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Formação de Professores no Ensino Remoto

O artigo analisa a experiência pedagógica na formação de professores de Educação Física durante o ensino remoto emergencial, destacando a perspectiva de uma professora em docência assistida. A pesquisa enfatiza a importância da escrita como tecnologia de expressão na aprendizagem colaborativa e o uso de artefatos pedagógicos digitais, refletindo sobre o crescimento de professores e alunos apesar das limitações impostas pela pandemia. A narrativa se baseia em estudos qualitativos e busca problematizar a formação docente em um contexto de ensino remoto.

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Formação de Professores no Ensino Remoto

O artigo analisa a experiência pedagógica na formação de professores de Educação Física durante o ensino remoto emergencial, destacando a perspectiva de uma professora em docência assistida. A pesquisa enfatiza a importância da escrita como tecnologia de expressão na aprendizagem colaborativa e o uso de artefatos pedagógicos digitais, refletindo sobre o crescimento de professores e alunos apesar das limitações impostas pela pandemia. A narrativa se baseia em estudos qualitativos e busca problematizar a formação docente em um contexto de ensino remoto.

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ARTIGO ORIGINAL

Formação de professores no ensino remoto: relato da docência


assistida
Training teach in remote teaching: report of assisted teaching
Formación del profesorado en enseñanza remota en emergencia: informe de enseñanza
assistida
Nathalia Dória Oliveiraa , Allyson Carvalho de Araújoa* ,
Marcio Romeu Ribas de Oliveiraa 

Palavras-chave: RESUMO
Educação Física; Problematiza a experiência pedagógica na formação de professores em Educação Física no
Ensino remoto ensino remoto, a partir da perspectiva da professora em docência assistida. O texto se inspira
emergencial; nos estudos narrativos e, em postura qualitativa, se debruça sob o teor narrado pela professora
Tecnologia; em docência assistida sobre experiência no semestre de 2020.2. Em análise da experiência é
Pandemia. problematizada a potência da escrita como uma tecnologia de expressão de dimensão recursiva
na aprendizagem colaborativa e o impulso produtivo de artefatos pedagógicos digitais como
sintoma de ansiedade em repor a presença. A problematização a luz de postura colaborativa
de um comentador crítico aponta para crescimento de professora neófita e alunos mesmo
considerando limites postos pela pandemia.

Keywords ABSTRACT
Physical Education; This paper problematizes the pedagogical experience in the Physical Education teacher
Emergency remote education in remote teaching from the perspective of a teacher in assisted teaching. Narrative
teaching; studies inspire the text and, in a qualitative approach, focus on the content narrated by
Technology; the teacher in assisted teaching about the experience in the 2020.2 term. The experience
Pandemic. both problematizes (1) the power of writing as an expression technology with a recursive
dimension in collaborative learning and (2) the productive impulse of digital pedagogical
artifacts as a symptom of anxiety to restore in-person activities. The problematization by
critical commentator’s collaborative posture points to the growth of the neophyte teacher
and students, even considering the limits imposed by the pandemic.

Palabras-clave: RESUMEN
Educación Física; Problematiza la experiencia pedagógica de formación docente en Educación Física en la
Enseñanza remota de enseñanza remota de emergencia, desde la perspectiva del docente en enseñanza asistida.
emergencia; Se inspira en los estudios narrativos y, en un enfoque cualitativo, se centra en el contenido
Tecnología; narrado por el docente en la enseñanza asistida sobre la experiencia en 2020.2. En el análisis
de la experiencia, se problematiza el poder de la escritura como tecnología de expresión
con una dimensión recursiva en el aprendizaje colaborativo y el impulso productivo de los
artefactos pedagógicos digitales como síntoma de la ansiedad por restaurar la presencia.
La problematización de comentarista crítico apunta al crecimiento de docentes y alumnos
neófitos aún considerando los límites impuestos por la pandemia.

Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Natal, RN, Brasil.


a

*Autor correspondente:
Allyson Carvalho de Araújo
E-mail: allyssoncarvalho@[Link]

Recebido em 15 de outubro de 2022; aceito em 20 de outubro de 2022.


DOI: [Link]
Este é um artigo Open Access sob uma licença CC BY-NC-ND ([Link]
Formação de professores no ensino remoto

Pandemia. de uma série com 10 cadernos didáticos, com orientações


para o ensino remoto2.
INTRODUÇÃO No lastro de outros estudos que buscam refletir
A abrupta ruptura do modelo presencial de ensino sobre a experiência do ERE e perspectivar aprendizados
provocada pelo necessário isolamento social em contexto para a área educacional, especificamente na EF, nos
de pandemia, como estratégia de conter a infecção pelo inscrevemos na tarefa de problematizar a experiência
SARS-CoV-21, foi um desafio político/social/pedagógico de ensino remoto em um componente curricular do
que ainda tem demandado reflexões por parte de curso de EF da UFRN. Assim, o objetivo deste texto é
professores no mundo inteiro. Entendendo que mais de de problematizar a experiência pedagógica no ensino
130 países interditaram suas instituições de ensino (van remoto na disciplina de “Mídia, Tecnologia e Educação
Lancker e Parolin, 2020), carecemos ainda de reflexões Física” (MTEF), vinculada ao curso de EF da UFRN, a partir
sobre esse momento. da perspectiva da professora em docência assistida. A
Se, na área de Educação Física (EF), parte significativa disciplina aconteceu em ERE no semestre de 2020.2.
das pesquisas publicadas até agora dão relevo aos O texto se alinha metodologicamente com os estudos
processos na Educação Básica (Leite et al., 2022; narrativos e, em uma postura qualitativa, se debruça sob
Kucera et al., 2022; Silva et al., 2021), também se observa o teor narrado pela professora em docência assistida.
algumas reflexões na formação de professores com dados A professora narradora é uma jovem pesquisadora que
interessantes. Ovens et al. (2022), ao trabalharem suas estava em estágio de docência por oportunidade de sua
experiências no ensino remoto emergencial (ERE) na formação de mestrado. Tecnicamente o texto se inspira
formação de professores em EF, atestam uma sensação nos casos pedagógicos sistematizados por Casey et al.
de se tornarem professores universitários novatos (2017). Assim, a professora narradora oferece uma
novamente. narrativa que serve como ponto de partida para análises
de pesquisadores/colaboradores em busca de uma
Mesmo que existam apontamentos de inserção síntese problematizada.
dos debates de tecnologia no currículo da formação de
professores (Araújo et al., 2021a, 2022) já que a literatura O estágio de docência na UFRN tem por objetivo
tem massivamente apontado a porosidade do tema das contribuir na formação para a docência de alunos em
mídias e tecnologias no currículo e metodologias escolares cursos de pós-graduação (Mestrado e Doutorado),
(Tinôco e Araújo, 2020; Oliveira et al., 2021; Araújo et al., promovendo articulação formativa entre a graduação e
2021b), ainda existem lacunas para que a formação a pós-graduação. A regulamentação desta atividade na
docente em EF consiga transitar com tranquilidade em instituição (Natal, 2010) prevê elementos importantes
um modelo remoto, seja por questões técnicas ou mesmo para a docência no Ensino Superior, mas não contempla
por questões de ordem pedagógica, e a pandemia do a experiência em contexto de ERE. Entendemos que
a experiência vivenciada na UFRN pode servir como
SARS-CoV-2 deu relevo a esta nossa fragilidade. É certo
problematização que reflete outras realidades e, por tal
também que existem algumas experiências na formação
fato, percebe-se a relevância do trabalho posto.
continuada que exploram caminhos possíveis com a mídia
e a tecnologia (Araújo et al., 2019; Souza et al., 2022), mas O texto encontra-se organizado em 4 momentos,
que igualmente demandante de maiores investimentos a saber: (I) uma introdução que localiza o leitor sobre
de pesquisa. tema e abordagem do estudo; (II) a narrativa de uma pós-
graduanda, em nível de mestrado, que teve sua primeira
No Brasil, todos os sistemas de ensino e/ou
experiência docente no ensino superior em situação de
instituições seguiram as determinações do Ministério
ERE; (III) uma análise crítica da experiência relatada e;
da Educação (Brasil, 2020a, b) que dispunham sobre a
(IV) considerações finais.
substituição das aulas presenciais por aulas em meios
digitais com a reorganização do calendário letivo e com NARRATIVA DO SE TORNAR DOCENTE EM
a possibilidade de cômputo de atividades não presenciais
para fins de cumprimento da carga horária. TEMPOS DE PANDEMIA
A Universidade Federal do Rio Grande do Norte Previamente irei explanar o lugar em que ocupo
(UFRN), por exemplo, com intenção de apoiar as medidas neste relato. Formada a pouco tempo na graduação em
de proteção social, interrompeu todas as suas atividades EF (2019), eu vinha dialogando com estudos e pesquisas
presenciais em 17 de março de 2020. Para diminuir os sobre, a partir e com as mídias e tecnologias na formação
prejuízos relativos ao ensino e na busca de retomada do docente e tive a possibilidade de debater algumas
calendário acadêmico, surge o ERE na instituição. A UFRN, experiências de professores no contexto sem pandemia.
buscou nutrir a comunidade acadêmica com a publicação Até esse momento, os debates sobre propostas de
uso dos recursos tecnológicos eram pensados como
“opcionais” para o ensino e aprendizagem dos discentes
1
Para compreender mais a respeito do SARS-CoV-2 e
suas consequências, convém consultar os websites da
Organização Mundial da Saúde (OMS, 2022). 2
Para ter acesso ao material, basta acessar UFRN (2022).

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Formação de professores no ensino remoto

e, normalmente, se centravam em torná-los mais a trazer reflexões sobre a tecnologia de forma didática,
atrativos para as salas de aula. colocando-a como instrumento importante que pode
Já a continuidade de minha formação, em nível auxiliar no processo de aprendizagem. Após leitura e
de pós-graduação stricto-sensu, concomitou com a debate na aula síncrona pedimos aos discentes que
pandemia em que fomos “obrigados” a ser intermediados revisassem o que já haviam escrito e ampliassem a escrita
com as tecnologias para dar continuidade, de alguma a partir das reflexões em aula.
forma, em nossas práticas na educação. Nesse percalço Na sequência do curso, ainda nesse momento de
conturbado de crise sanitária, econômica e psicossocial debate sobre os conceitos que permeavam a disciplina,
tivemos que nos reinventar aprendendo não apenas a colocamos em discussão os conceitos da cultura digital e
manusear tecnicamente as interfaces comunicativas, mas educação (Heinsfeld e Pischetola, 2017) e dos aplicativos
principalmente suas possibilidades dinâmicas no tempo para atividades físicas (Verzani e Serapião, 2020), este
e espaço, bem como os limites que o ensino remoto nos último instigado pela discussão que foi trazida na aula
colocava. sobre os aplicativos utilizados amplamente na pandemia,
Ao ingressar na docência assistida com a disciplina sobretudo em espaço de ensino não formal. Para
MTEF no semestre 2020.2, tinha o desafio de ministrar, aumentar a interação dos discentes, se isentavam da
pela primeira vez, aulas para o ensino superior com interação com a câmera desligada, elaboramos um jogo
o incremento de fazê-lo em meio a pandemia. O pela plataforma Kahoot com perguntas sobre os temas
cronograma previsto em conjunto com os docentes tratados. Interessante observar que esta foi uma das
titulares foi composto por aulas síncronas e assíncronas aulas de maior participação dos alunos e tornou-se um
com dois encontros semanais com o grupo de alunos. momento emblemático de interação desencadeadas pela
No primeiro momento da disciplina fizemos plataforma tecnológica.
uma avaliação diagnóstica dos discentes propondo Foi percebido claramente que o texto reflexivo
a elaboração de um pequeno texto em que eles construído pelos discentes desde o início da disciplina,
pudessem expor a relação das tecnologias com a EF, relacionando as tecnologias com a EF, foi ampliado e
levando em consideração suas próprias experiências e amadurecido a partir de conceitos e ideias postas em
vivências em tempos pandêmicos e instigando-os com discussões nas aulas síncronas. Além disso, os feedbacks
questionamentos como: Como foi o semestre remoto nas aulas assíncronas, através da plataforma online do
passado? Quais as implicações da pandemia para o Google Doc, possibilitaram o diálogo com a escrita de
ensino de EF? forma mais interativa/colaborativa, trazendo significância
Os textos elaborados pelos alunos foram no processo de aprendizagem, e não sendo apenas um
compartilhados pela ferramenta Google Docs para texto obrigatório final da disciplina desconectado da
que pudéssemos dialogar com a escrita e construir em formação.
conjunto até o final da disciplina. No segundo momento do curso, propomos um
Nessa primeira atividade foi importante observar estudo da realidade no qual os discentes tinham que
duas questões. A primeira foi que os discentes possuem analisar e discutir sobre um tema que envolvesse as
conhecimentos e experiências prévias importantes para tecnologias e EF. As aulas posteriores foram de orientação
a construção da disciplina e que é importante não apenas da pesquisa/estudo. Foi um desafio pensar para além da
ouvi-los, mas instigar as ideias e desconstruir algumas minha própria pesquisa, buscar textos que auxiliassem
“verdades” que carregam e provocá-los a questionar. na pesquisa dos discentes. Compreender os limites e
E a segunda questão refere-se a individualidade de percalços que uma graduação possui e associar este fato
cada discente, percebendo como a pandemia e as aulas ao contexto pandêmico que estávamos (atravessado por
remotas os afetam de formas distintas, com pontos dificuldades pessoais e financeiras que impossibilitava
positivos (a otimização do tempo com relação ao que a pesquisa fosse realizada de forma mais efetiva)
deslocamento para universidade ou os conhecimentos me fez compreender um pouco mais dos limites de cada
de aplicativos e sites interativos) e pontos negativos discente, mesmo não impedindo nenhuma pesquisa de
(desmotivação em frente a tela do computador ou celular ser realizada. Desta feita, os discentes apresentaram doze
ou a falta de conectividade), entre outras questões. temas (Figura 1).
As aulas síncronas eram realizadas via plataforma Como podemos observar na figura os temas
Google Meet e, com a autorização dos discentes, escolhidos pelos discentes, trazem inquietações,
gravávamos para disponibilizar para aqueles/as discentes dificuldades e problemáticas dos seus cotidianos, como
que não puderam acompanhar a aula naquele momento. implicações do ensino remoto, desafios do ensino
Bem como, utilizamos o aplicativo do Whatsapp para na pandemia, impactos da pandemia nos recursos
facilitar a comunicação e disponibilizar links e textos tecnológicos, entre outros. Todos os alunos apresentaram
utilizados na aula. o objetivo da pesquisa/estudo, a problemática, uma
No decorrer do curso realizamos leituras e discussões breve metodologia com a descrição da coleta dos dados
sobre a temática da tecnologia, em seus conceitos de teor e da análise desses dados. Foi interessante perceber
olhar crítico (Selwyn, 2011, 2017). A leitura nos ajudou que a dinâmica de construção da disciplina com foco no
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Formação de professores no ensino remoto

utilizando da mesma metodologia, podendo também


realizar aulas mediadas pela tecnologia.
Assim, apesar do medo e incerteza da primeira
experiência com o ensino superior ter sido potencializados
pelo contexto da pandemia e a responsabilidade na
formação de futuros docentes, estar ao lado de docentes
experientes fez toda a diferença tanto para colocar
sugestões, como mostrar caminhos possíveis que me
fizeram refletir para além do que estava posto.
A docência assistida ampliou meu olhar diante
das tecnologias na produção de materiais com o olhar
crítico e criativo de diferentes temas que os discentes
trouxeram, como o “Yoga e sua relação com as redes
sociais e plataformas sociais”. O que me fez aprender
diferentes objetos de conhecimento nas mais variadas
Figura 1. Temas dos Estudos da Realidade dos discentes. Fonte: formas auditivas, visuais, escritas, entre outras linguagens
Elaborado pelos Autores (2022). utilizadas e estimuladas pelos discentes.
Outro ponto é também em relação as frustrações
que dividimos com os discentes que por vezes não
interesse do aluno promoveu engajamento para além dos conseguem entregar a atividade por falta de acessibilidade
conteúdos do componente curricular, dado que muitos e/ou aparelho, ou até mesmo não conseguem finalizar
dos discentes nunca tinham experimentado e desenhado a disciplina por problemas pessoais, familiares e/ou
uma pesquisa. de saúde. Nos envolvemos nos seus relatos pessoais e
Com intenção de darmos mais visibilidade ao estudo profissionais, nos propomos a resolver na medida do
dos discentes e deixar a pesquisa mais acessível para possível para que o processo de ensino e aprendizado
outros sujeitos interessados nos temas pesquisados, não seja prejudicado, mas que a própria pandemia já
exploramos alguns sites e aplicativos para que eles nos colocou a prova.
transformassem o texto escrito em outra linguagem que A educação brasileira trás historicamente
pudesse ser compartilhada em formato digital. Assim, desníveis severos e a pandemia colocou em relevo
apresentamos como possibilidades de expressão do tais desigualdades. Contudo, a docência assistida me
conteúdo, alguns recursos educacionais digitais (REDs) mostrou o quanto é importante defender a universidade
dispostos na Plataforma Integrada de RED do MEC (Brasil, pública e seu ensino de qualidade que dialoguem
2022), além de plataformas específicas para criação de com a realidade da sociedade. A disciplina MTEF foi
tais REDs, a saber: a Anchor (2022), o Canva (2022), o construída com espaço para diálogo e caminhos abertos
Wordwall (2022), o Powtoon (2022) e o Slide GO (2022). para reflexão e crítica em contexto. Com isso, é preciso
No final, alguns alunos colaboraram com indicações refazer o caminho, conectar com o sonho para continuar
de outras plataformas que também foram utilizadas, caminhando.
ampliando a lista de possibilidades. Citamos a Padlet
(2022), a Vizia (2022), a Prezi (2022) e o E-futuro (2022). ANÁLISE DO RELATO: REFLEXÃO DO QUE
Na construção dos REDs dos grupos, desafiamos FOI VIVIDO PELA DISCENTE/DOCENTE E
os discentes a pensar e propor intervenção para as
dificuldades/problemas/críticas realizados no estudo. POR TODOS NÓS
Assim, foram criados podcasts, infográficos e vídeos, Quando a professora trata das aprendizagens e
sendo utilizados sites e aplicativos apresentados na aula fluxos que foram sendo elaborados no seu estágio de
síncrona. docência, resolvi tratar de alguns aspectos que neste
Durante a experiência de estágio de docência período pandêmico tiveram muito destaque e relevo
percebemos que os discentes, mesmo com a vivência da seja em conversas entre professores e professoras ou
pandemia e habilidade técnica de algumas ferramentas mesmo em reuniões para pensar estratégias e formas de
tecnológicas, não possuíam uma leitura crítica desse enfrentar os desafios que brotavam dia a dia em nossos
contexto, mas após os estudos propostos percebemos cotidianos docentes.
uma criticidade frente ao contexto, além de usos mais Destacarei dois pontos que me parecem relevante
críticos/conscientes das ferramentas tecnológicas e suas no relato e que, me parecem gatilhos de aprendizagens
implicações em nossas vidas. Isso trouxe mudança de e reflexões para além dos tempos pandêmicos, a saber:
percepção importante na formação dos discentes, em (01) a escrita como uma tecnologia de expressão que
que particularmente na docência assistida foi incentivo toma dimensão recursiva de aprendizagem e pode ser
para continuar mesmo em tempos não pandêmicos potencializada pela atitude colaborativa e; (02) o impulso
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Formação de professores no ensino remoto

produtivo de artefatos pedagógicos digitais como sintoma plataformas e seus tipos, mas a produção de imagens e
de ansiedade em repor a presença. sons que tratem dos temas que estávamos discutindo,
No que se refere ao primeiro ponto, destacamos na abandonar a produção plataformizada pode contribuir
narrativa da professora as menções sobre a prática de para entendermos que as imagens e sons habitam nossas
escrever como um processo contínuo e colaborativo, me formas de relação com o conhecimento no mundo, e
parece que pensar o texto como uma mídia, tecnologia que isso não foi surrupiado com a pandemia... Como diz
e dispositivo é uma expressão da nossa época histórica. Lúcifer Estrela da Manhã, na série Sandman “Sabemos
“Escrever não é apenas uma atividade técnica, é também como se fiava nas ferramentas. Mas as ferramentas são
uma prática corporal de gozo” (Barthes, 2004, p. 293). as armadilhas mais sutis. Tornamo-nos confiantes com
Ao escrevermos principiamos os nossos processos de elas e, em sua ausência, vulneráveis, fracos e indefesos”3.
pesquisar e como “[...] maior desafio da escrita é o Já no que se refere ao segundo ponto que gostaria
começá-la; no seu todo e em cada uma de suas partes. de destacar, é perceptível que uma grande onda
[...]. É ele ato inaugural, começo dos começos” (Marques, de ansiedade foi se formando em nossas práticas
2000, p. 9). pedagógicas no ERE. Tanto pela situação emocional que
Se o uso de tecnologias, dispositivos e plataformas, vivíamos, mas também pelos acréscimos no trabalho
já estava presente anteriormente ao tempo pandêmico, dos professores e professoras (Oliveira e Pereira, 2020),
o que estava ausente era o uso de estratégias didáticas novidade que empurrou a maioria de nós para uma
colaborativas entre professores e estudantes, expressadas ideia produtiva em relação aos saberes e fazeres para o
nestas plataformas em similar horizontalidade, em que ensino remoto.
todos e todas estão acessando, praticando o escrever, Neste ritmo, foram se empilhando em nossas
colegiando saberes e apontando limites num ciclo não caixas de e-mail e rede de contatos de mensagens as
linear. Marques, nos incita a pensar a escrita como algo mais diversas formas de utilizarmos a rede mundial
de responsabilidade colaborativa construtiva e “por isso de computadores, desde cartilhas com “as melhores”
reescrever sempre é preciso: tarefa nunca conclusa que plataformas para criarmos podcasts, mapas conceituais,
se impõe tanto ao autor como ao leitor”(2000, p. 10). vídeos, apresentações, entre outros dispositivos
O tempo da escrita pulveriza o tempo pedagógico pedagógicos que nos ajudariam no enfrentamento
do estar junto geograficamente, extrapolando os limites dos dilemas (Ex: Flor et al., 2022; Cunha et al., 2022).
espaciais, levando nossas identidades entre os lugares Tenho a impressão que isso foi um dos aspectos que
remotamente acessados, como aponta Marques, o texto gerou certa necessidade de produção de materiais,
e que é uma narrativa muito presente na economia
é reescrito no mesmo momento em que está sendo
dos sentidos na educação contemporânea e envolvem
escrito, num estar sendo atemporal, coletivo e em rede,
uma linguagem relacionada ao fazer por si mesmo,
com várias mãos ao mesmo tempo. Há uma extensão
aliado ao neotecnicismo pedagógico (Leite et al., 2022).
espacial e temporal da sala de aula, ocupando os mais
A quantidade de apresentações síncronas em lives,
diversos tempos e espaços de aprender e ensinar.
reuniões intermináveis que serviam mais como acalanto
O controle/frequência foi ultrapassado e substituído do que propriamente para a resolução dos problemas
pelo enfrentamento contínuo das demandas, que que enfrentávamos na relação pouco amigável com as
precisaram ser desenvolvidas ao longo dessas tecnologias, mídias e seus dispositivos, foram recorrentes
aprendizagens e ensinagens. É possível nos aproximarmos para criar tal estado de coisas.
do que Yuk Hui (2020) escreve sobre as relações entre
A pandemia não produziu essas situações, mas
máquina e ecologia, para ele na recursividade há um ela apresentou aquilo que parecia invisível em nossos
movimento mecano-organicismo, que está presente nos cotidianos de sala de aula, ela intensificou o que já
modos que máquinas e seres relacionam-se em suas mais estava muito presente em nossas rotinas, que podemos
diversas maneiras de aprendizagens, pois, perceber no atual momento como, uma falta de acesso à
Em Recursivity and Contingency, de 2019, situo rede pelos nossos alunos, ausência dos dispositivos para
o feedback em uma categoria mais ampla: a da acessar a rede, dificuldade de trabalho coletivo entre os
recursividade. A recursão designa, em geral, uma professores e professoras, e um excesso de controles e
operação não linear que retorna constantemente para de tarefas pedagógicas, o que pode explicar uma eterna
si mesma a fim de se conhecer e se determinar (Hui, convergência nos relatos sobre a solidão nas aulas e a
2020, p. 103). falta de participação dos estudantes. Não por acaso que
vários desses temas emergiram nos textos de construção
Essa ideia de Yuk Hui, sobre o sentido recursivo da contínua e colaborativa, conforme relatado.
aprendizagem, nos aciona algumas pistas para pensarmos As formas, modos e usos da tecnologia sempre
as contingências do tempo pandêmico. No caso que foi estiveram ao nosso lado no ensinar e aprender, mas,
narrado, não seria necessária uma associação tão rápida de alguma forma, não prestamos atenção na ideia de
e multiplataforma, se tivéssemos (a educacão brasileira)
nos organizado na escrita e na relação dessa escrita com
outras linguagens. Deslocaríamos a ideia de produção das 3
Sandman (Netflix, 2022) - Episódio 4 - Minuto 21.

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Formação de professores no ensino remoto

investigar como a rede mundial de computadores poderia Para além de reflexões feitas até o presente
ter ajudado, não no sentido de produzir mais materiais momento é importante trazermos alguns dados objetivos
sobre os mesmos temas, mas de propor um olhar crítico e da experiência com o componente curricular pela
criativo para o que já se tinha produzido na rede4. Aqui é avaliação institucional que a UFRN faz semestralmente.
possível pensarmos na ideia de que há um tipo de ruptura Segundo o relatório detalhado da avaliação da docência
no sentido da mediação com os artefatos tecnológicos no semestre 2020.2, o componente curricular relatado
contemporâneos e os processos educacionais percebidos teve 36 alunos concluintes e 03 trancamentos (sendo um
a partir da ideia de uma ecologia pedagógica com esses deles declaradamente por motivo de incompatibilidade
dispositivos5. Pischetola e Daluz (2018, p. 199) citando com o horário). A avaliação discente sobre a atuação
Postman (1970, 1998, 2000), lançam a assertiva que “a docente teve nota média de 9,31, com desvio padrão
mudança tecnológica não é apenas aditiva, cumulativa, de 1,61.
mas marcada por uma relação dialógica entre os objetos Claramente observa-se uma boa avaliação discente
e os sujeitos que definem uma época histórica”. A frente a experiência relatada pela professora. Contudo,
mudança que a pandemia promoveu em nossas rotinas, tais dados não isentam sentimentos que questionam a
me parece, não foi suficiente para estabelecermos um capacidade da recém professora do ensino superior, nem
diálogo com essas tecnologias, dispositivos e plataformas, mesmo tensionamento possíveis de temas/estratégias
pois, de alguma forma, aderimos acriticamente a eles e vivenciadas à luz de um comentador crítico. Temos que
aos modos gamificados6 de tratar o conhecimento na o principiar de carreira docente no ensino superior pela
pandemia. professora relatante foi deveras desafiada e prontamente
Certo que existem outras nuances legítimas de correspondido pelas estratégias/saberes/experiências
serem destacadas/refletidas a partir do relato da que a mesma dispunha no momento no semestre letivo
professora, mas dedicar-se a pensar em algumas coisas de 2020.2. Contudo, retomar as reflexões a luz de um
cada vez é intencional. Lanço, neste momento, estes dois comentador crítico tem a potência de reafirmar a escrita
pontos para que possamos ruminar pelo que passamos colaborativa como caminho acertado no processo, ao
no ERE e busquemos negar a célere e contínua demanda passo que a constante criação dos artefatos digitais,
de ter todas as respostas para renovar nossos volumes apesar de conter uma dimensão produtiva potente para
de atividades/processos/análises. Que possamos ter um os alunos, trás consigo uma armadilha do neotecnicismo
olhar crítico para o que vivemos, mas nem por isso menos pedagógico no discurso do produto e da produção como
generosos com o nosso trabalho. síntese última do processo de aprendizagem.
Como professores, neófitos ou não, somos
CONSIDERAÇÕES FINAIS convidados a sempre repensar em nossas experiências
para entender que a aprendizagem discente habita mais
A problematização da vivência pedagógica é um no processo que no produto.
desafio sempre incompleto, sobretudo quando se trata
de fazê-lo sob o prisma de docente neófito. Admitir o FINANCIAMENTO
inacabamento da reflexão é potência para crescimento
da cena educativa. Temos no relato da professora O presente trabalho foi realizado com apoio da
um movimento interessante de estímulo à escrita Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
colaborativa e criação de recursos educacionais digitais Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
como espaços que engajaram discentes e possibilitaram
o efetivo desenvolvimento do componente curricular. CONFLITOS DE INTERESSE
Os autores declaram não haver conflito de interesse.
4
Ver Edméia Santos em live, organizada pela Associação AGRADECIMENTOS
Nacional de Pós-Graduação em Educação (ANPEd),
tratando de elementos iniciais sobre as práticas Agradecemos aos alunos do componente curricular
educacionais no contexto pandêmico e argumenta sobre “Mídia, tecnologia e Educação Física”, do curso de
a curadoria digital de conteúdos (ANPEd, 2020). Educação Física da UFRN, matriculados no semestre
5
Ver Postman (1994) e Pischetola e Daluz (2018). 2020.2.
6
Para Han (2018) a gamificação é uma estratégia do
capitalismo emocional para ampliar nossos rendimentos e
REFERÊNCIAS
produtividade, manifestadas através de uma dramatização Anchor [Internet]. 2022 [citado em 2022 Set 20]. Disponível
de nossas práticas de trabalho e de vida. Para ele o em: [Link]
que é lento e demorado não pode ser gamificado, tal ANPEd: Associação Nacional de Pós-Graduação em Educação.
argumentação indica a necessidade de ponderarmos se as Educação a distância: universidade e pandemia.
práticas de gamificação de nossos processos educacionais Participação de Geovana Lunardi e Edméia Santos
são necessárias em sala de aula, e em que medida elas se [Internet]. Associação Nacional de Pós-Graduação em
associam com a estética do capitalismo contemporâneo. Educação, 15 abr. 2020. 1 vídeo (58min:34s.) [citado

Rev Bras Ciênc Esporte. 2022; 44: e2022008 6


Formação de professores no ensino remoto

em 2022 Set 20]. Disponível em: [Link] Kucera C, Gomes ALV, Ovens A, Bennett B. Google Sites como
PWmuNdt7dAc ferramenta de ensino de Educação Física a distância em
Araújo AC, Carvalho MEP, Ovens AP, Knijnik J. Competências tempos de covid-19: pedagogia, estratégias, reflexões e
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