Notas de Cálculo II: Fórmulas de Taylor
Notas de Cálculo II: Fórmulas de Taylor
Gláucio Terra
4 de outubro de 2009
Sumário
1
3.6.1 Máximos e Mı́nimos Condicionados . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57
3.6.2 Exemplos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 57
Sugestões de Leitura 60
• Esta é uma versão preliminar e incompleta, que deve ser revisada e ampliada até o
final do semestre. Assim sendo, por motivos ecológicos (e também porque o texto
tem muitos links, de modo que é mais fácil ler no computador), sugiro não imprimir.
1.1. Notações
Eis algumas observações de caráter geral sobre a notação usada nestas notas:
. . .
(=) Uso o sı́mbolo “=” para fazer definições: uma sentença da forma “A = B” significa
que o termo “A” é definido pela expressão “B”.
2
(Notação Funcional e Transformações Lineares) Sejam V e W espaços vetoriais re-
ais, e T : V → W uma transformação linear (se você ainda não sabe o que é uma
transformação linear, volte aqui depois que aprender isto no curso de Álgebra Li-
near). Dado v ∈ V, prefiro usar a notação “T · v” em lugar de T (v), para designar a
imagem de v por T . Ou seja, usamos um “·” para denotar imagens de vetores por
transformações lineares.
3
Como P 0 é uma função polinomial de grau menor ou igual a n0 − 1, pela hipótese
de indução a igualdade (1) vale para P 0 , i.e. para todo x ∈ R:
0 −1
nX
(P 0 )(k) (x0 )
P 0 (x) = P 0 (x0 ) + (x − x0 )k
k=1
k!
(2)
nX0 −1 (k+1)
P (x0 )
= P 0 (x0 ) + (x − x0 )k .
k=1
k!
0 −1
nX
P (k+1) (x0 ) (x − x0 )k+1
F (x) = =
k=0
k! k+1
(3)
nX0 −1 0 n
P (k+1) (x0 ) k+1
X P (k) (x0 )
= (x − x0 ) = (x − x0 )k .
k=0
(k + 1)! k=1
k!
4
Exemplo 2.5. (1) Seja f = exp : R → R. Esta função tem derivadas de todas as
ordens e ∀ n ∈ N, ∀ x0 ∈ R exp(n) (x0 ) = exp(x0 ). Portanto, dados n ∈ N e x0 ∈ R,
o polinômio de Taylor de ordem n de exp em x0 é dado por:
n
X exp(x0 )
P (x) = (x − x0 )k .
k=0
k!
Em particular, para x0 = 0:
n
X 1 k
P (x) = x
k=0
k!
é o polinômio de Taylor de ordem n de exp em x0 = 0. Os gráficos dos polinômios
de Taylor de ordens 1,2,3 de exp em x0 = 0 encontram-se esboçados na figura 1.
5
Figura 1: Gráfico de f (x) = ex e seus polinômios de Taylor de ordens 1(vermelho),
2(verde), 3(azul) em x0 = 0.
Exemplo 2.7. (i) Aplicando o teorema anterior ao exemplo 2.5.1, com x0 = 0, segue-
se que ∀ n ∈ N, ∀ x ∈ R, ∃c ∈ R, 0 < |c| < |x| tal que:
n
X xk exp(c) n+1
exp(x) = + x . (6)
k=0
k! (n + 1)!
1
na verdade, basta supor f derivável até ordem n, f (n) contı́nua em I e derivável no interior de I.
6
Figura 2: Gráfico de f (x) = sin x e seus polinômios de Taylor de ordens 1(vermelho),
3(verde), 5(azul) em x0 = 0.
Vamos usar esta última igualdade para calcular o número “e” até a décima casa
decimal (mais precisamente, P isto significa encontrar um racional r tal que |e − r| <
. .
5 × 10 ). Pondo Pn (x) = nk=0 k!1 xk e Rn = exp −Pn , segue-se de (6) que, para
−11
x = 1, existe c ∈ (0, 1) tal que exp(1) = Pn (1) + Rn (1). Assim, queremos encontrar
n tal que |Rn (1)| < 5 × 10−11 . Como |Rn (1)| = | exp(c)
n!
| 6 n!3 , basta tomarmos n
11
tal que n!3 < 5 × 10−11 , i.e. n! > 3×10
5
⇔ n > 14. Portanto, para n = 14, P14 (1)
é um número racional e |exp(1) − P14 (1)| < 5 × 10−11 . Com dez casas decimais,
P14 (1) = 2, 7182818284.
(ii) Aplicando o teorema anterior ao exemplo 2.5.2, com x0 = 0, segue-se que ∀ n ∈
N, ∀ x ∈ R, ∃c ∈ R, 0 < |c| < |x| tal que:
n
X (−1)k sin(2n+2) (c) 2n+2
sin(x) = x2k+1 + x . (7)
k=0
(2k + 1)! (2n + 2)!
Vamos usar esta última igualdade para calcular sin(1) até a décima casa decimal
(mais precisamente, isto significa encontrar um racional r tal que |sin(1) − r| <
. P (−1)k .
5 × 10−11 ). Pondo P2n+1 (x) = nk=0 (2k+1)! x2k+1 e R2n+1 = sin −P2n+1 , segue-se de
(7) que, para x = 1, existe c ∈ (0, 1) tal que sin(1) = P2n+1 (1) + R2n+1 (1). Assim,
(2n+2)
queremos encontrar n tal que |Rn (1)| < 5 × 10−11 . Como |Rn (1)| = | sin(2n+2)!(c) | 6
11
1 1
, basta tomarmos n tal que (2n+2)!
(2n+2)!
< 5×10−11 , i.e. (2n+2)! > 105 ⇔ 2n+2 >
14 ⇔ n > 6. Portanto, P14 (1) é um número racional e |sin(1) − P14 (1)| < 5 × 10−11 .
2.5. Fórmula de Taylor com Resto Infinitesimal †
Nos teoremas abaixo, será mostrado que, dada uma função real a valores reais f
derivável até ordem n numa vizinhança de um ponto x0 pertencente ao seu domı́nio, o
7
polinômio de Taylor de ordem n de f em x0 é a única função polinomial P , de grau
.
menor ou igual a n, tal que o resto R = f − P tem a propriedade de “tender a zero mais
R(x)
rapidamente do que (x − x0 )n quando x tende a x0 ” (ou seja, tal que lim (x−x 0)
n = 0).
x→x0
É neste sentido que dissemos, na introdução, que o polinômio de Taylor de ordem n de f
em x0 é o polinômio de grau menor ou igual a n que melhor aproxima f numa vizinhança
de x0 .
Proposição 2.8 (Fórmula de Taylor de ordem 1, com resto infinitesimal). Sejam A ⊂ R,
x0 ∈ A e f : A → R contı́nua em x0 .
(i) Se f for derivável em x0 e R1 for a diferença entre f e o seu polinômio de Taylor
de ordem 1 em x0 , então lim Rx−x1 (x)
0
= 0;
x→x0
8
Demonstração. Será feita por indução sobre n.
(2) Seja k > 2, e suponha que (i) e (ii) sejam verdadeiras para n 6 k − 1. Provemos
que também serão verdadeiras para n = k. Com efeito:
(j)
(i) Se ∀ x ∈ A Rk (x) = f (x)− kj=0 f j!(x0 ) (x−x0 )j , então Rk : A → R é derivável
P
(j) (x ) Pk−1 (f 0 )(m) (x0 )
e ∀ x ∈ A Rk0 (x) = f 0 (x) − kj=1 f(j−1)! (x − x0 )j−1 = f 0 (x) − m=0
P 0
m!
(x −
Rk0 (x)
x0 )m . Portanto, pela hipótese de indução, lim (x−x0 )k−1
= 0. Assim, como
x→x0
Rk (x)
lim Rk (x) = 0 e lim (x − x0 )k = 0, a regra de l’Hôpital implica lim (x−x0 )k
= 0.
x→x0 x→x0 x→x0
Rk (x)
(ii) Suponha ∀ x ∈ A f (x) = P (x) + Rk (x), com grau P 6 k e lim (x−x0 )k
= 0.
x→x0
Rk (x)
Isto implica lim (x−x m = 0, para 0 6 m 6 k. Sejam a0 , . . . , ak ∈ R tais que ∀ x ∈
x→x0 0)
Pk−1
an (x − x0 )n + ak (x − x0 )k . Definamos Pe(x) = k−1
P n
R P (x) = n=0 n=0 an (x − x0 ) ,
de forma que, para todo x ∈ R:
2.6. Fórmula de Taylor com Resto Integral †
Deduziremos, nesta seção, uma fórmula integral para o resto da fórmula de Taylor de
ordem n de uma função derivável até ordem n + 1, cuja derivada de ordem n + 1 seja
Riemann-integrável.
9
Seja φ : [0, 1] → R derivável até 2a. ordem, com φ00 : [0, 1] → R Riemann-integrável.
Pelo Teorema Fundamental do Cálculo:
Z 1
φ(1) − φ(0) = φ0 (t)dt
0
0 .
Faremos uma integração por Rpartes da seguinte
0 1 0 R1 maneira:
0
pomos f = φ
1
, R 1 0 1 − t, de
g(t) =
modo que f g = −φ; assim, 0 φ (t)dt = − 0 f (t)g (t)dt = −f (t)g(t)]0 + 0 f (t)g(t)dt,
ou seja: Z 1
φ(1) − φ(0) = φ0 (0) + (1 − t)φ00 (t)dt
0
00
Se φ tiver derivada Riemann-integrável, continuamos a integrar por partes... suponha,
assim, que φ : [0, 1] → R derivável até ordem n + 1 (dado n ∈ N), e que φ(n+1) : [0, 1] → R
seja Riemann-integrável. Mostraremos, por indução em n, que:
n 1
φ(k) (0) (1 − t)n (n+1)
X Z
φ(1) = + φ (t)dt (9)
k=0
k! 0 n!
Com efeito:
2. Admita que (9) seja válida para n = p ∈ N. Seja φ : [0, 1] → R derivável até
ordem p + 2 e suponha que φ(p+2) : [0, 1] → R seja Riemann-integrável. Em parti-
cular, φ(p+1) é contı́nua, portanto Riemann-integrável; pela hipótese de indução,
Pp φ(k) (0) R1 p . .
tem-se: φ(1) = k=0 k!
+ 0 (1−t)
p!
φ(p+1) (t)dt. Tome f = φ(p+1) e g(t) =
(1−t)p+1 p
(p+1)!
. Então f (t)g 0 (t) = − (1−t)
p!
φ(p+1) (t). Logo, integrando por partes, obtemos:
R 1 (1−t)p (p+1) 1
R1 0 φ(p+1) (0) R 1 (1−t)p+1 (p+2)
0 p!
φ (t)dt = −f (t)g(t)]0 + 0
f (t)g(t)dt = (p+1)!
+ 0 (p+1)!
φ (t)dt,
donde se conclui que (9) vale para n = p + 1.
10
§3. CÁLCULO DIFERENCIAL DE FUNÇÕES RN → RM
3.1. Noções Topológicas Elementares
n
Dado n ∈ N, considerar-se-á, nestas notas,
Pn o R-espaço vetorial R munido do produto
interno usual h·, ·i, i.e. dado por hx, yi = i=1 xi yi se x = (x1 , . . . , xn ), y = (y1 , . . . , yn ) ∈
Rn . Através deste produto interno, define-se a norma euclidiana k·k : Rn → R+ por
n . p
(∀x ∈ R )kxk = hx, xi. Esta é uma função que goza das seguintes propriedades:
N1 kxk = 0 se, e somente se, x = O (onde O denota o vetor nulo do Rn );
N2 ∀α ∈ R, ∀x ∈ Rn , kαxk = |α|kxk;
N3(desigualdade triangular) ∀x, y ∈ Rn , kx + yk 6 kxk + kyk.
Uma função Rn → R+ que satisfaz as propriedades N1 a N3 acima chama-se uma
norma. Uma tal função define uma distância ou métrica d : Rn × Rn → R+ no Rn , dada
por d(x, y) = kx − yk. Ou seja, da mesma forma que definimos no Cálculo I a distância
entre dois pontos da reta real como sendo o módulo da diferença entre eles, usamos uma
norma para definir a distância entre dois vetores do Rn como sendo a norma da diferença
entre eles. Sempre que não houver menção explı́cita em contrário, consideraremos a
distância euclidiana, i.e. a função d : Rn × Rn → R induzida pela norma euclidiana.
Exercı́cio 3.1. Use a desigualdade triangular para provar que ∀x, y ∈ Rn , kx − yk >
|kxk − kyk|.
Definição 3.2 (Bolas). Dados a ∈ Rn e r > 0, definimos a bola aberta de raio r,
centrada em a como sendo o conjunto dos pontos do Rn cuja distância até a é menor
que r. Tal conjunto será denotado por Ba (r); assim, Ba (r) = {x ∈ Rn | kx − ak < r}.
Analogamente, definimos a bola fechada de raio r, centrada em a, denotada por Ba [r],
como sendo o conjunto dos pontos do Rn cuja distância até a é menor ou igual a r, i.e.
Ba (r) = {x ∈ Rn | kx − ak 6 r}.
Para n = 1, Ba (r) é o intervalo aberto (a − r, a + r) e Ba [r] é o intervalo fechado
[a − r, a + r]. Para n = 2, as bolas também são chamadas de discos, por uma motivação
geométrica óbvia. Finalmente, o “aspecto´´ geométrico destes conjuntos no R3 é o que
justifica a escolha do nome bolas.
Definiremos, a seguir, os subconjuntos abertos do Rn . Tais subconjuntos são os
domı́nios adequados para se definir funções deriváveis no Rn , conforme será feito nas
próximas seções deste texto.
Definição 3.3 (Abertos e Fechados de Rn ). Dados X ⊂ Rn e a ∈ X, diz-se que X é uma
vizinhança de a, ou que a é um ponto interior de X, se existir uma bola aberta centrada
em a e contida em X, i.e. se existir r > 0 tal que Ba (r) ⊂ X.
Dado X ⊂ Rn , diz-se que X é aberto se todos os seus pontos forem interiores — ou,
equivalentemente, se X for uma vizinhança de cada um de seus pontos. Ou seja, X é
aberto se a seguinte condição for satisfeita: ∀a ∈ X, ∃r > 0 | Ba (r) ⊂ X.
Um subconjunto X ⊂ Rn diz-se fechado se o seu complementar em Rn , Rn \ X, for
aberto.
11
Exemplo 3.4. 1. Rn e ∅ são abertos; também são fechados, pois um é o complementar
do outro.
2. Bolas abertas são conjuntos abertos. Com efeito, sejam B = Ba (r) uma bola aberta
e x ∈ B; tomando-se δ = r − kx − ak, decorre da desigualdade triangular que
Bx (δ) ⊂ Ba (r), portanto x é ponto interior de B e, pela arbitrariedade da escolha
de x, todo ponto de B é ponto interior de B.
3. Bolas fechadas são conjuntos fechados. Verifique isto como exercı́cio (i.e. demonstre
que o complementar de uma bola fechada é aberto).
Observação 3.5. Cuidado! Negar que um conjunto é aberto não equivale a afirmar que
o mesmo é fechado, ou vice-versa. Um subconjunto de Rn pode ser aberto e fechado (Rn
e ∅ o são — e são os únicos subconjuntos de Rn com esta propriedade) e pode não ser
aberto, nem fechado (por exemplo, [0, 1) não é aberto, nem fechado em R).
12
Note que: (i) x ∈ X \ {a} e kx − ak < δ equivale a dizer que x está na intersecção
do domı́nio de f com a bola aberta de raio δ centrada em a e x 6= a; (ii) kf (x) − bk <
equivale a dizer que f (x) está na bola aberta de Rm de raio centrada em b. Assim,
geometricamente, a definição acima significa que, para todo > 0 (não importa o quão
pequeno ele seja), existe δ > 0 (que eventualmente pode depender de , e também de a)
tal que a imagem por f do subconjunto dos pontos do seu domı́nio que são distintos de a e
que estão em Ba (δ) está contida em Bb (), i.e. f (Ba (δ) ∩ X \ {a}) ⊂ Bb (). Intuitivamente,
isto corresponde à noção de limite estudada no Cálculo I, i.e. pode-se tornar a distância
de f (x) até b arbitrariamente pequena (i.e. menor que > 0 arbitrariamente escolhido),
desde que se tome x ∈ X \ {a} suficientemente próximo de a (i.e. menor que um certo
δ > 0 correspondente ao escolhido).
3.2.1. Propriedades Elementares dos Limites
Proposição 3.9 (unicidade do limite). Sejam X ⊂ Rn , a ∈ Rn ponto de acumulação de
X, f : X → Rm e b1 , b2 ∈ Rm . Se lim f (x) = b1 e lim f (x) = b2 , então b1 = b2 .
x→a x→a
Demonstração †: Dado > 0, tem-se, pela definição de limite: (i) ∃δ1 > 0 tal
que, se x ∈ X e 0 < kx − ak < δ1 , então kf (x) − b1 k < /2; (ii) ∃δ2 > 0 tal que,
.
se x ∈ X e 0 < kx − ak < δ2 , então kf (x) − b2 k < /2. Tome δ = min{δ1 , δ2 };
como a é ponto de acumulação de X, existe x0 ∈ Ba (δ) \ {a} e, de (i) e (ii) temos
kf (x0 )−b1 k < /2 e kf (x0 )−b
2 k < /2. Portanto, pela desigualdade triangular, kb1 −b2 k =
k b1 − f (x0 ) + (b2 − f (x0 ) k 6 kf (x0 ) − b1 k + kf (x0 ) − b2 k < /2 + /2 = . Assim, como
foi tomado de maneira arbitrária, conclui-se que, para todo > 0, kb1 − b2 k < , donde
b1 = b2 .
13
. .
Demonstração †: Se a ∈ X, tome M = max{1, f (a)}; se a 6∈ X, tome M = 1. Sendo
b ∈ Rm o limite de f em a, segue da definição de limite (escolhendo = M ) que ∃δ > 0
tal que, se x ∈ Ba (δ) ∩ X \ {a},
tem-se kf (x) − bk 6 M . Assim, para todo x ∈ Ba (δ) ∩ X,
tem-se kf (x)k = k f (x) − b + f (b)k 6 kf (x) − bk + kbk 6 M + kbk, onde a penúltima
desigualdade é a triangular. Assim, f é limitada em Ba (δ) ∩ X por M + kbk.
14
Demonstração †: Pela definição de limite (escolhendo = |b|/2), existe δ > 0 tal que,
se x ∈ X e 0 < kx − ak < δ, |f (x) − b| < |b|/2, logo f (x) tem o mesmo sinal de b. Assim,
basta tomar Y = Ba (δ).
Demonstração †: Com efeito, existe M > 0 tal que, para todo x ∈ X, |g(x)| 6 M .
Dado > 0, existe δ > 0 tal que, se x ∈ X e 0 < kx − ak < δ, tem-se |f (x)| < /M .
Assim, se x ∈ X e 0 < kx − ak < δ, tem-se |f (x)g(x)| = |f (x)||g(x)| < .
Demonstração †:
(i) Dado > 0, por hipótese: (1) ∃δ1 > 0 tal que, se x ∈ X e 0 < kx − ak < δ1 ,
kf (x) − vk < /2; (2) ∃δ2 > 0 tal que, se x ∈ X e 0 < kx − ak < δ2 , kg(x) − wk < /2.
.
Assim, tomando δ = min{δ1 , δ2 }, se x ∈ X e 0 < kx − ak < δ, tem-se k[f (x) + g(x)] −
(v + w)k = k[f (x) − v] + [g(x) − 2]k 6 kf (x) − vk + kg(x) − wk < /2 + /2 = , onde a
penúltima desigualdade é a triangular.
(ii) Dado > 0, por hipótese ∃δ > 0 tal que, se x ∈ X e 0 < kx − ak < δ, kf (x) − vk <
1+|α|
. Portanto, se x ∈ X e 0 < kx − ak < δ, tem-se kαf (x) − αvk = |α|kf (x) − vk <
|α|
1+|α|
< .
(iii) Para todo x ∈ X:
|hf (x), g(x)i − hv, wi| = |hf (x), g(x)i − hf (x), wi + hf (x), wi − hv, wi| =
= |hf (x), g(x) − wi + hf (x) − v, wi| 6
[Link]. (11)
6 |hf (x), g(x) − wi| + |hf (x) − v, wi| 6
Cauchy−Schwartz
6 kf (x)kkg(x) − wk + kf (x) − vkkwk
Como f tem limite em a, segue-se de 3.13 que f é limitada numa vizinhança de
a. Ora, f limitada numa vizinhança de a e lim kg(x) − wk = 0 implicam, por 3.16,
x→a
lim [kf (x)kkg(x) − wk] = 0. Como também temos lim kf (x) − vkkwk = 0, segue-se que
x→a x→a
lim [kf (x)kkg(x)−wk+kf (x)−vkkwk] = 0, donde, por (11) e pelo teorema do confronto,
x→a
lim |hf (x), g(x)i − hv, wi| = 0.
x→a
(iv) A prova é idêntica à do item anterior, substituindo-se o produto escalar pelo vetorial
e usando-se a desigualdade ∀x, y ∈ R3 , kx ∧ yk 6 kxkkyk.
15
Proposição 3.19. Sejam X ⊂ Rn , a ∈ Rn ponto de acumulação de X, α ∈ R e f, g :
X → R tais que lim f (x) = v ∈ R e lim g(x) = w ∈ R. Tem-se:
x→a x→a
f (x) v
(iv) lim = se w 6= 0.
x→a g(x) w
(i) a é ponto de acumulação de X e f tem limite em a igual a f (a), i.e. lim f (x) =
x→a
f (a);
(ii) a não é ponto de acumulação de X (diz-se, neste caso, que a é um ponto isolado
de X; assim, por definição, uma função é contı́nua em todos os pontos isolados do
seu domı́nio).
16
Proposição 3.21. Seja f = (f1 , . . . , fm ) : X ⊂ Rn → Rm . Então f é contı́nua se,
e somente se, (∀i ∈ {1, . . . , m}) fi : X → R é contı́nua. Ou seja, f é contı́nua se, e
somente se, suas componentes são contı́nuas.
(iii) se m = 3, f ∧ g : X → R3 é contı́nua.
O primeiro item do corolário acima significa que o conjunto formado pelas funções
contı́nuas X → Rm é um subespaço vetorial do espaço vetorial real de todas as funções
X → Rm .
(ii) f g : X → R é contı́nua;
f
(iii) g
: {x ∈ X | g(x) 6= 0} → R3 é contı́nua.
17
Exemplo 3.26. Exemplos de funções contı́nuas:
18
conclui-se que, se x ∈ X e 0 < kx − ak < δ, então 0 < kg(x) − bk < δ1 . Portanto, de (1),
segue-se que, se x ∈ X e 0 < kx − ak < δ, então kf (g(x)) − bk < . Pela arbitrariedade
da escolha de , está provado que lim (f ◦ g)(x) = L.
x→a
Demonstração †: Seja > 0. Pela definição de continuidade, existe δ1 > 0 tal que,
se y ∈ Y e ky − bk < δ1 , então kf (y) − f (b)k < . E, como lim g(x) = b, existe δ > 0 tal
x→a
que, se x ∈ X e 0 < kx − ak < δ, então kg(x) − bk < δ1 , logo kf (g(x)) − f (b)k < . Como
foi tomado arbitrariamente, isto prova que lim (f ◦ g)(x) = f (b).
x→a
19
3.2.3. Limites Infinitos
1
Seja f : Rn \ {O} → R dada por x 7→ kxk . Esta função não tem limite no zero;
intuitivamente, isto ocorre porque, à medida que tomamos vetores x ∈ Rn cada vez
mais próximos de O, os valores f (x) se tornam cada vez maiores, não se aproximando
de nenhum número real. Para denotar esta regularidade de comportamento da função
numa vizinhança de O ∈ Rn , diz-se que f tem limite +∞ no zero, no sentido da seguinte
definição:
Observação 3.34. 1. Note que, se lim f (x) = ±∞, então @lim f (x); no entanto, o
x→a x→a
inverso não é verdadeiro, i.e. o limite pode deixar de existir sem que f tenda a ∞
ou −∞ em a, conforme já foi visto no curso de Cálculo I.
2. Valem para os limites infinitos propriedades análogas às já estudadas no Cálculo I.
3.3. Curvas
Definição 3.35. Uma curva no Rn é uma aplicação γ : I ⊂ R → Rn , onde I é um
.
intervalo. A imagem ou traço da curva γ é o conjunto γ ∗ = {x ∈ Rn | x = γ(t), t ∈ I},
i.e. γ ∗ é o conjunto imagem da aplicação γ.
Observação 3.36. Não confunda uma curva γ com o seu traço γ ∗ : a curva γ é uma
aplicação I ⊂ R → Rn , enquanto que o seu traço γ ∗ é um conjunto de pontos (i.e. a
imagem da aplicação γ). É comum, no entanto, por um abuso de linguagem, chamar o
conjunto γ ∗ de “curva”.
Limites e continuidade de curvas já foram estudados na seção anterior, na qual estes
conceitos foram estudados no contexto mais geral de funções Rn → Rm . Estudaremos,
nesta seção, a diferenciabilidade e integrabilidade (no sentido de Riemann) de curvas.
γ(t) − γ(t0 )
γ 0 (t0 ) = lim
t→t0 t − t0
20
Diz-se que γ é derivável se o for em todos os pontos de I; neste caso, fica bem definida
a função derivada (ou, simplesmente, derivada) de γ, que é a função γ 0 : I → Rn definida
por t 7→ γ 0 (t).
Observação 3.38. Com a notação da definição anterior, decorre imediatamente da pro-
posição 3.27 (ou por uma verificação direta) que existe lim γ(t)−γ(t
t−t0
0)
se, e somente se,
t→t0
existe lim γ(t0 +h)−γ(t
h
0)
, e em caso afirmativo os limites coincidem; assim, também pode-
h→0
mos usar o último limite na definição de derivada.
As componentes de uma aplicação a valores em Rn foram definidas em 3.12. A seguinte
proposição é um corolário de 3.14:
Proposição 3.39. Sejam I ⊂ R um intervalo, t0 ∈ I e γ = (γ1 , . . . , γn ) : I → Rn . Então
γ é derivável em t0 se, e somente se, para 1 6 i 6 n, γi : I → R for derivável em t0 ; em
caso afirmativo, γ 0 (t0 ) = γ10 (t0 ), . . . , γn0 (t0 ) .
Demonstração. Para todo t ∈ I \ {t0 }, tem-se:
γ(t) − γ(t0 ) γ (t) − γ (t )
1 1 0 γn (t) − γn (t0 )
= ,...,
t − t0 t − t0 t − t0
i.e. a i-ésima componente do quociente de Newton de γ em t0 coincide com o quociente de
Newton da i-ésima componente de γ em t0 . Agora basta aplicar a definição de derivada
e a proposição 3.14.
A seguir, definiremos a integrabilidade (no sentido de Riemann) de curvas [a, b] ⊂
R → Rm através de limites de somas de Riemann, i.e. fazendo-se uma extensão direta da
definição que adotamos no Cálculo I.
Definição 3.40. Seja [a, b] ⊂ R um intervalo fechado e limitado. Uma partição de [a, b]
é um subconjunto finito P de [a, b] tal que a, b ∈ P . Usaremos a notação P = {a =
t0 < t1 < · · · < tn = b}, com o significado de que P é o conjunto {t0 , . . . , tn } e que
a = t0 < t1 < · · · < tn = b. Uma partição P = {a = t0 < t1 < · · · < tn = b} de
[a, b] determina uma subdivisão deste intervalo em n-subintervalos; o intervalo [ti−1 , ti ],
1 6 i 6 n, chama-se i-ésimo intervalo da partição. A norma de P (notação: |P |) é o
.
comprimento do maior subintervalo de P , i.e. |P | = max{|ti − ti−1 | : 1 6 i 6 n}. Um
pontilhamento de P é uma n-upla ξ = (ξ1 , . . . , ξn ) tal que, para 1 6 i 6 n, ξi ∈ [ti−1 , ti ].
Um par (P, ξ), onde P é uma partição de [a, b] e ξ um pontilhamento de P , chama-se
partição pontilhada de [a, b].
Dada uma função f : [a, b] → Rm e (P, ξ) uma partição pontilhada de [a, b], define-se
a soma de Riemann de f relativamente a (P, ξ) (notação: S(f, P, ξ)) como sendo o vetor:
n
. X
S(f, P, ξ) = f (ξi )(ti − ti−1 )
i=1
21
Diz-se que f é Riemann-integrável ou integrável no sentido de Riemann se existir o
m
limite das suas somas de Riemann,
Rb R bi.e. se existir um vetor L ∈ R , chamado integral de
Riemann de f (notação: a f ou a f (t)dt), para o qual a seguinte condição é satisfeita:
para todo > 0, existe δ > 0 tal que, se P for uma partição de [a, b] com |P | < δ e ξ for
um pontilhamento qualquer de P , então kS(f, P, ξ) − Lk < .
Demonstração. Basta observar que, dada (P, ξ) partição pontilhada de [a, b], tem-se S(f, P, ξ) =
S(f1 , P, ξ), . . . , S(fn , P, ξ) ; aplica-se, então, um argumento análogo ao usado na demons-
tração da proposição 3.14.
Como corolários desta proposição, todos os teoremas estudados no Cálculo I para
integrais de Riemann de funções [a, b] → R se estendem para integrais de Riemann de
funções [a, b] → Rn :
Teorema 3.43 (Teorema Fundamental do Cálculo, parte I). Seja f : [a, b] → Rn Riemann-
integrável. Suponha que exista F : [a, b] → Rn contı́nua em [a, b] e derivável em (a, b),
Rb
com F 0 = f em (a, b). Então a f = F (b) − F (a).
Corolário 3.46. Com as mesmas hipóteses do teorema anterior, se f for contı́nua, então
F é derivável e F 0 = f . Em particular, toda função contı́nua definida num intervalo e a
valores no Rn tem uma primitiva.
22
Teorema 3.47 (Propriedades da Integral de Riemann). Sejam f, g : [a, b] → Rn Riemann-
integráveis e α ∈ R. Tem-se:
Rb Rb Rb
1. As funções f + g e αf são Riemann-integráveis e: (i) a (f + g) = a f + a g, (ii)
Rb Rb
a
(αf ) = α a f .
2. hf, gi é Riemann-integrável; se n = 3, f ∧ g também o é.
Rb
3. Dado t0 ∈ [a, b], as restrições f |[a,t0 ] e f |[t0 ,b] são Riemann-integráveis, e a f =
R t0 Rb
a
f + t0
f . Reciprocamente, se f : [a, b] → Rn for tal que suas restrições a [a, t0 ]
e [t0 , b] são Riemann-integráveis, então f é Riemann-integrável.
4. kf k : [a, b] → R é Riemann-integrável e:
Z b Z b
k fk 6 kf k.
a a
Demonstração †:
Os três primeiros ı́tens e a Riemann-integrabilidade de kf k no último item são con-
sequências imediatas da proposição 3.41 e de propriedades da integral de Riemann para
funções [a, b] → R. Resta provar a desigualdade na última afirmação.
Rb Rb . Rb Rb
Suponha, por absurdo, que seja a kf k < k a f k. Tome = 21 (k a f k − a kf k) > 0.
Pela definição 3.40, existe δ > 0 tal que, para toda partição P = {a = t0 < t1 < · · · <
tm = b} de [a, b] e para todo pontilhamento ξ = (ξ1 , . . . , ξm ) de P , tem-se:
Rb
(1) kS(f, P, ξ) − a f k < . Portanto, segue-se do exercı́cio 3.1 que |kS(f, P, ξ)k −
Rb
k a f k| < .
Rb
(2) |S(kf k, P, ξ) − a kf k| < .
Rb Rb
Como k a f k − a kf k = 2, conclui-se de (1) e (2) que, tomando-se uma partição
pontilhada (P, ξ) com kP k < δ, S(kf k, P, ξ) < kS(f, Pm P, ξ)k. Mas, como consequência
Pm da
P triangular, tem-se: kS(f, P, ξ)k = k i=1 f (ξi )(ti − ti−1 )k 6 i=1 kf (ξi )(ti −
desigualdade
ti−1 )k = m i=1 kf (ξi )k(ti − ti−1 ) = S(kf k, P, ξ), o que é uma contradição.
A primeira propriedade enunciada no teorema anterior significa que o conjunto das
funções [a, b] → Rn Riemann-integráveis é um subespaço vetorial do espaço vetorial real
formado por todas as funções [a, b] → Rn , e que a integral de Riemann é uma forma linear
definida neste espaço.
Definição 3.48. Uma função f : I ⊂ R → Rn diz-se de classe C1 se for derivável e sua
derivada for uma função contı́nua I → Rn .
Teorema 3.49 (Teorema de Mudança de Variáveis na Integral de Riemann). Sejam
f : [a, b] → Rn contı́nua e g : [c, d] → R de classe C1 , tal que g(c) = a e g(d) = b. Então
Rb Rd
a
f (t) dt = c
(f ◦ g)(t)g 0 (t) dt.
23
Demonstração. Inicialmente, note que, tanto f como (f ◦ g) · g 0 são funções [a, b] → Rn
Riemann-integráveis, pois são contı́nuas.
Como f é contı́nua, o corolário 3.46 garante a existência de uma primitiva F : [a, b] →
n
R de f . Além disso, segue-se da regra da cadeia que F ◦ g é derivável e, para todo
t ∈ [a, b], (F ◦ g)0 (t) = F 0 (g(t))g 0 (t) = (f ◦ g)(t)g 0 (t), i.e. F ◦ g é uma primitiva de
(f ◦ g) · g 0 . Assim, pelo teorema 3.43, tem-se:
Z b
TFC
f = F (b) − F (a) =
a
= F ◦ g(d) − F ◦ g(c) =
Z d
TFC
= (f ◦ g) · g 0
c
3.4. Derivadas
Queremos estender a noção de diferenciabilidade para funções Rn → Rm . A maneira
mais natural de se fazer isto é usar a idéia contida na proposição 2.8, i.e. uma função
X ⊂ R → R é derivável em x0 se tiver uma “boa aproximação linear” numa vizinhança
de x0 . Precisamente, na referida proposição foi demonstrado que, se f : X ⊂ R → R
é contı́nua em x0 ∈ X, então f é derivável em x0 se, e somente se, existir uma função
polinomial de grau menor ou igual a 1 (i.e. uma função linear afim), P : R → R, tal que
lim f (x)−P (x)
|x−x0 |
= 0. Intuitivamente, o fato de o último limite existir e se anular significa
x→x0
que a diferença f − P tende a zero mais rapidamente do que x − x0 , quando x tende
a x0 ; é neste sentido que dizemos que P é uma “boa aproximação linear” para f numa
vizinhança de x0 . Vimos na proposição 2.8 que, se f for derivável em x0 , a função P fica
determinada univocamente e coincide com o polinômio de Taylor de ordem 1 de f em x0 .
Assim, a noção de diferenciabilidade se generaliza naturalmente para funções Rn → Rm :
Definição. Sejam X ⊂ Rn aberto, x0 ∈ X e f : X → Rm contı́nua em x0 . Diz-se que
f é derivável ou diferenciável em x0 se existir uma função polinomial de grau menor ou
igual a 1, P : Rn → Rm tal que lim f (x)−P (x)
kx−x0 k
= 0.
x→x0
Ora, funções polinomiais R → Rm já foram definidas no exemplo 3.26; uma função
n
polinomial de grau menor ou igual a 1, i.e. uma função linear afim, é a soma de uma
função constante com uma função linear Rn → Rm . Assim sendo, na definição anterior,
P : Rn → Rm deve ser da forma x 7→ c + A · x, onde A : Rn → Rm é uma transformação
linear e c é um vetor do Rm . Assim, P (x) − P (x0 ) = A · (x − x0 ), de modo que, para todo
x ∈ Rn , P (x) = P (x0 )+A·(x−x0 ). Como lim f (x)−P (x)
kx−x0 k
= 0 implica lim [f (x)−P (x)] =
x→x0 x→x0
f (x)−P (x)
0 (pois f (x) − P (x) = kx−x0 k
· kx − x0 k para x 6= x0 ), e como f é contı́nua em x0 e
funções polinomiais são contı́nuas (vide exemplo 3.26), conclui-se que P (x0 ) = f (x0 ),
de modo que P é da forma x 7→ f (x0 ) + A · (x − x0 ). Assim, para todo x ∈ X \ {x0 },
f (x)−P (x)
kx−x0 k
= f (x)−f (x 0 )−A·(x−x0 )
kx−x0 k
, de modo que lim f (x)−f (x 0 )−A·(x−x0 )
kx−x0 k
= 0. Reciprocamente,
x→x0
24
dados X ⊂ Rn aberto, x0 ∈ X e f : X → Rm , se existir uma transformação linear
A : Rn → Rm tal que lim f (x)−f (x 0 )−A·(x−x0 )
kx−x0 k
= 0, tem-se: (i) lim [f (x) − f (x0 ) − A ·
x→x0 x→x0
(x − x0 )] = 0 e, como lim A · (x − x0 ) = 0, segue-se lim [f (x) − f (x0 )] = 0, portanto
x→x0 x→x0
lim f (x) = f (x0 ), i.e. f é contı́nua em x0 ; (ii) pondo-se P (x) = f (x0 ) + A · (x − x0 ),
x→x0
f (x)−P (x)
tem-se lim kx−x0 k
= 0; portanto, como f é contı́nua em x0 , pela definição anterior f
x→x0
é derivável em x0 . Consequentemente, a definição anterior é equivalente à seguinte:
Definição 3.50 (Derivabilidade de Funções Rn → Rm ). Sejam X ⊂ Rn aberto, x0 ∈
X e f : X → Rm . Diz-se que f é derivável ou diferenciável em x0 se existir uma
.
transformação linear A : Rn → Rm tal que, pondo-se (∀ x ∈ X)R(x) = f (x) − f (x0 ) − A ·
R(x)
(x − x0 ), tem-se lim kx−x 0k
= 0.
x→x0
Diz-se que f é derivável se for derivável em todo x0 ∈ X.
.
Observação 3.51. 1. Com a mesma notação da definição anterior, seja (∀h ∈ Rn )r(h) =
R(x)
f (x0 + h) − f (x0 ) − A · h. Então lim kx−x 0k
= 0 se, e somente se, lim r(h)
khk
= 0,
x→x0 h→O
de modo que também podemos usar o último limite na definição de derivada.
2. No Cálculo I, estudamos funções deriváveis X ⊂ R → R, onde X é um intervalo
ou reunião de intervalos disjuntos. Para n > 2, a fim de evitar complicações, os
domı́nios mais adequados para se definir e estudar funções deriváveis X ⊂ Rn → Rm
são os abertos de Rn , conforme já se foi considerado na definição anterior.
Nos comentários que antecedem a definição acima, provamos a seguinte:
Proposição 3.52. Sejam X ⊂ Rn aberto, x0 ∈ X e f : X → Rm . Se f for derivável em
x0 , então f é contı́nua em x0 .
Proposição 3.53. Sejam X ⊂ Rn aberto, x0 ∈ X e f : X → Rm . Se f for derivável
em x0 , então a transformação linear A : Rn → Rm tal que lim f (x)−f (x 0 )−A·(x−x0 )
kx−x0 k
= 0 é
x→x0
única.
f (x0 +h)−f (x0 )−A·h
Demonstração. (1) Pela hipótese de ser f derivável em x0 , lim khk
existe e
h→O
é igual a zero.
.
(2) Dado h ∈ Rn \ {O}, seja F : {t ∈ R \ {0} | x0 + th ∈ X} → Rm dada por F (t) =
f (x0 +th)−f (x0 )−A·th
tkhk
. Decorre de (1) que lim F (t) = 0; por outro lado, F (t) = f (x0 +th)−f
tkhk
(x0 )
−
t→0
h h h h
A · khk e, como t 7→ A · khk é uma função constante, lim A · khk existe e é igual a A · khk .
t→0
f (x0 +th)−f (x0 ) h
Assim, conclui-se que lim tkhk
existe e é igual a A · khk = A·h
khk
. Portanto, A · h =
t→0
khklim f (x0 +th)−f
tkhk
(x0 )
= lim f (x0 +th)−f
t
(x0 )
. Esta igualdade também vale, trivialmente, se
t→0 t→0
n
h = 0, de modo que, para todo h ∈ R :
f (x0 + th) − f (x0 )
A · h = lim , (12)
t→0 t
o que demonstra a unicidade de A.
25
Assim, de acordo com esta última proposição, faz sentido a seguinte definição:
26
−−−−→ −−−−→
• então existe lim f (t)−f (t0 )−(t−t
t−t0
0 )Df (t0 )
= O ∈ Rn ; e, como f (t)−f (t0 )−(t−t
t−t0
0 )Df (t0 )
=
t→t0
f (t)−f (t0 ) −−−−→
t−t0
− Df (t0 ), o fato de o último limite existir e ser igual a zero é equiva-
−−−−→
lente a existir lim f (t)−f t−t0
(t0 )
= Df (t0 ), i.e. f é derivável em t0 no sentido de
t→t0
−−−−→
3.37 e o vetor velocidade de f em t0 é Df (t0 ).
f (t)−f (t0 )
Reciprocamente, se f for derivável em t0 no sentido de 3.37, i.e. se existir lim t−t0
=
t→t0
0
f (t0 ), então, pelas mesmas contas do argumento acima, f é derivável em t0 no sen-
−−−−→
tido de 3.50 e sua derivada de Fréchet em t0 é tal que Df (t0 ) = f 0 (t0 ), o que prova a
equivalência afirmada entre as duas noções de diferenciabilidade. Em particular, a
diferenciabilidade no sentido de Fréchet coincide, no caso de funções X ⊂ R → R,
com a noção de diferenciabilidade estudada no Cálculo I.
Observação 3.58. 1. Com a mesma notação das definições acima, note que, caso exista,
a derivada de f em x0 na direção h coincide com o vetor velocidade em t = 0 da
curva t 7→ f (x0 +th), obtida pela composição de f com a curva t 7→ x0 +th, cujo traço
é uma reta que passa por x0 na direção de h; isto justifica a nomenclatura “derivada
direcional”. Em particular, dados X ⊂ Rn aberto, a = (a1 , . . . , an ) ∈ X, f : X → R
e 1 6 i 6 n, a i-ésima derivada parcial de f em a coincide com a derivada em ai
27
da função real a valores reais {x ∈ R | (a1 , . . . , ai−1 , x, ai+1 , . . . , an ) ∈ X} → R dada
por x 7→ f (a1 , . . . , ai−1 , x, ai+1 , . . . , an ). Isto justifica a nomenclatura “derivada par-
cial com relação à i-ésima coordenada”, i.e. tal derivada é dada pela derivação da
função real a valores reais obtida ao se considerar f como função apenas da i-ésima
coordenada (as demais coordenadas sendo consideradas constantes).
Em caso afirmativo, a derivada de f em x0 é dada por (∀h ∈ Rn )Df (x0 )·h = Dh f (x0 ).
28
Observação 3.62. Sejam X ⊂ Rn aberto e f = (f1 , . . . , fm ) : X → Rm . É uma con-
sequência imediata da definição acima, da observação 3.58 e da proposição 3.21 que f é
de classe C1 se, e somente se, suas componentes (∀i, 1 6 i 6 m)fi : Rn → R o forem.
n Z
X ai +hi
f (a + h) − f (a) = Di f (a1 + h1 , . . . , ai−1 + hi−1 , t, ai+1 , . . . , an ) dt. (13)
i=1 ai
Pn
(3) Seja T : Rn → R a transformação linear dada por (v1 , . . . , vn ) 7→ i=1 vi Di f (a).
Pn Pn R ai +hi
Tem-se: T · h = i=1 hi Di f (a) = i=1 ai Di f (a) dt. Portanto, de (2) segue:
Pn R ai +hi
f (a + h) − f (a) − T · h i=1 ai
[Di f (a1 + h1 , . . . , ai−1 + hi−1 , t, ai+1 , . . . , an ) − Di f (a)] dt
=
khk khk
(14)
29
donde:
kf (a + h) − f (a) − T · hk
=
khk
P R a +h
k ni=1 aii i [Di f (a1 + h1 , . . . , ai−1 + hi−1 , t, ai+1 , . . . , an ) − Di f (a)] dtk
6
khk
Pn R ai +hi
[Link] i=1 k ai [Di f (a1 + h1 , . . . , ai−1 + hi−1 , t, ai+1 , . . . , an ) − Di f (a)] dtk
6 6
khk
Pn R ai +hi
3.47 i=1 ai
kDi f (a1 + h1 , . . . , ai−1 + hi−1 , t, ai+1 , . . . , an ) − Di f (a)k dt
6
khk
(15)
(4) Seja > 0. Pela hipótese de serem contı́nuas as derivadas parciais de f , podemos, para
1 6 i 6 n, escolher δi > 0 tal que, se x ∈ X e 0 < kx − ak < δi , então |Di f (x) − Di f (a)| <
.
/n. Tome δ = min{r, δ1 , . . . , δn } >P0. Se h ∈ Rn Pé tal que 0 < khk < δ, então, de (3),
n n
i=1 hi /n i=1 hi
conclui-se que kf (a+h)−f
khk
(a)−T ·hk
< khk
=
n khk
< . Como > 0 foi tomado
kf (a+h)−f (a)−T ·hk
arbitrariamente, segue-se que lim khk
= 0, portanto f é derivável em a e
h→O
Df (a) = T . Finalmente, como a ∈ X foi tomado arbitrariamente, o que acabamos de
mostrar vale para todo a ∈ X, e isto conclui a demonstração.
x sin y
Exemplo 3.64. Seja f : R2 → R dada por f (x, y) = 1+x2 +y 4
. Tem-se, ∀(x, y) ∈ R2 : (1)
2 4 x cos y·(1+x2 +y 4 )−x sin y·4y 3
Dx f (x, y) = sin y·(1+x +y )−x sin y·2x
(1+x2 +y 4 )2
e (2) Dy f (x, y) = (1+x2 +y 4 )2
. Portanto, f ,
Dx f e Dy f são funções contı́nuas R2 → R, i.e. f é de classe C . Segue-se da proposição
1
30
→
−
A toda transformação linear T : Rn → R corresponde um único vetor T ∈ Rn tal que,
→
− →
−
para todo v ∈ Rn , T · v = h T , vi. A matriz (coluna) das coordenadas de T em relação
à base canônica de Rn é a transposta da matriz (linha) da transformação linear T em
relação às bases canônicas de Rn e R. Aplicando-se esta correspondência à derivada de
uma função derivável Rn → R, obtém-se o vetor gradiente da referida função:
31
Teorema 3.70 (Regra da Cadeia). Sejam X ⊂ Rn aberto, g : X → Rm derivável em
x0 ∈ X, Y ⊂ Rm aberto, g(X) ⊂ Y e f : Y → Rs derivável em y0 = g(x0 ). Então f ◦ g é
derivável em x0 e sua derivada em x0 é a composta das derivadas de f em y0 e de g em
x0 , i.e. D(f ◦ g)(x0 ) = Df (y0 ) ◦ Dg(x0 ) : Rn → Rs .
.
Demonstração. (1) Definamos, para v ∈ Rn tal que x0 + v ∈ X, R1 (v) = g(x0 + v) −
g(x0 ) − Dg(x0 ) · v. Pela hipótese de ser g derivável em x0 , tem-se lim kRkvk
1 (v)k
= 0.
v→O
m .
(2) Definamos, para w ∈ R tal que y0 + w ∈ Y , R2 (w) = f (y0 + w) − f (y0 ) − Df (y0 ) · w.
Pela hipótese de ser f derivável em y0 , tem-se lim kRkwk2 (w)k
= 0.
w→O
.
(3) Definamos, para h ∈ Rn tal que x0 + h ∈ X, R(h) = f ◦ g(x0 + h) − f ◦ g(x0 ) − Df (y0 ) ·
Dg(x0 ) · h. Queremos mostrar que lim kR(h)k khk
= 0.
h→O
Para todo h ∈ Rn tal que x0 + h ∈ X, tomando-se w = g(x0 + h) − g(x0 ) em (2),
obtém-se f ◦ g(x0 + h) − f ◦ g(x0 ) = Df (y0 ) · [g(x0 + h) − g(x0 )] + R2 g(x0 + h) − g(x0 ) .
Portanto:
R(h) = Df (y0 ) · [g(x0 + h) − g(x0 )] + R2 g(x0 + h) − g(x0 ) − Df (y0 ) · Dg(x0 ) · h =
= Df (y0 ) · [g(x0 + h) − g(x0 ) − Dg(x0 ) · h] + R2 g(x0 + h) − g(x0 ) =
(1)
= Df (y0 ) · R1 (h) + R2 g(x0 + h) − g(x0 )
(16)
32
o que concluirá a demonstração, em vista de (17). Mas, para todo h ∈ Rn \ {O} tal que
x0 + h ∈ X, por (1) tem-se g(x0 + h) − g(x0 ) = Dg(x0 ) · h + R1 (h), donde:
kg(x0 + h) − g(x0 )k h R1 (h)
= kDg(x0 ) · + k6
khk khk khk
(19)
h kR1 (h)k
6 kDg(x0 ) · k+
khk khk
kR1 (h)k
onde, na última passagem, foi aplicada a desigualdade triangular. Como lim khk
= 0,
h→O
segue-se da proposição 3.13 que a função {h ∈ Rn \ {O} | x0 + h ∈ X} → R dada por
h 7→ kRkhk
1 (h)k
é limitada numa vizinhança de O. Para verificar que a primeira parcela do
último membro de (19) também é limitada, usaremos o lema 3.71, demonstrado abaixo.
Ora, aplicando-se o referido lema para T = Dg(x0 ), existe C > 0 tal que, para todo
h h
h ∈ Rn \ {O}: kDg(x0 ) · khk k 6 Ck khk k = C. Isto mostra que o último membro de
(19) é uma função de h limitada numa vizinhança do zero; consequentemente, o primeiro
membro também o é, o que conclui a demonstração do teorema.
Lema 3.71. Seja T : Rn → Rm linear. Então existe C > 0 tal que, para todo v ∈ Rn ,
kT · vk 6 Ckvk.
Demonstração. Pelo exemplo 3.26, T : Rn → Rm é contı́nua. Assim, como T · O = O,
pela continuidade no O existe δ > 0 tal que, para todo v ∈ Rn tal que kvk < δ, tem-se
. δw
kT · vk < 1. Agora, dado w ∈ Rn \ {O}, tome v = 2kwk ; então kvk = 2δ < δ, donde
δ
kT · vk = 2kwk kT · wk 6 1, ou seja, kT · wk 6 2δ kwk. Como w ∈ Rn \ {O} foi tomado
arbitrariamente, a última desigualdade vale para todo w neste conjunto. Como também
vale para w = O (caso em que os dois membros se anulam), segue-se que kT · wk 6 2δ kwk
para todo w ∈ Rn . A demonstração se conclui tomando-se C = 2δ .
Corolário 3.72. Com as mesmas hipóteses do teorema 3.70, a matriz jacobiana de
f ◦ g em x0 é o produto das matrizes jacobianas de f em y0 = g(x0 ) e de g em x0 , i.e.
J(f ◦ g)(x0 ) = Jf (y0 ) · Jg(x0 ).
Demonstração. É uma consequência imediata do teorema 3.70 e do fato de que a matriz
da composta de duas transformações lineares é o produto das matrizes de cada uma das
transformações.
Com a mesma notação do teorema 3.70, sejam f = (f1 , . . . , fs ) : Y ⊂ Rm → Rs
e g = (g1 , . . . , gm ) : X ⊂ Rn → Rm , f ◦ g = (f ◦ g)1 , . . . , (f ◦ g)s : X → Rs . As
componentes de f ◦ g são dadas por (f ◦ g)i = fi ◦ g : X → R, 1 6 i 6 s. Se g for derivável
em x0 e f for derivável em y0 = g(x0 ), segue-se do corolário 3.72, da definição 3.66 e da
definição do produto de matrizes que J(f ◦ g)(x0 ) = Di (fj ◦ g)(x0 ) ij é dada por:
m
X
Di (fj ◦ g)(x0 ) = Dk fj (y0 )Di gk (x0 ) (20)
k=1
33
para 1 6 i 6 n, 1 6 j 6 s. Ou, escrevendo (20) com uma outra notação:
m
∂(fj ◦ g) X ∂fj ∂gk
(x0 ) = (y0 ) (x0 )
∂xi k=1
∂x k ∂x i
34
Com a mesma notação acima, se f for derivável, o campo gradiente de f é ortogonal às
superfı́cies de nı́vel de f , no seguinte sentido: dados c ∈ R e x0 ∈ Sc (f ), para toda curva
γ : I ⊂ R → Rn definida no intervalo aberto I e derivável em t0 ∈ I, cuja imagem esteja
contida em Sc (f ) e tal que γ(t0 ) = x0 , o vetor velocidade γ 0 (t0 ) é ortogonal a ∇f (x0 ). Com
efeito, a função composta f ◦ γ : I → R é constante e igual a c, portanto (f ◦ γ)0 (t0 ) = 0.
Por outro lado, de (21), tem-se (f ◦γ)0 (t0 ) = h∇f γ(t0 ) , γ 0 (t0 )i = h∇f (x0 ), γ 0 (t0 )i, donde
35
que passa por este ponto e que é ortogonal a ∇F (x0 , y0 , z0 ), i.e. o plano de equação
h(x − x0 , y − y0 , z − z0 ), ∇F (x0 , y0 , z0 )i = 0 ⇔
Definição 3.79 (Norma). Seja V um espaço vetorial real. Uma norma em V é uma
função k·k : V → R+ que satisfaz as seguintes propriedades:
N2 ∀α ∈ R, ∀x ∈ V, kαxk = |α|kxk;
O par (V, k·k) chama-se espaço vetorial normado, ou, simplesmente, espaço normado.
Para um espaço vetorial V munido de uma norma k·k, as definições 3.2, 3.3 e 3.6 se
generalizam de maneira óbvia. Deste modo, também podemos, doravante, falar em bolas,
abertos, fechados, pontos de acumulação de subconjuntos de V, etc., para o espaço vetorial
normado (V, k·k).
Eis alguns exemplos de espaços vetoriais normados:
36
. P
2. Em Rn , definimos ∀x = (x1 , . . . , xn ), kxkS = ni |xi |. Então k·kS é uma norma em
Rn (verifique isto, como exercı́cio), chamada norma da soma.
.
3. Em Rn , definimos ∀x = (x1 , . . . , xn ), kxkM = max16i6n |xi |. Então k·kM é uma
norma em Rn (verifique isto, como exercı́cio), chamada norma do máximo.
A definição de limite 3.8 se generaliza de forma natural para funções entre espaços
normados:
Definição 3.81 (Limites). Sejam (V, k·k) e (W, |||·|||) espaços normados, X ⊂ V, a ∈ V
ponto de acumulação de X, f : X → W e b ∈ W. Diz-se que o vetor b é o limite de f no
ponto a, e escreve-se lim f (x) = b, se a seguinte condição for satisfeita: ∀ > 0, ∃δ > 0
x→a
tal que, se x ∈ X \ {a} e kx − ak < δ, então |||f (x) − b||| < .
Verificaremos, a seguir, que a noção de limite para funções entre espaços vetoriais
normados de dimensão finita é independente das normas, no sentido de que, se substituir-
mos as normas dos espaços por outras, obtemos uma definição equivalente. Isto decorre
do fato de que, num espaço vetorial normado de dimensão finita, todas as normas são
equivalentes, no sentido da seguinte definição:
Definição 3.82 (Normas Equivalentes). Diz-se que duas normas k·k e |||·||| num espaço
vetorial real V são equivalentes se:
Teorema 3.83. Duas normas quaisquer num espaço vetorial real de dimensão finita são
equivalentes.
37
Pn
Pn
i=1 kei k
, donde i=1 |xi − ai |kei k < , portanto kx − ak < . Como |kxk − kak| 6 kx − ak
(isto decorre da desigualdade triangular — vide exercı́cio 3.1), segue-se |kxk − kak| < ,
como afirmado.
(3) Consideremos, em Rn , o produto interno usual h·, ·i e normas k·k, |||·|||. Denotemos
por S(1) a esfera unitária de Rn , i.e. S(1) = {x ∈ Rn | kxke = 1}. Definamos F :
. kxk
Rn \ {O} → R por F (x) = |||x||| . Como F é contı́nua (pois é o quociente de duas funções
contı́nuas, conforme a parte (2)) e S(1) é compacto (i.e. fechado e limitado, conforme
a definição 3.84, abaixo), segue-se do teorema de Weierstrass (3.85, abaixo) que existem
.
x1 , x2 ∈ S(1) tais que ∀x ∈ S(1), F (x1 ) 6 F (x) 6 F (x2 ). Pomos C1 = F (x1 ) > 0
(pois, como O 6∈S(1), nenhuma norma pode se anular neste conjunto, logo kx1 k > 0 e
. kxk
|||x1 ||| > 0, i.e. C1 > 0) e C2 = F (x2 ) > 0; então, ∀x ∈ S(1), C1 6 |||x||| 6 C2 . Ora, dado
. v kxk kvk/kvke kvk
v ∈ Rn \ {O}, tem-se x = kvk e
∈ S(1), portanto C1 6 |||x||| = |||v|||/kvke
= |||v||| 6 C2 ,
donde C1 |||v||| 6 kvk 6 C2 |||v|||. Como estas desigualdades também valem no O, conclui-
se que, para todo v ∈ Rn , C1 |||v||| 6 kvk 6 C2 |||v|||; isto implica, trivialmente, que as
normas k·k e |||·||| são equivalentes.
A demonstração deste teorema será omitida e pode ser encontrada em qualquer livro
de Análise Real ou de introdução à Topologia Geral ; vide, por exemplo, [4] ou [2].
Proposição 3.86. Sejam (V, k·k) e (W, |||·|||) espaços normados, X ⊂ V, a ∈ V ponto de
acumulação de X, f : X → W e b ∈ W. Então lim f (x) = b se, e somente se, para toda
x→a
vizinhança U de b em W, existir uma vizinhança V de a em V tal que f (V ∩ X \ {a}) ⊂ U.
Demonstração. É uma consequência imediata das definições 3.81 e 3.3 (mais precisamente,
da generalização natural da última definição para espaços normados).
Proposição 3.87. Sejam V um espaço vetorial real de dimensão finita, k·k e |||·||| normas
em V e a ∈ V. Então um subconjunto U de V é uma vizinhança de a segundo a norma
k·k se, e somente se, for uma vizinhança de a segundo a norma |||·|||; ou seja, o conjunto
das vizinhanças de a em V é independente da norma que se tome em V.
Demonstração. Em vista da definição 3.3, é suficiente verificar que toda k·k-bola aberta
de V centrada em a contém uma |||·|||-bola aberta de V centrada em a, e vice-versa. Isto
é uma consequência imediata do teorema 3.83: como V é de dimensão finita, o referido
teorema pode ser aplicado e garante a existência de constantes C1 , C2 > 0 tais que, para
todo v ∈ V, |||v||| 6 C1 kvk e kvk 6 C2 |||v|||. Assim, seja B a k·k-bola aberta de raio
r > 0 centrada em a, i.e. B = {x ∈ V | kx − ak < r}. Se x ∈ V e |||x − a||| < Cr2 , tem-se
38
kx − ak 6 C2 |||x − a||| < r, logo x ∈ B; ou seja, a |||·|||-bola aberta de V de raio Cr2 e
centrada em a está contida em B. Portanto, como a k·k-bola aberta B centrada em a foi
tomada de forma arbitrária, conclui-se que toda k·k-bola aberta centrada em a contém
uma |||·|||-bola aberta centrada em a. Analogamente, usando-se a desigualdade (∀v ∈ V)
|||v||| 6 C1 kvk, conclui-se que toda |||·|||-bola aberta centrada em a contém uma k·k-bola
aberta centrada em a.
Corolário 3.88. Sejam V um espaço vetorial real de dimensão finita, X ⊂ V, k·k e |||·|||
normas em V e a ∈ V. Então a é um k·k-ponto de acumulação de X se, e somente se, a
é um |||·|||-ponto de acumulação de X.
Corolário 3.89. Para funções entre espaços normados de dimensão finita, a noção de
limite é independente das normas tomadas no domı́nio e contradomı́nio da função. Ou
seja, se na definição 3.81 substituirmos as normas k·k em V e |||·||| em W por normas
k·k1 e |||·|||1 , respectivamente, obtemos uma definição equivalente.
39
Definição 3.91 (Derivabilidade de Funções entre Espaços Normados). Sejam (V, k·k)
e (W, |||·|||) espaços normados, X ⊂ V aberto, x0 ∈ V e f : X → W. Diz-se que f é
derivável ou diferenciável em x0 se existir uma transformação linear A : V → W tal que,
. R(x)
pondo-se (∀ x ∈ X)R(x) = f (x) − f (x0 ) − A · (x − x0 ), tem-se lim kx−x 0k
= 0.
x→x0
Diz-se que f é derivável se for derivável em todo x0 ∈ X.
Definição 3.92 (Derivada de Fréchet). Sejam (V, k·k) e (W, |||·|||) espaços normados,
X ⊂ V aberto, x0 ∈ X e f : X → W. Se f for derivável em x0 , então a transformação
linear A : Rn → Rm tal que lim f (x)−f (x0 )−A·(x−x0 )
kx−x0 k
= 0 chama-se derivada de Fréchet ou
x→x0
derivada total ou, simplesmente derivada de f em x0 . Usa-se uma das seguintes notações
para denotar tal derivada: f 0 (x0 ) ou Df (x0 ).
A seguinte proposição é frequentemente útil para se estudar a continuidade ou dife-
renciabilidade de funções entre espaços vetoriais reais de dimensão finita:
Proposição 3.93. Sejam (V, k·k) e (W, |||·|||) espaços vetoriais normados de dimensão
finita n e m, respectivamente. Fixemos bases ordenadas E = (v1 , . . . , vn ) em V e F =
(w1 , . . . , wm ) em W; através destas bases ordenadas, podemos identificar V com Rn (através
do isomorfismo linear que leva vi no i-ésimo vetor da base canônica de Rn , i.e. que leva
um vetor na n-upla das suas coordenadas na base E) e W com Rm (de forma análoga).
Através destas identificações, uma função f definida num aberto X de V e a valores em
W se identifica com uma função f definida num aberto X de Rn e a valores no Rm . Dado
x0 ∈ X, denotemos por x0 ∈ Rn o ponto que se identifica com x0 através do isomorfismo
V∼ = Rn acima. Tem-se:
1. f : X ⊂ V → W é contı́nua em x0 se, e somente se, f : X ⊂ Rn → Rm for contı́nua
em x0 .
40
Dv1 f1 (x0 ) Dv2 f1 (x0 ) · · · Dvn f1 (x0 )
Dv1 f2 (x0 ) Dv2 f2 (x0 ) · · · Dvn f2 (x0 )
Jf (x0 )E,F = Dvi fj (x0 ) i,j = (24)
··· ··· ··· ···
Dv1 fm (x0 ) Dv2 fm (x0 ) · · · Dvn fm (x0 )
Proposição 3.94. Sejam (V, k·k) e (W, |||·|||) espaços normados de dimensões n e m,
respectivamente, X ⊂ V aberto, f : X → W derivável. Denotemos por L(V, W) o espaço
vetorial real (de dimensão finita mn) das transformações lineares V → W. Então f é de
classe C1 (no sentido estabelecido no parágrafo acima, tomando bases ordenadas E e F
quaisquer) se, e somente se, a aplicação derivada de f , Df : X → L(V, W), for contı́nua.
41
3.5.2. Aplicações Multilineares e Regra de Leibnitz
Definição 3.95 (Aplicações Bilineares). Sejam V1 , V2 e W espaços vetoriais reais de
dimensão finita. Uma aplicação B : V1 × V2 → W diz-se bilinear se: (1) ∀v ∈ V1 ,
B(v, ·) : V2 → W dada por x 7→ B(v, x) for uma transformação linear e (2) ∀v ∈ V2 ,
B(·, v) : V1 → W dada por x 7→ B(x, v) for uma transformação linear. No caso W = R,
uma aplicação bilinear também é chamada de forma bilinear.
Se V1 = V2 = V e B for bilinear, diz-se que B é simétrica se (∀v, w ∈ V)B(v, w) =
B(w, v) e que B é anti-simétrica se (∀v, w ∈ V)B(v, w) = −B(w, v).
Ou seja, B : V1 × V2 → W é bilinear se for, separadamente, linear em cada um dos
fatores.
Exemplo 3.96. 1. Seja V um espaço vetorial real e h·, ·i um produto interno em V. Por
definição de produto interno, h·, ·i : V × V → R é bilinear simétrica.
42
V2 \ {O} foram tomados de forma arbitrária, isto vale para todos v1 , v2 nestes conjuntos;
como os dois membros se anulam se v1 ou v2 se anular, conclui-se que, ∀v1 ∈ V1 , ∀v2 ∈ V2 ,
|||B(v1 , v2 )||| 6 δ42 kv1 k1 kv2 k2 , e obtém-se a tese escolhendo C = δ42 > 0.
43
Exemplo 3.100. 1. Como caso particular do corolário 3.99, sejam B uma aplicação
bilinear no Rn (por exemplo, o produto interno usual ou o produto vetorial se n = 3),
I ⊂ R um intervalo e γ, η : I → Rn curvas deriváveis. Denotemos por γ e : I →
n n
R × R a curva dada por t 7→ γ(t), η(t) ; é imediato verificar que γ
e é derivável e
que seu vetor velocidade em t ∈ I é γ 0 (t), η 0 (t) . A curva t ∈ I 7→ B γ(t), η(t) é
a composta B ◦ γ e; portanto, pela regra da cadeia, tal curva é derivável e seu vetor
velocidade é dado por:
d
B γ(t), η(t) = DB γ(t), η(t) · γ 0 (t), η 0 (t) =
dt (26)
3.98
= B γ 0 (t), η(t) + B γ(t), η 0 (t)
44
Exemplo 3.102. Identifiquemos o espaço vetorial real das matrizes quadradas de ordem n
com entradas reais, M (n × n, R), com o espaço vetorial real Rn × n fatores
. . . ×Rn , através do
isomorfismo linear A ∈ M (n × n, R) 7→ (A1 , . . . , An ), onde, para 1 6 i 6 n, Ai denota
a i-ésima coluna da matriz A. Por meio desta identificação, a função determinante
M (n × n, R) → R corresponde a uma aplicação det : Rn × n fatores
. . . ×Rn → R que, por
propriedades elementares dos determinantes, é k-linear alternada.
Proposição 3.103 (Continuidade de Aplicações k-lineares). Sejam k ∈ N, V1 , . . . , Vk e
W espaços vetoriais de dimensão finita e f : V1 × · · · × Vk → W k-linear. Então f é
contı́nua. Além disso, tomando-se normas k·ki em Vi , 1 6 i 6 k, e |||·||| em W, existe,
C > 0 tal que, ∀v1 ∈ V1 , . . . , ∀vk ∈ Vk , |||f (v1 , . . . , vk )||| 6 Ckv1 k1 · · · kvk kk .
Demonstração. É análoga à demonstração da proposição 3.97 e deixada como exercı́cio.
Proposição 3.104 (Derivabilidade de Aplicações k-lineares). Sejam k ∈ N, V1 , . . . , Vk
e W espaços vetoriais de dimensão finita e f : V1 × · · · × Vk → W k-linear. Então f
éPderivável e, ∀(x1 , . . . , xk ), (h1 , . . . , hk ) ∈ V1 × · · · × Vk , Df (x1 , . . . , xk ) · (h1 , . . . , hk ) =
k
i=1 f (v1 , . . . , vi−1 , hi , vi+1 , . . . , vk ).
45
Proposição 3.107. Sejam V e W espaços vetoriais reais. A aplicação L V, L(V, W) →
.
L2 (V, W) dada por f 7→ f , onde (∀v, w ∈ V)f (v, w) = f (v) · w, é um isomorfismo linear.
Demonstração. Afirmo que a aplicação em questão é linear e injetiva. Com efeito, a
linearidade é clara e, se f = 0, então (∀v, w ∈ V)f (v) · w = 0, donde (∀v ∈ V)f (v) = 0,
logo f = 0. Como dim L V, L(V, W) = dim L2 (V, W), segue-se que f 7→ f também é
sobre, logo é um isomorfismo linear, como afirmado.
Definição 3.108 (Derivada de 2a. Ordem). Sejam X ⊂ Rn aberto, f : X → Rm derivável
e x0 ∈ X. Se f for derivável até 2a. ordem emx0 , a aplicação bilinear em L2 (Rn , Rm )
que corresponde a D(Df )(x0 ) ∈ L Rn , L(Rn , Rm ) pelo isomorfismo linear da proposição
3.107 chama-se derivada segunda de f em x0 e será denotada por D2 f (x0 ). Portanto, se
f for derivável até 2a. ordem, fica bem definida uma aplicação D2 f : X → L2 (Rn , Rm ),
chamada aplicação derivada segunda de f ou, simplesmente, derivada segunda de f .
Em particular, se na definição acima m = 1, a derivada segunda de f em x0 é um
elemento de L2 (Rn , R), i.e. uma forma bilinear em Rn .
Definição 3.109 (Matriz Hessiana). Sejam X ⊂ Rn aberto, f : X → R derivável e
x0 ∈ X. Denotemos por E = (e1 , . . . , en ) a base canônica de Rn . Se f for derivável
até 2a. ordem em x0 , a matriz da forma bilinear D2 f (x0 ) ∈ L2 (Rn , R) em relação a E
chama-se matriz hessiana de f em x0 , e denota-se por Hf (x0 ). Ou seja:
Observação 3.111. Note que, com a notação da definição acima, D2i,j f (x0 ) é um vetor
de Rm . Se f1 , . . . , fm forem as componentes de f , segue-se da observação 3.58 que
2 2 2
Di,j f (x0 ) = Di,j f1 (x0 ), . . . , Di,j fm (x0 ) .
Proposição 3.112. Sejam X ⊂ Rn aberto, f : X → Rm derivável, x0 ∈ X e E =
(e1 , . . . , en ) a base canônica de Rn . Suponha que f seja derivável até 2a. ordem em x0 .
Então, para 1 6 i, j 6 n, tem-se D2 f (x0 ) · (ei , ej ) = D2i,j f (x0 ).
46
Demonstração. Seja δ : L(Rn , Rm ) × Rn → Rm o funcional aplicação (vide exemplo 3.96).
Seja δ(Df, ej ) : X → Rn a aplicação dada por x 7→ δ(Df (x), ej ) = Df (x) · ej = Dj f (x),
i.e. δ(Df, ej ) = Dj f . Então, pela regra de Leibnitz 3.99 (substituindo-se, no enunciado
do corolário em questão, f por Df e g pela função constante e igual a ej ), a aplicação
δ(Df, ej ) é derivável em x0 e D[δ(Df, ej )](x0 )·ei = δ Df (x0 )·ei , ej . Portanto, D2i,j f (x0 ) =
Di (Dj f )(x0 ) = Di [δ(Df, ej )](x0 ) = D[δ(Df, ej )](x0 ) · ei = δ Df (x0 ) · ei , ej = [Df (x0 ) · ei ] ·
ej = D2 f (x0 ) · (ei , ej ).
Verifiquemos, a seguir, que a derivada segunda de uma aplicação derivável até segunda
ordem num ponto de seu domı́nio é simétrica. Isto decorre do seguinte teorema:
Di f (x0 + ctei + tej ) − Di f (x0 ) = D(Di f )(x0 ) · (ctei + tej ) + R1 (ctei + tej ) =
(29)
= D2i,i f (x0 )ct + D2j,i f (x0 )t + R1 (ctei + tej )
R1 (h)
onde R1 : {h ∈ Rn | x0 + h ∈ X} → R é tal que lim = 0. Analogamente:
h→O khk
Portanto, segue-se de (29) e (30) que θ(t) = [D2j,i f (x0 )t + R1 (ctei + tej ) − R1 (ctei )]t,
donde:
θ(t) R1 (ctei + tej ) − R1 (ctei )
D2j,i f (x0 ) = 2 − . (31)
t t
Como t ∈ (0, δ) foi tomado de forma arbitrária, a última igualdade deve valer para todo
t neste intervalo. Note que c depende de t; porém, como c ∈ (0, 1), c = c(t) é uma função
47
limitada, donde lim c(t)t = 0, logo lim (ctei + tej ) = O e lim (ctei ) = O. Além disso, para
t→0 t→0 t→0
todo t ∈ (0, δ), tem-se:
R1 (ctei + tej ) R1 (ctei + tej ) kctei + tej k R1 (ctei + tej )
= = (cei + ej ) (32)
t kctei + tej k t kctei + tej k
R1 (ctei +tej )
e, como t ∈ (0, δ) 7→ c(t)ei + ej é limitada e lim kcte i +tej k
= 0, segue-se de (32) que
t→0
R1 (ctei +tej ) R1 (ctei )
lim t
= 0. Analogamente, lim t
= 0; então, de (31) se conclui que:
t→0 t→0
θ(t)
D2j,i f (x0 ) = lim 2 . (33)
t→0 t
.
De forma análoga, tomando-se η(x) = f (x0 + tei + xej ) − f (x0 + xej ) no lugar de ζ(x),
conclui-se que D2i,j f (x0 ) = lim θ(t) 2 2
2 , donde Di,j f (x0 ) = Dj,i f (x0 ), como afirmado.
t→0 t
Corolário 3.115. Sejam X ⊂ Rn aberto, f : X → Rm derivável e x0 ∈ X. Se f for
derivável até 2a. ordem em x0 , então D2 f (x0 ) é uma aplicação bilinear simétrica. Em
particular, se m = 1, a matriz hessiana de f é simétrica.
Demonstração. É uma consequência imediata da observação 3.111, da proposição 3.112 e
do teorema 3.114.
3.5.4. Derivadas de Ordem Superior
Sejam X ⊂ Rn aberto e f : X → Rm derivável até 2a. ordem. Está bem defi-
nida, portanto, a aplicação derivada segunda de f , D2 f : X → L2 (Rn , Rm ). Novamente,
dado x0 ∈ X, faz sentido indagar se esta aplicação é derivável em x0 ; em caso afirma-
tivo, diz-se que f é derivável até 3a. ordem em x0 . Existe um isomorfismo canônico
L Rn , L2 (Rn , Rm ) ∼
= L3 (Rn , Rm ), que generaliza 3.107 e cuja demonstração é deixada
como exercı́cio (é análoga à demonstração da proposição 3.107):
Proposição 3.116. Sejam V e W espaços vetoriais reais, k ∈ N . A aplicação L V, Lk (V, W) →
.
Lk+1 (V, W) dada por f 7→ f , onde (∀v1 , . . . , vk+1 ∈ V)f (v1 , . . . , vk+1 ) = f (v)·(v2 , . . . , vk+1 ),
é um isomorfismo linear.
Se f : X ⊂ Rn → Rm for derivável até 3a. ordem em x0 ∈ X, a aplicação que cor-
responde a D(D2 f )(x0 ) ∈ L Rn , L2 (Rn , Rm ) é denotada por D3 f (x0 ) e chama-se derivada
terceira de f em x0 .
A esta altura deve ser claro como definir, dado k ∈ N, função derivável até ordem k e
derivada de ordem k. Faremos a seguinte definição indutiva:
Definição 3.117 (Derivada de Fréchet de Ordem k). Sejam X ⊂ Rn aberto, x0 ∈ X,
f : X → Rn e k ∈ N. Definiremos indutivamente o que significa ser f derivável até ordem
k em x0 e a derivada de ordem k de f em x0 por:
1. Para k = 1, vide definições 3.50 e 3.54.
48
2. Suponha definidas, para k = p ∈ N, as noções de derivabilidade até ordem p em
x0 e derivada de ordem p em x0 e que a derivada de ordem p de uma função
X ⊂ Rn → Rm em x0 ∈ X seja um elemento de Lp (Rn , Rm ), i.e. uma aplicação
p-linear. Suponha que f seja derivável até ordem p em X; portanto, fica bem defi-
nida a aplicação derivada de ordem p de f , Dp f : X → Lp (Rn , Rm ). Diz-se que f é
derivável até ordem p+1 em x0 se a aplicação Dp f for derivável em x0 . Em caso afir-
mativo, a aplicação (p+1)-linear que corresponde a D(Dp f )(x0 ) ∈ L Rn , Lp (Rn , Rm )
pelo isomorfismo da proposição 3.116 é denotada por D(p+1) f (x0 ) e chama-se deri-
vada de ordem (p + 1) de f em x0 .
As seguintes proposições, cujas demonstrações são deixadas como exercı́cios, são ge-
neralizações das proposições correspondentes da seção anterior:
49
3.5.5. Funções de Classe Ck
A noção de função de classe Ck é uma generalização direta de 3.61:
50
3.5.6. Fórmulas de Taylor
Nesta seção, generalizaremos, para funções de várias variáveis reais a valores reais, as
fórmulas de Taylor para funções R → R demonstradas na seção 2.
Notação. Usaremos, nesta seção e nas seguintes, as seguintes notações:
1. Para uma função f , D0 f (i.e. a “derivada de ordem 0 de f ”) denota a própria
função f .
2. Dados h ∈ Rn e k ∈ N, denotaremos por hk a k-upla em que todos os temos são
.
iguais a h, i.e. hk = (h, . . . , h) ∈ Rn × k fatores
. . . ×Rn .
portanto Dp f (x0 )·hp é uma soma de monômios de grau p (conforme definimos no exemplo
3.26), i.e. Dp f (x0 ) · hp é um polinômio homogêneo de grau p nas variáveis h1 , . . . , hn .
Os seguintes teoremas são generalizações, respectivamente, dos teoremas 2.6, 2.9 e 2.10.
Teorema 3.128 (Fórmula de Taylor de Ordem k, com Resto de Lagrange). Sejam k ∈ N,
X ⊂ Rn aberto e f : X → R de classe Ck . Dado h ∈ Rn , suponha que o segmento
.
[x0 , x0 + h] = {x ∈ Rn | x = x0 + th, 0 6 t 6 1} esteja contido em X, e que f seja
.
derivável até ordem k + 1 nos pontos de (x0 , x0 + h) = {x ∈ Rn | x = x0 + th, 0 < t < 1}.
Então existe c ∈ (0, 1) tal que:
1
f (x0 + h) − Pk (h) = Dk+1 f (x0 + ch) · hk+1 (35)
(k + 1)!
onde Pk é dado por (34).
Demonstração. Seja γ : [0, 1] → Rn dada por t 7→ x0 + th. Então a imagem de γ coincide
com [x0 , x0 + h] e, aplicando-se a regra da cadeia convenientemente, conclui-se que: (1)
f ◦ γ : [0, 1] → R é de classe Ck , (2) (f ◦ γ)(k) : [0, 1] → R é derivável em (0, 1) e (3) para
1 6 j 6 k + 1, (f ◦ γ)(j) (t) = Dj f (x0 + th) · hj para todo t ∈ [0, 1] se j 6 k e t ∈ (0, 1) se
j = k + 1. Assim, do teorema 2.6 aplicado a f ◦ γ segue-se que existe c ∈ (0, 1) tal que
(j) (k+1) (c)
f ◦ γ(1) − f ◦ γ(0) = kj=0 (f ◦γ)j! (0) + (f ◦γ)
P
(k+1)!
. Em vista de (3), a última igualdade é
equivalente a (35).
51
Teorema 3.129 (Fórmula de Taylor de Ordem k, com Resto Infinitesimal). Sejam k ∈ N,
.
X ⊂ Rn aberto, f : X → R derivável até ordem k em x0 ∈ X, X
e= {h ∈ Rn | x0 +h ∈ X}
.
e → R dada por rk (h) = f (x0 + h) − Pk (h), onde Pk é dado por (34). Então
e rk : X
rk (h)
lim khkk = 0.
h→O
regra da cadeia, para todo h ∈ Rn tem-se (denotando por (e1 , . . . , en ) a base canônica do
Rn ):
j
3.104
X (36)
= f (h, q−[Link]
. . , h, ei , h, j−[Link]
. . , h) =
q=1
onde, na última igualdade, foi usada a simetria de Dj f (x0 ), que decorre do teorema de
Schwartz 3.121. Por outro lado, dados 1 6 i1 , . . . , ij−1 6 n, tem-se Dj f (x0 )·(ei , ei1 , . . . , eij ) =
∗
Dji,i1 ,...,ij−1 f (x0 ) = Dji1 ,...,ij−1 ,i f (x0 ) = Dj−1
i1 ,...,ij−1 (Di f )(x0 ) = D
j−1
(Di f )(x0 ) · (ei1 , . . . , eij ),
onde, em ∗, aplicou-se o teorema de Schwartz uma vez mais. Assim, conclui-se que as
transformações (j − 1)-lineares Dj f (x0 ) · (ei , ·) e Dj−1 (Di f )(x0 ) coincidem; portanto, de
(36), segue-se Di P (h) = jD(j−1) (Di f )(x0 ) · h(j−1) .
Demonstração do Teorema. Será feita por indução sobre k.
(ii) Dado q ∈ N, q > 1, suponha que a tese seja verdadeira para k 6 q. Seja
f : X → R derivável até ordem q + 1 em x0 ∈ X. Para todo i ∈ {1, . . . , n}, pelo
lema 3.130 tem-se:
q+1
X j (j−1)
Di Pq+1 (h) = D (Di f )(x0 ) · hj−1 =
j=1
j!
q
(37)
X 1 j
= D (Di f )(x0 ) · hj ,
j=0
j!
52
i.e. Di Pq+1 coincide com o polinômio de Taylor de ordem q de Di f em x0 . Como
(∀h ∈ X)D
e i rq+1 (h) = Di f (x0 + h) − Di Pq+1 (h), pela hipótese de indução conclui-se
que:
Di rq+1 (h)
lim = 0. (38)
h→O khkq
Seja B ⊂ X e uma bola aberta centrada no zero; dado h = (h1 , . . . , hn ) ∈ B \
{O}, pelo Teorema do Valor Médio (i.e. pelo teorema 3.128 com k = 0) e por ser
rPq+1 (O) = 0, podemos tomar τ (h) ∈ (0, 1) tal que rq+1 (h) = Drq+1 τ (h)h · h =
n
i=1 Di rq+1 τ (h)h hi , donde:
n
rq+1 (h) X Di rq+1 τ (h)h hi
q+1
= q
τ (h)q (39)
khk i=1
kτ (h)hk khk
Como τ : B \ {O} → R assim definida é limitada, segue-se de 3.16 que lim τ (h)h =
h→O
Di rq+1 τ (h)h
O. Assim, de 3.27 e de (38), conclui-se que lim kτ (h)hkq
= 0. Tendo em conta
h→O
hi
que, para 1 6 i 6 n, | khk τ (h)q | 6 1, de (39) e por uma nova aplicação de 3.16
rq+1 (h)
conclui-se que lim q+1 = 0.
h→O khk
Teorema 3.131 (Fórmula de Taylor de Ordem k, com Resto Integral). Sejam k ∈ N,
X ⊂ Rn aberto e f : X → R de classe Ck+1 . Dado h ∈ Rn , suponha que o segmento
[x0 , x0 + h] = {x ∈ Rn | x = x0 + th, 0 6 t 6 1} esteja contido em X. Então:
Z 1
(1 − t)k k+1
f (x0 + h) − Pk (h) = D f (x0 + th) · hk+1 dt
0 k!
onde Pk é dado por (34).
Demonstração. Como na demonstração do teorema 3.128, tome γ : [0, 1] → Rn dada por
t 7→ x0 + th e aplique a f ◦ γ a fórmula de Taylor com resto integral para funções R → R
— teorema 2.10.
3.6. Máximos e Mı́nimos de Funções Reais de Várias Variáveis
Definição 3.132 (Máximos e Mı́nimos). Sejam X ⊂ Rn , x0 ∈ X e f : X → R. Diz-se
que:
1. x0 é ponto de máximo de f se (∀x ∈ X)f (x) 6 f (x0 );
53
4. x0 é ponto de mı́nimo local de f se for ponto de mı́nimo da restrição de f a alguma
vizinhança de x0 .
O seguinte teorema fornece uma condição necessária para que um ponto interior do
domı́nio de uma função seja um ponto de máximo ou de mı́nimo local da mesma; trata-se
de uma generalização do “teorema de Fermat”, estudado no Cálculo I.
54
semi-definida negativa ou positiva; e que uma forma é definida se for definida negativa
ou positiva. Diz-se que uma forma Q(x) = B(x, x) é indefinida se existirem x1 , x2 ∈ Rn
tais que Q(x1 ) < 0 e Q(x2 ) > 0.
5. D2 f (x0 ) for indefinida, então x0 não é ponto de máximo nem de mı́nimo local.
1 h h r2 (h)
f (x0 + h) − f (x0 ) = khk2 D2 f (x0 ) · , + (40)
2 khk khk khk2
Suponha que D2 f (x0 ) seja definida positiva, e sejam Q a forma quadrática associada
a 12 D2 f (x0 ), i.e. (∀v ∈ Rn )Q(v) = 12 D2 f (x0 ) · (v, v) e S1 ⊂ Rn a esfera de raio unitário
centrada no zero, i.e. S1 = {x ∈ Rn | kxk = 1}. Como S1 é compacto (i.e. fechado e
limitado) e Q é contı́nua, segue-se do teorema de Weierstrass 3.85 que existe x1 ∈ S1 tal
.
que (∀x ∈ S1 )Q(x) > Q(x1 ). E, pelo fato de ser Q definida positiva, m = Q(x1 ) > 0,
donde (∀x ∈ S1 )Q(x) > m > 0. Por outro lado, como lim rkhk 2 (h)
2 = 0, existe δ > 0 tal que
h→O
BO (δ) ⊂ X e e, se h ∈ BO (δ) \ {O}, tem-se kr2 (h)k < m 6 12 D2 f (x0 ) · ( khk
h h
, khk ). Portanto,
khk2
o segundo membro de (40) é estritamente positivo para todo h ∈ BO (δ) \ {O}, i.e. x0 é
um ponto de mı́nimo da restrição de f à bola aberta de centro em x0 e raio δ, logo um
ponto de mı́nimo local de f .
Analogamente se prova que x0 é um ponto de máximo local de f se D2 f (x0 ) for definida
negativa.
Para verificar (1), suponha que x0 seja um ponto de mı́nimo local de f e que D2 f (x0 )
não seja semi-definida positiva. Então existe v ∈ Rn \{O} tal que D2 f (x0 )·v 2 < 0. Assim,
.
definindo-se γ : {t ∈ R | x0 +tv ∈ X} → R por γ(t) = f (x0 +tv), segue-se que γ é derivável
até segunda ordem no zero, γ(0) = x0 , γ 0 (0) = Df (x0 ) · v = 0 e γ 00 (0) = D2 f (x0 ) · v 2 < 0;
portanto, segue-se da fórmula de Taylor de ordem 2 com resto infinitesimal para funções
de uma variável real 2.9, usando-se um argumento análogo ao dos parágrafos anteriores,
que 0 é ponto de máximo local de γ, donde x0 é ponto de máximo local da restrição de
55
f à imagem de γ, o que contradiz o fato de ser x0 ponto de mı́nimo local de f . Logo,
D2 f (x0 ) deve ser semi-definida positiva.
Analogamente se verifica (3), i.e. se x0 for ponto de máximo local de f , então D2 f (x0 )
é semi-definida negativa.
Finalmente, se D2 f (x0 ) for indefinida, então D2 f (x0 ) não é semi-definida positiva nem
semi-definida negativa, donde, por (1) e (3), x0 não é ponto de mı́nimo local nem de
máximo local de f , o que prova (5).
Observação 3.137. Seja B ∈ Ls2 (Rn , R) uma forma bilinear simétrica. Então, considerando-
se em Rn o produto interno canônico h·, ·i, existe um único operador linear simétrico
B ] ∈ L(Rn , Rn ) tal que (∀x, y ∈ Rn )B(x, y) = hB ] ·x, yi. Como o operador B ] é simétrico,
existe uma base ortonormal E que o diagonaliza; escrevendo-se B em termos de coorde-
nadas na base E, é imediato verificar que:
1. B é semi-definida positiva (resp., definida positiva) se, e somente se, todos os auto-
valores de B ] forem positivos (resp., estritamente positivos);
2. B é semi-definida negativa (resp., definida negativa) se, e somente se, todos os
auto-valores de B ] forem negativos (resp., estritamente negativos);
3. B é indefinida se, e somente se, B] tiver auto-valores estritamente positivos e es-
tritamente negativos.
Finalmente, apresentaremos uma condição suficiente para que um ponto do domı́nio
de uma função derivável até segunda ordem seja um ponto de máximo ou de mı́nimo
global.
Definição 3.138. Um conjunto X ⊂ Rn diz-se convexo se todo segmento cujas extremi-
dades pertençam a X estiver contido em X.
Teorema 3.139. Sejam X ⊂ Rn aberto convexo e f : X → R derivável até segunda
ordem. Se x0 for ponto crı́tico de f e se:
1. D2 f for semi-definida positiva em todos os pontos de X, então x0 é ponto de mı́nimo
global de f ;
2. D2 f for semi-definida negativa em todos os pontos de X, então x0 é ponto de máximo
global de f .
Demonstração. Para todo x ∈ X, pela fórmula de Taylor com resto de Lagrange 3.128,
existe c = c(x) em (x0 , x) = {(1 − t)x0 + tx | t ∈ (0, 1)} ⊂ Rn tal que:
1 2
f (x) − f (x0 ) = D f (c) · (x − x0 )2 (41)
2
Assim, se D2 f for semi-definida positiva em todos os pontos de X, segue-se de (41) que
(∀x ∈ X)f (x) − f (x0 ) > 0, portanto x0 é ponto de mı́nimo (global) de f . Analogamente,
se D2 f for semi-definida negativa em todos os pontos de X, segue-se de (41) que (∀x ∈
X)f (x) − f (x0 ) 6 0, portanto x0 é ponto de máximo (global) de f .
56
3.6.1. Máximos e Mı́nimos Condicionados
Apresentaremos, a seguir, condições necessárias para que uma função f : X ⊂ Rn → R,
X ⊂ Rn aberto, tenha em x0 ∈ X um ponto de máximo ou de mı́nimo local sob as
restrições gi = 0, dadas gi : X → R para 1 6 i 6 k.
3.6.2. Exemplos
Exemplo 3.142 (Método dos Mı́nimos Quadrados). Sejam Pi = (xi , yi ) ∈ R2 , 1 6 i 6 n,
com xi 6= xj se i 6= j. Estes pontos representam os resultados de algum experimento,
e gostarı́amos de encontrar uma função linear afim f : R → R, f (x) = ax + b para
a, b ∈ R a serem determinados, tal que o gráfico de f contenha Pi para 1 6 i 6 n.
Em geral, não existe uma tal função, pois o sistema linear nas variáveis a e b dado por
axi + b = yi , 1 6 i 6 n, é sobredeterminado. No entanto, podemos encontrar uma solução
aproximada deste sistema, que minimize a soma dos quadrados dos erros E : R2 → R,
. Pn
E(a, b) = i=1 [yi − (axi + b)]2 . Com efeito, tem-se:
57
(ii) E : R2 → R é polinomial (conforme definido no exemplo 3.26), portanto de classe
C∞ . As derivadas primeira e segunda de E são dadas, para todo (a, b), (h1 , k1 ),
(h2 , k2 ) ∈ R2 , por:
DE(a, b) · (h1 , k1 ) = h−(h1 x + k1 1), y − (ax + b1)i + hy − (ax + b1), −(h1 x + k1 1)i =
= −2hy − (ax + b1), (h1 x + k1 1)i =
= −2hy − (ax + b1), xih1 − 2hy − (ax + b1), 1ik1 =
= −2h hy − (ax + b1), xi, hy − (ax + b1), 1i , (h1 , k1 )i
(43)
(iii) Seja:
. hx, xi hx, 1i
A= (45)
hx, 1i h1, 1i
Esta matriz coincide com a matriz do operador auto-adjunto de L(R2 , R2 ) associado
a D2 E(a, b) na base canônica de R2 . Tem-se: (1) det A = hx, xih1, 1i − hx, 1i2 > 0
por Cauchy-Schwartz, e deve valer a desigualdade estrita por que x e 1 são linear-
mente independentes (se fossem l.d., todas as coordenadas de x deveriam ser iguais,
o que contradiz xi 6= xj se i 6= j); (2) tr A = hx, xi + h1, 1i > 0. Assim, os
auto-valores de A são estritamente positivos, i.e. (∀(a, b) ∈ R2 )D2 f (a, b) é definida
positiva.
(iv) De (43), tem-se DE(a, b) = 0 se, e somente se, hy − (ax + b1), xi = 0 e hy − (ax +
b1), 1i = 0, i.e. se, e somente se:
hx, xi hx, 1i a hx, yi
= (46)
hx, 1i h1, 1i b hy, 1i
E, como vimos em (iii), a matriz A dada por (45) é inversı́vel, logo o sistema linear
dado por (46) admite uma única solução, i.e.:
a −1 hx, yi
=A
b hy, 1i
que, por (iii) e pelo teorema 3.139, é o único ponto de mı́nimo global de E.
Exemplo 3.143 (Formas Quadráticas). Sejam B ∈ Ls2 (Rn , R) uma forma bilinear simétrica
e Q : Rn → R a forma quadrática associada a B, i.e. (∀x ∈ Rn )Q(x) = B(x, x). Seja
g : Rn → R dada por x 7→ hx, xi − 1, onde h·, ·i é o produto interno canônico, de modo
que g é de classe C1 , (∀x ∈ Rn )∇g(x) = 2x (vide exemplo 3.55) e a superfı́cie de nı́vel
58
zero de g coincide com a esfera S1 de raio unitário centrada em O ∈ Rn . Como O 6∈ S1 ,
segue-se que ∇g não se anula em S1 = SO (g). Além disso, como S1 é compacto e Q é
contı́nua, pelo teorema de Weierstrass existem x0 , x1 ∈ S1 pontos de mı́nimo e de máximo
da restrição de Q a S1 , i.e. tais que (∀x ∈ S1 )Q(x0 ) 6 Q(x) 6 Q(x1 ). Como Q é
derivável, segue-se do teorema 3.140 que existem λ0 , λ1 ∈ R tais que:
∇Q(x0 ) = λ0 ∇g(x0 )
(47)
∇Q(x1 ) = λ1 ∇g(x1 )
Seja B ] ∈ L(Rn , Rn ) o operador linear auto-adjunto associado a B, i.e. tal que (∀x, y ∈
R )B(x, y) = hB ] ·x, yi. Tem-se: (∀x ∈ Rn )Q(x) = B(x, x) = hB ] ·x, xi. Logo, da regra de
n
Leibnitz 3.99 segue-se que (∀x, h ∈ Rn )DQ(x)·h = hB ] ·h, xi+hB ] ·x, hi = h2B ] ·x, hi, onde,
na última igualdade, usamos o fato de ser B ] auto-adjunto. Assim, (∀x ∈ Rn )∇Q(x) =
2B ] · x; portanto, de (47) conclui-se que B ] · x0 = λ0 · x0 e B ] · x1 = λ1 · x1 , i.e. λ0 e λ1 são
auto-valores de B ] . Afirmo que λ0 e λ1 são, respectivamente, o menor e o maior auto-
valor de B ] . Primeiramente, note que Q(x0 ) = hB ] · x0 , x0 i = hλ0 x0 , x0 i = λ0 hx0 , x0 i = λ0
(pois x0 ∈ S1 ) e, analogamente, Q(x1 ) = λ1 ; isto mostra que λ0 e λ1 são, respectivamente,
o valor mı́nimo e o valor máximo de Q em S1 . Além disso, todos os demais auto-valores
de B ] estão na imagem da restrição de Q a S1 (com o que se conclui a demonstração da
afirmação): com efeito, sejam λ ∈ R um auto-valor de B ] e v ∈ Rn \ {O} auto-vetor de
. v
B ] associado a λ, i.e. tal que B ] · v = λv. Então w = kvk ∈ S1 também é auto-vetor
de B ] associado a λ, e Q(w) = hB ] · w, wi = λ, o que mostra que λ está na imagem da
restrição de Q a S1 .
Conclusão: Toda forma quadrática Q em Rn assume máximo e mı́nimo na esfera
unitária centrada no zero de Rn ; os valores máximo e mı́nimo são, respectivamente, o
maior e o menor auto-valor do operador auto-adjunto associado a Q.
Note que, o argumento acima, usando o teorema 3.140, pode ser aplicado para demons-
trar que, para todo operador auto-adjunto T ∈ L(Rn , Rn ), existe uma base ortonormal de
Rn formada por auto-vetores de T . Com efeito, seja Q : Rn → R a forma quadrática asso-
ciada a T , i.e. dada por (∀x ∈ Rn )Q(x) = hT · x, xi. Então, pelo mesmo argumento feito
anteriormente, a restrição de Q à esfera unitária S1 tem um ponto de máximo v1 , que é
.
auto-vetor de T , e λ1 = Q(v1 ) é auto-valor de T associado a v1 . Seja W o complemento
ortogonal em Rn de v1 ; podemos identificar W com Rn−1 . E, como W é invariante por T ,
i.e. T (W) ⊂ W (verifique isto como exercı́cio, caso ainda não o tenha visto no curso de
Álgebra Linear), podemos reaplicar o mesmo argumento para a restrição T |W : W → W e
concluir que a restrição de Q a S1 ∩ W tem um ponto de máximo v2 , que é auto-vetor de
.
T |W , e que λ2 = Q(v2 ) é auto-valor de T |W associado a v2 . Note que {v1 , v2 } é ortonor-
mal. Agora tomamos o complemento ortogonal de v2 em W, e reaplicamos o argumento
novamente. Após reaplicar o argumento um número finito de vezes, obtém-se uma base
ortonormal de Rn formada por auto-vetores de T .
Exemplo 3.144. Sejam X ⊂ Rn aberto, g : X → R de classe C1 e c ∈ R valor regular de
g (vide definição 3.77). Seja x0 ∈ Rn um ponto fora de Sc (g) e f : Rn → R dada por
x 7→ kx − x0 k. Pelo exemplo 3.73, f é derivável em Rn \ {x0 } e (∀x ∈ Rn \ {x0 })∇f (x) =
59
x−x0
kx−x0 k
. Portanto, do teorema 3.140, segue-se que, se x1 ∈ Sc (g) for ponto de máximo
−x0
ou de mı́nimo local da restrição de f a Sc (g), então ∇f (x1 ) = kxx11 −x 0k
é um múltiplo de
∇g(x1 ) e, portanto, normal a Sc (g) em x1 . Em particular, conclui-se que, se x1 ∈ Sc (g)
realizar a distância de Sc (g) a x0 , i.e se kx0 − x1 k = min{kx0 − xk | x ∈ Sc (g)}, então o
segmento que liga x1 a x0 é normal a Sc (g) em x1 .
Sugestões de Leitura:
[1] S. Lang, Undergraduate Analysis, Undergraduate Texts in Mathematics, Springer,
2nd ed., 1997.
[2] E. L. Lima, Espaços Métricos, Projeto Euclides, IMPA, Rio de Janeiro, 10 ed., 2005.
[3] , Análise Real, Coleção Matemática Universitária, IMPA, Rio de Janeiro, 10 ed.,
2008.
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