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Teoria Queer e Judith Butler no Brasil

O documento discute a recepção e os impactos da Teoria Queer no Brasil, destacando a visita da filósofa Judith Butler em 2017 e as reações conservadoras que gerou. A Teoria Queer, introduzida nas universidades brasileiras no final do século XX, enfrenta resistência em campos como a História, enquanto outros campos, como Linguística e Antropologia, a adotam mais facilmente. O texto também menciona figuras importantes na disseminação da Teoria Queer no Brasil, como Guacira Lopes Louro e Berenice Bento.
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Teoria Queer e Judith Butler no Brasil

O documento discute a recepção e os impactos da Teoria Queer no Brasil, destacando a visita da filósofa Judith Butler em 2017 e as reações conservadoras que gerou. A Teoria Queer, introduzida nas universidades brasileiras no final do século XX, enfrenta resistência em campos como a História, enquanto outros campos, como Linguística e Antropologia, a adotam mais facilmente. O texto também menciona figuras importantes na disseminação da Teoria Queer no Brasil, como Guacira Lopes Louro e Berenice Bento.
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HISTÓRIA

TEORIA
QUEER

MIGUEL RODRIGUES DE SOUSA NETO


AGUINALDO RODRIGUES GOMES
(ORGANIZADORES)

Yeditora DEVIRES
Rotas desviantes no oco do mundo: desejo e
performatividade no Brasil contemporâneo

Miguel Rodrigues de Sousa Netol


ousa
A novidade veio dar à praia, na qualidade rara de sereia/ Metade o busto de uma deusa Maia,
metade um grande rabo de baleia/ A novidade era o máximo do paradoxo estendido na areia/ Alguns
a desejar seus beijos de deusa/ Outros a desejar seu rabo prá ceia/ - Gilberto Gil, A novidade.

Em novembro de 2017 a filósofa estadunidense Judith Butler esteve no Brasil para


participar de um seminário organizado pelo centro de cultura Sesc Pompeia, na cidade
de São Paulo, intitulado "Os fins da democracia". O que seria algo corriqueiro, a vinda
de uma docente estrangeira para integrar uma atividade acadêmico-cultural, se
transformou em um importante capítulo das disputas políticas que veem sendo
travadas no Brasil (e em outras partes do globo) nesta década. Um ruidoso e agressivo
grupo formado por conservadores e reacionários se manifestava contrariamente à
presença de Butler no Brasil, o que levou a que outro círculo se formasse para apoiar a filósofa. O
seminário, apesar dos pedidos de que fosse cancelado, foi realizado com a presença da convidada
oriunda da Universidade da Califórnia. Até o momento de deixar o país Judith Butler
sofreu represalias, sendo perseguida no aeroporto por um pequeno ajuntamento, o que
levou a que seguranças do Aeroporto de Congonhas (também na cidade de São Paulo)
intervissem e lhe dessem a devida guarida para que embarcasse. Canais de comunicação
televisivos, escritos

1 Mestre e Doutor em História pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Professor do Departamento de História da
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - Câmpus de Aquidauana (UFMS/ CPAQ). Membro do Universo Dialógico -
Grupo de Pesquisa em Linguagens & Diferenças (UFMS). E-mail: [Link]@[Link],
e virtuais deram cobertura àqueles fatos. O motivo das manifestações contrárias à
presença da filósofa era por ser a mesma uma das principais referências das mais recentes
teorias sobre a construção dos gêneros, destacando sua artificialidade e possibilidades
(mesmo que limitadas) de subversão. Dias depois, Butler publicou no jornal Folha de S.
Paulo sua própria análise dos eventos passados ao Sul do Equador, explicitando
aspectos de parte de sua obra voltada à performatividade de gênero.3
Não foi a primeira vinda de Judith Butler ao Brasil, nem o primeiro protesto. O cenário
global, entretanto, foi alterado desde o I Seminário Queer promovido pela revista Cult em
2015, ocasião em que a filósofa participou de atividades na Universidade Estadual Paulista, na
Universidade Federal da Bahia e no Sesc Vila Mariana. O último local recebeu em sua porta cinco
integrantes do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira munidos da bandeira do Brasil, do
estandarte da agremiação e de dois cartazes, um onde se lia “A ideologia de gênero nas escolas destruirá a
família", e outro com
os dizeres “Cuidado! Querem impor a “ideologia homossexual' nas
escolas”.4 Trata-se de um levante em que conservadores e reacionários se irmanam para
deter setores progressistas da sociedade que, a partir de meados do século passado,
por meio do tensionamento dos movimentos sociais (organizados e difusos),
conseguiram ampliar direitos e diminuir densos processos de subalternização,
empobrecimento, violência e morte. Deste movimento de freagem têm participado
grupos religiosos (católicos, protestantes, pentecostais e neo-pentecostais),
parlamentares e, no Brasil,
TO 12

2 Sobre os acontecimentos, ver: BETIM, Felipe. As vozes da pequena grande batalha do Sesc Pompeia. El
País, São Paulo, 8 nov. 2017. Disponível em: <[Link]
brasil/2017/11/07/politica/1510085652_717856.html>. Acesso em: 18 fev. 2018; FILÓSOFA AMERICANA Judith Butler é
alvo de protesto no Aeroporto de Congonhas. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 10 nov. 2017. Disponível em:
<[Link]
filosofa-americana-judith-butler-e-alvo-de-protestos-no-aeroporto-de-congonhas/>. Acesso em: 18 fev.2018. 3
JUDITH BUTLER escreve sobre sua teoria de gênero e o ataque sofrido no Brasil. Folha de S. Paulo, São
Paulo, 19 nov. 2017. Ilustríssima. Disponível em: <[Link]
ilustrissima/2017/11/1936103-judith-butler-escreve-sobre-o-fantasma-do-genero-e-o-ataque [Link]>.
Acesso em: 18 de fev. 2018. 4 RODRIGUES, Carla. Uma filósofa e dois Brasis - dos gatos pingados de
2015 à massa raivosa de 2017, por que o país mudou tanto? Projeto Colabora, 5 nov. 2017. Disponível em: < https://
[Link]/genero/uma-filosofa-e-dois-brasis/>. Acesso em: 18 de fev.2018. 5 Balanço e reflexão
relevantes sobre o tema estão presentes no artigo: MISKOLCI, Richard; CAMPANA, Maximiliano. “Ideologia de
gênero”: notas para a genealogia de um pânico
siglas como MBL (Movimento Brasil Livre) e arrivistas recém-chegados, como o ex-ator
pornô Alexandre Frota.
Por caminhos complexos, emaranhados e sem placas de sinalização, a
Teoria Queer, aportada nas terras brasis na última virada de século nas universidades e
circunscrita naquele meio, chegava polemicamente às ruas e às redes sociais – para ser
rechaçada por uns e defendida por outros. Se a Teoria Queer foi introduzida nestas
plagas por meio da produção do conhecimento nas instituições de ensino e pesquisa superiores, seu
impacto acadêmico foi desigual no seio das ciências humanas, sociais e da linguagem. Os estudos
linguísticos e literários mostraram-se porosos a estes estudos que, também nos Estados Unidos, seu
local de nascimento, se embrenharam pela mesma área. A antropologia e os estudos de outras
linguagens artísticas, como cinema e performance, também absorveram questões dali oriundas.
Outros campos do saber, como a História, parecem bem menos permeáveis à produção do saber
acerca dos sujeitos queer ou de certos deslocamentos produzidos pela Teoria Queer. O
campo se apresentava, então, de fins dos anos 1990 para a década seguinte - e ainda
agora -, muito novidadeiro para historiadores e historiadoras acostumados/as a lidar com identidades
mais fortemente fixadas, como classe e nação, afastando-os/as? Ou seria a recusa do
estrangeirismo? Ou alguma impropriedade na sua tradução? Ou o desvio já era conhecido no oco
do mundo - e também ali, feito objeto de recusa, disputa, silenciamento?

moral contemporâneo. Revista Sociedade e Estado, Brasília, v. 32, p. 725-747, set./dez. 2017. Disponível
em: <[Link] Acesso em: 18 fev. 2018. Do dossiê Conservadorismo,
Direitos, Moralidades e Violência, publicado pelo destacado periódico Cadernos Pagu (n. 50) em 2017, destaco:
FACCHINI, Regina & SÍVORI, Horácio. Conservadorismo, direitos, moralidades e violência: situando um conjunto de reflexões
a partir da Antropologia. Disponível em: <[Link] [Link]>.
Acesso em: 18 fev.2018; VAGGIONE, Juan Marco. La Iglesia Católica frente a la política sexual: la configuración de una
ciudadanía religiosa. Disponível em: <[Link]
Acesso em: 18 fev. 2018; ALMEIDA, Ronaldo de. A onda quebrada - evangélicos e conservadorismo. Disponível em:
<[Link] pdf>. Acesso em: 18 fev.2018. 6 Cf.: VERAS,
Elias Ferreira; PEDRO, Joana Maria. Os silêncios de Clio: escrita da história e (in)visibilidade das homossexualidades
no Brasil. Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 6, n. 13, p. 90-109, set./dez. 2014.
No perto-longe hipermoderno, a chegada no oco

o oco do mundo prél para trans e meta pós/ o oco do mundo a foz/ de um rio sem nascente/
como um broto sem semente/ um raio de sol sem luz/ como infecção sem pus/ o oco do
mundo a sós [...] // o oco do mundo enfim/ o oco do mundo além/ além do mal e do bem/ da
verdade nua e crual além do saber dos sábios/ além do deus dos snobs. - Gilberto Gil, o oco
do mundo.
Em 2001 Guacira Lopes Louro - historiadora, doutora em Educação e hoje
professora titular aposentada do Programa de Pós-Graduação em Educação da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) – publicou na revista Estudos Feministas
artigo intitulado “Teoria Queer - uma política pós-identitária para a educação"? Este artigo
tem sido tomado como um dos marcos possíveis do estabelecimento dos Estudos Queer no Brasil.
Isso se dá por mais de um motivo, como a importância do veículo, a revista Estudos Feministas, um
dos mais longevos periódicos voltados aos estudos de gênero no país, bem como pelo
esforço de Louro em sistematizar e apresentar para o público brasileiro as bases da Teoria Queer
e seus impactos possíveis. A fundação do Grupo de Estudos de Educação e
Relações de Gênero, estabelecido também na UFRGS, por Guacira Louro e
estudantes de graduação e pós-graduação, alguns dos quais viriam a coordená-lo
posteriormente, pode ser compreendida como ação aglutinadora de pesquisadoras e
pesquisadores, o que tem corroborado para um diálogo atravessado por questões/teoria queer.
No sudeste brasileiro, naquele mesmo início dos anos 2000, Mário Cesar
Lugarinho, doutor em Letras e, à época, docente da Universidade Federal Fluminense (UFF),
publicou na revista Gênero o artigo "Como

Lopes. Teoria Quees. 1993, 2001. De Louro, weica, 1999;


Idem. Curri.1-2,
7 LOURO, Guacira Lopes. Teoria Queer - uma política pós-identitária para a educação. Estudos Feministas,
Florianópolis, v. 9, n. 2, p. 541-553, 2001. De Louro, ver também Idem. (Org.). O corpo educado: Pedagogias da
sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 1999; Idem. Currículo, gênero e sexualidade - o “normal", o "diferente" e o
"excêntrico". Labrys (Online), Brasília, v. 1-2, 2002; Idem. Os estudos feministas, os estudos gays e lésbicos e a
teoria queer como políticas de conhecimento. In: LOPES, Denilson et al. (Org.). Imagem e Diversidade sexual.
Estudos de Homocultura. Brasília: Nojosa Edições, 2004; Idem. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria
queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
traduzir a teoria queer para a língua portuguesa”. Se Guacira Louro dialogava, entre
outros espaços, no e a partir do Grupo de Estudos de Educação e Relações de
Gênero, Lugarinho, juntamente com José Carlos Barcellos, também docente da
Universidade Federal Fluminense, organizou, nos anos de 1999, 2000 e 2001
encontros voltados aos estudos da literatura e do homoerotismo, eventos nos quais os
Estudos Queer se tornaram objeto de debates e que, a partir de 2002, seriam realizados pela
recém fundada Associação Brasileira de Estudos da Homocultura - ABEH, em atuação no país
desde então.
Em 2003 a socióloga Berenice Bento defendeu junto ao Programa de
Pós-Graduação de Sociologia da Universidade de Brasília a tese A reinvenção do corpo: sexualidade e
gênero na experiência transexual, publicada três anos depois.' Bento é pioneira no Brasil ao observar
um grupo invisibilizado nos estudos de gênero, aquele composto por transexuais. O aparecimento das
questões de gênero ou de sujeitos descritos a partir deste marcador no campo das ciências
humanas e sociais é algo relativamente recente na academia, o que se dá no Brasil nos anos 1970.
Para além, as mulheres foram o principal grupo estudado, seguido pelos homossexuais,
notadamente os masculinos, como é possível perceber ao nos debruçarmos sobre a bibliografia
produzida do final daquela década e no curso da seguinte.10
Pesquisadoras e pesquisadores como Guacira Lopes Louro, Mário
Cesar Lugarinho e Berenice Bento tiveram contato com a Teoria Queer

8 LUGARINHO, Mario Cesar. Como traduzir a Teoria Queer para a língua portuguesa. Gênero, Niterói,
v.1, n. 2, p.33-40,2001. Ver também: Idem. Dizer o homoerotismo: Al Berto, poeta queer. In: Congresso da ABRALIP, 17.,1999, Belo
Horizonte. Anais... Belo Horizonte: FALE; UFMG; PUC MINAS, 1999. v. 2, Idem. Homocultura e literatura: de volta ao luso
princípio queer. In: LOPES, 2004, op. cit. 9 BENTO, Berenice. A reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência
transexual, Rio de Janeiro: Garamond, 2006. Ver também: Idem. Da transexualidade oficial às transexualidades. In:
PISCITELLI, Adriana; CARRARA, Sérgio; GREGORI, Maria Filomena (Org.). Sexualidades e saberes: convenções e
fronteiras. Rio de Janeiro: Garamond, 2004. 10 Cf.: FRY, Peter. Para inglês ver – identidade e política na cultura
brasileira. Rio de Janeiro: Zahar, 1982; Idem; MACRAE, Edward. O que é homossexualidade? São Paulo: Brasiliense, 1983;
DANIEL, Herbert; MICCOLIS, Leila. Jacarés e lobisomens: dois ensaios sobre homossexualidade. Rio de Janeiro: Achimé,
1983; TREVISAN, João Silvério. Devassos no Paraíso. São Paulo: Max Limonad, 1986; MACRAE, Edward. A construção da
igualdade: identidade sexual e política no Brasil da "abertura". Campinas: Editora da Unicamp, 1990.
fora do país11 e, interpelados por ela, de distintas formas, seja por meio da
produção individual ou das redes de pesquisa, acabaram por estabelecer/ promover
importante diálogo no Brasil, sobretudo agenciando um conjunto de autores no sentido da
compreensão do gênero sócio-histórico subjetivamente elaborado/modificado, tais como
Michel Foucault, 12 Jacques Derrida,13 Lacan14 e, sobretudo, Judith Butler.15 É possível que
o impacto de Butler tenha sido maior justamente pelo fato de esta autora ter, no próprio
trabalho, agenciado especialmente proposições de Foucault, Derrida, Lacan e Austin,16 na
feitura de sua noção de performatividade de gênero.
No campo da História uma resenha de Gender Trouble, de Judith Butler,
foi publicada em 1995 por Karla Adriana Martins Bessa nos Cadernos Pagu?? e,
entre 1999 e 2004, três artigos de Tania Navarro-Swain nos quais era articulada a
Teoria Queer puderam ser lidos nos Cadernos Pagu e nas revistas Gênero e
Labrys.18 Em 2008 Justina Franchi Gallina defendeu a dissertação Instigando o
olhar: as identificações queers nos filmes de Pedro Almodóvar (1999-2004)junto ao
Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina.
Na passagem para a segunda década deste século outros trabalhos, sobretudo artigos em
periódicos,

11 Cf.:BENETTI, Fernando José. A bicha louca está fervendo: uma reflexão sobre a emergência da teoria
queer no Brasil (1980-2013). Monografia (Bacharelado em História) - Centro de Ciências Humanas
e da Educação,
Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2013. 12 FOUCAULT, Michel. História da
Sexualidade: a vontade de saber. São Paulo: Graal, 2005.v. 1. 13 DERRIDA, Jacques. Gramatologia.
São Paulo: Perspectiva, 2011. 14 LACAN, Jacques. O seminário. Livros 4, 11 e 20. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1982. 15 BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 4 ed. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012. 16 AUSTIN,John Langshaw. Quando dizer é fazer: palavras e ação. Porto
Alegre: Artes Médicas, 1990. 17 BESSA, Karla Adriana Martins. Gender trouble: outra perspectiva de composição
do gênero. Cadernos Pagu, Campinas, v. 4, p. 261-267, 2005. 18 NAVARRO-SWAIN, Tania. Feminismo e
lesbianismo: a identidade em questão. Cadernos Pagu, Campinas, v. 12, p. 109-120, 1999; Idem. Para além do
Binário: Os Queers e o Heterogênero. Revista Gênero, v. 2, n. 1, p. 87-99, 2001, Idem. O normal e o abjeto: a
heterossexualidade compulsória e o destino biológico das mulheres. Labrys (online), Brasília, v. 6, ago./dez. 2004. Disponível
em: <[Link] Acesso em: 19 fev. 2018.

foram publicados.19 A dissertação de Clara Cuevas, defendida em 2015 no Programa


de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná,
intitulada Corpos abjetos e amores malditos: homossexualidade, anonimato e
violência institucional na ditadura stronista em Assunção, 1959, na qual a autora
analisa os desdobramentos do caso “108 y un quemado”, o assassinato do
famoso locutor Bernardo Aranda e a perseguição aos homossexuais que se seguiu e,
sobretudo a ressignificação da memória e das experiências homoeróticas,
queer, cuir, kuir no Paraguai contemporâneo, é um trabalho a ser destacado.

19 SILVA, Alexandre Augusto Fernandes da. O prazer de se pesquisar outras linguagens: as hqs
pornográficas de Carlos Zéfiro e a pesquisa historiográfica acerca da masculinidade e das relações de gênero e
sexualidade. In: Encontro dos Estudos Multidisciplinares em Cultura, 6., 2010, Salvador. Anais... Salvador: UFBA,
2010. Disponível em: <[Link] wordpress/[Link]>. Acesso em: 19 fev. 2018; PINTO, Renato.
Museus e diversidade sexual: reflexões sobre mostras LGBT e queer. Arqueologia Pública, Campinas, n.5,2012.
Disponível em: <[Link] Acesso em: 19 fev.2018;
LOPES, Vinícius Torres. Homossexualidade e ambiente escolar: a teoria queer como proposta para formação
inicial e continuada de professores. Cadernos de História, Brasília, v. 1, n. 2, 2. sem., 2012. Disponível em:
<[Link] [Link]>. Acesso em: 19 fev. 2018; QUEIROZ,
Igor Henrique Lopes de. Por um olhar queer sobre o processo educativo. Bagoas, Natal, v. 7, n. 9, 2013. Disponível em:
<[Link] [Link]/bagoas/article/view/4647/3804>. Acesso em: 19 fev. 2018; ALVES, Joelson Barreto. Dzi
croquetes - corpos – experiência - queer. Monografia (Graduação em História) - Universidade Estadual da
Paraíba, Guarabira, 2014. Disponível em: <[Link]
bitstream/123456789/8826/1/PDF%20-%20Joelson%20Barreto%[Link]>. Acesso em: 19 fev. 2018; VERAS;
PEDRO, op. cit.; FERRAZ, Maria Cruz. Religião e homossexualidade nos estados unidos: vertentes liberais e
conservadoras em debate. Simpósio Nacional da ABHR, 14., 2015, Juiz de Fora. Anais... Juiz de Fora;
ABHR, 2015. Disponível em: <[Link] plura/ojs/[Link]/anais/article/viewFile/973/823>. Acesso
em: 19 fev. 2018; JESUS, Cassiano Celestino de. O que é a teoria queer? Notas introdutórias de um saber
subalterno, subversivo e contra-hegemônico. Veredas da História, Rio de Janeiro, v. 9, n. 2, p. 21-34, dez,
2016. Disponível em: <[Link]
view/220/193>. Acesso em: 19 fev. 2018; SILVA, Giovani José da; SILVA, Jaime de Sousa. Ensino de História e
orientação sexual: Uma reflexão sobre sexualidades na escola a partir de contribuições da Psicologia Social e da
Teoria Queer. História e Ensino, Londrina, v. 22, n. 2, 2016. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 19 fev. 2018; SOUZA,
Fábio Feltrin de; BENETTI, Fernando José. Abjeções ao Sul: uma Reflexão sobre os Estudos Queer no Brasil
(1990 - 2000). Seminário Internacional Fazendo Gênero, 10., 2013, Florianópolis. Anais... Florianópolis:
UFSC,[Link]ível em: <[Link]
[Link]/resources/anais/20/1373323790_ARQUIVO_abjecoesaosul.pdf> Acesso em: 19 fev. 2018;
ROCHA, Cássio Bruno de Araújo. Teoria Queer entre a Pós-modernidade e o Presentismo: um caminho crítico
possível? Periódicus, Salvador, v. 1, n. 6, abr. 2017. Disponível em:
<[Link] Acesso em: 19
fev.2018.
Os estudos de gênero no Brasil, até o final dos anos 1990, estiveram
assentados, sobremodo, na política identitária dos sujeitos, fossem eles mulheres,
homens, gays, lésbicas, ou outros sujeitos delimitados por categorias de análise
construídas a partir da observação social. Nada surpreendente se consideramos que
determinados sujeitos (individuais e/ou coletivos) têm sido historicamente invisibilizados,
violentados, eliminados justamente por tal classificação que, legando ao "homem” (viril,
branco, burguês) privilégios, os toma daquelas e daqueles que dele destoam.
O aparecimento dos estudos de gênero nas terras tupiniquins já era algo recente. É
preciso considerar a conjuntura político-cultural marcada pela ditadura estabelecida
pelos governos militares a partir do Golpe de 1964. Naqueles governos que se
estenderam até 1985 a caça aos comunistas, datada de pelo menos três décadas antes, se
manteria, juntamente com a rigidez nos costumes, expressos na manutenção do binarismo
heteronormativo e nas performances erótico-sociais patriarcais baseadas em tipos tais quais
o “homem viril”, a “mulher pura para casar”, a “puta”, a “bicha”. Intelectualmente, o que se
viveu foi a retirada das pesquisas e publicações acerca da luta de classes – porque vista
como comunista -, tema e referenciais teóricos que lhe serviam de suporte que
apenas apareceriam nos anos 1980. Entretanto, mesmo no seio daquela ampla frente que
lutava pelo fim da ditadura e o estabelecimento da democracia havia pouca ressonância a uma crítica
de costumes, sobretudo por se considerar que dela pudesse advir a fragmentação do movimento.
Assim, os movimentos sociais baseados na ruptura do modelo binário e patriarcal dos costumes no Brasil
precisaram tensionar com dois establishments, à direita e à esquerda. Em que pese isso,
seria necessário ultrapassar a essencialização dos sujeitos, também normativa e rígida,
em busca de uma pluralidade que comportasse a existência de fissuras, resistências, tensões,
improvisos.
Yés, nós temos banana

Aqui não faço um estudo “especializado", nem de "especialista" (não sou nenhum técnico em
viadologia, bichótica ou pederastografia). [...] Todo saber é um dos modos do fazer. - Herbert
Daniel, Grafias bio-de/gradáveis.

Religiões - as mais distintas – têm ambicionado tomar o desejo em suas mãos,


esquadrinhá-lo, elaborar listas de atos acompanhados das reprimendas que julgam necessárias.
Há, mesmo neste meio religioso, certas hegemonias, ou seja, determinados grupos que têm
visado monopolizar a fé e as interpretações sobre a sexualidade e a maneira como os
sujeitos expressam a si mesmos. No mundo construído a partir da Europa o cristianismo, em
suas múltiplas versões, tem exercido tal poderio e, assim, o exercício social e as práticas eróticas
estiveram ligadas a uma anatomia mal conhecida, garantindo a possibilidade de existência normativa e
compulsória da heterossexualidade, bem como as representações sociais vinculadas ao macho/masculino
e à fêmea/feminino, porque construídas como “naturais”, criadas pela divindade. O que desvia de tal
rota deve ser observado, classificado, punido, uma vez que se trata de pecado – uma ofensa à
divindade e à instituição religiosa.20 No Brasil, surgido a partir da imposição econômica,
política e cultural de europeus no século XVI, tal influência é claramente perceptível.
Recentemente se pode constatar um aprofundamento das investidas religiosas no poder
legislativo, na composição de uma frente que congrega conservadores e reacionários: as bancadas
armamentista (da “bala”), ruralista (do “boi”) e religiosa (da "bíblia"), inserindo o país em uma
onda conservadora global.21

20 Cf.: SOUSA NETO, Miguel Rodrigues de. Da (ambigüidade da) paixão: uma leitura do Testamento de
Jônatas deixado a David, de João Silvério Trevisan. In: CARDOSO, Heloísa Helena Pacheco; MACHADO, Maria Clara Tomaz.
História: narrativas plurais, múltiplas linguagens. Uberlândia: EdUFU, 2005. 21 PAULINO, Mauro; JANONI, Alessandro.
Análise - crescimento de Jair Bolsonaro inclui Brasil em onda conservadora global. Folha de [Link], São Paulo, 1 maio 2017.
Poder. Disponível em: <[Link]
[Link]>. Acesso em: 11 abr. 2018.

A explicação religiosa do mundo e dos sujeitos que o habitam passa a


concorrer com outra maneira de observação/explicação que gradativamente adquire vigor a
partir do século XVI, atuando hegemonicamente desde o século XIX, qual seja, a
científica. A ciência moderna surge de uma alteração significativa na concepção de
mundo ampliada e deslocada. O mundo, visto de modo novo, precisava receber nova
classificação. No curso do século XIX veremos a sexualidade ser tomada como objeto de
pesquisa das ciências do comportamento e da psiquê. Agora, ao invés de pecado, o que temos
é uma taxonomia dos desvios – tomados por doenças do corpo e da mente.22 Seria o
momento - final do século XIX e primeira metade do século XX - em que juristas,
psiquiatras, endocrinologistas e outros especialistas ligados à medicina e ao direito
classificariam, prescreveriam, segregariam sujeitos a partir do exercício erótico e
da construção que fizessem das masculinidades e das feminilidades.23
As duas concepções, religiosa e médico-jurídica, em que pese as disputas entre
ambas, traziam algo em comum: binárias, viam de um lado a pureza/normalidade e, do
outro, o pecado/anormalidade, gerando uma interpretação/explicação do mundo
baseada na saúde (da alma e do corpo

22 Cf.: SOUSA NETO, Miguel Rodrigues de. Homoerotismo no Brasil contemporâneo: representações, ambiguidades
e paradoxos. Tese (Doutorado em História) - Instituto de História, Universidade Federal de Uberlândia, 2011. Disponível em:
<[Link] br/bitstream/123456789/16290/1/Tese%[Link]>. Acesso em: 11 abr. 2018; KRAFFT EBING,
Richard von. Psychopathia sexualis: as histórias de caso. São Paulo: Martins Fontes, 2000; MARAÑÓN, Gregorio. La
evolucion de la sexualidad y los estados intersexuales. Santiago: Cultura: 1936. 23 Do período cabe citar:
MACEDO, Francisco Ferraz de. Prophylaxia da Syphilis: da prostituição em geral, e em particular em relação à
cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Tipografia Acadêmica, 1873; CASTRO, Viveiros de. Attentados ao pudor - estudo
sobre as aberrações do instinto sexual. Rio de Janeiro: Livraria Moderna, 1895; ALMEIDA, José Ricardo Pires de. Higiene
Moral - Homossexualismo: a libertinagem no Rio de Janeiro. Estudo sobre as perversões e inversões do instinto genital. Rio
de Janeiro, Laemmert & C., 1906; IRAJÁ, Hernani do. Psicoses do amor: estudos sobre as alterações dos instintos sexuais.
Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos, 1930; RIBEIRO, Leonidio. Homossexualismo e endocrinologia, Rio de Janeiro:
Francisco Alves, 1938, especialmente, “Pederastia no Brasil”, p. 85-144; LUTZ, Gualter Adolpho. Auto-acusação,
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desejos. Caderno Espaço Feminino, Uberlândia, v. 28, n. 2, jul./dez. 2015.
mente) experimentada por aqueles/aquelas devidamente normalizados, ou seja, cuja
correspondência quanto ao sexo, desejo e representação social se desse, e na doença (da
alma e do corpo-mente) verificada no desvio da norma. O desvio - outros caminhos
trilhados pelos sujeitos – eram, assim, algo ruim, a ser objeto de penitência ou de
tratamento. Academicamente, a versão médico-jurídica era preferida, claro. Até o final da
década de 1950 foi ela que pôde ser vista nas instituições de ensino e pesquisa do
país.
Foi em 1958 que José Fábio Barbosa da Silva defendeu na Universidade
de São Paulo uma monografia de especialização, sob a orientação de Florestan
Fernandes, intitulada Homossexualismo em São Paulo: estudo de um grupo minoritário.24
Aquele foi o primeiro trabalho que ambicionava tratar de um grupo definido por sua erótica e
por uma cultura comum partilhada que era atravessada, ela mesma, por essa erótica, em sua
diversidade. José Fábio compreendia as dificuldades de desenvolvimento de sua pesquisa, haja vista a
interpretação corrente da sexualidade não heterossexual como doença, levando às possibilidades de
cura, ou seja, vista como um problema a ser solucionado, entretanto, pretendia
ultrapassar tal compreensão:

O fenômeno [homossexualismo) não é encarado como alternativa "plausível” dentro


das oportunidades existentes no conteúdo cultural, pois, visto sob essa perspectiva, os
característicos diferenciais do grupo minoritário seriam logicamente colocados na esfera das
liberdades individuais, e não na esfera terapêutica. Alguns desenvolvimentos em sociedades
complexas contemporâneas indicam a possibilidade de que o fenômeno venha a ser incluso
justamente na área de liberdades individuais.25

Para José Fábio Barbosa da Silva, que fez sua pesquisa junto a um
grupo (cerca de 70 sujeitos que se identificavam como homossexuais) urbano em fins da
década de 1950, o qual ele mesmo integrava, era possível - e essa era sua opção - observar os
sujeitos que construíam outras

24 SILVA, José Fábio Barbosa da. Homossexualismo em São Paulo: estudo de um grupo minoritário. In: GREEN,
James Naylor; TRINDADE, Ronaldo (Org.). Homossexualismo em São Paulo e outros escritos. São Paulo: Editora UNESP,
2005. 25 Ibidem, p. 69.
rotas eróticas que não aquela da heterossexualidade sem impingir-lhes a patologia, inserindo
suas práticas no campo das liberdades individuais. É no campo das liberdades
individuais que os sujeitos criam uma subcultura, a partir de um modo de falar, de
caminhar, de roupas, fatos, objetos, gestos, etc. Dito de outra maneira, os sujeitos se
diferenciam no corpo social a partir de uma determinada prática erótica/orientação do
desejo e, a partir disso, produzem os traços de uma subcultura, o que coloca tais sujeitos
como atores sociais ativos na produção de si, norteados e limitados pela interpelação dos setores
majoritários da sociedade. A capacidade de tensionamento ou adaptação aquilo que
aparece como determinação dos grupos majoritários é expressa pela manutenção da
masculinidade (o que é geralmente realizado pelos homossexuais das camadas médias
ou abastadas), ou, pela adoção da feminilidade (recorrente nos sujeitos oriundos das camadas
empobrecidas). O atravessamento de classe faz com que aqueles que são pobres sofram
ataques mais intensos dos grupos majoritários. Os debates sobre “passabilidade" parecerem remontar
aos meados do século XX, mas invertido, aproximado do “enrustimento”.
Se José Fábio cumpre um importante papel em sua tentativa de superar a
compreensão patológica das rotas sexuais que atravessam o terreno fora do pavimento
heteronormativo, ele esbarra na rigidez com que fixa os homossexuais masculinos das classes
média e alta na expressão masculina, positivando-os, e aqueles oriundos das camadas
médias na aproximação das feminilidades, colocados no polo negativo, aproximados
ocasionalmente da criminalidade.
Seria preciso esperar quase duas décadas para que outros passos marcassem
caminhos menos esperados na compreensão de fenômeno sociais atravessados pelo sexo, pela
sexualidade, pela atuação social dos sujeitos relacionadas às masculinidades e feminilidades, o que
ocorreu quando Carmen Dora Guimarães defendeu sua dissertação O homossexual
visto por entendidos, orientada por Gilberto Velho, no Programa de Pós Graduação em
Antropologia Social do Museu Nacional da UFRJ, em 1977.26 A pesquisadora se
utilizou dos laços de amizade com um grupo de homossexuais masculinos de classe média, oriundos,
em sua maioria, de
m

26 GUIMARÃES, Carmen Dora. O homossexual visto por entendidos. Rio de Janeiro: Garamond,
2004.

Minas Gerais, moradores da zona sul do Rio de Janeiro, para desenvolver sua
observação antropológica.
Guimarães se utilizou, dentre outros, de la volonté de savoir, publicado um ano antes
de sua defesa por Michel Foucault, e d'A economia das trocas simbólicas, de Pierre Bourdieu
(publicado no Brasil em 1974). Havia um interesse, de sua parte, de compreender a
composição de sua network (rede) a partir dos processos de diferenciação entre as
identidades sociais (dominantes/desviantes), bem como daqueles de elaboração das
semelhanças (no interior dos grupos desviantes da norma) e, por fim, dos de diferenciação
interna no grupo minoritário observado, levando a novas hierarquias e afastamentos.
Trata-se, portanto, de uma análise complexa que, partindo do grupo e sua produção
simbólica, considera que as representações sociais são elaboradas em virtude das condições de
existência dos sujeitos, do espaço ocupado por eles, sua classe social, sua origem, seus
interlocutores, e afirma que:

a compreensão da emergência da categoria homossexualidade no contexto social dado -


brasileiro, urbano-industrial - [...] terá que ser vista à luz do sistema complexo de relações
simbólicas e não simbólicas desta realidade, mesmo que estas relações sejam por vezes
retraduções locais de estilos de vida importados (efeito demonstração). Isto significa que a
categoria da sexualidade, assim como a da homossexualidade, não reflete uma ideologia ou
uma prática, mas fragmenta-se em múltiplas modalidades particulares, segundo os
momentos e espaços distintos de uma mesma realidade histórica.27

O olhar de Carmen Dora é “entendido". Trata-se de alguém que se aproxima


do grupo antes da pesquisa, tem relações de amizade com seus integrantes e, em certo
sentido, assemelha-se a ele. Não há negação desta proximidade; ao contrário, ela é
colocada em evidência. E, observando tão de perto, compreende que os processos
de estigmatização são profundos. Uma questão a ser considerada é que há um
movimento de fixação/ não-fixação identitária: existem os "normais", homens e mulheres, e os

27 Ibidem, p.39.
homossexuais, que não são "anormais”, mas compõe um grupo distinto; dentro do grupo, há os
que são cultos, elegantes, de classe média, menos escandalosos (“passáveis”?), que se
consideram “normais”, e aquelas “bichas" que são histriônicas, "pintosas", de classe baixa,
tidas como "anormais” pelos "entendidos"; existem relações homossexual/michê (garoto de
programa), que se pautam por uma distinção clara (homossexual/feminino e michel masculino), e
outras em que isso é borrado (“se dá ou se come é veado"). Mantém-se a lógica da
distinção, em que pese a percepção de que a política da sexualidade passava da ordem da
reprodução e contenção para aquela do lazer e do prazer.28
Aqueles que orientaram/orientam seu desejo para corpos semelhantes,
especialmente masculinos, foram o principal objeto dos intelectuais que se debruçaram
sobre a sexualidade despatologizada de fins dos anos 1970 e década seguinte. Ampliando o
debate e abarcando temas como a pornografia, o feminismo e outras expressões da
sexualidade - vivida nos espaços privados e também no espaço público, uma vez que
objeto da política - está a coletânea organizada por Guido Mantega e publicada em 1979,
Sexo & Poder. Em sua apresentação, escreveu Mantega:

Neste final dos anos 70, a família brasileira assiste ao afrouxamento da censura sexual no
país. Finalmente estamos amadurecidos" para encarar de frente bundas e peitos, e
mesmo para ver de relance os pêlos púbicos que se insinuam nos cantos mais escuros das
telas dos cinemas e nas páginas dos Play bois caboclos. Nos vídeos das tevês já se fala em
aborto, necessidades sexuais, educação sexual nas escolas, e outros assuntos "apimentados”. É a
revolução sexual? Ou o esfacelamento da moral da tradicional família brasileira? Ou apenas
um efeito colateral da "redemocratização lenta, gradual e restrita"?29

Mantega, Maria Rita Kehl, Jean Claude Bernardet e integrantes


28 Ibidem, p. 105. 29 MANTEGA, Guido. Apresentação. In: 1979.
(Org.). Sexo & Poder. São Paulo: Brasiliense,
do jornal Lampião da Esquina e do grupo SOMOS estão presentes na publicação. Os
costumes e a sexualidade, a visibilidade política dos sujeitos permeados por sua erótica e a
produção cultural são parte dos temas ali abordados. As “minorias”,30 diferenciadas por sua
prática erótica, e a repressão sofrida tanto pela direita quanto pela esquerda no Brasil
compõe a transcrição de mesas-redondas, o que explicita a multiplicidade de vozes
presentes no debate. Porém, a experiência dos sujeitos no tensionamento social está ainda marcada
especialmente por sua prática sexual – heterossexuais de um lado e homossexuais de outro -, divisão que
já era realizada pelos estudiosos do campo médico-legal e psiquiátrico, colocando de um
lado os “normais” e, de outro, os "anormais”. Talvez isso implique em, ainda no período, haver forte
correspondência entre sexo/ sexualidade/expressão social, o que seria questionado
posteriormente.
Uma obra publicada em 1984 se distingue de suas contemporâneas justamente
por seu protagonista. Trata-se de Erro de pessoa: Joana ou João? de João W. Nery31
que, nascido Joana, passou por cirurgias de redesignação de seu corpo a partir de 1977. Antes disso, no
início de sua puberdade, havia masculinizado seu corpo por meio de exercícios; a estratégia, entretanto, tinha suas
limitações. A experiência de uma pessoa que modifica tão profundamente seu corpo para
adequá-lo às suas expectativas de produção de uma masculinidade era algo inédito na bibliografia,
sobretudo se considerarmos que se tratava de uma prática impedida pela legislação
da época. O deslocamento do debate é para a construção do sujeito e sua atuação social,
não apenas para a orientação do desejo daqueles chamados “desviantes”.
Ao considerarmos as performances sociais, a distinção entre os
"entendidos”e as “bichas”parece ser outro tema relevante naquele momento. Além
de Carmen Dora, isso pode ser percebido em um influente artigo publicado em 1972
pelo antropólogo inglês radicado no Brasil, docente, à época, da Universidade Estadual
de Campinas, Peter Fry, intitulado

30 O tema das minorias sexuais também seria tratado no primeiro capítulo de MACRAE, Edward,op. cit. 31
NERY, João W. Erro de pessoa: Joana ou João? Rio de Janeiro: Record, 1984. Em 2011 João Nery publicou nova obra,
Viagem solitária: memórias de um transexual trinta anos depois (São Paulo: Leya), ampliando o leque
temporal e, por conseguinte, de suas experiências, incluindo sua vivência pós-cirurgias num país em que
transexuais podem lutar por cidadania.
Da hierarquia à igualdade: a construção histórica da homossexualidade no Brasil. 32 O
pernicioso processo de hierarquização seria percebido nos rincões do país, local do atraso,
por homossexuais oriundos das camadas subalternizadas da sociedade, as “bichas” – cuja
contraparte é o “bofe” -, enquanto o entendido”, figura surgida nas camadas médias e
altas das comunidades urbanas das quais o autor fazia parte, seria a expressão da
igualdade, uma vez que romperia com a díade penetrante/penetrado ou bicha/bofe. A figura da
“bicha”, uma representação temida, também aparece na obra magistral de Néstor
Perlongher acerca da prostituição viril na cidade de São Paulo, O negócio do miché, também
uma dissertação de mestrado defendida na Universidade Estadual de Campinas.33 Do mesmo
modo que a estadunidense Teoria Queer, as sexualidades desviantes (até certo
ponto) da norma foram questionadas a partir da academia, além do campo das artes,
tornando-se a universidade um importante locus de compreensão e manifestação das mesmas.
Entretanto, aqui, mais uma vez, a feminilidade ("a" bicha) é associada à sujeição, ao arcaísmo e ao
conformismo, aquilo que deve ser ultrapassado.
A “bicha”, assim como o “viado”, não foram ultrapassados; pelo contrário,
passaram a atravessar algumas experiências a partir dos anos 1980. Leila Miccolis e Herbert Daniel
publicaram pela anárquica Achiamé, no mesmo ano das Diretas Já!, Jacarés & Lobisomens: dois
ensaios sobre a homossexualidade. 34 Os ensaios são marcados pela atuação política
de ambos, pelo humor - um traço distintivo ao considerarmos a bibliografia
produzida até aquele momento - e pela escrita em primeira pessoa. Sobre a última,
Míccolis explica citando Daniel: "Se falo em primeira pessoa

32 FRY, Peter. Da hierarquia à igualdade: a construção histórica da homossexualidade no Brasil. In:_ _.Para inglês ver:
identidade e política na cultura brasileira. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982. Peter Fry publicaria com Edward MacRae
(inicialmente, seu orientando de doutorado na Unicamp), no ano seguinte, a obra O que é homossexualidade?, integrante da
popular Coleção Primeiros Passos da Editora Brasiliense. A tese de doutorado de MacRae (encerrada na USP sob a
orientação de Eunice Ribeiro Durham em 1986) acerca das experiências do SOMOS, primeiro grupo de afirmação
homossexual brasileiro surgido na cidade de São Paulo, foi publicada em 1990 pela editora da Universidade Estadual de Campinas,
intitulada A construção da igualdade: identidade sexual e política no Brasil da abertura. 33 PERLONGHER, Néstor. O
negócio do michê: prostituição viril em São Paulo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987. 34 MÍCCOLIS; DANIEL, op.
cit.
sai

é para escapar da política da abstrata pessoa ausente do discurso”.35 A "bicha” é


compreendida por Herbert Daniel como absoluta construção social, não é, mas aprende a ser.
E imita (parodia?) um ser que não é, transformando-se, continuamente, porque
insistentemente interpelada. Leila, respondendo em uma entrevista "o que é ser
lésbica?", diz “que deve ser um estranho, tipo marciano”, arrogando-se de nunca ter visto
uma. E a estranheza que pretendia causar com a resposta baseava-se em algo simples:
trata-se de um conjunto de atos, não de ser algo específico. A centralidade do sexo na
determinação da performance social dos sujeitos era questionada pelos dois e, ao mesmo
tempo, construções marginais assumiam protagonismo, como a "bicha”. Não se trata
apenas de afirmar uma “essência”, mas de considerar a existência de práticas sociais em sua
multiplicidade.36
No oco do mundo, as certezas foram muitas. Inspirados médicos, doutos
doutores, conscienciosos juristas trataram de explicar o problema da desvinculação do
desejo em relação ao sexo biológico do sujeito, buscando seu remédio, sua cura. Esta
maneira de ver corpo/sexualidade/atuação social do sujeito acabaria por influenciar
sobremaneira o modo como em outros campos do conhecimento os temas seriam tratados.
Quando observados, especialmente aqueles do sexo masculino que se interessavam
eroticamente por sujeitos do sexo masculino, deixaram ver que tais marcas são muito
profundas, constituindo parte incontornável da interpelação dos sujeitos, participando, assim, de sua
permanente elaboração. Não é ver “progresso" – tão caro àqueles do século XIX –, mas
perceber mudanças; e estas, dificilmente oriundas das ciências apenas, mas da prática política e de
existência mesmo dos sujeitos, inconformados, no mais das vezes, com o lugar social que outrem
lhes quisera impingir. E no mesmo oco do mundo as dúvidas acabaram por florescer, num jardim de
rosas premiadas e capim-navalha.
112
35 Ibidem, p. 79. 36 Sobre as categorizações e políticas que dela advém, João Silverio Trevisan escreve o
belo capítulo “Ser ou não-ser homossexual”, em seu Devassos no paraíso: a homossexualidade no Brasil, da
colônia à atualidade. (3 ed. rev. ampl. Rio de Janeiro: Record, 2000).
Do oco de mim

Meus pés pareciam bater no oco do mundo, e foi como um sintoma que experimentei a constante
ameaça de afundar, mais tarde desejada e não cumprida. - João Silverio Trevisan, Vagas
noticias de Melinha Marchiotti.

om uma

A observação do mundo por uma lente histórica, ou seja, que tem por objetivo
compreender as ações humanas local e temporalmente, foi quase “refundada” no século XIX,
tamanho o peso das modificações por ela sofridas no afã dos historiadores de deixá-la com
uma feição mais adequada à linguagem científica moderna, tão em voga naquele momento. O método
elaborado, especialmente a partir da Alemanha da França, levava a prática histórica para períodos
bastante distantes da contemporaneidade daqueles observadores, provavelmente uma estratégia
para que aqueles profissionais pudessem se distanciar do objeto observado, dando-lhes
objetividade, neutralidade, elementos caros à prática científica moderna. Talvez por isso
historiadores e historiadoras não se debrucem com frequência sobre temas e sujeitos
coetâneos. Uma história “recente” é, assim, mais comum do que uma história do
“presente”. A instabilidade deste recorte temporal, o presente, também precisa ser
considerada, e aqueles e aquelas que pretendemos elaborar algum conhecimento temos optado
por um solo mais firme, menos movediço. Outrossim, da mesma tradição a
objetividade e a neutralidade afastariam historiadores e historiadoras de imersão e filiação
política como partes da produção do conhecimento. Ocorre que, se a sociedade havia se modificado bastante a
partir do advento da profissionalização da História, de lá para cá, mais uma vez, um turbilhão.
Desde meados dos anos 1990, momento em que Karla Bessa publicava sua resenha de
Gender Trouble, os instrumentos mentais construídos na academia para compreender o mundo têm
sido profundamente modificados, em que pese tal movimento não ser hegemônico. No
princípio da década seguinte, no tocante aos estudos de gênero, encontrávamos
pesquisas sobre a condição da mulher, sobre o patriarcado; quando buscávamos outros atores
sociais, víamos sobretudo homens gays
transformados em objeto de estudo. A violência e as conquistas, uma nova
díade, ocupava as páginas dedicadas a mulheres e integrantes da população
formada por travestis, transexuais, transgêneros, lésbicas, bissexuais e gays. O
lugar de cada um destes sujeitos, individuais e coletivos, estava também fortemente
delimitado. As políticas identitárias, tão caras nos anos 1970 e 1980 ainda reverberavam
imperiosamente na academia.
A Teoria e/ou Estudos Queer pareciam encontrar pouca guarida entre os historiadores. Como
podemos observar a partir do percurso bibliográfico aqui realizado, os principais trabalhos queer no Brasil
foram realizados em outras áreas. Uma questão que, talvez, possa servir para a compreensão do
pequeno impacto da Teoria Queer na produção histórica, é que, de maneira geral, os estudos de gênero
acabaram por se constituir de maneira autônoma no país, sendo intercambiado ocasionalmente com outros
campos da produção do conhecimento. Assim, trata-se da manutenção de um afastamento
historicamente construído do erotismo, do desejo e da construção não hegemônica das
masculinidades e das feminilidades da produção histórica. Mesmo quando analisamos a
dezena e meia de artigos sobre os estudos queer no campo da História, o que
encontramos é, sobretudo, um conjunto de balanços bibliográficos, mas pouca
problematização do próprio campo teórico ou sua absorção na compreensão histórica.
Em diálogo com a Teoria Queer meu principal objetivo foi o de construir um
sentido deste campo do conhecimento para minha própria compreensão do mundo. A
apropriação do conhecimento não é uma tarefa cumprida de forma imediata, nem sem tensões. Uma
questão colocada era sobre a possibilidade de uma re-colonização do conhecimento pelos Estudos
Queer, entendendo-os ainda como uma possível panaceia. Por essa razão foi necessário
que eu trilhasse um outro caminho, que considerasse também a construção do conhecimento no Brasil.
Essa rota, que eu esperava que se desse no oco do mundo, esse lugar de onde falo, acabou
por se constituir como um percurso no oco de mim, na medida em que nada mais é que um exercício
particular de apropriação.
Os Estudos Queer acabaram por apresentar uma chave de leitura na qual o sujeito (individual
e coletivo) se constitui e é constituído em permanente interpelação com o corpo social,
construindo inteligibilidades, apropriando-se de um repertório disponível e, em alguma
medida,
acrescentando outras experiências/práticas/imagens a este repositório.
Os estudos sobre rotas desviantes da sexualidade e dos gêneros no Brasil
evidenciam o volume e o peso dos “tipos” que são encenados cotidianamente nestas
terras e em outras mais. Assim, a violência, a exclusão, a condição de miséria psíquica e
social, a morte daquelas e daqueles que trilham outras rotas do desejo e dos gêneros
assumem uma posição central na maneira como observamos o mundo por aqui. A contraparte,
a resistência a isso, assume uma potência social e intelectual que precisa, também, ser
considerada.
Para que houvesse um sentido, o que ocorreu foi a intersecção dos Estudos
Gays, Lésbicos e Transgêneros e dos Estudos Queer. Da negociação entre os campos
o que emergiu foi a compreensão de que o desejo e a produção dos gêneros,
integrando o sujeito, são elaborações subjetivas e coletivas, que precisam ser
desnaturalizadas, tornando sexo, desejo e gênero estranhos, porque forjados.
Em permanente interpelação, descubro que o oco é repleto, e nele os
sujeitos buscam romper com a abjeção tão fortemente arraigada pelos processos históricos
de diferenciação, e nele buscamos uma cidadania, essa sim, tão novidadeira nas
plagas globais, mas que precisa também ser estranhada, já que elaborada em bases
liberais.
Até aqui, isto. Como afirma Herbert Daniel, definitivo é só o transitório.
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