A Virtude da Humildade Explicada
A Virtude da Humildade Explicada
Sobre a Humildade
A Humildade é a virtude que dá o sentimento exato da nossa fraqueza, modéstia, respeito, pobreza,
reverência e submissão.
Humildade vem do Latim "humus" que significa "filhos da terra", ao analisarmos esta frase,
encontramos material suficiente para apreender sobre a humildade:
Filhos da Terra: sentimo-nos oprimidos sabendo que nosso lugar não é aqui, fomos criados a
imagem e semelhança do Criador, descemos por nossa própria culpa, devendo retornar através do
nosso esforço e trabalho, fazendo florescer as virtudes latentes em nossa alma, para que o Espírito
Santo desça sobre ela e assim poder um dia retornar ao Pai.
Se diz que a humildade é uma virtude humilde, quem se vangloria da sua, mostra simplesmente que
lhe falta.
A humildade não é depreciação de si mesmo, não é ignorância com relação ao que somos, mas ao
contrário, se tem conhecimento exato do que não somos. Apresenta-se com humildade, sem que a
vaidade se manifeste.
Podem-se encontrar diferentes graus de humildade, como também falsas humildades, pode-se ser
humildade em breves momentos, ante algo que nos parece grandioso.
São falsas humildades: aqueles que se rebaixam ante os outros querendo parecer humildes, porém
estão cheios de ressentimentos, inveja ou ambição.
Outra falsa humildade é não reconhecer ou não acreditar em seu real valor e se sentir inferior, pode
até possuir humildade, porém se inferioriza a tal ponto ante seus semelhantes, sentindo grande
sofrimento em seu interior, este ser não respeita a sua dignidade.
Ter humildade não significa ser servil. Ter humildade não é sinal de fraqueza.
Mas, a verdadeira humildade, é aquela que o homem tem consciência e possui uma convicção do
que ele é, da sua capacidade, da sua força ou da sua fraqueza, compreende a sua inferioridade,
reconhece seus limites, mas, não sofre por isso, se esforça e trabalha para ser melhor e procura
constantemente seu aperfeiçoamento físico, moral e espiritual.
Ser humilde é saber ir até o ponto de não interferir nos outros, ser humilde é não se intrometer nem
comentar a vida dos outros.
Esta humildade, esta consciência, este sentimento se adquire lentamente pelo trabalho interior ou
pode ser provocada pelo recolhimento da existência de algo superior em nós mesmos, reconhecer a
Artigo – Sobre a Humildade Sociedade das Ciências Antigas 2
grandeza de Deus, o Ser Supremo, das suas Forças Universais ou das leis que as regem, ante essa
compreensão e reconhecimento interior há humildade, reverência à grandeza do Criador.
A verdadeira humildade sempre está acompanhada de outras virtudes: caridade, misericórdia, amor,
verdade e compaixão. Temos para isto o exemplo de São Francisco de Assis.
Nosso Senhor Jesus Cristo deixou grandes ensinamentos de humildade: ao lavar os pés dos seus
discípulos, assim como nos ensinou o amor ao próximo e a caridade, quando mitigava o sofrimento
dos pobres.
Suas bem-aventuranças são os humildes que alcançam o Reino dos Céus, humildes no coração, nos
sentimentos e na alma.
O homem pode nascer com tendências à virtude da humildade, pode nascer humilde, como também
pode trabalhar para adquiri-la.
A humildade é uma virtude que atua sem ilusão, sendo guiada pela razão. Um bom conhecimento
teórico da humildade favorecem o aprofundamento nesta virtude assim como também o
conhecimento exato de nossas limitações.
A humildade produz no interior do homem alegria, paz e serenidade, todo o ser tem conformidade
do que ele realmente é e se sente satisfeito em sua fraqueza.
A força da virtude está na alma e não precisamos ser santos para ter humildade, afastando o orgulho,
a vaidade, a prepotência e o egoísmo, tal como disse Davi em seus Salmos: "oferecendo o
arrependimento ao Senhor, de nossas faltas, seremos melhores". É neste ser que encontramos
eloqüente expressão de humildade a virtude que o coroou com majestade.
Quando Deus disse a Davi que Ele o tinha escolhido para ser rei, Davi prostrou-se diante de Deus e
exclamou: "Nada fiz de merecedor, todas as minhas realizações foram inteiramente as Tuas ações".
Humilde é aquele que ao carregar a sua cruz não reclama do seu peso nem suplica que a tirem de
cima de si, mas pede forças para poder carregá-la.
Humilde é aquele que tendo carregado a sua cruz nela se deixa pregar sem desesperança.
Humilde é aquele que tendo sido pregado na cruz compreende que quem está crucificado não pode
se mexer. Humilde é aquele que diz: "Não estou aqui para fazer a minha vontade, mas, sim, a de
Deus".
Humilde é aquele que atribui a Deus tudo o que há de bom em si e atribui a si próprio tudo o que
tiver de ruim.
Humilde é aquele que ao prestar o serviço se reconhece como o mais incompetente operário para
realizá-lo, mas assim mesmo tenta dar o máximo de si para que a obra seja boa.
Artigo – Sobre a Humildade Sociedade das Ciências Antigas 3
Humilde é aquele que ao ser insultado baixa os olhos e cala. Humilde é aquele que ao ser enaltecido
diz que não é digno de enaltecimento.
Humilde é aquele que ao ser açoitado pelo infortúnio diz: "Obrigado Senhor, obrigado por esta
oportunidade de evoluir".
Humilde é aquele que reconhece, com toda a humildade, que não pode compreender a natureza de
Deus, mas pode senti-la em todo o seu Amor e sua Luz. Este é o humilde que, finalmente,
conseguiu ser admitido no Primeiro Grau da Humildade.
- Se para se atingir apenas o Primeiro Grau da Humildade passa-se por tantas provações,
bendizendo-as, quer dizer que ainda há mais?
- O Terceiro Grau da Humildade consiste em não ter pressa em progredir e ser promovido ao
Quarto.
- E o Quinto Grau?
- Consiste o Quinto Grau da Humildade em se reconhecer, com toda a sinceridade, que não se está
sendo suficientemente humilde e tentar se aprimorar na humildade. Quando se consegue isso, passa-
se automaticamente ao Sexto Grau.
- O Sexto Grau da Humildade consiste em colocar o interesse do próximo à frente do nosso e dizer:
"Se para ajudar alguém eu tiver que parar de progredir, farei isso; se para ajudar alguém eu tiver que
sofrer infortúnios, farei isso; se para ajudar alguém eu tiver que me mortificar, farei isso".
- O Sétimo Grau da Humildade consiste em se amar todos os seres viventes como a si mesmo,
sejam homens, animais ou plantas, compreendendo que nenhum deles é inferior a si.
- E o Oitavo Grau?
- Consiste o Oitavo Grau em se regozijar plenamente em nada possuir, dando graças a Deus por
isso.
- Este grau harmoniza três triângulos e consiste em se vivenciar e demonstrar grande alegria e
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autêntica exultação na realização dos serviços mais vis, cansativos e repetitivos, realizados sob as
mais duras condições, sob pressões e cobranças, sem qualquer tipo de reconhecimento.
- E o Décimo Grau?
- Consiste este grau em aceitar como naturais o envelhecimento, a degeneração física e a morte,
repetindo sempre: "Obrigado Senhor, obrigado por me ter sido permitido viver até agora".
- O Décimo Primeiro Grau consiste em aceitar as doenças incuráveis, quando elas sobrevêm, e
repetir incessantemente, por mais atroz que seja o sofrimento pelo qual se passe: "Obrigado, Senhor,
muito obrigado por este sofrimento que me faz evoluir".
- Consiste em dizer, de todo o coração: "Senhor, eu nada sou, eu nada sei, sou o último dos vermes,
e nem sequer posso orar pelos meus inimigos, porque não os tenho. Mesmo sendo tão indigno e
insignificante, ofereço este sofrimento pelo qual passo como purgação do carma de meus
semelhantes, para que não tenham eles que passar por coisa igual. Passarei por eles o que eles
teriam de passar e faço isso com grande alegria. Suplico que meus rogos sejam aceitos e bendigo o
Vosso Santo Nome, Senhor, pois sois Justo e Misericordioso e nada acontece sem que Vós o
permitais".
- Que prêmio receberei, ao atingir tão elevado grau? Que título terei e de que poderei ser investido?
- Tua recompensa será o anonimato, teu título será o Mestrado, e teus poderes serão os de ensinar o
que tenhas apreendido, mas somente àqueles que realmente queiram aprender.
- Poderás irradiar a Paz Profunda sobre todos os seres e estarás liberto do medo do desconhecido e
do sofrimento advindo das perdas, pois nada terás para perder. Esta é a satisfação que terás ao
atingir o Décimo - Segundo Grau da Humildade, condição que te qualifica para admissão no
Primeiro Grau do Amor.
Pequeno Tratado das Grandes Virtudes - de André Comte-Sponville. Ed. Martins Fontes.
A humildade
A humildade é uma virtude humilde: ela até duvida que seja uma virtude! Quem se gabasse da sua
mostraria simplesmente que ela lhe falta.
Isso todavia não prova nada: não nos devemos gabar, nem nos orgulhar, de nenhuma virtude, e é
isso que a humildade ensina. Ela torna as virtudes discretas, como que despercebidas de si mesmas,
quase negadas. Inconsciência? É antes uma consciência extrema dos limites de qualquer virtude, e
de si. Essa discrição é o sinal – ele mesmo discreto – de uma lucidez sem falha e de uma exigência
sem fraquezas. A humildade não é a depreciação de si, ou é uma depreciação sem falsa apreciação.
Não é ignorância do que somos, mas, ao contrário, conhecimento, ou reconhecimento, de tudo o que
não somos. É seu limite, pois refere-se a um nada. Mas é nisso, também, que ela é humana: “Tão
sábio quanto quiser, mas enfim é um homem: o que é mais caduco, mais miserável e mais nada?”
Sabedoria de Montaigne: sabedoria da humildade. É absurdo querer superar o homem, o que não
podemos, o que não devemos fazer. A humildade é virtude lúcida, sempre insatisfeita consigo
mesma, mas que o seria ainda mais se não o fosse. É a virtude do homem que sabe não ser Deus.
Assim, é a virtude dos santos, quando os sábios, fora Montaigne, às vezes parecem desprovidos
dela. Pascal não está de todo errado ao criticar a soberba dos filósofos. É que alguns deles levaram a
sério sua divindade, sobre a qual os santos não se iludem. “Divino, eu?” Seria preciso ignorar Deus,
ou ignorar a si mesmo. A humildade recusa pelo menos a segunda dessas duas ignorâncias, e é
nisso, antes de tudo, que ela é uma virtude: está vinculada ao amor à verdade e a ele se submete. Ser
humilde é amar a verdade mais que a si mesmo.
É nisso também que todo pensamento digno desse nome supõe a humildade: o pensamento humilde,
isto é, o pensamento, opõe-se nisso à vaidade, que não pensa mas crê em si. Dirão que essa
humildade não dura muito… Mas o pensamento também não. Daí os orgulhosos sistemas.
A humildade, por sua vez, pensaria antes sem crer em si: ela duvida de tudo, especialmente de si
mesma. Humana, humana demais… Quem sabe se ela não é a máscara de um orgulho muito sutil?
Mas tentemos antes de tudo defini-la.
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“A humildade” escreve Spinoza, “é uma tristeza nascida do fato de o homem considerar sua
impotência ou sua fraqueza.” Essa humildade é menos uma virtude do que um estado: é um afeto,
diz Spinoza, em outras palavras, um estado de alma. Se alguém imagina sua própria impotência, sua
alma “se entristece por isso mesmo”. É a experiência de nós todos, e seria enganoso fazer dela uma
força. Ora, a virtude, para Spinoza, não é outra coisa: virtude é força de alma, e sempre alegre! A
humildade, portanto, não é uma virtude, e o sábio não tem por que se preocupar com ela.
É possível, no entanto, que seja apenas uma questão de palavras. Não apenas porque a humildade,
para Spinoza, sem ser uma virtude, é não obstante “mais útil que prejudicial” (ela pode ajudar quem
a pratica a “viver enfim sob a condução da razão”, e os Profetas tiveram razão de recomendá-la),
mas também, e sobretudo, porque Spinoza tem em vista expressamente um outro afeto, positivo,
que corresponde exatamente a nossa humildade virtuosa: “Se supusermos um homem concebendo
sua impotência porque ele conhece algo mais potente que ele mesmo, e por esse conhecimento
delimita sua potência de agir, estaremos concebendo então apenas que esse homem se conhece
distintamente, isto é, que sua potência de agir é secundada.” Essa humildade é de fato uma virtude,
pois é uma força maior, para a alma, conhecer-se adequadamente (o contrário da humildade é o
orgulho, e todo orgulho é ignorância) ao mesmo tempo em que se conhece outra coisa maior. Sem
tristeza? Por que não, se cessa de amar unicamente a si?
Não estou certo, e, claro, pouco me importa. Que a tristeza é uma força em nós, às vezes, ou que ela
pode mobilizar a força de que dispomos, a experiência ensina, parece-me, o que Spinoza por sinal
reconhece e que importa muito mais do que os sistemas. Há uma coragem do desespero, e também
uma coragem da humildade. De resto, não podemos escolher. Mais vale uma verdadeira tristeza do
que uma falsa alegria.
A humildade, como virtude, é essa tristeza verdadeira de sermos apenas nós. E como poderíamos
ser outra coisa? A misericórdia também vale para nós mesmos, temperando a humildade com um
pouco de doçura. Que é necessário contentar-se consigo, é o que ensina a misericórdia. Mas sentir-
se contente consigo, quem poderia, sem vaidade? Misericórdia e humildade vão de par e se
completam. Aceitar-se – mas não se iludir.
Tudo? Ainda não, porém. Pode até ser que o essencial não tenha sido abordado. O essencial? O
valor da humildade. Virtude, disse eu. Mas de que importância? De que nível? De que dignidade?
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Vê-se o problema: se a humildade é digna de respeito ou de admiração, não é um erro ela ser
humilde? E se ela tiver razão de o ser, como se teria razão de admirá-la? Parece que a humildade é
uma virtude contraditória, que só poderia justificar-se por sua própria ausência, ou só valer à sua
custa.
O fato é que Kant a mantém dentro de limites rigorosíssimos, bem aquém, diga-se de passagem, dos
hábitos cristãos (ou apenas católicos?), e mesmo, parece-me, de certa disposição espiritual de que os
místicos, e não só no Ocidente, atestam a generalidade e – em todo caso para quem leva a sério o
que eles têm a nos dizer – o valor. “Ajoelhar-se ou prosternar-se até o chão, mesmo para tornar
sensível a si a adoração das coisas celestes, é contrário à dignidade humana”, escreve Kant, e isso é
bonito. Mas é verdade? É evidente que ninguém deve ser servil nem bajulador. Mas será necessário
para tanto – e contra as tradições espirituais mais elevadas e mais comprovadas – condenar também,
por exemplo, a mendicidade? São Francisco de Assis ou Buda pecaram contra a humanidade? A
rigor, podemos admitir que é “em todos os casos indigno de um homem humilhar-se e curvar-se
diante de outro”. Mas, além de que humildade não é humilhação e nada tem a ver com ela (a
humilhação só serve para os orgulhosos ou para os perversos), acaso devemos por isso levar
totalmente a sério, tratando-se de nós, essa sublimidade, como diz Kant, de nossa constituição
moral? Não seria, precisamente, carecer de humildade, de lucidez – e de humor? O homem empírico
(homo phaenomenon, animal rationale) não tem importância, explica Kant, mas considerado como
pessoa (homo noumenon), isto é, como sujeito moral, ele possui uma dignidade absoluta: “seu
pequeno valor enquanto homem animal não pode prejudicar sua dignidade como homem razoável”.
Que seja. Mas o que sobra, se os dois são apenas um? São mais humildes os materialistas, que
nunca esquecem o animal neles. Filhos da terra (humus, de que vem humildade) e indignos para
sempre do céu que inventam para si. E mesmo se tratando da “comparação de si com outros
homens?”: é de fato condenável ou baixo inclinar-se diante de Mozart, Cavaillès ou do abbé Pierre?
“Quem se transforma em minhoca não deve queixar-se, depois, de ser pisado”, escreve altivamente
Kant. Mas quem se transforma em estátua – ainda que uma estátua à glória do Homem ou da Lei -,
deverá se queixar se o acharem suspeito de presunção ou frieza? Mais vale o mendigo sublime, que
lava os pés do pecador.
Quanto a Nietzsche, poderíamos segui-lo e retomá-lo interminavelmente: ele tem razão em tudo,
está errado em tudo, e o que diz da humildade não escapa desse turbilhão. Quem pode contestar que
há na humildade, tantas vezes, uma boa parte de niilismo ou de ressentimento? Quantos só se
acusam para melhor acusar o mundo ou a vida – e com isso se desculparem? Quantos só se negam
por incapacidade de afirmar – e fazer! – o que quer que seja? Sim. “Aqueles que imaginamos mais
cheios de desestima por si mesmos e de humildade são geralmente os mais cheios de ambição e de
inveja”, já dizia Spinoza. Mais uma vez sim. No entanto, será o caso de todos? Há uma humildade
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Mas a humildade é só isso? Será isso o essencial? Alguém imagina, com esse gênero de psicologia,
explicar a humildade de um são Francisco de Assis ou de um são João da Cruz? “Os mais generosos
costumam ser os mais humildes”, escreve Descartes, que nada tinha de minhoca. Também não se
poderia ver na humildade apenas o inverso de não sei que ódio a si. Não confundamos humildade e
consciência pesada, humildade e remorso, humildade e vergonha. Trata-se de julgar não o que se
fez, mas o que se é. E somos tão pouco… Haverá mesmo o que julgar? O remorso, a consciência
pesada ou a vergonha supõem que poderíamos ter agido de outro modo, e melhor. A humildade
constataria, antes, que não poderíamos ser melhores. “Você pode fazer melhor”: esta fórmula do
mestre acusa antes de incentivar, e é também o que diz o remorso. A humildade diria antes: “É o
que ele pode.” Humilde demais para se acusar ou se desculpar. Lúcida demais para ter plena raiva
de si. Mais uma vez, humildade e misericórdia andam juntas – e a coragem não precisa de
encorajamentos. O remorso é um erro (porque supõe o livre-arbítrio: os estóicos e Spinoza recusam-
no por isso) antes de ser uma falta. A humildade, um saber antes de ser uma virtude. Triste saber?
Se quisermos. Porém mais útil ao homem do que uma alegre ignorância. Mais vale se depreciar do
que se enganar.
Sem confundir uma com a outra, poderíamos aplicar à humildade, e a fortiriori (pois ela não supõe
a ilusão do livre-arbítrio, nem mesmo o aumento de sofrimento), o que Spinoza diz da vergonha:
“Embora seja triste, na realidade, o homem que tem vergonha do que fez é, no entanto, mais perfeito
do que o impudente que não tem nenhum desejo de viver honestamente.” Mesmo triste, o homem
humilde é, entretanto mais perfeito do que o impudente pretensioso. É o que todos sabem (mais vale
a humildade do homem de bem do que a arrogância satisfeita do canalha), e que faz Nietzsche estar
errado. A humildade é virtude de escravo, diz ele; os amos, “altaneiros e orgulhosos”, nada têm a
ver com ela: toda humildade lhes é desprezível. Admitamos. Mas o desprezo não é mais desprezível
do que a humildade? E a “glorificação de si mesmo”, graças à qual o aristocrata se reconhece, é
compatível com essa lucidez, da qual aliás Nietzsche, e com razão, faz a virtude filosófica por
excelência? “Conheço-me demais para me glorificar do que quer que seja”, objetaria o homem
humilde; “preciso antes de toda a misericórdia de que sou capaz apenas para poder me suportar…”
O que é mais ridículo do que bancar o super-homem? Para que deixar de crer em Deus, se é para se
enganar a este ponto sobre si mesmo? A humildade é o ateísmo na primeira pessoa: o homem
humilde é ateu de si, como o não-crente o é de Deus. Por que pretender quebrar todos os ídolos, se é
para glorificar o último (o eu!), se é para celebrar seu próprio culto? “Humildade igual a verdade”,
dirá Jankélévitch – como isso é mais verdadeiro, e mais humilde, do que a glorificação
nietzscheana! Sinceridade e humildade são irmãs: “A implacável e lúcida sinceridade, a sinceridade
sem ilusões é, para o sincero, uma lição contínua de modéstia; e, vice-versa, a modéstia favorece o
exercício da autoscopia sincera.” É esse também o espírito da psicanálise (“sua majestade, o eu”,
como diz Freud, nela perde seu trono), pelo qual, sobretudo, ela é estimável. Deve-se amar a
verdade, ou amar a si. Todo conhecimento é uma ferida narcísica.
Devemos então nos odiar, como queria Pascal? Claro que não: seria faltar com a caridade, à qual
todos têm direito (inclusive nós mesmos), ou antes, que dá a cada um, para além de todo direito, o
amor que cada um não merece mas que o ilumina, como uma graça injustificável e devida, gratuita e
necessária – o pouco de amor verdadeiro, mesmo nos dizendo respeito (mas então ele não se refere
mais ao ego: ele o atravessa), de que às vezes somos capazes!
Amar ao próximo como a si mesmo, e a si mesmo como a um próximo: “Onde está a humildade”,
dizia santo Agostinho, “está também a caridade.” É que a humildade leva ao amor, como
Artigo – Sobre a Humildade Sociedade das Ciências Antigas 9
Jankélévitch recordou, e todo amor verdadeiro, sem dúvida, a supõe: sem a humildade, o eu ocupa
todo o espaço disponível, e só vê o outro como objeto (de concupiscência, não de amor!) ou como
inimigo. A humildade é esse esforço, pelo qual o eu tenta se libertar das ilusões que tem sobre si
mesmo e – porque essas ilusões o constituem – pelo qual ele se dissolve. Grandeza dos humildes.
Eles vão ao fundo de sua pequenez, de sua miséria, de seu nada: onde não há mais nada, onde não
há mais que tudo. Ei-los sós e nus, como qualquer um: expostos sem máscara ao amor e à luz.
Mas o amor sem ilusões nem concupiscência – a caridade -, será que somos capazes dele?
Não cabe aqui responder a essa questão. Mas, ainda que não sejamos, resta a compaixão, que é sua
face mais humilde e sua aproximação cotidiana.
Em seu capítulo sobre a humildade, Jankélévitch observa com razão que “os gregos quase não
conheceram esta virtude”. Talvez seja por não se terem dado um Deus suficientemente grande para
que a pequenez do homem aparecesse como deveria? Não é certo, entretanto, que eles tenham se
enganado sempre acerca da sua grandeza (Jankélévitch se engana, me parece, como Pascal, sobre o
“orgulho estóico”: também há uma humildade em Epicteto, pela qual o ego sabe não ser Deus, e não
ser nada); mas talvez eles tivessem menos narcisismo a combater, ou menos ilusões a dissipar. O
fato é que esse Deus (o nosso: o dos judeus, dos cristãos e dos muçulmanos), quer se creia nele ou
não, é agora, para todos, por diferença, uma terrível lição de humildade. Os antigos se definiam
como mortais: apenas a morte, pensavam eles, os separava do divino. Não estamos mais nesse ponto
e sabemos agora que mesmo a imortalidade seria incapaz (e por isso, sem dúvida, insuportável) de
fazer de nós outra coisa, infelizmente, que não o que somos… Quem às vezes não aspira a morrer,
para ser libertado de si?
A humildade é nisso, talvez, a mais religiosa das virtudes. Como gostaríamos de nos ajoelhar nas
igrejas! Por que recusá-lo? Estou falando apenas por mim: é que eu precisaria imaginar que um
Deus me criou – e dessa pretensão ao menos estou libertado. Somos tão pouca coisa, tão fracos, tão
miseráveis… A humanidade constitui uma criação tão irrisória: como imaginar que um Deus tenha
querido isso?
Uma das parábolas de Jesus que é bem conhecida é a do Filho Pródigo. Ela é contada em Lucas 15:
11 a 32.
Através desta parábola, Jesus nos mostra que Deus, na sua infinita bondade e misericórdia nos
perdoa e nos aceita de volta quando nós o abandonarmos e depois nos arrependermos.
O final é bem emocionante, o filho, depois de perder tudo o que o pai lhe deu, volta arrependido, e
sabendo que não merecia o perdão de seu pai, lhe pede para ser ao menos um empregado. O
importante para o filho naquele momento era estar novamente perto de seu pai, mesmo que fosse
como um empregado.
Como sabemos, o pai não só o aceita de volta como filho, como dá um banquete me comemoração a
sua volta.
Vamos agora, analisar alguns fatos importantes nesta parábola que contribuiu para o seu final tão
emocionante.
Nos versículos 12 a 13, o filho mais faz com que seu pai lhe dê sua parte da fazenda e vai “viver a
vida”.
Artigo – Sobre a Humildade Sociedade das Ciências Antigas 10
Desperdiçando todo o seu dinheiro dissolutamente. Começa a passar por várias dificuldades em
meio a tudo isso, se lembra da casa de seu pai, e como era bem tratado. Vem então sobre ele o
arrependimento e ele decide voltar e pedir ao pai que o recebe como empregado, pois depois de tudo
o que fez, não se acha digno de ser recebido como filho.
Encontramos nesta parte da história, o grande segredo para o final emocionante que lemos na Bíblia.
Nos versículos 20 e 21 o filho arrependido, se mostra humilde perante o pai e reconhece que não
merece perdão. Mas o pai lhe perdoa e lhe dá um grande banquete e um anel e ele é tratado com
grande honra e alegria por ter retornado.
Mas, como seria o final desta história, se este mesmo filho que perdeu tudo o que tinha, ao
reencontrar seu pai, ao invés de Ter sido humilde tivesse dito a seu pai:
“Bom pai, eu perdi tudo o que o senhor me deu, agora voltei e o senhor vai ter me agüentar e me
sustentar com o que sobrou, porque eu não tenho mais nada e minha última alternativa era voltar pra
casa“.
Como teria sido a reação daquele pai, se ao invés de ver um filho humilde que pedia perdão, tivesse
recebido um filho soberbo que achava que o pai era obrigado a perdoá-lo e aceita-lo de volta? Como
teria sido o final desta história?
Isso nos leva a pensar, como muitas vezes temos nos comportado perante Deus. Nós pecamos e
achamos que Deus é obrigado a nos perdoar, não somos nem um pouco humildes, achamos que se
Deus nos perdoar não está fazendo mais que sua obrigação. Somos orgulhosos e soberbos, achando
que podendo entrar e sair da presença de Deus quando quisermos .
Devemos usar a humildade daquele rapaz como exemplo para as nossas vidas, e se pecarmos
sermos humildes o suficiente para saber que Deus não é obrigado a nos perdoar, Ele o faz por causa
do seu infinito amor e misericórdia. Mas a humildade é essencial para que possamos receber
verdadeiramente o perdão de Deus. A Bíblia nos testifica isto nos seguinte versículo: Tiago 4: 6
“...Deus resiste aos soberbos; dá, porém, graça aos humildes.”
Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis
descanso para as vossas almas.
Portando, o segredo da benção de Deus é a humildade, não adianta chegarmos a Deus, como se Ele
fosse obrigado a nos perdoar ou abençoar. Precisamos aprender a seguir os passos de Jesus e sermos
humildes não somente para com Deus, mas também uns com os outros.
A chave para o aperfeiçoamento do caráter é reconhecer a própria inferioridade existencial. Para ter
certeza, a base de todo o serviço Divino é o reconhecimento do próprio valor intrínseco. Todo judeu
possui uma alma Divina singular, completa, com uma série das mais sublimes e nobres habilidades
de intelecto e emoção, e este fato em si o dota com um potencial e valor inestimáveis. No entanto, a
grandeza acarreta grandes expectativas, e assim a própria conscientização de nosso notável valor
paradoxalmente nos torna dolorosamente conscientes do quanto a traímos.
Artigo – Sobre a Humildade Sociedade das Ciências Antigas 11
De fato, quanto mais a pessoa se sintoniza e avalia a nobreza de sua alma Divina, mais decai sua
autoestima quando avaliada contra o registro de sua fidelidade a ela.
O Rei David resume esta humildade. Quando punido por sua esposa, Michal, por aparentemente
aviltar o ofício de rei dançando publicamente perante a Arca da Aliança, ele declarou: "Eu sou [e
sempre serei] inferior a meus próprios olhos" (Samuel II 6:22).
O constrangimento essencial de alguém perante Deus é que a vasta maioria dos pensamentos e
sensações na vida são carentes da Divina consciência. A fé judaica afirma que "não há espaço sem
Ele" (Tikunei Zohar 57 [91b]), "sendo que "espaço" não significa apenas espaço físico, mas também
espaço psicológico” (Sod Hashem Lireiav, cap. 3).
Todo pensamento e sensação ocupam espaço na consciência da pessoa. Nosso propósito na terra é
preencher tal espaço com a conscientização da onipresença de Deus. Quando deixamos de fazê-lo,
ficamos perante Deus como um recipiente vazio de Divindade, e portanto repleto de vergonha, pois
assim como a natureza abomina um vácuo, a mente não pode permanecer vazia. Se não é
preenchida com pensamentos sagrados, ficará - por omissão - repleta de pensamentos profanos.
Quando a pessoa está consciente da própria inferioridade, não faz mais exigências aos outros, nem
espera receber coisa alguma deles; sabe que não merece "nada". Isso se aplica também ao
relacionamento da pessoa com Deus.
Na mesma medida que alguém cultiva a verdadeira humildade, considerará toda a infinita bondade
que Deus lhe demonstra no decorrer da vida como não sendo merecida (como está declarado em
Tehilim 16"2: "Tu não me deves a bondade que eu recebo").
Esta humildade também foi exemplificada pelo Patriarca Yaacov. Quando ele estava para enfrentar
seu irmão Essav após ter fugido dele por trinta e quatro anos, rezou a Deus pedindo proteção,
dizendo: "Tenho sido humilhado por toda a amorosa bondade e verdade que Tu tens feito para Teu
servo" (Bereshit 32:11).
Ele sentia que, quaisquer que fossem os méritos que poderia ter possuído, já teriam mais que se
exaurido pela bondade infinita que Deus tinha lhe concedido até então.
A Torá declara que esta atitude é um traço dominante do povo judeu: quanto mais bondade recebe,
mais humilde se torna. No comentário de Rashi sobre a Escritura, ele explica: "'Vocês são o mais
inferior de todos os povos' (Devarim 7:7) por vocês [pela sua própria natureza] estão continuamente
se depreciando, como fez Avraham ao dizer: 'Pois eu sou poeira e cinzas' (Bereshit 28:27), e como
disseram Moshê e Aharon: 'O que somos nós?' (Shemot 16:7)."
Em contraste, uma má característica é quando o sucesso engrandece o ego, pois este conceito auto-
exaltador convence a pessoa que todas suas realizações e fortuna devem-se a seus próprios esforços
e méritos (Tanya, Iguêret HaKôdesh, capi. 2).
De modo contrário, quando acontecem coisas más, a pessoa humilde imediatamente assumirá a
responsabilidade, presumindo que Deus a está fazendo sofrer a fim de efetuar a expiação (Tanya,
Iguêret HaTeshuvá, capi, 11).
Lançar todas as exigências da pessoa sobre Deus e o homem, enquanto também aceita a
responsabilidade pelo infortúnio pode poupar a alguém a dor de ser ferido ou ofendido na vida. A
fúria e a depressão resultam da frustração gerada pela crença que realmente se merece algo melhor
Artigo – Sobre a Humildade Sociedade das Ciências Antigas 12
neste mundo, e seu direito presumido de gratificação está sendo infringido. Atitudes corretas, em
contraste, possibilitam que a pessoa seja sincera e continuamente feliz e otimista.
O cultivo da autoestima adequada, equilibrado com a correta humildade sob o ponto de vista da
Torá, é um dos principais desafios que os pais enfrentam ao criar e educar seus filhos. Numa escala
menor (porém não menos importante), amigos, parceiros comerciais e, evidentemente, cônjuges,
podem também minar ou reforçar a autoimagem positiva e adequada, bem como o senso de
humildade da pessoa. Tendo em vista a importância da humildade nos relacionamentos da pessoa,
tanto com o próximo como em relação a Deus, é claramente essencial cultivá-la continuamente.
A respeito do casamento: Quando existe conflito entre marido e mulher, cada qual deveria
considerar-se a causa primária da dificuldade, como foi dito acima. Se isso não basta para resolver o
problema, o próximo pensamento da pessoa deveria ser: "O que me faz pensar que eu, por direito,
mereço ser tratado de modo melhor que esse?" A pessoa deveria se lembrar que tudo que é seu, foi
um presente que nada fez para merecer, concedido por Deus. Isso inclui também o cônjuge e os
filhos, juntamente com suas possessões materiais e espirituais.
O Cristianismo surgiu entre os Apóstolos e primeiros discípulos de Jesus como sendo uma espécie
de seita judaica, pois, naquela época, em sua maioria esmagadora, quase todos os habitantes da
Palestina eram judeus, inclusive o próprio Mestre dos Mestres.
Destarte, foi inevitável a sua judaização, mormente quando ele começou a ser instituído. E é sobre
esse tema que dedicamos estas linhas, embora devamos reconhecer que houve também nele outras
influências religiosas - como as há até hoje -, notadamente as oriundas das Culturas e Filosofias
Grega, Zoroastrista e Maniqueísta.
Dos grandes líderes dos primórdios do Cristianismo, destacam-se Pedro e Paulo. Este, mais afoito,
já que era dotado de uma inteligência de gênio, assimilou mais de pronto e mais a fundo a
Mensagem Evangélica de Jesus, enquanto que aquele, um simples pescador, além de ser muito
humilde - não tanto de recursos materiais, mas, de virtude -, parece ter sido tomado de uma certa
dificuldade para se libertar, totalmente e de imediato, das Leis Mosaicas.
Assim é que, por ser a prática ritualística da Circuncisão uma das características fundamentais do
Judaísmo - e ainda hoje o é - , não deu outra na conversão dos judeus ao ainda mal estruturado e
frágil Cristianismo: uma grande parte dos judeus recém-convertidos a ele, por estar ainda muito
apegada às tradições da Lei Antiga, entendeu e passou a ensinar que quem não era judeu e, portanto,
não circuncidado, deveria submeter-se, primeiro, a esse importante ritual judeu, como sendo uma
espécie de um tirocínio, antes de se converter ao Cristianismo.
Artigo – Sobre a Humildade Sociedade das Ciências Antigas 13
Havia, pois, dois blocos de cristãos: o dos apegados à exigência incondicional da Circuncisão, e o
dos que a consideravam dispensável à conversão ao Cristianismo. E essa polêmica passou a atingir,
principalmente, os gentios (povos pagãos, ou não judeus), que não eram, pois, circuncidados,
tornando-se um problema sério para esses povos abraçarem a Nova Doutrina, já que simpatizavam
com ela, mas não aceitavam a Circuncisão.
E esse problema passou a ser sentido bem de perto por Paulo, o Apóstolo dos Gentios, porquanto
era ele o líder cristão dos pagãos, isto é, daqueles povos de nações distantes da Palestina, o que vale
dizer daqueles povos completamente desligados da influência dos costumes judaicos, entre eles, o
da Circuncisão.
E Paulo não teve dúvidas. Apesar de ter até circuncidado Timóteo – o que fez para não escandalizar
judeus gregos, segundo ele mesmo no-lo afirma -, passou quase a desmoralizar a Circuncisão, a qual
para ele era simplesmente uma mudança exterior, material, enquanto que os cristãos deveriam
primar por uma mudança interior, do Eu Espiritual.
E tanto Paulo criticava a Circuncisão, como criticava os seus adeptos. E, talvez, tenha-lhe faltado
até um pouco de humildade, o que, conforme à nossa menção acima, era uma virtude especial de
Pedro.
E o certo é que São Paulo, de tanto esbravejar, assim, contra a Circuncisão, e de tanto mostrar a sua
inutilidade, ao mesmo tempo em que criticava seus defensores, acabou mostrando-nos que São
Pedro liderava o bloco oposto a ele, ou seja, o dos circuncisos, sendo o pregador do Evangelho para
eles, enquanto que ele, Paulo, o era dos incircuncisos Isso, que estamos afirmando, consta de
Gálatas 2:7. É, pois, o próprio Paulo que nos fala desses dois blocos e dessas duas lideranças,
exercidas na pregação do Evangelho, por ele e por Pedro, aos seus respectivos subordinados, isto é,
os incircuncisos e os circuncisos.
E, quando destacamos a virtude da humildade de Pedro, temos um motivo para isso, pois tudo o que
sabemos sobre essa polêmica envolvendo os cristãos daquele tempo, afeiçoados da Circuncisão e os
que passaram a renegá-la, chegou-nos através da fala paulina encontrada em suas Epístolas e em
Lucas, em Atos, já que o humilde Pedro não nos deixou registrada uma palavra, sequer, a favor da
Circuncisão e dos seus correligionários, ou contra a Incircuncisão e os seus defensores liderados por
Paulo. Mas este, como vimos, não poupou críticas a seus adversários.
Esse assunto sempre causou um certo mal-estar nos teólogos cristãos, que, geralmente, evitam fazer
abordagem dele, pois ele nos mostra a fragilidade dos próprios dois grandes Apóstolos de Jesus, e
que, no entanto, escreveram partes das mais importantes da Bíblia, ou mais precisamente, do Novo
Testamento, fato esse que traz certas dúvidas para o cristão.
O Concílio de Jerusalém, em 49, teve por objetivo principal resolver essa polêmica. E, quando todos
esperavam que Pedro, ao tomar a palavra, fizesse uma veemente condenação do bloco dos
incircuncisos, nem aí a sua humildade deixou de vir novamente à tona, pois não mencionou uma só
palavra sobre esse assunto. E esse seu virtuoso e respeitado silêncio serenou os ânimos.
Daí em diante, é verdade que ainda houve entreveros entre os dois blocos adversários, mas, aos
poucos, prevaleceu o ponto de vista Paulino, graças à humildade de Pedro, sem a qual o
Cristianismo ter-se-ia rachado ao meio, antes mesmo de acabar de ser instituído!
Aí está uma pergunta de difícil resposta, já que a humildade não pode ser aparente nem fingida. Ela
existe ou não existe. É uma virtude para Deus ver, e não para o homem ver. A humildade não é a
negação pura e simples de dons, capacitação e virtudes pessoais. Pelo contrário, é o reconhecimento
de que estes dons, capacitação e virtudes vêm de Deus. Se eles existem em nós, é somente porque
Deus existe antes de tudo e quis nos presentear com eles. É o reconhecimento também de que, junto
com estes dons, todos têm fraquezas, latentes ou não, das quais nunca poderemos nos orgulhar.
Não há como negar: a humildade é uma das virtudes mais raras e difíceis, possível apenas com o
auxílio do próprio Deus e pela zelosa imitação da humildade de Jesus.
c) Humildade não é a mera rejeição de prêmios e coroas, mas a transferência destes para quem de
direito, como acontece com os vinte e quatro anciãos no Apocalipse (Ap 4:9-11). Não é a
inatividade, mas a atividade comandada e alimentada pela sabedoria e pela providência de Deus.
Humildade - e a conseqüente submissão - não deve ser confundida com fraqueza e ausência de
autoestima. Humildade é modéstia; é o reconhecimento (da raiz da palavra hebraica "hoda'a"). É
dizer "muito obrigado" a Deus. É aceitar suas qualidades e forças, reconhecendo que elas não lhe
pertencem; foram concedidas a você por Deus, para um propósito mais elevado que o de apenas
satisfazer suas próprias necessidades. Humildade é modéstia; é reconhecer o quão pequeno você é o
que lhe permite entender quão grande pode se tornar. Isso é o que torna grandiosa a humildade.
Tolerância suga sua energia do reconhecimento da humildade. A resistência humana vai apenas até
seu nível de tolerância. Reconhecer que suas forças vêm de um local mais elevado lhe dá o poder de
tolerar muito além de sua capacidade presumida. Concede a você parte da força de tolerância de
Deus.
Quando você está repleto consigo mesmo e suas necessidades, "Nada mais sou," não há espaço para
mais. Quando você "esvazia" a si mesmo perante algo maior que você, sua capacidade de receber
aumenta além de seus limites prévios. Humildade é a chave para a transcendência; para atingir além
de si mesmo. Apenas a verdadeira humildade lhe dá a força da objetividade total.
Humildade é sensibilidade.
É uma vergonha saudável que vem do reconhecimento de que você pode ser melhor do que é e que
pode esperar mais de si mesmo.
Embora a humildade seja silenciosa, não é um vácuo. É uma expressão dinâmica de vida que
inclui todas as sete qualidades de amor, disciplina, compaixão, tolerância, humildade, vínculo e
soberania. A humildade é ativa, não passiva, não é um estado, mas uma interação mesmo na sua
calma e ausência de ação.
Artigo – Sobre a Humildade Sociedade das Ciências Antigas 15
Humildade saudável não é desmoralizante; traz amor e alegria, não medo. Humildade que carece de
amor precisa ser reexaminada para ter sua autenticidade conferida. Às vezes, humildade pode ser
confundida com baixa auto-estima, o que a faria tornar-se desamor.
Humildade provoca o amor porque dá a você a habilidade de elevar-se acima de si mesmo e amar
outra pessoa. Arrogância à guisa de amor significa amar a si mesmo, ou ainda pior: tornar os outros
uma parte e uma extensão de você mesmo e de seu auto-amor.
Antes de rezar com humildade e reconhecimento de Deus, faça caridade. Isto ampliará suas preces.
Quando minha humildade deve me fazer assumir um comprometimento e quando não deve?
Em nome da humildade, às vezes permaneço silencioso e neutro em face da maldade?
Outro aspecto da guevurá de hod: humildade deve incluir respeito e reverência pela pessoa ou
experiência perante quem você fica humilde.
Concentre-se em sua relutância em comprometer-se numa área qualquer e veja se isso se origina de
um sentimento saudável e humilde.
Minha humildade faz-me ser contido e antissocial ou se expressa em empatia pelos outros?
Minha humildade é equilibrada e bela?
Ou é inconveniente?
Assim como a humildade traz compaixão, a compaixão pode levar a pessoa à humildade. Se você
carece de humildade, tente agir compassivamente, o que poderá ajudar a trazê-lo à humildade.
Tolerância na Humildade.
Humildade e modéstia não deveriam fazer a pessoa sentir-se fraca e insegura. Netzach de Hod
sublinha o fato de que a verdadeira humildade não o transforma num "capacho" para os outros
pisarem; ao contrário, a humildade o torna resistente.
Artigo – Sobre a Humildade Sociedade das Ciências Antigas 16
Demonstre a força de sua humildade iniciando ou participando ativamente numa boa causa.
Humildade na Humildade.
Examine a humildade da humildade. Todos têm humildade e modéstia em seu coração, a questão é a
medida e o modo pelos quais alguém conscientemente o sente.
Aprenda a cultivar sua humildade interagindo com pessoas que sejam mais refinadas que você,
provocando em você a modéstia e a humildade que o motiva a crescer como pessoa. Humildade
também pode ser examinada pela sua autenticidade.
Deveria resultar em forte vínculo e comprometimento. Não há ligação mais forte que aquela vinda
da humildade.
FIM