Aula 3 - Doença Arterial Crônica
● Visão Geral da DAC:
○ Aterosclerose: Processo fundamental subjacente à DAC.
○ DAC Estável (Crônica): Angina previsível e controlada.
○ Síndromes Coronarianas Agudas (SCA):
■ SCA sem Supradesnível do Segmento ST (IAMSSST): Angina Instável, IAM sem Supra.
■ SCA com Supradesnível do Segmento ST (IAMCSST): Oclusão total da coronária.
Aterosclerose:
● Conceito Básico:
○ Doença inflamatória crônica das artérias de médio e grande calibre.
○ Formação de placas que limitam o fluxo sanguíneo.
○ Inicia-se precocemente na vida, progredindo de forma insidiosa
○ Risco da formação de placa depende do nível de LDL e do tempo de exposição ao LDL
● Metabolismo Lipídico:
○ Importância: Metabolismo de Quilomícrons, LDL e HDL.
○ Dislipidemia: ↑LDL e ↑TG contribuem para a aterosclerose, ↓HDL são FR para a DAC.
● Fisiopatogenia Detalhada:
○ Disfunção Endotelial: Permeabilidade da parede arterial, menor produção de Óxido Nítrico.
○ Acúmulo Lipídico: Infiltração de LDL, formação de LDL oxidada.
○ Resposta Inflamatória: Macrófagos se transformam em células espumosas após fagocitar LDLox
● Evolução da Placa Aterosclerótica:
○ Estrias Gordurosas: Início com acúmulo lipídico subendotelial.
○ Placa Fibrosa: Capa fibrosa formada por células musculares lisas e matriz extracelular..
○ Placa Complexa: Núcleo necrótico, calcificação, capa fina → predispõe à ruptura.
○ Ruptura/Infarto: A ruptura expõe o núcleo lipídico que desencadeia a ativação plaquetária e a
cascata de coagulação: formando o trombo, que pode obstruir a artéria coronária levando ao IAM.
● Tipos de Placa:
○ Estável: Predomínio de colágeno, capa espessa, pouca inflamação.
○ Instável: Predomínio lipídico, capa fina, alta atividade inflamatória, núcleo necrótico grande.
● Fatores de Risco CV:
○ Não Modificáveis: Idade, sexo masculino, histórico familiar precoce (M<65 e H< 55).
○ Modificáveis: Hipertensão, dislipidemia, diabetes, tabagismo, obesidade, sedentarismo.
● Avaliação Laboratorial:
○ Perfil Lipídico: Colesterol Total, LDL-C, HDL-C, Triglicerídeos.
○ Jejum: Não obrigatório para dosagem, mas facilita a comparação em exames seriados.
Estratificação de Risco Cardiovascular
● Objetivo: Identificar pacientes com maior risco de eventos cardiovasculares para direcionar o tratamento.
● Adultos entre 30 e 75 anos e ou fatores de riscos importantes (SBC).
● Ferramentas:
○ Escore de Framingham: Avaliação de risco absoluto de DCV e AVC em 10 anos
■ Idade, sexo, colesterol, HDL, pressão arterial, DM, TBG).
○ Calculadora de Risco CV - SBC 2020: Risco de DAC, AVC, IC, DAP em 10 anos.
■ Mais utilizado na prática.
Tratamento
● Não medicamentoso: MEV + atividade física + dieta (trocar g. saturada por insaturada)
● Medicamentoso: estatinas, ezetimibe (intolerantes à estatina), ácido bempedoico.
○ Estatinas: inibe a HMG-Coa redutase = ↓ LDL
■ ↓ TG ↑ HDL. Redução da inflamação e trombogenicidade. Aumenta o colágeno da placa.
■ Não existe um valor mínimo de LDL: ↓ LDL = ↓ Risco CV / mortalidade CV
■ “Estatina alta potência” = capaz de reduzir o LDL em > 50%
● Atorvastatina, rosuvastatina, sinvastatina+ezetimiba
Doença Coronariana Estável (DAC)
● Definição: Manifestação de quadro clínico no qual o suprimento de sangue para o músculo cardíaco está
bloqueado parcial ou completamente, não estando no espectro de síndromes coronarianas agudas.
○ Desequilíbrio transitório e reversível entre oferta e demanda de oxigênio ao miocárdio.
○ Paciente com placas estáveis. Sintomas com obstruções > 70%.
● Fisiopatogenia
○ Obstrução Coronariana Fixa
○ Redução da reserva coronariana
○ Espasmo Coronariano: vasoconstrição em segmentos doentes
○ Disfunção Microvascular
● Quem são os pacientes com DAC crônica?
○ Histórico de Síndrome Coronariana Aguda prévia
○ Revascularização Coronária prévia
○ Miocardiopatia Isquêmica
○ Sintomas de Angina Estável
○ Pacientes com doença aterosclerótica coronária ou isquemia miocárdica detectada em exames.
● Apresentação Clínica:
○ Dor Torácica Anginosa Típica:
■ Aperto, peso ou pressão retroesternal.
■ Desencadeada por esforço, emoção ou estresse.
■ Aliviada pelo repouso ou nitratos.
○ Classificação da Angina (CCS): I a IV (nível de limitação funcional).
● Fisiopatologia da DAC crônica
○ Angina = Desbalanço entre oferta e demanda de O2 no miocárdio
○ Fatores que aumentam a demanda: taquicardia, estresse
emocional, atividade física, atividade sexual, HAS não controlada,
tireotoxicose, exposição ao frio
○ Fatores que reduzem a oferta: graus avançados de obstrução
coronariana, aumento dos vasoconstritores, redução dos
vasodilatadores (NO).
● Apresentação Clínica da Angina Estável (3 pontos)
○ Característica / localização: Desconforto retroesternal em aperto, peso ou pressão.
■ Irradiação para membro superior esquerdo, mandíbula ou dorso.
■ Duração típica de 5 a 10 minutos.
○ Fatores Agravantes: Precipitada por esforço físico ou estresse emocional.
■ Relação direta com aumento da demanda miocárdica de oxigênio.
■ Piora com frio, refeições copiosas ou esforço.
○ Fatores Atenuantes: Resolução rápida com interrupção do esforço.
■ Resposta característica à nitrato sublingual.
■ Alívio típico de 1 a 5 minutos após administração.
■
● Diagnóstico da DAC Estável
○ Avaliação Clínica: Anamnese e exame físico.
○ Avaliação da probabilidade pré-teste.
○ ECG de Repouso: Identificação de alterações basais.
Baixa sensibilidade para isquemia.
○ Testes Não Invasivos: Avaliação funcional/anatômica.
○ Determinação da extensão da isquemia.
■ Teste Ergométrico (ECG de Esforço)
● Avaliação da isquemia durante exercício. Valor preditivo
dependente da probabilidade pré-teste.
● Interpretação baseada em:
○ Alterações do segmento ST
○ Resposta hemodinâmica
○ Capacidade funcional, Sintomas durante o esforço
■ Cintilografia Miocárdica (quantifica a isquemia)
● Estresse farmacológico (vasodilatador).
■ Ecocardiograma de Estresse (Dobutamina)
■ Angio TC Coronariana (anatomia, placas).
■ Ressonância Magnética Cardíaca (isquemia, viabilidade).
■ PET-CT Cardíaco (qualidade superior na quantificação do fluxo).
■ Coronariografia: Padrão-ouro para anatomia, indicada em casos selecionados.
Tratamento da DAC Estável
● Objetivos: Alívio dos sintomas, melhora da qualidade de vida e do prognóstico (reduz mortalidade).
● Pilares do Tratamento:
○ Modificação do Estilo de Vida: Dieta, exercícios, cessação do tabagismo, controle do peso.
○ Terapia Medicamentosa:
■ Antiplaquetários:
■ AAS (100mg/dia).
■ Clopidogrel (75mg/dia) em caso de alergia/contraindicação ao AAS.
■ Estatinas: Altas doses para atingir as metas de LDL-c conforme risco.
■ IECAs ou BRAs: Especialmente em pacientes com disfunção ventricular, HAS, diabetes.
■ B-bloqueadores: Primeira linha para angina (reduzem FC e contratilidade).
■ HAS + DAC crônica = B-bloq é 1° linha
■ Pós IAM e disfunção ventricular = melhora sintomas/prognóstico
■ BCC: Alternativa aos betabloqueadores ou em associação. Melhora sintomas
■ Nitratos: Alívio da angina (ação vasodilatadora). Melhora sintomas.
○ Revascularização Miocárdica (Angioplastia ou Cirurgia):
■ Quando: Sintomas não controlados pela TMO e para diminuir a mortalidade.
Síndromes Coronarianas Agudas (SCA)
● Classificação:
○ Angina Instável (AI)
○ Infarto Agudo do Miocárdio (IAM)
■ IAM sem Supradesnível do Segmento ST (IAMSSST)
■ IAM com Supradesnível do Segmento ST (IAMCSST)
● Fisiopatologia das SCA:
○ Vulnerabilidade da Placa: Núcleo lipídico grande, capa fibrosa fina.
○ Ruptura ou Erosão: Exposição do conteúdo trombogênico.
○ Trombose Coronariana: Oclusão parcial ou total da artéria.
○ Embolização Distal: Obstrução da microcirculação.
Angina Instável (AI)
● Conceito: Isquemia miocárdica em repouso/mínimo esforço, sem elevação dos marcadores de necrose.
● Tipos:
○ Angina de repouso
○ Angina de início recente: angina de aparecimento recente (últimos 2 meses), com intensidade
crescente e caráter severo.
○ Angina em crescendo: Angina prévia com intensificação recente.
● Apresentação Clínica:
○ Característica da dor: Semelhante à angina estável, porém em padrão instável (início recente, ao
repouso, em crescendo). Maior intensidade e duração. Resposta parcial aos nitratos. Episódios
mais frequentes e menos previsíveis.
○ Alterações Eletrocardiográficas: Infradesnivelamento transitório do segmento ST, inversão
dinâmica da onda T, normalização durante períodos assintomáticos. Alterações presentes em
30-50% dos casos.
○ Biomarcadores Cardíacos: Ausência de elevação significativa de troponinas. Valores normais ou
discretamente elevados. Necessidade de dosagens seriadas para exclusão de infarto.
Infarto Agudo do Miocárdio sem Supradesnível do Segmento ST (IAMSSST)
● Conceito: Evidência de necrose miocárdica (elevação de troponina) em contexto de isquemia, SEM
elevação persistente do segmento ST no ECG.
● Apresentação Clínica:
○ Dor torácica (tipicamente >20 minutos) semelhante à angina.
○ Alterações transitórias no ECG (inversão onda T, infra de ST).
● Marcadores de Necrose Miocárdica: Troponina elevada.
● Diagnóstico Baseado nos Critérios:
○ Geralmente normal, Diaforese, Afastar complicações
○ TEMPO PORTA ECG = 10 MIN
■ Normal ou Infradesnivelamento do ST em pelo menos duas derivações contíguas
○ Troponina: Padrão ascendente e descendente característico
○ Exames de imagem: Ecocardiograma: alterações segmentares de contratilidade
Infarto Agudo do Miocárdio com Supradesnível do Segmento ST (IAMCSST)
● Conceito: Necrose miocárdica com evidência de elevação do segmento ST no ECG.
● Necrose Transmural: Acometimento de toda espessura da parede ventricular. Início da necrose em
região subendocárdica com progressão para epicárdio. Extensão proporcional ao tempo de oclusão.
● Oclusão Coronariana Total: Interrupção completa do fluxo sanguíneo coronariano (artéria 100% ocluída).
○ Isquemia grave e progressiva.
● Alterações no eletrocardiograma:
○ Ondas T apiculadas
○ Supradesnível do segmento ST
● Marcadores de Necrose Miocárdica: Troponina elevada.
● "Tempo é Miocárdio”: Reperfusão imediata da artéria ocluída: vital. Supra: não precisa esperar troponina
Apresentação clínica
● Dor Torácica: Intensidade severa e caráter opressivo. Início súbito e persistente (>20 minutos). Irradiação
para membro superior esquerdo, mandíbula ou dorso. Resposta incompleta aos nitratos.
● Sintomas Associados: Sudorese profusa e palidez cutânea. Náuseas e vômitos frequentes. Dispneia por
disfunção ventricular. Ansiedade intensa e sensação de morte iminente.
● Sinais Clínicos: Hipertensão inicial seguida por hipotensão. Taquicardia sinusal ou bradicardia / BAVT
(infarto inferior). Terceira bulha em infartos extensos. Sopro de regurgitação mitral (Complicação
mecânica)
Tratamento do STEMI: Tempo é Miocárdio
● Diagnóstico rápido: ECG em até 10 minutos da chegada ao hospital.
● Escolha da estratégia de reperfusão: Baseada no tempo de início dos sintomas e disponibilidade.
● Angioplastia primária Preferencial quando disponível em tempo hábil.
● Trombólise: Alternativa quando angioplastia não disponível rapidamente.
Trombólise no IAMCSST
● Indicações: Impossibilidade de angioplastia em até 120 minutos. Contraindicação absoluta: ausente.
○ Redução de 30% da mortalidade
● Contraindicações Absolutas: Sangramento intracraniano prévio, AVC isquêmico nos últimos 3 meses,
Neoplasia ou malformação intracraniana ou MAV, Trauma em crânio ou rosto recente (< 3 meses),
Sangramento ativo ou diátese hemorrágica, Discrasia sanguínea, Dissecção de aorta
● Agentes Disponíveis Alteplase (t-PA), Tenecteplase (TNK-tPA), Estreptoquinase
Conduta Inicial em Pacientes com SCA
1. Acesso IV e Monitorização
2. Oxigênio (se SatO2 < 90%).
3. Morfina (para dor, com cautela).
4. Nitratos (sublingual ou IV).
5. AAS (dose de ataque, mastigado).
6. Anticoagulação (enoxaparina ou heparina não fracionada).
7. Inibidor P2Y12 (Clopidogrel, Ticagrelor ou Prasugrel)
Reabilitação Cardíaca Pós-IAM
● Importante para recuperação física e psicológica.
● Fase 1: Hospitalar (exercícios leves).
● Fase 2: Ambulatorial (supervisão).
● Fase 3-4: Manutenção a longo prazo.