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Características do Direito Processual Civil

O direito processual civil é um ramo instrumental que regula os meios para a resolução de conflitos, assegurando a efetividade do direito substantivo e visando a paz social. Embora as normas sejam de direito público, elas se aplicam a interesses privados, destacando a interdependência entre o direito processual e o direito substantivo. O Novo Código de Processo Civil de 2013 introduziu mudanças significativas, incluindo a gestão processual e a distinção entre ações declarativas e executivas, refletindo a evolução do sistema jurídico.

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Características do Direito Processual Civil

O direito processual civil é um ramo instrumental que regula os meios para a resolução de conflitos, assegurando a efetividade do direito substantivo e visando a paz social. Embora as normas sejam de direito público, elas se aplicam a interesses privados, destacando a interdependência entre o direito processual e o direito substantivo. O Novo Código de Processo Civil de 2013 introduziu mudanças significativas, incluindo a gestão processual e a distinção entre ações declarativas e executivas, refletindo a evolução do sistema jurídico.

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Características

(i) As normas de direito processual são instrumentais ou adjetivas

O direito processual não indica quais os critérios de decisão dos casos que são levados a tribunal; não
determina como se resolve o litígio enunciado qual, ou quais, os interesses que devem prevalecer;
“apenas” concede o meio jurisdicional através do qual a ação ou litígio podem ser resolvidos ou
efetivamente realizados os interesses violados. Constitui direito instrumental por se “limitar” a
disciplinar os meios a utilizar para se alcançar a solução concreta dos diversos conflitos de interesses,
mediante aplicação dos critérios fixados em termos gerais e abstratos, por dois ramos de direito privado
(civil e comercial). É instrumental, note-se bem, mas não secundário face ao direito substantivo; entre
os dois complexos de normas existe uma estreita interdependência. Se, na verdade, o direito processual
não pode existir sem o direito substantivo, cumpre ter presente que a existência do direito substantivo,
no que diz respeito à sua efetividade, depende do direito processual.

Importa, no entanto, ter presente que a instrumentalidade do processo civil, não traduz,
essencialmente, um nexo existente entre o processo civil e as situações substantivas preexistentes,
nem tão pouco um nexo com o próprio ordenamento jurídico substantivo. A atividade jurisdicional
desenvolvida pelo requerente e pelo tribunal, disciplinada pelo direito processual, não tem, em regra,
por escopo, apurar a situação em que o demandante se encontra investido face ao demandado, tendo
presente os factos carreados pelas partes e outros que ao tribunal seja lícito considerar, mas, ao invés,
apurar se a situação substantiva afirmada pelo demandante existe. Para se poder concluir que o
processo tem por escopo a tutela de situações substantivas efetivamente existentes ou o direito
material de onde resultam, e que, como tal, o processo se caracterizaria por uma correspondente
instrumentalidade, haveria de se admitir, contra a lei, uma obrigatoriedade de tutela das situações
subjetivas privadas. Não existindo aquela obrigatoriedade, a instrumentalidade do processo civil diz
respeito aos interesses subjetivos juridicamente protegidos, isto é, aos interesses tidos em conta pelo
ordenamento jurídico material quando estatui uma determinada forma de composição de interesses
conflituantes. A instrumentalidade diz, essencialmente, respeito ao direito processual civil face ao
direito material, mas não tanto ao processo civil – enquanto série de atos, logicamente encadeados
entre si, com vista à obtenção da providência judiciária requerida pelo autor – face ao direito
material.

O direito processual civil, enquanto sistema normativo que regula “apenas” os meios necessários para
se alcançar a solução concreta do conflito levantado entre as partes ou para se dar realização efetiva ao
direito violado, é instrumental das normas que definem o interesse prevalecente, das normas que ditam
a solução para o conflito de interesses. Ao disciplinar o processo, o direito processual permite a
concretização das soluções gerais e abstratas, ditadas pelo direito material e, assim, a possibilidade de
ser imposto coercivamente.
Já o processo civil, enquanto meio de atuação, enquanto sistema sequencial de atos, despoletado pelo
exercício do direito de ação, é essencialmente instrumental, não da norma que dita a solução ou
sequer da solução da mesma decorrente, mas sim, e fundamentalmente, do interesse juridicamente
protegido pela solução, na medida da sua disponibilidade. O titular do direito à indemnização é-o
independentemente da sua vontade e da prolação de uma sentença declarativa nesse sentido, o titular
do direito potestativo de requerer o divórcio ainda que de exercício necessariamente judicial, é-o
independentemente da sua vontade e da prolação da sentença que decrete o divórcio. À tutela abstrata
ou proteção daquelas situações subjetivas, basta a existência de normas que disciplinam os atos
adequados à declaração da sua existência, já a tutela efetiva dos interesses subjetivos, inerentes
àquelas mesmas situações, está dependente do processo, da atividade jurisdicional em que o mesmo se
consubstancia. A titularidade do direito rectius a sua atribuição, visa a proteção de um interesse digno
de tutela jurisdicional, isto é, suscetível de ser imposto coercivamente. Tal suscetibilidade é assegurada
pelo direito processual, mas cabe ao titular do interesse decidir sobre a sua concretização.

Por outras palavras, se o direito processual civil tem como fim disciplinar o processo civil, e se o
processo civil se carateriza por se encontrar na disponibilidade das partes, deve entender-se que
enquanto aquele sistema normativo é garante das soluções decorrentes do direito material, a sequência
de atos em que o processo se consubstancia, visando a concretização daquela garantia, tem por fim
efetivar a tutela das situações substantivas, a tutela dos interesses afirmados pelas partes, que lhe são
subjacentes, permitindo ou efetivando os mesmos. A instrumentalidade diz respeito aos interesses
afirmados pelas partes e não tanto aos proclamados na lei substantiva.

(ii) O direito processual é um ramo de direito público

Não obstante se destinar a integrar ramos de direito privado, as normas de direito processual civil são
de direito público. Se é certo que, por regra, na ação estão em causa interesses particulares das partes,
não pode deixar de se ter em linha de conta que o fim do direito processual é o interesse coletivo da
paz social, o interesse coletivo da composição dos interesses conflituantes. Por outro lado, cabe ter
presente que entre as partes e o juiz não existe uma posição de igualdade, o juiz exerce na relação
processual uma função (jurisdicional) de soberania. Assim, considerando quer o critério da natureza dos
interesses em causa, como o critério da posição dos sujeitos na relação, importa reconhecer que o
direito processual é um ramo de direito público.

Importância

Não é difícil destacar ou mesmo intuir, a importância do direito processual civil. A disciplina da vida em
sociedade, das relações intersubjetivas, consubstancia-se, em regra, na atribuição de direitos e na
imposição dos correlativos deveres ou obrigações. Mas, como é fácil de perceber, para se assegurar a
paz social, para se dirimirem os frequentes conflitos de interesses, não basta a existência de um
conjunto de normas que de forma genérica e abstrata definam o interesse prevalente.
Não basta existir um conjunto de normas a estatuir determinadas soluções para que os conflitos se
resolvam. Não é pelo facto de, por exemplo, o artigo 483º CC estatuir que quem com dolo ou mera
culpa violar o direito de outrem fica obrigado a indemnizar o lesado pelos danos causados, que o conflito
entre o condutor da viatura e a vítima do acidente de viação se resolve ou ultrapassa.

Vedando aos particulares o recurso à justiça privada o Estado teve de conceber um sistema de justiça
pública, chamando exclusivamente a si, através dos seus órgãos, o poder de reconhecer
vinculativamente os interesses tutelados pelo direito substantivo e de os realizar coercivamente, isto é,
recorrendo, se necessário, à força.
Um sistema de justiça pública tem como pressuposto essencial a atribuição aos particulares do direito
de recorrer aos tribunais (um direito de acesso aos tribunais) e, igualmente, o direito de ação, ou seja, o
direito de requerer uma concreta providência jurisdicional possa ser atingida.
O exercício do poder jurisdicional, a atuação das diversas magistraturas, das partes e seus
representantes, dos intervenientes acidentais e dos funcionários judiciais, não pode ficar, como é óbvio,
ao arbítrio de cada um. A disciplina dos diversos atos processuais é condição indispensável à garantia do
interesse público (da justa composição dos litígios) e dos interesses individuais. A aplicação do direito, o
“dizer o direito” de forma vinculativa, a tarefa de apurar a realidade e de proceder à sua subsunção às
soluções jurídicas – genérica e abstratamente previstas no direito material ou substantivo – pressupõem
a prática de uma multiplicidade de atos, de diversa natureza, que carecem duma adequada regulação.

O desconhecimento desta disciplina legal ou a sua má aplicação, é suscetível de impossibilitar a


realização dos interesses merecedores de tutela, pelo que fácil se torna concluir que o processo é
instrumento indispensável da função jurisdicional.
Fontes de Direito Processual Civil. Fontes anteriores a 2013.

Código de 1876 -> Inspiração liberal – conceção essencialmente privatística-disponibilidade quase total/
partes “donas do processo” – juiz “convidado de pedra”;
Reforma do Processo de 1926 -> José Alberto dos Reis- Reforço dos poderes do juiz;
Código de 1939 -> José Alberto dos Reis, agrega o processo comercial- maior publicitação do processo –
inquisitório-oralidade…;
Código de 1961 -> redação final da responsabilidade de Antunes Varela- nova disciplina da audiência
preparatória, registo áudio da prova pessoal…
Reforma de 1995/1996:
- Tem como propósito/pano de fundo: assegurar uma simplificação processual e assim “a prevalência do
fundo sobre a forma, a justa composição do litígio”;
- Atenuação do princípio dispositivo, ampliação dos poderes de intervenção do juiz;
- Afirmação do princípio da cooperação entre as partes e o tribunal, como o novo paradigma.

O Novo Código de Processo Civil (2013)

Renumeração do articulado anterior/nova sistematização


Solução de continuidade com as linhas orientadoras da reforma de 1995/1996

▪ Algumas das alterações mais significativas:


⮚ Afirmação do princípio da gestão processual [6º e 590.º…];
⮚ Ónus de alegação em matéria de facto; Conhecimento oficioso de factos (5º);
⮚ Novo modelo da audiência prévia (591.º);
⮚ Substituição da “base instrutória” pelos “temas da prova” (596.º).

Espécies de ações

Considerando o fim prosseguido pelo autor, a lei processual (artigo 10º) começa por distinguir duas
grandes categorias de ações, as declarativas e as executivas. As primeiras são as que, por regra, se
destinam a obter do tribunal a afirmação vinculativa da solução que resulta do Direito para a situação
concreta que as partes levam a juízo. As ações executivas são as que visam obter as providências
adequadas à reparação efetiva do direito violado (artigo 10º nº4). Nas ações declarativas pretende-se
que o tribunal afirme/diga o direito, nas ações executivas pretende-se que o tribunal “passe das
palavras aos atos”, que adote as medidas necessárias e adequadas à satisfação efetiva dos interesses
violados. Nestas medidas sobressai a penhora e posterior venda dos bens do devedor, para que com o
produto da venda se proceda à satisfação efetiva do interesse do credor exequente.

Dentro da categoria das ações declarativas a lei prevê três espécies: as ações de condenação, as ações
constitutivas e as de simples apreciação que podem ser positivas ou negativas (artigo 10º).
As ações de simples apreciação são as que têm por fim obter unicamente a declaração da existência ou
inexistência de um direito ou de um facto [nº3 al. a)]. Consoante o caso, as mesmas são designadas
como de simples apreciação positiva ou negativa. Esta última distinção releva, desde logo, quanto ao
regime de admissibilidade da réplica (artigo 584º nº2). Exemplos: Ação tendo em vista o reconhecimento de
paternidade; ação destinada a obter a declaração de nulidade de um contrato; ação declarativa da falsidade de um
documento; ação de reconhecimento da existência de uma servidão; ação destinada a obter a declaração da
inexistência de uma obrigação do autor para com o réu.
As ações de condenação são as que têm como fim impor a realização de uma determinada conduta
pressupondo ou prevendo a violação de um direito [nº3 al. b)]. Exemplos: Ação de reivindicação
(reconhecimento da titularidade do direito de propriedade sobre uma coisa e condenação do réu à sua entrega);
ação de cobrança; ação que exige a não realização de uma obra por parte do réu.
As ações constitutivas são as que visam autorizar uma mudança na ordem jurídica existente, ou seja, a
criação de novas situações jurídicas. Nestas, as sentenças proferidas criam, modificam ou extinguem
situações jurídicas. Exemplos: Ação de anulação de negócio jurídico; ação de divórcio; ação de execução
específica (de um contrato promessa); ação de preferência. Se a ação tiver em vista uma mudança na ordem
jurídica assim como a imposição ao réu de uma conduta, a ação diz-se mista, como sucede na ação de
despejo.

Princípios fundamentais

Os princípios fundamentais do processo civil, são as proposições, muitas vezes implícitas, que justificam
e explicam a disciplina processual. Constituindo a expressão das opções prevalentes num determinado
momento numa certa comunidade, podem enunciar-se como as diretrizes essenciais que regem ou
devem reger a prática processual.
Princípio da proibição da autodefesa

Conforme o artigo 1º, a ninguém é lícito o recurso à força com o fim de realizar ou assegurar o próprio
direito, salvo nos casos e dentro dos limites declarados na lei.
A proibição da autodefesa, do recurso à “justiça” ou “força” privada, constitui a primeira razão da
existência do direito processual, traduzindo assim o seu primeiro princípio. A disciplina legal da atuação
das partes no exercício do direito de ação, do direito à jurisdição, não pode deixar de se considerar
como uma decorrência obrigatória daquela proibição.

Princípio da garantia de acesso aos tribunais. O direito de ação e sua tutela efetiva.

Proibida a autodefesa, a lei ordinária consagra, por imperativo constitucional (artigo 20º CRP), o direito
de acesso aos tribunais tendo em vista a obtenção, em prazo razoável, de uma decisão judicial que
aprecie com força de caso julgado as pretensões apresentadas, bem como a possibilidade de as fazer
executar (artigo 2º nº1). E ainda na decorrência dos princípios constitucionais relativos à organização
judiciária, estatui o nº2 do artigo 2º, que a todo o direito, exceto quando a lei determine o contrário,
corresponde a ação adequada a fazê-lo reconhecer em juízo, a prevenir ou reparar a violação dele e a
realizá-lo coercivamente, bem como os procedimentos necessários para acautelar o efeito útil da ação.

A doutrina debate há mais de um século sobre o que é o direito da ação. Dentro das teorias dualistas,
encontram-se conceções distintas, que não deixam de ser são complementares: A ação vista como
direito a uma tutela jurisdicional concreta, (direito a obter uma sentença concreta favorável); A ação
como direito a uma tutela jurisdicional abstrata.

Tal como hoje é configurado, o direito da ação não integra o conteúdo dos direitos ou de outras
situações subjetivas, sendo das mesmas verdadeiramente autónomo. De acordo com a doutrina
claramente dominante, o direito da ação é um poder abstrato que não pode de ser reconhecido ainda
que (a final) venha a ser proferida uma decisão de rejeição da pretensão formulada. Por outras palavras,
ainda que o aturo não demonstre ser titular do direito a que se arroga não pode concluir-se que ao
mesmo não assiste o direito de ação. Como já se sublinhou, o legislador não pode, é a natureza das
coisas que o impõe, fazer depender o poder de requerer uma atividade jurisdicional da existência do
direito subjetivo afirmado, quando com a atividade jurisdicional se pretende, essencialmente, e por
regra, pôr termo a um estado de incerteza.

O direito de acesso aos tribunais tem, pois, uma única condição que é a personalidade judiciária,
corresponde ao mesmo o dever de o Estado assegurar as condições necessárias à demanda, à
apresentação em juízo de uma pretensão, e já não o dever de desenvolver uma atividade jurisdicional
tendo em vista interesses tutelados pelo Direito. Já ao direito de ação corresponde o dever de o Estado
desenvolver uma atividade jurisdicional, designadamente, o dever de diligenciar no sentido de apreciar
se os direitos e interesses invocados pelas partes se encontram tutelados pelo Direito, constituindo
condição da sua existência a dedução de uma pretensão.

O regime de acesso aos tribunais, encontra-se na Lei nº 34/2004 de 29 de julho, com a redação dada
pela Lei nº 47/2007 de 28 de agosto.
As finalidades deste regime estão elencadas no artigo 1º daquele diploma: “... assegurar que a ninguém
seja dificultado ou impedido, em razão da sua condição social ou cultural, ou por insuficiência de meios
económicos, o conhecimento, o exercício ou a defesa dos seus direitos”; que estatui para a sua
concretização, procedimentos destinados à informação jurídica e proteção jurídica (artigo 1º nº2).
A proteção jurídica compreende a consulta jurídica e o apoio judiciário (artigo 6º da Lei nº 34/2004). A
primeira modalidade consiste, essencialmente, no “esclarecimento técnico sobre o direito aplicável a
questões ou casos concretos nos quais avultem interesses pessoais legítimos ou direitos próprios lesados
ou ameaçados de lesão.” (nº1 do artigo 14º do mesmo diploma).

O apoio judiciário compreende as seguintes modalidades: dispensa do pagamento (ou pagamento


faseado) de taxa de justiça e demais encargos com o processo; nomeação e pagamento (ou pagamento
faseado) da compensação de patrono; pagamento da compensação (ou pagamento faseado) de
defensor oficioso; atribuição de agente de execução (artigo 13º).

Têm direito a proteção jurídica, os cidadãos nacionais e da União Europeia, assim como os estrangeiros
e os apátridas com título de residência valido num Estado da União, desde que demonstrem estar numa
situação de insuficiência económica (artigo 7º da Lei nº 34/2004), ou seja sem condições objetivas para
suportar pontualmente os custos de um processo (artigo 8º do mesmo diploma). Ainda que se
encontrem nesta situação as pessoas coletivas com fins lucrativos, assim como os estabelecimentos
individuais de responsabilidade limitada, não beneficiam deste regime. Já as pessoas coletivas, sem fim
lucrativo, em situação de insuficiência económica, têm direito à proteção jurídica, mas “apenas” na
modalidade de apoio judiciário (artigo 7º).

Princípio da igualdade das partes

O direito processual só é equitativo, justo, se assegurar às partes um estatuto de verdadeira igualdade.


Conforme o artigo 4º CPC, o tribunal deve assegurar, ao longo de todo o processo, um estatuto de
igualdade substancial das partes, designadamente no exercício de faculdades, no uso de meios de
defesa e na aplicação de cominações ou de sanções processuais.
As partes devem ser iguais em direitos e obrigações ou ónus processuais. Aos demandantes e
demandados devem ser atribuídas as mesmas possibilidades, os mesmos meios processuais, as mesmas
armas. Garantir a igualdade significa assegurar, como bem sublinha Lebre de Freitas, o “equilíbrio entre
as partes na apresentação das respetivas teses, na perspetiva dos meios processuais de que para o
efeito dispõem.”

O princípio em causa, note-se, não visa afastar ou diminuir as desigualdades substantivas, ou seja,
decorrentes das diferentes situações subjetivas afirmadas. Quem invoca um direito tem, por regra, uma
posição processual mais difícil face à pessoa contra quem o direito é invocado atentas as regras de
repartição do ónus da prova, e a necessidade de garantir a verificação dos pressupostos processuais
positivos. Estas inevitáveis desigualdades substantivas não são, porém, suscetíveis de afastar a equidade
das decisões, ao contrário do que pode suceder com as desigualdades de meios que ao legislador cabe
combater.

O princípio da igualdade, que impõe a atribuição às partes das mesmas faculdades processuais, não
exige do juiz um papel assistencial. Como destaca Lebre de Freitas, o adjetivo substancial (artigo 4º),
“não deve ... ser entendido no sentido de consagrar o papel assistencial do juiz, impondo-lhe que preste
auxílio à parte que dele se mostre carecida por via do deficiente exercício dos seus direitos e faculdades
processuais, sem prejuízo da atuação do princípio da cooperação...”. Admita-se, por exemplo, que o autor
apresenta uma petição inicial deficiente por insuficiência dos factos invocados para fundamentar o pedido. Em tal
caso, nos termos do artigo 590º nº4, o juiz deve convidar o autor a corrigir a deficiência completando aquele
articulado. Esta função assistencial, de tutela, atribuída ao juiz, não elimina, importa notá-lo, qualquer
desigualdade formal ou substancial, mas antes e só, no exemplo apontado, um possível descuido, falta
de atenção, precipitação ou mesmo uma possível impreparação do mandatário constituído. Uma
petição deficiente coloca o autor numa posição desfavorável face ao réu, mas não pode concluir-se que
tal resulta de uma posição formal ou substancialmente desigual ou que o mesmo fica colocado numa
situação de desigualdade processual.

Importa ter presente que a função assistencial do juiz ao atenuar o princípio dispositivo e, mesmo, a
responsabilidade das partes, sem contribuir, verdadeiramente, para assegurar a sua igualdade, pode
gerar, isso sim, situações de injustiça relativa. Admita-se, voltando ao mesmo exemplo, que a ação é julgada
procedente, em virtude de, para além do mais, o réu por falta de atenção ou impreparação não ter invocado
atempadamente um facto impeditivo ou extintivo do direito (reconhecido), cuja existência se indiciava do teor da
deficiente contestação. Em tal caso, o exercício da função assistencial teria conduzido, na verdade, e na
prática, a uma injustiça, na medida em que ao contrário do autor o réu não teria beneficiado da mesma
assistência ou tutoria.
Princípio do contraditório

O princípio do contraditório, estritamente ligado ao princípio da igualdade, tem em vista garantir que a
cada uma das partes seja dada a possibilidade de contestar e controlar a atividade da outra; bem que o
tribunal só decida depois de a ambas as partes ser facultada a real possibilidade de se pronunciarem
sobre a questão a decidir.
A este princípio, atentos os termos da sua consagração legal, são normalmente apontadas duas
manifestações. Conforme o artigo 3º nº1, o tribunal não pode (manifestação negativa) resolver o
conflito de interesses sem que a parte contra quem seja pedida uma pretensão seja devidamente
chamada para deduzir oposição. Só nos casos excecionais previstos na lei, assim o estatui o nº2 da
mesma disposição, se podem tomar providências contra determinada pessoa sem que esta seja
previamente ouvida. Acresce que o juiz deve observar e fazer cumprir (manifestação positiva) ao longo
de todo o processo o contraditório, não lhe sendo lícito, salvo caso de manifesta desnecessidade, decidir
questões de direito ou de facto, mesmo que de conhecimento oficioso, sem que às partes seja facultada
a possibilidade de sobre elas se pronunciarem (artigo 3º nº3). Atenta a manifestação positiva do
princípio, às partes deve ser garantido o direito de influenciar o desenvolvimento e o resultado final da
atividade jurisdicional.

No plano da alegação dos factos, o princípio do contraditório traduz-se na faculdade conferida a cada
uma das partes de se pronunciar sobre os factos alegados pela contraparte. Sempre que uma parte
invoque um facto, à outra parte é conferida a faculdade de o contraditar, impugnando (negando) ou
excecionando (invocando factos novos impeditivos, modificativos ou extintivos) o mesmo.

No que diz respeito à produção da prova, o contraditório traduz-se na exigência de que às partes é
facultado o poder requerer a produção de todos os meios de prova ou a junção da prova já constituída,
relevantes para a descoberta da verdade material. O respeito pelo princípio do contraditório exige que,
requerido um meio de prova, à parte contrária seja facultada a possibilidade de impugnar a sua
admissibilidade e de intervir na sua produção (artigo 517º).

No plano do direito, isto é, quanto à subsunção dos factos às soluções previstas na lei, o princípio do
contraditório, consubstancia-se na exigência de que às partes seja facultada a discussão dos aspetos
jurídicos em que a decisão se venha a fundamentar. Pretende afastar-se a denominada decisão-
surpresa, ou seja, a decisão que se funda numa questão não suscitada por qualquer das partes.

Princípio dispositivo. Aspetos gerais.

Vimos já que o direito processual civil é instrumental do direito civil e do direito comercial, de normas
que visam dirimir conflitos de interesses de natureza privada, que regulam as relações entre particulares
ou entre estes e entidades de direito público quando atuam sem poderes de autoridade. No âmbito do
direito privado predomina o princípio da autonomia da vontade que se caracteriza pelo poder
conferido aos sujeitos de autodisciplinarem os seus próprios interesses, de definirem, em termos
vinculativos, as regras pelas quais terão de pautar a sua conduta. Assim, é natural e necessário que o
processo civil se encontre na disponibilidade das partes, que o processo dependa da vontade das
partes. É esta dependência que se pretende acentuar com a referência ao princípio dispositivo.
Dispositivo na medida em que a instância fica na disponibilidade das partes. É às pessoas portadoras
dos interesses que as normas de direito substantivo visam acautelar, e que o direito processual civil visa
integrar, que cabe ponderar se deve ser instaurada uma ação e qual o seu objeto, se devem ou não
prosseguir com a ação instaurada, se devem ou não transacionar. Em regra, são as partes que melhor
conhecem e podem orientar convenientemente a prossecução dos seus interesses e a disciplina da sua
atuação processual deve refletir esta realidade. O exercício “imposto” ou forçado de um direito
subjetivo, constitui na verdade uma descaracterização desse mesmo direito que assenta, é sabido, na
sua disponibilidade.
A disponibilidade do processo perante as partes, a especial relevância da sua vontade na constituição e
desenvolvimento da instância, integram a natureza ou essência do processo civil, mas se assim é
importa ter bem presente que o âmbito ou conteúdo deste princípio tem suportado significativas e
importantes alterações quanto a alguns dos seus corolários. O conhecimento ou caracterização dos
diversos sistemas processuais, cabe notá-lo, exige a apreciação da configuração do dispositivo, do modo
como foi ou é acolhido pelo legislador. O princípio dispositivo deve, atenta a sua relevância, constituir
um ponto de permanente interrogação e reflexão.

O dispositivo, como tem sido sublinhado pela doutrina, exprime-se em diversos corolários, que importa
conhecer.

O impulso processual e a subsistência da instância dependem da vontade das partes

É ao autor que cabe decidir quanto à propositura da ação, não podendo o tribunal por sua iniciativa
desencadear a instância. O tribunal não pode resolver o conflito de interesses sem que a resolução lhe
seja pedida por uma das partes (artigo 3º nº1). Não vigora, como no processo penal, o princípio da
oficialidade, onde, em regra, atenta a existência de interesses coletivos, o Estado não aguarda pela
iniciativa dos particulares para instaurar um processo.
Após a demanda cabe ao juiz, atento o seu poder de direção (artigo 6º nº1), providenciar pelo
andamento regular e célere da ação, mas ainda assim importa ter em conta que determinados preceitos
impõem às partes certos ónus de requerer a habilitação dos sucessores da parte falecida na pendência
da causa da parte (artigo 351º). O não cumprimento destes ónus pode ter como consequência a
deserção (logo extinção) da instância quando, por negligência das partes, o processo se encontre a
aguardar impulso processual há mais de seis meses (artigo 281º). Tenha-se presente que nas ações
declarativas, ao contrário do que sucede no processo de execução, a deserção pressupõe uma decisão
judicial nesse sentido (artigos 281º nos 4 e 5).

A disponibilidade da instância pelas partes não se traduz apenas no impulso processual, a sua
pendência ou manutenção está, igualmente, subordinada, em certa medida, à vontade das partes.
As partes podem acordar na suspensão da instância, por períodos que na sua totalidade não excedam
três meses [desde que da suspensão não resulte o adiamento da audiência final (artigo 272º nº4)], ou
extinguir a mesma por acordo.
O autor pode desistir da instância, renunciando desse modo à ação instaurada, sem abdicar do direito
ou da situação subjetiva que pretendeu fazer valer (artigo 285º). No entanto, se aquela desistência (da
instância) for apresentada após a contestação a mesma tem a sua eficácia condicionada à aceitação por
parte do réu (artigo 286º nº1). Tratando-se da desistência do pedido, com a inerente extinção do direito
que se pretendia fazer valer, a mesma já não depende de aceitação (artigo 286º nº2).
A autocomposição dos interesses, que só é admitida no âmbito dos direitos disponíveis, pode resultar
de um ato unilateral das partes (confissão e desistência do pedido, artigo 283º nº1) ou de um ato
bilateral, isto é, de uma transação (artigo 283º nº2). Em ambos os casos, as partes dispõem das
situações jurídicas que são objeto do processo através de atos de autonomia privada. Por assim suceder
pode duvidar-se a autocomposição constitui, verdadeiramente, uma manifestação do princípio
dispositivo, mas atentos os reflexos da atuação das partes na instância (a sua extinção) entendemos que
não estamos fora do seu âmbito.

Cabe às partes determinar os limites da matéria de facto e do objeto do processo

Hoje, estatuí o nº1 do artigo 5º (com a epigrafe “Ónus de alegação das partes e poderes de cognição do
tribunal”), que às “partes cabe alegar os factos essenciais que constituem a causa de pedir e aqueles em
que se baseiam as exceções invocadas”. Da comparação dos referidos preceitos, resulta que o Novo CPC
procurou confinar ou circunscrever o ónus de alegação, mas não se pode concluir que se procedeu,
verdadeiramente, a uma redução ou atenuação do seu âmbito. Às partes cabe invocar os factos de que
depende a procedência da ação ou da defesa.

A configuração do ónus de alegação, que relativamente ao autor é repetida no artigo 552º nº1 al d),
onde se estatui o seu dever de na petição “expor os factos essenciais que constituem a causa de pedir”,
exige uma especial reflexão, impondo-se proceder à sua harmonização com outras importantes
matérias, designadamente, com os regimes da ineptidão da petição inicial (artigo 186º), da gestão inicial
do processo (artigo 590º) e da alteração ou ampliação da causa de pedir (artigos 264º e 265º).
Sendo indiscutível que ao autor cabe carrear para o processo os factos essenciais que constituem a
causa de pedir, importa procurar recortar os conceitos de “facto essencial” e “causa de pedir”. Segundo
Lebre de Freitas, por factos essenciais devem entender-se “os factos constitutivos, isto é, todos aqueles
que integram a previsão da norma ou das normas materiais que estatuem o efeito pretendido.” Já para
Teixeira de Sousa, os factos essenciais são apenas os necessários à individualização da pretensão
material alegada. Para o primeiro dos referidos autores, a causa de pedir consiste, assim, nos “factos
constitutivos da situação jurídica que (se) quer fazer valer ou negar (ou integrantes do facto cuja
existência ou inexistência afirmado).” Para Teixeira de Sousa, atento aquele artigo 5º “a causa de pedir
não é constituída por todos os factos de que pode depender a procedência da ação, mas apenas por
aqueles que são necessários para individualizar a pretensão material alegada pelo autor”.
Note-se, porém, que para este autor, os factos complementares, ainda que não integrantes da causa de
pedir, estão incluídos no ónus de alegação que recai sobe as partes, assim decorrendo, desde logo, do
dever imposto ao tribunal de convidar a parte a suprir a sua omissão na petição (artigo 590º nº4).

Para além de poder considerar os factos essenciais articulados pelas partes, o juiz pode (ainda) basear a
sua decisão (artigo 5º nº2):
- Nos factos instrumentais que resultem da instrução da causa;
- Nos factos que sejam complemento ou concretização dos que as partes hajam alegado e resultem da
instrução da causa, desde que sobre eles tenham tido a possibilidade de se pronunciar;
- Nos factos notórios e nos que sejam conhecidos pelo tribunal por virtude do exercício das suas
funções.

Factos instrumentais são aqueles que não condicionam de forma direta a decisão tendo como função a
demonstração dos factos principais, estes, sim, determinantes da decisão.

Factos notórios são os de conhecimento geral, ou seja, os factos conhecidos ou facilmente cognoscíveis
pela generalidade das pessoas de determinada esfera social (abrangendo aqui as partes e o juiz da
causa). Facto notório é, assim, um facto cuja verificação é indiscutível pelo que não carece de prova ou
alegação (artigo 412º nº1).

Factos complementares são os que sendo relevantes [ou essenciais na terminologia da lei] para a
procedência das pretensões das partes (pedido do autor ou exceções invocadas pelo réu) não são
individualizadores da causa de pedir, não integram o seu núcleo essencial, pelo que a sua falta não
gera ineptidão da petição [artigo 186º nº2 al a)].

Factos de concretização são os que se revelam essenciais por materializarem juízos ou afirmações
conclusivas das partes.

Procurando concretizar. Admite-se o seguinte o seguinte exemplo: A intenta uma ação contra B, pedindo a
declaração de nulidade de um contrato com base na existência de uma simulação (artigo 240º CC), alegando que
declarou vender a B e este declarou comprar o imóvel X, mas que a vontade real dos outorgantes nunca
correspondeu àquelas declarações. É complementar, o facto de acordo entre A e B, ter em vista enganar C
credor de A. A intenção de enganar terceiro é essencial para a procedência da ação, mas a omissão de
tal alegação não permite concluir pela falta de indicação da causa de pedir. É concretizador (da alegação
de que as partes pretenderam enganar C), o facto de A ter sido demandado por C e procurar pela
simulação evitar que X venha a ser objeto de penhora. É instrumental, o facto de A continuar a residir
em X mesmo após outorga da escritura de venda.

As partes limitam o poder de decisão do tribunal

Não é apenas pela circunstância de, em regra, o juiz só poder decidir com base nos factos essenciais
alegados pelas partes que é possível concluir no sentido de que o poder jurisdicional se encontra
limitado pelas partes. Esta limitação resulta, igualmente, da proibição constante do nº1 do artigo 609º,
onde se estatui que a sentença não pode condenar em quantidade superior ou em objeto diverso do
pedido. Caso o tribunal conheça de questões de que não podia tomar conhecimento [artigo 615º nº1 al
d)] a sentença fica ferida de nulidade. Para aferir se há excesso de pronúncia, importa verificar, seguindo
o critério repetido nos nossos tribunais, se a “causa do julgado” se identifica com a “causa de pedir” ou
o “julgado” se identifica com o “pedido”.

Este importante corolário do dispositivo, para alguns ele próprio um princípio, não pode ser entendido
de modo radical, ou seja, no sentido de que a decisão deve sempre, em qualquer caso, corresponder
ipsis verbis à pretensão contida na conclusão da petição inicial ou reconvenção. Sendo incontroverso, à
luz do dispositivo, que o tribunal não se pode sobrepor à vontade do requerente de uma concreta tutela
jurisdicional, questiona-se se o tribunal pode, em que condições e até onde, presumir essa mesma
vontade. Exemplificando: Pode o tribunal decidir que o autor é comproprietário de um bem quando o mesmo
pede o reconhecimento de que é proprietário? Ou condenar o réu a realizar as obras necessárias a desenvolver a sua
atividade sem perturbar terceiros, quando é pedido o encerramento definitivo da mesma? Ou condenar o réu a
demolir parte de uma edificação, quando o pedido abrange a demolição total? Pode o tribunal declarar a nulidade
de um contrato, quando o pedido foi a anulação?
No âmbito da jurisdição voluntária (artigo 987º) e na jurisdição cautelar (artigo 376º nº3), a resposta
não é difícil de dar.
Na jurisdição contenciosa, ao tribunal impõem-se os limites decorrentes da vontade do requerente
(artigo 609º nº1) e do absoluto respeito pela contraditório (artigo 3º). O princípio dispositivo, neste seu
corolário, exige uma total correspondência: entre a manifestação, nos momentos processuais
adequados, da vontade do requerente, expressa ou implicitamente (e inquestionavelmente) contida na
pretensão deduzida, e a decisão. Na identificação da vontade (manifestada) do requerente é imperativo
considerar, como tantas vezes tem sido salientado, o efeito prático que o mesmo pretende alcançar,
qual o bem jurídico que o mesmo pretende efetivamente, ver tutelado.

Por assim se entender, admite-se, por exemplo, que a declaração de anulação seja judicialmente
substituída pela declaração de resolução, que a declaração de nulidade seja substituída pela declaração
da ineficácia, que perante um pedido de declaração de nulidade de um testamento a sentença proceda
à sua anulação, sempre que, em qualquer caso, a sentença venha ao encontro do efeito pretendido e
reclamado pelo demandante.

Cabe distinguir as situações em que sentença atribui menos do que é pedido por referência à mesma
realidade [por exemplo, o autor pede a condenação em 100, o juiz condena em 20; ou o autor pede a condenação
solidária, os réus são condenados proporcionalmente], onde nenhuma dificuldade se coloca quanto à sua
admissibilidade; daquelas em que a sentença atribui algo qualitativamente diferente, por se considerar
equivalente para a satisfação, ainda que apenas em parte, dos interesses afirmados pelo requerente
[por exemplo, o autor pede a condenação do réu a encerrar definitivamente um estabelecimento de diversão
noturna, o juiz condena-o a proceder ao isolamento acústico do mesmo]. Nestas últimas situações, sendo
incontroverso, e só em tais casos, que o autor, ainda que implicitamente, manifestou a sua vontade
obter (subsidiariamente) tal tutela, e o réu se oponha, ainda que implicitamente à mesma, o julgador
pode e deve concede-la. A resposta às questões colocadas, só casuisticamente pode, pois, ser dada.

Princípio do inquisitório

O acolhimento deste princípio traduz a rejeição das diferentes conceções que, de uma maneira ou
outra, relativizam a importância da verdade no processo e, muito particularmente, as conceções para as
quais o processo seria essencialmente orientado a resolver controvérsias. A orientação favorável à
atribuição de poderes instrutórios ao juiz, que hoje é claramente dominante nos ordenamentos
processuais europeus, fundamenta-se em três, evidentes, premissas: (i) A qualidade da decisão que põe
termo ao processo não deve ser considerada indiferente ou irrelevante; (ii) A qualidade ou justiça da
decisão depende da verdade dos factos; (iii) O modo mais eficiente para descobrir a verdade dos factos
não está em deixar exclusivamente às partes as iniciativas probatórias. A principal objeto para
contrastar a atribuir ao juiz de poderes autónomos, encontra-se no entendimento de que no momento
em que o juiz exerce esses poderes perde (ou pode perder) a sua imparcialidade, pois acaba por
favorecer uma das partes, assim como a sua isenção, porquanto pode valorar de modo desequilibrado o
resultado da atividade instrutória resultante da sua iniciativa.
Atento o princípio do inquisitório, hoje expresso no artigo 411º, ao juiz é facultado/atribuído o
poder/dever de diligenciar no sentido da descoberta da verdade. De acordo com o princípio dispositivo,
cabe às partes o ónus de invocar os factos essenciais em que fundam as suas pretensões, já o
inquisitório impõe ao juiz – quanto àqueles factos e aos demais que lhe é lícito conhecer (artigo 5º) – o
poder/dever de realizar ou ordenar, mesmo oficiosamente, todas as diligências necessárias ao
apuramento da verdade e à justa composição do litígio.

Como corolários do princípio do inquisitório expressamente previstos na lei importa considerar, para
além do mais, que: (i) Incumbe ao juiz, por sua iniciativa ou a requerimento de qualquer das partes,
requisitar informações, pareceres técnicos, plantas, fotografias, desenhos, objetos ou outros
documentos necessários ao esclarecimento da verdade (artigo 436º); (ii) O juiz pode determinar a
realização de prova pericial (artigo 467º), o depoimento de parte (artigo 452º), a inspeção judicial
(artigo 490º), a inquirição de determinada pessoa não oferecida como testemunha (artigo 526º); (iii) O
juiz pode ouvir as pessoas que entender e ordenar as demais diligências necessárias mesmo após o
encerramento da audiência final (artigo 607º nº1); (iv) O juiz pode designar, quando a matéria de facto
suscite dificuldades de natureza técnica, pessoa competente que assista à audiência final e aí preste os
esclarecimentos necessários (artigo 601º nº1).

Princípio do dever de gestão processual

O Novo CPC enuncia no artigo 6º, como disposição fundamental, o dever de gestão processual.

Atento o dever de gestão processual, tal como configurado no artigo 6º, cumpre ao juiz:
- Dirigir ativamente o processo e providenciar pelo seu andamento célere;
- Providenciar pelo suprimento da falta de pressupostos processuais, suscetíveis de sanação.

Para assegurar o primeiro dos referidos desideratos legais, deverá o juiz promover as diligências
necessárias ao normal prosseguimento da ação, recusando o que for impertinente ou meramente
dilatório e adotar os mecanismos de simplificação e agilização processual que garantam a justa
composição do litígio em prazo razoável. De modo a alcançar o segundo dos apontados desejos legais,
cabe ao juiz determinar a realização dos atos necessários à regularização da instância ou convidando as
partes a praticá-los.
Importa ter presente algumas manifestações ou concretizações deste dever de gestão processual:
- No caso de erro sobre a forma do processo, cabe ao juiz, nos termos do artigo 193º, aproveitar os atos
já praticados, determinando a prática dos que se revelarem estritamente necessários para o processo se
aproxime, quanto possível, da forma estabelecida por lei;
- Em caso de incapacidade judiciária ou de irregularidade de representação (artigo 27º), deve o juiz
providenciar pela regularização da instância (artigo 28º);
- Se a parte não constituir advogado, sendo obrigatória a constituição, deverá o juiz determinar a
notificação da mesma tendo em vista o suprimento da falta (artigo 41º);
- Cabe ao juiz providenciar pelo suprimento da falta de pressupostos processuais suscetíveis de
sanação [artigo 590º nº2 alínea b)];
- O juiz deve providenciar pelo aperfeiçoamento dos articulados irregulares ou deficientes [artigo 590º
nº2 alínea c); e nos 2 e 3];
- Cabe ao juiz proferir despacho destinar a programar os atos a realizar na audiência final, a estabelecer
o número de sessões e respetivas datas [artigo 597º alínea f)];
- O juiz deve adotar a tramitação processual adequada às especificidades da causa e adotar o conteúdo
e forma dos atos processuais ao fim que visam atingir, de modo a procurar assegurar um processo
equitativo (artigo 547º).

Princípio da cooperação e dever de boa-fé processual

Atento o princípio da cooperação, acolhido no artigo 7º, as partes, os seus mandatários judiciais e os
magistrados devem colaborar entre si, concorrendo desse modo para que como brevidade e eficácia se
alcance a justa composição do litígio.
Às partes impõe-se que contribuam para aqueles fins, prestando todos os esclarecimentos sobre a
matéria de facto ou de direito (nº2), comparecendo em juízo sempre que para tal sejam notificadas
(nº3). Tenha-se presente que conforme o artigo 417º, todas as pessoas (sejam ou não partes na causa)
devem contribuir para a descoberta da verdade, respondendo ao que for perguntado, submetendo-se às
inspeções necessárias, facultando o que for requisitado e praticando os atos que forem determinados.

Ao juiz impõe-se expressamente (artigo 7º nº4) que providencie pela remoção dos obstáculos, sempre
que as partes invoquem, justificadamente, dificuldade séria em obter documento ou informações que
condicione o eficaz exercício de faculdade ou o cumprimento de ónus ou dever processual.

Sobre as partes impende o especial dever de agir de boa-fé (artigo 8º).


O dever de cooperação imposto às próprias partes está, como se sublinha no artigo 8º, intimamente
ligado ao dever de agir de boa-fé, cujo se encontra enunciado no artigo 542º nº2.
Litiga de má-fé, quem com dolo ou negligência grave:
- Deduzir pretensão ou oposição sem fundamento;
- Alterar a verdade dos factos ou omitir factos relevantes para a decisão da causa;
- Violar gravemente o dever de cooperação;
- Fizer de processo ou dos meios processuais um uso manifestamente reprovável, com o fim de
conseguir um objetivo ilegal, impedir a descoberta da verdade, entorpecer a ação da justiça ou protelar,
sem fundamento sério, o trânsito em julgado da decisão.

A litigância de má-fé deve ter como consequência a condenação em multa, e se tal for requerido pela
parte contrária (artigo 542º nº1), em indemnização nos termos do artigo 543º. Na alínea a) do nº1 do
artigo 534º, prevê a indemnização pelas despesas, incluindo os honorários dos mandatários ou técnicos
da parte contrária, a que a má-fé tenha dado causa. Trata-se de responsabilizar o litigante pelos danos
emergentes diretamente causados à parte contrária. Na alínea b) do mesmo preceito, prevê-se uma
indemnização que para além de abranger aqueles danos, diretamente emergentes, pode incluir os
lucros cessantes que sejam uma consequência direta ou indireta da má-fé.

Princípio do direito à comparência pessoal

Como sempre foi sublinhado por Lebre de Freitas, o processo equitativo implica o direito à comparência
pessoal. Certo, porém, é que o direito de as partes requererem a (sua) prestação de declarações em
juízo só foi reconhecido no Novo CPC. De acordo com o regime estatuído no artigo 466º nº1, até ao
início das alegações orais em 1ª instância, as partes podem requerer a prestações de declarações sobre
factos em que tenham intervindo pessoalmente ou de que tenham conhecimento direito.
Sublinha-se, ainda, que às partes, assiste, ainda, a importante faculdade de requererem o depoimento
da parte contrária e dos seus compartes (artigo 453º). Este depoimento, porém, só pode exigido
quanto aos factos desfavoráveis à parte contrária ou à comparte, na estrita medida em que o mesmo se
destine a obter a confissão. Tanto assim, o depoimento é obrigatoriamente reduzido a escrito
(assentada) na parte em que houver confissão do depoente (artigo 463º).

Princípio do dever de fundamentação

Tanto as decisões proferidas sobre a matéria de facto como as proferidas sobre as questões de direito
devem ser fundamentadas. Este dever que a Constituição tutela (artigo 205º nº1) e é expressamente
acolhido na lei ordinária (artigos 154º e 607º nos 2 e ), tem a maior importância na medida em que,
como já sublinhou Gomes Canotilho, contribuir para excluir a natureza voluntarista e subjetiva do
exercício da atividade jurisdicional, permitindo um maior controlo da “racionalidade” e “coerência
argumentativa dos juízes”, bem como uma melhor estruturação dos eventuais recursos, permitindo às
partes um recorte mais preciso dos vícios das decisões judiciais recorridas.
À obrigatoriedade de fundamentação está, igualmente, inerente a força persuasiva que as decisões
devem ter. Aos juízes cabe desenvolver um esforço sério e rigoroso no sentido de demonstrarem o
acerto e correção das suas decisões. Uma decisão não fundamentada ou deficientemente
fundamentada é uma decisão que convida à impugnação.
Importa notar que a falta de fundamentação da sentença tem como consequência a sua nulidade [artigo
615º nº1 b)], bem que a falta de fundamentação das decisões relativas à matéria de facto pode dar
origem, em sede de recurso, à baixa do processo [artigo 662º nº2 al. d)].

Princípio da economia processual

O resultado da atividade processual deve ser atingido, sempre que possível, com a maior economia de
meios. Dir-se-á que assim deve suceder em toda a atividade humana e, como tal, que não seria
necessário destacar aqui tal princípio. Certo é que no âmbito do processo, o risco de desrespeito desta
diretriz é mais elevado. O excesso de formalismo, de precauções, de garantias, faz efetivamente parte
da história do direito processual, pelo que nunca será demais acentuar que um processo equitativo
exige a maior economia de meios.
A economia processual pode obter-se desde que se respeitem, como sublinha Lebre de Freitas, duas
regras fundamentais: (i) Em cada processo apenas se devem praticar os atos e formalidades
indispensáveis; (ii) Em cada processo devem resolver-se o maior número possível de litígios (ex: artigo
30º). Constituem manifestações da primeira regra a proibição da prática dos atos inúteis (artigo 130º), a
simplificação da forma dos atos (artigo 131º nº1), o dever de gestão processual com a possibilidade de
adoção de mecanismos de simplificação e agilização processual (artigo 6º), a limitação do número de
testemunhas (artigo 511º). Constituem manifestações da segunda regra, a admissibilidade da coligação
de autores e réus (artigo 36º), da reconvenção (artigo 266º) e da apreensão de ações (artigo 267º).
Importante manifestação deste princípio é, igualmente, a regra introduzida no Novo CPC (artigo 369º)
da inversão do contencioso, segundo a qual, o juiz, mediante requerimento, pode dispensar o
requerente do ónus de propositura da ação principal se formar uma convicção segura acerca da
existência do direito acautelado e se a natureza da providência decretada for suscetível de alcançar a
composição definitiva do litígio. Com efeito, obrigar o requerente a intentar uma ação, sob pena de
caducidade da providência decretada, em todos os casos de procedência do procedimento, constituía
uma violação clara da economia processual.

Princípio da preclusão e da autorresponsabilidade das partes

Dois importantes princípios, estreitamente ligados entre si, são os denominados princípios da preclusão
e da autorresponsabilidade das partes. Com o termo preclusão pretende designar-se a perda do direito
de adotar uma certa conduta processual resultante do seu não exercício num determinado momento.
Com a expressão responsabilidade pretende significar-se a obrigação de suportar as consequências
negativas da adoção de uma determinada conduta. Autorresponsabilização, quando o dano resultante
da conduta se verifica diretamente na esfera jurídica do seu agente.
De acordo com o princípio da preclusão, a omissão pelas partes, num determinado momento, de certa
conduta processual, extingue o poder de praticar no futuro os atos omitidos. A preclusão sendo
necessária ao normal andamento do processo constitui uma cominação da maior gravidade, atentas as
repercussões que da mesma podem resultar para a parte. Como exemplo, atente-se no regime da
arguição de nulidades processuais previsto nos artigos 198º e 199º, devendo notar-se que a nulidade da
falta de citação se considera mesmo sanada caso o réu ou o Ministério Público intervenham no processo
sem arguir logo a falta da sua citação (artigo 189º).

Atento o princípio da autorresponsabilidade das partes, aos sujeitos processuais são imputadas as
consequências negativas da sua conduta. O direito processual civil impõe às partes mais do que um
conjunto de deveres uma série de ónus. Ou seja, coloca com muita frequência as partes numa situação
jurídica que implica a necessidade de as mesmas adotarem uma determinada conduta para que assim
possam alcançar um certo resultado, que se pode traduzir no afastar de uma desvantagem ou no
alcançar uma utilidade. As partes, em regra, não se encontram obrigadas a adotar certos
comportamentos, mas se o não fizerem não obterão determinadas vantagens ou daí poderá decorrer
um prejuízo. Mas se assim é, ou seja, se é às partes que cabe decidir pela adoção ou não de um
determinado comportamento, são as mesmas que respondem pelos resultados negativos (para os seus
próprios interesses) da sua conduta.

O processo comum declarativo e os processos especiais

Considerando o critério da forma, as ações podem ainda distinguir-se consoante o processo que lhes
corresponda. Importa assim distinguir o processo comum dos processos especiais (artigo 546º nº1). A
distinção é formal. De acordo com o nº2 deste preceito, o processo especial é aquele que se aplica aos
casos expressamente designados na lei, sendo o âmbito do processo comum determinado por exclusão.
Para se apurar a forma de processo adequada importa cotejar o pedido formulado pelo autor com o fim
a que se destina cada processo especial. Caso aquele pedido coincida com o fim de um determinado
processo (especial) será este o adequado, caso contrário aplicar-se-á o processo comum. Importa, pois,
ter presente o âmbito de aplicação dos diversos especiais.

Os processos especiais, previstos no CPC, encontram-se regulados no Livro V, ou seja, nos artigos 878º
a 1081º. Entre estes processos cabe distinguir os de jurisdição contenciosa de jurisdição voluntária
regulados nos artigos 986º e ss.
A individualização de cada processo justifica-se pela natureza e especificidade do fim de causa: Tutela
da personalidade física ou moral (artigos 878º a 880º); Justificação da ausência, tendo em vista a
curadoria definitiva dos bens do ausente (artigos 881º a 890º); Acompanhamento de maiores (artigos
891º a 905º); Prestação de caução (artigos 906º a 915º); Consignação em depósito (artigos 916º a
924º); Divisão de coisa comum (artigos 925º a 930º); Divórcio e separação sem consentimento do outro
cônjuge (artigos 931º e 932º); Execução especial por alimentos (artigos 933º a 937º); Liquidação da
herança vaga em benefício do Estado (artigos 938º a 940º); Prestação de contas (artigos 941º a 952º);
Regulação e repartição de avarias marítimas (artigos 953º a 958º); Reforma dos autos (artigos 959º a
966º); Indemnização contra magistrados (artigos 967º a 977º); Revisão de sentenças estrangeiras
(artigos 978º a 985º).

O Processo declarativo comum. Fases

Até à entrada em vigor do Novo CPC, distinguiam-se no âmbito do processo comum a forma ordinária,
sumária e sumaríssima, considerando o valor da causa e a natureza do pedido. Já vimos que o
legislador abandonou esta orientação, passando a existir uma única forma de processo comum (artigo
548º). No entanto, importa destacar que a tramitação do processo comum não é totalmente unitária,
continua a depender do valor das ações, como decorre do artigo 597º, que estatui especificidades para
as ações de valor não superior a metade da alçada da Relação. Nestas ações é conferida maior
amplitude ao poder de agilização e adequação processual.

Na sua tramitação normal o processo declarativo comum comporta as seguintes fases, ou sequência
ordenadas de atos, cronologicamente delimitadas: (i) Dos articulados (artigos 552º a 589º); (ii) Da
gestão inicial do processo e da audiência prévia (artigos 590º a 598º); (iii) Da audiência (artigos 599º a
606º); (iv) Da sentença (artigos 607º a 626º); (v) Dos recursos (artigos 627º a 702º). Tradicionalmente a
doutrina aponta a instrução (ora em sentido cronológico, ora em sentido lógico) como fase do processo.
Atenta a nova disciplina processual, designadamente com a eliminação do regime estabelecido no artigo
512º (“indicação de provas”), que impunha, no caso de dispensa da audiência preliminar, a notificação
das partes para, querendo, apresentarem o seu requerimento de prova, pode concluir-se que a
instrução (em sentido cronológico) deixou de constituir uma fase processual propriamente dita. A
atividade instrutória (apresentação e admissão dos meios de prova) desenvolve-se (sempre) em vários
momentos ou fases processuais.

Fase dos Articulados

Articulados. Noção e apresentação em juízo


A fase dos articulados é aquela em que as partes definem o objeto do processo, apresentando as razões
de facto e de direito em que fundam as suas pretensões de tutela jurisdicional, é a fase em que se
definem os termos essenciais da ação.

Os articulados são peças escritas onde as partes expõem os fundamentos da ação e da defesa,
formulando os pedidos correspondentes (artigo 147º). Designam-se por “articulados”, pois, havendo
mandatário constituído, as peças escritas devem (artigo 147º nº2) ser elaboradas por artigos, ou seja,
através de proposições gramaticais numeradas.
Como sublinha Lebre de Freitas, embora de acordo com a letra da lei só seja obrigatória a dedução dos
factos por artigos, é prática forense que os fundamentos de direito sejam, igualmente, apresentados sob
forma articulada.

Os articulados, conforme artigo 144º, devem ser apresentados a juízo por transmissão eletrónica de
dados, nos termos da portaria prevista no nº1 do artigo 132º, considerando-se como data da prática do
ato processual a respetiva expedição. Tenha-se presente que, conjuntamente com a apresentação dos
articulados por transmissão eletrónica, as partes devem enviar, pela mesma via, os documentos que os
devam acompanhar, ficando dispensadas de remeter os respetivos originais (nº2 do artigo 144º). Este
dever de apresentação dos articulados por via eletrónica cessa quando não seja obrigatória a
constituição de mandatário e a parte não esteja patrocinada. Neste último caso, a apresentação a juízo
dos articulados pode efetuar-se através da entrega na secretaria judicial, remessa por correio registado
ou telecópia (nº7 do artigo 144º).
Sempre que a parte constitui advogado, as peças devem ser apresentada pela plataforma citius.

No processo comum são admitidos para além da petição inicial, a contestação, a réplica e os articulados
supervenientes. Os primeiros (petição e contestação) constituem articulados normais, na medida em
que a sua admissibilidade não depende de requisitos essenciais. Os demais são articulados eventuais
porquanto a sua admissibilidade está condicionada.

A petição inicial, o pedido e a causa de pedir

A petição inicial é o articulado onde o autor deduz a sua pretensão de tutela expondo os respetivos
fundamentos de facto e de direito. É com a receção da petição inicial na secretaria do tribunal que, nos
termos do artigo 259º nº1, se inicia o processo, a instância, constituindo-se a relação jurídica processual
entre o autor e o tribunal. A partir deste momento a ação passa a considerar-se pendente, impedindo a
caducidade do direito (artigo 331º do CC). Relativamente ao réu, porém, a proposição da ação só
produz efeitos, por regra, a partir do momento da citação (nº2 do artigo 259º).
Na petição inicial o autor apresenta a causa de pedir e o pedido.

De acordo com a sistematização tradicional a petição inicial pode decompor-se em quatro partes:
introito, narração, conclusão e elementos complementares.

(i) Introito ou preâmbulo

Parte da petição inicial onde o autor designa o tribunal e respetiva secção em que a ação é proposta,
identifica as partes e indica o tipo de ação e a forma de processo. A identificação das partes deve ser
feita através da indicação dos seus nomes, domicílio ou sede e, se for possível, números de identificação
civil e fiscal, profissões e locais de trabalho [artigo 552º alínea a)].

(ii) Fundamentação com a narração dos factos

Parte da petição inicial onde o autor expõe os factos e as razões de direito que servem de fundamento à
ação. A narração dos factos assume uma importância fundamental, superior, inclusive, à indicação das
razões de direito. Como decorre do princípio dispositivo, o juiz não está sujeito às alegações das partes
no que se refere à indagação, interpretação e aplicação das regras de direito, mas em regra só pode ter
em conta os factos essenciais articulados pelas partes. Sendo ao autor que, por regra, cabe carrear para
o processo os factos essenciais à procedência do seu pedido (artigo 5º nº1) é na “narração” que deve
indicar a causa de pedir, recortando assim o objeto do processo e, naturalmente, a própria decisão do
tribunal. O tribunal não pode basear a sentença numa causa não invocada pelo autor (artigo 608º nº2),
sob pena de nulidade da mesma [artigo 615º nº1 alínea d)]. Admita-se, por exemplo que A intenta uma ação
de reivindicação contra B, invocando como causa de pedir um contrato de compra e venda. Se ao processo for junto
um testamento do qual resulta que o autor adquiriu o bem em causa por via sucessória o juiz não poderá julgar
procedente a ação com tal fundamento, a não ser que o autor altere, validamente, a causa de pedir.

(iii) Conclusão

Parte da petição onde o autor formula o pedido. A formulação do pedido reveste, como é óbvio, grande
importância atento, e também aqui, o princípio dispositivo. Não pode esquecer-se que, conforme o
artigo 609º, o juiz não pode condenar em quantidade superior ou em objeto diferente do pedido.

É claro que o juiz não é, não deve, nem pode ser apenas a “boca da lei”, um “autómato”, mas o autor
não pode esquecer, que não basta “arrazoar” um conjunto de factos e “esperar” que o juiz, do alto da
sua “sabedoria”, faça “justiça”, suprindo as possíveis “imprecisões”, “erros” ou “desleixos” do seu
articulado. Com a reforma consubstanciada no Novo CPC e, designadamente, com a eliminação da
“matéria assente” e da “base instrutória”, o autor deve ter sempre presente, no momento da
elaboração da petição inicial, que a mesma, se for bem estruturada, livre de adjetivação e de juízos
meramente conclusivos, pode e deve constituir um precioso auxiliar no momento da produção da prova
e julgamento da matéria de facto. Sem o saneamento e condensação da matéria de facto, que até
agora se pretendia atingir com aquelas peças processuais, as partes devem procurar alcançar ou
contribuir decisivamente para aquele mesmo fim, logo no momento da elaboração dos seus articulados.

(iv) Elementos complementares da petição inicial (artigo 552º)

São complementares porque já não dizem respeito ao conteúdo propriamente dito da petição inicial.
Como elementos complementares obrigatórios, há a considerar:
- Declaração do valor da causa [alínea f) nº1];
- Indicação do domicílio profissional do mandatário [alínea b)];
- Apresentação do rol de testemunhas e requerimento dos demais meios de prova (nº2). Mais do que
um dever, para que aponta a redação do preceito, a apresentação dos meios de prova é um verdadeiro
ónus processual; Se não indicar o autor perde o direto dando-se o efeito da preclusão
- Junção de documento comprovativo do prévio pagamento da taxa de justiça devida ou da concessão
do benefício de apoio judiciário (nº3). Se a petição for apresentada por transmissão eletrónica de dados
importa atentar no regime estabelecido na portaria a que se refere o nº4.
Sendo requerida a citação urgente, nos termos do artigo 561º e faltando à data da proposição da ação
menos de 5 dias para o termo do prazo de caducidade ou verificando-se outra razão de urgência, o
autor pode juntar, ao invés daqueles documentos, o comprovativo do pedido de apoio judiciário
requerido, mas ainda não concedido (nº5).

Como elemento facultativo, o autor pode designar o agente de execução incumbido de efetuar a
citação ou o mandatário judicial responsável pela sua promoção [alínea g)].

O pedido, características e espécies

O pedido consiste na solicitação de uma concreta providência processual para a tutela do interesse
afirmado pelo autor. Deve ser inteligível e idóneo, ou seja, claro, compreensível e relativo à tutela de
um bem jurídico.
O pedido imediato o que se pretende de imediato do juiz é uma condenação, uma tutela imediata.
O pedido mediato é a referência ao bem jurídico que se pretende ver tutelado, pretende-se considerar o
bem em causa
O autor não está limitado a deduzir um único pedido por processo, pode deduzir mais do que um pedido
contra o mesmo réu ou uma pluralidade de pedidos contra diversos réus. Como situações de pluralidade
de pedidos importa considerar as seguintes:

(i) Cumulação de pedidos (artigo 555º)

Existe cumulação quando o autor formula mais do que um pedido, pretendendo a apreciação e
procedência de todos. Exemplo, A pede em ação intentada contra B, a anulação de um contrato celebrado por
ambos e a condenação do réu a restituir a coisa que lhe havia sido entregue em cumprimento do contrato.
A cumulação pressupõe a compatibilidade substantiva dos pedidos e a não verificação das
circunstâncias impeditivas da coligação (artigos 555º nº1, e 37º). Assim, não será admissível (atenta a
incompatibilidade), por exemplo, a cumulação de um pedido de anulação de um contrato com o pedido de
indemnização pelo interesse contratual positivo, ou seja, pelos danos decorrentes do não cumprimento. Nem tão
pouco será admissível (pela existência de obstáculos à coligação), por exemplo, o pedido de anulação de uma
deliberação social com o pedido de anulação de um contrato de compra e venda celebrado entre o autor e a
sociedade em causa, pois para o pedido de anulação da deliberação social é materialmente competente o tribunal
de comércio [os juízos de comércio – artigo 128º nº1 alínea d) LOSJ], e este tribunal, de competência especializada,
é incompetente em razão de matéria para apreciar o pedido de anulação do contrato de compra e venda
[competentes são os juízos cíveis ou de competência genérica, consoante o valor – artigos 117º nº1 alínea a), e
130º nº1 alínea a) LOSJ]. A cumulação será, igualmente, inadmissível, em regra, se a um pedido
corresponder o processo comum e a outro uma forma de processo especial.

(ii) Pedidos subsidiários (artigo 554º)

Como resulta do artigo 554º, o pedido subsidiário é aquele que é apresentado para ser tomado em
consideração apenas no caso de não proceder um pedido anterior. Os pedidos subsidiários são, pois,
pedidos condicionais por se encontrarem sujeitos à condição suspensiva de improcedência do pedido
principal. Por exemplo, A pede a anulação de um contrato pelo qual vendeu a B um automóvel e, subsidiariamente,
a condenação do réu a pagar o preço acordado. O pedido de condenação é formulado “à cautela” para o
caso de o pedido de anulação não ser acolhido pelo tribunal. Note-se, que no exemplo dado, se aqueles
pedidos forem apresentados em cumulação, ou seja, se o autor pedir a procedência simultânea de
ambos, a petição não pode deixar de se considerar inepta, face à contradição substantiva dos mesmos
(artigos 186º). A “oposição” entre os pedidos só é admitida se forem deduzidos subsidiariamente (artigo
554º nº2).
A dedução de pedidos subsidiários não é admissível se ocorrerem as circunstâncias que impedem a
coligação (artigos 554º e 37º).

(iii) Pedidos alternativos (artigo 553º)

Os pedidos dizem-se alternativos no caso de o autor formular duas ou mais pretensões,


disjuntivamente, para que seja satisfeita apenas uma delas pelo demandado ficando o reu com a
faculdade de escolher uma das pretensões em causa. Não é o juiz que fica com a possibilidade de
escolher, o juiz condena o reu a escolher qual das condutas alternativas pedidas pelo autor quer adotar.
A admissibilidade da apresentação de pedidos alternativos depende da verificação de uma das seguintes
características (artigo 553º):
- Quando os direitos que se pretendem fazer valer sejam por natureza ou origem alternativos
(obrigações alternativas, artigos 543º e 549º CC);
- Quando tais direitos possam resolver-se em alternativa. Assim ocorre, por exemplo, quando ao credor
assiste a faculdade de optar entre exigir o cumprimento ou resolver o contrato.

(iv) Quanto ao conteúdo - Pedidos genéricos (artigo 556º)

Nos termos do artigo 556º, a lei permite a dedução de pedidos genéricos, ou seja, relativos a um bem
que não é rigorosamente determinado, quando:
Cujo o conteúdo, o bem em causa não é determinado, seja a nível de quantidade ou do direito em
causa:

a) O objeto mediato da ação seja uma universalidade, de facto ou de direito. O autor, nestas
situações, está dispensado de individualizar ou identificar todos os elementos que integram a
universalidade. Assim, sucederá, por exemplo, na reivindicação do recheio da casa de morada de família
[universalidade de facto – artigo 206º nº1 CC] ou de um estabelecimento comercial (universalidade de
direito];

b) O pedido disser respeito à indemnização por facto resultante de um facto ilícito e não for
possível ao lesado identificar a liquidação imediata dos danos ou se o lesado quiser usar a
faculdade de não indicar a quantia exata em que avalia o dano, que lhe é conferida pelo
artigo 569º CC. Verifica-se a pr imeira situação quando, por exemplo, o lesado prevê o
agravamento da doença que resulta do acidente de viação ou não tenha sido possível realizar,
em tempo útil, todos os exames médicos necessários para apurar todas as consequências
resultantes do acidente. Ocorrerá a segunda situação, se for possível apurar o dano já
produzido, mas o autor tiver dúvidas (que deve fundamentar) relativamente ao quantum
indemnizatório, deixando, atentas as mesmas, essa determinação para o momento posterior.
Admita-se, por exemplo, que a vítima de um acidente de viação, conhecendo, com exatidão, as
consequências físicas resultantes do mesmo, não logrou, ainda, determinar o grau de incapacidade, ou
quais os efeitos dessa incapacidade na sua futura remuneração laboral;

c) A fixação de um quantum estiver dependente da prestação de contas ou de outro que deva ser
praticado pelo réu. Assim sucederá, por exemplo, se um herdeiro pedir a condenação do cabeça de
casal pela prática de atos lesivos do património da herança, no montante que se vier a apurar depois
deste prestar contas da sua administração.

Sempre que o autor formular pedidos genéricos nas situações referidas em a) e b), o mesmo deve
proceder à sua concretização nos termos do disposto nos artigos 358º e 360º. O autor, sendo possível,
deve, antes do início da discussão da causa, já em sede da audiência final (artigo 604º), deduzir o
incidente de liquidação (artigo 358º nº1) mediante requerimento em que, consoante os casos, relacione
os objetos compreendidos na universalidade ou especifique os danos derivados do facto ilícito e conclua
pedindo uma quantia certa (artigo 359º nº1). Caso não se revele possível proceder, até àquele
momento, à concretização do pedido, o tribunal pode condenar no que vier a ser liquidado (artigo 609º
nº2), e assim sucedendo o incidente tem lugar nos próprios autos da ação declarativa, cuja instancia se
considera renovada (artigo 358º nº2), nos termos dos nos 3 e 4 do artigo 360º. Na situação prevista na
alínea a) do nº1 do artigo 556º, quando o autor não logre relacionar os objetos compreendidos na
universalidade, pode proceder à liquidação já em sede de execução, em momento imediatamente
posterior à sua apreensão, nos termos do nº7 do artigo 716º (artigo 556º nº2)

(v) Pedidos de prestações vincendas e futuras (artigo 557º)

O artigo 557º nº1, permite (estando em causa prestações periódicas) que no pedido de condenação se
compreendam tanto as prestações já vencidas como as que se vierem a vencer enquanto se mantiver a
obrigação. Admite-se, ainda, (artigo 610º) que o autor requeira o pagamento de obrigações não
vencidas (não exigíveis no momento em que a ação é proposta), ou seja, a condenação do devedor a
cumprir a obrigação quando esta se vencer, desde que o réu a conteste. Não havendo contestação
quanto à existência da obrigação o réu deve ser absolvido da instância em despacho saneador, por falta
de interesse em agir do autor.

A causa de pedir. Características.

A causa de pedir é o facto ou conjunto de facto jurídicos concretos invocados pelo autor que servem de
fundamento à pretensão formulada. É integrada por facto concretos, e não por conceitos jurídicos ou
juízos meramente conclusivos sobre a realidade. Se, por exemplo, A intentar uma ação de divórcio contra B
indicando apenas como fundamento do pedido “a violação grave e reiterada dos deveres conjugais”, por parte de B,
não haverá causa de pedir. A referência à “violação dos deveres conjugais” não é mais do que uma qualificação
jurídica de determinados factos concretos. O mesmo sucederá se A intentar uma ação pedindo a anulação de um
contrato de compra e venda, invocando, apenas, que à data em que celebrou o contrato se encontrava numa
situação de erro sobre o objeto. A referência ao “erro sobre o objeto” não pode ser entendida como indicação de
facto. O que é o erro sobre o objeto? Com tal expressão qualifica-se, de forma abstrata, algo que ocorreu, mas não
se narra a realidade. A preocupação do autor deve, pois, ser a de carrear factos para o processo. Mais do
que qualificar, ou adjetivar, importa concretizar.

A causa de pedir deve, em síntese, apresentar as seguintes características :


- Concretização -> a causa de pedir tem de se traduzir em factos concretos, determinados ou
individualizados; Não pode ser integrada por juízos conclusivos ou meramente valorativos.
- Inteligibilidade -> deve ser percetível, compreensível; perceber quais os factos que o autor está a
invocar.
- Adequação -> deve ser apta à produção dos efeitos pretendidos. Deve ser suscetível de fundamentar o
pedido.

Discussão doutrinaria:

Teixeira de Sousa – A causa de pedir não é integrada por TODOS os factos constitutivos da situação
jurídica, mas sim pelos factos que individualizam a pretensão material alegada pelo autor. A causa de
pedir é integrada pelos factos que são essências a individualizar a pretensão, ou seja, o pedido com um
certo fundamento na lei substantiva. Os factos complementares não integram a causa de pedir.

Lebre de Freitas – normalmente acolhida pela doutrina – a causa de pedir compreende os factos
constitutivos da situação jurídica que se quer fazer valer ou negar.
A causa de pedir integra os factos constitutivos do direto que se invoca, os factos de onde emerge o
direito que se invoca. Segundo o artigo 5º, a causa de pedir consiste nos factos essenciais, ou seja, todos
os factos que fundamentam o pedido. A causa de pedir tem uma função fundamentadora, de
fundamentar o pedido.
Causa de pedir: todos os factos constitutivos da situação jurídica para que se pede tutela jurisdicional –
são factos essenciais para a procedência da ação.

A causa de pedir integra a factualidade efetivamente invocada pelo demandante e já não a que este
podia ter invocado. Se, por exemplo, A pedir a condenação de B no pagamento de X, invocando “o contrato
celebrado”, não pode deixar de se concluir que não há caso de pedir, pois o “contrato celebrado”, não permite,
sequer, individualizar, ou especificar, a pretensão ou a situação de que o autor pretende ter derivado o seu crédito.

A lei não define – nem é essa a sua função – causa de pedir, mas a propósito dos requisitos de
litispendência e do caso julgado enuncia o seu elemento essencial. Estatuí o nº4 do artigo 581º, que “há
identidade de causa de pedir quando a pretensão deduzida nas duas ações procede do mesmo facto
jurídico”, bem que, nas “... ações reais a causa de pedir é o facto jurídico de que deriva o direito real”.
Se, por exemplo, A intentar contra B uma ação pedindo ao tribunal que declare que é proprietário do imóvel X e
condene o réu a entregar-lhe esse mesmo imóvel, só haverá causa de pedir, se A invocar o facto constitutivo do seu
direito. Não basta dizer que “é proprietário”, que o réu “não tem” qualquer título que lhe permita utilizar
aquele imóvel e que, como tal, aquele deve ser condenado a entregar o imóvel. Se assim suceder, à luz
do normativo citado, não poderá deixar de se concluir pela ineptidão da petição. Falta o facto jurídico
de onde deriva o direito de propriedade. A pode ser proprietário por ter adquirido por compra e venda,
por usucapião, por via sucessória, etc. Terá, pois, de afirmar de que facto deriva o seu direito de
propriedade.
O legislador acolheu [artigo 581º nº4, e artigo 186º nº2 alínea a)] a teoria da substanciação em
detrimento da teoria da individualização. De acordo com a primeira, nas ações reais cabe ao autor
indicar os factos constitutivos do direito real que invoca, sob pena de o tribunal não poder reconhecer
esse mesmo direito. Ao tribunal, de acordo com esta orientação, cabe “apenas” apurar se à luz dos
factos alegados pelo autor – por exemplo um determinado contrato de compra e venda – o mesmo
pode ser reconhecido como titular do direito; só pode, por regra, atender ao pedido considerando os
factos essenciais alegados pelo autor, não bastando a mera, e mais ampla, indicação da relação material
controvertida.
Já a teoria da individualização preconiza que nas ações reais o autor está dispensado de indicar quais os
factos constitutivos do direito. Nas ações reais bastaria ao autor invocar a titularidade do direito pois o
tribunal haveria de ter em conta quaisquer factos, invocados ou não pelo autor.
Pode perguntar-se por que razão esta questão (se o autor tem ou não que indicar os factos
constitutivos) se coloca, essencialmente, quanto às ações reais. Assim sucede na medida em que
relativamente às outras ações careceria de razoabilidade à luz do princípio dispositivo, dispensar o autor
do ónus de invocar os factos constitutivos do direito. A diferença encontra-se na circunstância de o
conteúdo do direito de crédito, não depender, essencialmente, do seu facto constitutivo desse mesmo
direito.

A importância da causa de pedir resulta da circunstância de delimitar o objeto do processo,


especificando a pretensão e, como consequência, os próprios efeitos do caso julgado. Quanto a este
último aspeto importa desde já atentar no seguinte: Se A intentar uma ação de reivindicação contra B,
dizendo que é proprietário por ter adquirido o bem em causa por compra e venda celebrado com C, a sentença que
indeferir a pretensão de A não obsta a que o autor proponha nova ação com o mesmo pedido contra B,
com uma diferente fundamentação de facto, por exemplo, que adquiriu o imóvel por usucapião. A
causa de pedir limita os efeitos do caso julgado, o que fica definitivamente resolvido, depois daquela
sentença transitar em julgado, o que se torna indiscutível é, que A não é proprietário do imóvel por
força daquele contrato, não se torna indiscutível que o autor não é proprietário.

Teoria da substanciação – nas ações reais (se discute um direito real) cabe ao autor indicar os factos
constitutivos do direito que invoca, sob pena de o tribunal não poder reconhecer esse mesmo direito –
art 581º n4

Teoria da individualização – Nas ações reais, o autor está dispensado de indicar os factos constitutivos
do direito. O tribunal pode ter em conta quaisquer factos constitutivos, invocados ou não pelo autor.

A causa de pedir deve, em síntese, apresentar as seguintes características :


- Concretização -> a causa de pedir tem de se traduzir em factos concretos, determinados ou
individualizados; Não pode ser integrada por juízos conclusivos ou meramente valorativos.
- Inteligibilidade -> deve ser percetível, compreensível; perceber quais os factos que o autor está a
invocar.
- Adequação -> deve ser apta à produção dos efeitos pretendidos. Deve ser suscetível de fundamentar o
pedido.

A ineptidão e os demais vícios da petição inicial

Quid juris se o pedido ou a causa de pedir não apresentarem as características assinaladas? A pergunta
remete diretamente para os vícios da petição, sendo que o mais importante de tais vícios é a ineptidão,
regulada no artigo 186º.

 A petição inicial é inepta, desde logo, quando falte a indicação do pedido ou da causa de pedir.
Qunado o autor não apresenta uma pretensão concreta de tutela jurisdicional. Sendo o
objeto do processo constituído pelo pedido e pela causa de pedir, faltando um ou algum desses
elementos a consequência não podia ser outra que não a nulidade de todo o processo. Esta
nulidade tem como consequência a absolvição do réu da instância, nos termos conjugados dos
artigos 186º e 577º.

 A petição é inepta também por falta de causa de pedir. Isto acontece quando o autor não
alega os factos essenciais que são capazes de individualizar a pretensão material do autor
absoluta. Se for apenas incompleta a petição torna-se inconcludente.

Ineptidão da PI por falta de causa de pedir:


 O autor não alega de todo factos, mas tao só juízos valorativos ou conclusivos
 O autor alega factos irrelevantes para fundamentar a pretensão
 O autor alega factos juridicamente relevantes, mas insuficientes para individualizar ou
identificar o fundamento (de facto) legal em que o autor pretende alicerçar ou suportar a sua
pretensão.

Quando dos vários factos que integram a petição, faltam os mais importantes, ou seja, os nucleares e
essenciais. Se faltarem os factos essenciais nucleares à causa de pedir a consequência é a ineptidão da
PI. Se faltarem factos essenciais não nucleares a consequência é a inconcludência da PI.

 A petição inicial é igualmente inepta quando o pedido e causa de pedir se mostram


ininteligíveis. A causa de pedir é ininteligível quando não é possível alcançar-se quais os factos
em que o autor pretende alicerçar a sua pretensão. O pedido é ininteligível sempre que
formulado de modo obscuro, incompreensível.

 Nos termos da alínea b) do artigo 186º, a petição é ainda inepta quando o pedido esteja em
contradição com a causa de pedir. A contradição prevista não é, necessariamente, como
sublinha Lebre de Freitas, uma contradição do ponto de vista jurídico, ou inconcludência
jurídica. A contradição que dá origem à ineptidão da petição inicial é uma contradição lógica
entre o pedido e a causa de pedir. Assim sucederá se, por exemplo, A invocar um facto de onde
resulta a nulidade de um contrato e pedir a condenação de B a cumprir uma obrigação decorrente desse
mesmo contrato. Quando há uma contradição logica entre a causa de pedir e o pedido.

Por último, a petição é inepta no caso de cumulação de causas de pedir ou pedidos substancialmente
incompatíveis [alínea c)]. Trata-se, aqui, de incompatibilidade entre os próprios pedidos ou as próprias
causas de pedir onde os factos essenciais invocados são opostos entre si. Cabe recordar que esta
incompatibilidade (substantiva) é admitida perante pedidos subsidiários (artigo 554º nº2).

Importa não confundir as situações de ineptidão com as situações de inconcludência. Há


inconcludência quando dos factos invocados como causa de pedir não é possível retirar o efeito jurídico
pretendido e não permitem fundamentar aquele pedido.
Os factos essenciais permitem a individualização da causa de pedir e do pedido, mas neste caso, o autor
alegou esses factos mas esses factos são insuficientes para que a ação possa ser julgada procedente. Na
inconcludência não há falta de pedir, mas uma insuficiência dos factos alegados para o pedido
formulado. Os factos não permitem a conclusão pretendida pelo autor. Se, por exemplo, A intentar contra B
uma ação de anulação de um contrato com fundamento em erro vício sobre o objeto, alegar que ignorava um
determinado facto, que esse facto foi determinante no processo de formação da sua vontade e não alegar a
cognoscibilidade (artigo 247º CC) a petição não será inepta, mas é certamente inconcludente. Se existe uma
contradição entre o pedido e a causa de pedir, a consequência é a ineptidão da petição inicial e
absolvição do réu da instância; se existir inconcludência a consequência (não sendo sanável) é a
absolvição do réu do pedido.

Questões de facto – situações em que é preciso apurar a verdade dos factos, normalmente através da
produção de prova.
Questões de direito – resolvem-se olhando e interpretando a lei.

A sanação da ineptidão da petição inicial

A ineptidão ou nulidade principal da petição inicial é sanável sempre que resulte da ininteligibilidade
do pedido e/ou da causa de pedir, em duas situações. A primeira encontra-se prevista no nº3 do artigo
186º. A segunda situação é a que pode resultar de um despacho de aperfeiçoamento sempre a
ininteligibilidade do pedido ou da causa de pedir resulte da insuficiência, ou imprecisão, na exposição ou
concretização de factos alegados (artigo 590º nº4).

Se a imprecisão ou insuficiência na alegação da matéria de facto conduzir à ininteligibilidade do pedido


ou da causa de pedir, constitui dever de o juiz proferir um despacho de aperfeiçoamento tendo em vista
o suprimento da ineptidão. Se a falta for mais grave, se faltar o pedido ou a causa de pedir, o julgador
não pode proferir despacho convite. É certo que de acordo com o nº3 daquela disposição cabe ao juiz
proferir despacho convite a suprir as irregularidades dos articulados sempre que os mesmos careçam de
requisitos legais, e não se dúvida que a indicação do pedido e causa de pedir constituem requisitos
legais da petição. Porém, se no nº3 daquela disposição estivessem abrangidas a falta do pedido e da
causa de pedir, a restrição prevista no nº4 careceria de sentido. No nº4 do artigo 590º, está regulado o
dever de o juiz proferir despacho de aperfeiçoamento quanto ao conteúdo de facto dos articulados, ao
passo que no nº3 o legislador estatui o dever de aperfeiçoamento quanto aos (demais) requisitos legais
dos articulados em geral

É igualmente sanável a ineptidão da petição inicial resultante da incompatibilidade substantiva dos


pedidos, através de despacho convite ao autor, para por termo aquele vício optando por um dos
pedidos ou uma dedução subsidiária. Assim o impõe o dever de gestão processual (artigo 6º) e a sua
importante concretização constante do nº2 do artigo 590º.

Impossibilidade de sanação:
 Falta do pedido ou da causa de pedir (processo sem objeto)
 Contradição entre o pedido e a causa de pedir
 Cumulação de causas de pedir substancialmente incompatíveis
Nestes dois últimos pontos, os vícios são de maior gravidade, em que o despacho convite aos
suprimentos é suscetível de proporcionar ao autor uma vantagem processual injustificada – prejudica o
réu.

Outros vícios da petição inicial e a recusa da petição da secretaria

Caso o autor não cumpra os requisitos formais da petição, exigidos no artigo 552º, a secretaria judicial
deve recusar o seu recebimento, indicando por escrito o respetivo fundamento (artigo 558º). Assim
deve ocorrer nos seguintes casos:
- Petição não endereçada ou endereçada a outro tribunal, juízo do mesmo tribunal ou autoridade;
- Omissão da adequada identificação das partes ou do domicílio profissional do mandatário;
- Omissão da forma do processo ou da indicação do valor da causa;
- Falta de comprovativo do prévio pagamento da taxa de justiça devida, da concessão de apoio
judiciário ou do seu pedido no caso de citação urgente;
- Falta de assinatura;
- Não esteja redigida em língua portuguesa;
- O papel utilizado não obedeça já aos requisitos estabelecidos pelo DL nº 112/90 de 4 abril.

Do ato de recusa cabe reclamação para o juiz, e da decisão de confirmação do não recebimento cabe
sempre recurso para Relação, nos termos do nº2 do artigo 559º.
Atendendo às graves consequências que podem decorrer da recusa de recebimento da petição inicial,
designadamente quando esteja em causa o risco de caducidade, o artigo 560º atribui ao autor um
importante benefício. Estatui-se nesta disposição, que em caso de recusa se o autor apresentar, no
prazo de 10 dias, outra petição, considera-se a ação proposta na data em que a primeira (petição) foi
apresentada.

Distribuição

A distribuição, regulada nos artigos 203º e ss, é o ato pelo qual se designa o juízo, a instância e o
tribunal onde o processo vai correr os seus termos ou o juiz que vai exercer as funções de relator. Os
atos em que a distribuição se traduz são integralmente realizados por meios eletrónicos que devem
garantir não só a igualdade na distribuição do serviço, mas também a necessária aleatoriedade dos
resultados (artigo 204º). Quer na primeira instância, quer nos tribunais superiores, a distribuição é
efetuada diariamente e de forma automática (artigos 208º e 213º), sendo os resultados objeto de
publicação.
Em 1ª instância estão sujeitos a distribuição todos os atos que importem começo de causa, salvo se esta
depender de outra já distribuída, bem como os que tenham origem em outro tribunal, com exceção das
cartas precatórias, mandados, ofícios ou telegramas, para simples citação, notificação ou afixação de
editais (artigo 206º). Nos tribunais superiores estão sujeitos a distribuição os recursos, as ações em que
os tribunais superiores decidem em primeira ou única instância, a reclamação, os conflitos e revisões de
sentenças de tribunais estrangeiros (artigos 214º e 215º).

Registo da ação

Após a distribuição e em determinadas causas importa proceder ao registo da ação. Estão sujeitas a
registo, entre muitas outras:
- As ações que tenham por fim, principal ou acessório, o reconhecimento, a constituição, a modificação
ou a extinção de direitos sobre bens imóveis, artigo 3º nº1 do Código do Registo Predial;
- As ações de impugnação pauliana (artigo 3º nº1 CRegP);
- As ações que tenham como fim, principal ou acessório, a declaração de nulidade ou anulação de um
contrato de sociedade, nos termos do artigo 9º do CRegP.

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