Efeitos das Drogas no Organismo
Efeitos das Drogas no Organismo
Uso clínico:
Os medicamentos à base de opioides são usados para controlar a tosse, a diarreia e
como analgésicos potentes.
Dependência física
A dependência física é uma condição em que o corpo se adapta à presença de
uma determinada substância, de modo que a interrupção abrupta do uso dessa
substância resulta em sintomas de abstinência. Esses sintomas podem variar
dependendo da droga e do nível de dependência, mas podem incluir uma série de
manifestações físicas e psicológicas desagradáveis.
Dependência física é a necessidade da droga para manter o funcionamento
normal. Na ausência da droga, revelam-se as adaptações que produziram a
tolerância. A característica da dependência física é a manifestação de sintomas de
abstinência na ausência da droga.
Como na tolerância, a dependência pode resultar de alterações nas vias de
sinalização celular. Por exemplo, uma droga que cause tolerância farmacodinâmica
por meio de supra-regulação da via do AMPc também provoca dependência porque a
interrupção súbita do uso permite que a adenil ciclase supraregulada afete uma
resposta supranormal.
Inversamente, uma droga que reduza o número de receptores ou diminua a
sensibilidade do receptor provoca dependência porque a interrupção causa a
subestimulação dos receptores infra-regulados. Esses efeitos freqüentemente são
visíveis porque o receptor tem um agonista endógeno, de modo que a ativação do
receptor é parte dos processos fisiológicos normais.
Quando um sistema de mensageiro secundário é supra-regulado ou um receptor
da superfície celular é infra-regulado, uma quantidade normal do agonista endógeno
pode provocar uma resposta supranormal ou subnormal, respectivamente. Por
exemplo, a ingestão aguda de álcool facilita a atividade inibitória do GABA em seus
receptores, causando sedação.
Ao longo do tempo, os receptores de GABA são infra-regulados, reduzindo o
nível de inibição para neutralizar os efeitos sedativos do álcool. Caso haja interrupção
súbita do uso de álcool, a diminuição da inibição GABAérgica provoca um estado de
hiperatividade do sistema nervoso central, que caracteriza a abstinência de álcool.
Assim, a tolerância e a dependência física são provocadas por mecanismos
semelhantes; no entanto, como é possível haver dependência sem tolerância e vice-
versa, fica claro que nossa compreensão desses fenômenos é incompleta.
Mecanismos de dependência psicológica
A dependência psicológica, muitas vezes referida como dependência emocional
ou dependência comportamental, é caracterizada por um forte desejo ou necessidade
compulsiva de consumir uma substância ou se envolver em um comportamento
específico, devido aos efeitos prazerosos ou gratificantes que isso proporciona. Os
mecanismos de dependência psicológica podem incluir uma combinação de fatores
emocionais, comportamentais e cognitivos.
Embora os mecanismos de dependência física sejam relativamente bem
caracterizados, as causas de dependência psicológica ainda são controversas.,
Na década de 1950, Olds e Milner implantaram eletrodos em várias regiões
encefálicas de ratos para descobrir que áreas neuroanatômicas mediavam o
comportamento de recompensa. Os ratos aprenderam uma tarefa (como pressionar
uma alavanca) que provocava um pulso breve de estimulação encefálica não-
destrutiva no local do eletrodo.
Os feixes prosencefálicos mediais e a área tegmental ventral (ATV) no
mesencéfalo foram considerados locais de recompensa encefálica bastante eficazes.
Um subgrupo de neurônios dopaminérgicos projeta-se diretamente da área
tegmental ventral para o nucleus accumbens (NAc) através do feixe prosencefálico
medial. Acredita-se que esses neurônios sejam fundamentais para a via de
recompensa encefálica, porque a secção dessa via, ou o bloqueio dos receptores de
dopamina no nucleus accumbens por um antagonista do receptor da dopamina reduz
os efeitos de recompensa decorrentes do estímulo da área tegmental ventral.
Além disso, a liberação de dopamina no nucleus accumbens pode ser detectada
usando a técnica de microdiálise. Essas medidas mostram que as sinapses
dopaminérgicas do nucleus accumbens estão ativas durante a estimulação da via de
recompensa do encéfalo e que a dopamina no nucleus accumbens é necessária para a
recompensa.
As drogas que podem causar dependência psicológica induzem a maior
dependência quando administradas diretamente à área tegmental ventral, ao nucleus
accumbens ou às áreas corticais ou subcorticais que inervam essas duas regiões.
Embora a via dopaminérgica esteja associada à recompensa, a dopamina também
pode tornar os estímulos mais notados e alertar o animal ou a pessoa para sua
importância.
A via da dopamina é ativada durante o uso da droga. O nucleus accumbens
recebe impulsos de várias regiões do encéfalo e também da área tegmental ventral
dopaminérgica. Foram encontradas vias provenientes de várias áreas do córtex,
hipocampo, tálamo e amígdala, e dos núcleos serotonérgicos; essas vias podem
mediar o aprendizado e a associação relacionados à recompensa.
Embora a descoberta de que as drogas de abuso ativam a via de recompensa
encefálica seja uma explicação fácil para a dependência psicológica (i. é, que a
administração de uma droga está associada à recompensa), a literatura recente
sugeriu que a dependência psicológica é mais complicada.
É provável que muitos mecanismos moleculares que medeiam a dependência
física, como a supra-regulação das vias de sinalização do mensageiro secundário e
alterações na sensibilidade do receptor, também sejam importantes na dependência
psicológica. Nessa formulação, a distinção entre dependência física e psicológica
ocorre não porque há diferentes mecanismos moleculares, mas porque as alterações
induzidas pela droga afetam neurônios que têm diferentes funções.
Por exemplo, uma droga pode causar euforia aguda porque ativa a via de
recompensa encefálica dopaminérgica, mas a euforia pode ser seguida por um
período de disforia. Se a via de recompensa encefálica sofrer adaptações após a
administração repetida da droga, essas adaptações serão reveladas durante a
abstinência, resultando em um estado de dependência psicológica.
OBS:
Sistema de abstinência:
A abstinência alcoólica está inserida em um contexto mais amplo, que é o abuso
e a dependência do álcool.
Define-se abuso de álcool quando existe um padrão desadaptado de consumo,
levando a prejuízo ou problema clinicamente significativo, manifestados em doze
meses por um dos seguintes motivos:
Falha em realizar obrigações no trabalho, em casa ou na escola.
Uso recorrente em situações perigosas.
Problemas legais relacionados ao álcool.
Uso contínuo a despeito de problemas pessoais ou sociais relacionados ao
álcool. A dependência ao álcool, por sua vez, é definida pelo padrão
desadaptado de consumo, levando a prejuízo ou problemas clinicamente
significativos, manifestados em doze meses por três ou mais dos seguintes
motivos:
Tolerância (uso de doses progressivamente maiores ou efeito reduzido com a
mesma dose).
Abstinência (sintomas de abstinência ou uso para aliviar ou evitar os sintomas).
Uso de doses maiores e por períodos mais prolongados que o planejado.
Desejo persistente ou tentativas sem sucesso de parar ou reduzir o uso.
Grande tempo despendido na obtenção, no uso ou na recuperação do uso. •
Deixar de realizar ou reduzir atividades sociais, recreacionais ou ocupacionais
importantes.
Uso continuado a despeito do conhecimento dos problemas físicos e psicológicos
associados ao álcool.
Etiologia e fisiopatologia
A síndrome de abstinência alcoólica inclui dois componentes:
1. Cessação ou redução no uso crônico de grande quantidade de álcool
(dependência do álcool).
2. Presença de dois ou mais dos sintomas de abstinência:
Hiperatividade autonômica (sudorese, taquicardia, hipertensão sistólica).
Tremor nas mãos.
Insônia.
Náuseas ou vômitos.
Alucinações visuais, auditivas ou táteis transitórias.
Agitação psicomotora.
Ansiedade.
Convulsões tônico-clônicas generalizadas.
A ingestão aguda de álcool leva inicialmente a uma liberação de opioides
endógenos causando euforia e reforço para o uso contínuo; em seguida, há ativação
dos receptores inibitórios GABA tipo A, causando efeitos sedativos, ansiolíticos,
descoordenação e inibição dos receptores excitatórios.
Em razão do uso crônico do álcool ocorrem alterações no número e na função
dos receptores, como uma resposta compensatória aos efeitos depressivos do álcool.
Assim, há uma diminuição nos receptores GABA tipo A e um aumento nos receptores
excitatórios. Essa adaptação crônica reverte-se quando há suspensão da ingestão
crônica de álcool, culminando com o estado de hiperexcitabilidade da síndrome de
abstinência alcoólica.
Achados clínicos
O curso da síndrome de abstinência alcoólica é altamente variável e depende de
alguns fatores, como:
Quantidade de álcool consumida.
Síndromes de abstinência prévias.
Condições médicas associadas.
Em média, os sintomas de abstinência podem começar de 5 a 10 horas após a
última dose, com pico entre 48 e 72 horas, desaparecendo em 5 a 14 dias.
[Link] aspectos biológicos e sociais do uso de drogas.
Aspectos Biológicos:
Efeitos no cérebro:
As drogas podem afetar neurotransmissores no cérebro, resultando em mudanças no
humor, comportamento e percepção.
Tolerância e Dependência:
Com o uso continuado, pode-se desenvolver tolerância, levando a uma necessidade
de doses mais altas para alcançar os mesmos efeitos. A dependência também pode se
desenvolver, resultando em sintomas de abstinência quando o uso é interrompido.
Danos físicos:
O uso crônico de drogas pode levar a danos significativos em órgãos vitais, como o
fígado, coração e pulmões, além de comprometer o sistema imunológico, levando a
uma maior suscetibilidade a doenças.
Aspectos Sociais:
Desintegração familiar e Relações Sociais:
O uso de drogas pode levar à desintegração de relações familiares e sociais,
levando a isolamento e conflitos interpessoais.
Impacto econômico:
O uso de drogas pode levar a desafios financeiros, incluindo gastos excessivos
com drogas e potencial perda de emprego devido ao uso ou comportamento
relacionado a drogas.
Crime e violência:
O tráfico de drogas e o comportamento associado ao consumo podem contribuir
para a criminalidade e violência em comunidades, levando a um ciclo de pobreza e
desespero.
Saúde Pública: O abuso de drogas está associado a problemas de saúde
pública, incluindo o aumento da propagação de doenças infecciosas, como HIV/AIDS e
hepatites virais, devido ao compartilhamento de agulhas.
Estigma social: As pessoas que lutam contra o vício podem enfrentar estigmatização
social, o que pode dificultar o acesso a tratamento e apoio adequado.
É importante abordar o uso de drogas de forma holística, considerando tanto os
aspectos biológicos quanto os sociais para implementar políticas e programas eficazes
de prevenção, tratamento e recuperação. A abordagem deve ser baseada em
evidências e centrada na redução de danos, na promoção da saúde e na reintegração
social.
Álcool
Os efeitos do álcool no indivíduo e a sua capacidade de alterar o comportamento
são conhecidos desde o início do seu consumo pelas diferentes sociedades. Embora o
álcool não seja classicamente considerado uma droga no Brasil, ele é considerado um
depressor psicotrópico do SNC e seu consumo é um dos mais elevados entre todos os
psicoativos. substâncias, facto que tem inúmeras consequências.
Metabolização do álcool
Quando digerido o álcool é absorvido pelo estômago e intestino delgado, e sua
velocidade de absorção depende da concentração de álcool na bebida consumida e se
a pessoa está ou não em jejum.
Em razão do álcool ser facilmente solúvel em água ou gordura, boa parte é
absorvida diretamente na mucosa do estômago. Caso este órgão esteja vazio a
absorção é acelerada e sua chegada no cérebro e fígado mais rápida, apresentando
maior probabilidade de causar riscos à saúde e a embriaguez é produzida mais
rapidamente.
O pico de concentração é atingido em meia ou duas horas após a ingestão. A
metabolização hepática ocorre principalmente por oxidação, devido a ação da enzima
citoplasmática álcool-desidrogenase (ADH), que o transforma em aldeído acético. O
aldeído acético é uma substância tóxica e é rapidamente convertida pela enzima
aldeído-desidrogenase (ALDH) em acetato, que por sua vez se transforma em
acetilcoenzima A que participa do ciclo de Krebs, liberando gás carbônico e água
(SILVA 1997).
As moléculas de acetil-coenzima A podem também ser utilizadas nas reações
anabólicas, como síntese de colesterol, ácidos graxos ou outros componentes do
tecido.
]
E a dependência ?
A dependência é explicada fisiologicamente porque o álcool produz na região do
núcleo acumbens (núcleo do prosencéfalo basal próximo ao septo, recebe botões
terminais de neurônios dopaminérgicos provenientes da área tegmental ventral e
acredita-se estar envolvido no reforço e na atenção) um estímulo de reforço para a
atitude compulsiva de beber.
O etanol promove a liberação de dopamina no núcleo acumben, promovendo a
sensação de prazer. Essa mesma liberação ocorre naturalmente com alimento,
parceiro sexual ou água, são portanto, uma estimulação cerebral reforçadora.
Um sistema de reforço deve desempenhar duas funções: detectar a presença de
um estímulo e fortalecer as conexões entre os neurônios que detectam os estímulos
significativos (como ver um copo com pinga) e aqueles que produzem a resposta
instrumental (beber a pinga).
É importante detectar e diferenciar um estímulo reforçador de outro que não é,
por exemplo, a presença de alimento reforçará o comportamento de um organismo
faminto, mas não daquele que acabou de se alimentar. Assim, o sistema de reforço
não é ativado automaticamente, quando um determinado estímulo está presente,
mas dependerá do estado do organismo (CARLSON 2002).
O reforço neronal causado pelo consumo da bebida é classificado como positivo,
pois os sintomas desagradáveis só aparecem muito tempo após o consumo, sendo
vivenciado efeitos iniciais de euforia, relaxamento, etc.
A síndrome da dependência física é caracterizada por: tremor generalizado,
acompanhado por pertubações perceptivas, náuseas, vômitos e agitação. O tremor no
princípio é leve, aparecendo todas as manhãs, antes do primeiro gole. Apresenta-se
nas mãos, na face até o estágio generalizado.
A desordem perceptiva pode se configurar em pesadelos, ilusões visuais ou
auditivas e alucinações. Já as náuseas principalmente ao escovar os dentes pela
manhã, fazendo com que a pessoa deixe de tomar o café da manhã por medo de
vomitar. Os sintomas começam a aparecer dentro de horas após a interrupção do
hábito de beber.
Efeitos do álcool sobre gabaminérgicos e glutamatérgicos
O álcool é um depressor psicotrópico do SNC. Este propriedade está associada à
ação do álcool em diferentes neurotransmissores, incluindo a estimulação de ácido
gama-aminobutírico (GABA), o principal inibidor neurotransmissor do SNC e a inibição
do glutamato, principal neurotransmissor excitatório central. O álcool potencializa os
efeitos do GABA agindo diretamente em seus receptores, potencializando seus efeitos
inibitórios.
Esses efeitos inibitórios incluem sedação, perda de inibições e relaxamento, e
pode estar relacionado à produção de certos neuroesteróides, como a
alopregnanolona. O este último pode ser um mediador desses efeitos no cérebro, uma
vez que esteróides neuroativos são moduladores alostéricos positivos de receptores
de neurotransmissores, como GABAA.
O complexo receptor-ionóforo GABAA é amplamente distribuído por todo o SNC
e sua ativação causa abertura dos canais de cloreto, com consequente
hiperpolarização da membrana e produção de potencial inibitório pós-sináptico.
Este receptor consiste em várias classes de subunidades (a, b, g, d e r) que
conferem diferentes propriedades farmacológicas.
E o uso prolongado ?
No caso do uso prolongado de álcool, acontece uma regulação negativa que reduz
o número de receptores GABA , um evento isso explicaria o efeito da tolerância ao
álcool, ou seja, a fato de que os indivíduos necessitam de doses mais elevadas de
álcool para atingir os mesmos sintomas de inibição obtidos anteriormente com doses
mais baixas.
A perda de efeitos inibitórios e a deficiência do receptor GABA resultam em
sintomas de abstinência.
Estudos também indicam que o uso prolongado de álcool causa prejuízos
detectáveis na memória, principalmente por redução da massa do hipocampo
mediada por GABA.
O hipocampo está relacionado a memórias explícitas, ou seja, memórias sobre
as quais podemos falar, como o jantar da noite passada ou o data de um evento
histórico. A memória explícita envolve o lembrança consciente de informações.
O hipocampo é conhecido por ser necessário para a aquisição deste tipo da memória,
uma vez que danos nesta região impedem os indivíduos de estabelecer novas
memórias explícitas.
Um elemento chave nestes eventos é uma via de transdução de sinal mediada
por Proteínas Quinases Ativadas por Mitógenos (MAPK).
As MAPKs são importantes proteínas sinalizadoras que são ativadas por
neurotransmissores e diferentes fatores de crescimento.
Um membro desta família é a quinase regulada por sinal extracelular (ERK). A
cascata ERK é usada em todos os cérebros regiões onde ocorre a plasticidade
sináptica e sua ativação é necessária para a formação de novas memórias.
Se a atividade da ERK for bloqueada pela injeção de um inibidor em uma
determinada região do cérebro, como a amígdala, a formação de odos os modos de
aprendizagem associados a esta estrutura irão ser bloqueado. Da mesma forma, o
bloqueio da actividade da ERK no o hipocampo impede a formação hipocampal de
memórias explícitas.
O consumo excessivo de álcool suprime a fosforilação dessas proteínas
quinases (ERK),que é regulado pelo GABA. Assim, o abuso do etanol impede a
ativação do circuito de memória, neste caso, o memória explícita suportada pelo
hipocampo.
No caso do glutamato, a perda de ionotrópico (AMPA,cainato ou NMDA) e
receptores metabotrópicos (rM1, rM8)leva à redução da neurotransmissão
glutamatérgica excitatória.17 A ativação de receptores ionotrópicos aumenta o cálcio
intracelular (Ca2) através de diferentes rotas.
O álcool (etanol para beber) possui efeitos diversos e disseminados no corpo e
tem impacto direto ou indireto em quase todos os sistemas neuroquímicos do
cérebro.
O álcool é absorvido das mucosas da boca e do esôfago (em pequenas
quantidades), do estômago e intestino grosso (em quantidades modestas) e da parte
proximal do intestino delgado (o principal local).
A taxa de absorção é aumentada pelo esvaziamento gástrico rápido (como
observado com refrigerantes); pela ausência de proteínas, gorduras ou carboidratos
(que interferem na absorção); e pela diluição a uma porcentagem modesta de etanol
(máximo em torno de 20% do volume).
O do etanol é excretado diretamente pelos pulmões, pela urina ou pelo suor,
porém a maior parte é metabolizada em acetaldeído, sobretudo no fígado. A via mais
importante ocorre no citosol celular, em que a álcool-desidrogenase (ADH) produz
acetaldeído, sendo em seguida rapidamente destruída pela aldeído-desidrogenase
(ALDH) no citosol e nas mitocôndrias.
Uma segunda via ocorre nos microssomos do retículo endoplasmático liso (o
sistema microssomal de oxidação de etanol, ou MEOS), que é responsável por ≥ 10%
da oxidação do etanol em concentrações sanguíneas de álcool elevadas.
Nos indivíduos sadios, essas alterações são reversíveis; entretanto, com exposição
repetida ao etanol, particularmente com o consumo pesado diário, ocorrem alterações
hepáticas mais graves, incluindo hepatite induzida por álcool, esclerose perivenular e cirrose.
Sistema hematopoiético
O etanol aumenta o tamanho dos eritrócitos (volume corpuscular médio [VCM]),
que reflete seus efeitos sobre as células-tronco. Se a ingestão contumaz de álcool for
acompanhada por deficiência de ácido fólico, também poderá haver neutrófilos
hipersegmentados, reticulocitopenia e medula óssea hiperplásica; se houver
desnutrição, também poderão ser observadas alterações sideroblásticas.
O consumo pesado crônico pode diminuir a produção dos leucócitos, a mobilidade
e aderência dos granulócitos, bem como prejudicar a resposta de hipersensibilidade
tardia a novos antígenos. As deficiências imunológicas associadas podem contribuir
para vulnerabilidade a infecções.
Sistema cardiovascular
Agudamente, o etanol diminui a contratilidade miocárdica e causa vasodilatação
periférica, com resultante diminuição na pressão arterial e aumento compensatório no
débito cardíaco.
O consumo de três ou mais doses por dia resulta em um aumento da pressão
arterial dose-dependente, que retorna ao normal com algumas semanas de
abstinência. Assim, o beber pesado é um fator importante para a hipertensão leve a
moderada. O beber pesado crônico também aumenta em seis vezes o risco de
doença arterial coronariana relacionada, em parte, a aumento do colesterol da
lipoproteína de baixa densidade (LDL) e eleva o risco de miocardiopatia por meio de
efeitos diretos do álcool no músculo cardíaco.
Cocaína
A cocaína é um poderoso estimulante obtido da planta coca. Possui propriedades
anestésicas locais, vasoconstritoras e estimulantes. A cocaína é uma substância que
tem alto potencial de abuso, mas pode ser administrada por um médico para uso
clínico legal.
Se apresenta em 5 tipos:
1. Folhas de Coca:
Podem ser mascadas ou ingeridas como chá de coca. Preparação obtida pela
maceração das folhas associada ao ácido sulfúrico e bicarbonato de sódio. Este
produto pode conter sulfato de cocaína (40-85%), além de cocaína na forma de base.
2. Pasta de Coca:
Composta por folhas de coca mais solventes orgânicos (querosene ou gasolina
combinada ao ácido sulfúrico). A pasta de coca é obtida nas primeiras fases de
preparação e contém muitas impurezas tóxicas. Essa preparação pode ser misturada
com tabaco e maconha, formando o “basuco”.
3. Cloridrato de Cocaína:
A pasta de coca mais ácido clorídrico (HCl) forma cloridrato de cocaína (forma de
sal), conhecido como cocaína em pó (fino, branco ou cristalino). Cloridrato de cocaína
pode ser aspirado ou dissolvido em água e ser usado via endovenosa; porém, não
pode ser fumada, pois é volátil, ou seja, grande parte de sua forma ativa é destruída
em altas temperaturas. Para ser fumada, o sal de cocaína precisa retornar a forma de
base, neutralizando-se o cloridrato ou a parte ácida. Nesse caso o produto resultante
será o crack.
4. Crack (rock):
Conhecido como cocaína alcalóide ou base livre. É formado pela reação do
cloridrato de cocaína com uma solução aquosa de um álcali (amônia ou bicarbonato
de sódio) aquecido. O crack é comercializado na forma de pedras porosas.
5. Merla:
Semelhante à pasta de coca, porém o teor de solventes contaminantes é
maior.
Fisiopatologia
O uso agudo da cocaína causa liberação de dopamina, epinefrina, norepinefrina
e serotonina. Esses neurotransmissores atuam em diferentes subtipos de receptores,
causando diversos efeitos, entretanto o mais importante é a estimulação adrenérgica
pela norepinefrina e epinefrina.
Farmacocinética (ADME)
Absorção
Via oral:
Absorção é lenta e incompleta, necessitando mais de 1 hora sendo que 75% da
droga absorvida é rapidamente metabolizada no fígado. Apenas 25% da droga
ingerida alcança o cérebro, e isso requer um longo período de tempo.
Aspirada:
Absorção acontece pelas membranas nasofaríngeas, mas por se tratar de uma
substância vasoconstritora, limita sua própria absorção.
Injetada: (endovenosa).
A cocaína cruza todas as barreiras de absorção e alcança a corrente sanguínea
imediatamente. Produz um rápido, poderoso e breve efeito. É a forma mais perigosa
de consumo.
Fumada:
Absorção rápida e quase completa, porém, uma porção significante é perdida
quando a cocaína é aquecida nesta preparação (fumada). A velocidade de absorção
pode ser comparada com a via endovenosa. Tmáx – 6 a 8 minutos (injetada e
fumada).
Distribuição
Após penetrar no cérebro, é rapidamente distribuída para outros tecidos,
concentrando-se no baço e rins.
Metabolização
A cocaína é metabolizada primeiramente em metil éster ecgonina e
benzoilecgonina – ambos excretados por via renal, representando 75 – 90% do
metabolismo da cocaína.
Também são formados, em pequena quantidade, ecgonina e norcocaína
(metabólito biologicamente ativo). A metil éster ecgonina sofre ação das
colinesterases (enzimas hepáticas e séricas) enquanto que a benzoilecgonina é
formada por hidrólise não enzimática.
A desmetilação da cocaína para formar norcocaína ocorre através do sistema
oxidase de função mista hepática.
Eliminação
O tempo de meia-vida (T1/2) é de 0,5 a 1,5 horas para a cocaína (a meia-vida é
curta, pois é rapidamente metabolizada no fígado), 3 a 4 horas para o metil éster
ecgonina e de 4 a 7 horas para a benzoilecgonina.
A eliminação da cocaína e benzoilecgonina será maior se o pH urinário for ácido,
enquanto que para o metabólito (norcocaína) a eliminação é preferencial se o pH for
alcalino.
OBS: o metabolismo da cocaína é promovido pela ação das colinesterases
hepáticas e plasmáticas, cujas atividades variam (por exemplo, no feto, recém-
nascido, durante a gestação, idoso, deficiência congênita nas colinesterases),
podendo refletir em oscilação na intensidade da resposta farmacológica e toxicológica
da cocaína.
Mecanismo de ação
A cocaína causa efeitos anestésicos pelo bloqueio dos canais de sódio,
estimulação do SNC, e inibição neuronal por captação de catecolaminas;
A cocaína altera as transmissões sinápticas de dopamina, norepinefrina e
serotonina;
A ação no transporte de dopamina é a mais importante, pois reforça os efeitos da
cocaína no organismo, o que leva a dependência;
Os efeitos de prazer ocasionados pela cocaína são devidos principalmente ao fato
de a cocaína inibir a recaptação neuronal de dopamina, deixando muita dopamina
livre na fenda sináptica – isso também ocorre com a noradrenalina e a 5-HT, mas
com menos significância.
A cocaína aumenta a dopamina na sinapse do sistema de recompensa por meio
do bloqueio da captação.
No nucleo accumbes os receptores dopaminérgicos tipo 2 (D2) causam euforia,
enquanto os receptores tipo 1 (D1) inibem tal efeito. Frente à presença constante de
cocaína no cérebro, ocorre um aumento dos receptores D1 e redução dos receptores
D2. Isso dificulta a ação euforizante da cocaína e faz com que o usuário se veja
forçado a aumentar a dose para obter o mesmo efeito de antes.
OBS: Núcleo Accumbens: células nervosas originadas da área tegumental
ventral, responsável pela recompensa de estímulos como: alimentação, água, sexo e
abuso de drogas. Esses estímulos causam aumento na atividade do núcleo
accumbens, pois há aumento do neurotransmissor dopamina.
Efeitos
Efeitos agudos:
Aparecem imediatamente após única dose e desaparecem dentro de poucos
minutos ou horas.
Entre eles:
- Euforia; Sensação de bem-estar;Autoconfiança elevada; Aceleração do
pensamento; Distúrbios do sono, insônia; Excitação motora; Desejo sexual (libido); -
Agressividade, inquietação; Anorexia leve; Aumento das percepções sensoriais
(sexuais, auditivas, táteis e visuais).
Efeitos crônicos:
O uso prolongado de cocaína pode ocasionar importantes prejuízos, como: -
Irritabilidade e distúrbios do humor; - Alucinação; - Delírio - Hostilidade; - Ansiedade;
- Medo, paranóia; - Abstinência; - Extrema energia ou exaustão; - Compulsão motora
estereotipada; - Diminuição do desejo sexual; - Violência extrema; - Anorexia; -
Tolerância e dependência.
Efeitos clínicos:
Várias complicações estão associadas ao abuso de cocaína. As mais freqüentes
incluem efeitos cardiovasculares, respiratórios, neurológicos e gastrintestinais.
Efeitos cardiovasculares:
Arritmias cardíacas, taquicardia, fibrilação ventricular, isquemia do miocárdio,
cardiomiopatias, infarto agudo do miocárdio, dissecção ou ruptura de aorta;
endocardite bacteriana (via e.v.).
Efeitos respiratórios:
a) Via inalatória: boncopneumonias, hemorragia pulmonar, edema pulmonar,
pneumomediastino, pneumotórax, asma, bronquite, bronquiolite obliterante, depósito
de resíduos, corpo estranho, lesões térmicas;
b) Via intranasal: broncopneumonias;
c) Via endovenosa: embolia pulmonar
Efeitos neurológicos: cefaléias, convulsões, acidente vascular cerebral,
hemorragia intracraniana, hemorragia subaracnóidea, aneurismas micóticos (via e.v.)
Complicações gastrintestinais: dor toráxica e abdominal, náuseas, isquemia
mesentérica, esofagite (via inalatória)
Aparelho excretor e distúrbios metabólicos:
Insuficiência renal aguda, hipertermia, hipoglicemia, acidose láctica, hipocalemia
Olhos, ouvidos, nariz e garganta:
a) Via intranasal: necrose de septo nasal, rinite, sinusite, laringite, a alteração no
olfato, hemorragia nasal, problemas na deglutição de alimentos;
b) Via inalatória: lesões térmicas
Outros efeitos: visão borrosa, febre, coma e morte.
Maconha
O grau de atividade psicológica possibilita a diferenciação dos canabinoides. São
conhecidas três classes de canabinoides que exercem efeitos psicológicos:
Canabigeróis (CBGs),
Canabicromenos (CBCs)
Canabidióis (CBDs).
Os efeitos incluem: alteração dos sentidos, alteração da noção de tempo, riso, alterações
do humor, retardo psicomotor, dificuldade no pensamento e na resolução de problemas e
comprometimento da memória
Fisiopatologia
Suas propriedades psicoativas são principalmente devidas a um canabinóide, o
delta-9-tetra-hidrocanabinol (THC). A concentração de THC é comumente usada como
uma medida da potência da cannabis. O THC se liga ao receptor canabinóide, um
receptor ligado à proteína G, que inibe a adenil-ciclase e estimula a condutância de
potássio.
Existem dois receptores canabinóides conhecidos: CB1 e CB2.
O CB1 é encontrado no sistema nervoso central, incluindo os gânglios da base,
substância negra, cerebelo, hipocampo e córtex cerebral. Ele age pré-sinapticamente
e inibe a liberação de vários neurotransmissores, incluindo:
Acetilcolina
L-glutamato
Ácido gama amino-butírico (GABA)
Noradrenalina
Dopamina e 5-hidroxitriptamina;
Por isso, o uso de cannabis diminui o tempo de reação e prejudica a atenção,
concentração, memória de curto prazo e avaliação de risco.
O CB2 é encontrado perifericamente nos tecidos do sistema imunológico (por
exemplo, macrófagos esplênicos e linfócitos B), terminais nervosos periféricos e ducto
deferente. Postula-se que ele desempenha um papel na regulação das respostas
imunes e reações inflamatórias.