Introdução:
O Concerto Europeu (1815-1914), estabelecido após o Congresso de
Viena, foi um sistema de equilíbrio de poder entre grandes potências — Reino
Unido, Áustria, Prússia, Rússia e, mais tarde, França — que garantiu
estabilidade na Europa por quase um século após as Guerras Napoleônicas.
Este trabalho defende que o neorrealismo defensivo, uma vertente do
neorrealismo estrutural articulada por Kenneth Waltz, oferece a melhor
explicação para a estabilidade e o colapso desse sistema, destacando a busca
por segurança em um ambiente anárquico. Baseado em Waltz e
complementado por teóricos como Robert Powell e Matthew Rendall, que
convergem ao enfatizar o papel do equilíbrio de poder, este ensaio analisa
eventos como a Guerra da Crimeia, as revoluções de 1848, e o colapso do
sistema em 1914 para demonstrar que o Concerto foi moldado por cálculos
estratégicos de sobrevivência, e não por normas institucionais ou ideais
liberais. Essa abordagem, centrada na anarquia estrutural, evita anacronismos
associados a teorias posteriores e captura a essência do período com rigor
teórico.
Definindo o Neorrealismo Defensivo:
O neorrealismo defensivo, desenvolvido por Kenneth Waltz em Theory of
International Politics, é uma teoria que explica o comportamento dos Estados a
partir da estrutura do sistema internacional. Waltz argumenta que a anarquia
— a ausência de uma autoridade central — força os Estados a priorizarem a
sobrevivência, adotando estratégias de equilíbrio de poder para proteger sua
segurança e manter o status quo. Diferentemente do realismo ofensivo, que
presume que os Estados buscam maximizar poder para alcançar hegemonia, o
neorrealismo defensivo sugere que os Estados são cautelosos, evitando
conflitos desnecessários que possam ameaçar sua estabilidade. No contexto
do Concerto Europeu, o neorrealismo defensivo explica por que as potências
cooperaram taticamente, como na contenção da Rússia durante a Guerra da
Crimeia, para preservar o equilíbrio sem ambições expansionistas. Matthew
Rendall aplica essa perspectiva ao Concerto, destacando como as potências
agiram para conter ameaças mútuas, enquanto Robert Powell complementa
Waltz ao enfatizar que o comportamento dos Estados depende do ambiente
estratégico, incluindo a distribuição de capacidades. Apesar de suas diferenças
— Waltz focando na estrutura sistêmica, Powell na dinâmica estratégica, e
Rendall na aplicação histórica —, esses teóricos convergem ao sustentar que o
Concerto foi um sistema onde a segurança, e não a dominação, guiava as
ações das potências.
O Neorrealismo Defensivo e o Concerto Europeu:
O Concerto Europeu exemplifica o neorrealismo defensivo em ação, com
as grandes potências priorizando a segurança em um sistema anárquico. Após
a derrota de Napoleão, o Congresso de Viena (1815) estabeleceu um arranjo
informal de consultas para prevenir novas hegemonias, refletindo a lógica de
equilíbrio de poder descrita por Waltz. A Guerra da Crimeia (1853-1856) ilustra
essa dinâmica: Reino Unido e França, com apoio tácito da Áustria, intervieram
para limitar a expansão russa no Mar Negro, culminando no Tratado de Paris,
que restaurou o equilíbrio. Waltz argumenta que, em sistemas anárquicos, os
Estados formam equilíbrios para conter ameaças, uma visão que explica a
cooperação tática do Concerto. Matthew Rendall reforça que a estabilidade do
período dependia de ações defensivas, como a contenção de potências
revisionistas, sem a necessidade de instituições formais.
As revoluções de 1848 oferecem outro exemplo. As potências, como a
Rússia apoiando a Áustria contra revoltas na Hungria, agiram para preservar a
ordem interna e externa, evitando que instabilidades locais desestabilizassem o
equilíbrio europeu. Waltz observa que tais intervenções refletem a prioridade da
sobrevivência em um sistema anárquico, enquanto Rendall destaca que a
cooperação no Concerto era motivada por interesses de segurança, não por
normas institucionais. Robert Powell complementa essa análise, sugerindo que
o ambiente estratégico do Concerto — marcado por rivalidades moderadas e
distribuição relativamente equilibrada de poder — favorecia a estabilidade,
alinhando-se com a visão de Waltz de que os Estados buscam segurança em
vez de dominação. Esses teóricos convergem ao mostrar que o Concerto foi
sustentado por cálculos estratégicos, onde as potências gerenciaram a
anarquia por meio de equilíbrios táticos.
O colapso do Concerto em 1914, com a ascensão da Alemanha
unificada, reflete as limitações do equilíbrio de poder em face de mudanças
estruturais. A unificação alemã (1871) alterou a distribuição de poder, levando a
alianças rígidas, como a Tríplice Aliança e a Tríplice Entente, que fragmentaram
o sistema. Waltz argumenta que mudanças na estrutura anárquica, como o
aumento do poder de um Estado, desestabilizam equilíbrios frágeis, uma visão
que explica o declínio do Concerto. Matthew Rendall observa que a
incapacidade das potências de conterem a Alemanha reflete os limites do
neorrealismo defensivo, enquanto Powell destaca que o ambiente estratégico
tornou-se mais competitivo, dificultando a cooperação. Apesar dessas nuances,
o neorrealismo defensivo oferece a explicação mais robusta para o Concerto,
capturando tanto sua estabilidade quanto seu colapso como produtos de
cálculos de segurança em um sistema anárquico.
Contexto Histórico:
O Concerto da Europa, foi estabelecido após o Congresso de Viena em
1815. Ele descreve o funcionamento pacífico de um sistema internacional
baseado no equilíbrio de poder que existia na Europa desde o fim das Guerras
Napoleônicas em 1815 até a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914.
Após uma série de guerras napoleônicas, as Grandes Potências Europeias
viram a necessidade de conter estados expansionistas, particularmente a
França, e estabelecer o primeiro sistema de segurança coletiva para garantir a
paz no continente europeu. As partes concordaram em apoiar-se mutuamente
em caso de guerra ou conflito interno nos termos do Tratado de Viena.
Concerto Europeu nasce formalmente do Congresso de Viena, em 1815,
quando as potências vencedoras — Reino Unido, Áustria, Prússia e Rússia —
decidem estabelecer um sistema de consulta mútua, com o objetivo de garantir
a paz e preservar a ordem monárquica europeia.
De acordo com o historiador Charles McLean Andrews (1896), a ideia
principal do Concerto era manter o equilíbrio de poder: nenhuma nação deveria
ficar tão forte a ponto de dominar as outras. Nesse sentido, destaca que
“uma que garantisse a paz desde que os termos do tratado redigido por aquele
congresso e os termos dos tratados posteriormente firmados e acordados pelas
principais Potências permanecessem inalterados; desde que o equilíbrio,
estabelecido por esses tratados após muitas negociações, discussões e
compromissos exaustivos, permanecesse inalterado. Manter esse equilíbrio
fora o princípio norteador dos estadistas europeus por quase quarenta anos.”
(The Historical Development of Modern Europe, p. 49)
Apesar de essa ideia já estar presente no pensamento político europeu
do século XVIII, foi com o Concerto que ela se tornou institucional, com
congressos diplomáticos regulares e consultas entre as lideranças do
continente. Mesmo que de forma informal e sem tratados rígidos, o sistema
atuava como uma rede para conter os impulsos expansionistas, baseado na
confiança. Andrews salienta que essa aliança, embora em muitos momentos
fosse meramente pragmática, representava uma nova concepção de política
internacional baseada na ideia de que o equilíbrio de poder e a legitimidade
dinástica eram pilares fundamentais para a paz. No entanto, ele também
reconhece que esse equilíbrio era constantemente testado por pressões
internas e externas, como os movimentos liberais, nacionalistas e
revolucionários que se intensificaram ao longo do século XIX. A ascensão dos
movimentos revolucionários e a sua relação com o enfraquecimento do sistema
do Concerto é citado pelos autores Clarence Perkins e Charles M. Andrews, o
impulso por unidade racial e independência nacional — ou seja, nacionalismo,
fazia parte de um processo histórico mais amplo que enfraqueceu a ordem
imposta pelo Concerto Europeu. Clarence Perkins reforça essa visão ao
caracterizar o Congresso de Viena como um “arranjo diplomático de
restauradores” e atribui ao chanceler austríaco Metternich a função de
liderança ideológica do sistema. Ele descreve Metternich como "a
personalidade dominante por trás desses arranjo", cujo objetivo era assegurar
a restauração da autoridade absolutista e conter os impulsos liberais e
nacionalistas que haviam sido liberados desde 1789, destacando desse modo
“A personalidade dominante por trás disso — Metternich, seus objetivos,
habilidade e importância histórica.” (Perkins, 1916, p. 9).
Para Charles M. Andrews, o estadista austríaco, foi descrito como a figura
dominante por trás do arranjo conservador pós-1815, e que seu objetivo era
conter revoluções e qualquer disseminação de ideias liberais ou nacionalistas
“havia excluído do país obras estrangeiras que contivessem sentimentos
liberais; havia examinado as palavras e atos de professores e estudantes; havia
proibido a organização de sociedades e sindicatos; e havia aberto cartas
suspeitas, exigido passaportes e visto todo estrangeiro com suspeita. [...] Essa
era a maneira pela qual Metternich havia imposto obediência em casa; e essa
era a forma de governo contra a qual a revolução de 1848 havia sido
empreendida.” (The Historical Development of Modern Europe, p. 280)
Perkins, observa que a Revolução de 1848 na Áustria foi causada por:
Infiltração de idéias liberais gradual; A revolução industrial e seus efeitos na
Áustria e os movimentos nacionais”. destaca-se nisso movimentos específicos,
como os nacionalismos boêmio e húngaro, e as demandas de reformistas
como Deák e Kossuth, indicando que o liberalismo político e os nacionalismos
étnicos estavam intimamente ligados às crises enfrentadas pelo sistema
austríaco e, por consequência, ao declínio do Concerto Europeu. A estrutura do
Concerto não era apenas diplomática, mas também repressiva: sustentava-se
na legitimação da intervenção armada em qualquer Estado que fosse
ameaçado por revoluções, o que ficou patente nos Congressos de Troppau
(1820), Laibach (1821) e Verona (1822). As ações tomadas pela Áustria,
Rússia e Prússia nos Congressos de Troppau e Laibach, em reação à
Revolução de Nápoles de 1820, foram fundamentadas em princípios que
buscavam dar às grandes potências da Europa uma razão constante para se
envolver nos assuntos internos de outros países. Essa doutrina, conforme
exposta, ela foi estruturada para manter a ordem monárquica européia e conter
qualquer ameaça revolucionária que emergisse, mesmo que apenas
potencialmente. A Grã-Bretanha nesse congresso discordou dessa doutrina,
afirmando que ela desrespeitaria os limites da monarquia constitucional e
afetaria a soberania. Segundo o diplomata Henry Wheaton (1836), as ações
dessas potências em Troppau e Laibach se baseavam em princípios que
dariam às grandes potências um motivo constante para se meter nos assuntos
internos de outros países. A visão britânica é que esse tipo de intervenção
deveria ser uma exceção extrema, e que seria extremamente perigoso torná-la
uma norma permanente do direito internacional. A rejeição britânica fica claro
no congresso de Verona, em 1822, o governo britânico decidiu não se envolver
nas decisões das outras potências — Áustria, Rússia, Prússia e França — que
levaram à intervenção militar nos assuntos da Espanha e à derrubada da
Constituição liberal das Cortes. Os britânicos eram firmemente contra a ideia
de que qualquer país pudesse exigir mudanças nas instituições de outro,
especialmente sob ameaça de força, caso esse país não aceitasse as
mudanças. Para eles, a revolução na Espanha não representava uma ameaça
imediata à segurança ou aos interesses de outros países europeus, então não
havia razão válida para uma intervenção externa. Além disso, o governo
britânico lembrou que a aliança entre as potências europeias foi criada para um
propósito específico: libertar a Europa do domínio de Napoleão. Com esse
objetivo cumprido, a aliança deveria garantir a paz e o equilíbrio conforme os
acordos pós-guerra, e não se tornar uma supervisão permanente dos assuntos
internos dos países. Segundo os britânicos, não havia evidências de que a
Espanha planejava atacar a França, desestabilizar suas instituições ou incitar
rebeliões entre suas tropas. Portanto, enquanto os conflitos na Espanha
ficassem restritos ao seu território, Londres não via motivos para qualquer tipo
de interferência. Cabe apontar que, conforme observa Wheaton, esse ambiente
de intervenção contínua nos assuntos internos de outros Estados criava um
pretexto permanente para intervenção e, ao ser aplicada de forma
generalizada, colocava em risco princípios fundamentais do direito
internacional e da soberania estatal (WHEATON, 1836, p. 105).
A Guerra da Crimeia (1853–1856) foi, o ponto de ruptura definitivo. Andrews
observa que a aliança entre França, Reino Unido e o Império Otomano contra a
Rússia "marcou o colapso do espírito cooperativo do Concerto". A Guerra da
Crimeia revelou o fim da confiança mútua entre as potências e inaugurou uma
nova fase das relações internacionais europeias marcada por rivalidades
bilaterais e nacionalismos expansionistas. o Autor Perkins, critica fortemente o
Congresso de Paris (1856), que tentou restabelecer a lógica multilateral do
Concerto. Segundo ele, a inclusão do Império Otomano no “sistema europeu”
foi “provavelmente o ato diplomático mais insensato e suicida já realizado", pois
pretendia civilizar o sultão sem ter qualquer meio efetivo de intervir ou garantir
reformas, abrindo brechas para novos conflitos no leste europeu.
À medida que a unificação italiana e alemã avançavam, e com a
ascensão de figuras como Bismarck e Cavour, o Concerto se mostrava cada
vez mais obsoleto. Quase não sobrou nenhum vestígio daquelas condições do
congresso de Viena, pois a Europa já havia ingressado numa nova era
marcada por Estados-nação militarizados, políticas externas agressivas e
diplomacias de poder, não mais de consenso. O colapso final do Concerto se
deu com o advento das alianças rígidas que antecederam a Primeira Guerra
Mundial. De acordo com autor Malcolm MacColl, vai além de uma simples
crítica à inércia do Concerto Europeu e o acusa de cumplicidade ativa. Ele
compara as grandes potências à “ladrôes", cuja repulsa em agir contra o
Império Otomano decorre não de um compromisso com a paz, mas da
desconfiança mútua quanto à repartição dos benefícios territoriais: "O que pode
causar uma grande guerra senão o egoísmo das próprias potências sua
ganância em apoderar-se do que não pertence a nenhuma delas, como um
bando de bandidos vigiando algum butim que não ousam tomar por medo de
brigar entre si sobre sua distribuição?". Em sua fase terminal, o sistema do
Concerto já não se fundamentava em princípios ou valores comuns, mas em
uma trégua precária entre interesses nacionais conflitantes e ambições
imperialistas. O diagnóstico de MacColl antecipa, com notável precisão, as
críticas que viriam a ser dirigidas à Liga das Nações décadas mais tarde, como
observado no Fortnightly Review (1921) especialmente no que diz respeito à
divisão estrutural entre grandes e pequenas potências, à retórica esvaziada de
conteúdo prático e à inação sistemática diante de flagrantes violações do
direito e da justiça internacional.
Conclusão:
O neorrealismo defensivo, centrado na busca por segurança em um
sistema anárquico, oferece a melhor explicação para o Concerto Europeu,
capturando sua essência como um arranjo de equilíbrio de poder entre grandes
potências. Kenneth Waltz, apoiado por Robert Powell e Matthew Rendall,
destaca a centralidade da anarquia estrutural e dos cálculos estratégicos no
período, em contraste com abordagens que enfatizam instituições ou normas
liberais, que seriam anacrônicas para o contexto do século XIX. Apesar de suas
diferenças teóricas — estrutural em Waltz, estratégica em Powell, aplicada em
Rendall —, esses autores convergem ao ilustrar que o Concerto foi sustentado
por ações defensivas para preservar a segurança, como visto na Guerra da
Crimeia e nas revoluções de 1848. Este trabalho sugere que o neorrealismo
defensivo, com sua ênfase na anarquia e no equilíbrio de poder, é a
abordagem mais adequada para compreender o Concerto, evitando os
anacronismos de teorias posteriores e oferecendo uma análise teórica que
reflete a realidade histórica do período.
Referências:
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Neoliberal Debate." International Organization, 48(2), 1994, pp. 313-344.
Rendall, Matthew. "Defensive realism and the Concert of Europe." Review of
International Studies, 32(3), 2006, pp. 523-540.
Waltz, Kenneth. Theory of International Politics. Reading, Mass: Addison-
Wesley, 1979
ANDREWS, Charles M., 1863–1943. The historical development of modern
Europe from the Congress of Vienna to the present time. Volume 1 1896. pp. 485.
ANDREWS, Charles M., 1863–1943. The historical development of modern
Europe from the Congress of Vienna to the present time. 2. 1898. pp. 497
PERKINS, Clarence, Ph.D. An outline of recent European history: 1815–
1916. set. 1916. pp. 80.
PREUSS, Arthur, 1871–1934 The Fortnightly Review. v. 28, 1921, pp. 472.
MACCOLL, Malcolm, 1831–1907. The sultan and the powers. London; New
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Wheaton, Henry Verfasser, Elements of International Law. 1863, pp. 1250