UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS
INTERDISCIPLINARIDADE E PESQUISA EM DIREITOS HUMANOS
LUCIMARY ELISABETE DOS PASSOS
MARTA LUCIA SILVA DE MELO
PEDRO VICTOR DE ARAÚJO SALES
1. IDENTIFICAÇÃO DA FONTE
SIMAS, Tatiany de Oliveira. HISTÓRIAS DE RESISTÊNCIAS DE MULHERES
ESCRAVIZADAS EM PERNAMBUCO (1830-1856). 2017. 105 f. Dissertação (Mestrado)
- Curso de História, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2017
2. DA INTRODUÇÃO AO DESENVOLVIMENTO
Os aspectos relevantes observados na dissertação encontram-se presentes, nos mecanismos
e estratégias desenvolvidas, pelas mulheres escravizadas, construídas por elas, objetivando ao
enfrentamento e resistências às opressões e violências diversas, advindas e parte integrante do
regime de escravidão a que foram submetidas. É importante salientar que as formas de
resistências ao regime escravocrata, colocaram-nas na condição de agente e protagonistas
históricas, pela construção de suas lutas, em que buscaram condições de vida digna, espaços de
autonomia no cativeiro das suas inúmeras relações sociais, ocorridas nos espaços urbanos e
rurais de onde viviam.
O esqueleto da pesquisa se estrutura e forma no mundo trabalho escravo e das
resistências cotidianas, desenvolvidas pelas mulheres pernambucanas escravizadas, se
utilizando entre outros mecanismos e estratégias de atos, como as fugas, o cometimento de atos
criminais, o enfrentamento aos detentores da "Casa grande", entre outras formas de resistências.
A autora na construção de sua dissertação, mergulhou em diversas ideias e teorias que
foram desde, Maria Firmina dos Reis a Patrícia Hill Collins (sobre o pensamento feminista
negro, perpassando pelas ideias de conhecimento, consciência política e política de
empoderamento; mas também, trouxe-nos teorias de feministas como Joan Scott e Guacira
Lopes Louro, com uma perspectiva mais abrangente sobre gênero, sexualidade e educação no
campo pós-estruturalista; e com Maria Amélia Almeida de Teles, mergulhou na historicidade
do feminismo no Brasil; apresentou-nos na construção de sua dissertação, também as ideias de
Caio Prado Júnior, no que concerne à história econômica do Brasil.
A metodologia utilizada empregou: a pesquisa documental (através de inúmeros
registros públicos, a exemplo dos dados trazidos do Arquivo Nacional, amplo material
bibliográfico e fontes literárias.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As mulheres negras escravizadas não foram vítimas passivas. A pesquisa mostra essas
mulheres como agentes históricas que criaram ativamente mecanismos de resistência. Elas
buscavam melhores condições e espaços de autonomia, mesmo com o cativeiro na cidade e no
campo.
A resistência possuía muitas formas, começando pelo dia a dia, que essas mulheres
cometiam infrações de menor potencial ofensivo, mas que desafiavam a estrutura vigente,
como, por exemplo, desrespeitar o toque de recolher, fazer barulho na rua, falar palavras
consideradas obscenas em público e cometer pequenos furtos. A autora enxerga essa desordem
não apenas como forma de um simples delito, mas também como forma de insubordinação.
As fugas também foram um ato de resistência. As mulheres fugiam sozinhas, em grupo,
às vezes grávidas e com filhos pequenos, e muitas vezes voltavam ao cativeiro para buscar os
filhos. As fugas representavam uma busca por autonomia, uma clara rejeição à condição de
escravizada. Os amigos, o compadrio e a família foram muito importantes como rede de apoio
para acobertar as fugas, embora o estudo reconheça que havia delação entre os próprios
escravizados.
A autora reconhece os atos de resistência “extremos”, como o homicídio de senhores. A
pesquisa os considera como atos premeditados que nascem do desespero e dos maus-tratos. O
protagonismo das mulheres nessa forma de resistência quebra o estereótipo da mulher
escravizada dócil e submissa. Mesmo sendo minoria em número, a ação delas foi significativa.
O cerne do estudo é a agência dessas mulheres. Elas não foram somente levadas pela
história, usaram um leque enorme de táticas. Olhar para essas estratégias do passado não é só
para entender como a vida era durante a escravidão, ajuda a entender as raízes das desigualdades
que vemos até hoje. O legado da escravidão e do sexismo continuam impactando a vida dos
negros e, principalmente, das mulheres negras no Brasil.
4. NOTAS PESSOAIS
Na dissertação estudada, temos muitos aspectos que evidenciam a relevância dessa
pesquisa e sua contribuição para a temática investigada. Entre estes destacamos aqui, para o
momento, três elementos:
1 - A capacidade de maternar das negras escravizadas. que mesmo submetidas a
situações de violências e ataque a sua dignidadade, ainda eram capazes de lutar pela sua vida
e pela que guardava no ventre, fugindo do seu algoz . Uma expressão de resistência à
condição de escravização e de sobrevivência enquanto sentimento de que tinha o direito de se
reconhecer como humana.
Nessa mesma direção, podemos pautar momentos em que a fuga era solitária no
sentido de salvar a própria vida, se fortalecer e voltar para recuperar o filho que, nesse
momento, já era nascido e vivia no ambiente que o escravizava.
2- As mulheres negras escravizadas que cometiam crimes, até para cumprir pena,
tinham seus corpos sexualizados. Uma evidência de que não bastava ser escravizada como
pessoa, mas, também, lhe era capturado/aprisionado a dimensão de um corpo desejante, que
por sua vez era objetivicado/coisificado.
3- A sexualização dos corpos, era tão absurda, que até em momentos de anúncios nos
jornais de circulação para suas capturas, as descrições para identificar essas mulheres
escravizadas, caracterizavam-se a partir de informações tais como: PEITO EM PÉ,
BUNDA AVANTAJADA.