ORTEGA, A. C; JESUS, C. M. Café e Território: a cafeicultura no Cerrado Mineiro. São Paulo: Alínea, 2012. 246p.
Larissa Arvelos
RESENHA
ORTEGA, A. C; JESUS, C. M. Café e Território: a cafeicultura no Cerrado Mineiro. São Paulo: Alínea, 2012. 246p.
Larissa Arvelos
Aluna do curso de Geografia, Universidade Federal de Uberlândia
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Resenha recebida em 31/01/2013 e aceita para publicação 20/09/2013
Na obra intitulada “Café e Território a ca- também o deslocamento de da atividade para as terras
feicultura no Cerrado Mineiro”, os autores Antônio do Cerrado Mineiro e para outras regiões do país.
César Órtega e Clésio Marcelino de Jesus avaliam No segundo capítulo “O café na região do
o que denominam como “Território do Café do Cer- Cerrado Mineiro”, é apresentada a constituição
rado Mineiro”, porção territorial que compreende a da cafeicultura nesta região. Através dos Censos
mesorregião do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, Agropecuários, os autores descrevem a evolução
compreendida pelos autores como uma das mais da cafeicultura no cerrado mineiro ao longo de
bem-sucedidas experiências de arranjo produtivo da quarenta anos. Demonstram as especificidades da
cafeicultura do território brasileiro. cafeicultura mineira, brasileira e também destacam
No capítulo primeiro, “Origem e desenvolvi- a importância da agricultura familiar. Em seguida,
mento da cafeicultura no Brasil”, os autores descre- discorrem sobre as inovações tecnológicas e as
vem a história da disseminação da cultura do café e adaptações que geraram a alta produtividade da ca-
do hábito de tomar café pelo mundo, desde a África, feicultura e também apresentam dados sobre a apli-
passando pelo Oriente Médio, até chegar a Europa. Em cação e as consequências da inserção das máquinas
seguida discorrem sobre a consolidação da cafeicultu- na produção de café. Neste capítulo é demonstrado o
ra no Brasil, no século XVIII, concentrado no Sudeste, perfil dos cafeicultores, retratando a estrutura agrá-
que se inicia no Rio de Janeiro, no Vale do Paraíba, ria da produção e a forma diversificada da obtenção
estendendo-se para São Paulo, Minas Gerais e Paraná. de renda dos mesmos. O capítulo é encerrado com
Demonstram a importância que a expansão cafeeira a explicitação da estrutura política que dá suporte
teve na difusão da acumulação capitalista no Brasil, e fomenta o chamado arranjo territorial produtivo
como também na urbanização, e industrialização do do café no cerrado mineiro.
país. Ressaltam como o café interferiu nas relações
sociais de produção, com a superação do escravismo, No terceiro capítulo, “O enfoque territorial:
a emergência do colonato e a afirmação ao trabalho um referencial teórico de análise”, são exemplificadas
assalariado. Destacam a crise pós 1930, que impactou as experiências rurais autônomas que surgiram como
negativamente a demanda internacional do café em estratégias dos produtores visando competir no mer-
um momento de superprodução brasileira, gerando cado globalizado. Assim, a cafeicultura no cerrado
um quadro de forçada diversificação da agricultura mineiro é reconhecida pelos autores, como uma típica
nacional e posteriormente uma nova consolidação estratégia geográfica, que ganha espaço no mercado
da cafeicultura em áreas de maior produtividade. Os e é qualificada como altamente competitiva e bem
autores ainda apresentam a crise cafeeira do final dos sucedida pelo seu caráter institucionalizado e pela sua
anos 1960, também resultante de uma superprodução, exclusividade advinda das práticas de certificação de
que desencadeou a adoção de uma política de renova- origem do café.
ção e revigoramento da cafeicultura nacional, como
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No capítulo quarto, intitulado “Represen- autores dissecam a cadeia produtiva da cafeicultura
tação de Interesses e Construção Territorial na no cerrado mineiro, descrevendo minuciosamente
Cafeicultura do Cerrado Mineiro” é caracterizado o os segmentos que participam da mesma. Destacam
surgimento das associações entre os cafeicultutores o setor “à montante”, o setor agrícola, o “setor à ju-
do Cerrado Mineiro, reconhecendo-as como resul- sante”, o consumo final e os serviços de apoio, cada
tado de um processo de especialização produtiva. um desempenhando uma função específica, que dão
Este quadro de especialização, segundo os autores, suporte à realização da cafeicultura na região. Em
favoreceu a criação de entidades representativas seguida fazem a explicitação do funcionamento do
também especializadas, as chamadas organizações mercado mundial do café e também da produção
por produto, com o fim de canalizar reivindicações brasileira, bem como suas influências para a produção
de coletivos específicos, sabidamente, os agriculto- de café no cerrado mineiro.
res produtores de café que geraram um quadro de O capítulo oitavo, intitulado “Transforma-
hegemonia específica. ções produtivas e Diferenciação Social no Território
No quinto capítulo, “Estado, Financiamento, do Café do Cerrado Mineiro”, os autores dissertam
Pesquisa e Assistência Técnica Oficial na Cafeicul- sobre a adoção das inovações mecânicas utilizadas
tura do Cerrado Mineiro” os autores dão destaque ao na cafeicultura do cerrado mineiro, provocando trans-
papel intervencionista do Estado, que por meio de formações nas relações de trabalho, como é o caso
políticas públicas possibilitaram a ocupação recente da mecanização da colheita (já que o café sempre foi
do Cerrado, viabilizando a difusão da Revolução demandante de expressiva força de trabalho manual).
Verde e a incorporação da modernização do campo. Este capítulo é organizado em duas seções, na primei-
Os autores demonstram o papel importante da política ra seção é abordado o processo de intensificação da
incentivando a produção cafeeira através de incentivos modernização do processo produtivo da cafeicultura
fiscais, a criação de linhas de créditos especiais aos através da inserção de maquinários especializados na
produtores, regulação de preços e estoques, fomento produção. Na segunda seção é discutido o impacto
ao marketing internacional, criação e também refor- desse processo modernizador sobre as populações
mas na infraestrutura de armazenamento dos grãos e envolvidas nesta atividade. Destacam-se também os
incentivo às pesquisas tecnológicas agrícolas. efeitos da mecanização da colheita, que exclui a mão
No capítulo sexto, “A representação da de obra humana e pouco qualificada, introduzindo
cafeicultura do Cerrado Mineiro”, os autores de- novas exigências (trabalhadores extremamente espe-
lineiam um quadro da atual Política Nacional de cializados).
Recursos Hídricos (PNRH), procurando destacar No último capítulo “Certificação de Origem: A
as principais novidades trazidas no âmbito da busca da singularidade como referência o território”,
participação da sociedade nos comitês de bacias os autores descrevem as experiências que buscam a
hidrográficas e da definição da água enquanto bem obtenção da indicação geográfica de procedência do
público que deve ser dotado de valor econômico. produto pra agregar valor, por meio de selos de qua-
O modelo intensivo de exploração utilizado pelos lidade e origem, que visam tornar o café do cerrado
cafeicultores, com maior número de plantas por reconhecimento um produto diferenciado, valorizando
hectare, visando maior produtividade, requer o uso um conjunto de características específicas que são
intensivo de irrigação, particularmente na época da reconhecidas pelo mercado consumidor. Destacam
florada. O uso intensivo dos recursos hídricos para a a construção da marca de denominação de origem
produção cafeeira tem levado os produtores, através do café do cerrado (“Região do Cerrado Mineiro”)
de suas organizações representativas, a participar e posteriormente dissertam sobre a difusão de outras
efetivamente das discussões da constituição do certificações que, nesta região, são incorporadas pelos
Comitê de Bacias Hidrográficas do Rio Paranaíba. produtores de café.
No sétimo capítulo, intitulado “A cadeia
produtiva no território Café do Cerrado Mineiro”, os
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Em várias ciências, o território figura como
um conceito que hoje ganha caráter polissêmico, e tem
aparecido em diferentes abordagens. O livro “Café e
Território: a cafeicultura no Cerrado Mineiro” é uma
importante documentação a cerca das características
da cafeicultura no cerrado mineiro, desse modo ele é
uma fonte minuciosa de dados estatísticos e oferece
uma proposta teórica particular advinda da ciência
econômica para a análise da produção de café na
região. Trata-se de referência bibliográfica que pode
ser usada como instrumento para uma a análise das
estratégias da produção cafeeira no período atual.
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