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Amor e Luta: Uma Jornada Emocional

O documento narra a história de um amor que se desenvolve entre duas pessoas que se sentem quebradas e encontram consolo uma na outra através de mensagens e encontros. A relação evolui, enfrentando desafios como inseguranças pessoais e a luta de um dos parceiros contra a depressão, mas a conexão entre eles se fortalece. A promessa de um futuro juntos se torna um alicerce para enfrentar as dificuldades da vida, enquanto ambos buscam um espaço de paz e felicidade.

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Amor e Luta: Uma Jornada Emocional

O documento narra a história de um amor que se desenvolve entre duas pessoas que se sentem quebradas e encontram consolo uma na outra através de mensagens e encontros. A relação evolui, enfrentando desafios como inseguranças pessoais e a luta de um dos parceiros contra a depressão, mas a conexão entre eles se fortalece. A promessa de um futuro juntos se torna um alicerce para enfrentar as dificuldades da vida, enquanto ambos buscam um espaço de paz e felicidade.

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Eu a via todos os dias.

Não era uma obsessão — era algo mais suave, quase


respeitoso. Como se meu coração reconhecesse nela algo que minha mente ainda
não sabia explicar.

Sempre que cruzava com ela na rua, sentia algo estranho. Um peso bom, uma ânsia.
Aqueles segundos em que nossos caminhos se cruzavam eram os únicos que
pareciam reais no meu dia. Ela sorria. Deus, como ela sorria. E eu? Eu só sabia
olhar e desviar o olhar logo depois, como um covarde.

Naquele dia, eu estava destruído. Um daqueles dias em que o mundo parece cinza,
sem sons, sem chão. Estava sozinho em casa, tentando fingir que não me
importava. Mas me importava.

Foi então que abri o Facebook.

Ali, no meio de notificações vazias e postagens bobas, o nome dela apareceu como
um estalo no peito. E eu escrevi. Não pensei, não planejei. Simplesmente mandei a
mensagem.

"Oi..."

Ela respondeu.

O que eu não sabia era que ela também estava quebrada por dentro. Que aquele
mesmo dia, pra ela, também parecia o fim de tudo. E que aquela mensagem simples
— um gesto tão pequeno — tinha sido uma mão estendida no escuro.

"Aquilo mudou a minha vida", ela me disse depois.

1
As conversas começaram a virar rotina. Não era só um “bom dia” ou uma troca de
memes — era algo além. A cada palavra, eu sentia que a minha alma encontrava um
lugar onde podia descansar. E ela? Ela também parecia mais leve, como se cada
mensagem nossa fosse um pequeno remendo nos buracos que a vida tinha deixado.

No começo, eu ainda estava envolvido com outras conversas. Dez, talvez. Coisa de
homem inseguro, carente, tentando preencher o vazio com distrações. Tinha uma ali
que eu achava que amava. Juro que achava. Mas... quando ela apareceu de
verdade, tudo isso perdeu o sentido.

Eu escolhi ela.

Não porque ela me pediu. Não porque era mais bonita ou mais fácil. Mas porque
havia algo nela que me desmontava — e ao mesmo tempo, me reconstruía.

Ela tocou o meu coração sem nem precisar encostar em mim.

E foi aí que percebi: ela precisava de mim tanto quanto eu precisava dela. E isso...
isso mudou tudo.

2
Os dias se tornaram dela.

Conversar com ela era como respirar ar puro depois de tanto tempo sufocado. Eu
esperava as mensagens dela como quem espera o sol nascer depois de uma noite
longa demais. E então, um dia, o silêncio veio. Gritante. Doloroso.

Mandei mensagem. Esperei.


Nada.

O celular virou um relógio quebrado nas minhas mãos. O tempo passava, mas tudo
dentro de mim parou. E como quem tenta fugir da própria mente, saí de casa.

Foi aí que vi.

Ela. Na rua. Passando com outro cara.

Meu coração caiu no asfalto.


Não chorei. Não naquele momento. Mas senti. Meu Deus, como eu senti.
Foi como se tudo que eu tinha construído dentro de mim tivesse desmoronado de
uma vez.

“Era isso, então?” — pensei. “Enquanto eu aqui, enquanto eu...”

Mas a vida — essa danada — tinha outros planos.

Pouco tempo depois, a gente se falou. Eu não lembro as palavras exatas. Só lembro
do alívio, da confusão, do medo, da esperança. A gente marcou de se encontrar. E
eu fui com o coração em pedaços.

Mas fui.

3
Nos encontramos.

Ali, no meio da rua, como se o universo tivesse preparado aquela cena com
descuido — ou talvez, com precisão demais. Ela estava ali. Linda, simples, real. E
eu... eu travei.

Não era medo dela. Era medo de mim mesmo.


Medo de não ser o suficiente. Medo do que ela pensaria ao me ver de perto. Eu não
sou um cara bonito — nunca fui. E naquele momento, tudo que eu era parecia
pequeno demais perto do que eu sentia por ela.

Fiquei parado. As mãos tremiam. As palavras... sumiram.

"Como que eu chego? Como que eu falo? Meu Deus, o que eu tô fazendo aqui?"

Ela estava ali. A poucos passos. Mas eu não consegui.

E aquilo doeu. Não porque ela fez algo — pelo contrário —, mas porque eu queria
tanto, tanto... E o medo foi maior que a coragem.

Mas, ainda assim, mesmo sem conseguir me aproximar como eu queria, eu estava
ali. E isso, de alguma forma, foi o começo de tudo.

4
Mesmo com a vergonha, com o nó na garganta, com a insegurança gritando dentro
de mim — eu fui. E ela... ela ficou. Com aquele sorriso que já me quebrava por
dentro há tempos, e agora estava ali, só pra mim.

Ela falava dos defeitos dela como quem pedia desculpas por existir.

"Se você me visse desarrumada, talvez não gostasse de mim."


"Eu sou cheia de manias, cheia de problemas."

E eu? Eu só enxergava luz. Não era a roupa. Não era o cabelo. Era ela — de dentro
pra fora. Um brilho que me tocava de um jeito que ninguém nunca tinha tocado.

Naquele dia, eu olhei pra ela e pensei:


“É com ela. Vai ser ela. Pra tudo.”

Casamento, filhos, velhice. Tudo passou pela minha cabeça como um filme rápido,
como uma certeza antiga que só agora tinha se revelado.

Começamos a nos ver com mais frequência. Cada encontro era uma nova peça de
um quebra-cabeça que, no fundo, já estava montado dentro de nós.

E então, sem planos, sem roteiro, a gente começou a namorar.


Simples assim. Porque quando é verdadeiro, o amor não precisa de cerimônia. Só
de coragem.

5
Eu nunca tinha sentido nada parecido. A sensação de ver ela chegando, o sorriso
que me fazia tremer por dentro, o frio na barriga quando ela me olhava — como se o
tempo todo fosse a primeira vez.

Cada encontro era uma explosão de alegria, mas também de insegurança. Como se
eu estivesse no precipício, tão alto, tão feliz… mas com medo de cair. Medo de que
aquele momento perfeito pudesse desmoronar a qualquer segundo.

Nos primeiros dias, eu não consegui me jogar de cabeça. Eu ainda conversava com
as outras garotas, não porque queria, mas porque tinha medo. Medo de amar tanto
assim e me machucar, de perder tudo, de me entregar e não receber nada de volta.

Mas o tempo passou, e a verdade é que, com ela ao meu lado, eu já tinha deixado
tudo aquilo pra trás. Não precisou de grandes promessas, ou palavras bonitas. Foi o
que eu senti em cada gesto. Ela me fazia querer ser melhor.

E então, o que parecia ser um conto de fadas começou a revelar seus lados mais
sombrios. Eu via ela, tão forte e ao mesmo tempo tão frágil. Não foi algo que eu
percebi de imediato, mas aos poucos, os sinais foram aparecendo. A tristeza nos
olhos dela, os momentos em que ela parecia distante, como se algo a consumisse.

Foi quando comecei a ouvir dela sobre as lutas diárias: depressão, ansiedade. Eu
nunca tinha vivido aquilo antes. Nunca tinha visto alguém passar por isso tão de
perto.

Mas eu não sabia o que fazer. Eu só sabia que queria estar ali, do lado dela, para o
que fosse. Não sabia como ajudar, nem como lidar com isso, mas sabia que não
queria ir embora.

6
Foi o momento em que eu finalmente me entreguei completamente. Não era sobre
uma simples atração física, era algo mais profundo, mais visceral. Eu já havia tido
outras oportunidades antes, mas algo dentro de mim sempre me disse que eu
deveria esperar por alguém especial. E quando ela entrou na minha vida, foi como
se tudo tivesse se alinhado.

Ela foi a pessoa certa. E, de alguma forma, eu sabia que ela me escolheu também. E
aquilo foi uma sensação nova, algo que eu nunca tinha experimentado. Cada toque,
cada beijo, cada momento em que estávamos juntos — tudo parecia perfeito.

Mas junto com essa entrega, também veio o medo. Eu me sentia como se estivesse
caminhando em um terreno desconhecido. Será que ela vai me largar? Será que eu
fiz a escolha certa? O medo de perder tudo o que construímos estava sempre lá,
como uma sombra que eu tentava afastar, mas não conseguia.

A cada dia que passava, eu sentia o vínculo se fortalecer. Mas a insegurança ainda
estava ali, me perguntando se isso tudo duraria. Se o que a gente tinha era real ou
se era só mais uma fase, mais um momento que o tempo iria levar embora.

7
Assim como a entrega física foi nova para mim, lidar com a depressão dela também
era algo desconhecido. Não que eu visse isso como um defeito. Não era algo que eu
tivesse que consertar ou mudar. Era apenas uma parte dela, uma luta interna que
ela carregava, e que, de alguma forma, se tornou minha também.

Eu sabia que não seria fácil. Não seria só amor e felicidade todos os dias. Havia dias
em que as palavras não saíam, em que o silêncio tomava conta, e os sorrisos eram
raros. Mas eu sabia que isso era algo com o qual eu teria que aprender a conviver.
E, mais importante, aprender a lutar contra.

Lutar por ela. Lutar por nós.

Eu escolhi lutar, não por ser fácil, mas porque ela era a pessoa que eu queria ao
meu lado. Não importava os desafios, não importava as noites silenciosas ou os dias
cinzas. O que importava era que nós estávamos juntos nessa. E, no fundo, eu sabia
que essa luta, ao contrário do que eu temia, não seria algo que me enfraqueceria —
mas, ao contrário, me faria mais forte.

Eu não sabia como iria ser o futuro, nem como as coisas iam se desenrolar. Mas eu
sabia que, naquele momento, ao lado dela, eu estava exatamente onde eu deveria
estar.

8
Foi então que, sem sequer pensar, eu comecei a fazer coisas que nunca imaginaria.
Não porque fosse algo certo ou errado, mas porque eu sentia que era o que ela
precisava de mim. Ela tinha seus próprios demônios, coisas que, de fora, poderiam
parecer estranhas ou difíceis de lidar. Mas pra mim, eram apenas partes dela.

Eu lembro de uma noite, quando ela deitou no chão, ainda triste e incapaz de se
mover para a cama. Eu disse a ela que só conseguia dormir ao lado dela. Não era
sobre o lugar onde dormíamos, mas sobre o conforto que a presença um do outro
trazia. Eu fazia bem a ela, e ela me fazia bem.

Havia algo que, aos olhos de muitos, poderia ser visto como algo problemático, algo
difícil. Ela ainda fazia xixi na cama, algo que, com o tempo, tornava-se parte de
nossas noites. Eu sei que muitos ficariam incomodados, até bravos, mas eu não
sentia isso. Não me importava. Não me incomodava. Ao contrário, cada manhã que
acordava e encontrava minha roupa molhada, eu só pensava que ela precisava de
mais conforto, mais amor, mais aceitação.

"Fique confortável", eu dizia. "Se sinta bem. Eu só quero que você fique confortável."

Porque, no fim das contas, o que eu queria era que ela soubesse que podia ser ela
mesma comigo, sem medo, sem vergonha. O resto não importava. Estar ao lado
dela, na sua forma mais vulnerável, era o que importava. Eu escolhi isso. E faria de
novo, sem hesitar.

9
E então começaram os problemas. Eu não podia deixar de ir. Não podia deixar de
estar com ela, de estar ao lado dela todos os dias. Mas as coisas não eram tão
simples quanto pareciam. A mãe dela começou a se incomodar com a minha
presença constante. Eu sentia que, de alguma forma, ela não via o que eu via — a
necessidade de eu estar ali para ela.

Às vezes, eu tentava me esconder, sair antes que ela acordasse, para que não
houvesse mais conflito. Não era porque eu não queria estar lá. Eu tinha minha casa,
minha cama. Mas eu queria fazer o que fosse melhor pra ela, o que a fizesse se
sentir bem, tranquila. Eu só pensava nela.

Mas a mãe dela... ela começou a falar, criticar, e isso me cortava. Ela dizia que
"vocês não são marido e mulher ainda." E, por mais que fosse difícil, eu entendia o
que ela queria dizer. Mas, mesmo assim, aquilo me feriu, porque eu estava ali de
coração. Só que ela não via isso.

E, quando falava sobre ela, a dor que se refletia no rosto da minha garota... era
impossível não ver. Ela estava perdida, navegando por um mundo de pensamentos
que a consumiam. Eu via como ela sofria, e só queria ajudar. Tentava fazer o que
podia, falar as palavras certas, mas no fundo, eu sabia que havia coisas que não
podiam ser curadas apenas com amor.

Foi quando as palavras da mãe dela começaram a cortar mais fundo. Coisas
pesadas sobre nossa relação, sobre quem eu era pra ela, sobre o que eu estava
fazendo ali. Mas, por mais difíceis que fossem aquelas palavras, algo dentro de mim
não me deixou ir. Eu fiquei. Fiquei porque eu sabia o que ela precisava — mais do
que qualquer coisa.

E, apesar de tudo, eu estava ali. Eu escolhi ela, escolhi estar ao lado dela. Nada
mais importava. Mesmo ouvindo as palavras mais dolorosas, eu fiquei. Porque o que
eu sentia por ela era maior do que qualquer obstáculo.

10
Foi então que ela fez a promessa. Seus olhos, geralmente carregados de
insegurança e medo, brilharam por um momento de esperança.

"Amor," ela disse, com uma calma que eu nunca tinha visto antes, "quando eu fizer
18 anos, você me tira daqui."

Aquelas palavras soaram como um alicerce que poderia nos sustentar por mais
tempo do que eu imaginava. Ela não queria estar naquela situação, naquele lugar,
com aquela dor. Mas ao mesmo tempo, havia uma força por trás daquelas palavras
— uma promessa silenciosa de que havia algo melhor à frente, algo que nós dois
poderíamos conquistar, mesmo que o futuro fosse nebuloso.

Eu já tinha entrado nessa luta com ela. Não havia como voltar atrás. Não era só
sobre o amor que eu sentia por ela. Era sobre algo mais profundo, algo que eu sabia
que era verdadeiro. Eu não ia abandonar. Não importava o que fosse, eu estaria ali
ao lado dela, como tinha estado até então. Eu queria ajudá-la a encontrar esse lugar
de paz que ela tanto buscava.

Eu olhei nos olhos dela e, sem hesitar, respondi:


"Claro."

Era simples. Eu sabia que as palavras poderiam não ser o suficiente, mas elas foram
tudo o que ela precisava ouvir naquele momento. E tudo o que eu precisava
prometer.

11
Com 19 anos, eu finalmente consegui dar o primeiro passo para mudar minha vida.
Consegui um emprego, algo que me fazia acreditar que o futuro podia ser diferente.
O peso da promessa que eu fiz a ela nunca saiu da minha cabeça. Eu tinha que
manter aquilo vivo, fazer tudo o que fosse possível para que a gente tivesse o nosso
espaço, o nosso lugar.

Mas a vida, como sempre, não facilitava. E no meio de todas as mudanças, algo me
pegou de surpresa. Meu avô faleceu. Foi uma perda devastadora. Ele sempre foi
uma figura muito importante pra mim, e sua partida me deixou com um vazio
profundo. Foi um momento de dor intensa, e me senti perdido por algum tempo.

No entanto, a vida continua, e a casa dele ficou vaga. E foi aí que, de alguma forma,
encontrei uma oportunidade que me abriu portas. Eu poderia morar sozinho pela
primeira vez.

Era um passo grande, um novo começo. Morar sozinho significava que eu poderia
começar a construir a minha independência, começar a tomar as decisões que
precisavam ser tomadas. Não foi fácil, especialmente no meio da tristeza pela perda
do meu avô. Mas eu sabia que esse novo capítulo era algo que eu precisava fazer
— por mim e por ela.

Eu já não era mais o mesmo de antes. O tempo, as perdas, as lutas… tudo isso
tinha me moldado de uma forma que eu não podia ignorar. E quando eu entrei
naquela casa vazia, ao fechar a porta pela primeira vez, a sensação que ficou era de
que eu estava dando um grande passo em direção à promessa que fiz a ela.

Eu ainda tinha um longo caminho pela frente, mas agora, eu estava um pouco mais
preparado.

12
Foi aí que, finalmente, fomos morar juntos. Não tínhamos muito — uma TV, e só.
Mas, pra gente, aquilo era tudo. Eu nunca vi alguém tão feliz na vida como ela
estava sendo naquele momento. Não precisava de mais nada. Não precisávamos de
mais nada.

A simplicidade daquela vida era uma sensação indescritível. Não importava que a
casa fosse pequena, que a gente não tivesse muito. O que importava é que
estávamos juntos, compartilhando aquele espaço, aquela realidade, e éramos mais
felizes do que nunca. Cada risada, cada conversa, até o simples fato de estarmos ali,
lado a lado, já fazia tudo valer a pena.

Aquela sensação de que finalmente estávamos vivendo nossa vida juntos, de que
éramos um time, me preenchia. Já morávamos juntos no coração, mas agora, era
oficial. Ela estava ali, comigo, e não importava o que o mundo pensava ou o que
faltava. O que importava era que a gente tinha um ao outro.

Era uma felicidade genuína, pura. A felicidade de finalmente estar com ela, de poder
dar esse passo juntos. E, mesmo que fosse apenas o começo, eu sabia que estava
exatamente onde queria estar.

13
E foi aí que tudo começou. Foi quando eu deixei de ser eu mesmo. A rotina, as
responsabilidades, o peso das contas, os problemas do dia a dia — tudo isso foi me
consumindo aos poucos. No começo, era um pequeno ajuste, nada que eu achasse
que pudesse me afetar. Mas, com o tempo, fui me tornando mais frio. Não
totalmente, mas aos poucos, muito lentamente. Era como se, a cada dia, uma parte
de mim fosse ficando para trás.

Eu vi ela feliz. Isso era tudo o que importava pra mim. Ela estava feliz, e isso me
dava uma paz que nada mais conseguia. Eu queria que ela estivesse bem, queria
que ela sentisse que tudo o que eu fazia tinha um propósito — que aquilo valia a
pena.

Mas, à medida que eu me entregava a essa vida de responsabilidades, comecei a


esquecer os meus próprios problemas. Esqueci das minhas próprias necessidades,
das minhas inseguranças. Eu comecei a colocar tudo nela, como se fosse minha
missão fazer com que ela fosse feliz. E, no processo, fui me perdendo. Aos poucos,
comecei a me afastar de mim mesmo.

Eu não percebi o quanto isso estava me afetando. Eu me tornei alguém mais


distante, mais preso nas obrigações do dia a dia. E, ao focar tanto nela, na felicidade
dela, acabei me esquecendo de quem eu realmente era. As pequenas partes de mim
foram sumindo, até que, um dia, eu percebi que já não me reconhecia mais
completamente.

14
Eu não me reconhecia mais. Eu olhava para dentro de mim e via um reflexo que não
era mais o mesmo. Eu havia mudado, me transformado de uma maneira que eu
nunca imaginei. Mas, ao mesmo tempo, estava ali, tentando me reencontrar.
Tentando ser alguém que ela precisasse. Tentando ser o melhor por ela.

Eu estava tentando me colocar de lado, tentando me perder, mas por um motivo


maior — por ela. Tudo o que eu fazia, todas as minhas ações, cada pequeno esforço
que eu colocava no nosso dia a dia, parecia ter o único objetivo de vê-la bem, feliz.
Eu queria que ela se sentisse amada, cuidada, segura. Mas, ao fazer isso, eu não
percebia que, aos poucos, eu estava deixando de ser eu.

A dor que sentia dentro de mim não era visível. Eu não queria mostrar. Não queria
que ela soubesse o quanto estava me perdendo. Tudo o que eu queria era que ela
fosse feliz. Mesmo que, para isso, eu tivesse que deixar de lado minhas próprias
necessidades, meus próprios sonhos, minha própria identidade.

Mas, no fundo, eu sabia que o amor que eu sentia por ela era real. Eu não me
importava de me perder um pouco nesse processo. Porque, no final, eu acreditava
que ela valia a pena. Ela sempre foi a minha razão de seguir em frente.

E assim, apesar de tudo, eu segui. Eu continuei. Tentando ser o que ela precisava,
mesmo que eu mal soubesse mais quem eu era.

15
Anos se passaram. O que parecia ser paz, calma e tranquilidade, se transformou em
algo que eu não estava preparado para enfrentar. Durante um tempo, tudo parecia
estar no lugar. Eu acreditava que finalmente tínhamos encontrado nosso equilíbrio,
nossa rotina, nossa felicidade. Mas, como tantas vezes acontece na vida, aquilo que
parecia ser estabilidade, era na verdade uma calmaria antes da tempestade.

Foi então que o que ela sentia quando morava com a mãe dela, aquele vazio, aquela
dor interna, voltou a aparecer. Não por minha culpa, não por algo que eu tenha feito,
mas por algo que ela carregava com ela — a depressão.

Eu vi, novamente, o brilho nos olhos dela começar a desaparecer. Vi a insegurança,


a tristeza, a angústia voltarem, como uma sombra que nunca se foi. Aquela pessoa
feliz, que se entregava ao amor e aos momentos simples, agora parecia ser
consumida por algo que eu não conseguia ver, algo que eu não sabia como lidar.

Eu, como sempre, não sabia como lidar com isso.

Eu tentei de tudo. Fui paciente, tentei ser o apoio, o ombro amigo, mas a verdade
era que eu estava perdido. Não sabia o que fazer, não sabia como ajudar. Eu queria
ser a pessoa que ela precisasse, mas, no fundo, eu não sabia como resgatar aquela
felicidade que parecia se perder entre os dedos dela.

E isso me consumia também. Ver ela assim, ver tudo o que tínhamos construído ser
afetado pela doença dela… Não foi fácil. Eu me sentia impotente, sem saber como
ser forte o suficiente para ambos. Eu queria fazer mais, queria salvar, mas as
palavras que eu tentava dizer pareciam não ser suficientes.

Eu não sabia mais o que fazer. A única coisa que eu sabia era que, por mais difícil
que fosse, eu não ia desistir dela. Porque, no final, o que eu sentia por ela ainda era
mais forte do que qualquer tempestade que viesse.

16
Eu nunca imaginei que o que parecia ser um relacionamento cheio de amor e
promessas, pudesse me levar a um lugar tão sombrio. Pela primeira vez, ela tentou
acabar com sua vida. Aquelas palavras, aquelas lágrimas, aqueles momentos de
desespero… eu nunca pensei que ouviria algo assim. Não é uma sensação que se
prepara para viver, e, mesmo depois de tudo, você não está pronto.

Eu estava na porta daquele hospital, tentando entender o que estava acontecendo.


O que eu tinha perdido, o que eu ainda podia fazer. O medo tomava conta de mim, o
medo de não saber o que fazer, o medo de perder ela, de não saber se ela ia voltar,
se ela ia voltar inteira.

Eu só pensava que não podia perder ela. Mas, ao mesmo tempo, o peso estava me
esmagando. Eu já não me reconhecia mais. Era como se a minha essência
estivesse indo embora. Eu estava tão focado em cuidar dela, em tentar salvar ela,
que me perdi completamente. Eu já não sabia quem eu era. Não sabia o que eu
gostava, o que eu queria, não sabia o que restava de mim.

Eu só sabia que estava ali. Na porta do hospital, esperando por notícias, esperando
que ela voltasse para mim. Esperando que a luta dela contra os demônios dentro de
si não fosse o fim da nossa história. Mas eu estava tão envolvido em cuidar dela,
que mal percebia que estava me afundando. A luta dela era a minha luta agora. Eu
não sabia mais como separar as nossas dores.

Quando finalmente vi ela acordando, meu coração aliviou um pouco, mas a dor
ainda estava ali. O medo de que ela fosse embora, de que ela ficasse com esses
pensamentos e sentimentos sombrios, me consumia. Mas o que eu não sabia era
que eu também estava perdendo algo. Eu estava perdendo a mim mesmo. E
enquanto ela lutava, eu me esquecia.

17
Tudo estava complicado. Como se a depressão não fosse suficiente, ela começou a
enfrentar uma batalha ainda maior, algo que atingiu o corpo dela de uma forma
brutal. Um cisto no ovário. O diagnóstico veio como um soco no estômago. Como se
tudo tivesse se unido contra ela — a dor da alma e agora a dor do corpo. Não
bastava o vazio que ela sentia, as sombras que pairavam sobre sua mente, agora
ela tinha que enfrentar a dor física, o desconforto constante.

Ela já não era a mesma pessoa. O peso excessivo, as espinhas no corpo, as


mudanças hormonais… tudo isso a afetava de uma maneira que eu não podia
sequer imaginar. Ela, que já lidava com os fantasmas da mente, agora tinha um
corpo que parecia ir contra ela também. Era como se ela estivesse sendo atacada de
todos os lados.

A dor constante no ovário era algo que a consumia. Ela não tinha forças para lidar
com isso, com as mudanças que estavam acontecendo com ela, dentro e fora. E eu,
mesmo querendo ser o apoio inabalável, me via impotente, incapaz de curar suas
feridas, de apagar suas dores. Eu sentia que não estava fazendo o suficiente. O
medo de vê-la sofrer, de vê-la desmoronar completamente, me fazia sentir um vazio
dentro de mim.

Mas, o que me tocava profundamente era o fato de que ela não tinha um pai. A
ausência dele foi uma ferida aberta, algo que ela nunca superou. Mas, apesar disso,
a família dela estava ali. Não de maneira perfeita, não sem seus próprios problemas
e conflitos, mas estava. E isso, para ela, significava o mundo. Eles estavam ali,
fazendo o possível para apoiá-la, para ajudá-la a seguir em frente. Mesmo nas
brigas, nas dificuldades, ainda havia esse laço.

Eu a via lutando, contra sua própria mente, contra o corpo que não parecia
funcionar, contra a falta de certezas. E, mesmo com tudo isso, ela ainda tentava se
manter firme, tentar encontrar forças para ir em frente. Era admirável, mas ao
mesmo tempo, me esmagava. Como alguém tão forte, tão guerreira, ainda sentia
que estava perdida no mundo?

Eu estava ali, sempre ao seu lado, mas, como sempre, sem saber como lidar com o

18
que estava acontecendo. Eu queria salvar ela. Queria dizer que tudo ficaria bem,
mas as palavras pareciam tão pequenas. E, mais uma vez, fui me perdendo. Sem
saber mais quem eu era, sem saber o que fazer para ajudar, sem saber o que
estava fazendo comigo mesmo. Tudo se tornava um peso demais. Mas ainda assim,
continuei lá, com ela, lutando contra um inimigo invisível, tentando ser o apoio que
ela precisava.

19
Foi aí que as coisas começaram a desmoronar. Uma tentativa. Duas. Três... e a
cada vez, a dor dela se tornava mais minha. O que antes era uma força, um sorriso,
um brilho no olhar... foi se apagando. Onde foi aquele cara que sorria à toa, que se
sentia bem? Onde ficou a confiança de comprar algo novo, de se vestir para sair e
se sentir bonito? Onde ficou a essência de quem eu era antes de tudo isso?

Eu me perdi. Não só em meio ao caos, mas dentro de mim mesmo. Eu entrei na luta
dela de tal forma que comecei a viver as dores dela como se fossem minhas. Cada
crise, cada lágrima, cada sofrimento... eu sentia como se fosse um reflexo do que
estava acontecendo comigo. Eu estava tão envolvido em ser o pilar dela, que acabei
sendo engolido pela dor dela. Era como se cada vez que ela sentia uma dor, eu
também a sentia. E eu ficava em silêncio. Eu não podia falar. Não podia mostrar que
estava cansado, que estava sufocado. Porque, de alguma forma, sentia que se eu
demonstrasse fraqueza, ela se quebraria. Ela não poderia ver que eu também
estava morrendo por dentro.

Eu tinha que ser o pilar. Tinha que ser a base sólida que ela precisava. Mesmo que
a minha base estivesse se rachando. Mesmo que eu estivesse me afundando cada
vez mais, afundando no silêncio, afundando na solidão de ter que carregar tudo
aquilo sozinho. Mas era o que eu tinha que fazer, não é? Era o que ela precisava de
mim.

E, de repente, eu não sabia mais quem eu era. Eu não me reconhecia. O cara que
sorria, que sonhava, que se via com planos e objetivos... agora estava apagado.
Tudo o que eu queria era que ela se sentisse bem, que ela não sofresse mais. Eu
estava tão preso nesse desejo de salvá-la, que me perdi no caminho.

Eu só não sabia até onde isso iria me levar. Até onde eu iria me esquecer por ela.
Até onde eu conseguiria me manter de pé enquanto via tudo ao meu redor ruindo.
Mas eu continuei. Não podia parar. Não podia deixar ela sentir que eu estava
falhando. Ela precisava de mim. Mesmo que eu estivesse me perdendo.

20
Foi então que as crizes dela começaram a pesar de verdade. Ela começou a dizer
que queria ir embora. Que não aguentava mais. Que precisava fugir, se afastar,
sumir. E quando ela falava, não era grito de raiva — era desespero, como se
estivesse se afogando dentro dela mesma e me pedisse distância pra não me puxar
junto.

A primeira vez que ela disse que ia embora, eu senti como se o mundo tivesse
parado. Como se tudo o que construímos tivesse sido derrubado por uma única
frase. E ela não foi. No dia seguinte, veio e disse que era só coisa da cabeça dela.
Que não era verdade. Que ela tinha surtado, que tinha dito sem querer.

A segunda vez foi pior. Porque eu já não sabia mais se era a cabeça dela ou o
coração. Se era confusão ou verdade. E mesmo assim, eu fiquei. Mesmo sangrando
por dentro, eu tentei. Me agarrei na versão dela que sorria, que me amava, que dizia
“desculpa, eu não quis dizer aquilo.”

A terceira vez foi quase mortal. Era como se cada vez que ela ameaçava ir,
arrancasse um pedaço de mim. Mas eu continuei aceitando. Eu dizia pra mim
mesmo: “Ela está doente. Ela precisa de mim. Isso vai passar.” E assim eu fui
ignorando as feridas que ela deixava em mim, tentando entender que não era ela
que queria me machucar, mas a dor que falava por ela.

Mas a verdade é que a cada ameaça de abandono, eu morria um pouco. A cada


palavra que dizia “quero ir embora” eu sentia meu mundo desmoronar. E mesmo
assim, eu seguia ali. Por ela. Por tudo que construímos. Por tudo que prometemos.

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Com o tempo, ela começou a me cobrar coisas que, pra muita gente, pareceriam
pequenas. Coisas simples. Mas que pra ela, significavam tudo.

"Amor, você não me traz mais presentes."


"Amor, por que você nunca me dá flores?"
"Amor, cadê as cartas que você dizia que ia escrever pra mim?"

E toda vez que ela dizia isso, doía. Porque no fundo, eu sabia que ela não estava
pedindo algo grandioso. Ela só queria aquilo que um dia eu fui. Ela estava pedindo
exatamente a pessoa que eu era... e que eu deixei de ser.

E por que eu deixei? Porque eu estava ocupado demais lutando por ela. Porque, ao
sentir a dor dela, eu esqueci da leveza dos gestos. Porque quando você carrega o
peso de duas pessoas nas costas, suas mãos ficam vazias — e você para de
entregar flores, presentes, bilhetes, sorrisos.

E isso me consome até hoje. Saber que enquanto eu estava tentando ser forte,
tentando não deixar ela afundar, eu estava deixando de lado justamente aquilo que
talvez a ajudasse a não afundar.

Eu queria ter escrito mais cartas. Eu queria ter lembrado mais flores. Eu queria ter
dito, sem palavras, tudo aquilo que ainda sentia, mas estava preso dentro de mim.
Porque a verdade é que... eu nunca deixei de amar. Só deixei de demonstrar.

E talvez, só talvez... tenha sido aí que tudo começou a quebrar.

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Eu tentei. Por todos os dias, todas as noites. Eu tentei.

Mas chegou um momento em que eu não sabia mais quem eu era. Eu me olhava no
espelho e não via aquele cara sorridente, sonhador, que escrevia mensagens
bonitas e fazia planos. Eu via um homem cansado. Silencioso. Vazio.

E ela também não era mais a mesma. Não por culpa dela, nem minha. Mas por tudo
o que a vida colocou no nosso caminho. Pela doença. Pelas dores. Pelas palavras
mal ditas. Pelas vezes que eu me calei, e ela achou que era descaso — quando era
só cansaço.

A gente ainda estava junto, mas parecia que tinha um abismo entre nós. Um abismo
feito de tudo que não foi dito, de tudo que foi esquecido. E mesmo assim, havia
amor. Um amor machucado, perdido, mas ainda ali. Como uma brasa fraca, quase
apagada, pedindo por ar.

E foi ali, naquele ponto, que eu percebi: eu estava tentando salvar alguém... me
afogando junto. E talvez, só talvez, era hora de nadar para a superfície. Ou os dois
iam se perder.

não necessariamente o fim do amor, mas o fim da versão de nós dois que
existia até ali. E a partir disso... ou a gente renascia diferente, ou a gente deixava a
história virar saudade.

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Achei que ia conseguir entregar ela antes, mas agora não sei se ela vai ler, estou
quase um mês escrevendo isso, essa parte tá sendo escrita no meu pior estado
emocional

Foi aí que ela, pela quarta vez, disse que queria ir embora.

Mas dessa vez... foi diferente.

Dessa vez, eu não esperei pelas palavras bonitas do dia seguinte. Não esperei ela
voltar atrás, nem preparei meu coração pra ouvir “me desculpa, foi só da boca pra
fora”.

Dessa vez... eu não implorei.

Eu não chorei na frente dela. Não fiz promessas desesperadas. Não pedi pra ela
ficar como nas outras vezes.

Dessa vez, eu apenas apoiei a decisão dela.

Não porque eu queria. Deus sabe que não. Mas porque amar também é saber soltar
a mão de alguém — principalmente quando você sente que está carregando os dois
há tempo demais.

E hoje, tudo o que ela sentia... tá aqui, dentro de mim.

A dor, a angústia, a vontade de sumir, de fugir, o silêncio no peito. Tá tudo em mim


agora. Porque quando ela foi embora, ela não levou só as coisas dela. Levou um
pedaço meu.

Mas mesmo assim... eu apoiei. Porque talvez, pela primeira vez, eu fiz o que era
certo pra ela, mesmo sendo errado pra mim.

E se um dia ela ler isso... eu espero que entenda:


não foi porque deixei de amar.
Foi porque amei tanto...

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Logo no primeiro dia que ela foi embora, eu não conseguia nem entrar dentro da
minha casa.

O silêncio ali dentro gritava. Tudo tinha o cheiro dela, a presença dela, até o vazio
parecia ter a forma dela.

Então, eu peguei minha moto e fui pro único lugar que me veio na cabeça: onde
tivesse o máximo de gente possível. Talvez, no meio da multidão, eu conseguisse
me esconder de mim mesmo. Me esconder da dor.

Nem dinheiro eu tinha. Só o suficiente pra algumas cervejas. Achei que o álcool
fosse anestesiar tudo — a falta dela, o medo, a angústia. Mas não. Só serviu pra me
derrubar mais.

Eu não tinha jantado. Não tinha comido. Não tinha cabeça pra nada.

Foi uma das piores decisões que tomei.

Passei tão mal que precisei chamar um amigo pra me buscar, pra me socorrer. E
naquele momento, suando frio, com o estômago embrulhado e o coração
despedaçado...
eu percebi o quão quebrado eu estava.

Ela foi embora...


mas deixou o caos dentro de mim.

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E com esse caos, essa angústia... meu celular estava sem bateria. E só depois fui
saber que ela me ligou. Várias vezes. Incontáveis vezes.

Mas eu já estava apagado. Sem forças. Desmaiado.

Ela tentou me alcançar. E eu não consegui estar lá. Não consegui atender.

E por Deus... como eu queria ter atendido aquele telefone. Porque eu sei. Eu sei que
ela teria dito as mesmas coisas de sempre. Que estava confusa, que falou sem
pensar, que queria tentar de novo.
E talvez a gente tivesse conseguido se recompor.

Talvez.

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No dia seguinte, eu acordei, cheio de mensagens e ligações. E a primeira coisa que
fiz foi ir até ela. Eu precisava vê-la, ouvir a voz dela, saber o que estava
acontecendo.

Mas, para minha surpresa, ela estava mais fria do que uma pedra de gelo.

Não queria ver nem meu rosto. Não queria falar comigo.

Eu fiquei pensando... como uma pessoa que me ligou, que se preocupou tanto,
estava agora assim comigo? Como alguém que me buscou em tanto estava me
tratando como um estranho?

Eu não entendia. Eu não sabia o que tinha acontecido entre o ontem e o hoje.

27
Passei num dia tão solitário. É difícil você viver sem ter você. Às vezes, parece que
você está sem metade de si mesmo, sem o seu próprio reflexo. Metade de mim não
existe mais. E só sobrou coisa ruim na minha cabeça. Perguntas sem respostas,
ecos de dúvidas.

Por quê? Me diz, por quê?

Eu estava perdido, com a mente afundando cada vez mais.

Então, por um descuido… Um pequeno descuido… Eu não aguentei mais a


saudade. Tive que fazer isso. Fui atrás dela, como uma necessidade, uma ânsia de
encontrar alguma parte de mim que ainda restava.

O irmão dela me ligou. Pediu que eu fosse lá, mas não pra vê-la, mas pra ajudar
com um problema dele. Eu não pensei duas vezes. Fui. Mas, claro, entrei na casa e
segui direto pro quarto dela.

Ela estava lá, e quando entrei, havia uma surpresa. Talvez um sinal. Até que ela me
recebeu. Não com sorrisos, mas com um olhar que falava mais do que qualquer
palavra.

Eu sentia a tristeza no olhar dela, a confusão estampada no rosto. Mas o pior de


tudo era que o que ela falava não parecia ser o que ela sentia. Era como se as
palavras fossem só uma máscara, uma tentativa de se esconder daquilo que
realmente estava acontecendo dentro dela.

Foi então que ela disse, com a voz baixa e firme, que não tinha mais volta.

E, naquele momento, um pedaço de mim sabia que ela não estava falando só da
nossa história, mas de tudo o que a envolvia, tudo o que ela sentia e estava lutando
contra.

Era o fim, mas ao mesmo tempo, parecia ser o começo de algo ainda mais doloroso.

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Então, sem saber o que fazer, perguntei: "Ainda há alguma chance de reverter essa
história?"

Ela me olhou por um longo momento, como se estivesse me avaliando, e então


respondeu com uma sinceridade que me cortou ao meio.

"Eu te dou 20%."

20%. Era isso. Eu que me entreguei 100%. Eu que deixei de ser quem eu era, eu
que me destruí por ela, por nós. E o que eu recebo de volta? Apenas 20%.

Isso me destruiu por dentro. Eu não existia mais. Eu me doei, me quebrei, e ainda
assim, ela não conseguia ver o suficiente para me dar mais. E, nesse momento, eu
percebi o quanto eu tinha me perdido.

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E agora, me vejo sozinho nessa situação. Sozinho e perdido. Ela, sempre teve eu do
lado dela para apoiar, e agora, estou no lugar dela. Mas a diferença é que eu não
tenho ninguém. Só o vazio dentro de mim.

Por um breve momento, agora eu sinto que posso ajudá-la, porque eu sei o que ela
sente. Eu estou sentindo o que ela sente. A dor, a solidão, o caos. A diferença é que
agora eu sou quem está perdido, eu sou quem está sem direção, sem a força que
ela teve em algum momento para seguir em frente. Eu sou só eu, com todas as
minhas inseguranças e angústias, tentando entender o que aconteceu.

Não sei o que vai acontecer. Eu só sei que, de alguma forma, continuo esperando.
Esperando por ela, esperando por algo que me diga que há mais por vir, que não
acabou. Que existe uma chance de reconciliação, de recuperação, de resgatar o que
eu perdi.

Eu vivi por você. Cada passo, cada decisão, tudo foi por você. Agora, não tem mais
nada que eu possa fazer. Tudo o que resta é o silêncio. Só eu e o eco daquilo que
fomos, do que fomos juntos.

Eu estou aqui, por isso estou escrevendo. E ao escrever, sinto que, de alguma
forma, estou me liberando, tentando encontrar algum sentido em tudo isso. Parece
um livro, eu acho que é um livro. E o nome dele vai ser... "Por todas as cartas que eu
não escrevi."

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Espero que essa história não acabe assim. Te amo. Beijos.

Com amor,
Léo.

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