PODER JUDICIÁRIO
JUSTIÇA DO TRABALHO
TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 21ª REGIÃO
9ª VARA DO TRABALHO DE NATAL
ACPCiv 0000020-80.2025.5.21.0009
AUTOR: MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO
RÉU: PETROBRAS TRANSPORTE S/A. (TRANSPETRO)
SENTENÇA
I - RELATÓRIO.
Trata-se de Ação Civil Pública ajuizada pelo Ministério Público do
Trabalho da 21ª Região em face da empresa PETROBRAS TRANSPORTE S/A –
TRANSPETRO, visando à tutela de direitos fundamentais previstos na Constituição
Federal, notadamente o princípio da obrigatoriedade de concurso público para
investidura em empregos públicos (art. 37, II e §2º, da CF/88).
Com base nos arts. 12 da Lei nº 7.347/85, 84 do CDC e 300 do
CPC, o MPT requereu, liminarmente, que este Juízo determinasse:
a) A realização de concurso público
no prazo de 180 (cento e oitenta dias), nele compreendido a abertura,
homologação de resultado, convocação e contratação de empregados permanentes
para a substituição dos empregados admitidos sem prévia aprovação em concurso
público;
b) A dispensa, no prazo de 180 (cento e oitenta dias), todos os
trabalhadores de seu quadro de pessoal que foram admitidos após 05/10/1988 em
desacordo com a regra da prévia aprovação em concurso público, prevista no artigo 37,
inciso II e
§2º, da Constituição Federal, em especial os contratados temporariamente para
exercícios de funções de caráter permanente;
c) A abstenção de novas contratações
sem prévia aprovação em concurso
público, nos termos do artigo 37, inciso II e § 2º, da Constituição Federal,
ressalvadas as exceções legais e constitucionais expressamente previstas;
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d) A fixação de multa de R$ 10.000,00(dez mil reais) por cada por
trabalhador contratado sem prévia aprovação em concurso público, e por cada mês ou
fração de prestação de serviços de forma irregular, sendo que o valor da multa deverá
ser corrigido a partir da data do ajuizamento desta ação pelos índices de correção
monetária aplicados na Justiça do Trabalho.
Bem como a condenação da ré ao pagamento de indenização
por dano moral coletivo, não inferior a R$ 5.000.000,00, reais), a ser revertido para um
fundo específico destinado à recomposição dos bens lesados (art. 13 da Lei 7.347/85),
sem prejuízo de se conferir outra destinação social em favor da coletividade, a critério
do Ministério Público do Trabalho;
A tutela de urgência não foi apreciada liminarmente, tendo o
Juízo consignado que o pedido seria analisado em sede de sentença.
A empresa Ré apresentou contestação escrita, instruída com
documentos como registros de empregados, dados operacionais e acordos coletivos.
Alegou que as contratações por tempo determinado observam o art. 443, §2º, “a”, da
CLT e são justificadas por exigências operacionais excepcionais, afastamentos médicos
e determinações da Autoridade Marítima.
O MPT apresentou réplica e razões finais, reiterando os pedidos
iniciais e impugnando os documentos apresentados pela Ré.
Na audiência realizada em 20/02/2025, as partes não indicaram
novas provas, tampouco pretenderam a oitiva de testemunhas. Foi fixada a data de 20
/03/2025 para o encerramento da instrução. Em 27/03/2025, este Juízo declarou
encerrada a instrução processual e determinou a conclusão dos autos para julgamento.
Não houve acordo.
Relatei.
Decido.
II - FUNDAMENTAÇÃO
Inicialmente, reafirma-se a legitimidade ativa do Ministério
Público do Trabalho e para ajuizar ação civil pública, no âmbito da Justiça do Trabalho,
na defesa de direitos e de interesses coletivos e/ou difusos e direitos individuais
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homogêneos, quando desrespeitados os direitos sociais e trabalhistas
constitucionalmente garantidos.
DO ATENDIMENTO AO DISPOSTO NO ARTIGO 37, INCISO II, DA
CONSTITUIÇÃO FEDERAL
A presente Ação Civil Pública foi ajuizada pelo Ministério Público
do Trabalho (Id. 4292ced) com a finalidade de compelir a Reclamada a cessar a prática
reiterada de contratações diretas por prazo determinado para funções permanentes,
em desconformidade com o art. 37, II, da Constituição Federal. Sustenta o Parquet que
a empresa vem, ao longo dos anos, burlando a regra do concurso público, inclusive
durante a vigência do Edital nº 01-TRANSPETRO/PSP-RH-2017.1, preterindo candidatos
aprovados e comprometendo os princípios da legalidade, impessoalidade e isonomia.
A Reclamada, em sua contestação (Id. b757dee), sustentou que
as contratações por tempo determinado são legítimas e amparadas pelo art. 443, §2º,
‘a’, da CLT, por atenderem a necessidades operacionais excepcionais, como licenças
médicas, afastamentos por acidentes, e demandas sazonais nas operações marítimas.
Alegou, ainda, que suas políticas estão respaldadas por norma interna específica (PP-
1TP-00065-0) voltada à contratação de marítimos temporários, e que há limitações
impostas pela Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (SEST)
que dificultam ajustes remuneratórios e estruturais no quadro funcional. Invocou o art.
37, IX, da CF/88 e a Lei nº 13.303/2016 como fundamentos para contratações diretas
excepcionais, além de argumentar que o processo de admissão de concursados é
moroso, em razão das exigências médicas e de capacitação técnica obrigatória, o que
justificaria contratações imediatas por prazo determinado (Id. 4292ced, fls. 4-7).
Analiso.
O artigo 37 da Constituição Federal estabelece os princípios que
regem a Administração Pública direta e indireta, incluindo empresas públicas e
sociedades de economia mista. Dentre esses princípios, destaca-se o da
obrigatoriedade de aprovação prévia em concurso público para investidura em cargo
ou emprego público, salvo exceções expressamente previstas em lei (art. 37, II e §2º, CF
/88).
A discussão central trazida neste processo tem por objeto a
prática reiterada, pela ré, PETROBRAS TRANSPORTE S/A – TRANSPETRO, de
contratações por tempo determinado para funções de caráter permanente, sem
observância da regra constitucional do concurso público. Relatório extraído do sistema
e-Social aponta que, em dezembro de 2023, 17,93% do quadro de empregados da ré
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era composto por trabalhadores temporários, alcançando índices de até 40% em
determinadas funções essenciais, como as de cozinheiro de embarcação, oficiais de
máquinas e marinheiros.
Dentre as alegações e fundamentos jurídicos apresentados pela
Reclamada, invocaram-se o art. 443, §2º, “a”, da CLT, para justificar a validade dos
contratos por prazo determinado; o art. 37, IX, da Constituição Federal, como hipótese
de contratação por excepcional interesse público; e os arts. 28 a 30 da Lei nº 13.303
/2016, que disciplinam o regime jurídico das estatais. A Reclamada também sustenta
que seus procedimentos estão amparados em norma interna própria (PP-1TP-00065-0)
destinada à contratação de marítimos temporários.
Além disso, alegou, em uma das fases do inquérito junto ao
MPT, que o processo de admissão de candidatos aprovados em concurso público
exigiria prazo médio de três meses, em razão da necessidade de avaliações
biopsicossociais, exames médicos e treinamentos obrigatórios, o que justificaria,
segundo sua ótica, a adoção de contratações imediatas por tempo determinado (ID.
4292ced, fl. 7). Acrescenta, ainda, a existência de fatores estruturais, como a suposta
“pouca atratividade” dos cargos públicos frente às oportunidades do setor privado e
limitações impostas pela Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas
Estatais (SEST), que dificultariam ajustes na política remuneratória.
Importa declarar, de pronto, que o art. 443, §2º, “a”, da CLT não
excepciona o cumprimento do art. 37, II, da Constituição, norma de eficácia plena e
vinculante para a Administração Pública direta e indireta. O inciso IX do artigo
constitucional exige, para sua aplicação, a existência de lei específica que autorize a
contratação excepcional. No âmbito federal, essa lei é a Lei nº 8.745/1993, a qual, em
seu art. 1º, limita expressamente sua incidência à administração pública direta,
autarquias e fundações públicas, nos seguintes termos:
Art. 1º Para atender a necessidade
temporária de excepcional interesse público, os órgãos da
Administração Federal direta, as autarquias e as fundações
públicas poderão efetuar contratação de pessoal por tempo
determinado, nas condições e prazos previstos nesta Lei.
Como se vê, a referida norma não abrange empresas públicas e
sociedades de economia mista, como é o caso da TRANSPETRO.
Essa conclusão é confirmada pelo Tribunal de Contas da União,
que no Acórdão 3888/2011 – Segunda Câmara consignou:
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“(...)De fato, ao dispor sobre a
contratação por tempo determinado para atender a
necessidade temporária de excepcional interesse público, a
Lei 8.745/1993, em seu art. 1º, limitou sua extensão à
administração federal direta, às autarquias e às fundações
públicas. Excluiu, assim, as empresas públicas e as
sociedades de economia mista, cujas atividades exigem
regime jurídico diferenciado, dada a necessidade de maior
celeridade na resposta a exigências do mercado.”
O mesmo acórdão asseverou, ainda, que as contratações
temporárias de pessoal pelas empresas estatais devem ser regidas pela Lei nº 6.019
/1974, o que pressupõe vínculo mediado por empresa especializada e finalidade
transitória, diversa da situação dos autos, em que se verifica a contratação direta de
pessoal para o exercício de funções estruturais e permanentes.
A Lei nº 13.303/2016, por sua vez, disciplina a governança e os
procedimentos licitatórios das estatais, não conferindo margem para admissão direta
de pessoal sem concurso público, tampouco podendo ser interpretada como
fundamento para afastar a regra constitucional do art. 37. Tampouco não possuem tal
efeito os regulamentos internos da empresa.
É certo que, no âmbito das estatais, há a possibilidade
excepcional de terceirização de atividades finalísticas, respaldado pelo art. 4º do
Decreto nº 9.507/2018 (dispõe sobre a execução indireta, mediante contratação, de
serviços da administração pública federal direta, autárquica e fundacional e das
empresas públicas e das sociedades de economia mista controladas pela União), que
flexibiliza, excepcionalmente, com base nos princípios da eficiência, economicidade e
razoabilidade, a contratação nas hipóteses de caráter temporário de serviço,
incremento temporário do volume de serviços, impossibilidade de competir no
mercado concorrencial em que se insere, entre outras não aplicáveis ao caso.
Contudo, a TRANSPETRO não elegeu a via da terceirização
mediada por empresa prestadora de serviços, mas sim a contratação direta e
individualizada de empregados por prazo determinado, sem concurso público, em
desconformidade com o ordenamento jurídico, sem estar contemplada na lei 8.745/93,
que regulamenta, a nível federal, o inciso IX do art. 37 da Constituição Federal. Assim,
mesmo diante da margem legal (embora essa magistrada não concorde com essa
prática) para terceirização em determinados contextos, a ré adotou conduta que se
mostra incompatível com o modelo constitucional vigente.
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No tocante à alegação de que o processo de admissão de
concursados é moroso, impõe-se salientar que tal realidade, mesmo que verdadeira,
não autoriza o afastamento do concurso público como regra de investidura no serviço
público. As necessárias etapas mencionadas mencionadas pela reclamada — exames
de aptidão física e mental, avaliações médicas e treinamentos — são perfeitamente
legítimas, sobretudo no contexto de atividades embarcadas e sujeitas a
regulamentações internacionais. Contudo, tais fases podem e devem ser racionalizadas
e incorporadas ao próprio cronograma do certame, como etapas eliminatórias e/ou
classificatórias, otimizando o processo de provimento e tornando a transição mais
célere e eficiente.
Nesse ínterim, enquanto os candidatos de um novo concurso
não estiverem plenamente aptos à posse, a manutenção de cadastro de reserva de
certames anteriores é medida institucional de prudência e planejamento, capaz de
suprir lacunas sem recorrer a vínculos precários. A jurisprudência e a boa prática
administrativa convergem nesse sentido.
No que se refere à justificativa de baixa atratividade do cargo,
constata-se que tal fundamento não afasta o dever constitucional de provimento via
concurso. Ao contrário, reforça a ausência de política institucional eficaz de retenção de
pessoal. Não se identificou nos autos qualquer iniciativa administrativa da Reclamada
perante a SEST para negociação de melhoria remuneratória ou reestruturação de
carreira. Tampouco se demonstrou que os trabalhadores temporários recebessem
salários superiores aos concursados — o que, se comprovado, acarretaria violação ao
princípio da isonomia salarial, assegurado pelo art. 5º, caput, da CF, e pelo art. 461 da
CLT.
Importa destacar, ainda, que a despeito de haver, segundo a ré,
em resposta ao MPT (Id. 4292ced, fl.11), novo concurso em andamento, não há
comprovação de plano estruturado para enfrentamento das causas das contratações
precárias. Ao revés, os elementos dos autos evidenciam que a TRANSPETRO não
pretende cessar a ilegal utilização da exceção prevista no art. 37, IX, da CF como forma
habitual de gestão de pessoal:
"A TRANSPETRO não almeja eliminar
por completo a modalidade de contratação de empregados
marítimos por prazo determinado [...] sendo, portanto, o
objetivo da empresa manter determinado patamar de
contratos por prazo determinado, conforme facultado pela
legislação vigente." (Id. 4292ced, fl. 7).
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Essa prática, inclusive, acarretou a preterição de candidatos
aprovados no concurso público regido pelo Edital nº 01-TRANSPETRO/PSP-RH-2017.1,
homologado em 25 de junho de 2018 e vigente à época dos contratos impugnados.
Conforme manifestação da própria empresa, haveria, no quadro, naquele período, 53
(cinquenta e três) CDM/BBD (Condutor de Máquinas Bombeador), sendo 39 (trinta e
nove) por prazo indeterminado, advindos, portanto, do processo seletivo público e 14
(quatorze) por prazo determinado (Id. 4292ced, fl. 5), o que evidencia a coexistência de
concursados e temporários em igual função.
É oportuno observar que diversos órgãos públicos com
demandas operacionais variáveis — como polícias civis e militares, bombeiros e
sistemas penitenciários — apesar de contemplados pela exceção constitucional,
adotam concursos públicos periódicos e manutenção de cadastros de reserva como
instrumento de gestão ordinária, compatibilizando agilidade operacional e observância
ao princípio da legalidade.
Na mesma linha, o Tribunal Superior do Trabalho tem
reafirmado que a contratação de terceirizados ou temporários, para o exercício das
mesmas funções previstas em concurso público vigente, caracteriza preterição de
candidatos aprovados, inclusive para cadastro de reserva:
AGRAVO EM AGRAVO DE
INSTRUMENTO EM RECURSO DE REVISTA DA RECLAMADA
(EMPRESA BRASILEIRA DE CORREIOS E TELEGRAFOS - ECT).
REGÊNCIA PELA LEI Nº 13.467/2017 - CONCURSO PÚBLICO.
CONTRATAÇÃO DE TERCEIRIZADOS . PRETERIÇÃO NA
NOMEAÇÃO DE CANDIDATO APROVADO. DIREITO SUBJETIVO
À NOMEAÇÃO. SÚMULAS 126 E 333 DO TST. A jurisprudência
desta Corte Superior é no sentido de que, embora o
candidato aprovado em concurso público em cadastro
reserva detenha apenas uma expectativa de direito à
nomeação, a contratação temporária, por comissão, ou
terceirização de pessoal durante a validade do concurso, para
desempenhar funções idênticas às previstas no edital,
caracteriza preterição dos candidatos aprovados, mesmo que
as contratações não estejam vinculadas às vagas declaradas
inicialmente no edital ou se destinem a preencher o cadastro
reserva . Julgados. A decisão regional está de acordo com a
notória e atual jurisprudência desta Corte Superior, razão
pela qual é inviável o processamento do recurso de revista,
nos termos do § 7º do art. 896 da CLT e da Súmula 333 do
TST. A revisão do julgado depende do reexame da prova,
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procedimento vedado em grau recursal de revista, a teor da
Súmula 126 do TST . Não merece reparos decisão
monocrática que negou seguimento ao agravo de
instrumento. Agravo a que se nega provimento. (TST - Ag-
AIRR: 0001534-74.2016 .5.10.0014, Relator.: Sergio Pinto
Martins, Data de Julgamento: 07/05/2024, 8ª Turma, Data de
Publicação: 13/05/2024).
Desse modo, reforço que a contratação direta e reiterada de
empregados por prazo determinado pela TRANSPETRO, para funções permanentes,
não encontra respaldo nas exceções constitucionais previstas no art. 37, IX da CF, uma
vez que inexiste lei específica que autorize tal prática no âmbito das empresas públicas
e sociedades de economia mista. Tampouco se trata de terceirização lícita, que
configura forma de contratação indireta, sem vínculo empregatício direto, e não se
confunde com provimento de cargos ou empregos públicos.
Portanto, mesmo sob a ótica das exceções constitucionais ou
das margens de flexibilidade administrativa conferidas às empresas estatais, a conduta
da TRANSPETRO mostra-se em desconformidade com os princípios constitucionais do
art. 37, notadamente os da legalidade, moralidade e impessoalidade.
Rejeita-se, pois, a tese de regularidade das contratações
temporárias sustentada pela Reclamada.
DA TUTELA DE URGÊNCIA OU DE EVIDÊNCIA LIMINAR
O Ministério Público do Trabalho pleiteia, na petição inicial, o
deferimento de tutela provisória de urgência, com fundamento nos arts. 294 e 300 do
CPC, art. 84, § 3º, do CDC e art. 12 da Lei nº 7.347/85, objetivando, entre outros,
compelir a Reclamada à abstenção de novas contratações diretas por prazo
determinado, bem como à adoção de medidas corretivas em sua política de
provimento de pessoal, com observância da regra do concurso público.
Ressalta-se, inicialmente, que não há óbice a apreciação da
tutela de urgência em sede de mérito, mesmo porque ante a natureza precária da
tutela pode ser inclusive alterada. Não há vedação legal à sua concessão em sede de
provimento final, sobretudo quando ainda não examinada anteriormente e quando a
urgência ou a evidência do direito se mostram configuradas de forma incontroversa,
como nos autos, hipótese em que o provimento antecipatório se incorpora ao mérito,
com eficácia imediata e executiva.
Nos termos do art. 300 do CPC, o deferimento da tutela de
urgência requer a presença concomitante de três requisitos: (i) probabilidade do
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direito; (ii) perigo de dano ou risco ao resultado útil do processo; e (iii) reversibilidade
da medida.
No presente caso, o direito invocado pelo Parquet está
amparado em norma constitucional de eficácia plena (art. 37, II, da CF), cuja violação
encontra-se evidenciada pelas provas constantes dos autos, especialmente pelos
dados extraídos do sistema e-Social, que revelam a prática reiterada da Reclamada de
admitir pessoal por prazo determinado para exercício de funções permanentes, à
margem de concurso público vigente.
A probabilidade do direito, portanto, está sobejamente
demonstrada, não apenas pela natureza da norma violada, mas também pela ausência
de justificativas legalmente válidas para afastamento do concurso público. O perigo de
dano decorre da própria perpetuação da prática ilícita e de seu impacto sobre o
interesse coletivo dos candidatos aprovados, além da lesividade à moralidade
administrativa.
Nesse sentido, estão presentes os seguintes requisitos legais:
Probabilidade do direito, amparado em norma constitucional de eficácia plena
(art. 37, II, da CF/88), com robusta demonstração de sua violação por meio das
contratações temporárias ilegais realizadas pela Reclamada;
Perigo de dano ou risco ao resultado útil do processo, consubstanciado na
perpetuação da prática inconstitucional e na lesividade ao interesse coletivo;
Reversibilidade da medida, pois não há irreversibilidade nos comandos ora
determinados, que visam apenas compelir a observância de normas
constitucionais.
Evidência do direito, tendo em vista a existência de prova documental suficiente e
a reiteração institucionalizada da conduta ilícita, mesmo após recomendações
ministeriais.
Com esses fundamentos, diante da robustez do direito
demonstrado e do risco de ineficácia da prestação jurisdicional futura, concedo
a antecipação dos efeitos da TUTELA de mérito, para que a Reclamada cumpra as
seguintes obrigações no prazo nelas estipulados, sob pena de multa diária de R$
10.000,00 (dez mil reais) por trabalhador mantido ou contratado irregularmente, e por
mês ou fração de prestação de serviços em desacordo com esta decisão, com correção
monetária desde o ajuizamento da ação, a ser revertida para um fundo específico
destinado à recomposição dos bens lesados (art. 13 da Lei 7.347/85), sem prejuízo de
se conferir outra destinação social em favor da coletividade, a critério do Ministério
Público do Trabalho.
Obrigações de Fazer:
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1. REALIZAR concurso público, no prazo de 180 (cento e oitenta) dias, contados da
intimação desta decisão, compreendendo a abertura, etapas eliminatórias e
classificatórias, homologação do resultado, convocação e contratação de
empregados efetivos, para substituição integral dos trabalhadores admitidos sem
prévia aprovação em concurso público;
2. REALIZAR a dispensa, no mesmo prazo de 180 (cento e oitenta) dias, de todos os
empregados contratados diretamente após 05/10/1988, sem observância da
exigência constitucional de concurso público (art. 37, II e §2º da CF/88),
notadamente os ocupantes de funções de natureza permanente contratados por
prazo determinado;
3. ABSTER-SE, a partir desta data, de realizar novas contratações diretas, sem prévia
aprovação em concurso público, ressalvadas apenas as hipóteses expressamente
previstas em lei ou na Constituição Federal
DOS DANOS MORAIS COLETIVOS
Requer o Ministério Público do Trabalho a condenação da
Reclamada ao pagamento de indenização por dano moral coletivo, no valor de
R$ 5.000.000,00 (cinco milhões de reais), em razão da prática reiterada de contratações
precárias à margem da regra constitucional do concurso público, em afronta aos
princípios da legalidade, moralidade administrativa, impessoalidade e isonomia.
A Reclamada, em sua contestação, sustenta a inexistência de ato
ilícito, nexo causal e dano, elementos essenciais à responsabilização civil, afirmando
que a contratação excepcional por prazo determinado visava garantir a continuidade
de serviços essenciais, estando amparada no art. 443, §2º, da CLT e na Lei 13.303/2016
(Id. b757dee, fl. 821). Aduz, ainda, que o dano moral coletivo exigiria demonstração de
repulsa social significativa e abalo generalizado da coletividade — o que, segundo a
tese defensiva, não se verificou nos autos (Id. b757dee, fls. 825-826).
Analiso.
O dano moral coletivo caracteriza-se pela lesão relevante a
valores fundamentais da coletividade, de natureza extrapatrimonial, sendo suficiente,
para sua configuração, a comprovação da ofensa à ordem jurídica objetiva e aos
interesses difusos ou coletivos tutelados. Sua função é dupla: compensatória, em nome
da coletividade lesada, e pedagógica, para inibir a reiteração da conduta.
Ressalte-se que a conduta em questão não foi apenas tolerada
ou isolada, mas reiteradamente adotada pela empresa, fazendo letra morta a
Constituição, mesmo após sucessivos expedientes e recomendações do Ministério
Público do Trabalho, que instaurou o Inquérito Civil nº 000253.2019.21.000/6 e, ao
longo dos anos, apontou formalmente a irregularidade das contratações (Id. 4292ced).
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A omissão em adotar providências corretivas diante de apuração ministerial formal,
bem como o dolo deliberado, expresso e institucionalizado nos atos ilegais aqui
analisados, confere à conduta da ré um caráter de elevada resistência à legalidade,
agravando o dano à ordem jurídica e à coletividade lesada.
No caso, restou incontroverso que a TRANSPETRO procedeu à
contratação direta de trabalhadores, por prazo determinado, para funções de natureza
permanente, sem a realização de concurso público. Relatório do sistema e-Social
aponta que, em dezembro de 2023, 17,93% do quadro funcional da empresa era
composto por temporários, atingindo percentuais superiores a 40% em funções
operacionais essenciais, como a de cozinheiro de embarcação.
A conduta não foi episódica, tampouco pontual. Foi adotada de
forma reiterada e institucionalizada, com base em regulamentação interna que não
possui força jurídica para afastar norma constitucional, e como visto supra, não se
pretende cessar. Tal prática, longe de mera irregularidade administrativa, configura
violação relevante ao art. 37, II, da Constituição Federal, comprometendo o regime
jurídico de acesso aos empregos públicos e desvalorizando os princípios de
impessoalidade, isonomia e legalidade.
A jurisprudência consolidada do Tribunal Superior do Trabalho
reconhece a ilicitude dessa prática e sua aptidão para gerar dano moral in re ipsa.
Nesse sentido, destaca-se:
"I. AGRAVO DA RECLAMANTE.
RECURSO DE REVISTA DA RECLAMANTE. REGIDO PELA LEI
13.015/2014. PRETERIÇÃO EM CONCURSO PÚBLICO.
INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL. Constatada possível
violação na decisão monocrática em que não conhecido o
recurso de revista da Reclamante, merece provimento o
agravo para melhor análise do recurso de revista. Agravo
provido. II. RECURSO DE REVISTA DA RECLAMANTE. REGIDO
PELA LEI 13.015/2014. PRETERIÇÃO EM CONCURSO PÚBLICO.
INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL. Discute-se, no caso, o
direito à reparação por danos morais em razão de a empresa
contratar trabalhadores terceirizados, quando verificada a
realização de certame público e a pendência de nomeação de
candidatos aprovados durante o respectivo prazo de vigência.
A jurisprudência desta Corte firmou-se no sentido de que,
uma vez reconhecida a ilicitude da prática adotada pelo
Reclamado, o dano moral é in re ipsa, prescindindo de
demonstração do dano experimentado pelo trabalhador.
Nesse cenário, a só circunstância de ter havido preterição do
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candidato concursado é suficiente para gerar a obrigação de
indenizar. Julgados da SBDI-1/[Link] de revista
conhecido e provido." (TST – Ag: 175868-2014.5.10.0018, Rel.
Min. Douglas Alencar Rodrigues, 5ª Turma, DEJT 10/06/2022)
No arbitramento do valor da indenização, observam-se os
critérios da proporcionalidade, razoabilidade, extensão do dano e capacidade
econômica da empresa, conforme orientação do art. 944 do Código Civil. Considera-se,
ainda, a finalidade pedagógica e sancionatória da condenação, sem que se configure
enriquecimento sem causa nem penalidade desproporcional.
Considerando a gravidade da conduta, a extensão do dano, o
caráter pedagógico da medida e a capacidade econômica da Reclamada, JULGO
PROCEDENTE o pedido para fixar a indenização por dano moral coletivo no valor de
R$ 5.000.000,00 (cinco milhões de reais), conforme requerido na inicial.
JUROS E CORREÇÃO MONETÁRIA
Como parâmetros de liquidação dos juros e correção monetária,
devem ser utilizadas as balizas definidas pelo Supremo Tribunal Federal, no julgamento
proferido em 18/12/2020, das ADCs 58 e 59 e nas ADIs 5.867 e 6021, com acórdão
publicado em 07/04/2021.
III - DISPOSITIVO.
ANTE O EXPOSTO, CONCEDO A ANTECIPAÇÃO DOS EFEITOS DA
TUTELA DE URGÊNCIA/EVIDÊNCIA, para no prazo descrito para cada obrigação,
independente do trânsito em julgado do decisum, cumprir as obrigações de fazer, no
mérito, JULGO PROCEDENTES os pedidos formulados pelo MINISTÉRIO PÚBLICO DO
TRABALHO para, confirmando as medidas determinadas em sede de antecipação de
tutela, condenar a empresa PETROBRAS TRANSPORTE S.A. – TRANSPETRO ao
cumprimento das seguintes obrigações, tudo nos termos da fundamentação, que
passa a integrar o presente dispositivo:
DE FAZER:
1. REALIZAR concurso público, no prazo de 180 (cento e oitenta) dias, contados da
intimação desta decisão, compreendendo a abertura, etapas eliminatórias e
classificatórias, homologação do resultado, convocação e contratação de
empregados efetivos, para substituição integral dos trabalhadores admitidos sem
prévia aprovação em concurso público;
2. REALIZAR a dispensa, no mesmo prazo de 180 (cento e oitenta) dias, de todos os
empregados contratados diretamente após 05/10/1988, sem observância da
exigência constitucional de concurso público (art. 37, II e §2º da CF/88),
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notadamente os ocupantes de funções de natureza permanente contratados por
prazo determinado;
3. ABSTER-SE a partir deste data, de realizar novas contratações diretas, sem prévia
aprovação em concurso público, ressalvadas apenas as hipóteses expressamente
previstas em lei ou na Constituição Federal.
EXPEÇA-SE MANDADO DE CUMPRIMENTO DAS DETERMINAÇÕES
ACIMA
DE PAGAR: danos morais coletivos, no valor de R$ 5.000.000,00
(cinco milhões de reais), a ser revertido para um fundo específico destinado à
recomposição dos bens lesados (art. 13 da Lei 7.347/85), sem prejuízo de se conferir
outra destinação social em favor da coletividade, a critério do Ministério Público do
Trabalho.
Fixo multa diária de R$ 10.000,00 (dez mil reais) por trabalhador
mantido ou contratado irregularmente, e por mês ou fração de prestação de serviços
em desacordo com esta decisão, com correção monetária desde o ajuizamento da
ação, a ser revertida para um fundo específico destinado à recomposição dos bens
lesados (art. 13 da Lei 7.347/85), sem prejuízo de se conferir outra destinação social em
favor da coletividade, a critério do Ministério Público do Trabalho.
Custas, pela reclamada, no importe correspondente a 2% sobre
o valor dado à causa para fins recursais.
Juros e atualização monetária na forma da fundamentação.
Descumprida a sentença, proceda a Secretaria da Vara à
inclusão dos dados da reclamada no Banco Nacional de Devedores Trabalhistas,
conforme Lei 12.440/11.
Acaso não interpostos quaisquer apelos, registre-se o trânsito
em julgado e aguarde-se o prazo definido para cumprimento das obrigações, após o
que, registre seu pagamento no sistema PJE, com arquivamento dos autos, ou,
inadimplente a ré, à Contadoria Judicial para atualização com inclusão das
correspondentes multas, dando-se início à execução forçada, nos termos do
Provimento 01/2011, artigo 1º, a partir da alínea "b".
Para fins do art. 489, parágrafo 1º, do novel CPC, reputo que os
demais argumentos invocados pelas partes nos autos não possuem a potencialidade
de infirmar a conclusão adotada na fundamentação deste julgado.
Intimem-se as partes.
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NATAL/RN, 20 de maio de 2025.
LYGIA MARIA DE GODOY BATISTA CAVALCANTI
Juíza do Trabalho Titular
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[Link]
Número do processo: 0000020-80.2025.5.21.0009
Número do documento: 25051412200177600000022307507