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Governança Corporativa e Sustentabilidade

O documento aborda a importância da governança corporativa, integridade empresarial e compliance, destacando a necessidade de as empresas alinharem suas operações aos princípios de sustentabilidade e responsabilidade social. A integridade é apresentada como um fenômeno social que reflete a coerência entre ações e valores, enquanto o sistema de compliance é essencial para garantir que as práticas organizacionais estejam em conformidade com esses princípios. O texto também menciona a relevância dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e a necessidade de uma identidade organizacional clara para promover a reputação e o valor sustentável das empresas.

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Camila Bilha
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Governança Corporativa e Sustentabilidade

O documento aborda a importância da governança corporativa, integridade empresarial e compliance, destacando a necessidade de as empresas alinharem suas operações aos princípios de sustentabilidade e responsabilidade social. A integridade é apresentada como um fenômeno social que reflete a coerência entre ações e valores, enquanto o sistema de compliance é essencial para garantir que as práticas organizacionais estejam em conformidade com esses princípios. O texto também menciona a relevância dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e a necessidade de uma identidade organizacional clara para promover a reputação e o valor sustentável das empresas.

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GOVERNANÇA CORPORATIVA,

LGPD E COMPLIANCE
AULA 4

Prof.ª Neide Borscheid Mayer


CONVERSA INICIAL

No ano 2000, ocorreu o lançamento da maior iniciativa de sustentabilidade


corporativa do mundo, o Pacto Global das Nações Unidas, no qual o então
secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, provocou os empresários do
mundo todo no sentido de incentivar as empresas a alinharem suas operações
e estratégias aos valores fundamentais e internacionalmente reconhecidos nas
áreas de direitos humanos, trabalho, meio ambiente e anticorrupção (ONU,
2000).
Em 2004, o Pacto Global, em parceria com o Banco Mundial, publicou um
relatório chamado Who Cares Wins, no qual foi disseminado o entendimento de
que, em um mundo globalizado, interligado e competitivo, as ações e a gestão
das questões ambientais, sociais e de governança corporativa são essenciais
para o desenvolvimento sustentável das empresas.
Ainda segundo esse relatório, as empresas que têm melhor desempenho
em relação a essas questões podem aumentar o valor para os sócios ou
acionistas, além de contribuir simultaneamente para o desenvolvimento
sustentável das sociedades em que operam.

CONTEXTUALIZANDO

Embora o Pacto Global não seja um instrumento regulatório e sim um


estímulo à iniciativa voluntária das empresas em adotar medidas comprometidas
e inovadoras para promover um crescimento sustentável e de cidadania, esse
movimento inspirou entidades e governos a estabelecerem regulamentações e
iniciativas alinhadas a essas diretrizes.
Em 2015, os Estados membros da ONU, dos quais o Brasil faz parte,
aprovaram um plano de ação chamado Agenda 2030, com abrangência de 2015
a 2030, comprometendo-se em contribuir com 17 Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável (ODS).
Dentre esses objetivos, está o n. 16 que objetiva “Promover sociedades
pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o
acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e
inclusivas em todos os níveis”.

2
Esse objetivo respalda os temas que trataremos na sequência
relacionados à integridade empresarial. Os 17 objetivos de desenvolvimento
sustentável da agenda 2030 são:

Figura 1 – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

3
Fonte: Nações Unidas Brasil.

TEMA 1 – GOVERNANÇA CORPORATIVA E INTEGRIDADE EMPRESARIAL

A governança corporativa adequadamente estruturada e estabelecida tem


como premissa principal gerar valor sustentável para empresa, para seus sócios
e para a sociedade em geral (IBGC, 2023).
Para que isso seja possível, é importante que a empresa estabeleça
claramente o conjunto de valores e princípios que nortearão sua conduta. Estes
deverão estar pautados no senso de coletividade e na interdependência
existente com todo meio na busca do bem comum (IBGC, 2023).

Saiba mais
Definição de Interdependência: “estado ou qualidade de duas pessoas ou
coisas ligadas entre si por uma recíproca dependência, em virtude da qual
realizam as mesmas finalidades pelo auxílio mútuo ou coadjuvação recíproca”
(Oxford Languages, 2021).

Essa perspectiva mais abrangente dos valores e princípios das empresas


leva em consideração os princípios da governança corporativa – integridade,
transparência, equidade, responsabilização (accountability) e sustentabilidade –
que devem espelhar a cultura da organização. “A cultura organizacional é o jeito
de ser de uma organização, expressa pelos valores, crenças, rituais, símbolos,
costumes e comportamentos de um determinado grupo de pessoas, e que
confere a seus integrantes identidade e senso de pertencimento.” (Trennepohl,
2023, p. 19).
A definição dos valores e princípios da empresa (posicionamento ético)
irá influenciar e consolidar sua identidade e reputação, reforçando sua cultura,
ou seja, “o jeito como as coisas são feitas aqui” (IBGC, 2017).
Nesse sentido, o sistema de governança corporativa atuará, a partir do
propósito e valores da organização, na definição dos comportamentos desejados

4
e os não aceitáveis de seus colaboradores, nos processos claramente definidos
e disseminados, no estabelecimento da comunicação transparente de sua
estratégia, processos e desempenho (Trennepohl, 2023).
Essas definições normalmente são formalizadas em um documento
chamado de Código de Conduta e somente definirão a identidade da
organização se de fato forem suportadas nas práticas dos agentes em nome da
empresa (conselho de administração, sócios, diretores e demais colaboradores)
(IBGC, 2015).
Esse alinhamento entre o que se informa como posicionamento ético da
empresa e aquilo que de fato se pratica é o que pode ser entendido como
integridade da empresa, ou seja, há uma coerência entre suas ações e decisões.
Na sequência, nos aprofundaremos em relação ao que se entendo como
identidade da organização.

TEMA 2 – IDENTIDADE

Os princípios e valores de uma empresa são os delimitadores ou os


critérios éticos que norteiam os agentes de governança (colaboradores,
conselho de administração, diretores etc.) no exercício adequado dos papéis
assumidos nesta organização (IBGC, 2015).
E são esses critérios que constituirão a identidade da empresa (IBGC,
2015). “A identidade da organização pode ser entendida como uma combinação
entre sua razão de ser, aonde quer chegar, o que é importante para ela e a forma
como são tomadas as decisões” (IBGC, 2015, p. 17). Isso significa que a
identidade organizacional está diretamente relacionada a seu posicionamento
estratégico, sendo que:

• A “razão de ser” da organização corresponde ao seu propósito;


• O entendimento do lugar aonde a empresa quer chegar diz respeito ao
estabelecimento da visão;
• O que é importante para ela corresponde aos valores que se espera da
empresa e de todos que a representam;
• A forma como as decisões são tomadas é a que corresponde aos seus
princípios.

5
Tabela 1 – Abordagem conceitual - identidade

Abordagem Conceitual Definição Envolve


Propósito
Critérios para julgar, decidir
Valores
(deliberação ética) Cultura
Identidade Princípios
organizacional e atitude
Missão
individual
Visão
Fonte: IBGC, 2017, p. 31.

Nesse sentido, não há uma indicação do que seria ou não uma identidade
adequada ou certa, cada organização precisa reconhecer de forma consciente a
sua própria identidade (IBGC, 2017).
Essa consolidação da identidade e deliberação ética promoverá uma
coerência entre o pensar, o falar e o agir dos agentes que representam a
empresa, impactando na reputação da organização e em sua cultura (IBGC,
2017).
A reputação organizacional corresponde às impressões que os
stakeholders e os diferentes públicos têm sobre ela, ou seja, a imagem que
esses públicos (funcionários, fornecedores, clientes, governo, investidores, entre
outros) têm dessa empresa.
Quando essa reputação é boa, a empresa é impactada positivamente e
favorecerá a preservação e a criação de valor sustentável, inclusive econômico.
Já se a empresa divulga uma identidade (informação) que não tem
conivência com aquilo que ela de fato pratica, ou seja, diz que a identidade é
uma, mas sua prática é outra, sua reputação será impactada negativamente
(clientes deixam de comprar dessa empresa, investidores aumentam a taxa de
juros ou deixam de investir, etc.) e, consequentemente, reduzirá seu valor.
Como as empresas já compreenderam que uma boa reputação impacta
no valor da empresa, infelizmente há casos em que determinadas organizações
comunicam de forma inconsistente ou enganosa, que adotam determinadas
práticas e posturas na tentativa de atrair clientes e investidores com o suposto
diferencial estratégico.
Um tipo de prática que já é reconhecida no mercado e que tem gerado
conflitos com os stakeholders é conhecido como greenwashing.

6
Greenwashing é chamada a atitude de empresas que querem parecer ser
mais sustentáveis do que realmente são, com o objetivo de influenciar (de forma
enganosa) a decisão dos stakeholders (de investimento, de compra de bens ou
serviços, etc.) (Junior; Giacomini Filho, 2014).
Como esse conceito e essa prática já é conhecida pelo mercado e pelos
órgãos reguladores, muitas entidades já monitoram, acompanham e fiscalizam
as empresas para identificar aquelas que utilizam dessa prática.
Entretanto, frente ao avança tecnológico e ao uso da inteligência artificial
de forma mais massiva, o presidente da SEC (Securities and Exchange
Commission), que é a agência independente responsável por proteger e regular
o mercado nos Estados Unidos, chamou a atenção para o fato de que as
empresas agora podem estar praticando o que ele chamou de al wash.
Essa prática estaria ligada não apenas à divulgação inconsistente de
informações voltadas para sustentabilidade, mas à imagem da empresa como
um todo, como no caso de campanhas de marketing desenvolvidas por meio de
aplicações de inteligência artificial e que não corresponderiam de fato à imagem
da organização.
Considerando todos esses aspectos, é fundamental a reflexão das
empresas sobre sua real identidade, porque somente a partir dela é possível
desenvolver um adequado sistema de governança corporativa que incluirá o
código de conduta sobre o qual será estruturado um sistema de conformidade
(IBGC, 2017), que veremos de forma mais aprofundada a seguir.

Saiba mais
Você sabia que existem entidades que fiscalizam a atuação das empresas
e divulgam aquelas nas quais foi identificada a prática de greenwasing?
Uma dessas entidade é o IDEC – Instituto de Defesa do Consumidores,
que é uma associação de consumidores sem fins lucrativos, independente de
empresas, partidos ou governos.
Essa associação foi fundada em 1987, por um grupo de voluntários, com
a missão de orientar, conscientizar, defender a ética na relação de consumo e,
sobretudo, lutar pelos direitos de consumidores-cidadãos. Fonte:
<[Link] Acesso em: 29 maio
2024.

7
TEMA 3 – INTEGRIDADE

A integridade de uma organização corresponde a um fenômeno social em


que há a coerência entre a ação e os princípios e valores estabelecidos (Oliveira,
2018).
Ela deve fazer parte da cultura organizacional, podendo ser considerado
um padrão de excelência moral e valor relacional em que a força do caráter é
fortalecida por meio do processo interativo de diálogo, debate e engajamento
com todas as partes envolvidas (Oliveira, 2018).
A integridade organizacional acaba envolvendo e estimulando
comportamentos desejados como honestidade, senso de justiça, entre outros,
embora não se possa assegurar que cada indivíduo julgue tais valores a partir
do mesmo prisma, afinal, tais atributos são embasados a partir das experiências
de vida de cada um (IBGC, 2017).
No que diz respeito a discurso e à prática, a integridade pode ser
entendida como honrar a palavra, que significa cumprir a palavra (Erhard;
Jensen, 2012).
Para decisões menores e mais simples, é possível que a empresa de fato
consiga sempre manter a palavra, porém, em decisões mais complexas, isso
nem sempre é possível ou não no tempo previamente definido, por isso esses
autores mencionam a integridade como honrar a palavra (Erhard; Jensen, 2012).
Esse entendimento é importante porque ele acaba estabelecendo um
padrão de comportamento considerado íntegro por parte das organizações.
Segundo Erhard e Jensen (2012), espera-se que em caso de a empresa
perceber que não conseguirá cumprir a palavra (incluindo não cumprir na hora),
ela deverá reportar a todas as partes envolvidas que possam ser impactadas por
essa mudança que:

1. a palavra não será cumprida;


2. quando a palavra será cumprida no futuro; ou
3. ela de fato não poderá ser cumprida, e, nesse caso,
4. o que será feito para lidar com o impacto dessa mudança às partes
envolvidas.

8
Tabela 2 – Abordagem conceitual - integridade

Abordagem Conceitual Definição Envolve


Honrar a palavra
(condição necessária, mas não Falar e fazer,
Integridade
suficiente, para o e/ou informar
desempenho)
Fonte: IBGC, 2017, p. 31.

Essa postura transparente irá impactar diretamente a imagem e a


reputação da empresa e, consequentemente, preservar e criar valor sustentável
(IBGC, 2017).
No Brasil, a integridade passou a ser compreendida com outros
significados, sendo associada ao combate à corrupção e a caráter, qualidade de
pessoa honesta, confiável e justa (IBGC, 2017).
Podemos entender, então, que a identidade da empresa é a referência
para a busca da sua integridade e que, a partir delas, a empresa desenvolverá
um sistema de conformidade para auxiliá-la no processo de governança (IBGC,
2017), que compreenderemos melhor no próximo tópico.

TEMA 4 – CONFORMIDADE

O sistema de conformidade das organizações é conhecido como


compliance, e tem como função garantir que a empresa, seus processos e
agentes ajam de acordo com os valores e princípios pré-estabelecidos, com o
intuito de assegurar o alinhamento de todos na busca dos objetivos estratégicos
e do propósito da organização (IBGC, 2017).
Os mecanismos de conformidade envolvem medidas relacionadas à
formulação, divulgação e treinamento de políticas, procedimentos, normas e
práticas baseadas no código de conduta da organização (IBGC, 2023).
O sistema de conformidade envolve, ainda, a construção de processos e
indicadores formais de monitoramento dos padrões de conduta adotados pelos
agentes (colaboradores e alta gestão) visando à identificação de eventuais
desvios que possam ser evitados ou proativamente identificados, corrigidos e,
eventualmente, punidos (IBGC, 2023).

O compliance não é simplesmente uma atividade, um departamento ou


algo novo no mundo corporativo, mas a atitude (comportamento,

9
conduta, uma forma de ser) de manter a conformidade das decisões e
operações com suas políticas e procedimentos e com as leis e
regulamentos, um processo apoiado em um sistema de controle interno
corporativo. Não tem a ver só com a estrutura organizacional, apesar
de depender dela para sua operacionalização. (IBGC, 2017, p. 29)

A definição dos processos da empresa – assim como os subprocessos e


pontos de controle e risco (controles internos) – deve ser realizada de forma que
se possa assegurar que sejam cumpridos e que continuem válidos, mesmo com
mudanças legais, políticas ou do negócio.
Diante disso, o sistema de compliance deve ser desenvolvido a partir de
uma análise do perfil de riscos da empresa. A partir dos riscos que são
identificados em todos os níveis (estratégico, tático e operacional), são
desenvolvidas as políticas, regras e procedimentos que viabilizarão a adequada
gestão de ocorrências dos atos indesejados, seguindo três eixos fundamentais:
prevenir, detectar e remediar (IBGC, 2017).

• Prevenir a materialização do risco a partir de um mapeamento completo


das normas, leis e políticas que envolvem o negócio (IBGC, 2017).
• Detectar a partir do monitoramento da atuação de todos os agentes,
contemplando todas as obrigações da empresa (interna e externamente)
focando em controles internos e a gestão de riscos (IBGC, 2017).
• Remediar ou tratar os casos de não conformidade identificados,
implementando as melhores necessárias até a conclusão. As medidas
corretivas devem ser aquelas que forem definidas por uma política de
consequências, formulada e aprovada pelo conselho de administração
(IBGC, 2017).

Tabela 3 – Abordagem conceitual - conformidade

Abordagem Conceitual Definição Envolve


Prevenção
Cumprir normas e regras
Conformidade Detecção
(internas e externas)
Remediação
Fonte: IBGC, 2017, p. 31.

TEMA 5 – RESPONSABILIZAÇÃO ADMINISTRATIVA DA PESSOA JURÍDICA

O movimento de intensificação de implementação de melhores processos


de governança corporativa e de compliance no Brasil foi impulsionado pela

10
vigência da Lei n. 12.846, de 1º de agosto de 2013, mais conhecida como Lei
Anticorrupção (LAC).
Isso porque essa Lei foi criada a partir de um cenário de identificação de
fraudes corporativas e atos de corrupção em várias empresas que atuavam ou
atuam no país, com o objetivo de responsabilizar as empresas por atos lesivos
à administração pública brasileira ou estrangeira (CGU, 2024).
Desde a sua vigência, a Lei Anticorrupção impactou a gestão das
organizações no estabelecimento de novos padrões éticos e na promoção da
integridade nas práticas empresariais, mostrando-se um importante instrumento
para o combate à corrupção no Brasil ao fomentar a transparência e
responsabilização das empresas por condutas ilícitas praticadas por seus
funcionários contra a Administração Pública (CGU, 2024).
Segundo o parágrafo único do art. 1º dessa Lei, ela se aplicada a qualquer
pessoa jurídica (PJ) que atue no Brasil, como segue:

Às sociedades empresárias e às sociedades simples, personificadas


ou não, independentemente da forma de organização ou modelo
societário adotado, bem como a quaisquer fundações, associações de
entidades ou pessoas, ou sociedades estrangeiras, que tenham sede,
filial ou representação no território brasileiro, constituídas de fato ou de
direito, ainda que temporariamente.

E ela estabelece que as empresas (pessoas jurídicas) serão


responsabilizadas pelos atos lesivos contra a administração pública em seu
interesse ou benefício, sendo exclusivo ou não (art. 2º da Lei n. 12.846).
Além da pessoa jurídica, a responsabilidade também se estende aos
dirigentes ou administradores ou de qualquer pessoa natural, autora, coautora
ou partícipe do ato ilícito, ou seja, tanto a empresa responderá pelo ato ilícito
quanto qualquer pessoa (física) que de alguma forma participe desse ato (art. 3º
da Lei n. 12.846).
O art. 3º da Lei n. 12.846, parágrafo 1º, destaca, ainda, que a empresa (PJ)
será responsabilizada independentemente da responsabilização individual das
pessoas naturais. E quais seriam os atos lesivos considerados por essa
legislação?
O art. 5º dessa lei considera como atos lesivos à administração pública,
nacional ou estrangeira, todos os praticados que atentem contra o patrimônio
público nacional ou estrangeiro, contra princípios da administração pública ou
contra os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, sendo:

11
I - prometer, oferecer ou dar, direta ou indiretamente, vantagem
indevida a agente público, ou a terceira pessoa a ele relacionada;
II - comprovadamente, financiar, custear, patrocinar ou de qualquer
modo subvencionar a prática dos atos ilícitos previstos nesta Lei;
III - comprovadamente, utilizar-se de interposta pessoa física ou
jurídica para ocultar ou dissimular seus reais interesses ou a identidade
dos beneficiários dos atos praticados;
IV - no tocante a licitações e contratos:
a) frustrar ou fraudar, mediante ajuste, combinação ou qualquer outro
expediente, o caráter competitivo de procedimento licitatório público;
b) impedir, perturbar ou fraudar a realização de qualquer ato de
procedimento licitatório público;
c) afastar ou procurar afastar licitante, por meio de fraude ou
oferecimento de vantagem de qualquer tipo;
d) fraudar licitação pública ou contrato dela decorrente;
e) criar, de modo fraudulento ou irregular, pessoa jurídica para
participar de licitação pública ou celebrar contrato administrativo;
f) obter vantagem ou benefício indevido, de modo fraudulento, de
modificações ou prorrogações de contratos celebrados com a
administração pública, sem autorização em lei, no ato convocatório da
licitação pública ou nos respectivos instrumentos contratuais; ou
g) manipular ou fraudar o equilíbrio econômico-financeiro dos contratos
celebrados com a administração pública;
V - dificultar atividade de investigação ou fiscalização de órgãos,
entidades ou agentes públicos, ou intervir em sua atuação, inclusive no
âmbito das agências reguladoras e dos órgãos de fiscalização do
sistema financeiro nacional.

Caso a empresa seja responsabilizada por algum ato lesivo descrito,


sofrerá sanções de multa, no valor de 0,1% (um décimo por cento) a 20% (vinte
por cento) do faturamento bruto do último exercício anterior ao da instauração
do processo administrativo, excluídos os tributos, e que nunca será inferior à
vantagem auferida, quando for possível sua estimação; além de publicação
extraordinária da decisão condenatória (art. 6º da Lei n. 12.846).
Para regulamentar e detalhar a LAC, o Governo Federal emitiu
regulamento sobre a responsabilização administrativa e civil de pessoas
jurídicas por meio do Decreto n. 8.420, de 18 de março de 2015, que foi
substituído pelo Decreto n. 11.129 de 11 de julho de 2022.
No Decreto 11.129/2022, são detalhados todos os parâmetros que são
adotados na condução desse tipo de processo até a emissão da decisão final,
inclusive no que diz respeito à apuração final da multa.
Em seu art. 23, o decreto apresenta algumas possibilidades de redução
do valor final da multa e dentre elas está prevista uma potencial redução de até
5% (cinco por cento) caso a pessoa jurídica consiga comprovar que possuía um
efetivo programa de integridade vigente desde um período anterior à prática do
ato lesivo.
Para fins dessa regulamentação, segundo o art. 56 do Decreto
11.129/2022, é considerado programa de integridade da empresa o conjunto de
12
mecanismos e procedimentos internos de integridade, auditoria e incentivo à
denúncia de irregularidades e na aplicação efetiva de códigos de ética e de
conduta, políticas e diretrizes, com objetivo de:

I. prevenir, detectar e sanar desvios, fraudes, irregularidades e atos ilícitos


praticados contra a administração pública, nacional ou estrangeira;
II. fomentar e manter uma cultura de integridade no ambiente organizacional.

O texto ainda complementa essa definição no parágrafo único do art. 56:

O programa de integridade deve ser estruturado, aplicado e atualizado


de acordo com as características e os riscos atuais das atividades de
cada pessoa jurídica, a qual, por sua vez, deve garantir o constante
aprimoramento e a adaptação do referido programa, visando garantir
sua efetividade.

A regulamentação de uma potencial vantagem da empresa em caso de


responsabilização por ato ilícito levou muitas empresas que até então não
haviam implementado um programa de integridade, ou conformidade ou
compliance, a investirem no estabelecimento e implementação desse tipo de
programa.
E esse movimento segue evoluindo. Segundo pesquisa de Integridade
Corporativa no Brasil em 2022 realizada pela Deloitte, as empresas seguem
investindo na estruturação de sistemas de compliance mais robustos e
estratégicos (Deloitte, 2022).
As principais motivações identificadas nesse estudo para esse
investimento estão relacionadas à adequação das práticas de controles internos,
com uma visão mais de longo prazo, com foco na sustentabilidade do negócio,
imagem e reputação.
Percebe-se, a partir dessas análises e resultados, que as empresas estão
obtendo maior maturidade na compreensão e estruturação das boas práticas de
governança, percebendo que não se trata apenas de seguir as leis e
regulamentações a que o negócio está exposto, trata-se de um trabalho contínuo
de aprimoramento na forma como a empresa se posiciona e atua.
O resultado é que as empresas que adotam as melhores práticas de
governança demonstram atitudes responsáveis do ponto de vista social,
regulamentar e ético que levam a uma melhor reputação e, consequentemente
resultados que de fato levam ao desenvolvimento sustentável.

13
TROCANDO IDEIAS

Nove em cada dez investidores brasileiros (98%) dizem que relatórios


corporativos de sustentabilidade contém informações não
comprovadas, é o que diz a Pesquisa Global com Investidores 2023 da
PwC, multinacional de auditoria e consultoria. No contexto mundial, o
índice de percepção de greenwashing é de 94%. A terceira edição do
estudo entrevistou mais de 340 investidores e analistas para entender
o que afeta o ambiente de empresas investidoras.[...]
O fato de 94% dos investidores entenderem que os relatórios de
sustentabilidade contemplam algum tipo de divulgação não suportada
por ações ou fatos (greenwashing) é um dado muito emblemático e
indica que mudanças são necessárias na forma como as empresas
vêm divulgando as informações de sustentabilidade”, afirma Mauricio
Colombari, sócio da PwC Brasil. (Bastos, 2024)

Considerando o recorte da reportagem publicada pela Exame em


09/01/2024, realize uma pesquisa livre a respeito de fraudes recentes
constatadas em empresas que atuam ou atuaram no Brasil, e verifique quais as
informações tais empresas divulgaram sobre aspectos que estavam
relacionados ao ato corruto e analise se haveria, ou não, uma possibilidade de
identificar a divulgação de dados inconsistentes e de greenwashing antes da
constatação e divulgação das práticas fraudulentas.

NA PRÁTICA

(Questão do Enade 2019): o termo greenwashing, referente à rotulagem


ambiental, ou maquiagem verde, compreende práticas enganosas do marketing
ecologicamente correto, em que se busca relacionar uma marca ou um produto
a ações ambientalmente positivas que não correspondem à prática real.
Disponível em: <[Link] Acesso
em: 29 maio 2024.
A respeito desse tema, assinale a opção correta.

a) O objetivo da prática de rotulagem ambiental é garantir preço diferenciado


ao produto, para aumentar a lucratividade de empresas.
b) A prática de greenwashing não é comum no Brasil, pois a legislação
brasileira a esse respeito é uma das mais modernas do mundo.
c) A diferença de preço entre a maioria dos produtos ditos verdes e os
demais é pouco significativa, sendo a oferta daqueles apenas uma forma
de diversificação de mercado.

14
d) A legislação brasileira não obriga que conste autodeclaração
ecológica nos rótulos dos produtos, embora haja programas de
normalização da rotulagem ambiental.
e) A principal forma de convencer o consumidor por meio do greenwashing
é chamar a atenção a informações ambientalmente relevantes e, assim,
desviar o foco do aumento de preço.

FINALIZANDO

A governança corporativa nas organizações leva a implementação de


uma série de práticas que afetam sua integridade e na relação de
interdependência que possuem com as partes interessadas e na sociedade
como um todo.
A sustentação conceitual trazida pelo IBGC (2017) a respeito da
estruturação da implementação dessas boas práticas foi resumida na tabela
apresentada a seguir.

Tabela 4 – Abordagem conceitual

Abordagem Conceitual Definição Envolve


Propósito
Critérios para julgar, decidir
Valores
(deliberação ética) Cultura
Identidade Princípios
organizacional e atitude
Missão
individual
Visão
Honrar a palavra
(condição necessária, mas não Falar e fazer,
Integridade
suficiente, para o e/ou informar
desempenho)
Prevenção
Cumprir normas e regras
Conformidade Detecção
(internas e externas)
Remediação
Fonte: IBGC, 2017, p. 31.

A observância e o estabelecimento desses aspectos estão servindo como


parâmetro para que o mercado siga melhorando sua percepção na relevância da

15
gestão de um negócio com vistas no longo prazo para obtenção de um efetivo
desenvolvimento sustentável.
Como consequência, esses mecanismos contribuem como os Objetivos
de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da agenda 2030 da ONU por “construir
instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis”,
contribuindo com crescimento sustentável da sociedade como um todo.

16
REFERÊNCIAS

BRASIL. Decreto n. 11.129, de 11 de julho de 2022. Diário Oficial da União, 12


jul. 2022. Disponível em: <[Link]
2022/2022/decreto/[Link]#:~:text=DECRETO%20N%C2%BA%2011.129
%2C%20DE%2011%20DE%20JULHO%20DE%202022&text=Regulamenta%2
0a%20Lei%20n%C2%BA%2012.846,administra%C3%A7%C3%A3o%20p%C3
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_____. Lei n. 12.846, de 1º de agosto de 2013. Diário Oficial da União, 2 ago.


2013. Disponível em: <[Link]
2014/2013/lei/[Link]>. Acesso em: 29 maio 2014.

BASTOS, F. Para 98% dos investidores brasileiros, há greenwashing nos


relatórios de sustentabilidade. Exame, 9 jan. 2024.

IBGC – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. Governança


Corporativa e Integridade Empresarial. 1. ed. São Paulo: Saint Paul
Publishing, 2017.

_____. Código das melhores práticas de governança corporativa. 5. ed. São


Paulo: IBGC, 2015.

_____. Código das melhores práticas de governança corporativa. 6. ed. São


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INTEGRIDADE Corporativa no Brasil 2022 – Evolução do compliance e das boas


práticas empresariais. Deloitte, 2022. Disponível em:
<[Link]
[Link]>. Acesso em: 29 maio 2024.

JENSEN, M. C.; ERHARD, W. Beyond Agency Theory: The Hidden and


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Paper, n. 10-068, Feb. 2010. Disponível em:
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