Aula 5 - Estudos observacionais
1. Causalidade e Tipos de Estudo
● Estudos observacionais nunca estabelecem causalidade, apenas associações entre fatores.
● Nem todas as perguntas científicas podem ser respondidas por ensaios clínicos randomizados (ECR), pois alguns
estudos exigem observação natural dos fenômenos.
2. Objetivo do Estudo
● Descritivo → Apenas descreve características de uma população, sem comparações.
● Analítico → Avalia relações entre exposição e desfecho.
3. Unidades de Análise
● Individuado → Analisa indivíduos separadamente.
● Agregado → Analisa dados de grupos populacionais.
4. Tipo de Pesquisa
● Observacional → Apenas observa os eventos sem interferência.
● Intervencional → O pesquisador modifica uma variável e observa os efeitos.
5. Dimensão Temporal
● Transversal → Avalia um único momento no tempo (instantâneo).
● Longitudinal → Acompanha os indivíduos ao longo do tempo.
○ Prospectivo → Inicia no presente e acompanha para o futuro.
○ Retrospectivo → Usa dados do passado (pior devido ao viés de memória).
6. Pergunta PECOT
Adaptação do modelo PICO para estudos observacionais:
● P → População
● E → Exposição (em vez de Intervenção)
● C → Comparação
● O → Desfecho
● T → Tempo
7. Interpretação de Medidas Estatísticas
● Chance (Odds) → Relacionada ao passado (ex.: quantas pessoas foram expostas)
● Risco (Risk) → Relacionado ao futuro (ex.: qual a probabilidade de um evento ocorrer).
Cálculo do Risco e da Chance:
● Risco de morte: número de óbitos ÷ total de doentes.
Ex.: 60 ÷ 100 = 60%.
● Chance de morte: número de óbitos ÷ número de sobreviventes.
Ex.: 60 ÷ 40 = 1,5 (para cada 2 que sobrevivem, 3 morrem).
Principais Tipos de Estudos Observacionais
Tipo de Estudo Descrição Vantagens Desvantagens
Coorte Compara grupos - Estuda incidência e - Longo e caro.
expostos e não história natural das - Perdas no acompanhamento.
expostos e avalia doenças. - Possível viés de confundimento.
desfechos ao longo do - Estima risco relativo
tempo. (RR).
- Melhor alternativa aos
ECRs quando não viáveis.
Caso-Controle Compara casos - Bom para doenças raras. - Sempre retrospectivo → viés de
(doentes) e controles - Baixo custo e rápido. memória.
(não doentes) para - Calcula odds ratio (OR). - Risco de confundimento.
analisar exposições
passadas.
Transversal Avalia exposição e - Rápido, barato e fácil. - Não define relação causal.
desfecho ao mesmo - Gera hipóteses para - Viés de prevalência/incidência.
tempo (fotografia de estudos futuros.
um momento).
Ecológico Usa dados agregados - Baixo custo e simples. - Falácia ecológica (não permite
de populações para - Boa fonte para gerar inferências individuais).
estudar associações. hipóteses.
Relato de Caso Descrição detalhada - Identifica novas doenças - Não permite inferências estatísticas.
de um caso clínico ou condições raras.
único, geralmente uma
doença rara.
Ferramentas para Avaliação do Viés
● ACROBAT-NRSI: Avalia risco de viés em estudos não randomizados.
● Newcastle-Ottawa Scale (NOS): Avaliação da qualidade de estudos de coorte e caso-controle.
Atenção: o STROBE não é utilizado para avaliar viés, mas sim para a construção do artigo.
Critérios para Avaliação de Viés
1. Viés de Seleção
● Diferenças entre grupos expostos e controles.
● Falta de representatividade da população.
Uso de amostras por conveniência.
2. Viés de Mensuração
● Viés de memória: pacientes com doença podem superestimar exposições passadas.
● Viés de medição: dados incompletos nos prontuários ou relatos imprecisos.
● Definição inadequada das variáveis.
3. Viés de Confusão
● Quando fatores externos afetam tanto a exposição quanto o desfecho, distorcendo a associação verdadeira.
Aula 6 - Testes Diagnósticos
Conceito: Processo de decisão clínica que baseia-se, conscientemente ou não, em probabilidade
- O diagnóstico precisa beneficiar o paciente
- Ele precisa modificar a probabilidade pós-teste
- Basicamente, o poder de modificar a probabilidade pós-teste significa que o teste tem capacidade de:
- Aumentar bastante a chance de que o diagnóstico esteja certo, se o teste for positivo, ou
- Reduzir bastante a chance de que a pessoa tenha a doença, se o teste for negativo.
- Ou seja, um bom teste "confirma" ou "afasta" bem uma hipótese diagnóstica
*Importante lembrar que cada indivíduo possui variabilidades biológicas e os testes são passíveis de erro
Acurácia do teste → Quanto o teste é capaz de determinar o verdadeiro valor do que está sendo medido, ou seja,
determinada se os resultados estão próximos do real valor ou não
Como é calculada: VP + VN / Total de pacientes
Exemplo:
955/1079 = 0.885 = 88,5%
Sensibilidade do teste → Probabilidade de resultado positivo nos doentes (verdadeiros positivos)
Como é calculada: VP/Total de doentes
Exemplo:
5/100 = 0.05 = 5%
Especificidade do teste → probabilidade de resultado negativo nos não doentes (verdadeiro negativo)
Como é calculado: VN/Total de não doentes
Exemplo:
950/970 = 0.979 = 97.9%
● Tanto a sensibilidade quanto a especificidade são sempre iguais independente da população que são aplicados,
são características do teste em si.
● Testes sensíveis → Bons para diagnóstico de doença potencialmente grave e tratável
○ Importantes em bancos de sangue
● Testes específicos → Necessário para confirmar um diagnóstico sugerido por outros dados
○ Importante para não causar danos ao paciente
Valor preditivo positivo → probabilidade da presença da doença quando o teste é positivo.
Como é calculado: VP/(total de testes positivos)
Exemplo:
5/34 = 0.147 = 14,7%
Valor preditivo negativo → probabilidade da ausência da doença quando o teste é negativo.
Como é calculado: VN/(total de testes negativos)
950/1045 = 0.909 = 90,9%
Razão de verossimilhança → uma medida que mostra o quanto um resultado de teste (positivo ou negativo) muda a
probabilidade de que o paciente tenha uma doença.
Exemplo simples:
Você atende uma paciente com dor torácica. Baseado na história e exame, você acha que há 30% de chance de ela ter
infarto (essa é sua probabilidade pré-teste considerando fatores epidemiológicos, história e exame físico).
Você então faz um ECG:
- Se o ECG vem muito alterado, essa nova evidência aumenta a chance de infarto. Agora a chance pós-teste pode
subir para 70%, 80% ou mais.
- Se o ECG vem normal, isso reduz a chance de infarto — talvez caia para 10% ou menos.
O paciente não mudou. O que mudou foi o seu conhecimento sobre ele.
Existem dois tipos de likelihood ratio (razão de verossimilhança)
- Positivo → Chance do teste diagnosticar a doença
- Negativo → Chance do teste descartar a doença
Não é necessário fazer o cálculo porque já vai ter em algum lugar
Passo a passo como utilizar o nomograma de Fagan para descobrir a probabilidade pós teste de algum teste diagnóstico:
1. Identifique a probabilidade pré-teste
2. Pegue o LR+ ou LR−, conforme o resultado
3. Trace uma linha do pré-teste até o LR
4. Veja onde a linha cruza a probabilidade pós-teste
Exemplo com pré teste com 3% de chance e RV positiva de 5:
Ou seja, pós teste com probabilidade de cerca de 14%
Curva de ROC
Ponto de corte para identificar quem tem ou nao tem determinada condição
Quadas 2
● É um instrumento usado para avaliar o risco de viés e a aplicabilidade de estudos que analisam testes
diagnósticos.
● É muito utilizado em revisões sistemáticas e metanálises para garantir que os resultados são confiáveis.
● É dividido em quatro domínios principais:
○ Seleção dos pacientes
■ Avalia se os pacientes foram selecionados de forma apropriada, evitando vieses de seleção.
● Pergunta sinalizadora 1: Foi uma amostra consecutiva ou aleatória de pacientes
selecionados?
● Pergunta sinalizadora 2: O desenho de caso-controle foi evitado?
● Pergunta sinalizadora 3: O estudo evitou exclusões inadequadas?
○ Índice do teste
■ Avalia como o teste diagnóstico de interesse foi realizado e interpretado.
● Pergunta sinalizadora 1: Os resultados do teste índice foram interpretados sem o
conhecimento dos resultados do padrão de referência?
● Pergunta sinalizadora 2: Se um limite de magnitude (cut-off) foi usado, ele foi
pré-especificado?
○ Padrão-ouro (reference standard)
■ Avalia a qualidade do teste padrão-ouro usado para confirmar a presença ou ausência da
doença.
● Pergunta sinalizadora 1: É provável que o padrão de referência classifique corretamente a
condição-alvo?
● Pergunta sinalizadora 2: Os resultados do padrão de referência foram interpretados sem o
conhecimento dos resultados do teste de índice?
● Pergunta sinalizadora 3: Há preocupação de que a condição-alvo definida pelo padrão de
referência não corresponda à pergunta da revisão?
○ Fluxo e tempo
■ Avalia se todos os pacientes foram incluídos na análise final e se o intervalo entre os testes
foi adequado.
● Pergunta sinalizadora 1: Houve um intervalo apropriado entre o(s) teste(s) de índice e o
padrão de referência?
● Pergunta sinalizadora 2: Todos os pacientes receberam o mesmo padrão de referência?
● Pergunta sinalizadora 3: Todos os pacientes foram incluídos na análise?
Aula 7 - Revisão Sistemática
Revisões são estudos SECUNDÁRIOS, ou seja, elas agrupam os estudos primários para tentar responder uma questão
específica, com o objetivo de integrar e sintetizar as evidências.
Revisão Declarativa ou Narrativa
● Publicações amplas (questão ampla)
● Seleção arbitrária dos estudos
● O autor (quase sempre um expert) narra a sua experiência, e emite opinião sobre a efetividade de um tratamento
ou a etiologia de uma doença, fundamentado na literatura científica
● Conclusões são realizadas sem valoração quantitativa, integração dos resultados e controle de viés
● Limitações:
○ Emitem opiniões pessoais, qualidade depende do “know how” do pesquisador
○ Viés de seleção (seleção de participantes ou dados não é feita de forma aleatória e representativa da
população que se pretende estudar)
○ Não são reprodutíveis
○ Subjetividade do autor
Revisão SISTEMÁTICA
● Conjunto de evidências proveniente de estudos primários conduzidos para responder uma questão específica de
pesquisa
● Revisão de literatura abrangente, imparcial e reprodutível, avalia e sintetiza o conjunto de evidências dos
estudos científicos para obter uma visão confiável da estimativa do efeito da intervenção, prognóstico,
diagnóstico, prevalência, etc.
● Vantagens:
○ Metodologia clara e reprodutível
○ Combina todos os dados disponíveis
○ Aumenta a precisão por aumentar o número da amostra
Passo a passo resumido:
1. Elaboração da pergunta da pesquisa
a. Pergunta PICOT
2. Escrita do projeto de pesquisa para submeter na plataforma PROSPERO
a. A plataforma PROSPERO serve para gerenciar e organizar a produção científica, facilitando o registro,
acompanhamento e divulgação de protocolos de revisão sistemática.
3. Busca na literatura
a. Usando diferentes bases de dados (cochrane, medline, embase)
b. Usar os Mesh terms para fazer uma pesquisa abrangente
c. Usar os termos booleanos (AND, OR) para ser preciso na busca
d. Usar literatura cinzenta (artigos ou publicações que muitas vezes não aparecem nas bases de dados, mas
que podem ser úteis para a sua publicação. Na escrita do artigo é preciso descrever como encontrou)
e. A busca de artigos é feita por 2 autores independentes, onde farão busca, e seleção dos artigos e depois
excluir os estudos que não forem relevantes. Em caso de discordância, um terceiro autor é necessário para
desempatar
f. Tudo isso é feito e quantificado para ser descrito no diagrama PRISMA que posteriormente será colocado
no artigo, mostrando quantos artigos foram encontrados, quantos foram excluídos e o porquê e quantos
foram selecionados
4. Análise de viés
a. PEDro ou RoB2 → Ensaios clínicos randomizados
b. Newcastle-Ottawa Scale (NOS) ou Acobat → Estudos observacionais
c. QUADAS 2 → Testes diagnósticos
5. Coleta de dados
a. Coleta dos principais dados relacionados a pergunta da pesquisa, tudo que possa influenciar a pesquisa
6. Síntese qualitativa ou quantitativa
a. Qualitativa → Dados são sintetizados, mas não combinados estatisticamente
b. Quantitativa → Métodos estatísticos para combinar os resultados
A análise dos vieses de revisões sistemáticas pode ser feita por meio da ferramenta ROBIS (Risk of Bias in Systematic
Reviews).