0% acharam este documento útil (0 voto)
17 visualizações40 páginas

Apologética Cristã: Defesas e Diálogos

O documento aborda a apologética cristã, definindo-a como a defesa da fé cristã e sua importância em um mundo que busca sentido existencial. Ele explora as motivações cristãs para a prática da apologética, a relação entre fé e razão, e apresenta evidências da existência de Deus. O autor enfatiza a necessidade de fortalecer a fé dos crentes frente a desafios contemporâneos e a importância do diálogo entre a fé e a sociedade.

Enviado por

Darlan Felipe
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
17 visualizações40 páginas

Apologética Cristã: Defesas e Diálogos

O documento aborda a apologética cristã, definindo-a como a defesa da fé cristã e sua importância em um mundo que busca sentido existencial. Ele explora as motivações cristãs para a prática da apologética, a relação entre fé e razão, e apresenta evidências da existência de Deus. O autor enfatiza a necessidade de fortalecer a fé dos crentes frente a desafios contemporâneos e a importância do diálogo entre a fé e a sociedade.

Enviado por

Darlan Felipe
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

FACULDADES FACETEN |1

APOLOGÉTICA

José Jacinto de
Ribamar Mendes Filho
2 |APOLOGÉTICA

APOLOGÉTICA

Elaboração: Me. José Jacinto de Ribamar Mendes Filho


Revisão técnica: Jullyandry Coutinho

BOA VISTA,
FEVEREIRO DE 2017
FACULDADES FACETEN |3

APOLOGÉTICA
FACETEN
2.ª Edição, Fevereiro/2017
Faculdade de Ciências, Educação e Teologia do Norte do Brasil
Av: Bandeirantes, 900, Pricumã
69309-100 Boa Vista/RR
Tel: (95) 3625-5477
[Link]
E-mail: [Link]@[Link]

©Todos os direitos reservados.


É proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer meio, sem autorização
por escrito da Faceten
FICHA CATALOGRÁFICA
CIP-Brasil. Catalogação na fonte

143 Faculdade de Ciências, Educação e Teologia do Norte do


Brasil

BIBLIOLOGIA - Boa Vista: Editora FACETEN, 2017.


38 P
1. INTRODUÇÃO 1. O QUE É APOLOGÉTICA
CRISTÃ? 2. ATITUDES APOLOGÉTICAS NUM
MUNDO QUE BUSCA SEU SENTIDO
EXISTENCIAL 3. COMO SER CRISTÃO NO
MUNDO 4. A FÉ EM DIÁLOGO COM O POVO
I. Titulo. II. Faculdade de Ciências, Educação e
Teologia do Norte do Brasil.

Bibliotecária responsável:
Jacquicilea Soares de Souza
CRB/11-742 CDU - 301
4 |APOLOGÉTICA

Sumário
INTRODUÇÃO ............................................................................. 6
1. O QUE É APOLOGÉTICA CRISTÃ? .................................... 7
1.1 AS MOTIVAÇÕES CRISTÃS NA PRÁTICA DA
APOLOGÉTICA ......................................................................... 10
1.2 A FÉ É O FIRME FUNDAMENTO........................................ 11
EVIDÊNCIAS INTERNAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS ............. 13
1.3.1 O CONCEITO UNIVERSAL .......................................... 13
1.3.2 A LEI DA NATUREZA HUMANA .................................. 14
1.3.3 MELHORIA DA SAÚDE MENTAL ................................ 16
1.3.4 O ABSURDO DA VIDA SEM DEUS ............................. 17
2 ATITUDES APOLOGÉTICAS NUM MUNDO QUE BUSCA SEU
SENTIDO EXISTENCIAL ........................................................... 20
2.1 APOLOGÉTICA CRISTÃ NUM REINO DE PLURALISMOS 20
2.2 SOLUÇÃO INTERMÉDIA DA HARMONIZAÇÃO
APOLOGÉTICA ......................................................................... 21
2.3 O MOMENTO DA RUPTURA: POSITIVISMO DA CIÊNCIA 22
2.4 A TEOLOGIA COMO COMPANHEIRA DO HUMANO
MODERNO ................................................................................ 24
3 COMO SER CRISTÃO NO MUNDO ....................................... 28
3.1 O COMEÇO ......................................................................... 28
3.2 A CONDUTA DA MORALIDADE CRISTÃ NA SOCIEDADE 30
4 A FÉ EM DIÁLOGO COM O POVO ........................................ 31
4.1 A FÉ (TEOLOGIA) ANTE OS DESAFIOS DA PÓS-
MODERNIDADE ........................................................................ 32
4.2 A RESPONSABILIDADE DA FÉ CRISTÃ NO MUNDO ....... 34
FACULDADES FACETEN |5

4.3 VÓS SOIS O SAL DA TERRA, VÓS SOIS A LUZ DO


MUNDO ...................................................................................... 36
REFERÊNCIAS .......................................................................... 38
6 |APOLOGÉTICA

INTRODUÇÃO

A primeira seção “o que é


apologética?” vai abordar em alguns
trechos, ideias extraídas da obra
“Defenda a sua fé: pondo por terra as
gigantescas questões da
apologética” de Joe Coffey. A segunda seção vai estudar as
“atitudes apologéticas num mundo que busca seu sentido
existencial”. A seção três, por sua vez, vai abordar a ideia de
“como ser cristão no mundo”. E a seção quatro, vai abordar “a fé
em diálogo com o povo”.
Este trabalho tem, como objetivo, fazer (servir como
estimulante) o leitor pensar ou refletir algumas principais ideias e
conceitos da “apologética cristã”. Para tanto, o autor faz um
achado bibliográfico de alguns dos principais teóricos sobre a
apologética cristã. Entre estes está o professor William Lane Craig,
que, numa narrativa na primeira pessoa do singular, também conta
histórias de experiência da fé cristã.
FACULDADES FACETEN |7

1. O QUE É APOLOGÉTICA CRISTÃ?

Na Teologia sistemática, Paul Tillich define a teologia


apologética como “teologia de resposta” às perguntas implicadas
na situação, isto é, perguntas que estão contidas na existência
humana e são formuladas na cultura. Aí o ser humano revela-se
como um ser questionador, interrogativo, sempre à procura do
sentido da sua própria existência.
Para William Lane Craig, a palavra apologética, vem da
palavra grega apologia, que significa uma defesa, como a que se
faz nos tribunais. A apologética cristã envolve fazer a defesa da
verdade da fé cristã.
A razão do equívoco cometido por essa senhora é evidente:
“Apologética”, em inglês, soa como “pedir desculpas”. No entanto,
a apologética não é a arte de pedir desculpas para alguém por
você ser cristão. Como foi dito antes, da palavra grega apologia,
significa “defesa”.
A Bíblia na verdade nos recomenda que tenhamos essa
defesa pronta para oferecer àquele que nos pedir a razão de nossa
fé. Assim como dois competidores, numa partida de esgrima,
aprendem a se desviar dos ataques, bem como a atacar o rival,
nós também devemos estar sempre “en garde”. A passagem de 1
Pedro 3.15 diz: “Estai sempre preparados para responder a todo o
8 |APOLOGÉTICA

que vos pedir a razão da esperança que ha em vos. Mas fazei isso
com mansidão e temor”.
Algumas pessoas pensam que a apologética não e bíblica.
Elas dizem que você deve apenas pregar o evangelho e deixar
que o Espírito Santo faça a sua parte. No entanto, acredita-se que
o exemplo de Jesus e dos apóstolos afirma o valor da apologética.
Jesus apelava para milagres e cumprimento das profecias para
provar que suas alegações eram verdadeiras (Lucas 25,25-27;
João 14,11).
Muitos crentes nos dias de hoje sentem sua fé abalada
quando o cristianismo é submetido a ataques.
Muitos carregam desnecessariamente dúvidas e
questionamentos mal resolvidos. Essas dificuldades podem
atrapalhar seu viver cristão (louvor, adoração, inseguranças, etc.)
Quanto mais soubermos quão inabaláveis são os fundamentos da
nossa fé, mais motivos teremos para louvá-lo!
Não é “menos espiritual” que nos empenhemos em
aprofundar nossos conhecimentos, mesmo que em outras áreas,
se isso nos leva a glorificá-lo.
Como membros do Corpo de Cristo, temos o dever de
fortalecer a fé uns dos outros. A instrução mútua é imprescindível
em uma igreja sadia.
A missão da apologética é demonstrar que a fé cristã pode
ser incorporada por uma pessoa sem que a mesma cometa um
FACULDADES FACETEN |9

suicídio intelectual. As bases do cristianismo sobrevivem


imaculadamente por investigações e análises de qualquer
natureza (porque estamos falando a Verdade).
Nossa fé é racional, e a apologética se emprega de
argumentos lógicos para facilitar o acesso pelos descrentes, e em
alguns casos até desacreditar os inimigos da cruz de Cristo que
influenciam negativamente outros contra a Verdade.
Mas, além disso, a apologética
é muito importante para estabelecer e
fortalecer o crente na sua fé. Contra as
influências das filosofias do
evolucionismo, materialismo,
comunismo, humanismo, pós-modernidade, ocultismo, e as
demais religiões do mundo. É bem fácil o crente ficar confuso até
ao ponto de ser enganado por uma seita. Alguns abandonaram a
sua fé por falta de respostas às dúvidas levantadas pelos seus
mestres. A apologética, portanto, tem um papel especial na vida
dos jovens crentes que vão estudar numa faculdade secular. Por
todas essas razões, a Igreja não pode deixar de ensinar
apologética.
10 |APOLOGÉTICA

1.1 AS MOTIVAÇÕES CRISTÃS NA PRÁTICA DA


APOLOGÉTICA

O valor do estudo de Apologética só se manifesta com as


motivações corretas:
Amor. Amor aos irmãos com dificuldades e ao humano sem
Cristo (Romanos 13,8). A ninguém fiqueis devendo coisa alguma,
exceto o amor com que vos ameis uns aos outros: pois quem ama
o próximo tem cumprido a lei.
Humildade. No que se refere às coisas sacrificadas a
ídolos, reconhecemos que todos (as) somos senhores do saber.
O saber ensoberbece, mas o amor edifica. Se alguém julga saber
alguma coisa, com efeito, não aprendeu ainda como convém saber
(1 Coríntios 8,1).
Auto-exaltação. Ostentar conhecimento e boa
argumentação, nutrir alguma fama ou imagem, ter o ego
massageado, etc. (Filipenses 2,3). Nada façais por partidarismo
ou vangloria, mas por humildade, considerando cada um os outros
superiores a si mesmo.
Depreciação alheia. Devemos ter respeito e amor pelas
pessoas, eventualmente atacar as ideias erradas que atrapalham
seu relacionamento com Cristo. O desmoronamento de anos de
convicções equivocadas pode ser doloroso. Ganhar argumentos e
perder pessoas contraria o chamado cristão.
F A C U L D A D E S F A C E T E N | 11

1.2 A FÉ É O FIRME FUNDAMENTO

Neste mundo, Deus só pode ser conhecido por meio da fé.


Então, embora haja muitíssimas boas razões para crer, muitas das
quais quero apresentar neste pequeno livro, em certo sentido
ninguém pode provar a existência de Deus.
Do mesmo modo, as pessoas que querem argumentar
contra a existência de Deus também encontram razões para suas
crenças. Mas assim como os cristãos não podem provar que Deus
existe, essas pessoas também não podem provar que ele não
existe. Tanto crer quanto não crer em Deus exige certa dose de
fé.
Há, porém, um dado interessante: percebe-se que quase
todos os que se posicionam contra a existência de Deus, sejam
ateus declarados ou simples agnósticos, caem em contradição.
Talvez não creiam que haja um Deus no Universo, mas ainda
assim não conseguem livrar-se da íntima convicção moral de que
as pessoas devem fazer certas coisas e simplesmente não podem
fazer outras. Em meus debates com pessoas que não são cristãs,
trazer à tona essa realidade, além de demonstrar que se trata na
verdade de uma incongruência, tem-se mostrado algo que as
ajuda muito. Então vamos gastar alguns minutos com o tema. Em
12 |APOLOGÉTICA

seguida, no final deste capítulo, vou apresentar a primeira


categoria de evidência de que Deus existe.
Não é de admirar que as pessoas estejam tão confusas.
Dentro dessa perspectiva, Deus simplesmente não tem vez e não
é levado a sério. Mas, quando chegam às perguntas eles sentem-
se obrigados a introduzir ideias sobre certo e errado, sobre bem e
mal, sobre amar as pessoas e ser bons cidadãos. “Está falando
sério? Mas por quê? Como isso se encaixa de forma natural nas
respostas que você deu às perguntas?” A verdade é que não se
encaixa. Mas, lá no fundo, todos sabemos que responder à estas
perguntas de forma condizente com as respostas que foram dadas
acima, faria com que nosso mundo não suportasse e entrasse em
colapso.
Tendo isso em vista, ateus e agnósticos precisariam
escolher muito bem aquele a quem chamarão de “próximo”,
porque podem acabar num lugar em que para alguns é certo amar
o próximo e para outros não há nenhum problema em devorá-lo.
As duas são conclusões lógicas baseadas em respostas
coerentes com a visão ateísta/agnóstica para as quatro questões
da existência.
F A C U L D A D E S F A C E T E N | 13

EVIDÊNCIAS INTERNAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS

Serão apresentadas
algumas provas documentais
relacionadas à evidencia interna: “o
conceito universal”, “a lei da
natureza humana”, “Melhoria da
saúde mental”, “o absurdo da vida sem Deus”.

1.3.1 O CONCEITO UNIVERSAL

Toda civilização que já existiu neste planeta teve um


“conceito de Deus” como parte de sua essência, desde a Idade da
Pedra até o momento presente. Nesse sentido, a crença em Deus
é universal.
Pense, por exemplo, na cultura americana. Estima-se que
entre 86 e 96% dos americanos creem em Deus. Em seu livro
God: the evidence (Deus: a evidência), Patrick Glynn afirma que
as pessoas têm uma inclinação natural para a oração e que, nos
Estados Unidos, 90% das mulheres e 85% dos homens afirmam
orar diariamente. Mais surpreendente ainda é o fato de que, dos
13% de americanos que se dizem ateus, um em cada cinco relata
que ora diariamente!
14 |APOLOGÉTICA

Os seres humanos têm fome de Deus. Isso é algo com que


já nascem. E toda fome sempre tem uma realidade que lhe
corresponde. Acredito que seja seguro pressupor que nossa forte
tendência a algum tipo de crença em Deus resulte dessa fome
espiritual mais profunda, uma fome de conhecer nosso Criador, de
nos relacionar e ter comunhão com ele.
Não temos fome de algo que não existe. Sentimos fome de
comida, ou de conhecimento, de beleza, de amor, e essas coisas
existem de fato. Podemos imaginar algo que não exista. É possível
imaginar um mundo em que pudéssemos não apenas enxergar a
cor laranja, mas também ouvi-la, só que não ansiamos por isso.
Não temos o apetite despertado por isso. Não escrevemos
canções a esse respeito. Temos fome de coisas que encontram
correspondência na realidade.
Qual é a realidade que corresponde a essa fome espiritual
por Deus sentida no mundo todo? Essa fome que atravessa todas
as culturas, todos os povos, todas as línguas de toda civilização
que já existiu na face da terra? Essa realidade é Deus. Pois Deus
colocou a eternidade no coração do humano.

1.3.2 A LEI DA NATUREZA HUMANA

Em seu livro Cristianismo puro e simples, C. S. Lewis


descreve “nosso senso inato de certo e errado”. Lewis afirma que
F A C U L D A D E S F A C E T E N | 15

uma lei básica, uma ética universal que abrange um senso de


equidade, parece ser algo intrínseco a todo ser humano. Você
pode chamar isso de senso de justiça. É algo que todos
reconhecemos. Se quiser testar essa hipótese, encontre um lugar
em que as pessoas costumem formar filas, como num
supermercado. Pegue suas compras e depois simplesmente fure
a fila, entrando na frente de alguém. Independentemente do que
as pessoas que estão atrás de você crerem, com certeza todas
dirão a mesma coisa: que o que você está fazendo é injusto. Elas
dirão: “Ei, escute aqui! Você não pode fazer isso!”. Todos sabem
que isso é errado, porque temos essa ética universal, um
entendimento inato do que é certo e do que é errado.
Nos julgamentos de Nuremberg, após a Segunda Guerra
Mundial, quando os Aliados julgaram os nazistas por crimes de
guerra contra a humanidade, eles não os acusaram de ter
cometido crimes contra as leis da Alemanha. O que disseram foi:
“Vocês sabiam que estavam errados, todo ser humano sabe
quando está errado, vocês sabiam disso o tempo todo”.
Condenaram os nazistas com base nessa ética universal que, lá
no fundo do coração, todos os seres humanos reconhecem como
verdade.
De onde vem esse tipo de lógica? Deus colocou a
eternidade no coração dos humanos.
16 |APOLOGÉTICA

1.3.3 MELHORIA DA SAÚDE MENTAL

Sigmund Freud não era fã de religião. Para ele, crer em


Deus era sinal de desordem mental, algo a que chamou de
neurose obsessiva universal. Ele dizia que Deus não existe e que
crer para valer em algo que não existe, vivendo de acordo com
essa crença é alienar-se da realidade, uma enfermidade que
precisa ser curada.
Em certo sentido, Freud estava certo. Se a pessoa se
dissocia da realidade e crê em algo que não existe, essa crença
logo se mostrará insalubre, exercendo impacto negativo sobre a
vida dessa pessoa. Digamos que eu acredite que há marcianos se
escondendo nas paredes da minha casa. A princípio, apenas ouço
barulhos, mas, à medida que o tempo passa, manifestarei uma
enorme gama de comportamentos que se tornarão cada vez mais
prejudiciais, como sacar todo o dinheiro da poupança e ir morar no
deserto. Quanto mais distorcemos a realidade ou nos afastamos
dela, mais doentes nos tornamos.
É isso que acontece quando as pessoas creem em Deus?
Patrick Glynn oferece evidências e uma resposta mais que
surpreendente a essa pergunta: Por mais irônico que pareça,
pesquisas científicas na área da psicologia realizadas nos últimos
25 anos demonstraram que a crença religiosa, longe de ser uma
neurose ou uma fonte de neurose, como querem Freud e seus
F A C U L D A D E S F A C E T E N | 17

discípulos, é um dos mais sólidos correlatos de saúde e felicidade


mental como um todo.
Estudo após estudo tem mostrado de um lado uma relação
poderosa entre a crença e a prática religiosa, deixando entrever,
de outro lado, comportamentos saudáveis com respeito a
problemas como suicídio, uso indevido de álcool e drogas,
divórcio, depressão, além de níveis até mesmo surpreendentes de
satisfação sexual no casamento.
Em suma, os dados empíricos vão exatamente à direção
contrária ao consenso supostamente científico dos
psicoterapeutas.

1.3.4 O ABSURDO DA VIDA SEM DEUS

Se Deus não existir, tanto o humano quanto o universo


estarão inevitavelmente fadados à morte. O humano como todos
os demais organismos biológicos, deve morrer um dia. Sem a
esperança da imortalidade, a vida humana caminha apenas para
a cova. A vida humana não passa de uma faísca na escuridão
infinita, uma faísca que aparece, emite uma trêmula chama e se
extingue para sempre.
Portanto, todo mundo deve ficar face a face com aquilo que
Paul Tillich chamou de “a ameaça do não ser”. Pois, embora eu
saiba que existo e que estou vivo, também sei que um dia não
18 |APOLOGÉTICA

mais existirei, deixarei de existir, morrerei. Essa ideia é atordoante


e ameaçadora: pensar que a pessoa que chamo de “mim mesmo”
deixará de existir, e não mais será!
Lembro-me claramente da primeira vez que compreendi
que um dia eu morreria. De algum modo aquele pensamento
nunca havia passado pela minha mente infantil. Quando ele me
disse isso, fui tomado por um grande medo e uma tristeza
profunda. Embora ele ficasse me dizendo que isso ainda
demoraria a acontecer, aquilo não parecia importar para mim.
Cedo ou tarde, o fato inegável é que eu iria morrer, e esse
pensamento me oprimia.
Se toda pessoa deixa de existir quando morre, então, que
sentido último há em viver? Será que faz alguma diferença no final
ter ou não sequer existido?
A humanidade, portanto, não tem mais sentido do que um
enxame de mosquitos ou um punhado de porcos, pois o final de
todos é o mesmo. O mesmo processo cósmico cego, do qual eles
resultaram, vai, no fim de tudo, tragá-los de volta. As contribuições
de um cientista para o avanço do conhecimento humano, as
pesquisas para aliviar a dor e diminuir o sofrimento, os esforços
diplomáticos para garantir a paz mundial, os sacrifícios feitos por
pessoas de bem, em todo o mundo, para melhorar a sorte da raça
humana, tudo isso resultará em nada. E este é o horror do ser
humano moderno: por ele acabar em nada, ele nada é.
F A C U L D A D E S F A C E T E N | 19

É importante perceber que o humano precisa mais do que


apenas imortalidade para sua vida fazer sentido. A mera duração
da existência não faz com que a existência tenha um sentido.
Ainda que a raça humana e o universo pudessem existir para
sempre, se Deus não existisse, a existência continuaria a não ter
um sentido último. Certa vez estava sendo lida uma história de
ficção científica em que um astronauta foi abandonado em um
estéril pedaço de rocha perdido no espaço sideral. Ele trazia
consigo dois frascos, um deles com veneno e o outro tinha uma
porção que o faria viver para sempre. Ao perceber o futuro que o
aguardava, ele tomou o frasco de veneno. Mas, para seu horror, o
pobre homem descobriu que havia tomado o frasco errado: ele
tinha tomado a porção da imortalidade! E isso significava que
estava condenado a viver para sempre uma vida sem sentido, sem
fim.
Ora, se Deus não existir, nossas vidas são como a desse
astronauta. Poderíamos viver para sempre e ainda assim vivermos
uma vida completamente sem sentido. Mesmo se fossemos
eternos, ainda assim perguntaríamos para a vida: “Afinal, e daí?”.
Portanto, o humano não precisa apenas da imortalidade para que
haja um sentido último para viver: ele precisa de Deus e da
imortalidade. E se Deus não existir, então ele não tem nem uma
coisa nem outra.
20 |APOLOGÉTICA

2 ATITUDES APOLOGÉTICAS NUM MUNDO QUE BUSCA


SEU SENTIDO EXISTENCIAL

A teologia contemporânea se torna existente não somente


com a finalidade de ser mais uma linha acadêmica, mas, também,
de responder questões dos dias atuais. São indagações dos
indivíduos e do mundo pós-moderno que são feitas a partir das
relações (humanas) do ser com o sagrado e com o profano na
cultura.
Com isto, esta seção terá o objetivo de compreender e
ratificar o campo teológico e apologético para os tempos presentes
entendendo o seu significado e aplicação na atualidade.

2.1 APOLOGÉTICA CRISTÃ NUM REINO DE PLURALISMOS

A fé bíblica, desde o início, caracterizou-se por sua


dimensão histórica. E a história, por sua natureza, rompe com a
uniformidade essencial da matriz filosófica da natureza. Destarte,
a fé bíblica manifestou-se de maneira pluralista. E a fé cristã na
esteira da fé bíblica veterotestamentária herda a dimensão
histórica pluralista. O mesmo fato-pessoa, Jesus Cristo, encontra
quatro versões bem diferentes nos evangelistas e na interpretação
original de Paulo. Na Patrística e na Idade Média, as diferentes
escolas teológicas continuaram a mostrar essa pluralidade da
única fé cristã.
F A C U L D A D E S F A C E T E N | 21

Uma teologia na cultura pluralista necessariamente faz-se


dialógica. Abre-se de dentro para o diálogo e faz-se e refaz-se
tantas vezes quantas o diálogo lhe for ensinando esse
refazimento. Se tal processo antes resistia séculos, depois
décadas, hoje o teólogo considera um ano de literatura teológica
tempo suficiente e longo para muitas revisões. Esta agilidade
produtiva oferece a teologia chances inauditas de acompanhar o
pensamento atual em suas vicissitudes com produções sempre
novas e renovadas. O envelhecimento rápido dos produtos
teológicos não permite a preguiça hermenêutica de ninguém. Do
contrário, o risco de perder a condução da história agiganta e a
teologia acaba ocupando logo alguma estante de museu,
frequentado por curiosos do passado, mas não por interessados
de sua força evangelizadora presente.

2.2 SOLUÇÃO INTERMÉDIA DA HARMONIZAÇÃO


APOLOGÉTICA

Em seguida, buscou-se harmonização apologética.


Mantendo-se enquanto possíveis afirmações teológicas, bíblicas
ou outras, idênticas em sua materialidade literal, de um lado, e as
afirmações cientificas que pareciam contradizê-las, de outro,
torciam-se os textos a tal ponto que se encontrava uma
harmonização. Nesta linha, tomou-se famoso o livro ate hoje
reeditado: E a Bíblia tinha razão . Tal solução precária não resistiu
22 |APOLOGÉTICA

à crise provocada pela consideração epistemológica sobre os


diferentes tipos de saber.

2.3 O MOMENTO DA RUPTURA: POSITIVISMO DA CIÊNCIA

Entrou-se em nova fase de relacionamento. Da “bela


unidade” tradicional passando pelo conflito, chegou-se ao divórcio
com liberdade total para cada cônjuge. As ciências,
independentemente da teologia, vão fixando sua episteme própria,
e a teologia esforçam-se por ser ainda reconhecida com certa
dignidade no consórcio das ciências. Inverte-se o cenário. Antes
as outras ciências mendigavam o beneplácito da teologia. A
filosofia se dizia “ancilla theologiae”, serva da teologia. Agora a
teologia debate-se para ser considerada com seriedade e não
relegada ao mundo das fábulas.
Cada mundo de saber explicita sua verdade própria, intra-
sistêmica, autônoma, irredutível a qualquer outra. Ela se torna
instância critica de si mesma e não de outras, nem se deixa criticar
por outras. Reina visão positivo-hermenêutica no sentido de que
cada interpretação cientifica delimita ela mesma seu mundo de
verdade, seus parâmetros, sua objetividade.
As ciências exatas reivindicam a explicação dos fenômenos
por razões imanentes e verificáveis em condições estabelecidas.
As ciências humanas posicionam-se no universo do sentido das
F A C U L D A D E S F A C E T E N | 23

coisas. O modelo principal, o “analogatum princeps” na linguagem


da escolástica, cabia às ciências positivas, exatas, experimentais.
As outras se moldavam por elas e eram tanto mais ciência quanto
mais se aproximava desse modelo positivista e empirista, que
reduzia a ciência ao experimental e a experiência ao âmbito do
sensível, relegando para o mundo subjetivo e fabuloso tudo o que
transcendesse tal esfera sensível e constatável. Nesse sentido,
ciência se dizia aquele conjunto de teses formado unicamente com
o auxilio de métodos muito precisos de experimentação. As
afirmações provam-se imediatamente por sua aptidão em suscitar
aplicações concretas que efetivamente são admitidas por todos.
Esta visão positivista marcou muito a compreensão vulgar
de ciência, como se ela fosse baseada na evidência mais sólida e
irrefutável, e como se suas descobertas fossem inquestionáveis
com a pretensão de desvendar todas as áreas da experiência
humana. Seria questão de tempo. Ela gozaria de uma neutralidade
irrefutável, já que o cientista abordaria a realidade sem nenhum
pressuposto.
Evidentemente nesse quadro, a teologia fazia pobre papel.
Tendo como objeto Deus, realidade transcendente e
experimentável no sentido positivista, ela era alijada do mundo
cientifico. O filosofo positivista, A. Comte, relegara a religião, o
mesmo vale para a teologia, ao mundo da infância da humanidade
24 |APOLOGÉTICA

e das pessoas. A idade adulta da razão considera-a


definitivamente superada como toda possível fé em Deus.
Contudo, enquanto a teologia pode exibir um conjunto de
conhecimentos ordenados, com objeto, método, unidade e
sistematização próprios, merece, com direito, o titulo de ciência.

2.4 A TEOLOGIA COMO COMPANHEIRA DO HUMANO


MODERNO

A teologia difere das outras ciências no sentido de querer


ser mais companheira do que objeto a ser conhecido. As ciências
oferecem elementos para que se organize, se pense, se construa
o mundo e se aja nele. A teologia prefere dispor-se, de maneira
gratuita, a ser companheira de viagem da solidão do humano
moderno.
A vida humana intercala-se, como curto lapso diurno, entre
duas gigantescas noites. A noite da não-existência. Ontem não
éramos. Esse ontem recua bilhões de anos ate o big-bang. E antes
dele paira o silêncio do nada. Após a morte, abre-se nova noite
escura sem término. Entre essas duas ameaças do caos inicial e
final, o ser humano caminha solitário, sem luz. A teologia, ao fazer-
se companheira, quer contar-lhe as histórias de Deus que lhe
permitem encontrar sentido para esta aventura tão breve entre os
infinitos do ontem e do amanhã.
F A C U L D A D E S F A C E T E N | 25

A solidão desse viajante moderno, além dessa dimensão


ontológico-existencial inexorável de originar-se da escuridão da
noite do não existir e para ela caminhar, vê-se acrescida pelo peso
das condições históricas da modernidade e pós-modernidade
liberal e seu reverso de exclusão. No lado avançado da
modernidade liberal, a solidão veste-se do insaciável
individualismo consumista. Quanto mais o cidadão da
modernidade mergulha no oceano de seus interesses egoísticos,
no afã inesgotável de buscar-se só a si mesmo, tanto mais o
persegue a tristeza solitária de seu eu vazio. E, no Terceiro Mundo
da pobreza, a dor da fome, a preocupação com o futuro inseguro,
a morte “antes do tempo” espreitam ameaçadoras e tenebrosas,
envolvendo as pessoas em doloroso penar.
Nesse momento, brotam as histórias do consolo. Algumas
superficiais, mentirosas, enganadoras, alienantes. Nisso a mídia
capitalista se especializou. A teologia sente a vocação de contar
as mais belas histórias de conforto e consolo, hauridas na Palavra
de Deus. O “era uma vez” divino adquire seu pleno significado. A
teologia quer acompanhar o viajante moderno nessa
peregrinação, contando-lhe as histórias da proximidade de Deus
com o humano e das possibilidades da proximidade do humano
com Deus.
O teólogo quer falar do “rosto do outro” que remete ao
Outro, fundamento de toda alteridade, dotado de anterioridade e
26 |APOLOGÉTICA

heteronomia fundadora. As histórias de Deus narram e traduzem


na analogia dos símbolos essa presença e companhia de Deus na
trajetória humana. Evocam, com sua linguagem narrativa e
analógica, aquele que as supera, e suscitam o que vira sem
predeterminá-lo. Nestas histórias abertas, memórias de uma
origem que não se deixa capturar na história, Deus nos seduz. O
teólogo coloca-se ao lado de seus irmãos para ser-lhes
contemporâneo, para ouvir-lhes as dores, as dúvidas, os
sofrimentos e só depois contar-lhes as histórias de Deus. Na
poética expressão de B. Forte elabora-se uma apologética do
êxodo do humano e do advento da Palavra condescendente de
Deus.
O futuro da teologia se decide na sua arte de contar as
histórias do êxodo do humano e do advento de Deus num
maravilhoso encontro. Em sua caminhada solitária, este humano
se depara com a Palavra de Deus que lhe vem ao encontro e lhe
ilumina as duas noites fundamentais. Antes de sua existência,
estava a comunhão da Trindade. No final de sua existência, esta
mesma comunhão.
Esta forma de apologética será o pensamento da
“condescendência” de Deus com relação ao humano, segundo o
espírito dos Padres gregos, mas também da nostalgia do
Totalmente Outro, que existe no coração do humano, segundo o
dito agostiniano “fecisti cor nostrum ad Te” (fizeste o nosso
F A C U L D A D E S F A C E T E N | 27

coração para Ti), e de tantas histórias de sofrimento e


incompletude, que em sua infinita dignidade estão cheias de
perguntas abertas e tesouros escondidos. Sem esta apologética,
a teologia não mais seria parte do mundo da linguagem,
transformando-se em mera conversa fútil e em silêncio, devido não
a um falar mais alto, mas apenas a um calar-se nu e vazio.
Para tentar semelhante apologética, é necessário propor-
se, portanto, a pergunta sobre o sentido que possa ter a teologia,
e não só a partir do humano, mas, também, a partir de Deus. O
desafio do sentido é posto assim juntamente pelo movimento de
êxodo que é a existência humana (existir é ‘estar fora ’...) e pelo
movimento do advento, pelo qual a Palavra vem preencher e
perturbar o silêncio. Este desafio concerne ao mesmo tempo ao
sentido de Deus para o humano, em sua dimensão pessoal e na
histórico-social, assim como também ao sentido do humano para
Deus, enquanto lhe é dado percebê-lo na Palavra de revelação.
Mas concerne também e propriamente ao sentido do nosso falar
de Deus e do humano, o sentido daquele pensamento do êxodo e
do advento e do seu encontrar-se na cruz e ressurreição do
Crucificado, que é a teologia cristã.
28 |APOLOGÉTICA

3 COMO SER CRISTÃO NO MUNDO

“O começo”, “a conduta da
moralidade cristã na sociedade”

3.1 O COMEÇO

No início do movimento Cristão, foi preciso assumir o


desafio de acreditar-se em uma nova proposta de vida diferente
da que estava sendo aceita pela maior parte do mundo. Ser
Cristão significava ser diferente, andar por trilhas jamais seguidas,
tanto no mundo judaico, quanto no mundo helênico.
Naquele ambiente em que o cristianismo surgiu, parece
mesmo que o pequeno grupo percebeu a existência de apenas
duas alternativas: ou se assumia como “outro caminho” e seita , e
assim se impunha como nova opção de vida, fé e prática para o
mundo de seu tempo, enfrentando todo o tipo possível de ódio e
perseguição pelos grupos já instituídos; ou se acovardava e
deixava-se incluir nas maiores forças religiosas, políticas e
filosóficas existentes. A todo o custo, e com a intenção de dar a
própria vida se fosse preciso, a comunidade Cristã primitiva
assumiu sua mensagem e lutou para se impor como o único
caminho certo que deveria ser ensinado e no qual todos em todo
o mundo deveriam escolher por caminhar.
F A C U L D A D E S F A C E T E N | 29

O apoio a novas seitas e a tomada de novas decisões e


escolhas por parte de um povo que sempre manifestou seu
orgulho por sua nação e, especialmente no caso de Israel, da sua
religião, revelam que nem tudo estava indo de acordo com o
pensamento popular, algo estava errado na prática religiosa das
autoridades. Na verdade, uma série de problemas, mudanças e
aparentes desvios de rumo vinham ocorrendo dentro do contexto
existente da religião judaica o que vinha despertando estes novos
movimentos, as chamadas “seitas”.
Se nos perguntarmos, pois, sobre os contextos em que se
interpretaram as grandes tradições morais de Israel, deveremos
ser sensíveis quer à variedade dos diferentes lugares, quer às
fortes correntes de mudança que estavam ocorrendo
precisamente no período em que estava tomando forma a seita
messiânica peculiar que havia de se tornar o cristianismo.
Muitas marcas ficaram no coração de parte povo de Israel
que viam suas tradições primitivas sendo transformadas pela ação
e influência de outras nações e culturas. O sentimento era de que
o “caminho” da religião nacional não estava sendo o “original”
instituído por Deus e a busca por direção correta era uma das
grandes ansiedades para o povo.
30 |APOLOGÉTICA

3.2 A CONDUTA DA MORALIDADE CRISTÃ NA SOCIEDADE

Nas sociedades contemporâneas, tenta-se construir uma


concepção de sociedade democrática como sociedade baseada
na ideia de justiça, que se apoia no núcleo da consciência moral
coletiva. Nesse contexto, primeiro se pergunta: o que se entende
por moral ou ética? O que se entende por fundamentalismo
religioso?
Antes de tudo, cabe esclarecer alguns termos usados nesta
abordagem. As palavras ética (éthos), derivada do grego, e moral
(mores), derivada do latim, a rigor, têm a mesma etimologia.
Ambas, entretanto, são entendidas de diferentes maneiras,
sempre referentes à conduta e ao agir humanos. Antes da moral
filosófica existe a moral vivida. As ciências humanas que estudam
o comportamento humano, como a sociologia e psicologia, de
modo algum substituem a ética ou moral.
A regra áurea do Novo Testamento (faça aos outros o que
gostaria que fizessem para você) é o resumo do que todos e todas,
no íntimo, sempre reconheceram como correto. Os grandes
mestres da moral nunca criam morais novas; são os charlatões
que fazem isso. Como dizia o dr. Johnson, “deve-se antes
refrescar a memória das pessoas a respeito do que já sabem do
que instruí-las com novidades”. A verdadeira função do mestre da
F A C U L D A D E S F A C E T E N | 31

moral é a de sempre nos trazer de volta, dia após dia, aos velhos
e simples princípios que tanto nos esforçamos para não ver.
Segundo E. Tugendhat, somente existem dois tipos de
justificação recíproca de normas: o religioso e o relacionado aos
interesses dos membros da sociedade. O religioso pode ser
denominado de justificação vertical ou autoritária, e o segundo de
justificação horizontal. Diz Tugendhat: Em todas as sociedades
tradicionais, a justificação era vertical. Nietzsche e Dostoiewski
pensavam que, quando a justificação vertical se torna impossível,
a moral simplesmente não é justificável e muitos pensam assim
ainda hoje.
Certamente a justificação religiosa pode conduzir para além
de si mesma, pois a justificação feita só de maneira autoritária
pode não convencer. Pode perguntar-se: as normas são boas,
porque Deus as promulgou, ou Deus as promulgou, porque são
boas? No segundo caso, a justificação vertical conduz de per si à
justificação horizontal.

4 A FÉ EM DIÁLOGO COM O POVO

Ousemos um pouco mais tomando a iniciativa! [...] Com


obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida diária dos
outros, encurta as distâncias, abaixa-se, se for necessário, até a
humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora
32 |APOLOGÉTICA

de Cristo no povo. Os evangelizadores contraem assim o “cheiro


de ovelha”, e estas escutam a sua voz. Em seguida, a comunidade
evangelizadora dispõe-se a “acompanhar”. Acompanha a
humanidade em todos os seus processos, por mais duros e
demorados que sejam. [...] Fiel ao dom do Senhor, sabe também
“frutificar”. A comunidade evangelizadora mantém-se atenta aos
frutos, porque o Senhor a quer fecunda. Cuida do trigo e não perde
a paz por causa do joio. [...] Encontra o modo para fazer com que
a Palavra se encarne numa situação concreta e dê frutos de vida
nova, apesar de serem aparentemente imperfeitos ou defeituosos.
O discípulo sabe oferecer a vida inteira e jogá-la até o martírio
como testemunho de Jesus Cristo; contudo, o seu sonho não é
estar cheio de inimigos, mas antes que a Palavra seja acolhida e
manifeste a sua força libertadora e renovadora.

4.1 A FÉ (TEOLOGIA) ANTE OS DESAFIOS DA PÓS-


MODERNIDADE

O que a pós-modernidade representa para a teologia não é


de forma alguma algo inambíguo. Tentarei mostrar que ao que ela
aponta possa representar uma promessa. Mas também é
maldição. Ao destruir as possibilidades de meta-narrativas e por
criticar qualquer discurso baseado na convicção de que não existe
uma história, portanto, nenhum motivo unificador de discursos, a
critica à modernidade suspeita de qualquer significado conclusivo
F A C U L D A D E S F A C E T E N | 33

e englobante, quer dizer, suspeita da escatologia, esse tema que


tem servido para a teologia moderna como Ersatz das antigas
tentativas de provar Deus pelas lacunas da argumentação
científica.
Se definirmos a pós-modernidade como a modernidade
voltada contra si própria, a modernidade, não superada, mas ao
seu avesso, veremos que a superação da escatologia, e de todos
os teleologismos é, na verdade, apocalíptica, ou paradoxologia. O
que importa agora examinar são os mecanismos pelos quais esta
paradoxologia, esta apocalíptica, esta inversão do presente, da
contemporaneidade, funciona e quais as implicações que isto traz
para fazê-lo teológico. Estes mecanismos são de profunda
importância.
O que se chama de crise da modernidade é marcado pela
consciência de que a modernidade, esta atitude fáustica de quem
se cria/crê capaz de abarcar a razão universal, de revelar a língua
pela qual Deus mesmo fala, dissimula dentro dela mesma a sua
alteridade, aquilo que não lhe é afim. Em outras palavras, a
modernidade traz consigo a consciência, ou melhor, seria dizer,
um inconsciente impertinente que revela que os próprios valores
que a modernidade elegeu como centrais não o são. Ou seja, a
modernidade se esmera em fundamentar seus argumentos na
falta total de fundamento. Ela justifica, por exemplo, a democracia
na ideia da igualdade, a igualdade na ideia da liberdade, a
34 |APOLOGÉTICA

liberdade na ideia da felicidade, a felicidade na ideia da


providência, a providência na ideia de Deus, a ideia de Deus na
ideia do Ser, a ideia do Ser na ideia do sujeito, a ideia do sujeito
na certeza da existência, e, finalmente, a ideia da existência na
própria autoconsciência (cogito, ergo sum). Todos os elementos
deste esboço de sistema, que poderia ser modificado e
reelaborado de várias maneiras servem apenas para escorar um
ponto fundamental que distingue os sistemas modernos de outras
estruturas intelectuais que precedem ou que coexiste à parte e
dentro da modernidade. Este supõe um fundamento
transcendente, um fundamento dado que não pode ser justificado,
deve simplesmente ser aceito (nisto se ancoram os
fundamentalismos religiosos de todos os matizes). Para usar uma
metáfora comum nas discussões sobre a modernidade, ela se
apresenta como uma pirâmide, no entanto construída sobre uma
jangada surfando sobre um mar que diz não existir.

4.2 A RESPONSABILIDADE DA FÉ CRISTÃ NO MUNDO

Se a modernidade se ocupou em “desencaixar” os


indivíduos dos ambientes que os hospedavam, ela o fez a fim de
“reencaixá-los” de modo mais seguro que antes, para criar
“estruturas” construídas de acordo com um plano [...] A pós-
modernidade (a modernidade em fase “líquida”) é a era do
F A C U L D A D E S F A C E T E N | 35

desencaixe sem o reencaixe [...] A era pós-moderna (ou, como


prefiro dizer agora, “líquido-moderna”) se divide em episódios que
não se apresentam numa ordem com o mínimo de consistência.
Inseridos neste contexto de vida líquida, estão os
relacionamentos humanos, que segundo Bauman, são “bênçãos
ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como
determinar quando um se transforma no outro. [...] No líquido
cenário da vida moderna, os relacionamentos talvez sejam os
representantes mais comuns, agudos, perturbadores e
profundamente sentidos da ambivalência”. Encontram-se no
cerne das atenções, no topo das agendas existenciais, são o
assunto mais “quente” e, aparentemente o único jogo que vale a
pena, apesar dos riscos implícitos.
Acontece que mesmo inserido em um contexto bastante
inóspito para o florescimento e o desenvolvimento das relações
humanas, o campo do amor por excelência, o ser humano
continua o mesmo e traz em de si o desejo de amor. É sabido que
a experiência de amar e de ser amado dá direção, sentido à vida.
É o anseio mais profundo de todo homem e toda mulher. Sem
amor a vida fica fria e vazia, fica insuportável.
O amor faz a existência humana valer a pena. Muitos
podem concordar com a citação: “sou amado, logo existo”. No
amor reside o desejo de ser único e pleno, de encontrar um sentido
na vida. A experiência da dignidade própria está associada à
36 |APOLOGÉTICA

experiência de amor que leve em conta a singularidade pessoal,


na qual se pode ser autêntico e descobrir capacidades e
possibilidades. É quando a pessoa é recriada.

4.3 VÓS SOIS O SAL DA TERRA, VÓS SOIS A LUZ DO MUNDO

“Vós sois o sal da terra” (Mateus 5,13). “Vós sois a luz do


mundo” (Mateus 5,14). As metáforas que Jesus escolheu para
ilustrar a natureza crucial do chamado do reino foram
confeccionadas com materiais caseiros comuns. Nenhuma casa
da Palestina deixava de ter algum sal, ou uma lâmpada para
espantar a melancolia da noite. O mundo dos humanos, por causa
do pecado, estava apodrecendo na escuridão. Os cidadãos do
reino do céu estavam destinados a serem o sal para impedir a
putrefação do pecado e a luz para penetrar seu escuro desespero.
Jesus advertiu ainda seus discípulos que o mundo que eles
pretendiam preservar, eles também tinham que perder.
Para ser sal e luz no mundo, o apologeta precisa se
chamado. Um chamado ou uma vocação pode vir de dentro da
gente: “Eu me sinto chamado para isto ou para aquilo”. Também
pode vir de fora. Alguém bate na porta e diz: “Maria, será que você
pode vir ajudar a gente?” Geralmente, a vocação é algo que vem,
ao mesmo tempo, de dentro e de fora da gente. É como uma
semente que está dentro da terra. Mas se não houver chuva e sol
F A C U L D A D E S F A C E T E N | 37

que vem de fora, a semente que está dentro da gente não cresce
e não se desenvolve.
Vocação é como gente. Ninguém nasce sozinho, mas
nasce de pai e mãe, no meio de uma família. Não cresce sozinho,
mas com a ajuda de outras pessoas. Dizia o cearense filósofo lá
do sertão que nunca estudou: “Eu não sou pessoa não. Sou
pedaço de pessoa. Pessoa é a comunidade, e quanto mais eu
participo na comunidade, mais pessoa eu fico”. É assim que
cresce a vocação dentro da gente: convivendo.
Vocação pode nascer de muitas maneiras. Por exemplo,
quando, diante de uma injustiça, você percebe que tem a
possibilidade de fazer algo para mudar a situação, então, dentro
de você, nasce um sentimento de responsabilidade que a faz
dizer: “Não posso ficar parada! Devo fazer alguma coisa!” Pois
bem, esta consciência forte que você, eu ou a comunidade às
vezes sentimos de que podemos e devemos fazer algo para mudar
o rumo dos acontecimentos ao nosso redor, é uma vocação. Vem
de Deus através da consciência. Assim existem muitas vocações,
muitos chamados.
38 |APOLOGÉTICA

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,


2009.

BAUMAN, Zygmunt. Bauman sobre Bauman: Diálogos com Keith


Tester. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

COFFEY, Joe. Defenda a sua fé: pondo por terra as gigantescas


questões de apologética. Trad. Fabiano Medeiros. São Paulo:
Vida Nova, 2012.

CRAIG, William Lane. Em guarda: defenda a fé cristã com razão e


precisão. Trad. Marisa K. de Siqueira Lopes. São Paulo: Vida
Nova, 2011.

GRÜN, Anselm. Morar na casa do Amor. São Paulo: Loyola, 2006.

Jacqueline L. Salmon, Most Americans believe in higher power,


poll finds, The Washington Post, 24 de junho de 2008.

Keller, W., Und die Bibel hat doch recht. Forscher beweisen die
historische Wahrheit, Dusseldorf/Viena, Econverlag, 1955; nova
edição revisada e ampliada, Reinbek b/Hamburg, Rowohlt, 1989;
trad. bras. São Paulo, Melhoramentos, 1992.
MEEKS, Wayne A.. O Mundo Moral dos Primeiros Cristãos. in:
Bíblia e Sociologia. São Paulo. Paulus. 1996.

Patrick Glynn, God: the evidence, Roseville: Prima Publishing,


1999.

SANTA ANA, Júlio. Igreja e Seita: Reflexões sobre esse Antigo


Debate. in: Estudos de Religião 8. São Bernardo do Campo. no 8,
ano VI, outubro de 1992.
F A C U L D A D E S F A C E T E N | 39

TILLICH, Paul. Teologia da cultura. Trad. Jaci Correia Maraschin.


São Paulo: Fonte editorial, 2009.
40 |APOLOGÉTICA

Você também pode gostar