Amade Mateus Vilanculo
Belodina Felisberto Mavendje
Laura Manuel Zavale
Leonardo Carlos Covane
Nirma Carlos Fernando
Birnalgida Fernando Quimbe
Colácio Oliveira Mandeia
Silencio Armando Ulombe
Zeca Rafael Sarmento
Irene Anfoso João
REGIME JURÍDICO DAS PESSOAS COLETIVAS
Licenciatura em Administração pública
Universidade Save
Massinga
2025
Amade Mateus Vilanculo
Belodina Felisberto Mavendje
Laura Manuel Zavale
Leonardo Carlos Covane
Nirma Carlos Fernando
Birnalgida Fernando Quimbe
Colácio Oliveira Mandeia
Silencio Armando Ulombe
Zeca Rafael Sarmento
Irene Anfoso João
REGIME JURÍDICO DAS PESSOAS COLETIVAS
Trabalho de carácter investigativo a ser
apresentado na cadeira de Direito
Administrativo, para efeitos de avaliação.
Docente: Msc Ruthe Bento Manhisse
Universidade Save
Massinga
2025
Índice
1. Introdução.................................................................................................................. 4
1.1. Objectivos .............................................................................................................. 4
1.1.1. Objectivo Geral: ................................................................................................. 4
1.1.2. Objectivos Específicos: ...................................................................................... 5
1.2. Metodologia ........................................................................................................... 5
2. REGIME JURÍDICO DAS PESSOAS COLECTIVAS ........................................... 6
2.1. Noções gerais ..................................................................................................... 6
2.2. Origens histórico-dogmáticas ............................................................................ 6
2.3. Abordagens doutrinárias da personalidade jurídica das pessoas colectivas ...... 7
3. Influência das Revoluções na expansão do regime jurídico das pessoas colectivas . 9
3.1. Revolução Francesa e o regime jurídico das pessoas colectivas ....................... 9
3.2. Revolução Industrial na Inglaterra e o regime jurídico das pessoas colectivas . 9
4. Regime jurídico das pessoas colectivas no contexto de Moçambique .................... 10
4.1. Direitos, liberdades e garantias das pessoas colectivas, Artigo 52 Pessoas
colectivas ..................................................................................................................... 11
4.2. Tipos de pessoas colectivas ............................................................................. 12
5. Conclusão ................................................................................................................ 14
6. Referências Bibliográficas ...................................................................................... 15
1. Introdução
O trabalho surge no curso de licenciatura em Administração pública, ministrado na
Universidade Save Extensão de Massinga, na cadeira de direito administrativo, este
trabalho versa sobre o seguinte tema: Regime jurídico das pessoas colectivas.
O regime jurídico das pessoas colectivas constitui um tema essencial para o entendimento
das estruturas organizacionais que operam nos países, sejam elas de natureza pública ou
privada. As pessoas colectivas, ao possuírem personalidade jurídica própria,
desempenham um papel fundamental no desenvolvimento económico, social e cultural,
influenciando directamente a vida do cidadão e do Estado. Estas entidades podem ser
formadas por um ou mais indivíduos com objectivos comuns, abrangendo uma vasta
gama de instituições, como associações, cooperativas, fundações e sociedades
comerciais, que possuem regras específicas sobre sua constituição, funcionamento e
extinção, reguladas por normas constitucionais e infraconstitucionais.
]Este trabalho tem como objectivo analisar o regime jurídico das pessoas colectivas em
Moçambique, explorando as normativas que regem sua constituição e funcionamento, a
partir da Constituição e outras legislações pertinentes. A pesquisa se baseará em uma
análise das normas jurídicas e da doutrina moçambicana, visando compreender os
direitos, deveres e responsabilidades das pessoas colectivas no contexto socioeconómico
do país.
Para tanto, o trabalho será estruturado em três partes principais: nos elementos pré-
textuais, será apresentada a capa, a folha de rosto, e o sumário; nos elementos textuais, o
estudo se desenvolverá em capítulos que abordam a definição e classificação das pessoas
colectivas, os requisitos legais para sua constituição, o papel dessas entidades na
sociedade e, por fim, a sua regulamentação no ordenamento jurídico moçambicano; e nos
elementos pós-textuais, serão apresentados as referências bibliográficas, que fornecerão
o embasamento teórico da pesquisa
[Link]
1.1.1. Objectivo Geral:
Analisar o regime jurídico das pessoas colectivas em geram e em Moçambique, à luz
da Constituição da República e da legislação infraconstitucional, destacando a sua
relevância para o ordenamento jurídico e o desenvolvimento socioeconómico do país.
1.1.2. Objectivos Específicos:
Fazer a abordagem evolutiva do conceito do regime jurídico das pessoas colectivas;
Identificar o enquadramento constitucional das pessoas colectivas em Moçambique e
os direitos e deveres que lhes são atribuídos;
Descrever as categorias de pessoas colectivas (públicas e privadas) existentes no
ordenamento jurídico moçambicano e os requisitos legais para sua constituição e
funcionamento.
[Link]
A metodologia utilizada para a realização deste trabalho baseia-se na pesquisa
bibliográfica e documental, recorrendo à análise da Constituição da República de
Moçambique, legislação infraconstitucional relevante, bem como diplomas específicos
sobre o registro e funcionamento das pessoas colectivas. Também serão consultados
autores moçambicanos que tratam do tema, para fundamentar teoricamente a análise. A
abordagem é qualitativa, com carácter descritivo e explicativo, visando compreender o
regime jurídico das pessoas colectivas e a sua aplicação prática no contexto jurídico e
socioeconómico de Moçambique.
2. REGIME JURÍDICO DAS PESSOAS COLECTIVAS
[Link]ções gerais
Pessoas colectivas, São organizações constituídas por uma colectividade de pessoas ou
por uma massa de bens, dirigidos à realização de interesses comuns ou colectivos, às
quais a ordem jurídica atribui a Personalidade Jurídica. É um organismo social destinado
a um fim lícito que o Direito atribui a susceptibilidade de direitos e vinculações. Trata-se
de organizações integradas essencialmente por pessoas ou essencialmente por bens, que
constituem centros autónomos de relações jurídicas.
O ser humano é um ser voluntário e iminentemente social, que se desenvolve em função
das relações sociais que estabelecem com a sociedade em que está inserido.
De acordo com Pereira de Sousa (2013, cit in Ramalho 2019), a sociedade é o resultado
da associação de indivíduos que apresentam interesses comuns e que buscam realizar
esses objectivos em conjunto, formando grupos de interesses. Os indivíduos realizam seus
interesses particulares por meio de comportamentos concorrenciais, que envolvem uma
disputa permanente de bens escassos, e cooperando uns com os outros acabam por
participar na realização de interesses colectivos, o que fazem de uma forma organizada e
estruturada. No entanto, por vezes, acontece que o Homem procura importar a sua
vontade aos elementos restantes do grupo, originando, consequentemente, momentos de
tensão e até mesmo de conflito nas relações sociais. Daqui se justifica o aparecimento da
ordem jurídica.
Esta vida em sociedade exige, de uma forma natural, a presença e a tutela do Direito. A
ordem jurídica surge, assim, como um complexo conjunto de regras que procura
regularizar a vida em sociedade, para tornar o mais justo, seguro e harmonioso possível
Sendo o Direito uma ciência que pode ser definida como um conjunto ordenado de regras
que disciplinam a actividade humana, é decorrente desta relação entre o ser humano e o
Direito, que se considera o próprio Direito com um fenómeno de cariz social e humano.
São sujeitos de Direito as pessoas, sejam elas pessoas singulares, sejam pessoas
colectivas.
[Link] histórico-dogmáticas
O regime jurídico das pessoas colectivas surge da necessidade histórica de reconhecer a
existência de entidades distintas da pessoa física, capazes de possuir direitos e obrigações
próprias. Durante a Antiguidade, instituições como templos, corporações de ofícios e
confrarias já apresentavam traços de personalidade colectiva, mas sem um
reconhecimento jurídico formal como hoje conhecemos.
No Direito Romano, apesar de existirem figuras como as collegia e corpora, a plena
autonomia patrimonial ainda era limitada. Segundo Savigny (1840), foi na evolução do
Direito Canónico e do Direito medieval europeu que a ideia de pessoa colectiva ganhou
contornos mais claros, impulsionada pela organização de universidades, ordens religiosas
e cidades autónomas.
O desenvolvimento do conceito moderno de pessoa jurídica ocorreu sobretudo na Idade
Média, a partir da necessidade prática de instituições continuarem existindo para além da
vida de seus membros. Otto von Gierke, em sua obra Das deutsche Genossenschaftsrecht
(1887), destaca o papel central das corporações germânicas na construção do conceito
jurídico de personalidade colectiva, defendendo que a pessoa jurídica é uma "realidade
social viva", e não apenas uma ficção legal. Essa concepção influenciou o pensamento
jurídico europeu e foi decisiva para a formulação dos códigos civis modernos. (Ramalho,
2019)
[Link] doutrinárias da personalidade jurídica das pessoas colectivas
A Natureza das Pessoas Colectivas: principais teorias
A personalidade jurídica das pessoas colectivas foi alvo de diversas interpretações
teóricas ao longo do tempo. As principais correntes que influenciaram esse pensamento
foram o ficcionismo, o normativismo, o organicismo e o realismo.
2.3.1. Teoria Ficcionista
O ficcionismo, de origem kantiana e representado por autores como Savigny e
Windscheid, defende que a pessoa colectiva é uma ficção criada pela ordem jurídica. Para
essa teoria, apenas a pessoa humana é o verdadeiro sujeito de direitos e deveres, e a pessoa
colectiva existe apenas de forma artificial, como uma criação da lei para fins práticos.
Segundo Savigny, a pessoa colectiva não passa de uma técnica jurídica que simula tratar
como pessoa aquilo que, na realidade, não é humano.
Dentro do ficcionismo, destaca-se ainda o ficcionismo patrimonialista, cujo principal
expoente foi Binz, com a teoria do património-fim. Segundo essa concepção, a pessoa
colectiva é uma afectação de um património para a realização de determinados fins, sendo
tratada pela lei à semelhança de pessoas singulares. (Ramalho, 2019).
2.3.2. Teoria Normativista (Kelsen)
Hans Kelsen desenvolveu a teoria normativista formalista, que rejeita o ficcionismo. Para
Kelsen, a personalidade jurídica, seja singular ou colectiva, é uma construção normativa,
uma criação do Direito. Assim, a pessoa não é algo real ou fictício, mas sim uma unidade
de direitos e deveres expressa figurativamente através do conceito de pessoa. Portanto, a
pessoa colectiva não é uma ficção, mas uma expressão normativa que atribui capacidade
jurídica a um complexo de relações jurídicas. (Ramalho, 2019).
2.3.3. Teoria Organicista
Otto von Gierke propôs a teoria organicista, segundo a qual as pessoas colectivas possuem
existência real, comparável às pessoas físicas. Segundo Gierke, a pessoa colectiva tem
um corpo (o organismo associativo) e um "espírito" (a vontade comum dos membros).
Portanto, a personalidade colectiva não é uma criação do legislador, mas uma
consequência da realidade social, sendo um organismo real com vontade própria. (idem)
2.3.4. Teoria Realista
Ainda a partir de Gierke, surge o realismo analógico, que vê as pessoas colectivas como
entes realmente existentes na vida social, com individualidade própria, distinta dos seus
membros. Para os realistas, a personalidade colectiva reflecte o reconhecimento jurídico
da existência desses entes sociais autónomos e relevantes.
No entanto, autores como Mota Pinto e Pinto Monteiro rejeitam tanto o ficcionismo
quanto o organicismo. Eles defendem que não há necessidade de fingir que a pessoa
colectiva é uma pessoa singular, já que a personalidade colectiva é uma construção
jurídica autónoma. Também criticam o organicismo por tentar antropomorfizar as pessoas
colectivas. (Ramalho, 2019).
2.3.5. Teoria da Realidade Jurídica
Segundo Carvalho Fernandes, a teoria da realidade jurídica é actualmente a mais aceita.
Essa corrente reconhece que a personalidade jurídica é uma formação do Direito.
Embora distinta da personalidade humana (fundada na dignidade humana, que é anterior
e superior ao Direito), a personalidade colectiva é legítima para entes titulares de
interesses dignos de protecção jurídica. Furtado reforça que a personalidade colectiva é
uma realidade complexa de fato e de Direito, não sendo um mero símbolo ou produto da
fantasia. (Ramalho, 2019).
Apesar de sua predominância, o realismo jurídico também recebe críticas. Menezes
Cordeiro o considera uma forma vazia, incapaz de avançar na determinação da natureza
da personalidade colectiva, limitando-se a repetir concepções anteriores.
3. Influência das Revoluções na expansão do regime jurídico das pessoas colectivas
[Link]ção Francesa e o regime jurídico das pessoas colectivas
A Revolução Francesa (1789) representou um marco na redefinição das estruturas sociais
e jurídicas da Europa. No contexto do regime jurídico das pessoas colectivas, a Revolução
teve um impacto duplo. Inicialmente, ela extinguiu as antigas corporações de ofício, que
eram organizações rígidas e hierarquizadas, vinculadas ao Antigo Regime. Essas
corporações, segundo Jean Carbonnier (1962), eram vistas como formas de privilégio
incompatíveis com os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. A supressão das
corporações buscava instaurar um ambiente de liberdade individual e concorrência
económica.
No entanto, essa destruição das corporações gerou um vácuo organizacional,
principalmente no campo económico. A proibição de associações colectivas por meio da
Lei Le Chapelier (1791) impediu a formação de sindicatos e outras formas de organização
colectiva, limitando o associativismo e a protecção dos trabalhadores. Como aponta
Tocqueville (1856), embora a Revolução tenha defendido a liberdade individual, teve
dificuldade em lidar com a liberdade colectiva, demonstrando uma contradição entre o
desejo de emancipação e o medo de novos poderes organizados.
Foi apenas após o período napoleónico que o Direito francês começou a reconstruir o
espaço das pessoas colectivas. O Código Civil de 1804 passou a admitir sociedades como
entes jurídicos autónomos, especialmente para finalidades económicas. Jean Carbonnier
observa que o reconhecimento das pessoas colectivas modernas foi essencial para o
florescimento das actividades empresariais e culturais na França, ainda que o
associativismo civil tenha continuado restrito por muitos anos, até a Lei de 1901 que
finalmente garantiu liberdade de associação.
[Link]ção Industrial na Inglaterra e o regime jurídico das pessoas colectivas
Na Inglaterra, o processo foi diferente e mais gradual. A Revolução Industrial inglesa,
iniciada no século XVIII, impulsionou transformações económicas que exigiram a
consolidação das pessoas colectivas, especialmente na forma de sociedades comerciais.
O crescimento das manufacturas, o surgimento de grandes empresas e o acúmulo de
capital trouxeram à tona a necessidade de limitar a responsabilidade dos investidores e de
garantir a continuidade das empresas independentemente da vida dos sócios.
William Holdsworth (1924), importante historiador do Direito inglês, destaca que a
Inglaterra foi pioneira na construção de um regime jurídico robusto para as sociedades
empresariais, culminando na Joint Stock Companies Act de 1844 e na Limited Liability
Act de 1855, que estabeleceram a base legal para as empresas com responsabilidade
limitada. Esse avanço permitiu que pessoas físicas se reunissem em torno de objectivos
económicos comuns, protegendo seu património pessoal e estimulando o investimento
em larga escala.
Além do aspecto empresarial, a Revolução Industrial também estimulou o surgimento de
organizações filantrópicas, cooperativas e sindicatos. Segundo E.P. Thompson (1963), o
movimento operário inglês, que emergiu no início do século XIX, pressionou o Estado
britânico para o reconhecimento das associações de trabalhadores. As leis contra as
chamadas combinations (associações sindicais) foram progressivamente abrandadas,
culminando na legalização dos sindicatos em 1871.
A evolução das pessoas colectivas na Inglaterra foi fortemente ligada à lógica pragmática
e comercial. O pensamento jurídico inglês, como apontam os autores via as pessoas
jurídicas não apenas como ficções legais, mas como realidades sociais necessárias para o
funcionamento do mercado. As corporações passaram a ser vistas como instrumentos
legítimos para realizar actividades económicas, de caridade e educação, reforçando o
papel do associativismo no progresso social.
4. Regime jurídico das pessoas colectivas no contexto de Moçambique
O regime jurídico das pessoas colectivas em Moçambique está estruturado a partir da
Constituição da República de Moçambique (CRM) de 2004 (revista em 2018), legislação
ordinária e doutrina nacional. As pessoas colectivas são entidades criadas por uma ou
mais pessoas singulares ou colectivas que visam alcançar fins comuns, podendo ter fins
lucrativos ou não. São reconhecidas juridicamente, gozando de capacidade para adquirir
direitos e contrair obrigações.
[Link], liberdades e garantias das pessoas colectivas, Artigo 52 Pessoas
colectivas
1. As pessoas colectivas gozam dos direitos e estão sujeitas aos deveres compatíveis com
a sua natureza.
2. As pessoas colectivas prosseguem os seus fins livremente, sem interferência das
autoridades públicas, e não podem ser dissolvidas ou ter as suas actividades suspensas,
senão nos casos previstos na lei e mediante decisão judicial.
I. Artigo 53 Liberdade de associação
1. Os cidadãos têm o direito de, livremente e sem dependência de qualquer autorização,
constituir associações nos termos da lei.
2. As associações prosseguem livremente os seus fins sem interferência das autoridades
públicas e não podem ser dissolvidas ou ter as suas actividades suspensas senão nos casos
previstos na lei e mediante decisão judicial.
3. Não são permitidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou
paramilitares, nem associações que promovam a violência, o racismo, a xenofobia ou que
prossigam fins contrários à lei.
II. Artigo 54 Liberdade de criação de partidos políticos
1. Os cidadãos têm o direito de se organizar em partidos políticos, nos termos da
Constituição e da lei.
2. Os partidos políticos devem contribuir para a formação e manifestação da vontade
popular, para a expressão do pluralismo político, para a participação democrática dos
cidadãos na vida política e para a salvaguarda da independência nacional.
3. A criação e o funcionamento dos partidos políticos devem obedecer aos seguintes
princípios:
a) Carácter nacional e democrático; b) Defesa da unidade nacional; c) Expressão do
carácter democrático e pluralista do Estado; d) Salvaguarda da independência e da
soberania nacionais; e) Vinculação aos princípios de unidade nacional e da democracia
política; f) Respeito pela Constituição e pela lei.
4. Não são permitidos partidos políticos que promovam regionalismo, tribalismo, racismo
ou xenofobia, ou que defendam a utilização da violência para atingir fins políticos.
[Link] de pessoas colectivas
Em termos de tipos de pessoas colectivas no regime jurídico distingue-se duas categorias
principais
1. Pessoas colectivas públicas: São aquelas criadas por lei para desempenhar funções
de interesse público. Incluem o Estado, as autarquias locais, os institutos públicos e outras
entidades administrativas. Têm fins públicos, poderes de autoridade e funcionam de
acordo com normas de direito público.
2. Pessoas colectivas privadas: São criadas por iniciativa privada, com fins lucrativos
ou não lucrativos, para realizar interesses próprios dos seus membros ou terceiros.
Incluem associações, fundações, sociedades comerciais e cooperativas. Regem-se pelo
direito privado, embora possam estar sujeitas a regras públicas em certos casos.
a) Associações: São pessoas colectivas constituídas por um conjunto de pessoas que se
organizam para fins não lucrativos, como culturais, sociais, religiosos ou desportivos.
Devem obedecer à lei, ter estatutos próprios e podem existir livremente, salvo se
praticarem actos contrários à ordem pública ou à lei. (CRM, 2018).
b) Sociedades comerciais: São pessoas colectivas privadas com fins lucrativos, formadas
por pessoas que se obrigam a contribuir com bens ou serviços para o exercício de uma
actividade económica. As principais formas são sociedade por quotas, sociedade
anónima, sociedade em nome colectivo e sociedade em comandita.
c) Cooperativas: São associações de pessoas colectivas e/ou singulares, com capital
variável e estrutura democrática, que visam satisfazer necessidades económicas e sociais
comuns dos seus membros, através de uma empresa colectiva e autogestionária. A
legislação das cooperativas em Moçambique regula sua constituição e funcionamento.
d) Partidos políticos: São pessoas colectivas com natureza política, constituídas para
promover a participação dos cidadãos na vida democrática, na formação da vontade
política, e na defesa do interesse público e da soberania nacional. Devem ter carácter
nacional, respeitar a unidade nacional e não promover discriminação ou violência (CRM,
2018).
e) Fundações: São pessoas colectivas constituídas por um património destinado à
realização de fins determinados pelo fundador, geralmente de interesse social, cultural,
educativo ou filantrópico. Não possuem associados, mas sim um órgão de gestão que
administra o património para alcançar os fins previstos.
f) Institutos públicos: Embora sejam de natureza pública, têm autonomia administrativa,
financeira e patrimonial, e desempenham funções específicas de interesse colectivo ou
público. São criados por lei ou decreto e funcionam sob tutela do Estado.
g) Organizações não-governamentais (ONGs): São associações privadas, sem fins
lucrativos, de carácter voluntário, que visam desenvolver actividades de interesse social,
comunitário ou humanitário. Embora não explicitamente tratadas como categoria distinta
no Código Civil, elas são enquadradas na figura das associações.
Os institutos, fundações e fundos públicos regem-se pela Lei n." 7/2012, de 8 de
Fevereiro, Lei de Bases de Organização e Funcionamento da Administração Pública.
5. Conclusão
As principais teorias sobre a natureza das pessoas colectivas são o ficcionismo, que as vê
como construções artificiais do Direito para tratar colectividades como se fossem pessoas
singulares; o ficcionismo patrimonialista, que entende a pessoa colectiva como um
património destinado a determinados fins; o normativismo de Kelsen, que define a pessoa
colectiva como uma unidade de direitos e deveres criada pela norma jurídica; o
organicismo, segundo o qual a pessoa colectiva é um organismo real com vontade própria;
e o realismo jurídico, que reconhece a existência das pessoas colectivas como entes
autónomos na vida social, com relevância própria distinta dos seus membros, sendo
actualmente predominante, embora também criticado por sua abstracção excessiva.
A Revolução Francesa e a Revolução Industrial Inglesa tiveram papéis fundamentais na
evolução do regime jurídico das pessoas colectivas, ainda que de formas distintas. Na
França, a Revolução extinguiu as antigas corporações, rejeitando privilégios e limitando
a liberdade colectiva, criando um vácuo que só começou a ser preenchido após o Código
Civil de 1804 e, plenamente, com a Lei de 1901, que consolidou a liberdade de
associação. Já na Inglaterra, o processo foi gradual e orientado pelo pragmatismo
económico, com o reconhecimento legal das sociedades comerciais e a limitação de
responsabilidade, além do progressivo fortalecimento do movimento sindical e das
associações de carácter filantrópico e cooperativo, mostrando a importância das pessoas
colectivas como instrumentos essenciais para o desenvolvimento económico e social.
A análise da Constituição da República de Moçambique, bem como de outras legislações
aplicáveis, evidenciou que as pessoas colectivas são fundamentais para o
desenvolvimento social e económico de Moçambique, desempenhando um papel crucial
em diversos sectores, como na educação, saúde, economia e cultura. A Constituição,
assegura a liberdade de associação, oferecendo um suporte jurídico para a criação e
operação dessas entidades.
6. Referências Bibliográficas
CARBONNIER, Jean. Direito Civil: Introdução. 2. ed. São Paulo: Forense, 1962.
CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE, aprovada pela Lei n.º
1/2004, de 21 de Julho, com as alterações introduzidas pela Lei n.º 1/2018, de 12 de
Junho.
Decreto n.º 2/2006, de 3 de Maio — Regime jurídico das associações em
Moçambique.
HOLDWSORTH, William. Uma História do Direito Inglês. Londres: Methuen & Co.,
1924.
MOÇAMBIQUE. Lei n.º 7/2012, de 8 de Fevereiro. Lei de Bases de Organização e
Funcionamento da Administração Pública de Moçambique. Boletim da República, I
Série, n.º 6, 8 Fev. 2012.
RAMALHO, Joaquim. A personalidade jurídica das pessoas colectivas: evolução
dogmática. 2019
REPÚBLICA DE MOÇAMBIQUE, Lei 6/2012 de 8 de Fevereiro, Lei das Empresas
Públicas in Boletim da República, I Série nº 6 de 8 de Fevereiro.
THOMPSON, E.P. A Formação da Classe Operária Inglesa. Londres: Victor
Gollancz, 1963.
TOCQUEVILLE, Aléxis de. O Antigo Regime e a Revolução. Paris: Gallimard, 1856.