Há muito, muito tempo, em uma pequena vila cercada pela
floresta, um cavaleiro se despedia dos que amava para
embarcar em uma perigosa missão: encontrar uma princesa
perdida. Seu nome era John Ravenswood. Ele vestia uma
armadura cinza reluzente, complementada por uma capa de
um azul profundo, e em sua bainha carregava uma imponente
espada.
Sir John partia em busca da princesa aprisionada há anos em
um castelo distante. Seu reino havia sido devastado por
dragões; todos os súditos foram brutalmente assassinados.
Muitos cavaleiros já haviam tentado resgatá-la, mas nenhum
retornara. Esta missão suicida lhe fora designada pelo chefe da
vila, e John sabia pouco sobre o que enfrentaria. Com isso em
mente, decidiu se preparar melhor: escondeu pequenas adagas
em vários pontos estratégicos de sua armadura. Embora o
medo estivesse presente em seu coração, ele fez o possível
para não demonstrá-lo. Reuniu toda a coragem que tinha e
partiu.
Dias e noites se passaram, e o cansaço começou a pesar sobre
seus ombros. John mal podia continuar caminhando, e a ideia
de voltar para casa o tentava. No entanto, a vergonha que
traria para sua vila e sua família o impedia. Ele se recusava a
desonrá-los. Assim, mesmo exausto, John seguiu em frente.
O cavaleiro caminhava cabisbaixo pela trilha, quando, de
repente, ouviu um grito que ecoou pela floresta.
"Mas que porra! Caí nessa buceta de novo!"
Curioso, John seguiu o som da voz até se deparar com...
"Um buraco?" — disse, confuso.
Ele se inclinou para ver melhor e avistou uma pequena figura
lá dentro. Suas orelhas pontudas ostentavam dois pares de
brincos em cada lado, e seus cabelos, vermelhos como
chamas, estavam presos por um lenço surrado. A criatura
estava envolta em camadas de roupas sobrepostas, uma sobre
a outra, como se usasse todo o guarda-roupa de uma vez só.
Nas costas, um arco e flechas descansavam, enquanto uma
pequena espada pendida em sua bainha. No cinto, um copo
balançava preso por um fio, e nas costas, ele carregava uma
mochila abarrotada de itens variados, de armas a bugigangas
estranhas e misteriosas. Quando o pequeno ser avistou John,
gritou irritado:
"Ei, vai ficar me encarando aí de cima? Dá uma ajuda e me
tira dessa porra de buraco!"
Com um suspiro, John desceu no buraco — que nem era tão
fundo — e ajudou o anão a sair. Quando ambos estavam de pé
novamente, o cavaleiro observou a criatura se limpando e
resmungando baixinho.
"Você está bem, cara?" — perguntou John.
O anão resmungou algo mais uma vez, mas dessa vez John
conseguiu entender o que ele dizia.
Puta que me pariu, é a terceira vez que eu caio nesse buraco de
merda! Vai se fuder! Por que eu tenho que ser do tamanho de
uma fada?" — gritou o anão, visivelmente irritado.
John soltou uma risada.
"Ah, valeu cara, de verdade. Mas você não é daqui, né?" —
perguntou o anão, levantando-se com a ajuda do cavaleiro.
"Não, não sou. Na verdade, estou procurando uma princesa,
mas... eu não faço ideia de como ela é. Só sei que tem um
dragão mantendo ela presa."
“O quê? Você está atrás da Princesa Emberlyn?!” —
exclamou o anão, animado de repente. “Eu conheço o caminho
para o castelo dela! Tenho um mapa aqui em algum lugar!”
O anão começou a revirar sua mochila, e logo puxou um mapa
desgastado, cheio de anotações e rabiscos. John olhou o mapa,
um tanto impressionado.
"Meu nome é Liora R edanvil, aliás," disse o anão, estendendo
a mão pequena mas firme.
"John," respondeu o cavaleiro, apertando a mão do anão.
“Precisa de um companheiro nessa jornada?” perguntou Liora,
um sorriso malicioso se formando em seu rosto.
John hesitou por um momento. Ter alguém ao lado poderia ser
tanto uma bênção quanto uma maldição, mas havia algo
naquele anão que o fazia se sentir à vontade, como se tivesse
encontrado um amigo em meio ao caos. “Sim, venha. Acho
que precisarei de toda a ajuda possível.”
Os dias passaram e John e Liora logo perceberam que tinham
muito em comum. Rapidamente, se tornaram grandes amigos.
Liora com sua energia inquieta e piadas mordazes, e John,
mais reservado, mas começando a gostar da companhia. Em
um ponto da jornada, Liora gritou, correndo em direção a uma
árvore coberta de cogumelos.
"John! Olha isso, cogumelos! Esses aqui são especiais, cara,
confia em mim."
John observou os cogumelos com cautela. “Não parece uma
boa ideia.”
Liora riu, tirando um cogumelo do tronco. “Você está
perdendo a melhor parte da vida. Esses pequenos caras aqui...
te dão visões!” E antes que John pudesse protestar, Liora
enfiou um na boca e o mastigou alegremente.
Relutante, mas curioso, John pegou um cogumelo e o colocou
na boca. O efeito foi quase instantâneo. Sua visão começou a
distorcer, as árvores ao seu redor pareciam se mover como se
estivessem dançando, e sua mente começou a flutuar em
pensamentos absurdos. Uma risada incontrolável brotou de
dentro dele.
"O-o que é i-i-isso? Eu estou..."
"Sim, você está chapado! Hahaha!" — riu Liora, já comendo
um cogumelo.
O anão sentou-se ao lado de John, e os dois começaram a rir
juntos, esquecendo por um momento da missão perigosa que
os aguardava.
"CarA, ISsO É Do cAraLHO HahAhAHa!" — disse John,
ainda sob o efeito dos cogumelos.
Eles continuaram a conversar sobre qualquer coisa que vinha à
mente, rindo de absolutamente nada. Quando o efeito
diminuía, comiam mais cogumelos, repetidamente.
"CaAra, e uma veZ minHa tIa me deu uma bebida gelaaada, aí
eu disse: 'iSsO é IcE TEa?' HahAhA!" — Liora caiu na
gargalhada, incapaz de se conter.
"HahAahAaHa!"
"haHAaHAaHa!"
Depois de uma tarde inteira chapados, ambos acabaram caindo
no sono. Na manhã seguinte, ainda atordoados, jogaram um
pouco de água no rosto e retomaram sua jornada em busca da
princesa.
"Caramba, minha cabeça tá girando... acho que não foi uma
boa ideia comer aqueles cogumelos," disse John, sentindo-se
enjoado.
"Foi mal, mano," —Liora respondeu cabisbaixo. — "Eu me
empolguei... você é meu primeiro amigo, e eu só queria
parecer legal. Desculpa."
"Relaxa, cara, está tudo bem. Eu me diverti," — John tocou o
ombro de Liora e sorriu.
Ela retribuiu o sorriso, abraçando John com força. Foi o
abraço mais sincero que o cavaleiro já tinha recebido, e ele
percebeu o quanto Liora já significava para ele, apesar do
pouco tempo que passaram juntos.
Enquanto ainda se abraçavam, uma voz distante cortou o
momento.
"AAAAH, VO-CÊ ME TIRA DO SÉRIO, IDRIL L !"
"QUÊ?! VOCÊ QUE ME TIRA DO SÉRIO! E O THALION
NEM SE FALA, É TÃO IRRITANTE!"
"IRRITANTE É VOCÊ, A L A IN! NÃO FALA MAIS
COMIGO!"
"HAHAHA, SERÁ UM PRAZER!"
John e Liora se entreolharam, confusos, e se esconderam em
um arbusto para ver quem estava brigando. Liora foi o
primeiro a espiar, ficando perplexo. John, logo ao lado,
sussurrou:
"Aquilo... é uma pessoa brigando consigo mesma?!"
"É... parece que sim..." —Liora respondeu, incrédula.
Diante deles estava uma figura alta, de pele verde, com
orelhas pontudas e um pequeno brinco em uma delas. Suas
sobrancelhas grossas eram interrompidas por um piercing. O
cabelo, curto e negro como a noite, combinava com os olhos
profundos e sombrios. Ele vestia uma blusa simples coberta
por um longo sobretudo preto, e John pôde perceber, espiando
pelo interior, que pequenos frascos de poções e plantas
estavam cuidadosamente guardados. A bela criatura, no
entanto, parecia estar em um acalorado debate... consigo
mesmo.
"Eu sabia que os elfos tinham uns parafusos a menos, mas esse
aí tá completamente surtado!" —Liora apontou.
Enquanto tentavam sair de fininho, John pisou em um galho,
fazendo barulho. A criatura, irritada, se virou para eles.
"QUEM ESTÁ AÍ?" — gritou, avançando em direção ao
arbusto.
Quando se aproximou, encontrou John e Liora.
"Quem são vocês?" — perguntou, franzindo o cenho.
"Ah! Desculpa, nós estávamos só... passando por aqui e
acabamos te encontrando," — John respondeu, hesitante, sem
saber se deveria mencionar que a criatura estava falando
sozinha. Mas, sem pensar duas vezes, Liora soltou:
"Mano, você estava falando sozinho. É esquizofrênico ou o
quê?"
A criatura ficou claramente envergonhada. Percebendo o que
havia dito, Liora tentou mudar de assunto.
"Ah, estamos indo em busca da princesa Celestine
Emberlyn," — disse Liora, mostrando o mapa.
O elfo olhou o mapa e disse que conhecia um atalho para o
castelo. John e Liora, exaustos de tanto andar, imploraram
para que ele os guiasse.
"Hm... não sei..." — hesitou o elfo.
E, então, começou de novo.
"Ah, Idrill! Para de ser chato, custa ajudar o anão e o guri?"
"Eles nos chamaram de esquizofrênico!"
"O Thalion tem razão, vamos ajudar eles, pô!"
"C A L A A B O C A, A L A IN, S E U L I X O!"
"C A L E M A B O C A! Vamos ajudar eles e ponto final!"
Enquanto o elfo brigava consigo mesmo, John e Liora
tentaram sair de fininho, mas foram interrompidos.
"Ei, pra onde vocês acham que estão indo?" — perguntou o
elfo, já voltando à realidade.
"Ah... não queremos incomodar, sabe... haha..." — Liora
tentou disfarçar.
"Relaxa! Não é incômodo algum. Vamos, eu levo vocês!" —
disse o elfo, assumindo a liderança.
Assim, John, Liora e o elfo excêntrico seguiram em busca da
princesa. No meio do caminho, Liora não resistiu e perguntou:
"Desculpa perguntar, mas... você tem dupla personalidade ou
algo assim?"
O elfo suspirou. "Um feiticeiro lançou uma maldição em mim
e nos meus irmãos, Thalion e Idrill. Brigávamos tanto que um
dia ele disse que éramos insuportáveis e nos fundiu em um só
corpo."
"Ué, mas o que o cu tem a ver com as calças?" —John
perguntou, confuso.
"Sei lá," — o elfo respondeu. — "Simplesmente nos prendeu
juntos e desapareceu."
"E vocês nunca tentaram encontrá-lo?" — perguntou John.
"Nossos pais tentaram, mas nunca voltaram. Nós éramos
apenas crianças..."
O silêncio tomou conta do grupo enquanto seguiam em
direção a uma gigantesca caverna em forma de caveira. Ao se
aproximarem, Alain foi na frente em direção à entrada, mas
John e Liora hesitaram, sentindo um arrepio de medo
percorrer suas espinhas.
Vamos, assim que atravessarmos a caverna, chegaremos ao
castelo!” — disse o elfo, com uma confiança sombria.
Entraram na caverna. Era escura e úmida, com o ar denso e
pesado, como se o próprio lugar estivesse vivo e respirando ao
redor deles. Estranhos sons de algo rastejando ecoavam ao
longe, mas a escuridão era impenetrável, tornando impossível
saber de onde vinham.
De repente, uma luz começou a brilhar à frente. Uma figura
alta apareceu, com longos cabelos pretos usando uma máscara
metade preta e branca que cobria todo o seu rosto. Vestia
roupas tão escuras quando os olhos de Alain, ele segurava um
livro em uma mão, e na outra emanava uma luz estranha e
espectral.
"Quem são vocês?" — perguntou o homem misterioso, sua
voz ecoando pelas paredes da caverna.
Alain ficou paralisado, sua expressão congelada. Liora, sendo
pequeno demais para alcançar seus braços, começou a cutucar
sua perna, tentando chamá-lo à realidade. A expressão de
Alain mudou de neutra para uma raiva intensa; suas
sobrancelhas se franziram, e seus grandes caninos brilharam
sob a luz enquanto ele cerrava os punhos, preparando-se para
atacar.
"VOCÊ!" — gritou ele, avançando com fúria sobre o homem.
Alain estava possuído pela raiva, seus olhos brilhando num
vermelho intenso, como o fogo no cabelo de Liora. Não era
mais Alain quem controlava o corpo; era Idrill. Durante a
caminhada, Alain havia explicado sobre seus irmãos. Idrill, o
mais velho, era o mais forte e o mais temperamental,
conhecido por sua habilidade na ferraria. Alain, o do meio, era
mais reservado, com sua paixão por plantas e livros. Thalion,
o caçula, era o mais doce e gentil, incapaz de machucar uma
alma sequer.
Foi então que John percebeu: a cor dos olhos do elfo mudava
de acordo com o irmão que o controlava. Os olhos de Idrill
eram vermelho-sangue, enquanto os de Alain eram pretos
como a escuridão mais profunda, e os de Thalion, amarelos
como o sol. Agora, John tinha certeza de que Idrill havia
tomado o controle.
"POR QUE VOCÊ FEZ ISSO? ÉRAMOS CRIANÇAS!
VOCÊ NOS AMALDIÇOOU E MATOU NOSSOS PAIS!
EU VOU TE FAZER PAGAR, GOTAS DE SANGUE POR
GOTAS DE SANGUE!" —Idrill rugiu, lançando-se contra o
estranho.
"O que... do que você está falando? Eu nem te conheço!" —
exclamou o homem, claramente confuso.
Mas antes que pudesse reagir, algo invisível agarrou os pés de
Idrill, derrubando-o no chão. O homem balançou seu cajado e,
como por mágica, cordas surgiram, prendendo Idrill
firmemente. Seus olhos mudaram de vermelho para amarelo, e
Thalion emergiu, soluçando em meio às lágrimas.
"Por que... por que você fez isso? Por que machucou a mamãe
e o papai? POR QUE NOS APRISIONOU NO MESMO
CORPO?" — o tom de Thalion era carregado de dor e
confusão.
O homem, atordoado, balançou a cabeça em negação. "Eu...
aprisionar vocês? Eu não conheço vocês! Estou preso nesta
caverna há décadas. Meu próprio pai me abandonou aqui para
morrer... Eu não poderia ter lançado esse feitiço em vocês."
A tensão diminuiu à medida que todos começaram a se
acalmar. O feiticeiro desamarrou Idrill e começou a explicar.
Ele contou sua história: Seu nome era Felpos. Seu pai,
também um feiticeiro, havia se voltado para as trevas,
enquanto ele, o filho, escolheu outro caminho. Por conta disso,
foi aprisionado naquela caverna por mais de vinte anos,
forçado a permanecer lá para conter algo terrível que vivia nas
profundezas.
"Mas o que é esse 'algo'? E por que ainda estamos aqui?" —
perguntou Liora, intrigado.
"Venham, vou levá-los até a saída," — disse o Felpos,
desviando da pergunta.
Após uma longa caminhada pelos corredores da caverna,
finalmente chegaram à saída. Mas antes que pudessem sair, o
feiticeiro segurou o braço de Adrian.
"Ei, eu consigo desfazer o feitiço que meu pai lançou em
vocês."
O feiticeiro abriu um velho grimório, murmurando palavras
em uma língua esquecida enquanto seus dedos faziam gestos
complexos no ar.
"Alex da o bumbum"
De repente, um feixe de luz brilhante saiu de sua mão,
atingindo o peito de Alain com força, derrubando-o
inconsciente no chão. Um clarão imenso iluminou a caverna,
cegando John e Lior por alguns instantes.
Quando a luz finalmente se dissipou e seus olhos se ajustaram,
eles viram algo surpreendente. Alain havia se dividido em
dois! Pela primeira vez, eles viram um dos irmãos separado do
corpo compartilhado.
Thalion se erguia diante deles. Era alto, com longos cabelos
loiros que caíam em cascata por seus ombros. Sua pele era
ainda mais pálida que a de Alain, brincos de prata brilhavam
em suas orelhas. Seus olhos, dourados como ouro derretido,
brilhavam com uma intensidade inquietante. A aparência de
Thalion era angelical.
A maldição, ao que parecia, começava a ser quebrada...
Thailon levantou-se meio tonto, sentindo a cabeça girar e o
corpo pesado. Ao seu lado, seu irmão Alain estava
desacordado, completamente imóvel. O pânico tomou conta de
Thailon, e ele começou a chamar por Alain, sacudindo seu
corpo com desespero. Nenhuma resposta.
“Por que ele não está acordando? E o que aconteceu com
Idrill? Por que só eu fui libertado?” – A voz do elfo estava
cheia de medo.
Atrás dele, Felpos, o misterioso mago, observava com um
olhar calmo e paternal. Segurando seu velho livro de feitiços,
ele inspirava uma estranha confiança.
” Thailon, meus poderes estão enfraquecidos dentro desta
caverna” – começou o feiticeiro em um tom suave, quase
consolador. – “Para que eu possa restaurá-los e ajudar seus
irmãos, precisarei de um cogumelo mágico, que cresce apenas
nas profundezas mais escuras de Chapadolândia.”
"Eu posso ir!" — disse John, tentando mostrar bravura. "Eu e
Liora podemos buscar o cogumelo."
"Podemos?" — Liora trocou um olhar preocupado com John,
sem muita certeza, mas sem alternativa.
Felpos sorriu gentilmente e retirou um pedaço de papel
amassado de dentro de seu manto, desenhado com a imagem
grotesca de um cogumelo.
"Aqui está o que precisam encontrar. Tragam-no de volta, e eu
prometo que poderemos salvar seus irmãos."
John e Liora partiram, confiantes na promessa de Felpos,
enquanto Thailon ficou na caverna, ao lado de Alain e na
presença do mago.
Enquanto isso, Felpos começou a desenhar estranhos símbolos
nas paredes e no chão da caverna. Sua expressão, antes afável,
tornou-se concentrada e sombria, mas ainda mantendo uma
aura de serenidade.
"O que você está fazendo?" — perguntou Thailon, preocupado
com os símbolos incomuns.
Felpos parou e voltou-se para ele, sorrindo com uma ternura
perturbadora.
"Esses símbolos irão preparar o feitiço de cura. Mas, para que
ele funcione, precisarei de algo mais... algo que só você pode
me dar."
"O quê?" — Thailon perguntou, o receio crescendo em seu
peito.
Felpos aproximou-se lentamente, seu olhar firme, mas gentil.
"Precisarei do seu sangue, Thailon. O ritual exige uma troca, e
seu sangue é especial. Ele contém o poder necessário para
salvar seus irmãos. Sem ele, eles... morrerão."
Thailon hesitou, sentindo o pânico aumentar. Felpos,
percebendo sua dúvida, inclinou-se e colocou uma mão
tranquilizadora sobre seu ombro.
"Ouça-me bem, Thailon" — disse o feiticeiro, com sua voz
agora mais suave, porém com um tom grave e urgente. "Se
você não fizer isso, Alain e Idrill não sobreviverão. Você os
verá morrer. E então ficará sozinho. Sem família, sem
ninguém."
O elfo sentiu o peso das palavras de Felpos apertar seu
coração. As lágrimas ameaçavam brotar, mas ele as conteve.
A ideia de perder seus irmãos era insuportável. E o
pensamento de ficar completamente sozinho, para sempre, era
ainda pior.
"Não quero que eles morram..." — murmurou Thailon, sua
voz quebrada pela angústia.
Felpos sorriu ternamente, como um pai acolhendo seu filho.
"Eu sei. E não permitiremos que isso aconteça, não é? Apenas
um pouco de sangue, e tudo ficará bem."
Com a alma pesada e sem alternativas, Thailon estendeu o
braço. Felpos, com um olhar quase reverente, pegou uma
pequena pedra afiada e cortou o braço do elfo. O sangue
começou a escorrer lentamente, pingando sobre os símbolos
que Felpos havia desenhado.
Thailon grunhiu de dor, mas não se afastou. Ele apertou o
corte, tentando controlar o fluxo de sangue.
"Aah... Pensei que fosse apenas uma gota..." — disse Thailon,
tentando suportar a dor.
"Seu sangue é a chave, Thailon" — disse Felpos, a voz
novamente doce e tranquilizadora. "É o sacrifício que salvará
seus irmãos. E você não quer que eles morram, certo?"
À medida que o sangue de Thailon tocava os símbolos, as
paredes da caverna começaram a vibrar, como se estivessem
ganhando vida. Por um breve momento, algo dentro da
caverna reagiu ao sangue, mas logo parou. Felpos franziu a
testa, irritado.
"Precisamos de mais..." — ele disse com um tom mais
sombrio. Seus olhos, antes gentis, agora estavam cheios de
uma fome perigosa.
Thailon tentou se afastar, mas antes que pudesse se mover,
algo agarrou sua perna. As mesmas cordas viscosas que
haviam prendido Idrill envolveram-se ao redor de Thailon,
prendendo-o no lugar.
"Vamos lá, Thailon" — disse Felpos, sua voz suave agora
carregada de malícia. "Um pouco mais de sangue, e você
poderá salvá-los. Ou... eles morrerão. E a culpa será sua. Você
não quer ser o responsável, quer?"
Thailon, com o coração acelerado e sem ver outra saída,
estendeu o braço novamente, sentindo o pânico tomar conta.
Felpos, agora com um sorriso sinistro, cravou a pedra
pontiaguda de forma mais profunda na ferida, fazendo o
sangue jorrar em abundância.
Por trás de sua máscara de bondade, o verdadeiro Felpos se
revelava. Seus olhos brilhavam com malícia enquanto lambia
o sangue que escorria em seu rosto. O que Thailon não sabia
era que na verdade, Felpos se chamava Sylas Darkbane, e ele
não queria salvar seus irmãos. Na verdade, Felpos planejava
matá-los e usá-los como sacrifícios para escapar da caverna e
recuperar seus poderes completos. Ele não era um salvador.
Era um assassino, um feiticeiro das trevas, que havia matado
seus próprios pais e carregava em seus braços os olhos de suas
incontáveis vítimas, ocultos sob suas vestes.
Thailon, ainda inocente e ignorante da verdadeira natureza de
Felpos, começou a perder a consciência, sua visão
escurecendo. Ele acreditava que estava fazendo o sacrifício
necessário para salvar sua família. Mal sabia ele que estava
sendo manipulado por um psicopata que via nele apenas uma
ferramenta para sua libertação.
Felpos, com o rosto manchado de sangue e um sorriso cruel,
observava Thailon desmaiar, sabendo que seu plano estava
prestes a se concretizar."
Enquanto John e Liora atravessavam a floresta dos cogumelos,
em direção à parte mais sombria, Liora de repente sentiu algo
espetar seu pé. Ao olhar para baixo, viu uma pequena criatura
em forma de cogumelo, brandindo uma minúscula lança, que
ele cravava teimosamente em sua bota. O anão nunca havia se
aventurado tão fundo naquela floresta, e aquelas pequenas
criaturas eram completamente desconhecidas para ele. Quanto
mais John e Liora avançavam, mais desses seres surgiam ao
seu redor: desde minúsculos soldados cogumelos até adoráveis
cogumelinhos curiosos. Ficava claro que eles não queriam que
os dois amigos continuassem sua jornada.
John e Liora avançavam mais, as sombras se tornavam cada
vez mais densas, e a atmosfera parecia pesar sobre seus
ombros. O som abafado de passos sobre a vegetação úmida e
os murmúrios do vento entre as árvores criavam um ambiente
de crescente tensão.
As pequenas criaturas cogumelo, que antes apenas
observavam a dupla com curiosidade, agora começaram a agir
de maneira diferente. Os mini soldados com suas lanças de
graveto corriam à frente de John e Liora, tentando bloqueá-los
com suas armas minúsculas, mas determinadas. Criaturinhas
um pouco maiores, com cabeças de cogumelo marrom com
folhinhas no topo, surgiam dos arbustos, acenando
freneticamente, como se quisessem alertá-los sobre algo. Os
mais fofos, com seus pequenos chapeuzinhos, espreitavam
timidamente entre as raízes das árvores, os olhos cheios de
uma preocupação quase infantil.
"Algo está errado..." murmurou Liora, notando a agitação das
criaturas. "Eles estão tentando nos avisar de alguma coisa."
John assentiu, mas manteve o foco em sua missão.
"Precisamos encontrar aquele cogumelo. Não podemos voltar
de mãos vazias."
Mas enquanto eles seguiam em frente, as pequenas criaturas se
tornavam cada vez mais desesperadas. Um dos cogumelos
com cabeça marrom e folhas no topo deu um passo adiante,
agitando os braços como se estivesse tentando desenhar no ar
o perigo que os aguardava. De repente, ele soltou um grito
agudo, um som estranho, quase como o lamento de uma
criatura natural, e todos os outros ecoaram esse grito. Os
pequenos cogumelos com chapeuzinhos começaram a recuar,
escondendo-se, enquanto os minis soldados corriam para se
armar com gravetos maiores.
Então, veio o silêncio.
John e Liora pararam, sentindo o ar ao redor deles ficar
gelado. Das sombras à frente, surgiu uma presença
aterrorizante. Era o monstro.
O silêncio da floresta de cogumelos foi interrompido pelo som
pesado dos passos do monstro que se aproximava. O chão
vibrava sob os pés de John e Liora, e o cheiro pútrido de
decomposição e mofo preenchia o ar. Liora, com sua mochila
pesada cheia de armas e bugigangas, sentia o peso em suas
costas torná-la mais lenta do que gostaria. Mas ela não
recuaria, não importava o quão terrível fosse o inimigo à
frente.
"Prepare-se!" gritou John, levantando sua espada imponente
enquanto Liora já puxava seu arco, armando uma flecha
grossa e firme.
Das sombras densas da floresta, a criatura emergiu, uma
aberração grotesca que parecia ter nascido do pesadelo mais
profundo. Sua figura imensa era curvada e retorcida, com
quase três vezes a altura de John. A pele, esverdeada e coberta
de manchas escuras, estava parcialmente envolta em
cogumelos enormes que brotavam de seu corpo como
parasitas, criando um contraste perturbador entre a carne viva
e a vegetação fúngica.
Seus sete olhos, distribuídos de forma caótica pelo seu rosto,
brilhavam com uma malícia cruel, cada um focado em um
alvo diferente. John segurou sua espada com firmeza, seu
olhar fixo na criatura, mas havia uma hesitação em seus
movimentos – ele sentia o quão perigoso aquele ser era.
As pequenas criaturas cogumelo, vendo que os dois amigos
estavam determinados a enfrentar o monstro, começaram a se
unir, formando pequenas barricadas e até jogando pequenos
objetos na direção da criatura, numa tentativa inútil, mas
corajosa, de ajudar.
O monstro avançou com uma velocidade surpreendente, e a
batalha começou. John e Liora sabiam que, para sobreviver,
precisariam lutar como nunca antes. As pequenas criaturas
cogumelo, embora frágeis, se recusavam a abandonar os dois
aventureiros, mostrando que até mesmo os menores seres
podem ter grande coragem diante do mal.
O monstro não deu tempo para pensar. Um de seus tentáculos
maiores se lançou na direção de Liora, mas o anão rolou para
o lado com dificuldade, largou sua mochila e atirou sua flecha
no meio do movimento. A seta cortou o ar e se cravou fundo
no ombro do monstro, liberando uma poça de lodo que
escorria como sangue negro. A criatura soltou um grito
horrível, uma mistura de raiva e dor, mas aquilo apenas
pareceu enfurecê-la mais.
John aproveitou a distração para avançar, a espada erguida.
Ele desferiu um golpe poderoso contra uma das costelas
expostas da criatura, partindo a carne podre e quebrando ossos
com o impacto. Mas, assim que sua lâmina encontrou a
resistência, pequenos tentáculos se lançaram das costelas
abertas e se enrolaram ao redor da espada, puxando John para
mais perto da criatura.
Antes que qualquer um deles pudesse reagir, suas garras
dispararam em direção a John com a velocidade de um
relâmpago, ela atravessou sua armadura com força brutal,
perfurando suas costelas. John gritou de dor, seu corpo
curvando-se involuntariamente o sangue começando a escorrer
pela borda da armadura enquanto as garras do monstro o
mantinham suspenso no ar.
"John!" gritou Liora, o pânico tomando conta de sua voz. Ela
tentou se mover mais rápido, mas suas roupas pesadas a
impediam. Ela agarrou uma de suas flechas maiores, uma
especialmente pontiaguda, e a disparou com precisão no braço
que segurava John.
A flecha se cravou profundamente no braço, fazendo o
monstro soltar um rugido que sacudiu as árvores ao redor. O
tentáculo recuou, largando John no chão com um baque surdo.
Ele caiu de lado, gemendo de dor, sua mão pressionando a
ferida em sua costela enquanto o sangue escorria entre seus
dedos.
Liora correu até ele, seus olhos arregalados de medo. “Não,
não, não... você não pode morrer,” ela murmurou, as lágrimas
começando a brotar em seus olhos. “Aguenta firme, John. Só
mais um pouco.”
Foi então que as pequenas criaturas cogumelo, que estavam
ajudando na batalha de longe, se aproximaram. Os minis
soldados, as criaturas de cabeça marrom e os cogumelinhos
fofos começaram a se mexer freneticamente. Alguns deles
traziam pequenas plantas e frascos feitos de cascas de frutas.
Com cuidado, começaram a aplicar os remédios na ferida de
John, suas pequenas mãos trabalhando com precisão enquanto
Liora observava, chorando silenciosamente.
Mas o monstro não estava pronto para deixar seu trabalho
inacabado. Seus tentáculos se contorceram no ar, prontos para
atacar novamente. Liora, endurecida pela batalha, sabia que
precisava acabar com aquilo rápido. Ela limpou as lágrimas
com raiva, foi até sua mochila e puxou uma das bugigangas –
uma pequena esfera metálica que ela tinha preparado para
situações desesperadoras.
"Vamos ver o que você acha disso, desgraçado," rosnou Liora.
Ela arremessou a esfera para o alto, e no momento em que ela
tocou o chão perto do monstro, explodiu em uma onda de fogo
e estilhaços. A explosão atingiu diretamente os tentáculos do
monstro, arrancando alguns e queimando os outros. A criatura
soltou um uivo estridente, seus olhos piscando em agonia
enquanto tentava se afastar da explosão.
Com um movimento rápido, Liora sacou sua espada curta e
correu em direção ao monstro, seu corpo dolorido sob o peso
das roupas, mas sua determinação inabalável. Ela saltou sobre
um dos tentáculos caídos e cravou a espada com toda a sua
força na carne exposta da criatura, bem no centro do peito,
onde os cogumelos brotavam de sua pele. O monstro se
contorceu, seus tentáculos chicoteando o ar
descontroladamente, mas Liora segurou firme, empurrando a
lâmina ainda mais fundo até que a criatura deu um último
suspiro agonizante e caiu no chão, morto. A lâmina rasgou o
abdômen do monstro, abrindo-o de cima a baixo. Seus órgãos
internos, misturados com lodo e pedaços de cogumelos,
caíram no chão da floresta em uma poça de sangue espesso e
negro.
Liora rolou de cima da carcaça, seu peito arfando de exaustão.
Mas ela não podia descansar. John estava ferido, gravemente.
Ela correu até ele, as lágrimas finalmente escorrendo
livremente por seu rosto.
"John... por favor, aguenta firme..." ela sussurrou.
As criaturas cogumelo continuaram trabalhando, e lentamente,
o sangue de John começou a parar de escorrer, sua respiração
tornando-se mais regular.
John abriu os olhos com dificuldade, um sorriso fraco nos
lábios. "Você... você fez isso, Liora... sempre tão teimosa..."
ele murmurou, sua voz fraca, mas cheia de afeto.
Liora riu entre lágrimas. "Cale a boca e descanse, idiota," ela
respondeu, sua voz quebrada. "Eu não vou deixar você morrer,
nem que eu tenha que lutar contra todos os monstros dessa
maldita floresta." Liora, aliviada, segurou a mão de John com
força, temendo soltá-la.
Por mais endurecida que fosse, Liora nunca havia sentido
tanto medo quanto naquele momento. Ela não podia perder
John – ele era tudo o que ela tinha.
Finalmente, a floresta voltava a ser silenciosa.
“Vamos, precisamos buscar o cogumelo para o mago” – John
tenta levantar-se, mas cai novamente morrendo de dor.
“Não, você tem que ficar, eu vou sozinha” – Liora vai em
direção a sua mochila, da um beijo na testa de John e vai em
busca do cogumelo.
“Espere! Leve o desenho que Felpos deu para nós pelo
menos.” – John acaba deixando o papel cair no chão, as
criaturinhas veem o desenho e tentam {...}