção civil é responsável por uma alta emissão de gases estufa e extração
de grandes volumes de recursos naturais. Uma alternativa para mitigar esse problema é
a substituição de componentes de concretos e argamassas pelos rejeitos da mineração.
O presente artigo objetiva apresentar uma revisão da literatura sobre rejeitos gerados
no processamento do nióbio e a viabilidade técnica de seu uso na construção civil. A
substituição de materiais convencionais por esse resíduo contribui para a melhoria das
propriedades dos compósitos cimentícios e diminui os impactos causados pela construção
civil.
PALAVRAS-CHAVES: Concreto, rejeito, nióbio.
ABSTRACT: Civil construction is responsible for high greenhouse gas emissions and
extraction of large volumes of natural resources. One of the alternatives to mitigate this
problem is the incorporation of mining wastes in concrete and mortars. This article aims
to present a review of the literature on tailings generated in the processing of niobium and
the technical feasibility of its use in civil construction. The replacement of conventional
materials by this residue contributes to the improvement of the properties of cementitious
composites and reduces the impacts caused by civil construction.
KEYWORDS: Concrete, tailings, niobium.
1 | INTRODUÇÃO
Atualmente a indústria da construção civil é responsável por cerca de 5% de todo
o CO2 produzido no mundo. Além disso, é responsável pelo consumo de 40 a 75% de
toda matéria-prima produzida no planeta(1)(2).
De acordo com as diretrizes expostas na Agenda 21, documento assinado pelos
179 países participantes da Rio 92 na Conferência das Nações Unidas sobre Meio
Ambiente e Desenvolvimento, a Terra é uma fonte finita, cujos recursos naturais podem
variar com o tempo e de acordo com os usos a eles atribuídos(3). Reduzir a geração de
resíduos por meio da prevenção, redução, reciclagem e reuso dos recursos energéticos
e naturais, até o ano de 2030, é também um dos Objetivos para o Desenvolvimento
Sustentável, propostos pela ONU, por meio da Agenda 2030(4). A crescente pressão
sobre os recursos terrestres cria competição e conflitos, tendo como resultado um uso
impróprio tanto da terra como dos recursos naturais. Assim, é essencial avançar para
um uso mais eficaz e eficiente dos materiais e elementos disponíveis, caso se queira
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atender às necessidades humanas de maneira sustentável.
Um exemplo de processo gerador de passivos ambientais presente na indústria
da construção civil é a extração de areia, um dos principais componentes de concretos
e argamassas. Tal atividade provoca sérios problemas ambientais, como, por exemplo,
assoreamento de leitos de rios, alterações nas características físicas do terreno e
subtração de parte da cobertura vegetal existente(1).
Neste contexto, pesquisas como as de Tomar et al.(5), González et al.(6), Kirthika et
al. e de Carvalho et al.(8) apontam para o possível uso de rejeitos da mineração como
(7)
substitutos parciais ou integrais da areia na composição de argamassas e concretos.
Essa substituição poderia significar o aproveitamento de um material potencialmente
poluidor, como são os rejeitos, simultaneamente à diminuição da extração de recursos
naturais, como a areia.
Assim, busca-se não somente um ganho ambiental, mas também uma melhoria
nas propriedades de compósitos cimentícios produzidos com materiais alternativos, em
relação àqueles produzidos com materiais convencionais, especialmente no tocante à
trabalhabilidade, consistência, porosidade, coesão e resistência(7)(8)(9).
O presente artigo tem como objetivo apresentar uma revisão da literatura sobre
os rejeitos gerados no processamento do nióbio e a influência nas propriedades físicas
e mecânicas de concretos contendo rejeitos de mineração similares.
2 | O PROCESSAMENTO DO NIÓBIO E SEUS RESÍDUOS
O Brasil detém as maiores reservas mundiais de nióbio e é responsável por 98%
da produção (reserva, extração e processamento) desse minério, seguido por Canadá
e Austrália, que respondem pelo percentual restante(10). No país, as reservas de nióbio
(Nb2O5) estão concentradas nos estados de Minas Gerais (75,08%), Amazonas (21,34%)
e Goiás (3,58%). Atualmente, no município de Araxá, estado de Minas Gerais, se localiza
a maior reserva mundial de nióbio em processo de exploração, a qual é operada pela
CBMM (Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração)(10) .
De modo geral, o processo de beneficiamento do minério é constituído pelas
etapas de britagem, moagem, separação magnética, deslamagem e flotação (Figura 1).
Os principais rejeitos gerados são provenientes das últimas três etapas(11).
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Figura 1 - Etapas do beneficiamento do nióbio
Fonte: Adaptado de Lemos Júnior (11); Alves; Coutinho (12)
O primeiro rejeito gerado no processo é constituído basicamente de magnetita,
removida do minério por meio de separadores magnéticos. Na deslamagem, materiais
com granulometria ultrafina são removidos por ciclones. Ao final do processo de
concentração, o minério passa pelas células de flotação, com nova fase de geração de
rejeitos e concentração de óxido de nióbio (Nb2O5) para cerca de 60%(11)(12).
Após cada etapa de beneficiamento, os rejeitos são encaminhados para a
barragem de contenção, seja por bombeamento ou por gravidade, como ocorre com
a lama e os rejeitos da flotação(11)(12). De acordo com Alves(13) , uma unidade industrial
com capacidade de produzir 100 mil toneladas de nióbio por ano, gera 4 milhões de
toneladas de resíduos sólidos, incluindo diferentes tipos de rejeitos do ponto de vista
granulo-químico.
Segundo Lemos Júnior(11), análises de granulometria indicaram a presença de
partículas mais finas para a mistura de lama e flotação, com frações mais grossas para o
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rejeito de magnetita e uma distribuição granulométrica intermediária para a mistura de
lama, flotação e magnetita. Os três tipos de rejeitos apresentaram uma fração dominante
de areia fina, nas proporções de 55,2% para o rejeito de lama e flotação, 57,3% para
o rejeito de lama, flotação e magnetita e de 44,4% para o rejeito de magnetita. As
demais frações se dividem predominantemente entre areia média e silte(11). De acordo
com Lopes(14), o rejeito resultante da etapa de separação magnética se encontra em
granulometrias distintas, mas com alto índice de partículas finas.
A Tabela 1 sintetiza os resultados aproximados dos principais elementos
encontrados em análises químicas, realizadas por diversos autores que estudaram o
rejeito oriundo do processamento do nióbio.
(11) (12) (15)
Lemos Júnior Alves; Coutinho Issa Filho et al.
Rejeito de Rejeito de
Rejeito de Separação
lama e lama e Minério residual
Elemento magnetita magnética
flotação flotação
Teor (%) Teor (%) Teor (%) Teor (%) Teor (%) (*)
Fe 59,5 87,8 59,5 87,8 45,0
Ba 18,5 3,1 18,5 3,1 16,0
Ti 8,3 3,6 8,3 3,6 4,0
S 7,5 2,6 2,1 2,6 7,0
P 2,1 1,0 2,1 1,0 3,7
* Nota: Fe2O3; BaO; TiO2; SO3; P2O5, para Fe, Ba, Ti, S, P, respectivamente.
Tabela 1 - Resultados da caracterização química dos rejeitos do processamento do nióbio
Fonte: Adaptado de Lemos Júnior (11); Alves; Coutinho (12); Issa Filho et al. (15)
Em geral, foram encontradas baixas concentrações de nióbio nos rejeitos
estudados (abaixo de 0,8%), indicando um efetivo processo de beneficiamento do
minério. Em contrapartida, foi possível verificar elevados teores de compostos à base de
ferro e bário, para todas as amostras analisadas, com exceção do rejeito de magnetita,
que apresentou somente ferro em maior concentração. Em consequência, tais rejeitos
apresentaram densidades de partículas sólidas relativamente altas, variando de 4,3 a
4,9 g/cm3(11) (a massa específica de areias convencionais para argamassas pode variar
de 2,6 a 2,9 g/cm3)(16).
Desta forma, uma potencial incorporação desses rejeitos à base de barita (BaSO4)
e magnetita (Fe3O4) em matrizes cimentícias pode sugerir uma tendência de produção
de concretos e argamassas com elevadas massas específicas(17)(18)(19)(20).
3 | POTENCIAIS APLICAÇÕES DOS RESÍDUOS NA CONSTRUÇÃO CIVIL
Na literatura, verifica-se uma escassez de trabalhos sobre o uso de rejeitos do
processamento do nióbio em matrizes cimentícias. Lopes(14), ao estudar a incorporação
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de estéril escalpado da mineração do nióbio em adição e substituição ao agregado graúdo
convencional, obteve como resultado amostras de desempenho mecânico superior a de
concretos de referência. No entanto, verifica-se uma lacuna no conhecimento a respeito
da possibilidade de aplicação deste resíduo como agregado miúdo. Sendo assim,
apresentam-se alguns trabalhos a respeito da viabilidade da aplicação de resíduos de
mineração, sobretudo aqueles à base de ferro e bário, indicando potenciais usos para
os rejeitos do processamento de nióbio em argamassas e concretos.
Em estudo realizado por Mendes et al.(21), foi analisada a viabilidade técnica da
substituição de agregados naturais por materiais alternativos, simultaneamente ao
reaproveitamento do rejeito magnético gerado no processamento de rochas fosfáticas.
Foram estudados os efeitos da substituição da areia por magnetita na composição do
concreto, produzindo-se amostras com 0% (referência), 5% e 10% de rejeito magnético.
Foi apontado um aumento gradual no valor da resistência à compressão, com o aumento
do tempo de cura das amostras e à medida em que houve um acréscimo na proporção,
em massa, de areia substituída por magnetita.
Castillo(22), em estudo a respeito do uso da barita em pó, como substituta da
areia na composição do concreto, indicou um aumento do peso unitário da mistura
com o aumento da porcentagem de barita adicionada, assim como um aumento na
trabalhabilidade do concreto no estado fresco. Segundo a autora, entre os objetivos do
estudo estiveram a proposição de um material alternativo ao chumbo e aos minerais de
ferro na produção de concretos de alta densidade, empregados na blindagem contra
radiações. A autora aponta ainda que os concretos produzidos com proporções de
barita acima de 70% (em volume) em substituição ao agregado convencional, atingiram
densidades características de concretos pesados1 .
Franco et al.(25) analisaram a viabilidade do emprego do rejeito de barragem de
minério de ferro em estado bruto, incluindo a fração ferrosa, na produção de concretos.
Foram realizadas dosagens para as classes de concreto C20, C30 e C40 com utilização
do rejeito, ora como adição às misturas de concreto, ora como substituto do agregado
miúdo nas proporções, em massa, de 0,5%, 5%, 10% e 50%. Para fins de comparação,
também foram produzidas dosagens com agregados naturais. Para todas as classes
de concreto, com a adição do rejeito, houve uma melhora da resistência mecânica
à compressão e à tração devida, segundo os autores, provavelmente ao efeito filler
induzido pela maior presença de finos em adição. Concluiu-se que a adição do rejeito
se mostrou mais favorável do que a substituição do agregado miúdo natural por este
resíduo. Os resultados alcançados permitiram atestar a viabilidade do uso do rejeito de
barragem de minério de ferro como matéria-prima de concretos, conferindo-lhes um
melhor desempenho mecânico, pelo uso do rejeito como filler.
A viabilidade do emprego do rejeito de sinter feed - resíduo pesado gerado
no processo de produção do minério de ferro - como substituto da areia natural na
produção de elementos pré-fabricados de concreto, foi objeto de estudo de Costa
et al.(26). A densidade obtida para a argamassa de referência, produzida com areia
convencional, foi de 2,11 g/cm3, enquanto para a argamassa contendo o rejeito, obteve-
se uma densidade de 2,78 g/cm3. De acordo com os autores, a argamassa produzida
com adição do rejeito de sinter feed apresentou maior resistência à compressão axial
que a argamassa de referência, evidenciando um bom desempenho com relação às
1 Apesar da NBR 8953 (ABNT, 2015)(23) definir concretos pesados como aqueles com densidade superior a 2.800 kg/m3, a norma
europeia EN 206 (CEN/TC, 2016)(24) adota o valor de 2.600 kg/m3.
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propriedades mecânicas. Como agregado na produção de concreto para elementos
de quaisquer obras assentes diretamente sobre o terreno, o rejeito de sinter feed
contribuiria para uma maior estabilidade da pavimentação, à medida que constituiria
pavimentos com maior peso próprio, menos sujeitos a deformações.
4 | CONSIDERAÇÕES FINAIS
Seguindo as proposições para um desenvolvimento sustentável, o setor da
construção civil deve assumir cada vez mais um papel de destaque na busca por soluções
alternativas, visando a diminuição de processos geradores de degradação ambiental.
O desenvolvimento de novos materiais, produzidos por meio do reaproveitamento de
resíduos, se apresenta como uma das alternativas para o gerenciamento dos impactos
ambientais causados pela exploração de recursos naturais. O emprego de rejeitos de
mineração na produção de compósitos cimentícios se traduz em menores impactos
ambientais causados pela extração de areia natural e pela necessidade da construção
de barragens. Essa proposta se insere no escopo dos Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável, da Agenda 2030 da ONU, ao promover, além da reciclagem dos resíduos, a
gestão sustentável e o uso eficiente dos recursos naturais.
Especificamente sobre os rejeitos de mineração do nióbio, devido a escassez de
trabalhos sobre o tema, este artigo se mostra relevante para o balizamento de estudos
sobre a incorporação desses resíduos em matrizes cimentícias. Investigações correlatas,
a respeito de concretos e argamassas contendo resíduos à base de magnetita e barita
(principais constituintes do rejeito do processamento do nióbio), demonstram a
viabilidade técnica dessa aplicação. A obtenção de concretos de alta densidade, com
trabalhabilidade e resistência mecânica superiores a amostras contendo agregados
convencionais, indicam a possibilidade de desenvolvimento de novos materiais,
orientando novos rumos de pesquisas e de inovações tecnológicas.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem ao DEMC/UFMG e ao PIBITI/CNPq/UFMG pelo auxílio
financeiro.
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