e meditação com uma profundidade maior do que a que posso oferecer em
minhas sessões de coaching.
Mas meu conhecimento cada vez maior da atenção plena e meu entusiasmo
por tudo que ela representa estão agora aliados a uma preocupação com seus
potenciais excessos e o risco de que sua prática possa estar excluindo outros
modelos e estratégias igualmente importantes para administrar o estresse,
alcançar o máximo de desempenho e obter realização profissional e pessoal. Às
vezes, parece que estamos testemunhando o desenvolvimento de um “culto do
mindfulness”, que, se não for apropriadamente reconhecido e contido, pode
resultar num recuo, numa espécie de efeito rebote. Eis algumas de minhas
preocupações.
O risco da evitação
Algumas pessoas usam estratégias de atenção plena para fugir de tarefas que
exigem pensamento crítico. Tenho trabalhado com clientes que, em vez de
pensarem racionalmente quando enfrentam uma dificuldade na carreira ou um
dilema ético, preferem se desconectar de seus desafios e recuar para uma postura
mental meditativa. A questão aqui é que alguns problemas requerem mais – não
menos – reflexão. Às vezes o estresse é um sinal de que precisamos encarar
nossas circunstâncias com mais racionalidade, não com um retiro de atenção
plena para focar na respiração ou em outras experiências sensoriais. Estratégias
de atenção plena podem preparar a mente para um pensamento racional mais
profundo, mas a primeira opção, claramente, não deve excluir a segunda.
Uma de minhas clientes passou tanto tempo meditando e “plenamente
atenta”, aceitando sua vida “tal como ela era”, que deixou de confrontar
funcionários com baixo desempenho (e de disciplinar ou demitir os piores) em
sua empresa. Após os períodos de meditação, ela se esforçava para retomar um
pensamento focado, voltado para suas tarefas. Foram necessários significativos
lembretes e reiterações de minha parte de que a adoção da meditação budista não
implica tolerar desempenhos abaixo do padrão. A meditação da atenção plena
deve ser usada sempre a serviço de melhorar, não substituir, os processos de
pensamento racional e analítico sobre a carreira e sobre a vida pessoal.
O risco do pensamento de grupo
À medida que as práticas de mindfulness tornam-se uma tendência atual,
algumas empresas e organizações estão admiravelmente incentivando seu
pessoal a fazer uso delas no local de trabalho. Mas tenho conhecimento de
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situações em que essa nova orientação foi longe demais.
Em um caso, o gestor de uma empresa de serviços financeiros exigiu que
seus subordinados diretos participassem várias vezes por semana de sessões de
atenção plena, com 10 a 15 minutos de duração, que envolviam controle da
respiração e visualização guiada. Muitos participantes chegaram a ter pavor dos
exercícios. Alguns se sentiam extremamente desconfortáveis e incomodados,
acreditando que as práticas de mindfulness deveriam ser feitas a sós. O exercício
que deveria reduzir o estresse relacionado com o trabalho na verdade o tinha
aumentado. A prática continuou durante semanas, até que vários membros do
grupo finalmente reuniram coragem para dizer ao líder que preferiam que os
exercícios diários fossem opcionais, sem punições para os que não
participassem.
A atenção plena tem suas raízes numa filosofia e psicologia de autoeficácia
e de cuidados proativos consigo mesmo. Impô-la às pessoas de modo autoritário
desvirtua a natureza da prática e frustra as pessoas que poderiam se beneficiar de
seu uso por livre e espontânea vontade.
O fato de o mindfulness ter surgido como um importante fenômeno cultural
no cenário contemporâneo e no mundo dos negócios em particular pode ser uma
boa notícia para indivíduos que enfrentam o estresse, a exaustão e outras
realidades do ambiente corporativo atual. Mas essa prática precisa ser
incorporada como uma entre muitas estratégias escolhidas pela própria pessoa
que deseja lidar com o estresse, pensar com eficácia, tomar decisões
fundamentadas e alcançar a realização.
Práticas de mindfulness deveriam ser usadas para aprimorar nossos
processos de pensamento racional e ético, não para limitá-los ou substituí-los. E
nunca deveriam ser impostas às pessoas, especialmente no ambiente de trabalho.
Praticada como é em sua essência, a atenção plena será um imenso passo
para a cultura ocidental se estiver focada em criar oportunidades para que
indivíduos descubram suas próprias estratégias para lidar com a ansiedade,
administrar o estresse, aumentar o desempenho no trabalho e alcançar a
felicidade e a realização.
DAVID BRENDEL é coach de executivos, especialista em desenvolvimento de
liderança e psiquiatra estabelecido em Boston. É fundador e diretor da Leading
Minds Executive Coaching e cofundador da Strategy of Mind, uma companhia