3º CICLO DO GRUPO DE ESTUDOS EM
CLÍNICA HISTÓRICO-CULTURAL
Sumário
01
02
03
04
05
06
Capítulo 1
Mediação, instrumento
e intervenção clínica
Para dar início ao estudo dos
instrumentos de intervenção na
Clínica Histórico-Cultural, são
necessárias a compreensão e o
aprofundamento de alguns
conceitos fundamentais da teoria
de Vigotski e de seus muitos
colaboradores.
Neste capítulo introdutório,
trabalharemos com dois deles: o
conceito de mediação e, é claro, o
de instrumento.
O desenvolvimento humano,
sob a perspectiva da Psicologia
Histórico-Cultural, é mediado. Em
outra palavras, a interação humana
com a realidade concreta que
transforma e constitui não é
imediata, nem mecânica.
Capítulo 1
Entre os seres humanos e a
concretude, existe um elo
intermediário, existe a mediação. E
a mediação é um ponto onde as
relações pessoa/mundo se
complexificam, uma vez que torna
possível que essa pessoa seja
afetada por esse mundo e
construa os próprios sentidos
sobre o mesmo.
De acordo com Vigotski,
existem dois tipos principais de
elementos mediadores: os
instrumentos e os signos.
Através dos instrumentos, a
humanidade tem a possibilidade
de atuar e de modificar a sua
realidade concreta. São
ferramentas que podem ser
materiais ou simbólicas.
Capítulo 1
Por outro lado, ao mesmo
tempo em que os seres humanos
transformam a natureza, essa
natureza também os transforma,
resgatando o olhar dialético e
integrado que Vigotski traz do
marxismo.
Aos instrumentos psicológicos
responsáveis pela transformação
intrapsíquica mencionada, damos
o nome de signos. O signo mais
importante é a palavra, cuja
apropriação gera um enorme salto
qualitativo no desenvolvimento
humano.
Tal discussão teórica é de
grande valia para a práxis
histórico-cultural, uma vez que a
mesma se alicerça sobre esses
conceitos fundamentais.
Capítulo 1
Em sua atuação clínica, a(o)
terapeuta histórico-cultural se
propõe a facilitar novos processos
de mediação, visando
despotencializar possíveis cenários
de adoecimento psicológico e/ou
contribuir com o desenvolvimento
saudável da pessoa que busca a
terapia.
Esse processo pode acontecer
por meio da fala, das trocas
dialógicas e dialéticas à partir do
vínculo entre terapeuta e pessoa
em terapia, ou com o intermédio
dos instrumentos de intervenção,
sejam eles estruturados ou não.
Capítulo 1
Aprendendo na prática
Imaginemos o atendimento
clínico de uma mulher adulta, por
volta dos 45 anos, cujo
desenvolvimento foi mediado por
uma série de violências ligadas à
opressão de gênero.
Desde a infância, ela construiu
sentidos ligados à reprodução e
manutenção dessa opressão, o que
inclui a alta valorização da
maternidade, do cuidado, do
trabalho doméstico, do casamento
e, em síntese, da ideia de que as
mulheres devem exercer papéis
coadjuvantes da vida de seus
maridos.
Nesse sentido, a terapia
histórico-cultural intervém
apresentando caminhos mais
saudáveis.
Capítulo 1
A(o) profissional oferece novos
mediadores, ou seja, mediadores
diferentes daqueles que estiveram
presentes na história do
desenvolvimento da pessoa
atendida, que visem validar e
despotencializar o sofrimento
expresso.
No caso em questão, a(o)
terapeuta histórico-cultural
promove reflexões sobre
reconhecer essa mulher como
alguém único, separado das
pessoas que a cercam e
dependem dos seus cuidados.
Alguém com necessidades
basilares que também requerem
atenção.
Para tal, podem ser utilizados
instrumentos ou não. Nos
próximos capítulos, estudaremos
algumas dessas possibilidades.
Capítulo 2
Raciocínio clínico e
intervenção clínica
Além dos conceitos
fundamentais da teoria de
Vigotski, o estudo dos
instrumentos na Clínica Histórico-
Cultural requer, igualmente,
reflexões críticas sobre o raciocínio
clínico. Afinal, o raciocínio clínico
atua em nossa práxis alicerçando o
uso de tais instrumentos.
O raciocínio clínico é um
processo intrapsíquico à(ao)
terapeuta, que dá formato, ritmo e
cor ao caso atendido. É quando
essa(esse) profissional investiga,
entrelaça e correlaciona as
informações levantadas em
terapia, usando-as como
ferramentas para a elaboração de
intervenções contextualizadas e
responsáveis.
Capítulo 2
Capítulo 2
Capítulo 2
Capítulo 2
Aprendendo na prática
Capítulo 2
Capítulo 3
Dinâmica do Tempo
Nesse instrumento histórico-
cultural, a(o) terapeuta convida a
pessoa em terapia a expressar em
uma folha de papel as
experiências positivas e
negativas que a marcaram ao
longo de sua vida.
O registro é livre. Não há um
certo ou errado. Pode ser feito por
meio de uma linha, de desenhos,
esquemas, tópicos, redações etc.
A Dinâmica do Tempo está
ancorada no conceito de
desenvolvimento de Vigotski,
considerando que toda demanda
clínica possui uma história.
Capítulo 3
Estudo de caso Kátia
Kátia é uma mulher negra de
29 anos, recém-formada em um
curso técnico de Enfermagem, que
chega à psicoterapia com intenso
sofrimento emocional relacionado
à sobrecarga e à falta de uma rede
de apoio.
Apesar da graduação recente
e da vontade de ingressar no
mercado de trabalho, Kátia se vê
impossibilitada de fazê-lo pois é a
responsável pelos cuidados com o
pai, que sofre da doença de
Alzheimer.
Ela relata que tais cuidados
“sobraram” para si, frente a
ausência do suporte dos seus sete
irmãos mais velhos homens.
Capítulo 3
Estudo de caso Kátia
Desde jovem, Kátia se lembra
de lidar com a responsabilidade de
cuidar dos irmãos e da casa onde a
família residia. Na adolescência, os
pais exigiam que ela abanasse os
irmãos enquanto os mesmos
repousavam após o almoço.
Ela também explica que, em
sua família, existem vários casos de
mulheres que se dedicaram
exclusivamente aos cuidados de
algum familiar doente. Sua opinião
é de que não se pode negar ajuda
a um pai, principalmente o seu,
que nunca lhe deixou faltar nada.
Capítulo 3
Possibilidade de intervenção
com a Dinâmica do Tempo
Ao elaborar a Dinâmica do
Tempo, com base na própria vida,
Kátia elenca alguns eventos que
julga essenciais para sua história:
1. Nascimento
2. Aniversário de 15 anos
3. Começo do curso de
Enfermagem
4. Fim do curso de Enfermagem
5. Descoberta do Alzheimer do
pai
6. Internação de dois meses do
pai
7. Noite em que o pai pensou
estar sofrendo um infarto
8. Mudança pra uma casa maior
Capítulo 3
Possibilidade de intervenção
com a Dinâmica do Tempo
Ela afirma que ter uma festa
de aniversário de 15 anos era um
sonho antigo que sua mãe nunca
conseguiu realizar. Em outro
momento, Kátia menciona que o
curso técnico de Enfermagem não
foi uma escolha cem por cento
sua, embora hoje goste bastante
da área.
O terapeuta, então, lhe aponta
o fato de que todos os eventos da
Dinâmica do Tempo, que deveriam
contar a sua história, parecem
contar a história de outras pessoas.
Ele questiona se a mulher sente
que vive sua vida para os outros.
Kátia concorda e começa a dar
exemplos da afirmação em outros
âmbitos de sua vida.
Capítulo 3
Cenário de Vida
O Cenário de Vida é um
instrumento histórico-cultural em
que a pessoa em terapia
representa, por meio de
desenhos, palavras ou imagens,
os ambientes e relações mais
importantes do seu dia a dia,
incluindo a si no centro do papel.
A distância entre todos os
elementos precisa representar a
realidade. Sugere-se que o que for
próximo seja representado perto, e
o que for mais distante, longe.
Esse instrumento tem base no
conceito de Situação Social de
Desenvolvimento, o qual nos
lembra que a personalidade
humana, saudável ou adoecida, se
constitui na realidade concreta.
Capítulo 3
Estudo de caso Jonas
Jonas, um homem branco de
45 anos, procura a psicoterapia
afirmando necessitar ajuda para
lidar com os muitos problemas
que vêm cercando sua vida nos
últimos anos.
Ele trabalha em uma pequena
empresa de roupas e calçados e
está passando por um divórcio. A
separação da agora ex-esposa se
deu em meio a muitos conflitos, o
que resultou em um processo
jurídico.
Os detalhes da divisão de
bens, da guarda dos dois filhos do
casal e possível pagamento de
pensão estão sendo negociados.
Capítulo 3
Estudo de caso Jonas
Jonas relata reconhecer que
não foi o melhor marido para sua
companheira, fazendo menções
breves a traições. Por outro lado,
ele ressalta que sempre trabalhou
bastante, para prover o necessário
para sua família.
O homem explica que, desde
criança, aprendeu com o pai, que
era mestre de obra, a importância
do trabalho. Para ele, ser
trabalhador é o melhor atributo
que uma pessoa pode ter.
Após a separação, o homem
recebeu uma promoção em sua
empresa que está lhe rendendo
cansaço e preocupações em
excesso, além do usual medo da
demissão.
Capítulo 3
Possibilidade de intervenção
com o Cenário de Vida
Ao construir seu cenário de
vida em sessão, Jonas representa,
através de círculos e palavras: sua
casa; a nova casa, onde a ex-esposa
passou a morar com os filhos; a
casa da mãe; e o escritório de seu
advogado. Nada além.
Nesse contexto, portanto, o
terapeuta histórico-cultural chama
atenção para a ausência de um
círculo que represente o local de
trabalho de Jonas, um tema
recorrente em seu discurso.
O homem parece surpreso ao
perceber o que havia feito e
explica que seu trabalho parece
tão distante no momento que ele
até esqueceu de colocar no papel.
Capítulo 3
Possibilidade de intervenção
com o Cenário de Vida
À partir disso, Jonas se
aprofunda no tema e revela não
atribuir afetos e sentidos positivos
a sua ocupação atual. O homem se
sente explorado, exausto, solitário,
por vezes não enxergando
propósito em sua função. Esse é
um assunto delicado para ele, que
sente vergonha por não gostar
tanto assim de trabalhar.
Mas a verdade é que o salário e
o medo de uma suposta demissão
são tudo o que o mantém no
emprego, pois muito está em jogo
em sua vida pessoal, e Jonas
afirma não ser capaz de lidar com
mais um problema (o
desemprego).
Capítulo 4
Frases Mediadoras
Capítulo 4
Estudo de caso Fábio
Capítulo 4
Capítulo 4
Capítulo 4
Possibilidade de intervenção
com as Frases Mediadoras
Fábio relata que, ao longo de
duas semanas inteiras, ele não tem
conseguido dormir ou trabalhar,
pois uma série de medos
relacionados a possíveis futuros
tomam conta de seu pensamento
e imaginação. Esse contexto o
deixa em constante alerta,
bastante angustiado e inquieto.
Após descobrir a morte
precoce de uma jovem de faixa
etária similar à sua, Fábio
apresenta um medo intenso de
estar doente e não descobrir isso
até ser tarde demais. Apesar de
fazer exames de rotina com
frequência, ele se questiona: “E se
os exames que fiz falharam? Quem
vai cuidar da minha mãe e da
minha irmã? E se minha mãe é
quem estiver doente?”
Capítulo 4
Possibilidade de intervenção
com as Frases Mediadoras
Seu terapeuta, então, em
atendimento, elabora duas frases
mediadoras junto à Fábio,
pensando em tal contexto de
ansiedade e medo avançados. As
frases são:
1. Eu fiz um check-up há menos
de dois meses e meus exames
não apontaram pra nenhuma
alteração preocupante. Minha
saúde está em dia.
2. Minha mãe vai ao médico toda
semana, é improvável que uma
doença esteja se desenvolvendo
sem que todos nós saibamos. A
saúde dela está em dia.
Capítulo 4
Árvore das Necessidades
Capítulo 4
Estudo de caso Sabrina
Capítulo 4
Capítulo 4
Possibilidade de intervenção
com a Árvore das Necessidades
Capítulo 4
Possibilidade de intervenção
com a Árvore das Necessidades
Capítulo 4
Possibilidade de intervenção
com a Árvore das Necessidades
Capítulo 5
Filtro dos Pensamentos
O Filtro dos Pensamentos é
um instrumento histórico-cultural
em que é construída uma
sequência de questionamentos
diante dos pensamentos
patológicos da pessoa em terapia
fora de contexto de crise.
A(o) terapeuta convida
sua(seu) paciente a racionalizar, ou
seja, pensar sobre, esse conjunto
de pensamentos e percepções
adoecidas ao construir de quatro
a cinco perguntas que
problematizem a situação ou
contexto abordado. Tais perguntas
devem ser escritas de cima para
baixo em uma folha, com setas as
conectando e expressando uma
ideia de fluxo do pensamento.
Capítulo 5
Com esse tipo de intervenção,
trabalha-se com a visão
materialista histórico-dialética que
a Psicologia Histórico-Cultural
possui sobre o pensamento e
demais processos psicológicos,
além de promover unidade entre
cognição e afeto.
Capítulo 5
Estudo de caso Fábio
Retomemos o estudo de caso
Fábio, exposto com detalhes no
capítulo 4.
Como você deve se lembrar,
Fábio é um homem adulto que faz
parte do espectro autista e está
em processo psicoterápico pois,
muitas vezes, não consegue lidar
com alguns de seus
comportamentos ansiosos.
Ele atravessa um período
intenso de crise associado ao
recebimento da notícia de um
óbito em sua cidade, e, com o
passar dessa crise, o terapeuta que
o acompanha enxerga uma
oportunidade de conversar sobre o
ocorrido de maneira mais
aprofundada.
Capítulo 5
Possibilidade de intervenção
com o Filtro dos Pensamentos
Durante a sessão, o terapeuta
resgata uma ou duas frases e
palavras utilizadas por Fábio para
explicar os medos que
desencadearam no seu recente
contexto de crise. Alguns dos
pensamentos mais marcantes
foram: “Tenho medo de estar
doente e não descobrir até ser
tarde demais.”
O psicólogo pede que o
paciente pense sobre eles
novamente, questionando se tais
medos ainda existem.
Fábio responde que sim.
Embora menos intensos, eles
ainda são bastante reais, ainda o
deixam em alerta e ansioso com
frequência.
Capítulo 5
Possibilidade de intervenção
com o Filtro dos Pensamentos
“Às vezes eu consigo filtrar, às
vezes não. É um medo muito
forte.”
O terapeuta, então, propõe
que eles reflitam em conjunto, por
meio de perguntas elaboradas
previamente, a partir de um
domínio complexo sobre o
contexto de Fábio, sua história de
vida e o teor de seus medos
quanto ao adoecer.
As perguntas eram:
1.O corpo dá sinais de quando
está doente?
[Link] sentindo algum deles no
meu corpo?
Capítulo 5
Possibilidade de intervenção
com o Filtro dos Pensamentos
3. E quando a doença é
silenciosa, isso existe?
4. Estou fazendo algo que possa
me ajudar a detectar uma
doença com antecedência?
5. Alguma doença foi detectada?
À partir disso, novas reflexões
podem ser mediadas na relação
entre profissional e paciente.
Capítulo 5
Mergulho Semântico
Nesse instrumento histórico-
cultural, a(o) terapeuta convida
sua(seu) paciente a construir uma
chuva de ideias.
A(o) profissional, com base nas
demandas apresentadas pelo caso,
propõe uma palavra disparadora a
ser escrita no centro de uma folha
em branco. Ao redor dela, a(o)
paciente deverá escrever novas
palavras, que se conectem
semanticamente com a
disparadora.
Essas palavras devem
obedecer um critério de
aproximação e distanciamento, ou
seja, o que carregar um sentido
mais próximo ao da palavra
disparadora, deve ser escrito mais
perto e vice-versa.
Capítulo 5
Estudo de caso Ingrid
Ingrid é uma adolescente de 17
anos, filha de pais superprotetores,
que mesmo sem nunca ter feito
psicoterapia, chega ao consultório
com a intenção de aliviar um
pouco as angústias decorrentes da
relação conturbada com esses
pais.
A jovem relata que foi a
criança que o pai seguia para
todos os lados, tentando impedir
que ela se machucasse e, ao
mesmo tempo, sem perceber,
prejudicando o seu explorar
seguro do mundo.
Porém, foi na adolescência
que os maiores problemas
surgiram, pois houve um controle
intenso das pessoas que Ingrid era
autorizada a manter em sua vida
ou não.
Capítulo 5
Estudo de caso Ingrid
Embora ela não
compreendesse as razões, a mãe
sempre encontrava defeitos nos
amigos da filha e proibia certas
amizades.
Ingrid compartilha que busca
obedecê-los em quase cem por
centro das vezes, apesar de não
conseguir explicar o porquê.
Agora, durante o período pré-
vestibular, a jovem diz estar
perdendo o controle de suas
emoções. A sua escolha de
profissão não é respeitada pelos
pais, que tentam lhe convencer a
ser médica a todo custo, e toda a
pressão do momento a deixa
bastante angustiada, ansiosa e
triste. Ela afirma atravessar crises
cada vez mais frequentes de choro
sem “motivo aparente.”
Capítulo 5
Possibilidade de intervenção
com o Mergulho Semântico
Em uma folha em branco, a
psicoterapeuta histórico-cultural
que começa a atender Ingrid
escreve a palavra “família”,
convidando a jovem para
realizarem, juntas, o Mergulho
Semântico.
Ao redor, portanto, Ingrid
escreve palavras que carregam
sentidos positivos e
potencializadores, como: proteção,
amor, primeiros cuidados,
responsabilidade.
Entretanto, palavras como
controle, sufocamento, mágoa e
aprisionamento também são
registradas, bem próximas à
palavra disparadora “família”.
Capítulo 5
Possibilidade de intervenção
com o Mergulho Semântico
Uma vez que o material é
finalizado, a terapeuta pede para
Ingrid explicar qual associação
existe entre a palavra família e
controle.
Ingrid responde que, em
alguns casos, para uma família
sentir que está realizando um
trabalho satisfatório no cuidado
com os filhos, eles precisam
exercer centro controle sobre os
mesmos, sobre suas ações e
sentimentos.
Em seguida, a jovem se
debruça e compartilha os detalhes
de algumas de suas vivências mais
sensíveis quanto a momentos em
que o pai e a mãe controlaram
demais sua liberdade.
Capítulo 6
Técnica do Talismã
A Técnica do Talismã é um
instrumento histórico-cultural em
que a pessoa em terapia elege um
objeto pessoal para representar o
seu talismã.
A esse objeto, ela ou ele atribui
os sentidos positivos construídos
e todas as reflexões mediadas ao
longo da caminhada terapêutica.
O objetivo é que os mesmos sejam
evocados por meio da memória
em momentos de dificuldade ou,
até, de crise, tornando o talismã
uma representação de segurança
e conforto.
Esse instrumento dialoga com
vários conceitos da PHC, como a
Lei Geral do Desenvolvimento,
funções psicológicas superiores e
unidades funcionais.
Capítulo 6
Estudo de caso Paula
Capítulo 6
Capítulo 6
Possibilidade de intervenção
com a Técnica do Talismã
No primeiro mês de
atendimentos, após ouvir com
bastante frequência o quanto
Paula se sente sozinha em
múltiplos âmbitos de sua vida, em
casa e na escola, por exemplo, a
terapeuta responsável por atende-
la propõe a utilização da técnica do
talismã.
A jovem explica que, em seu
quarto, há, nas paredes, um papel
decorativo estampado com vários
anjos, “como nas pinturas
Renascentistas”, diz ela.
Consequentemente, alguns
objetos do cômodo se
assemelham aos papéis de parede,
incluindo um abajur e elementos
decorativos nas prateleiras.
Capítulo 6
Possibilidade de intervenção
com a Técnica do Talismã
Por isso, Paula não hesita
antes de escolher o abajur com o
desenho de um anjo como seu
talismã, algo de fácil acesso com o
qual ela pode sustentar um
contato sistemático.
Além disso, ela aprecia o fato
de que um anjo simbolize
segurança e proteção.
A terapeuta sugere, portanto,
que sempre que o abajur estiver
em seu campo de visão, Paula se
recorde da sua caminhada
terapêutica, mais especificamente
do fato de que ela está engajada
em um processo gradual de
transformação, em um movimento
na direção de um modo de vida
mais saudável.
Capítulo 6
Possibilidade de intervenção
com a Técnica do Talismã
A profissional propõe que o
talismã também seja um lembrete
de que a adolescente dispõe do
suporte da psicoterapia, para
desenvolver, à longo prazo,
estratégias personalizadas de
fortalecimento.
Capítulo 6
A arte na clínica
A arte ocupa um lugar de
relevante destaque no
pensamento de Vigotski. Segundo
o autor, ela funciona como
mediador da vida psíquica, um
mediador único, rico e potente.
À partir da arte, os seres
humanos têm a oportunidade de
expressar e/ou sistematizar suas
emoções, sentidos construídos e
vivências, além de, é claro, sua
imaginação e criatividade.
O contato e apropriação sobre
esse importante aspecto da
experiência humana é como
dispôr de um outro formato de
linguagem e de expressão.
Capítulo 6
Diante do exposto, é possível
depreender a importância que a
arte representa para a clínica, e,
principalmente, para a Clínica
Histórico-Cultural.
A intervenção com a arte pode
acontecer em diferentes
configurações. A criatividade da(o)
terapeuta e de sua(seu) paciente é
o limite.
O desenho com lápis de cor,
canetinha, giz de cera ou, mesmo,
com tinta, a colagem, a música, a
dança, a escultura, a poesia e as
artes cênicas são apenas algumas
possibilidades.
Capítulo 6
Estudo de caso Alex
Capítulo 6
Estudo de caso Alex
Capítulo 6
Estudo de caso Alex
Capítulo 6
Possibilidade de
intervenção com a arte
Na quarta sessão com Alex, a
terapeuta histórico-cultural que o
atende o convida a fazer um
desenho em um papel em branco.
Sua proposta nasce da percepção
de que o homem demonstrou
intensa mobilização durante os
atendimentos em que foi
elaborada e discutida a Dinâmica
do Tempo, instrumento já
estudado anteriormente.
Para Alex, relembrar seu passado
pareceu difícil, frustrante,
melancólico e um tanto confuso, já
que o mesmo afirmou diversas
vezes não compreender porque
sua vida se desenhou da maneira
como ele lembrava.
Capítulo 6
Possibilidade de
intervenção com a arte
Pensando nisso, a psicóloga
lhe pede que represente no papel
como se sentiu ao se deparar com
a própria história de vida.
Alex demonstra uma
surpreendente satisfação perante
a atividade, explicando que o
desenho era sua atividade favorita
na escola e que representava uma
parte de si que gostaria de não ter
perdido com o tempo, sob as
imposições da vida adulta.
Portanto, o homem desenha
uma sacola preta bem fechada por
duas cordas também pretas, ainda
que a terapeuta houvesse avisado
que aquela produção artística não
precisava conter um formato
específico ou lógico.
Capítulo 6
Possibilidade de
intervenção com a arte
A sacola está preenchida por
um conjunto de rabiscos coloridos
sobrepostos e desordenados, a
ponto de não ser possível apontar
o começo e o fim de cada rabisco.
“Parece a bagunça do meu
armário lá onde eu trabalho,”
comentou Alex ao afirmar que
seus sentimentos quanto à
Dinâmica do Tempo tiveram mais
ou menos aquele formato. A
psicóloga questiona se ele deseja
desfazer aqueles nós, o que é
prontamente respondido de
maneira positiva.
“E como podemos arrumar um
armário?”, ela questiona.
“Fazendo uma coisa de cada
vez.”
Capítulo 6
Possibilidade de
intervenção com a arte
Para isso, a profissional
pondera em conjunto se é possível
fazer o mesmo com os nós
psicológicos que aquela história de
vida vasta havia deixado para trás.
Alex responde: “Podemos
tentar.”