Análise de Dados e Estruturas Complexas
Análise de Dados e Estruturas Complexas
Contabilidade,
Prevenção a Fraudes Controladoria
e Finanças
em Empresas Industriais de Autopeças
na Região do Grande ABC
Vera Lucia de Carvalho
Mestre em Administração pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul IMES
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Eduardo de Camargo Oliva
Professor e Coordenador do Programa de Mestrado em Administração da Universidade Municipal de São Caetano do Sul
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Após os escândalos em algumas empresas norte- atividade sem a adequada estrutura e sem os respec-
americanas, percebeu-se a importância de controles tivos controles internos eficientes. Nesse contexto,
mais rígidos no gerenciamento dos riscos patrimo- procurou-se compreender como as empresas tratam
niais das empresas e na evolução de códigos de con- as medidas de prevenção às fraudes, considerando
duta empresarial. os seguintes objetivos específicos:
Ribeiro Neto (2000) enfatiza que diversos estu- Descrever as medidas relacionadas à prevenção
dos apresentados demonstram que uma administra- à fraude, adotadas pelas empresas pesquisadas;
ção competente, aliada a uma política de transpa- Verificar se as empresas adotam Código de Ética
rência e prestação de contas, pode gerar valor e se que contemple comportamento com objetivo
tornar um diferencial competitivo para as empresas. de prevenir fraudes;
A eliminação de postos de trabalho, segundo Verificar a utilização de algum controle interno
Rodriguez (2003), pelo enxugamento de quadros de na atividade de administração de materiais.
pessoal a nível mínimo necessário, reduziu o víncu-
lo paternalista que predominou durante muito tem- A prevenção e a descoberta de fraudes contribuem
po nas relações entre o capital e o trabalho. Essa para a correta valorização dos estoques e dos custos,
mudança levou as empresas a alterar desde a estru- possibilitando: a) aos clientes, a obtenção de preços
tura organizacional até normas, procedimentos, mais justos e maior garantia de entrega dos bens;
maneiras de agir e sistemas de informação, o que b) aos acionistas, melhor preservação do patrimônio;
afetou a eficiência dos controles internos e aumen- c) ao governo, uma tributação mais equânime; d) às
tou o risco da ocorrência de fraudes. instituições financeiras, uma melhor perspectiva para
A iniciativa e o interesse por esta pesquisa se ori- a concessão de empréstimos e financiamentos e,
ginaram a partir de informações oriundas da tese de finalmente e) aos empregados, maior tranqüilidade
doutoramento de Gomes (2000) na qual ele relata e segurança na execução de suas tarefas.
abusos e fraudes. Tal cenário evidencia os diversos
problemas relacionados com fraudes nas empresas,
relacionados a seguir: a) em média, são descobertos 2. A FRAUDE E O FRAUDADOR
anualmente nos EUA US$ 400 bilhões em fraudes;
b) as perdas por empregado podem atingir até U$ Desde os tempos remotos da história da civiliza-
9,00 por dia e c) as perdas devem girar em torno de ção, os homens abusam dos poderes que lhes são
6% do faturamento das empresas. Além disso, pes- concedidos, procurando, para enriquecer, lesar as
quisa efetuada pela Kroll e Transparência Brasil, em instituições das quais obtiveram confiança e poder.
2003, revela que as fraudes são mais freqüentes na área Rasmussen (1988) comenta que a praxe é iniciar o
comercial e nas que lidam com manuseio de materiais, ato ilícito com quantidades pequenas que aumen-
sendo os fornecedores os que mais contribuem para tam à medida que cresce a confiança do fraudador.
isso. Esta pesquisa vem também ao encontro do comen- Em geral, os sistemas de controle interno e a audito-
tário de Rasmussen (1988) de que a atividade de admi- ria não conseguem detectar e encaminhar para pu-
nistração de materiais é uma das áreas mais sensíveis e nição os autores de atos fraudulentos e quando o
que mais favorecem atos nocivos em qualquer nível fazem, pode ser que o Administrador responsável não
hierárquico. Vieira (2000) também corrobora ao queira expor a empresa à propagação indesejável do
demonstrar a preocupação com a área de Material e escândalo, dificultando o ato de punir.
Logística. Segundo esse autor, a administração de O perfil do fraudador, segundo estudos de Gomes
materiais é uma atividade de serviços cuja função é (2000) e KPMG BRASIL (2004), corresponde ao do
servir as áreas de produção, engenharia, finanças e funcionário do sexo masculino com segundo grau
marketing no cumprimento de suas tarefas. Assim, a completo que ocupa posição-chave e de confiança
eficiência dessa atividade conduziria a um melhor nas empresas no Brasil. A idade média obtida foi
desempenho econômico e ao aumento de produti- entre 36 e 40 anos e a razão indicada será a de que
vidade da empresa. O setor industrial ou mercantil essa idade se registra um momento de reorientação
canaliza entre 60% e 70% dos recursos de capital de pessoal da carreira profissional, caracterizando-se
giro para a área de administração de materiais. As esta fase da vida como de questionamento do futuro
oportunidades são atraentes para que se deixe essa profissional.
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PREVENÇÃO A FRAUDES EM EMPRESAS INDUSTRIAIS DE AUTOPEÇAS NA REGIÃO DO GRANDE ABC
Isso tem levado as pessoas a procurarem um meio procuram induzir os compradores a decidir-se por suas
de alterar o próprio destino, direcionando-se em ofertas, repassando o custo adicional de comissões
alguns casos à prática de fraudes. para as empresas e aumentando conseqüentemente
Outra razão seria o aumento da carga de atribui- os custos operacionais. Esse autor detalha alguns
ções e responsabilidades pela mesma remuneração, processos da área de Administração de Materiais nos
gerando práticas de atos ilícitos contra os emprega- quais as atividades fraudulentas normalmente ocor-
dores, até para compensar o sentimento de injustiça rem: a) seleção dos fornecedores no processo de
que prevalece. compras; b) transação e emissão de pedidos de com-
Gomes (2000) entende que, quanto mais a empre- pra; c) recebimento e controle físico de materiais,
sa conhecer sobre o perfil do fraudador, sua identi- bem como d) requisição de materiais para a área de
dade, forma de agir e os motivos que o conduziram produção e contas a pagar.
a esta ação; melhor poderá utilizar esses dados como O fraudador, em geral, não comete a fraude sozi-
ferramenta para prevenção de fraudes. Há diversos nho, mas conta com apoio de outras pessoas que são
motivos que levam à justificativa desse ato ilícito. coniventes ao fato. Além disso, comenta Sá (1997),
Conforme Vieira (2000), a fraude pode acontecer as fraudes quase sempre são praticadas por quem
quando há condições básicas de intenção e oportuni- tem autoridade e decide, ou ainda acumula funções
dade. Entre os motivos mais citados para essa ocorrên- de recebimento de duplicatas ou controle de tesou-
cia constatam-se: a) acreditar que ninguém perceberá; raria. A autorização e a realização de pagamento não
b) precisar ou desejar desesperadamente recursos; devem ser feitas pela mesma pessoa. Albrecht (1996)
c) não considerar os riscos que o ato envolve; d) contar argumenta que o ato fraudulento possa envolver
com a impunidade; e) sentir prazer ao desenvolver dinheiro, inventário, informação ou outros ativos, por
esquemas de fraude. computador, manualmente ou por telefone e, nesse
A vertente comportamental da motivação pode momento, pode haver uma testemunha, via de regra,
relacionar-se desde a necessidade de recursos finan- os colegas de trabalho, gerentes ou outros emprega-
ceiros e materiais até a necessidades psicológicas, dos que estiverem presentes. Os fraudadores tendem
como afirmação pessoal e vingança contra pessoas a esconder essas ações de outros pela alteração dos
físicas ou jurídicas. registros financeiros, contando inadequadamente os
Como citado anteriormente, a atividade de admi- ativos ou destruindo evidências.
nistração de materiais de qualquer espécie indus- Gil (1998) aborda a definição de conivência como
trial, mercantil, governamental ou militar é das mais sendo a não adoção de uma atitude proativa por
suscetíveis à prática de atos nocivos em qualquer nível profissional exercendo função ou cargo na empresa,
hierárquico. Segundo Rasmussen (1988), o atrativo quando da ocorrência de eventos fora de padrões de
cresce muito quando se deixa de implantar adequa- normalidades formais ou informais, junto à opera-
da estrutura voltada aos controles internos. É acon- cionalização das linhas de negócios organizacionais.
selhável que o empresário utilize as ferramentas de A conivência é um aspecto que sempre merece aten-
controles internos, a exemplo da auditoria e ainda ção quando se verifica um processo fraudulento e
institua permanente fiscalização para evitar desvios requer a investigação, apuração e tomada de medi-
e eventual descapitalização da empresa gerados a das adequadas de natureza preventiva.
partir de transações fraudulentas na área de admi- Com relação à punição, comenta Gil (1998) que
nistração de materiais. Algumas vezes, é difícil o con- os responsáveis adotam uma atitude mais dura ou
trole das atividades ilícitas porque as negociações branda em função do relatório emitido pela comis-
dessas ações ocorreram fora do âmbito da empresa, são de sindicância. A punição mais freqüente é a
dificultando o rastreamento. demissão dos profissionais considerados fraudadores.
A possibilidade de um gestor ou seus subordina- Em caso de dificuldade de se obter provas para incri-
dos do setor de Administração de Materiais utiliza- minar somente os fraudadores, os colaboradores
rem a sua estrutura de poder de negociação para inocentes rotulados de coniventes também podem
eventualmente aumentar de forma ilícita sua fonte ser atingidos.
de renda, à custa da empresa, faz parte da cultura da A fraude, como qualquer outro risco do negócio,
maioria dos países, comenta Rasmussen (1988). Tal pode ser eficazmente gerenciada por meio de estra-
situação decorre do fato de que muitos fornecedores tégias apropriadas de detecção e controle.
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VERA LUCIA DE CARVALHO / EDUARDO DE CAMARGO OLIVA
A preocupação com padrões éticos de compor- Uma atuação profissional ética implica saber
tamento não é algo novo, mas, conforme Teixeira quais são nossos princípios éticos e os das empresas
(1991), antes era uma preocupação do empresário para as quais trabalhamos. Os valores das organiza-
como indivíduo, não como empresa. Numa empre- ções, segundo Vieira (2000), devem ser codificados
sa de porte familiar, entretanto, a conduta ética da em políticas éticas ou códigos de conduta, cujo esta-
organização podia confundir-se com a do empresá- belecimento de condutas éticas é responsabilidade
rio, da mesma forma que o padrão ético da família. da Administração. A ética organizacional é algo
A tendência é que, com a evolução, a questão ética se abrangente e a tendência das empresas é criar um
torne menos pessoal e mais institucional. A discussão código, a partir de idéias e valores copiados de outras
sobre ética no meio empresarial começou nos últimos organizações. Esse código é um instrumento impor-
anos nos Estados Unidos, onde o capitalismo desen- tante, mas só funciona se os dirigentes estiverem
volveu-se de forma mais ampla. Com os escândalos convencidos de que ele existe para ser aplicado e
nas relações entre empresas privadas e agentes não tem sentido se as pessoas de maior nível aceitam
governamentais, houve um avanço na cobrança de burlá-lo. O setor empresarial precisa conscientizar-
padrões éticos mais rigorosos o que fez da não- se de que o comportamento ético, que a sociedade
observação desses padrões um risco adicional para exige, a ultrapassará em um futuro breve o compor-
as empresas. tamento que exige os cuidados ambientais, pois o
Na visão de Nash (1993), os dilemas éticos comuns respeito ao ambiente tende a ser um dos aspectos da
surgem diariamente, embora as regras de mercado postura ética.
e o pluralismo da sociedade mostrem caminhos de Para Verschoor (2004), os controles em uma orga-
ação que, em princípio, não pareçam dar motivo para nização são importantes para assegurar: o cumprimen-
dúvidas morais pessoais. Porém, quando examina- to de regras reguladoras e legais com a sociedade;
dos a fundo, representam problemas morais impor- a satisfação com normas empresariais geralmente
tantes para o indivíduo. A diminuição no tamanho aceitas e preceitos éticos; a previsão de benefício glo-
das empresas, as fusões e a extrema mobilidade da bal para a sociedade, de acordo com interesses dos
força de trabalho destruíram qualquer ilusão que stakeholders em curto e longo prazo e, finalmente, a
ainda restava de emprego vitalício. O impacto des- responsabilidade completa e verdadeira para os pro-
sas mudanças significa perigo para a capacidade prietários. Ao comentar a configuração dos controles
moral das empresas e, por conseqüência, para as internos, Attie (1984) prescreve que todas as instru-
pessoas que dela participam. A tecnologia e a com- ções sejam feitas por escrito e que os manuais de proce-
plexidade financeira têm criado mais oportunidades dimentos promovam a normalização e a eficiência,
de fraudes e muito mais maneiras de ocultá-las. As o que em última instância, busca evitar erros e con-
novas preocupações ambientais e um consumidor seqüentemente eventuais fraudes. Nesse contexto,
mais educado criam incertezas adicionais quanto a devem ser estabelecidas as relações de autoridade
produtos, mercados, fabricação e finanças. entre os vários níveis de comando da empresa, a fim
A atual situação brasileira, relatada por Humberg de não pairar dúvidas sobre quem faz o quê e quem
(2002), atesta constantes denúncias de corrup- tem autoridade sobre quem na organização. Esse
ção e é mais grave do que a norte-americana, fal- autor argumenta ainda que os problemas de controle
tando ainda quem assuma a liderança do pro- interno encontram-se nas diversas áreas da compa-
cesso de afirmação dos valores éticos. A divulgação nhia. Um sistema de contabilidade sem um controle
dos casos tem feito a sociedade desanimar. Isso interno eficiente torna temerárias as informações
impõe à classe empresarial uma grande respon- contidas nos seus relatórios. Muitas empresas des-
sabilidade e lhe confere a oportunidade singular conhecem o controle interno e pensam que, com
de liderar a mudança ética no país. Nash (1993) funcionários de confiança, estarão cobertas contra
sustenta que definir e adotar posturas éticas nas as irregularidades.
empresas é uma maneira de assegurar os negócios Outro fato que merece menção é o sistema de
no longo prazo. A ética empresarial, profissional, terceirização das funções e atividades empresariais,
política e pessoal será a grande exigência da próxima muito freqüente, nos últimos anos. Conforme Gil
década, substituindo e incorporando a preocupação (1998), muitas fraudes ocorrem em processos de
ambiental. terceirização. A pressão por menores custos, melhor
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freqüência de ocorrência e também para a ampliação dos empregados, visando mostrar-lhes que
das fraudes nas empresas. aquele procedimento faria aumentar os preços
Em geral, as empresas pesquisadas apontaram os dos produtos, diminuir a receita da empresa
órgãos de Compras e Administração de Materiais e, conseqüentemente, poderia trazer demis-
como sendo as áreas de maior risco de incidência de são dos empregados. Conforme comentários
fraudes. Mesmo apontando essas áreas de risco, os do entrevistado, tais medidas devolveram a
entrevistados evitaram comentar a ocorrência de frau- normalidade à área de produção.
des nas empresas, argumentando que não são regis-
trados e que, quando há indícios de tais fatos, tomam- Os dados da pesquisa indicaram que o perfil do
se providências imediatas visando evitá-los. Alguns fraudador em 73,3% dos casos está na faixa de 31 a
entrevistados se restringiram a comentar as fraudes de 40 anos de idade, sexo masculino, casado e com nível
menor envolvimento dos empregados da empresa, médio de escolaridade resultado muito semelhan-
como se pode observar nas descrições a seguir: te ao de outras pesquisas encontradas: Gomes (2000)
e KPMG BRASIL (2004). Outra informação obtida
1º) Problemas com transporte de matéria-prima: é que 66,7% dos agentes que contribuem para indí-
às vezes caracterizados como roubo, embora, cios ou ocorrências de fraudes nas empresas são fun-
também em alguns casos com envolvimento cionários que se tornaram ex-funcionários.
de empregados. Houve casos em que a maté- Com relação aos principais procedimentos de
ria-prima era desviada no trajeto entre o for- prevenção, detecção e punição o resultado da pes-
necedor e a empresa e o próprio motorista quisa mostra que as empresas praticam alguns proce-
informava o ocorrido. As ações fraudulentas dimentos adequados para contribuir na prevenção
foram verificadas, mas não foi possível detectar a fraudes em qualquer área, principalmente na área
conivência de empregados. de Administração de Material:
2º) Caso de material que dependia de pesagem de
chapas de aço e barras de ferro: a descoberta
a) Prevenção
se deu pela constante falta de material verifica-
da durante o processo de produção, uma vez A área de Administração de Materiais e Logística foi
que a matéria-prima era adquirida conforme considerada pelas empresas a área que mais demanda
o estabelecido em planejamento de determi- controles internos em razão do valor envolvido em
nada quantidade de peças para a produção e matéria-prima ou pela atratividade dos produtos.
com certa regularidade. Constatada a coni-
vência de empregado no desvio de material,
optou-se por demitir o mesmo e passar a pesar Tabela 1 Perguntas feitas às empresas sobre controles
o material no momento do recebimento. internos praticados visando evitar fraudes.
3º) Um caso de sabotagem de empregados na pro-
GDV
dução: comprovado pelo descuido na quali- 3HUJXQWDV
HPSUHVDV
dade ou pela quebra proposital de máquinas,
Áreas mais sensíveis à fraude na empresa? – 83,4
revelou o descontentamento do empregado em Administração de Material e Logística
relação à empresa. Após observar significativa Possui Normas de Procedimento por escrito? 96,7
quantidade de peças refugadas no processo de
Possui Código de Ética por escrito e distribuído? 33,3
produção, o responsável primeiro solicitou a
A área de RH realiza palestra/treinamento para
averiguação da qualidade do material recebi- conscientização sobre a cultura e código de ética? 26,7
do do fornecedor praticamente um parceiro
Rodízio de funcionários? 16,7
da empresa para então constatar, com sur-
Segregação de funções? 100,0
presa, a falta de motivação dos operadores de
produção. Eles adotavam práticas fraudulentas Fonte: Pesquisa de campo: 2005.
para comunicar o descontentamento aos ges-
tores da empresa. Para solucionar a questão,
recorreu-se a medidas como reestruturação da A existência de Normas de Procedimento com
área de produção e trabalho de integração determinação clara e expressa de responsabilidades
interpessoal, com reuniões de conscientização apareceu de forma bastante evidente. Tal resultado,
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setor específico para cuidar do assunto fraude. As mes- Tabela 3 Perguntas feitas às empresas sobre
mas são geralmente analisadas em conjunto pelas mecanismos existentes para punição de fraudes.
áreas de Auditoria, Segurança Patrimonial, Assessoria
GDV
Jurídica ou Controladoria. 3HUJXQWDV
HPSUHVDV
Na comparação entre as respostas de empresas
A empresa divulga internamente os casos de fraudes 13,3
com faturamento anual de até R$ 100 milhões e e medidas tomadas em relação aos casos ocorridos?
empresas com faturamento acima de R$ 100 milhões, Houve recuperação das perdas? 3,3
notou-se, no segundo caso, significativa utilização de A demissão foi feita de forma normal? 80,0
denúncia interna na identificação de fraudes, com
Os profissionais são alertados para o risco de serem 53,3
resultado de 71% contra 56%. considerados coniventes face à ocorrência de fraudes
Na comparação entre as respostas de empresas na Empresa?
com faturamento anual de até R$ 100 milhões e a de Os profissionais são alertados para o risco de 50,0
empresas com faturamento acima de R$ 100 milhões, conivência em casos de eventuais ocorrências de
fraudes com outros funcionários das Organizações
observou-se no segundo caso maior freqüência na parceiras considerados coniventes face à ocorrência
implementação de auditoria interna com emprega- de fraudes na Empresa?
dos próprios 43% contra 25% das empresas de Fonte: Pesquisa de campo: 2005.
menor faturamento.
Um procedimento utilizado por todas as empre-
sas é a realização de inventário de materiais em esto- As empresas, na maior parte (86,7%), não divul-
que. No geral, as empresas pesquisadas mostraram gam internamente os casos de fraudes nem as medi-
preocupação com o controle dos estoques, princi- das tomadas em relação aos casos ocorridos. A ques-
palmente com relação ao excesso de estoque, a fim tão é mantida em sigilo e os nomes dos fraudadores
de evitar a existência de estoque obsoleto. Em mui- preservados. A recuperação das perdas nos casos
tas das empresas, os estoques obsoletos ou avariados de fraudes, em geral, não foi obtida pelas empre-
são identificados e segregados, havendo ainda em- sas. Alguns argumentos residem no fato de que o
presas que mantêm controle de materiais de tercei- custo e o tempo despendidos não compensariam o
ros em seu poder (de clientes ou em consignação). esforço, além do risco de prejudicar a imagem da
Uma das empresas informou: alguns anos atrás, empresa. Por esse motivo, a maioria das empresas
tínhamos uma única pessoa responsável pelo con- utilizou como prática de desligamento a demissão
trole de estoque de matéria-prima da empresa e era normal de empregados envolvidos em fraudes ou em
de muita confiança. Ele mantinha o almoxarifado suspeitas de fraude, mas 16,7% já demitiram empre-
com boa aparência, os materiais bem identificados, gados que comprovadamente fraudaram mediante
com etiquetas informando as respectivas quantida- desligamento por justa causa.
des e realizava semestralmente o inventário. A quan- Nesse contexto, há empresas que alertam os seus
tidade física estava sempre de acordo com a quanti- empregados para o risco de serem considerados coni-
dade contabilizada. Porém, um determinado inven- ventes em face de uma ocorrência de fraudes na
tário foi acompanhado por um auditor e foram reve- organização. O alerta é efetuado com a realização de
ladas diversas diferenças em peças de fácil comer- palestras, treinamentos e reuniões com os diversos
cialização. Houve suspeita de desvio dos materiais, gestores para conscientizá-los de sua importância
mas não conseguiram provar. Esse procedimento dentro da empresa e, com isso, minimizar a ocorrên-
mostra o erro de confiar todo o controle a uma única cia de fraudes.
pessoa e também a importância de haver segregação A preocupação com a conivência se estende com
entre quem executa e quem confere. relação às empresas de terceiros que prestam servi-
ços para as organizações pesquisadas, principalmente
c) Punição com os empregados dos setores em contato direto
com esses terceiros. Nesse caso, os empregados são
Muitas vezes, as empresas preferem manter-se cala- alertados verbalmente através de palestras e reuniões
das ao descobrir a existência de fraudes por parte com os gestores e ainda com as áreas envolvidas na
dos empregados para evitar o risco de exposição de contratação, bem como operacionalmente com os
seu nome no mercado. parceiros.
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Durante as entrevistas, questionadas a respeito apresentado algum tipo de controle interno que pode-
das ações tomadas para evitar novas ocorrências de rão minimizar o risco de fraudes.
fraudes, todas as empresas responderam com muita Outro objetivo da pesquisa foi verificar se as empre-
desenvoltura que sempre implementaram alguma sas adotam Código de Ética, prática que, segundo se
melhoria nos seus controles internos e, em alguns constatou, ainda é pouco disseminada entre as empre-
casos, melhoraram a informatização para controle sas entrevistadas, pois somente algumas delas o pos-
mais eficiente de seus ativos. suem. Este é um instrumento importante na conscien-
Muitas foram as medidas mencionadas pelos entre- tização do empregado em relação às obrigações e ao
vistados, em grande parte comuns às diversas empresas: comportamento perante a empresa e aos stakeholders.
reuniões periódicas com os gestores das áreas envol- Com a adoção desse código, o empregado tem conhe-
vidas, colocação de câmeras em locais estratégicos, cimento de como deve se comportar em relação à
melhoria dos controles nos processos de fabricação, exigência da empresa.
separação do setor de logística do setor de compras, Atualmente, também a sociedade espera e exige
conferência da nota fiscal com o material recebido um comportamento ético por parte das organizações
e sistema de pesagem da matéria-prima recebida, e a adoção de um Código de Ética é passo importan-
criação de níveis de aprovação de pedido de com- te na medida em que formaliza os entendimentos e
pra, reconciliação com mais freqüência dos extratos os relacionamentos entre as pessoas, servindo como
de contas a pagar e contas a receber e revistas dos vantagem competitiva no mercado para as empresas
automóveis nas portarias. Para as empresas que infor- que o adotam.
maram fraudes relacionadas às vendas de sucatas, O canal de comunicação para a denúncia anôni-
passou a vigorar o sistema de vendas por leilão. ma é outro procedimento que começa a ser imple-
A ameaça que o evento fraude pode trazer, con- mentado pelas empresas. Visa basicamente fazer saber
forme a visão das empresas entrevistadas, é o risco aos empregados que a fraude é uma preocupação
de perdas financeiras na eventual diminuição da da empresa e que os gestores estão preparados para
receita decorrente de atos ilícitos, envolvendo pro- coibir essa prática.
blemas no transporte de matéria-prima e desabaste- Por meio desse canal, a empresa encoraja os
cimento pelo atraso nas entregas ou desvio de mate- empregados a denunciar qualquer indício de frau-
riais. Essa mesma ameaça pode acontecer quando de, uma vez que não há necessidade de identifica-
houver falha no recebimento de material ou descuido ção. Tal prática poderá fortalecer a conduta ética de
na qualidade da produção. Qualquer fraude relacio- que todos os empregados são responsáveis pela pre-
nada à administração de material pode acarretar venção à fraude e poderão contribuir no desenvolvi-
distorção no planejamento de produção e atraso na mento da empresa em busca de um lucro também
entrega do produto pronto aos clientes, perdas finan- de forma ética.
ceiras, risco de prejuízo na imagem da empresa e O setor de Administração de Material represen-
dificuldade para novas negociações. ta o maior volume do ativo da empresa. Por esse
motivo, outro objetivo da pesquisa foi verificar a uti-
lização de algum controle interno na atividade de
6. CONCLUSÃO E CONTRIBUIÇÕES Administração de Materiais. Verificou-se assim, que
algumas empresas implementaram medidas que
A conclusão desta pesquisa é que, embora os podem minimizar riscos de fraude nessa área. Algu-
entrevistados não tenham mostrado disposição para mas das medidas mais comuns, realizadas por todas
revelar as fraudes ocorridas nas empresas, as infor- as empresas, são as normas por escrito com conheci-
mações obtidas foram importantes para demonstrar mento dos empregados envolvidos, a segregação de
que medidas são tomadas na prevenção a fraudes, o função para evitar acúmulo de atividade e inibir a
objetivo desta pesquisa. ocorrência de fraudes e o inventário periódico dos
A maior parte das empresas é de médio porte, estoques.
considerando o número de empregados entre 101 e Diversas empresas mantêm um setor de Audi-
500. Para essas empresas foi observado que ainda toria Interna para revisar os controles internos, os
não há consciência clara de que o evento fraude faça instrumentos inibidores de ações fraudulentas.
parte do risco da empresa, embora todas elas tenham Por ser uma área de risco elevado, deve constar do
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