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Ecos do Silêncio no Hotel Seraphim

O Hotel Seraphim, um refúgio isolado na Inglaterra, esconde segredos obscuros e um passado perturbador. Heitor Vasconcellos, um escritor em busca de recomeço, se muda para o hotel com sua família, mas logo percebe que o silêncio do lugar escuta e devolve os medos e dores que guardam. À medida que o tempo passa, a presença opressiva do hotel se torna cada vez mais evidente, afetando a sanidade e a dinâmica familiar.

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Ecos do Silêncio no Hotel Seraphim

O Hotel Seraphim, um refúgio isolado na Inglaterra, esconde segredos obscuros e um passado perturbador. Heitor Vasconcellos, um escritor em busca de recomeço, se muda para o hotel com sua família, mas logo percebe que o silêncio do lugar escuta e devolve os medos e dores que guardam. À medida que o tempo passa, a presença opressiva do hotel se torna cada vez mais evidente, afetando a sanidade e a dinâmica familiar.

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Prólogo

Antes do silêncio, houve uma promessa.


Há lugares que foram esquecidos porque alguém quis esquecê-los. Não por acidentes, não
por desleixo — mas por necessidade. Como se o próprio tempo tivesse fechado os olhos e
virado o rosto, num gesto de piedade ou covardia.
O Hotel Seraphim era um desses lugares.
Erguido em 1901, num campo isolado no interior da Inglaterra, foi projetado para ser um
refúgio: uma pousada para almas fatigadas, para escritores em busca de inspiração, para
aristocratas falidos e seus segredos. Tinha mais de quarenta quartos, corredores tortuosos,
escadas que levavam a andares que não constavam nas plantas. E uma biblioteca que
cheirava a couro velho e desespero.
Mas algo nele... Cedeu.
Alguns dizem que foi o inverno de 1924 — o mais rigoroso em cinquenta anos. Outros
culpam os hóspedes do quarto 305, que desapareceram sem deixar vestígios. Houve quem
falasse em vozes, em vultos, em portas que não deviam existir. Mas os registros oficiais
pararam em 1958. Depois disso, o hotel desapareceu dos mapas, das conversas, da
memória.
Até que alguém voltou.
Não para restaurar o hotel.
Mas para restaurar a si mesmo.
Heitor Vasconcellos, escritor em ruínas, acreditou ter encontrado ali o lugar ideal para
recomeçar. Trouxe sua esposa e sua filha para longe do barulho do mundo. Dissera a si
mesmo que o silêncio era tudo de que precisava.
Mas o silêncio, como o tempo, tem fome.
E naquele hotel, o silêncio escuta.
Ele aprende.
Ele fala.
E tudo o que você guarda — medo, culpa, dor — ele devolve com juros. Gota por gota.
Lenta e eternamente.
Assim começa a história dos Vasconcellos.
Não com gritos.
Mas com ecos.
Com o sussurro de uma porta se abrindo.
Com a promessa de que...
As Vozes do Hotel Seraphim

Capítulo 1 – O Começo do Silêncio

A chuva já durava três dias. Era fina, mas implacável, como se o céu tivesse decidido punir
a terra gota por gota. Lá fora, os campos verdes do interior da Inglaterra tornavam-se uma
imensidão cinzenta, onde árvores antigas se dobravam ao vento como velhos de costas
arqueados. A frente fria vinda do norte deixava tudo enregelado, e o ar cheirava a fumaça,
terra molhada e folhas apodrecidas.
Heitor Vasconcellos olhou pela janela do carro alugado com um olhar cansado. Seus olhos
estavam vermelhos não de sono, mas de excesso de pensamentos — aqueles pensamentos
que vinham à noite, quando ninguém estava olhando. O limpador de para-brisa se movia
no mesmo ritmo monótono de seus batimentos cardíacos. Ana, sua esposa, sentada ao
lado, mantinha os braços cruzados. Vestia um casaco grosso de lã escura, mas ainda assim
tremia de frio — ou de tensão.
— Você tem certeza que é aqui? — ela perguntou, sem olhar para ele. — Esse lugar
parece... Morto.
Heitor sorriu, mas sem graça.
— Não está morto. Está... Quieto. Isolado. É isso que eu precisava.
— Não. É isso que você precisava — ela rebateu com calma. — E o que nós precisamos?
Silêncio.
No banco de trás, Isabela, com seus oito anos recém-completados, desenhava no vidro
embaçado com o dedo. Estava escrevendo o nome do pai ao contrário — algo que fazia
desde os quatro anos. Era o tipo de coisa que a deixava inquietantemente quieta. Como se
aquele mundinho que criava entre o vidro e o vapor fosse mais confortável do que a
realidade.
— A gente vai morar aí? — ela perguntou, apontando para a construção ao longe.
Era o Hotel Seraphim. Uma estrutura antiga de pedra acinzentada, com janelas arqueadas e
telhados inclinados que escorriam água como lágrimas. O letreiro, enferrujado, balançava
ao vento: HOTEL SERAPHIM - Fundado em 1901. Ao lado, uma casa menor servia
como guarita, mas parecia abandonada há décadas.
— Só por um tempo — respondeu Heitor. — Até o inverno passar.
Ana não disse nada. Estava exausta de discussões. Tinham atravessado o oceano com a
promessa de um recomeço. Ele queria escrever um romance novo, depois de quatro
fracassos literários seguidos. Ela só queria um lugar para respirar. Londres os engolira em
dívidas, em expectativas. A Inglaterra parecia uma boa ideia no papel. Mas a Inglaterra real
— fria úmida e cheia de silêncios incômodos — parecia outra coisa.
O hotel tinha sido alugado para eles por um valor ridiculamente baixo. A promessa era de
total isolamento. O zelador vivia na vila mais próxima e visitaria apenas aos sábados, para
ver se tudo estava em ordem. Aquilo era quase um presente para Heitor, que dizia precisar
“de distância da civilização para ouvir a própria voz”. Ana se perguntava se, no fundo, ele
não queria mesmo era fugir do mundo inteiro.
Entraram pelo portão enferrujado. O caminho era feito de pedras irregulares e cobertas de
musgo. O carro derrapou levemente na entrada, mas conseguiu parar diante da grande
porta de madeira escura. Havia duas gárgulas nas laterais, olhando para baixo, como se
vigiassem quem entrava. Isabela saiu correndo antes dos pais e colocou a mão em uma das
gárgulas.
— Essa aqui está triste — disse. — E essa... Está brava.
— Elas são apenas pedra, Isa — disse Ana, com um leve sorriso. Mas o tom de sua voz
traía a verdade: ela não gostava daquelas estátuas. Nem um pouco.
Heitor empurrou a porta. Um rangido baixo preencheu o ar. Do outro lado, o saguão era
maior do que esperavam. Um chão de madeira polida, agora coberto por poeira. Uma
lareira de pedra, apagada, mas com troncos ainda empilhados. O cheiro era de mofo e
tempo.
— Isso aqui tem potencial — disse Heitor, mais para si mesmo. — Com uma boa limpeza,
é perfeito.
Ana percorreu o salão com os olhos. Havia quadros nas paredes, mas não de paisagens.
Eram retratos. Pessoas de outra época. Mulheres de vestidos longos, homens de ternos
pesados, todos com olhares sérios. Nenhum sorriso. Nenhum sinal de vida.
Isabela aproximou-se de um dos quadros e o tocou com a ponta dos dedos.
— Ela se mexeu.
Ana se agachou e olhou nos olhos da filha.
— O que você disse?
— A moça do quadro. Ela piscou.
— Deve ser a luz.
Mas não havia luz suficiente ali. O ambiente estava iluminado apenas pela tarde cinzenta do
lado de fora e por uma única lâmpada fraca no topo da escadaria principal. A eletricidade
estava ligada, mas mal sustentava o lugar. Uma corrente de ar percorreu o saguão, fazendo
os quadros balançarem levemente em suas correntes enferrujadas.
— Vamos ver os quartos — disse Heitor, tentando soar animado. — Depois a gente
acende a lareira, prepara um chá... E amanhã a gente vai ao vilarejo comprar o que faltar.
Ana assentiu, sem forças para discutir. Subiram as escadas. O som dos passos ecoava de
forma exagerada, como se o hotel estivesse ouvindo cada movimento com atenção.
No corredor do segundo andar, havia doze portas. Só uma estava aberta. Dentro dela, uma
cama de casal coberta por um lençol branco, um espelho antigo, uma escrivaninha. Heitor
entrou, largou a mala e se sentou na beirada da cama. Passou as mãos pelo rosto. Estava
suando, apesar do frio.
— Tudo bem? — perguntou Ana.
— Só cansado.
Ela não acreditou. Mas não insistiu.
Na outra ponta do corredor, Isabela olhava fixamente para uma porta trancada. Era a única
com uma tranca de ferro escuro.
— Papai? — chamou. — Tem alguém lá dentro.
— Não tem ninguém aqui, Isa. Só a gente.
— Mas tem sim. Eu escutei.
Heitor foi até a porta e encostou o ouvido. Nada. Apenas o som do vento e da chuva
batendo nas vidraças. Então um estalo, baixo, seco. Como se algo de madeira tivesse se
partido. Ele se afastou.
— É só o frio agindo na estrutura. Madeira velha faz isso.
Mas mesmo enquanto dizia isso, não acreditava. E Ana, ao lado dele, sabia.
Naquela noite, dormiram todos no mesmo quarto. Heitor tentou escrever, mas o cursor
piscando no notebook parecia zombar de sua falta de inspiração. Ana lia um livro, mas relia
a mesma página pela terceira vez. E Isabela, deitada entre eles, sussurrava em sonhos.
Palavras incompreensíveis. Palavras que pareciam nomes.
Do lado de fora, a chuva continuava.
E dentro do hotel, o silêncio escutava tudo.
Capítulo 2

O Hotel Seraphim era maior do que imaginavam.


Não apenas em tamanho — mas em presença.
Nos primeiros dias, Heitor tentou contar quantos quartos havia nos andares superiores.
Perdeu-se na contagem. Corredores que dobravam em ângulos estranhos, escadas que
levavam a patamares vazios, portas sem número que davam em salas vazias ou em nada.
Era como se o prédio tivesse sido construído por alguém que nunca se preocupou com
lógica ou arquitetura — mas sim com labirintos.
Eram dezenas, talvez centenas de cômodos. Todos silenciosos. Todos trancados com
chave, ou abertos como bocas escuras esperando algo. E todos cheirando a passado.
Um passado denso. Pegajoso. Doloroso.
Heitor começou a chamá-lo de “o monstro adormecido”. Às vezes dizia isso em tom de
brincadeira. Mas Ana notava o brilho em seus olhos — aquela mistura entre assombro e
fascínio que ela não via desde antes da depressão.
— Esse lugar é maior por dentro — ele murmurou uma vez, de pé no corredor norte,
olhando para um vitral que parecia mais antigo que a própria Inglaterra. — Não faz
sentido. Mas é... Perfeito.
Ana não respondeu. Ela começava a sentir que andar pelo hotel era como caminhar pela
mente de alguém em colapso: repetições, desvios, portas fechadas, vozes que não vinham
de lugar algum. Era um lugar construído para se perder.
O frio não vinha apenas de fora. Era um frio que morava nas paredes, como mofo ou
fungo. Entrava pelas roupas, pelos poros, pelos ossos. Mesmo com a lareira acesa, as
pontas dos dedos continuavam geladas. E havia o barulho — ou a ausência dele.
Porque o silêncio ali não era apenas ausência de som. Era uma presença em si. Um tipo de
escuta ativa, opressiva. Como se o hotel tivesse ouvidos. Como se ele prestasse atenção.
No segundo dia, Heitor descobriu uma biblioteca. Ou o que restava dela. Era um salão
amplo, forrado por estantes de carvalho embolorado, com livros cujos títulos haviam sido
devorados pelo tempo. Alguns estavam em latim. Outros, em línguas que ele não
reconhecia. Um, em particular, estava sem capa, com páginas costuradas à mão. Dentro
dele, apenas frases repetidas. Sempre a mesma:
“Não é o homem quem habita a casa. É a casa que habita o homem.”
Ele riu nervosamente. Depois copiou a frase em seu caderno.
Ana começou a sonhar com degraus.
Degraus de pedra escura, que desciam infinitamente.
Sempre era o mesmo sonho: ela descia os degraus enquanto segurava uma vela trêmula. E,
em algum momento, a chama se apagava — não pelo vento, mas como se fosse engolida. E
então, do fundo da escada, vinha um som úmido, viscoso. Como carne molhada se
arrastando.
Ela sempre acordava suando, o coração disparado.
Mas Heitor dormia como uma criança. E Isabela? Ela não dizia nada. Apenas desenhava.
Paredes cobertas de olhos. Quartos com pessoas sem rosto. E uma escada. Sempre uma
escada que descia até um poço.
— É o lugar de dormir dele — disse uma vez, sem tirar os olhos do papel.
— De quem, Isa? — Ana perguntou.
— Do homem do andar debaixo. Ele acorda devagar. Ele sonha alto. Às vezes eu escuto os
sonhos dele.
Ana não respondeu. Começou a orar, mas não sentia alívio algum.
No terceiro dia, Heitor se perdeu dentro do hotel.
Saiu para explorar e não voltou por horas. Ana andou pelos corredores, chamando por ele.
A cada passo, o carpete afundava sob seus pés como carne mole. O hotel parecia zombar
de suas tentativas de entender sua lógica.
Ele reapareceu sozinho, no saguão, com os olhos vermelhos e a respiração ofegante.
— Você estava onde? — ela gritou.
— Eu... Eu entrei em uma ala que não tinha visto antes. Era um salão com espelhos.
Todos cobertos por lençóis. Eu tirei um... E vi... — ele hesitou o rosto empalidecendo. —
Vi a gente. Eu, você, Isa. Mas era diferente. Você estava chorando. Isa estava coberta de
sangue. E eu... Eu sorria.
Capítulo 3

Havia algo errado com o tempo no Hotel Seraphim.


Não se sabia mais onde começava o dia e onde terminava a noite. O céu permanecia
eternamente cinzento. As manhãs eram como tardes sombrias, e as noites... As noites
pareciam durar dias. Os relógios da casa paravam com frequência. E mesmo quando
marcavam horas, não era possível confiar neles. Era como se o hotel tivesse seu próprio
fuso, suas próprias regras.
Ana notou que eles dormiam e acordavam, mas os corpos nunca descansavam. Os olhos
ardiam. Os músculos doíam. O ar era pesado demais. Nenhum sonho trazia alívio. E
quando sonhavam, sonhavam com degraus, espelhos e portas.
Sempre portas.
A porta de ferro no fim do corredor, aquela que Isabela insistia estar “abrindo devagar”,
permanecia fechada. Trancada. Mas ninguém mais passava por ela sem olhar duas vezes.
Sem escutar — mesmo sem querer — algo além. Um murmúrio talvez. Ou uma respiração
ofegante. Heitor evitava falar sobre ela. Fingiu, por um tempo, que ela não existia.
Mas naquela manhã chuvosa, algo havia mudado.
Ana a encontrou entreaberta.
Não aberta. Mas também não fechada.
A tranca, enferrujada, pendia solta como se nunca tivesse estado ali.
Ela não teve coragem de entrar. Chamou Heitor, que desceu as escadas em silêncio,
segurando uma vela acesa — mesmo com a luz elétrica ligada.
— Deve ter sido o vento — disse ele, sem convicção. E então encostou a porta de novo,
sem trancá-la. — Talvez a estrutura esteja cedendo. Madeira velha. Metal cansado.
Mas enquanto voltavam para o andar de cima, Ana percebeu que algo ficara diferente no
ar. O silêncio... Havia se transformado. Não era mais expectante. Era invasivo. Era como
se algo agora estivesse dentro, com eles. Algo que observara até então, mas que agora
decidira mover-se.
Heitor passou o dia escrevendo.
Mais do que escrever: ele transcrevia algo. Seus dedos se moviam frenéticos sobre o
teclado, mas os olhos não acompanhavam. Às vezes ele murmurava enquanto digitava
como se estivesse repetindo palavras que ouvia. Quando Ana o chamou para o almoço, ele
nem respondeu.
À noite, ela leu parte do que ele tinha produzido.
Não eram capítulos. Eram fragmentos. Frases repetidas. Palavras antigas. Citações de
autores que ele nunca lera. E uma linha, destacada em negrito, que aparecia em meio a
tudo:
“A porta não se abre. Ela respira.”
Ana fechou o notebook e o trancou em uma das gavetas.
Heitor não perguntou por ele.
Isabela falava dormindo com mais frequência.
Ana gravou uma das noites em que a filha sussurrava sem parar. Reproduziu o áudio para
Heitor no dia seguinte.
Ele não disse nada. Só olhou para o gravador e depois para a porta de ferro, no fim do
corredor.
— Você não acha que está tudo... Estranho? — perguntou Ana.
— Estamos isolados — respondeu ele, sem emoção. — O isolamento mexe com os
sentidos. É psicológico.
Mas ele mesmo começou a evitar espelhos. E todas as noites, antes de dormir, olhava para
o teto como se esperasse ouvir passos. Ou vozes.
Na quinta noite, Ana acordou com sede. A casa inteira estava mergulhada em um silêncio
sufocante. Pegou uma vela, mesmo com as luzes funcionando. O hotel parecia mais...
Escuro, mais denso sob iluminação elétrica. Como se rejeitasse ser iluminado.
Na cozinha, a água da torneira estava turva. Quase leitosa. O gosto era metálico. Vomitou
na pia.
No caminho de volta, passou pelo saguão.
A lareira — que não usavam há dois dias — estava acesa.
As chamas eram baixas, azuladas. Não produziam calor algum.
E alguém estava sentado na poltrona ao lado.
Ana congelou.
O vulto era pequeno. Quase infantil. Mas coberto por um tecido branco, como um lençol
antigo. Ela se aproximou, com a vela trêmula nas mãos.
— Isa...? — sussurrou.
Mas quando chegou perto, não havia nada ali.
Nem a poltrona.
Nem a lareira.
Nem calor.
Era tudo imaginação?
Quando subiu de volta para o quarto, viu algo que a fez soltar um pequeno grito.
A porta de ferro... Estava novamente entreaberta.

No dia seguinte, Heitor não conseguia encontrar a biblioteca.


Passou horas caminhando pelos corredores, mapeando cômodos, conferindo escadas. Mas
o cômodo havia desaparecido. No lugar onde ela costumava estar, havia agora uma sala de
jantar em ruínas. Cadeiras quebradas. Talheres enferrujados. Um cheiro forte de enxofre.
Isabela apareceu na porta.
— A biblioteca desceu. Ele quis ler os livros também.
Heitor a encarou, atordoado.
— Quem?
— O homem da porta.
— Não há ninguém na porta, Isa.
Ela apenas sorriu. Tristemente. Como se soubesse mais do que devia.

Na sexta noite, Ana teve o sonho mais perturbador até então.


Não era um pesadelo. Era... Uma memória.
Mas não dela.
Ela via-se sentada em frente à lareira. Um vestido antigo. Um penteado severo. Mãos
imóveis sobre o colo. Ao redor, vultos caminhavam em silêncio, como hóspedes em luto.
Nenhum som. Nenhuma voz. Apenas a sensação de espera.
Ela se levantava. Caminhava até a porta de ferro.
E do outro lado, havia alguém. Uma criança. Sorrindo. Uma voz que dizia, com ternura:
— A família está quase pronta.
Ana acordou aos prantos.
E, no silêncio do quarto, ouviu Heitor murmurar dormindo:
— Só mais um quarto... Só mais uma alma... E a casa estará completa...
Ela não dormiu mais.
E lá fora, como sempre, a chuva continuava.
Gota por gota.
Como se o céu estivesse lavando o mundo de um pecado antigo demais para ser lembrado.

Capítulo 4 – O Homem do Andar de Baixo

O sétimo dia trouxe consigo uma névoa espessa que parecia escorrer do céu para dentro da
casa. Pela manhã, as janelas do Hotel Seraphim estavam completamente embaçadas, e do lado
de fora, não se via mais o mundo. Apenas um branco viscoso, como leite derramado sobre
vidro.
Ana foi a primeira a acordar. E sentiu, de imediato, que havia algo... [Link] como
acordar num quarto que não era o seu, mesmo sendo.

O armário estava deslocado — ela tinha certeza de que ficava na outra parede. As almofadas
da cama haviam sumido. E havia um cheiro doce no ar. Quase agradável. Quase... Podre. Como
flores esquecidas em um túmulo fechado.

Ela saiu do quarto com passos leves, tentando não acordar Isabela. A casa parecia dormir, mas
não descansava. As paredes respiravam. Os degraus rangiam com atraso, como se ecoassem o
passo depois que ele já fora dado.

Na escada, encontrou um papel dobrado no corrimão. Era um desenho. Feito com giz de cera
vermelho.

Um homem sem rosto. De terno escuro. Alto, muito alto. E atrás dele, uma porta aberta.
Dentro da porta: olhos. Muitos olhos.

No canto do papel, escrito com uma caligrafia irregular:


“O Homem do Andar de Baixo gosta de histórias.”

Ela levou o desenho até Heitor, que tomava café em silêncio, olhando para o nada. Seus olhos
estavam vermelhos, como se não piscasse há horas.

— Isa desenhou isso — disse ela, colocando o papel sobre a mesa.

Heitor olhou, mas não respondeu. Apenas passou os dedos sobre o desenho, como se
estivesse tentando decifrar algo invisível.

— Você lembra... Do que fez ontem? — Ana perguntou.

Ele balançou a cabeça.

— Só lembro-me de estar no porão.

— Porão? Que porão?


Ele não respondeu. Apenas se levantou e subiu de volta para o quarto.

Ana o seguiu, mas quando entrou no corredor... o quarto não estava mais lá.

Havia apenas uma porta de madeira escura, sem número. Trêmula, estalando levemente,
como se respirasse. Tentou abri-la — não conseguiu. Atrás dela, um som: como páginas sendo
viradas. Como sussurros. Como um riso abafado.

Voltou atrás. O corredor se alongava mais do que devia. Estava cansada. Mais do que o
normal. Como se cada passo drenasse uma memória, um nome, uma certeza.

No meio do caminho, viu algo no chão.

Um sapato infantil.

Não de Isabela.

Era antigo. De couro endurecido. E dentro dele, um bilhete enrolado como um pergaminho:

“Ele está subindo.”


Capítulo 5 – O Quarto Lacrado

Na oitava noite, Ana decidiu que não podia mais ignorar o que estava acontecendo.

O Hotel Seraphim já não era um lugar estranho — era um organismo. Vivo. Antigo. E faminto.

Heitor ainda tentava manter uma rotina. Acordava, tomava café, sentava à escrivaninha. Mas
seus olhos estavam diferentes agora. Ele via Ana. Escutava suas palavras. Não com descrença,
mas com um receio surdo, como alguém que suspeita estar diante da verdade — e teme
confirmá-la.

— Ontem à noite... o quarto desapareceu — disse Ana, sentando-se à frente dele. — E eu


encontrei isso.

Ela colocou sobre a mesa o sapato de couro antigo, o bilhete dentro dele estendido como um
convite fúnebre. Heitor leu a frase em voz baixa:

— “Ele está subindo.” — Respirou fundo. — Isso não é coisa da Isa?

— O sapato é de outra época, Heitor. É velho. Couro trincado. E esse bilhete... essa caligrafia...
é adulta. Como se alguém estivesse tentando nos avisar. Ou nos ameaçar.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Depois fechou o notebook, empurrando-o para o
canto da mesa.

— Eu estou começando a ver... Coisas também.

Ana o encarou. Era a primeira vez que ele admitia algo.

— O quê?

— O espelho do banheiro... ontem... eu vi você, parada atrás de mim. Mas você estava
dormindo. E sua pele estava cinza. Os olhos... completamente pretos.

Ana estremeceu.
— Não era eu.

— Eu sei. Mas... — ele olhou ao redor, como se temesse que o hotel escutasse — ...era alguém
usando o seu rosto. Como se o lugar tivesse pele, ossos e lembranças podres que escorrem
pelas paredes.

Ela segurou a mão dele. Estava fria.

— Precisamos sair.

— A estrada ainda está bloqueada. A névoa não recua. É como se estivéssemos do lado de
dentro de um pulmão.

— Então precisamos resistir. Juntos.

Ele assentiu.

Naquela noite, Isabela desenhou de novo.

Desta vez, usou carvão. O papel inteiro estava preenchido por traços espessos, caóticos. No
centro, algo que lembrava um quarto com paredes cobertas de símbolos. No chão, corpos
dormindo. Ou mortos.

E no teto... Um buraco negro.

Dentro dele, uma língua vermelha se estendia para fora.

Atrás do desenho, em letras pequenas:

“O quarto lacrado não quer ser aberto. Mas precisa.”

Ana e Heitor trocaram olhares.


— Há um quarto que evitamos desde que chegamos — disse ela. — Aquele no fim do segundo
andar. A porta sem maçaneta.

— Sempre trancada — ele completou.

— Nunca foi destrancada. Nunca foi aberta. Mas está lá. E Isa nunca foi até lá. Como ela
desenhou isso?

Ele respondeu com uma pergunta que soou mais como um lamento:

— E se não foi ela?

Na nona madrugada, o som de móveis arrastando acordou o casal.

Vieram do andar de cima.

Quando subiram, com lanternas e facas de cozinha nas mãos, encontraram Isabela em pé
diante do quarto lacrado. Sozinha. De olhos fechados. Tocava a porta com a palma da mão.

— Ele está dentro — disse a menina.

— Isa, afasta-se — sussurrou Ana, tentando não assustá-la.

— Ele não quer sair. Ainda. Mas quer que vejamos. Quer que lembremos.

Heitor pegou a filha nos braços. Sentia o coração dela bater rápido, como asas de pássaro
preso.

— Vamos sair daqui.

Mas ao se virarem, viram que o corredor havia mudado. As portas desaparecido. Restava
apenas o caminho de volta... Para o quarto lacrado.

Ana olhou para o teto. Acima deles, as sombras tremiam, embora não houvesse vento. E
então, em meio ao silêncio, uma voz. Sussurrada. Rouca. Masculina.
Mas soando dentro de suas próprias cabeças:

— Mais uma alma. Mais uma lembrança. O Seraphim precisa terminar sua história.

Heitor segurou firme a mão de Ana.

— Estamos juntos nisso.

E dessa vez, ele quis dizer de verdade.

Mesmo quando o chão começou a tremer.

Mesmo quando a porta lacrada... Respirou.

Capítulo 6

O bilhete no sapato ainda estava em sua mão quando Ana subiu as escadas, com passos
tensos, como quem teme encontrar algo à espreita entre o primeiro e o segundo andar.
“Ele está subindo.”
A frase ecoava em sua mente como uma campainha esquecida tocando ao longe.

Ao chegar ao topo da escada, encontrou Heitor parado no corredor, de costas, encarando a


porta entreaberta do quarto de Isabela. Não dizia nada. Apenas olhava.
— Heitor...?
Ele se virou lentamente. O rosto cansado. Os olhos fundos. Mas havia algo diferente nele
agora: escutava. Finalmente escutava.
— Eu acredito em você, Ana — disse. A voz era um sussurro. — Algo está... se mexendo aqui
dentro. E não é só dentro da casa.

Ela assentiu, emocionada e assustada ao mesmo tempo.


— O hotel... Ele sabe quem eu sou, Heitor. Antes mesmo de eu saber.

Ele olhou em volta, como se esperasse que as paredes reagissem àquela afirmação. E, de certo
modo, reagiram.
Um estalo seco veio do andar de baixo.

O som de uma porta se abrindo devagar.

Heitor segurou a mão dela.


— Vamos ver.

Desceram juntos, pela primeira vez em dias. E no final do corredor do térreo, uma das salas
outrora trancadas — aquela que julgavam ser um depósito — estava agora aberta.
O ar lá dentro era frio. Mais do que devia ser. Como se o inverno tivesse feito ninho ali.

Dentro da sala, encontraram uma escrivaninha coberta por um lençol branco, manchado pelo
tempo. Ao puxá-lo, revelaram gavetas lacradas por ferrugem e um maço de envelopes antigos,
atados com barbante preto.

Cartas.
Endereçadas ao antigo proprietário do hotel. Um nome que Ana não reconhecia, mas que
parecia familiar.

Bartholomeu Greaves.

Começaram a ler. As mãos tremiam.

"Prezado Senhor Greaves, Agradecemos por nos enviar mais um dos... volumes. O conteúdo é
perturbador, como os anteriores, mas confesso: não consigo parar de ler. Há algo nas palavras
escritas nesses diários que... nos chama. Como se houvesse verdade demais neles para serem
ignoradas."

Outras cartas falavam sobre hóspedes desaparecidos. De crianças que diziam ver “o homem
sem olhos” nos espelhos. De vozes que ecoavam no encanamento durante a madrugada. De
uma porta, no subsolo, que “não devia ser aberta, mas também não podia ser esquecida.”

Mas foi a última carta que paralisou Ana:


Meu caro Greaves,A senhora da foto... Aquela com o vestido escuro e os olhos tristes... Por
que ela está em todos os quartos? E por que me parece tanto com sua filha?"

Ana deixou o papel cair.

— Eu já vi essa mulher — murmurou. — No meu sonho... No meu reflexo.


Heitor a olhou, pálido.
— Onde está essa foto?

Foram até a sala principal, vasculhando as molduras antigas. Uma delas, escondida atrás de um
biombo, trazia o retrato que Ana reconheceu de imediato. A mulher do vestido escuro.
Cabelos presos num coque severo. Os olhos... iguais aos seus.

Mas não era ela.

Não podia ser.

Na moldura, uma placa enferrujada:

"Elizabeth Greaves – 1892"

Ana recuou um passo.


— Não sou ela. Não sou.
Heitor a segurou pelos ombros.
— Não. Mas talvez ela tenha sido como você. Talvez o hotel tenha sentido algo em você que
ecoa antigos horrores.

Na lareira, acesa sozinha, uma carta chamuscava lentamente. Como se alguém — ou algo —
quisesse apagar os rastros.

Ana a retirou antes que queimasse por completo. Leu as últimas palavras com a voz
embargada:
"O hotel é uma casa de memória. Não de carne. Mas de ecos. E os ecos reconhecem aqueles
que são parecidos demais com os sons antigos. Ela apareceu... mesmo não sendo a mesma. E
ele sabe disso."

No corredor, Isabela observava em silêncio.


Na mão, outro desenho.

O homem sem rosto. Mais perto.


E agora, com uma chave pendurada ao pescoço.

Capítulo 7

No oitavo dia, o céu desapareceu.

A névoa não era mais uma cortina do lado de fora — era a própria realidade se desfazendo em
brumas. Quando Ana abriu os olhos, não havia mais janela. Havia um pano branco onde antes
havia vidro. Um tecido grosso, opaco, como gaze antiga. Tocou-o com dedos trêmulos. Era frio.
Úmido.

Isabela não estava na cama.

Chamou o nome da filha uma, duas, três vezes.

Silêncio.

Desceu as escadas às pressas. Encontrou Heitor na sala, imóvel, olhando para o chão de
madeira como quem encara o abismo.

— Ela sumiu Heitor. A Isa sumiu.

Ele não respondeu.

Na parede atrás dele, havia algo novo: um espelho. Não estavam colocando espelhos no hotel
desde há segunda semana, mas ali estava — oval, emoldurado por madeira escurecida, com
pequenas rachaduras como veias de vidro.
— Ana — disse ele, finalmente, sem virar-se —... olha no espelho.

Ela se aproximou devagar. O espelho não refletia a sala. Refletia o quarto de Isabela. Vazio.
Mas as cobertas estavam mexendo, como se alguém estivesse deitado ali. E então, da borda
da cama, surgiu uma figura.

Alta. Esquelética. De terno escuro.

Sem rosto.

Era como se o rosto estivesse ali, mas não se deixasse ver — uma ausência de traços que
vibrava, pulsava, como se dissesse ao cérebro que ali havia uma feição, mas que ela não
deveria ser compreendida.

A criatura virou-se lentamente na direção do espelho.

E Ana sentiu algo explodir dentro do peito. Uma onda de pavor tão antiga que não era dela —
era humana. Primordial. Como o medo do escuro. Como o medo do nada.

— Ele está aqui... — sussurrou Heitor, com os olhos fixos no espelho. — Ele está dentro do
hotel.

O espelho trincou com um estalo seco.

E as luzes se apagaram.

Ana correu pelos corredores gritando o nome da filha.

As portas se multiplicavam — mais do que o número de cômodos que existiam. Havia quartos
que jamais tinham visto escadas que levavam a lugar nenhum. O hotel respirava. Tinha um
ritmo. Um coração. E batia mais rápido agora.

No fim do corredor, uma risada infantil.


Ana seguiu o som.

Encontrou Isabela em um quarto completamente branco. Sem móveis. Sem janelas. Sentada
no centro, desenhava com os dedos no chão de madeira. Quando Ana a tocou, a filha se virou
devagar. Os olhos estavam escuros. Sem íris. Como a noite.

— Ele falou comigo, mamãe. Ele disse que vai nos guardar aqui dentro pra sempre.

— Isa... Do que você está falando?

A menina apontou para o canto da sala.

Ali, na sombra... Ele.

O Homem sem Rosto.

De pé. Imóvel. Alto demais. Como uma torre viva. As mãos pendiam aos lados, longas,
impossíveis. O rosto... a ausência do rosto... parecia escorrer como tinta apagada.

Ana não gritou.

O grito ficou preso na garganta.

Mas Isabela sorriu.

— Ele só quer brincar.

Naquela noite, Heitor sonhou com vozes.

Milhares de vozes sussurrando ao mesmo tempo. Dizendo palavras que ele não conhecia. Ele
flutuava sobre o hotel, como um corpo sem peso, e via — de cima — os corredores formando
um olho. O hotel inteiro era um olho. Um organismo vivo.

E no centro... A porta. Sempre ela. Atrás da porta, o Homem sem Rosto se alimentava.Não de
carne. Mas de medo. Medo puro. Destilado em cada pensamento, em cada suspiro, em cada
lembrança de dor. Ele era o primeiro medo da terra. A memória de que havia algo além da
razão, além de Deus, além da morte.

Quando acordou, não estava na cama.

Estava no porão.

Coberto por livros antigos. Com páginas escritas em sangue e sal. A porta do porão batia
sozinha.

E da fresta escura... Olhos.

Ana começou a perder tempo.

Horas passavam em segundos. Dias em minutos. Às vezes piscava e já era noite. Às vezes
dormia e acordava no mesmo segundo. A sanidade escorria pelos dedos como água morna.

Isabela falava com paredes. Ria sozinha. Dizia que “a casa estava comendo as coisas ruins da
cabeça dela”.

Heitor escrevia nomes. Milhares de nomes. Todos em línguas que não existiam.

E o Homem sem Rosto aparecia em tudo.

Nos espelhos. Nos vidros. Nas sombras. No reflexo da água.

Ele não atacava. Ele não gritava. Ele apenas observava.

E sorria.

Sem boca.

No final do nono dia, Ana viu algo que quebrou o que restava de sua razão.
Ao atravessar o corredor do segundo andar, viu-se diante de uma pintura antiga. Um quadro
empoeirado, escondido sob um lençol.

Ao puxar o pano, quase caiu de joelhos.

Era ela.

Pintada com tinta a óleo.

Em pé, diante da porta de ferro.

Com Isabela no colo. E o Homem sem Rosto atrás, como uma sombra.

Na moldura, uma placa:


"Os que alimentaram a Casa. 1866."

Ela começou a gritar.

E, pela primeira vez, o hotel respondeu.

Riu.

Uma risada funda, abafada nas paredes, nos canos, no chão. Uma risada que vinha de todos os
lados. Como se o Homem sem Rosto estivesse em tudo. Como se o hotel fosse ele. Como se o
medo fosse a única língua que a casa compreendia — e a única que sabia falar.
Capítulo 8 – A Última Porta

Chovia como se o céu estivesse afundando.

O Hotel Seraphim tremia em seus alicerces invisíveis. Não com terremotos, mas com algo mais
sutil — como se a própria estrutura do tempo estivesse se partindo em estilhaços. Nada mais
se encaixava. Nenhuma parede terminava onde começava. Nenhuma porta levava ao mesmo
lugar duas vezes.

Ana acordou com um grito.

Mas não o seu.

Foi Isabela. O berro ecoou pelas paredes como um animal encurralado. Quando Ana correu até
o quarto da filha, a cama estava vazia. Lençóis encharcados. Pegadas molhadas no chão,
pequenas, indo em direção à escada que levava ao porão — um lugar que, até então, sequer
sabiam que existia.

Heitor a encontrou parada diante da porta entreaberta.

— Ela... Ela desceu — Ana sussurrou. — Eu vi o vestido na escada... como se estivesse sendo
arrastado.

Heitor não hesitou.

Pegou a velha lanterna, já com a luz fraca e intermitente, e desceu.

Ana o seguiu. Passos leve, como se cada movimento pudesse chamar algo que os observava.
Algo que esperava. Algo... Faminto.

O porão não era apenas um cômodo.

Era uma espiral.


Paredes de pedra, cobertas de limo. Teto baixo. Umidade que escorria pelas tábuas como suor.
O ar tinha gosto de ferro. As luzes falhavam, estalavam, morriam. Mas, mesmo na penumbra,
Heitor viu.

Viu a silhueta.

O homem estava de pé, ao fundo do porão.

Alto. Magro demais. Terno negro, tecido que tremeluzia como um véu sob a água. Onde
deveria haver um rosto, havia apenas... ausência. Não era uma máscara. Era o nada. O fundo
de um poço sem fim. E ele olhava. Olhava com um rosto que não existia.

Isabela estava atrás dele.

Em pé.

De mãos dadas com ele.

Mas sem expressão. Como se já não fosse mais ela, apenas a casca de algo que havia sido
esquecido nas profundezas.

— Isa! — Ana gritou, avançando.

O Homem sem Rosto moveu-se.

Mas não caminhou.

Deslizou.

Como um pensamento ruim. Como um enjoo que se arrasta pela pele. Ele tocou Ana com a
ausência do toque — e ela caiu de joelhos, ofegante. Imagens invadiram sua mente: vultos,
espelhos quebrados, línguas sussurrantes, e o quarto... o quarto que ela vira nos sonhos, com
a lareira apagada e a porta aberta para os olhos.

Heitor gritou.
A voz era mais forte do que esperava.

Avançou contra a criatura, protegendo o corpo de Ana, puxando Isabela para trás. O toque da
filha era gelado. Morto. Mas os olhos — por um instante — pareciam vivos.

A entidade se curvou.

Do nada onde deveria haver boca, brotou um som — não um rugido, mas um coro. Vozes.
Milhares delas. Gritando ao mesmo tempo. Rezando. Chorando. Rindo.

E o hotel inteiro respondeu.

As paredes começaram a desmoronar. Mas não fisicamente. Era como se a casa estivesse
sendo engolida por si mesma. As janelas mostravam paisagens que não existiam. O céu se
abria para o fundo de um abismo. Relógios andavam para trás. Espelhos se estilhaçavam sem
motivo. E os olhos... os olhos começaram a surgir nas paredes, nos móveis, no teto.
Observando.

— ELE SE ALIMENTA DO MEDO! — Ana gritou, lembrando da frase sussurrada em sonho,


escrita no diário antigo que nunca existiu.

Heitor entendeu.

Por puro instinto, agarrou a vela antiga do altar quebrado ao lado do porão. A mesma vela que
usaram na primeira noite, quando a luz falhou.

Acendeu-a com um fósforo esquecido.

A chama não tremia.

Era firme. Clara. Quente.

A entidade recuou.
Não por dor.

Mas por ira.

Heitor levantou a vela e gritou:

— Ela não tem medo! Eu não tenho medo!

Mentira.

Mas o hotel tremeu.

O Homem sem Rosto vacilou. E naquele instante, Ana pegou Isabela e correu escada acima. O
chão se desfazia atrás deles. Pedaços da casa se dissolviam no ar. Heitor ficou para trás —
encarando a criatura, que agora se distorcia, se multiplicava, se contorcia como um pesadelo
tentando sobreviver à luz da consciência.

Com um último impulso, Heitor arremessou a vela contra o peito da entidade.

A chama se expandiu.

Mas não queimou.

Iluminou.

Por um segundo, viu-se o que estava por trás da máscara: um vácuo absoluto, um vazio que
não deveria existir. Uma presença que estivera ali desde o começo do tempo, antes da
primeira palavra, antes da primeira casa.

E então... Silêncio.

O hotel apagou-se.

E desabou.
Heitor acordou na neve.

Ferido. Tonto. Mas vivo.

Ana e Isabela estavam ao seu lado, inconscientes — mas respirando.

Atrás deles, o que restava do Hotel Seraphim era um amontoado de ruínas calcinadas.
Nenhum fogo. Nenhuma fumaça. Só pedra. Como se nunca houvesse sido uma casa. Como se
sempre tivesse sido um túmulo.

Heitor acreditou que havia vencido.

Mas não viu, lá no alto da colina, o vulto magro de pé entre as árvores, observando.

Sem rosto.

Sem forma.

Ainda com fome.

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