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Copyright e Acesso ao Conhecimento

A obra é disponibilizada pela equipe Le Livros para uso acadêmico e proíbe qualquer uso comercial. O texto é uma adaptação de uma tradução antiga, mantendo a essência do original, e apresenta um diálogo tenso entre personagens em um bar, refletindo sobre conflitos pessoais e a vida de um xerife. A narrativa explora temas de violência, relações familiares e a busca por paz em um ambiente conturbado.

Enviado por

Brenda Mikaely
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© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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"Quando o mundo estiver unido na busca do


conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder,
então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo
nível."
TOTEM
DAVID MORRELL
Tradução:
Gilberto Galvão
Conversão para e-book
TV CINESOM
EDITORA BEST SELLER
1980
Nota do revisor: Este material foi digitalizado a partir de uma tradução feita há 40
anos, antes do novo acordo ortográfico brasileiro. Foi feita uma adaptação do
texto para os dias atuais, corrigindo a grafia e trocando palavras e frases, já
desusadas, por sinônimos, mas respeitando a obra original do tradutor Gilberto
Galvão.
Rio de Janeiro, setembro de 2022
1
Slaughter entrou no bar tentando dissimular a tensão. Eram dez horas de uma
noite de quinta-feira. O lugar estava quase cheio, a vitrola automática tocava uma
balada country sentimental, e os fregueses se espalhavam às mesas e junto ao
balcão. Todos em silêncio, no entanto. Olharam para ele e, a seguir, para o homem
que estava sentado a um canto, garrafa de uísque na mão, o chapéu de cowboy
empurrado para trás. Na mesa, diante dele, havia um revólver. Slaughter respirou
fundo, atravessou o bar e se apoiou no balcão. Queria se sentir calmo, gostaria de
tomar uma cerveja, mas não valia a pena. Não tanto por estar bebendo em serviço,
mas porque ficaria evidente que estava tentando se acalmar, coisa que as pessoas
não deviam notar. Assim, voltou-se para o barman e pediu:
- Uma Coca.
As palavras soaram alto apesar da vitrola; as pessoas que ainda não estavam
observando se voltaram cheias de expectativa. Olhou para a frente e dissimulou.
Tomou um gole do refrigerante: o barman havia se esquecido de colocar gelo,
pensou. Tanto melhor, o gelo só faria tilintar no copo. Olhou à sua volta e só então
cumprimentou o homem do canto, como se ainda não o tivesse visto.
- Olá, Willie.
- Olá, xerife.
- Se incomoda se eu me sentar com você?
- Não. Contanto que não me dificulte a visão da porta.
- Está bem, se é esse o seu único problema.
Instalou-se à direita de Willie, para poder lhe agarrar o braço caso fosse
necessário. Este, porém, mudou de posição, puxando a arma para junto de si.
Slaughter bebeu mais do refrigerante e estendeu as mãos - apesar de quase
trêmulas - sobre a mesa.
- Está sozinho aqui, Willie?
- Sim, sozinho. - Olhou para a porta. - Aonde vocês pensam que vão?
Pegou o revólver e apontou para dois jovens que estavam caminhando para a
porta. Slaughter não se moveu.
- Temos de trabalhar amanhã cedo.
- Não, vocês ficam. Tomem mais um trago. Eu pago.
- Mas nós não...
- Será que são surdos? - Engatilhou a arma. Os dois se entreolharam e
retornaram ao balcão. - Isso mesmo. Bebam mais. E baixou lentamente o revólver.
Slaughter o fitou. Era um homem relativamente grande. Willie, no entanto, era
muito maior e estava com os olhos vidrados de tanto beber. Não valia a pena
enfrentá-lo. Certamente usaria aquele revólver e, se ele sacasse também o seu,
haveria um tiroteio. Apontou para os dois rapazes.
- Qual é o problema, Willie? Só estão querendo ir dormir.
- Têm muito tempo para dormir. São jovens ainda. Não precisam disso agora.
- Acho que você também está precisando de um sono. Willie o encarou.
- Quer mesmo ficar aqui?
- Só estou tentando conversar.
- E quem disse que eu quero conversar?
Slaughter deu de ombros, tomou outro gole de Coca e esperou um pouco.
- Para que esse revólver, Willie?
- Tenho uma boa razão. Eu estou esperando alguém.
- Alguém que eu conheça? - Willie não respondeu. - Alguém...?
- Sim, você o conhece. Estou esperando meu irmão.
Tomou mais um trago do uísque, estava com os olhos apertados. Slaughter
quase fez um movimento para agarrar o revólver, mas, ao ver a maneira como
Willie, com a garrafa na boca, olhava para ele, preferiu manter as mãos sobre a
mesa.
- Teria sido uma bobagem, Chefe.
- Sim, também achei.
- Não quero matá-lo.
- E eu fico aliviado. Você sabe, essas pessoas aqui...
- Elas vão continuar aqui.
- Se seu irmão vier...
- Ah, ele vem, sim. Sempre vem. Já está atrasado.
- Mas essas pessoas... se houver barulho... você não vai querer ninguém ferido.
- Também não quero que elas avisem meu irmão.
- Não quero falar sobre isso. - Voltou-se para um homem ao lado da vitrola. -
Droga, toque aquela música. Você deixou parar.
O homem colocou uma moeda e apertou depressa o botão. Estava meio
encolhido, com medo. Ouviu-se a mesma música triste.
- Isso aí. Assim é melhor.
Willie sorriu e tomou outro gole do uísque.
- Eu não vou suportar se....
- Você o pegou com a sua mulher?
- Ouvi falar nisso.
- Pode não ser verdade.
- Foi o recepcionista do Highway Motel quem me disse.
- Então é diferente.
- É mesmo, pode crer.
Olhou para o revólver e depois para a porta.
- Willie, você não quer fazer isso. - Willie riu por entre os dentes. - Vamos supor
que você o mate.
- Sim.
- Depois você vai ter de me enfrentar e a muitos outros.
- Não me importa. Depois que o tiver matado, não me importa mais nada.
- Pense nisso. Se você quisesse mesmo matá-lo, estaria esperando noutro lugar.
Só veio aqui para mostrar a todos que é macho. Mas está querendo que alguém
como eu o faça mudar de ideia.
- Sabe, eu devia matá-la também. Ela sempre gostou dele.
- As pessoas não vão pensar menos em você se....
- Slaughter, por que não cala a boca?
Slaughter sentiu arder-lhe o estômago. Willie se afastou da mesa. Recuando um
pouco, Slaughter viu o irmão daquele Orval, parado à porta.
- Fique onde está, seu merda!
Orval não ficou. Deu um passo adiante e as pessoas se espalharam.
- Willie! - Gritou Slaughter.
Orval levantou as mãos e Willie apontou. Slaughter voou da cadeira, agarrou o
revólver e o desviou para o teto.
- Ei, tudo bem, Chefe. Deixe-o atirar em mim - disse Orval.
Os dois homens estavam parados, olhando para ele.
- O quê?
- Você me ouviu, Willie. Eu mereço isso.
- Merece mesmo, tenho certeza.
- Eu a comi, não vou negar isso. Mas a verdade é que ela me comeu primeiro.
Diabos, quase me estuprou, se é que tem nome, o que ela fez comigo.
Slaughter segurou mais forte o revólver de Willie.
- Ela é a minha mulher!
- E há outra coisa que quero lhe dizer. Nesta altura, ela já está tomando um
ônibus para ir embora. Se eu fosse você, agradeceria pela sorte. - Slaughter
conseguiu pegar o revólver. Recuou, esperando que ninguém lhe notasse as mãos
trêmulas. Willie foi até a porta. - Ei, deixe-a ir, pelo amor de Deus. Onde foi que
você andou, rapaz? Procurei-o em toda a parte.
Willie parou e olhou.
- Estava esperando aqui.
- Eu devia ter pensado nisso. Você também sempre está aqui depois das dez.
Willie continuou olhando para o irmão. Subitamente sorriu.
- Seu filho da puta!
- Ei, não me xingue. Vou para casa pegar o meu revólver. Não, pode deixar. Eu
uso o seu. Ei, Chefe, me dê um pouco esse revólver.
- Não vai adiantar, Orval - disse Willie. - Está descarregado.
- Você está brincando?
Riram-se. Slaughter olhou para o revólver, empurrou o cilindro e viu que estava
vazio. Os irmãos continuaram a rir.
- Sim, imaginei que você ia mijar nas calças.
Slaughter estava se sentindo mal demais para ter raiva. Deu mais uma olhada no
revólver e o enfiou no cinturão. Podia levar Willie para a delegacia, por provocar
distúrbio, mas não via muita utilidade nisso. O revólver não tinha balas. Ninguém
saiu ferido e as pessoas estavam começando a achar graça na situação. Iam fazer
piadas sobre aquilo pelo menos durante alguns meses. Deixou por isso mesmo e se
aproximou dos irmãos.
- Willie, eu devia...
- Ei, Chefe, sem ressentimentos.
- Da próxima vez...
Fingiu que estava achando graça. Os dois foram para o balcão e ele se dirigiu à
porta.
- Ei, Slaughter, e o meu revólver?
- Eu acho que você o perdeu, Willie.
- Deixe ele levar. - Disse Orval. - Com uma brincadeira como essa, merece
perder seu revólver.
Slaughter continuou andando. Na porta, viu o dono do bar.
- Foi bom você ter vindo. - Disse este. - Poderia ter sido diferente.
- Tivemos sorte - concordou Slaughter.
Ao passar pela porta, ouviu os irmãos conversando:
- Ela era péssima. Como foi que você aguentou esse tempo todo?
Slaughter fechou a porta e saiu à luz da lua. Aqueles dois irmãos. Já tivera
vários problemas com eles. A maneira como bebiam, as brincadeiras que
gostavam de fazer. Devia ter percebido que não ia acontecer nada. Agora, iam
beber até a hora de fechar e, então, iriam a algum puteiro. Nada mais lhes
importava. A esposa era apenas uma distração. Jogara os irmãos um contra o outro
para ter uma chance de ir embora. Nunca a havia imaginado esperta a ponto de
armar um plano daqueles: Willie jamais a deixaria ir se o homem que ela escolhera
não fosse seu próprio irmão. Slaughter olhou para as mãos que ainda tremiam e
balançou a cabeça. Os dois babacas o haviam embromado direitinho. Devia sentir
vergonha. Caminhou até o jipe, subiu e olhou para a lua que brilhava através do
para-brisa.
Sim, aquela cidadezinha estava cheia de malucos como aqueles. Você e os dois
se merecem, pensou. Diabos, o revólver nem estava carregado. Continuou
tremendo; não conseguia se controlar. Houve um tempo em que você não cairia
numa dessas, pensou, e tateou em busca das chaves do jipe. Sim, mas isso era
noutra cidade.
Enfiou a chave no contato e, com os joelhos ainda fracos, começou a dirigir
devagar rumo aos subúrbios.
Viera de Detroit tinha cinco anos. Nunca revelara o que havia acontecido para
fazê-lo ir embora. Apenas dizia que tinha se cansado de viver naquela cidade;
cansado de ser policial num lugar onde a brutalidade era grande demais. Viera a
Wyoming procurando algo melhor, mais pacífico. Com o dinheiro que tinha
economizado tentou, primeiramente, criar cavalos. Mas não conseguiu ir adiante.
Quando o velho xerife morreu, desistiu dos cavalos e pediu o posto ao Conselho
Municipal. Afinal, era aquele o trabalho para o qual tinha sido treinado, e uma
cidade tão pequena não apresentaria problemas que ele não pudesse resolver. Pelo
menos foi o que achou. Mas sempre que ia apartar uma briga ou ver um automóvel
retorcido num acidente, sempre que entrava num armazém, tarde da noite, cuja
porta dos fundos estava destrancada, sentia aquela tensão sutil no estômago, às
vezes não tão sutil; suas mãos começavam a suar e, com muita frequência, chegava
a suspeitar que tinha voltado a ser policial a fim de se confrontar com o que
acontecera.
Ninguém sabia e ninguém notava. No começo, alguns poucos recearam que, por
estar chegando do Leste, ele fosse duro demais. Recearam que lhes quebrasse as
cabeças como se estivesse em Detroit. Mas os membros do Conselho ligaram para
lá e o que ouviram foi melhor do que o que ele mesmo dizia. Não havia nenhuma
acusação contra ele. Então o aceitaram condicionalmente e, a partir daí, passaram a
gostar dele. A criminalidade havia baixado e a cidade estava mais tranquila do que
nunca. E, mais que isso, ele economizou algum dinheiro para os cofres públicos, e
isso conquistou a todos.
E na verdade ele também gostava da cidade. Claro, de vez em quando, achava
que tinha decaído demais para estar cuidando de casos como o daqueles dois
irmãos, mas no fundo até gostava deles. Eram broncos e imprudentes, mas não
chegavam a ser maus sujeitos. O grosso da população era de índole simples e boa.
Os maiores problemas que tinha ali eram os dele, os que trouxera consigo. E
contava com seu rancho, embora isso fosse mais a maneira como gostava de
chamar seus cinco acres de terra e os dois cavalos. Mas a casa era muito bonita.
Contava com amigos; as pessoas com quem trabalhava. Já havia se casado uma
vez, embora a esposa tivesse pedido divórcio, coisa comum entre policiais que se
dedicavam demais à profissão. Levara consigo as crianças, um menino e uma
menina, e, agora, raramente ele ouvia falar delas, exceto quando insistia para que
viessem visitá-lo. Isso tinha acontecido há um mês e, desde então, estava sozinho.
Mas, fora isso, aquele lugar era muito bom. Embora tivesse medo de morrer, estava
seguro de que não acabaria se esvaindo em sangue num beco escuro.
Estava olhando para as montanhas ao redor do vale. A lua brilhava acima dos
picos cobertos de neve. Depois, concentrou-se na pequena estrada que partia dos
arredores da cidade rumo à rodovia principal, para ver se havia alguém correndo
demais. Foi quando notou, no cruzamento, um objeto jogado no chão. Primeiro
teve a impressão de que se tratava de um saco de tecido grosseiro atirado no
asfalto. Mas, chegando um pouco mais perto, com os faróis acesos, viu a mochila e
o corpo estendido sobre ela.
Parou, com os pneus mastigando o cascalho do acostamento. Deixou o motor
ligado, os faróis acesos e pegou a lanterna para ter uma visão melhor. Olhou
adiante por um momento e sentiu que a confusão do bar havia sido relaxante. Já
ficara nervoso aquela noite e, agora, sentia calma. Desceu do jipe e ouviu o
cricrido dos grilos no mato à beira da estrada. A lua estava a pino. Esfregou os
lábios e olhou uma vez mais para o outro lado antes de caminhar até o corpo.
Era um homem, com o rosto de lado sobre o cascalho. Vinte e cinco ou trinta
anos, roupas de andarilho e botas de lenhador. Os olhos estavam fechados.
Slaughter tomou-lhe o pulso e nada sentiu. Estava mole, sem vida. Aquilo tinha
acontecido recentemente. Não havia sinal de rigidez cadavérica. O que aconteceu
recentemente? Viu o sangue seco no braço, na coxa e imaginou um atropelamento.
Mas, se tivesse acontecido pouco antes, o sangue não teria tido tempo para secar.
Não entendeu.
Vasculhou a mochila, achou uma barraca de náilon, mas não muita comida.
Sacudiu o cantil. Pouca água. Pela barba sem fazer, aquele andarilho devia ter
passado vários dias acampado nas montanhas. Talvez tivesse ido à cidade em busca
de comida e, chegando à estrada já no escuro, podia ter sido atropelado. Quem sabe
estivesse pedindo carona e não tivesse podido se desviar a tempo do carro ou do
caminhão? Pobre-diabo; com o rosto tão plácidamente mergulhado na morte.
Slaughter respirou fundo, olhou mais uma vez para o mato e para a lua. Procuraria
a identidade dele na mochila. Mas, por enquanto, ia voltar ao jipe. Teria de chamar
o pessoal da delegacia e do necrotério.
2
O cego sentiu o perigo, a cadela também.
- O que há?
Ela estava tensa, ao seu lado, encostando o corpo no dele.
- Tem alguém aí?
Ninguém respondeu. Estavam numa travessa a meio quarteirão de casa. Aquele
pedaço da cidade era velho como ele; pelas conversas com os proprietários, sabia
que as casas eram todas bem cuidadas, altas e grandes, com árvores e arbustos.
A cadela começou a rosnar. Havia saído com ela para ficar um pouco mais
cansado. O relógio em braille estava marcando quase meia-noite, hora sempre boa
para ele. Pouco barulho, pouca gente; apenas o silêncio agradável. Muitas vezes
fizera aquele passeio, e nunca se sentira ameaçado. Ouviu um farfalhar nos
arbustos e um carro que passou na esquina.
- Tem alguém aí? - Perguntou novamente.
Sentiu a cadela puxar a coleira, a fim de levá-lo de volta para casa. Continuava
rosnando e ele não podia imaginar o que estava ali. Afinal, a cadela era uma
enorme pastora alemã. Certamente ninguém seria imbecil o suficiente para se
aproximar dele. Por outro lado, estava com roupas velhas, ninguém pensaria que
tivesse dinheiro.
Será que a cadela estava vendo algum animal? Mas que tipo de animal, ali na
cidade, poderia incomodá-la daquela maneira? Fora treinada para não se envolver
em pequenas brincadeiras, para ignorar gatos e mesmo outros cães; aliás, não o
estava puxando para a frente. Estava tentando recuar.
Havia dez anos não a ouvia rosnar assim. Os arbustos estavam se mexendo. Ela
se obstinava em voltar. O cego desistiu e se deixou conduzir; seus passos
ressoavam na calçada. Agora ela estava indo muito mais depressa, era-lhe difícil
acompanhá-la. Tentou não sentir medo, mas não conseguiu, pois, o ruído dos
arbustos aumentava.
Tropeçou na calçada, sentiu o cachorro virar na direção da casa, tocou os
degraus com a bengala e começou a subi-los. Estava correndo; reconheceu a
qualidade do treinamento da cadela: não estava com medo, o único objetivo de sua
vida era lhe dar segurança. Procurou a chave no bolso e entrou.
3
Slaughter parou atrás da ambulância e viu os dois enfermeiros levantarem o
corpo e baixarem as rodas da maca. Levaram-no até a porta dos fundos do hospital.
Antes disso haviam tentado reanimar o coração do morto com estimulantes,
colocaram-lhe uma máscara de oxigênio, mas sem resultados. Quando se
convenceram de que o cara estava morto, ficaram com menos pressa. Agora,
estavam quase se arrastando pelas portas basculantes. Não era por indiferença.
Slaughter já tinha visto aquilo muitas vezes, tanto ali quanto em Detroit. Haviam
tentado devolver a vida àquele homem e, agora, sua energia decaíra em virtude da
frustração. Lá dentro, as enfermeiras que estavam esperando olharam para o lençol
sobre o corpo. Atrás delas, o velho Markie franziu a testa e fitou Slaughter.
- Noite ruim, Nathan? - Disse.
- Nem tanto, até acontecer isto.
- A ocorrência fala em atropelamento.
- É o que parece. Tirei algumas fotos em polaroid, caso precise. - Entregou-lhe o
envelope. - Meus homens estão lá, procurando vestígios ou qualquer coisa que
tenha caído do carro na estrada. Até que a gente saiba com certeza, meu melhor
palpite é esse mesmo: atropelamento.
- Pegou a identidade dele?
- Na mochila. Não o conheço. Joseph Litton. Vinte e oito anos, de Omaha,
Nebraska. Pelo jeito, era um campista. Nenhum sinal de que fosse casado e
nenhuma referência a parentes.
- Bem, isso pode tornar as coisas mais fáceis. Nenhuma correria para entrar em
contato com alguém.
- Mas eu preciso desse laudo amanhã cedo. Se for mesmo atropelamento, quero
que meus homens investiguem o mais rápido possível.
- Não tem problema. Até lá eu termino. Diabos, ainda é quinta-feira. Se os
problemas já começaram hoje, como vai ser o fim de semana?
Os dois olharam para o lençol estendido sobre a maca. Os atendentes a estavam
levando pelo corredor. Slaughter balançou a cabeça e acompanhou o velho até o
elevador. Examinou-o com o olhar. Markie andava devagar, curvando o corpo
magro e pequeno, os cabelos brancos e sem vida. Dobras flácidas de pele lhe
apareciam aqui e ali, no rosto e no pescoço. Os últimos dois meses, desde a morte
da esposa, o haviam envelhecido bastante. Slaughter não gostava de sua risada
estridente nem da cor cinzenta de suas mãos e de seu rosto.
- Pensei que você quisesse levar as coisas mais facilmente, sem trabalhar à noite.
- Bem, é difícil quebrar um hábito.
- Mas o trabalho à noite...
- É uma maneira de me manter ocupado. Não tenho nada para fazer em casa.
Durmo o dia inteiro e trabalho à noite. Como no tempo em que era interno. Estou
bem, pode acreditar.
Slaughter não acreditava. Mas conhecia aquele velho, sabia que era duro e
teimoso, nada que dissesse mudaria seu comportamento. Parou diante do elevador
e apertou o botão.
- Então não vai precisar correr para me dar o laudo. Vai ter a noite toda.
- Não vai ser difícil. Você trabalha até às duas horas? Slaughter fez que sim.
- Talvez até lá eu tenha alguma novidade.
- Queria ter a sua energia.
- Você tem, só que não sabe. Em todo caso, Accum já voltou daquela convenção
em Seattle. Vai trabalhar dobrado este fim de semana. Vou ter muito tempo para
descansar.
- Espero que sim.
O elevador chegou. Slaughter olhou quando Markie entrou com os dois
enfermeiros e o corpo. Markie piscou para ele e apertou o botão. As portas se
fecharam e o elevador desceu para a morgue.
Aquele velho. Aquela piscada. E Slaughter sorriu. Passou pelas enfermeiras e
saiu em direção ao jipe. Conhecera Markie em seus primeiros dias de xerife ali.
Tinha ocorrido uma morte com arma de fogo, e o velho provara que se tratava de
suicídio. E Slaughter reconheceu que, embora aquela cidade fosse menor que
Detroit, pelo menos contava com o tipo de profissional a que estava acostumado.
Pelo menos dois. Accum era o patologista principal e chegava a ser melhor que o
velho. Mas este era mais cordial, solícito não apenas no trabalho como também
socialmente. Tinha orientado Slaughter nos meandros da política local. Mostrara-
lhe quem era quem e o havia ajudado em seu trabalho. Por isso se tornaram bons
amigos. Eles se visitavam nos fins de semana, saíam para beber depois do trabalho
ou simplesmente se telefonavam quando estavam sozinhos. Slaughter gostava do
velho; lamentou a morte de sua esposa, de quem também gostava, e queria ser
capaz de consolá-lo em sua dor. Bem, ele o veria de novo à noite e talvez no fim de
semana pudessem passar algum tempo juntos como costumavam fazer. Quando
saiu do estacionamento, o rádio começou a chamar.
- Sim, aqui é Slaughter.
- Há um ladrão rondando perto de onde você está.
- Deixe comigo. Qual é o número?
Guardou o microfone. Quase ligou a sirene, mas mudou de ideia. Sim, o velho
tinha razão. Que fim de semana seria aquele, se os problemas já estavam
começando na quinta-feira?
4
Markie viu os dois atendentes entrarem com o corpo no morgue. Eram três salas
no subterrâneo do edifício. Primeiro, uma espécie de antecâmara com pias para
trabalhar, um armário com material de laboratório e coisas assim. A segunda sala
tinha três mesas com calhas e um dreno para o sangue. Havia um microfone acima
delas, armários para instrumentos, um balcão, azulejos verdes nas paredes e luzes
fluorescentes ao longo do forro. Tudo tinha um forte cheiro de desinfetante. Mais
atrás, a terceira sala era a geladeira onde, se necessário, os corpos poderiam ser
conservados.
Com as narinas ardendo um pouco por causa do desinfetante, Markie viu os
atendentes colocarem o corpo com o lençol sobre a mesa do meio.
- Precisa de ajuda? - Perguntou o primeiro.
- Não, eu só preciso que você tire as roupas dele. Deixe a maca na outra sala.
Vou precisar dela, quando terminar.
- Uma noite incrível, lá fora.
- Como assim?
- A lua. Quase nem precisamos acender os faróis da ambulância.
- O verão está chegando. Depois de todas as tempestades que tivemos, deu até
para esquecer como é uma noite clara.
- Sim, é mesmo. Vamos ao trabalho. Acho que não haverá outra chamada esta
noite, mas precisamos estar preparados.
- Vejo vocês mais tarde.
- Sim; suba, venha tomar um café.
- Daqui a pouco.
Markie olhou para o lençol sobre o corpo. A porta se fechou e os dois atendentes
foram para a sala contígua. Ouviu a outra porta se fechar e ficou sozinho. Estava
encolhido de dor, esforçando-se para que os outros não notassem enquanto
conversavam. Teve de se apoiar na mesa, respirando com dificuldade, enquanto a
dor lhe percorria o peito. Meteu a mão no bolso, achou um comprimido e o
colocou na boca, estava com a língua seca demais para engolir. Foi até o balcão,
encheu um copo de água e bebeu. A água lhe escorreu pelo queixo. Agarrou-se ao
balcão, esperando os segundos passarem. Esperou um minuto. Lentamente o peito
foi relaxando e ele conseguiu respirar mais livremente. Não ficou completamente
livre da dor, mas já conseguia controlá-la. Pegou o lenço, enxugou a testa e o
queixo. Era uma loucura. Podia ir para casa, mas sabia que Slaughter precisava
daquele laudo e Accum só viria trabalhar no dia seguinte. Dane-se o laudo. Se
descobrirem que você tem essa dor, não o deixarão trabalhar aqui. E então o que
fazer? Ficar em casa até morrer na cama numa manhã qualquer? Não, a dor é
apenas uma angina. Você pode vencê-la. E ninguém mais precisa saber dela.
Conseguiu endireitar o corpo, ficar bem menos trêmulo. No minuto seguinte,
sentiu-se forte o suficiente para ir até a antessala. Sentou-se e se convenceu de que
estava melhor sob o efeito do medicamento. Mesmo assim, teve mais alguns
problemas para respirar ao lavar as mãos e colocar o avental, a máscara e o gorro.
Não havia muita necessidade daquilo, principalmente da máscara, que tornava a
respiração mais difícil. Como sempre, porém, o hábito foi mais forte. Colocou as
luvas e foi para a mesa. Mas a sala estava vazia. Markie olhou à sua volta e sentiu
apertar o peito. No chão, estava o lençol que cobria o corpo.
- Mas que...?
Tinha certeza de que o homem estava morto. Conversara com os enfermeiros.
Ele mesmo havia examinado o corpo, procurando algum sinal de vida, mas nada
havia encontrado.
- Mas que diabo...?
Olhou para a porta que levava à geladeira. Não estava totalmente fechada. Se
aquele homem estivesse vivo, devia estar confuso, com medo. Procurando alguém,
devia ter escolhido a porta errada, a que levava à geladeira. Não encontrara
ninguém, mas agora devia saber que estava numa morgue. Devia estar
aterrorizado. A porta se abriu vagarosamente. E Markie viu o homem nu rosnando
para ele.
- Meu Deus, não!
Markie recuou. Viu os cortes no braço, na coxa; os cortes que lhe pareceram
estranhos quando os atendentes tiraram a roupa do homem. Não eram típicos de
atropelamento, mas preferira não dizer nada antes de examinar melhor o corpo.
Agora, no entanto, vendo aquele vulto avançar para ele, protegendo os olhos contra
a luz, percebeu que nenhum carro atropelara aquele homem. Markie recuou mais e
se encostou na parede. A dor lhe tomou conta do braço e ele implorou:
- Oh, meu Deus, não.
Num louco segundo, ele quase pôde ver a esposa. Pensou em Slaughter e
desejou ter podido lhe dizer adeus. Pensou em tantas coisas. O corpo cresceu
diante dele. Markie arfou e começou a deslizar parede abaixo. Sentiu um estalo no
peito. Viu-se observando a si mesmo. A seguir, tanto para o observador quanto
para o observado, tudo deixou de existir.
5
Slaughter vasculhou o mato, com uma das mãos perto do revólver. Estava a
cinco quadras do hospital. As casas ali pareciam meio abandonadas, com grandes
árvores nos fundos, nenhuma cerca e muito mato denso como uma floresta. Levava
a lanterna, mas a lua, bem alta, projetava seus raios entre as árvores, e havia
lugares onde ele não precisava dela. Mesmo assim, tropeçou várias vezes. Havia ali
muitos lugares para se esconder. Alguém podia estar de tocaia, e o mato era tão
espesso que Slaughter nem o perceberia. Estava olhando para a lua, que, agora,
tudo iluminava a sua volta. Poderia passar ali toda a noite procurando e não achar
ladrão algum. O sujeito podia até estar andando de um lado para outro,
escondendo-se nos lugares por onde Slaughter já havia passado. Aquilo não o
estava levando a nada.
Vamos ver direito quais são suas razões, pensou. Você está querendo parar a
busca. Tudo bem. O sujeito, se estava aqui, já deve ter ido para casa, está tomando
uma cerveja agora. Mas talvez ainda ande por perto, à espera, quem sabe, de uma
ocasião para atacá-lo. De modo que você está querendo parar a busca porque está
nervoso.
Não.
Já estou aqui há meia hora. Não é esse o problema.
Sabe qual é o motivo agora?
Sim.
Então, tudo bem.
Contudo, se estava hesitante, ficou mais resoluto ao se arranhar numa roseira.
Voltando-se, olhou para a varanda atrás da casa. As luzes interiores estavam acesas,
assim como a da própria varanda; viu a mulher espreitando as sombras da noite
pela porta de tela. Avançou no mato, rumando para o gramado. Não lhe agradava
ficar de costas para a escuridão e quase virou o rosto para encará-la uma vez mais.
Percebeu, contudo, que era apenas paranoia e continuou andando. Chegou à
varanda, subiu os degraus de madeira mal conservados e olhou pela porta de tela.
- Não achei ninguém, minha senhora. Sinto muito.
Tinha uns sessenta anos, cabelos pintados de ruivo, batom grosso; estava
enrolada num roupão de banho.
- Bem, eu sei que o vi, senhor Slaughter. Alguém estava rastejando nesse mato.
- Talvez tenha razão. Mas está escuro. Pode ter sido um cachorro.
Ela balançou a cabeça.
- Eu o vi.
- Bem, duvido que volte aqui. Tranque as portas e deixe acesa a luz da varanda.
Se ficar com medo, telefone para a delegacia. Vou deixar ordem para darem
prioridade a seu chamado.
- Só isso? O senhor vai fazer só isso?
- Não sabemos quem é ele. Nem chegou a incomodá-la. Talvez fosse um bêbado
rastejando de volta para casa. Vou fazer umas rondas de carro por aqui durante a
noite. - Ela continuava fitando-o. - Há muitas casas por aqui. Ele não teria razão
para incomodar justamente a senhora. Durma um pouco. Isso acontece, às vezes.
- Não comigo.
- Entendo. De fato, não é justo.
Slaughter disse mais algumas palavras para tranquilizá-la, ficou ali até que ela
fechasse a porta e se voltou para ir embora. Ao descer da varanda, contemplou uma
vez mais a escuridão. Foi andando e notou que ela estava acendendo todas as luzes.
Bem, não há de ser nada, pensou. E se ela dormisse um pouco... Aproximou-se do
jipe e avançou pela rua, sempre olhando para trás.
Noites como aquela eram comuns em Detroit, mas não ali. O ladrão, em si, não
era nada; se é que havia mesmo um ladrão por ali. Já estava acostumado a
chamadas como aquelas de vez em quando. Mas, depois de Willie e do corpo, as
coisas pareciam ligar-se, e ele não gostava daquela sensação.
Percorrera quatro quadras e encontrava-se na região mais nova da cidade, com
suas casas bem cuidadas em ambos os lados, as luzes apagadas. Mas a décima casa
à direita estava iluminada, contrastando fortemente com a escuridão, coisa que não
esperava. Pensando no ladrão e na mulher com quem tinha estado, aproximou-se e
parou. Desceu e, depois de examinar o local, apertou a campainha. Ouviu-a tocar.
Esperou. Ninguém atendeu. Apertou novamente. Ia bater na porta, mas viu que
alguém se aproximava.
- Xerife?
- Parece que um ladrão andou por aqui. Quando vi as luzes...
- Eu estou bem. Obrigada por me avisar. Estou fazendo pão. Quer um pouco?
- Estou em serviço.
- Pode levar um pedaço.
Slaughter sorriu, entrou e a beijou. Era alta, embora não tanto quanto ele.
Abraçou-o pressionando os seios em seu corpo. Depois, inclinando-se para trás,
sorriu.
- É assim que se cumprimenta uma garota...
- É apenas o meu serviço normal.
- Não seja sujo, Nathan.
Abraçou-o novamente. Dessa vez, quando a beijou, ele lhe sentiu a língua
saboreando-o.
- Ei, eu disse que estava em serviço.
- Nem dez minutos?
- Dá para fazê-lo em dez minutos?
Sorriu; ela deu uma gargalhada.
- Melhor comer o seu pão, antes que fique com a consciência pesada.
Tomou-o pela mão e o levou até a cozinha. Slaughter gostava das paredes
brancas que ela mesma havia pintado e do cheiro de limpeza que sempre havia .
Mas, quando olhou melhor, começou a rir de novo.
- Que confusão é essa?
- Não é sempre que faço pão.
- Ainda bem. Pelo jeito, vai passar a noite toda limpando isto.
- A menos que você volte mais tarde para me ajudar.
- O quarto também está bagunçado assim?
Ele sentiu o cheiro de fermento, olhando para o jeans da moça onde se
estampava a marca de sua mão suja de farinha. Ficou observando como o braço
dela se movia para cortar o pão.
- Você é uma dama.
Havia também manchas de farinha em seus longos cabelos negros. Ele as
limpou.
- Eu também sei cozinhar, costurar...
- E o pão está ótimo. Retiro o que disse. Adorei a desordem na cozinha.
Mordeu o pão. O sabor adocicado do fermento era maravilhoso. Estava com a
boca cheia. Engoliu.
- Quer um café?
- Não seria mau, Marge.
Ela o fitou.
- Algum problema?
- Bem, esse ladrão...
- Era verdade?
Ele mordeu mais um pedaço do pão.
- Se o que a mulher disse era verdade... - instigou.
- Pensei que estava brincando.
- Houve uma encrenca no bar, hoje à noite. Depois, encontrei um corpo perto da
rodovia. Atropelado. Não quero nem pensar no que mais pode acontecer. Em
Detroit, quando essas coisas começaram, não acabavam mais.
- É a lua. - Ela franziu a testa. - Altera tudo. Lua cheia.
- Sei lá, Marge.
Ela serviu o café, adicionou creme e açúcar.
- Não tenho muito tempo para tomar isto, Marge. O velho Markie está me
esperando.
- Bem, então desista do café.
Marge se aproximou novamente, o rosto bronzeado roçando no dele. Slaughter
sentiu o corpo amolecer. Adorava aquele cheiro de pão.
6
Foi subindo as escadas. A luz cegava. Levantou a mão para proteger os olhos e
com a outra se agarrou ao corrimão. Mesmo com o avental de laboratório, estava
tremendo. Precisava dar o fora dali. Chegou à porta e esperou, ouvidos atentos.
Nada havia do outro lado, tateou em busca da maçaneta. Corredor branco, luzes
ainda mais brilhantes. Gemeu. Ouviu vozes. Ficou tenso. Vinham do fundo do
corredor. Aquelas vozes. De mulheres. Tão sussurradas e agudas, não conseguia
ouvir o que diziam. Sentiu ódio. Mas tinha de sair dali. Viu a porta do outro lado, a
lâmpada vermelha, a janela e a noite abençoada no fundo. Estava quase furioso.
Então ouviu passos, sapatos rangendo, cada vez mais distantes. E as vozes
desapareceram. Espiou novamente; viu uma mulher vestida de branco, gorro de
enfermeira, escrevendo no balcão. Parecia pequena no lugar onde estava. Penetrou
no corredor, os pés descalços no frio ladrilho. Se se voltasse, calculou com que
rapidez teria de alcançá-la antes que começasse a gritar.
7
Ela se voltou ao ouvir o ruído. Mas não viu ninguém. Que seria aquilo? Apenas
a outra porta, lá embaixo. Algum interno devia ter saído para fumar. Bem que
gostaria de ir a seu encontro. Sim, sabia com quem gostaria de estar. E sorriu.
Ouviu outro ruído, dessa vez na porta basculante a seu lado. Ao olhar para lá, deu
com Slaughter, que entrava e a cumprimentava.
- O doutor Markie ainda não terminou - informou-o.
- Bem, pode ter subido a seu gabinete sem avisá-la. Vou ver se está me
esperando.
Observou-o quando passou por ela. Slaughter era alto, o tipo do homem que a
atraía. Rosto quadrado, duro, cerca de quarenta anos; sempre tinha sorte com
homens daquela idade. Mas ganhava pouco, e ela haveria de arruinar suas chances
com o interno só por uma noite com um tira.
Mesmo assim, continuou observando-o. Viu-o apertar o botão do elevador;
apreciou seus cabelos curtos, cor de areia, e aqueles olhos vivos. Percorreu seu
uniforme cáqui, o chapéu de cowboy, as botas e o distintivo no peito. Deteve-se no
cinturão com o revólver e, ao vê-lo voltar-se, sorriu. Ele respondeu com um aceno
e entrou no elevador que acabava de chegar. Ficou pensativa por um momento.
Logo, voltou ao gráfico que estava preparando.
8
Slaughter foi pelo corredor. Naquela ala do hospital só havia escritórios e, ao ver
acesa a luz do velho, entrou. Markie, no entanto, não o estava esperando. Às vezes
fazia aquilo: deixava a luz acesa mesmo quando precisava ficar fora por algum
tempo. Também podia ter ido ao banheiro. Slaughter deu de ombros, serviu-se do
café da garrafa térmica, sentou-se e começou a folhear os jornais da Associação
Médica. Ao chegar ao fim da pilha, sem nada ter encontrado que fosse capaz de
entender, notou que tomara todo o café. Eram quase duas horas. Podia ter ficado
mais tempo com Marge; em todo o caso, pretendia voltar mais tarde.
Pensando bem, o velho não haveria de ficar no banheiro durante tanto tempo, a
menos que estivesse passando mal. Considerando essa possibilidade, Slaughter se
dirigiu para lá. Não encontrou ninguém e chegou a pensar que estava bancando o
tolo. Markie ainda estava trabalhando naquele cadáver, na morgue. Duas horas não
foram suficientes. Cansado de esperar, resolveu descer até lá.
Não eram os cadáveres que o impressionavam. Assustava-o o imprevisível e,
embora não achasse nada atraente as autópsias, não as evitava. Se o velho já tivesse
chegado a alguma conclusão, queria inteirar-se, avisar a delegacia e deixar
preparadas as tarefas do dia seguinte. Então, com o trabalho terminado aquela
noite, poderia ir se encontrar com Marge.
Num impulso, impaciente com a demora do elevador, decidiu ir pela escada.
Começou a descer os frios degraus de concreto, chegou ao andar térreo, depois ao
subsolo. Já no corredor, dirigiu-se à porta que não estava marcada; deteve-se na
antessala. Nenhum ruído na sala do meio. Ninguém faria muito barulho naquele
tranquilo trabalho de dissecação. Empurrou a porta e viu o lençol amassado e as
mesas vazias.
Markie já devia ter terminado. Aonde teria ido? Sabia que o estava esperando;
normalmente, não cometeria aquele tipo de indelicadeza. Slaughter tentou não se
aborrecer. Teve o impulso de sair à procura do velho, mas, sem saber por quê, no
último momento entrou na sala e deixou que a porta se fechasse.
Notou um volume à sua direita. Voltou-se para o lugar até então encoberto pela
porta e ficou momentaneamente paralisado. Um frio lhe percorreu o corpo. A
seguir, reconhecendo a roupa, agachou-se rapidamente, esperando que, como por
milagre, se tratasse de outra pessoa.
Mas não. O rosto de Markie estava contraído num derradeiro e grotesco esforço.
Os olhos abertos, saltados, voltados para cima. Slaughter lhe tomou o pulso, tentou
ouvir as batidas do coração.
- Meu Deus!
E saiu correndo.
9
Estavam olhando para o corpo do velho na sala de emergência. Tinha tubos no
pescoço, no braço, aparelhos ao lado, mas o eletrocardiograma permanecia neutro.
Apenas a linha reta e constante com seu zumbido. Slaughter se virou para Accum,
com a voz embargada.
- Nada mais?
- Os internos fizeram o que puderam. É o que eu teria feito se estivesse aqui. Já
estava morto, quando você o encontrou.
Slaughter olhou de novo para Markie, e a rigidez do corpo era tão definitiva, tão
impossível. O rosto contorcido e cheio de dor.
- A gente devia ao menos fechar os olhos dele.
- Eles deviam ter feito isso quando começaram a trabalhar.
Accum se inclinou para desligar o diagrama. Fechou os olhos de Markie, e
Slaughter sentiu de novo o frio lhe percorrer o corpo. Adorava aquele velho. Ia
sentir falta dele.
- De certo modo, sinto-me responsável.
- Não vejo por quê.
- Eu lhe havia dado um trabalho hoje.
- Isso não faz diferença. Era evidente que estava morrendo. Podia ter morrido à
mesa do jantar.
- Bem, eu sabia que estava muito cansado. E a morte da esposa...
- Não, os sinais eram evidentes. Eu percebia só de olhar para ele.
- Mas o deixou seguir trabalhando?
- De que serviria fazê-lo parar? Um homem como ele, se você lhe tira o trabalho,
morre ainda mais depressa.
Voltando-se, Slaughter olhou para Accum. Alto como ele. Magro, duro. Sempre
com um terno preto que contrastava com a pele cor de talco. Olhos escuros, quase
negros. Cabelos longos e negros penteados para o lado. Como legista que era,
devia saber que quase parecia um cadáver ou agente funerário. Accum, no entanto,
não se importava com as aparências. Apenas fazia bem seu trabalho; até bem
demais. Na verdade, era tudo o que fazia. Raramente saía e raramente via outras
pessoas fora do trabalho. Não tinha família. Aquele tipo de solidão não podia ser
saudável. Foi o que pensou Slaughter, mas ele também vivia assim; sem mencionar
o fato de que Accum também era do Leste, onde havia passado por uma crise.
Slaughter, contudo, nunca lhe falara da sua. Mas tinha simpatia por aquele homem.
Mais do que isso, uma compreensão que se baseava na dedicação de ambos ao
trabalho. De qualquer modo, Accum observara calmamente os sintomas cada vez
mais notórios da doença de Markie. Talvez tivesse sido bondoso, deixando que
continuasse a trabalhar. Mas talvez Markie tivesse feito muito esforço demais,
continuando a trabalhar. Slaughter não sabia. Não queria comprometer sua estranha
relação com aquele homem julgando-o.
Accum franziu a testa, quando viu que Slaughter continuava olhando.
- Foi um ataque do coração, mas, se você quiser detalhes, posso lhe dar em
algumas horas - ele disse.
- Não vai haver muito tempo para isso. Não gosto de pensar nele todo aberto.
Pode fazer isso amanhã de manhã.
- E o trabalho que você deu para ele?
- Não sei. Ele estava de gorro e máscara, mas sem avental. Provavelmente nem
começou.
- É algo importante?
- Um atropelamento, parece. Preciso saber com certeza.
- Vou dar uma olhada.
Slaughter o compreendeu: necessidade de fazer alguma coisa, de estar ocupado.
- Sim, eu acho que o mundo não pode parar porque um amigo morreu. Pelo
menos não no nosso trabalho.
- Vou ficar acordado, pensando nele.
- Obrigado por ter vindo.
- Ele era meu amigo. Sei que vocês dois eram muito próximos, mas eu também
era amigo dele. Corri para cá esperando poder fazer alguma coisa.
Mas não pudera. E ambos olharam de novo para Markie.
- Pobre amigo. O rosto dele...
- Às vezes o rosto se contorce assim. Acho que nem chegou a sofrer. Pelos
sinais, a morte foi rápida.
- Espero que sim. Por ele.
Slaughter tocou a mão do velho. Já estava fria, inerte, mas ele a apertou assim
mesmo, desejando boa sorte em sua longa viagem. E olhou para a porta.
- Bem, acho que vou dirigir um pouco.
- Nós somos as pessoas mais próximas dele. Acho que temos de cuidar do
enterro.
- Amanhã de manhã.
Slaughter foi até a porta e ainda uma vez olhou para Markie.
- A gente se vê.
Não sabia se o dissera para Accum ou para o velho, e tentou não pensar naquilo
enquanto passava pelas enfermeiras em direção às portas basculantes, à noite lá
fora, ao jipe.
10
Accum viu-o desaparecer e, então, voltou-se para Markie, deu instruções aos
internos, mas hesitou. Acostumara-se tanto à doença daquele homem que
praticamente já o via como morto. Não sabia se estava realmente triste, e isso o
incomodava. Passara tantos anos com a morte que a vida lhe parecia uma coisa
efêmera; temporária demais para merecer confiança. Em todo o caso, hesitava.
Saiu da sala e tomou o elevador para o subsolo. Sim, estava triste. Na verdade,
apesar do esforço para evitá-lo, estava quase chorando. Era por isso que tinha
poucos amigos e nunca se casara: para evitar aquele tipo de sentimento. Se não se
aproximasse demais das pessoas, não o magoariam com sua morte. Tinha
aprendido isso há muito tempo. E do modo mais duro. Sentia necessidade de estar
ocupado. Desceu ao subsolo, entrou na morgue e quase colocou o avental, mas
achou melhor antes verificar se estava tudo preparado. Entrou na sala do meio. Viu
o lençol amassado no chão e a porta da geladeira aberta. O corpo devia estar ali, o
velho não tivera força para fechar a porta. O velho Markie. Tentou apartar aquele
sentimento. Examinou a geladeira. Estava vazia. Ficou intrigado. Deixou a tristeza
de lado e tentou imaginar onde o velho o podia ter colocado. Na recepção,
enquanto se preparava para a autópsia? Não era habitual, mas talvez estivesse
confuso. Cruzou a sala e pegou o telefone. Chamou a enfermeira do primeiro
andar.
- Aqui é o doutor Accum. O xerife Slaughter trouxe um corpo para cá.
- Certo.
- Mas não está aqui. Verifique na recepção, por favor.
- Mas eu vi quando o levaram para baixo.
- Tem certeza?
- O doutor Markie desceu com ele.
- Um momento.
Accum foi até o corredor e olhou para a sala. Viu sobre a mesa uma pilha de
roupas com manchas de sangue seco, cuidadosamente dobradas. Olhou em outras
salas e voltou ao telefone.
- É o doutor Accum de novo. Acho bom vocês verificarem o que aconteceu com
esse corpo. Alguém deve ter feito uma brincadeira.
11
Clifford subiu a rua para cortar caminho. Quase tomara outra direção para
visitar um amigo, mas se lembrou de que este fora embora da cidade. Estranhou
ter se esquecido disso. Mas sua esposa vivia se queixando de que ele nunca voltava
para casa quando estava bêbado, e, agora, haveria de lhe fazer uma surpresa.
Estava caminhando rumo aos currais, além dos quais ficava o descampado que ia
atravessar, quando se sentiu ofuscado pela lua. Estava radiante, surgindo detrás de
uma nuvem em seu círculo perfeito. Parou, olhou para cima, fechou um olho,
abriu-o, fechou o outro. Não, só podia ser o uísque. Nunca tinha visto uma lua tão
grande. E começou a cantar:
- Pela luz.... Da lua prateada...
Então tropeçou e caiu. Caiu suavemente na relva, rolou várias vezes e a lua foi
rolando com ele, cada vez maior. Levantou-se e continuou a caminhada com os
braços abertos para manter o equilíbrio, como se estivesse numa corda bamba.
Ouviu o vento sussurrando no mato e de repente perdeu o pé. Caiu, continuou
caindo e quando parou não conseguiu se levantar. Estava no fundo de um buraco,
sentindo uma dor meio anestesiada pelo álcool. Olhou para cima e viu que a lua o
espiava pela borda. Estendeu a mão para alcançá-la, mas logo, cansado desse
esforço, caiu no sono.
Quando acordou, a lua estava mais baixa e ainda mais brilhante. O vento havia
cessado. Foi quando a sombra surgiu do mato e parou à beira do buraco, o luar
formando um halo à sua volta. Estava fitando-o, e ele lhe sentiu a força, a
corpulência e, mais que isso, a presença.
- O quê?
Não sabia o que estava vendo. Ainda embriagado, atordoado pelo sono, viu a
sombra se duplicar, tremular, dilatar-se e se atirar pesadamente sobre ele. Perdeu a
visão.
- Meu rosto não!
Mas sentiu que dilaceravam seu rosto. Uma das faces lhe foi arrancada.
- Meu rosto não! Oh, meu Deus, meu rosto não!
12
Acordou gritando.
- Nathan, que foi? - Perguntou Marge.
Slaughter se voltou e olhou para a mão pousada em seu ombro. Estava suando,
tenso e levou algum tempo para entender onde se encontrava. Sacudiu a cabeça.
- Não foi nada. - Esfregou o rosto. - Tive um pesadelo.
- Tem certeza de que está bem? - Ele deu de ombros, respirou fundo. - Fazia
tempo que você não tinha isso.
- Ele gosta de aparecer quando estou com a guarda baixa. Saiu de sob os
cobertores. Estava nu, pondo a cueca, a calça.
- É o mesmo pesadelo? Ele fez um gesto afirmativo.
- O de Detroit?
- É.
Não gostava de falar a respeito. Foi até a parede e fez um gesto para acender a
luz. Mas a lua estava clara, aproximou-se da janela para observá-la.
- Nunca vi um luar tão brilhante. - Voltou-se para ela. - Tem um cigarro?
Estava sentada na cama, os seios descobertos, o lençol pela cintura. O clarão da
lua lhe banhava o corpo.
- É tão ruim assim?
Raramente fumavam, mas sempre tinham um maço de cigarros por perto, para a
eventualidade de alguma lembrança dos velhos tempos. Slaughter pensou em
Markie, pensou no primeiro caso em que trabalharam juntos: a morte com um tiro
que acabou se revelando um suicídio. O suicida era o marido de Marge. Assim se
haviam conhecido, e, com o passar dos anos, acabaram encontrando conforto um
no outro. Depois, ele começou a conhecê-la melhor, e ela viu seus filhos que
vinham e iam, a solidão que crescia nele e, embora o compreendesse, não o
acusava de nada. Ele havia estado ao seu lado quando precisara de ajuda, agradava
poder retribuir. Afinal, ambos tinham pesadelos.
Sem esperar resposta, Marge procurou os cigarros no criado-mudo.
- Só sobraram dois.
- Devem estar aí há um ano.
Atirou-lhe o maço quase vazio. Ele acendeu um e voltou a contemplar a lua.
- Você precisa se tratar.
- É o velho. Ter ido ao necrotério para encontrá-lo daquele jeito.
- Como as duas crianças na mercearia?
Só sabia daquilo. Ele jamais lhe havia contado o resto.
- Mais ou menos. É sempre a morte. - Deu uma tragada. O fumo estava velho,
rançoso. Sentiu a cabeça leve e inchada. - Bem, o que se há de fazer?
- Com o sonho? Com a morte do velho?
- Com as duas coisas. - Voltou-se para ela. - Já teve a sensação de que algo está
para acontecer?
Ela o fitou.
- Quando meu marido morreu.... Quer dizer, antes...
- Isso mesmo.
E olhou uma vez mais pela janela, para o quintal. Viu alguma coisa rastejando
no mato.
13
Estava ficando gelado. Para onde quer que olhasse, as luzes eram fortíssimas, a
lua, opressiva. Protegeu-se com o braço e seguiu pela rua. Sacudiu a cabeça,
gemeu. Tudo à sua frente era de concreto, linhas brancas e nítidas, postes altos,
uma fileira de edifícios. Cambaleou naquela direção, o avental esvoaçando no ar.
Viu a placa do shopping center e se aproximou das vitrines. Pratos, abajures, mesas
e sofás. Gemendo, avançou tropegamente. Livros e discos. Frascos de aspirina.
Estava tremendo no ar úmido na noite, os pés descalços no cimento. Uma bruma se
formava. Só desejava correr para o conforto da floresta escura, mas estremeceu ao
encontrar o que estava procurando. Outra vitrine: casacos, camisas, calças. Não se
preocupou em se proteger. Ergueu o cotovelo e bateu. O vidro se partiu. O alarme
disparou. Com os punhos, quebrou mais o vidro. E, rosnando, entrou. Calor. Um
casaco. A floresta. Quando seus pés começaram a sangrar, simplesmente rosnou
para os cacos no chão. E agarrou um agasalho.
14
Três motoristas bêbados, dois assaltos. Uma vitrine roubada. Uma pessoa
desaparecida. Slaughter examinava as ocorrências da noite. Em seus cinco anos
como xerife dali, nunca tinha visto uma noite como aquela. Ladrões rondando
casas, cães latindo, carros roubados, brigas, discussões em família. Sem contar a
arruaça de Willie, o homem atropelado e o ladrão que ele mesmo vira da janela de
Marge. E o velho Markie. Não se esqueça do amigo morto. Não, não havia como
esquecê-lo. Preste atenção ao que está fazendo.
Estava de pé no escritório envidraçado.
- Marge, você viu isto?
Ela se afastou da escrivaninha junto à porta. No tempo do antigo xerife,
trabalhava meio período na delegacia. Com a morte do marido, precisou de
trabalho, e Slaughter a empregou em tempo integral. Sabia que os boatos se
divulgavam rapidamente numa cidadezinha como aquela, que as pessoas
imaginavam que dormiam juntos, mas fez um esforço especial, assim como ela,
para separar o trabalho do lazer, e o único comentário que lhe chegou foi o de que
ambos tratavam da situação com dignidade. O importante era que não estivesse
empregada por nepotismo. Trabalhava com muita eficiência e, no contexto da
delegacia, era aquilo o que interessava. Ela fez um gesto afirmativo. Estava de
vestido agora, não com o jeans desbotado.
- Meu Deus, nunca vi uma noite como essa desde que cheguei de Detroit. O que
está acontecendo por aqui?
- Não sei. Mas estão chegando outros chamados.
- Se continuar assim, vamos ter de dobrar o turno hoje.
- Já chamei os homens que estavam de folga. Estão vindo. E o doutor Accum
ligou.
- Vou ligar para ele.
Sabia o que o legista queria. Devia ter concluído a autópsia de Markie e talvez
tivesse alguma informação. Mas ele não estava com vontade de ouvir. Saíra, na
noite anterior, à procura do homem que tinha visto pela janela de Marge e, depois,
não conseguira dormir. Não queria pensar na conversa com a funerária. Era um
passo demasiado extremo, definitivo demais para que pudesse aceitá-lo.
- É melhor você ouvir isso.
Marge apontou para o rádio. Havia algo estranho na maneira como o fitava.
Slaughter franziu a testa e ouviu. Os dois policiais que estavam na sala, escrevendo
seus relatórios, também olharam para o aparelho. Certamente não ouvira bem.
Estava debruçado sobre o microfone, o sol da manhã brilhava nas janelas.
- Accum, aqui é Slaughter.
- Trata-se daquele cara atropelado que você trouxe ontem à noite.
- O que há com ele?
- Já o procurei em toda a parte. Pelo jeito, roubaram o corpo.
15
Era Phoebe, pelo menos aquela semana. Estava encolhida num canto da cabine
do trem, olhando para aquele homem torturado que continuava dormindo. Dissera-
lhe que se chamava Dunlap - Gordon Dunlap - mas, como ela mesma costumava
mudar de nome como quem troca de camisa, não tinha por que acreditar nele.
Sabia que estava apavorado, e, embora ela mesma estivesse assustada, sentia-se
compelida a ficar ali com ele, não por piedade, mas como uma lebre hipnotizada
pela serpente que prepara o bote, fascinada pelo terror. Se pegasse suas coisas e
saísse, ele poderia acordar, sentir sua falta e ir procurá-la. E não teria como escapar
do trem em movimento.... Não, melhor não o provocar. Tinha de tratar daquilo com
calma. Sim, calma, pensou. Jogue até o fim. O trem vai ter de parar em breve.
Conhecera-o quando o expresso saíra de Chicago. Fora ao bar, que acabava de
abrir, e o vira sozinho junto à janela. Estava fumando e olhando para o copo.
Certamente Bourbon. Os arredores da cidade já haviam ficado para trás, agora só
se via o campo, mas ele não olhava para fora, não tirava os olhos do copo.
Observará-o durante uns dez minutos antes de pegar seu vinho e aproximar-se.
- Posso me sentar aqui?
A princípio, teve a impressão de que não a ouvira, mas, passado um momento,
ele ergueu lentamente a vista e a encarou. Demorou nos olhos dela, mas isto não a
incomodou. Já estava acostumada, até gostava da maneira como os homens a
olhavam e recebiam. Aquele olhar, contudo, parecia atravessá-la. Ele fez um sinal,
ela se sentou.
Não sabia por que se havia aproximado. Em parte, porque estava sozinha; em
parte, porque estava entediada. Mais do que isso, porém, ficara curiosa. Havia
muito que deixara de escolher os homens só pelo charme, se bem que aquele a
atraía muito - cabelo grisalho (embora não devesse passar dos quarenta), olhos
metálicos, testa e queixo salientes. Estava com um terno de executivo, gravata com
as cores de um clube, camisa branca, sapatos bem engraxados, mas, apesar daquela
aparência de homem bem-sucedido, terno bem passado, camisa impecável, barba
escanhoada, cabelo bem penteado, parecia ter algo de errado. Era como se aquele
fosse seu único terno, como se precisasse de muito esforço para manter a postura.
Gordon Dunlap. Ia para Seattle. Só o disse porque ela lhe perguntou. Estava
intrigada, ansiosa, disposta a puxar conversa para animá-lo. Devia ser por isso que
continuava ali - porque aquele homem era, de algum modo, diferente, representava
um teste para ela. Tinha a impressão de que, se não dissesse nada, aquele homem
era capaz de continuar olhando para o copo, alheio a sua presença como a outra
qualquer. Por que ele não viajara de avião? Porque não estava com pressa. O que o
esperava continuaria onde estava. O que era? Ele não respondeu.
Ela estava indo para Sun Valley. Ele fez um gesto afirmativo. Tinha amigos lá.
Ele balançou novamente a cabeça. Detestava aviões. Na verdade, ficava
horrorizada. Ele apenas deu de ombros. Pediu ao garçom outro drinque e um
segundo copo de vinho para ela.
- Se preferir, eu me sento em outro lugar.
- Não; estou gostando da sua companhia.
- Não parece.
- Eu não sou de demonstrar muito.
E desviou o olhar, disfarçou. Ela pensou em desistir, ir embora, mas o vagão
estava quase vazio. Dunlap era o único homem disponível. Foram para a cabine
dele depois de três drinques. Na verdade, fora ela que o levara para lá, e isso a fazia
sentir-se mais determinada. Ele tinha uma garrafa. De Bourbon. Passando do vinho
para o uísque, ela o ajudou a beber a metade da garrafa. E começaram a fazer amor.
Ela estava esperando sexo sem envolvimento; apenas movimentos cínicos e
mecânicos, mas em vez disso ele se atirou sobre ela, frenético, desesperado,
absolutamente concentrado. Gemeu, no êxtase; quase aflito. Ainda não estava
satisfeito e a procurou outra e outra vez. Beberam o resto da garrafa. Ele vasculhou
a mala e pegou outra. O trem estava em Dakota do Sul. Já estava escuro. E
começou. Tendo tomado todo o uísque que podia, começou a falar. Palavras
movidas a álcool. Quanto mais bebia, mais as palavras jorravam em torrentes,
incessantes, incontroláveis, e ele explicava longamente, argumentava. Contou que
estava indo a Seattle para se desintoxicar numa clínica. A vida estava
convulsionada, o casamento em crise (ela notara que não usava aliança) e ainda
havia outros abalos. Fora um jornalista famoso (agora ela entendia o gravador e a
câmera), repórter da Life, do Look, do Post. Mas agora não era mais nada. Tudo se
acabara.
- Mas a Life voltou a sair. Eu a vi nas bancas.
- Mas agora é mensal. Não, a verdadeira Life acabou.
Riu histericamente, e foi aí que ela começou a sentir medo.
- Droga, agora eu escrevo para a Rolling Stone. Aquela revista, pelo menos, ela
conhecia.
- Nunca vi seu nome lá.
- Nem vai ver. Depois de tudo... eu passei a usar um pseudônimo. Geoffrey
Clincker.
- Ah.
Era como se ele tivesse dito que era louco. Ela se encolheu, na defensiva.
Conhecia seus artigos: eram contorcidos, frenéticos; algo à beira da insanidade. Ela
se sentiu desamparada. Aqueles olhos eram duas mãos que a seguravam. Ela ficou
pensando, você tem vinte e três anos e é impulsiva demais; uma vagabunda. Se
continuar caçando homens assim, um dia acabará escolhendo aquele que há de
matá-la. Mas não aconteceu isso. Seu discurso foi se transformando em explosões
isoladas de palavras. Seus olhos foram se fechando com o ritmo do trem e ele
pegou no sono. Mas ela não se mexeu, com medo de acordá-lo. E uma hora depois
ele começou a gritar, saltou da cama, encolheu-se em posição de defesa. Olhou
para ela.
- Você viu? - Perguntou.
- O quê?
- Os chifres do veado.
Ela balançou a cabeça.
- Uma coisa...
- Que coisa?
Não conseguiu dizer. Estava suando, encostado na cama.
- Os chifres do veado - repetiu, só que agora estava desanimado. Olhou para os
lados. - Os chifres. Eles... Meu Deus, eu sinto muito.
Ela não conseguia ordenar os diferentes significados daquilo tudo.
- Olhe, eu sinto muito mesmo.
- O que foi?
- Eu sempre tenho esse pesadelo. Ele.... Não importa. Desculpe. Eu a assustei?
- Sim.
- Eu também fico assustado. É por isso que eu estou indo para Seattle.
Estava olhando para ele. Sem pensar, estendeu a mão e tomou a dele. Não sabia
por que o estava fazendo, mas isso o acalmou. Ele voltou a dormir. Ela desceu
lentamente da cama e se encolheu naquele canto. Viu o nascer do sol e as
montanhas. Estavam subindo. O trem alcançou a linha das árvores, tomou uma reta
e os picos nevados ficaram tão perto que ela desejou caminhar entre eles. Quando
olhou de novo para Dunlap, ele estava acordando.
- Eu sonhei?
- Não se lembra?
- Não.
- Você teve um pesadelo. Ele pareceu fazer uma escolha.
- Onde estamos?
- Nas montanhas.
- Estou vendo. Mas onde? Em que Estado?
- Wyoming.
Ficou olhando para ela.
Agora, o trem estava descendo. Ela viu o vale, as montanhas ao redor da cidade
lá embaixo. Se o trem parasse, desceria. Ele saiu da cama, lavou o rosto e se
barbeou. Vestiu-se; observando-o, ela se deu conta de que tivera razão. O esforço.
O trem estava atravessando os campos, diminuiu a velocidade, a cidade a sua
frente. Passou a placa, POTTER 'S FIELD. Diminuiu ainda mais a velocidade.
Ia pegar sua bagagem quando ele disse:
- Vou descer aqui.
- Mas e Seattle?
- Não. Há alguma coisa.... Vou descer aqui. - Fechou a valise, pegou o gravador
e a câmera. - Fique com meu bilhete. Pode pegar a cabine. - Saiu. Ela o seguiu no
corredor, viu, pelas janelas, o antigo depósito; passaram por outra porta, chegaram
à plataforma de desembarque.
- Ei, eu.... Ainda nos vemos, amiga.
Inclinou-se. Aproximou o rosto. Beijou-a.
Sorriram, e ele empurrou a porta de saída. A mala, a câmera e o gravador bem
juntos do corpo, foi pisando os cascalhos, subiu na plataforma do depósito, e ela o
viu desaparecer numa esquina cheia de gente. Sorrira, mas, na verdade, estava
preocupada. Não o ocultava agora, continuava olhando para aquela esquina,
pensando na maneira decidida como ele se afastara, como se não fosse um
forasteiro ali.
16
A cidade estava igual. Claro, era inverno, as ruas ficavam entupidas de neve e o
vento, gelado, a quase trinta graus abaixo de zero. Mas ainda era sensível aos
detalhes, lembrava-se de como havia descido do trem e virado aquela esquina.
Uma quadra mais e viu a rua principal; estava exatamente como esperava, os
edifícios brancos de dois andares brilhando ao sol. Era uma rua larga como se
lembrava - um vestígio da antiga trilha do gado. Viu anúncios de rodeios e
exposições pecuárias, lojas de roupas de cowboy e bares típicos. Sim, lembrava-se
de Potter 's Field. O último lugar onde havia se sentido bem.
Potter 's Field. Pensou no inverno e nas reportagens que fizera; as últimas antes
que a Life fechasse. Um de seus melhores trabalhos, certamente o melhor que já
havia escrito. Mas não compreendia o que estava fazendo ali. Havia decidido ir a
Seattle. De fato. Era uma promessa que se fizera. Muito embora já tivesse
quebrado suas promessas várias vezes, estava decidido. Procurara Jackie para lhe
comunicar a decisão, e ela o chamara de louco, coisa que, considerando o que
acabava de fazer, devia ser mesmo verdade. Conseguira persuadi-la a tentar uma
vez mais viver com ele, se conseguisse parar de beber. Então, por quê, diabos,
descera do trem ali? Não tinha sentido.
Ia pela rua principal, na direção do tribunal, carregando a mala e os outros
objetos, ia abatido pelo Bourbon. Embora não fosse verão, sentia muito calor.
Doíam-lhe os olhos. Suando, olhou para as montanhas ensolaradas; quanto mais
andava, mais a camisa se lhe pegava ao corpo. O terno começou a ficar amarrotado
e, olhando para a própria imagem refletida numa vitrine, viu que sua aparência
correspondia exatamente a como estava se sentindo. Doente. Pensou que, se
parasse e tomasse um trago, talvez encontrasse forças para se recompor, mas não
desembarcara ali para beber - podia ter bebido no trem. Não, o motivo não era
aquele, estava confuso. Olhou para o outro lado da rua e, em meio ao trânsito do
meio-dia, viu a placa GAZETA DE POTTER 'S FIELD e compreendeu que era
para lá que tencionava ir.
Atravessou, esquivando-se de caminhonetes e automóveis, a fim de chegar à
fachada de vidro e aos lustrosos degraus que imitavam mármore. Estava pensando
no homem que encontraria se ainda estivesse ali - o homem que, apesar de enorme
e pesado, tinha a agilidade de um dançarino, que, aos cinquenta anos, dirigia
aquele jornal e que usava seu poder com uma habilidade de fazer inveja a muitos
políticos, um homem que podia ser uma ameaça, um perigo, caso ainda estivesse
por lá.
Seu nome era Parsons.
17
- Nós nos conhecemos em 1971. Em dezembro.
- Sim, eu me lembro do que aconteceu. Só não me lembro de você.
- Eu estava fazendo essa reportagem.
- É mesmo? Ainda não estou compreendendo.
- E estou aqui para continuar esse trabalho.
E Dunlap se perguntou se aquele realmente era o motivo.
- Mas esse assunto já não tem interesse.
- Os corpos, o desastre em si, talvez não. Mas o que aconteceu aos outros?
Parsons recostou na cadeira.
- Agora eu entendi. Se importa se eu for direto?
- Era o que eu esperava.
- Isso não é segredo. O pessoal de fora nos culpou. Droga, não é culpa nossa se
alguns malucos acham que podem vencer as montanhas. Se tivessem recuado, nós
os teríamos recebido de braços abertos. E se os outros, a escória, não tivessem
ficado aqui, na cidade, para armar aquela confusão...
- Mas não estou aqui para levantar isso de novo.
- Por que veio então?
Todos aqueles corpos congelados, espalhados pela neve, quando tentaram ajudar.
Braços e pernas devoradas por lobos e coiotes e - como nos horrores de um campo
de concentração - as crianças chorando, com fome, e os adultos com a orelha, o
nariz, as pontas dos dedos e os pés enegrecidos e apodrecendo com o frio. Dunlap
estremeceu.
- Por que veio então?
- Pois é. Nós temos um homem como Quiller. Rico. Um homem com ideais.
Achava que era, não sei, uma espécie de místico. Liderou a caravana até aqui e
disse que ia viver com a Natureza.
- Malditos estudantes.
- Não todos.
- Não importa. Droga, eles pensavam que eram muito espertos. Mas não sabiam
o que qualquer criança de seis anos daqui sabe instintivamente: não desafie a
Natureza, ela pode matar você.
- Essa era a minha matéria. - Mas Dunlap estava inseguro. – Não teve
continuação. Eles aprenderam uma lição. Mas o que aconteceu aos outros?
- Não há ninguém por lá.
- O quê?
- Eles foram embora na primavera. O filho de um rancheiro se juntou a eles.
Quando seu pai descobriu, foi procurá-lo. Ficou maluco, puxou um revólver e
atirou num sujeito. Então, todos foram embora.
Dunlap ficou olhando para ele.
18
Os dois garotos corriam no terreno baldio. Haviam passado o dia sufocados na
escola e sabiam que era sexta-feira, que, no dia seguinte, ficariam vendo desenhos
animados e que dali a duas semanas começariam as férias de verão. Estavam
contentes; ansiosos por chegar em casa, comer um pedaço de bolo e, depois, ir
jogar um pouco de beisebol. Colocaram as luvas e começaram a arremessar a bola
um para o outro. Estava rindo ao jogar a bola para o companheiro, equilibrou-se,
para girar o corpo e correr mais alguns metros antes de pegar a bola novamente.
- Mande uma alta agora - gritou, voltando-se. E levou um susto.
Deteve-se, perplexo, ante o corpo no buraco.
Ante o sangue em seu rosto. E começou a gritar.
19
Estava dormindo.
Chegara à periferia da cidade ao nascer do sol e então, cego pela luz, agoniado.
Procurara um abrigo, alguma proteção. Estava junto à estrada. Um caminhão se
aproximava ruidoso. Cobriu os olhos com as mãos e se atirou na vala do
acostamento. Viu um túnel debaixo do asfalto e correu para a entrada. Mas o sol
tinha desaparecido. A não ser pela pouca luz nas extremidades, sentiu-se seguro e
se encolheu a um lado da passagem estreita, úmida, bolorenta, coberta de teias. A
dor diminuiu. Adormeceu rapidamente e sonhou que estava nas montanhas.
Sonhou com a vida anterior e recente, quando estava acampando. Precisara de
comida e fora pegar uma carona até a cidade.
Havia apenas dois dias.
Um tempo tão curto... E tudo mudara.
20
Slaughter ligou a sirene e a luz do teto. Fez cantar os pneus no estacionamento,
atrás da delegacia, e saiu velozmente na direção da rua principal e da travessa que
o levaria ao terreno baldio perto dos currais. Estava tentando se controlar. Sentia
dores no estômago e um crescente palpitar no coração. Accum ainda não
encontrara o corpo. O agente funerário estivera na delegacia para falar sobre o
enterro de Markie. Houvera outras chamadas - vandalismo na noite anterior,
vitrines depredadas e um veado que entrara na cidade e, em pânico, causara
alvoroço. Slaughter não sabia de que problema tratar em primeiro lugar, no
entanto houve essa outra chamada e, então, ele soube, teve certeza, e estava
virando rapidamente a esquina.
21
Dunlap viu o jipe dobrar a esquina e percorrer, velozmente, o centro da cidade, a
sirene ligada. Voltou-se para olhar o homenzarrão ao volante, enrugou a testa e
quase teve a impressão de conhecê-lo, mas aquilo decerto era impossível. Na porta
do veículo estava escrito CHEFE DE POLÍCIA, mas o xerife que conhecera,
quando estivera ali, era outro. Fosse como fosse, não conseguia se livrar da
impressão de que já vira aquele homem em algum lugar. Ia pela calçada rumo à
entrada da delegacia.
Que loucura, pensou. Estava saindo dos porões do jornal...
Por quê? O que estava fazendo ali?
Bebera o uísque que trouxera na mala enquanto fumava e lia os microfilmes das
matérias locais sobre Quiller. No quarto escuro do subsolo, só com a fraca luz do
projetor, sentira medo, recordara as imagens do pesadelo, aqueles chifres de veado
e a outra coisa. Nunca vira aquilo durante o dia, estando acordado. Os chifres
avançando sobre ele. Para se distrair, continuou lendo e bebendo. Droga, foi isso
que você inventou em vez de ver insetos ou elefantes cor-de-rosa. É um delirium
tremem, meu velho. Devia ter continuado a viagem a Seattle. Mas não
compreendia a estranha compulsão que o fizera desembarcar. Seria, quem sabe,
porque estava no auge quando estivera ali, ou, ao contrário, porque justamente
naquela ocasião começara a decair, a afundar? Não estaria tentando a loucura de
um retorno, retomar a vida onde a deixara? Ali fizera seu último e melhor trabalho,
mas não o vira impresso. Para economizar, em seus últimos dias, a Life passara a
publicar somente o que já estava na gaveta, não havia lugar para ele. Tentara
outras publicações, mas aqueles espaços também foram se fechando: era o começo
de sua decadência. Um homem como ele, para quem o trabalho era tudo o que
importava, tivera de aliviar a frustração bebendo e, por fim, conseguira. Agora
bastava. Sabia que jamais teria chegado a Seattle. O pesadelo haveria de possuí-lo,
e ele teria se matado e também àquela garota, Phoebe. Não tivera outra escolha.
Precisara descer do trem, ficar ali. A Life voltou a circular, talvez você consiga
retomar, prosseguir, a partir do ponto em que parou. Embora se lembrasse de tudo,
continuou lendo o microfilme displicentemente. Alguma coisa. Sim, alguma coisa
o estava incomodando. Lembrou-se da caravana, a andrajosa fileira de
caminhonetes, furgões e ônibus e a Corvette vermelha de Quiuler à frente, quando
partiram da prefeitura de San Francisco no Dia da Independência, 4 de julho. O
êxodo. Lera sobre os milhares de pessoas que Quiuler havia arrebanhado, sobre a
confusão na cidade, a batalha no parque, a polícia, os ônibus que vieram para
retirar os andarilhos. Compreendeu, uma vez mais, como o povo da cidade estava
ressentido, tanto que se recusava a vender o que fosse ao pessoal de Quiuler, e a
falta de roupa e comida resultou em todos aqueles corpos congelados nas
montanhas. Bem, não foi tudo, pois em junho, mais ou menos a essa mesma hora,
houve o assassinato.
E outra coisa, uma coisa anterior que Dunlap desconhecia ou de que não se
lembrava. Depois que sua gente chegou e se instalou nas montanhas, Quiuler
mandou-os levar os veículos à cidade e vendê-los, o que pareceu lógico a Dunlap -
pessoas ligadas à Natureza não precisavam de veículos. Mas, no registro dos carros
adquiridos pela população local, não havia qualquer referência à Corvette vermelha
com que Quiuler liderara a caravana. Dunlap vasculhou os rolos de microfilme.
A venda de uma Corvette vermelha, 1959, um modelo clássico, teria suscitado
interesse. Mas não havia referência alguma. O que estava acontecendo?
Seguia rumo à delegacia. À esquerda, viu os pilares do grande edifício de pedras
do tribunal. À frente ficava o quartel-general, um prédio de tijolos de dois andares
que ele conhecera tão bem quando estivera ali. Olhou para a grama bem cuidada e
tão viçosa. Graças à sombra das árvores, imaginou. Não deixe que o sol a resseque.
Já pensando na grama seca dos campos de pastagem, pensando no jipe. Que
poderia acontecer de tão urgente naquela cidadezinha? Provavelmente um acidente,
pensou. Um acidente grave àquela hora de muito trânsito. Subiu a escada do velho
e escuro edifício de tijolos da delegacia. Ao entrar, viu as escadas que levavam ao
subsolo e as que subiam a uma espécie de saguão central, alto e espaçoso, com
vasos de plantas ao longo das paredes e, no meio, portas dos dois lados. A madeira
era antiga, escura e sólida, e o lugar recendia o bolor quase agradável dos anos.
Viu uma porta se abrir à sua direita e a placa: NATHAN SLAUGHTER, CHEFE
DE POLÍCIA. Soube, então, que conhecia o grandalhão do jipe.
Que diabo Slaughter estava fazendo logo ali?
Apertou o passo, entrou na sala. Viu as paredes brilhantes, as janelas, as luzes do
forro. A direita, viu a mulher alta, de cabelos escuros, diante de um
radiocomunicador. Era atraente. Não o notou a princípio. Estava olhando
atentamente para o aparelho. Ele se moveu e, então, ela se voltou.
- Pois não?
Ele estava olhando para a sala vazia.
- Quero falar com o xerife.
- Sinto muito. Ele não está agora.
Voltou a olhar para o alto-falante do rádio, Dunlap não sabia dizer se ela era
simplesmente rude ou se estava distraída.
- Meu nome é Gordon Dunlap.
- O repórter de Nova York?
- Isso mesmo.
Dunlap não gostou. Parsons tinha desconfiado dele e estava avisando as pessoas
de sua presença ali; para que não causasse problemas. Mas que problemas?
Custava-lhe entender.
- Sabe quando ele volta?
- Já passam das cinco. Deve vir à noite. Mas talvez só amanhã de manhã.
- Bem, eu o conheci em Detroit.
E Dunlap não compreendeu que interesse aquilo podia ter para ela. Encarou-o
seriamente, preocupada mesmo, porém o rádio começou a chiar. E os dois se
voltaram para ele.
22
- Meu Deus, ele está morto! - Estava dizendo a voz entrecortada pela estática. -
Meu Deus, ele está sem....
23
Slaughter freou atrás dos outros jipes. Desligou o motor, ao mesmo tempo que
punha o chapéu e saltava. A sirene parou. À direita, viu-os aglomerados no centro
do terreno, olhando para o que parecia ser um buraco - seu pessoal, alguns
curiosos, Accum. Fitaram-no quando contornou o jipe. Logo, voltaram-se e
continuaram olhando para o buraco.
Foi para lá, caminhando depressa no mato. Controle-se, disse a si mesmo. Não
eram os cadáveres que o incomodavam, embora não gostasse de olhar para eles.
Uma vez mais, tratava-se de outra coisa, e ele olhou para os currais à esquerda,
cheirando a esterco, montes de esterco, a única coisa a que não se acostumara ali,
ao gado confinado nos currais, alimentado à força para, depois, ser vendido.
Chegou a passos largos e olhou para o buraco. Ninguém falou.
- Bem, bem. - Disse e olhou para trás novamente. - Vocês têm certeza de que é
ele?
Alguém confirmou. Rettig, um policial loiro e rude.
- A carteira dele está aqui.
Slaughter abriu e viu a licença de motorista. Clifford, Robert B. Claro, era ele
mesmo, a menos que alguém, ali, estivesse drogado.
Clifford constava na folha de ocorrências da noite anterior. A esposa sempre
telefonava e dizia que ele havia desaparecido, que estava com medo de que tivesse
acontecido alguma coisa, quando, na verdade, apenas saíra para tomar um drinque
e se livrar dela.
E dessa vez, droga, tinha razão.
Que o fizera pensar que alguém podia estar drogado, que o forçara a conferir a
licença?
O corpo estava estendido no fundo do buraco. Lábios, nariz, testa; estava tudo
cortado, mutilado. Havia pedaços arrancados do queixo, e os ossos do rosto
estavam expostos, os olhos, vazados. Mas o que mais impressionava eram os
dentes, brancos, sem carne alguma a sua volta, brancos, muito brancos, em meio
àquela massa escura e sangrenta.
Sentiu enjoo e desviou o rosto.
- Muito bem, qual é a história? Rettig se aproximou.
- Ontem à noite ele estava bebendo naquele bar da esquina. Slaughter olhou para
lá. O Railhead. Onde o pessoal dos currais ia almoçar e beber depois do trabalho.
Fez um gesto afirmativo.
- Bebeu um bocado. Ficou até fechar e saiu bravo porque não queriam mais
servi-lo.
- Estava sozinho?
Rettig fez que sim.
- Ninguém o viu depois disso?
- Não achei ninguém que o tivesse visto.
Slaughter tentou aparentar calma. Vasculhou a carteira.
- Duas notas de cinco e uma de um. Pelo menos sabemos que não foi roubo. -
Virou-se para Accum. - Qual é a sua opinião?
- Só vou saber depois da autópsia.
- Diabo, isso é lógico - disse um homem perto deles.
Slaughter se voltou e viu um policial jovem, ruivo, incomodado com tudo
aquilo. Era Hammel. Admitira-o há alguns meses e achou que agora precisava
ensinar-lhe algo.
- Não, não é lógico. Isto só pode ter acontecido de três modos. Primeiro: ele já
estava morto, quando foi retalhado. Segundo: caiu inconsciente e aconteceu isso.
Terceiro: foi atacado quando estava andando. Se já estava morto, temos de saber
quem o matou. Alguém pode lhe ter cortado a garganta e algum animal sentiu o
cheiro do sangue. - Continuou olhando para o rapaz, que estava vermelho, sem
jeito, sem saber para onde olhar. Viu que o havia envergonhado e não devia insistir,
mas não foi capaz de se conter. - Caso ainda não tenha reparado, há uma diferença
entre o ataque de um cachorro e um homicídio. Caso tenha sido mesmo atacado
por um cachorro. - Virou-se novamente para Accum. - Acha que foi um cachorro?
- Não sei. Vou ter de medir essas lacerações. Não há marcas de garras no corpo.
Não deve ter sido um felino.
- Um felino? Um puma?
- Isso mesmo. Às vezes eles vêm para cá, onde ficam as reses. Mas não com
muita frequência. Há uns vinte anos que isso não acontece. Não há muitos desses
animais por aqui.
- Acha então que foi um cachorro?
- Esse é o meu palpite. Mas vou ter de verificar, como disse. Uma coisa que
quero examinar são as calças. Estão rasgadas na perna. Algo pode tê-lo agarrado e
o trazido para baixo.
- Pode ser. Por outro lado, podem ser calças velhas, que ele não se deu ao
trabalho de trocar ao sair de casa. Vou mandá-las para o laboratório e me informar
com a mulher dele.
Estava pensando que teria de falar com ela de qualquer maneira e não quis mais
tocar no assunto. Voltou-se para o jovem policial, que ainda estava ali, vermelho,
sem jeito.
- ...nunca vi uma coisa como esta.
- Eu já vi - disse Slaughter. - Um homicídio, em Detroit. Os cadáveres estavam
lá havia dois dias, com marcas de mordidas nos braços e nas pernas, no rosto e no
pescoço. Ratos. Se não tivessem chegado a tempo, possivelmente não haveríamos
encontrado mais nada. - Franziu a testa e olhou para o rapaz. - Vá até aquelas casas
na esquina. Veja se sabem de alguma coisa. Gritos. Algum cachorro perdido.
Qualquer coisa em que tenham reparado.
- Certo.
E Rettig se afastou. Slaughter se voltou para Accum novamente.
- Vou chamar a ambulância. - Olhou para Rettig, que atravessava o terreno. -
Sabe em que eu tenho pensado?
- Não.
- Naquele homem atropelado que desapareceu.
- Alguma ligação?
- Não sei. Mas primeiro foi o velho Markie e agora este homem.
- Mas Markie teve um ataque do coração.
- Compreendo. Mas muita coisa está acontecendo. Não consigo me livrar da
sensação de que há algo errado.
Accum o encarou. Virou-se para o corpo no fundo do buraco. Depois olhou para
o sol, que nascia lentamente, entre as montanhas.
24
Acordou. Piscou na escuridão. Depois rastejou na passagem estreita, respirando
a umidade, sentindo as teias de aranha. Ficou subitamente em guarda. Foi até uma
extremidade, até a outra, e olhou para fora. Era noite, novamente. Rastejou até a
valeta do acostamento, alheio às poças de lama e às aranhas. Aproximou-se da vila.
Levantou-se depressa para se defender, mas não era nada. Apenas um carro que
passava com os faróis acesos, mas o mato lhe serviu de proteção. Olhou para a lua,
ficou tenso; sentiu aumentarem a dor e o medo, começou a uivar. Protegeu os olhos
com a mão e se voltou para o outro lado. Viu o campo iluminado pela lua, as
montanhas, viu seu lar. Tinha de chegar lá; atravessou a vala e parou. Estava
tremendo, sacudindo-se. Comida. Precisava de comida. Não comia desde....
Contemplou o campo. A seguir, voltando-se, viu a cidade além da estrada. A
necessidade era urgente demais para ser controlada pela precaução. Foi andando
pela valeta. A cidade o chamava.
25
Warren escorregou no barranco. Era mais íngreme do que parecia. Terminou
com um pé no riacho. A lua brilhou sobre ele quando voltou à margem. Estava sem
meias e a água lhe entrou no sapato, fria, viscosa, transbordando. Sacudiu o pé para
secá-lo um pouco mais, porém o sapato grudou na pele e entrou na lama como o
outro. Irritou-se. Quando pisou em terra firme, fizeram um barulho de sucção.
Pensou nas coisas então. Estava com lama nos sapatos e não havia como esconder
da mãe que saíra de casa. Quase entrou em pânico. Mas pensou na água, lembrou-
se de que podia lavá-los e ficou aliviado.
Foi até um pouco mais perto dos bambus, mas eram grossos e escuros e apesar
do luar não conseguia enxergar o buraco. Agachou-se, tirou algumas bolachas da
mochila e as jogou. Fizeram barulho no bambuzal. Jogou um pouco mais e ficou
ouvindo, mas não houve movimento algum.
O que fazer?
Aproximou-se o máximo possível, pensou poder pegá-lo com aquelas bolachas.
Ao enfiar a mão entre os bambus, ouviu o ruído a sua direita e o viu descendo o
barranco. Parecia ter perdido o equilíbrio.
- Tome algumas bolachas - disse.
Mas a coisa não parou. Continuou se aproximando. Nunca ouvira um ruído
como aquele; parecia o de um gato, mas não exatamente. Continuou se
aproximando e emitindo aquele som. Warren estendeu a mão com as bolachas,
pensando que o bicho ia comê-las, e imaginou como fazer para agarrá-lo, com
força, por trás das orelhas. Mas o animal ignorou as bolachas e lhe cravou os
dentes na mão.
- Aaaaiii!
Ele saltou e tropeçou no riacho. Sentiu os dentes agudos do roedor mordendo,
cortando, arranhando o osso, rasgando a carne.
Debatendo-se, rodopiando, jogou-o longe. O animal atravessou o ar e foi bater
na outra margem. O impulso, contudo, que dera ao próprio corpo, o derrubou e o
bicho avançou novamente. Levantou-se depressa. O roedor devia ter se ferido ao
cair. Estava mancando, pendendo para um lado, ao atravessar o córrego para atacá-
lo. E vinha silvando. Apoiando as costas no barranco, ele chutava o animal com
ambos os pés. Ele avançou, mordeu um dos sapatos e sacudiu a cabeça, furioso.
Sentiu o focinho, livrou-se e, agarrando-se ao barranco, subiu.
Aquele focinho pontudo, aqueles olhos ferozes. Achava-os bonitos antes, mas
agora não conseguia nem gritar de pavor.
26
Dunlap levou o primeiro soco no rosto e o segundo no peito. Começou a cair,
raspando as costas na parede de tijolos do beco. Eram três homens, dois deles já
haviam lhe batido. Tossindo e ainda escorregando na parede, esperou que o terceiro
o golpeasse. Estava bêbado. Bêbado desde que encontrara o primeiro bar, ao sair
do escritório de Slaughter. Era curioso que não sentisse dores, e mais curiosa ainda
era a inutilidade daquilo. Ele, na verdade, era quem tinha arranjado aquela briga.
Havia bebido e ficara olhando o bar, encarando os cowboys, observando os jogos
eletrônicos. Em meio à fumaça dos cigarros, ficara escutando música fraca. Então
começara a fazer observações inconvenientes. Primeiro em voz baixa. Pouco a
pouco, começara a falar mais alto, e os homens a sua volta se calaram. Não se
moveram até que ele fizesse aquela pergunta grosseira à garçonete, tão obscena
que, ainda agora, não conseguia acreditar que a tinha feito, e os homens se
aglomeraram a seu redor. Uma palavra mais, e foi levado para o beco. Estava
caindo lentamente, esperando, e a bota que lhe veio ao encontro do estômago fê-lo
soltar o ar dos pulmões. Ficou arquejante.
- Já chega - disse um deles. Dunlap não sabia com quem estava falando. Aquilo
podia significar diversas coisas. Contudo, o mesmo homem acrescentou: - É
apenas uma droga de um bêbado.
E se afastaram. Dunlap ficou arfando, mas não conseguia saber o que queria. A
bebida não haveria de anestesiá-lo. Os socos não o deixariam inconsciente. E,
mesmo acordado, ainda retinha a imagem de seu pesadelo.
27
Tendo rastejado para fora do túnel, tomou a direção da cidade. Estava agora
espreitando pela janela, enquanto a mulher se despia. As luzes estavam apagadas,
mas, graças ao luar, podia ver claramente o contorno dos bicos dos seios. Gemeu
quando ela tirou a calcinha e levantou o punho para quebrar o vidro. Então ouviu
um ruído na vegetação, muito próximo, atrás dele; voltou-se enraivecido e viu o
cachorro surgir na escuridão. E os dois começaram a brigar, a rosnar, entre os
arbustos.
28
- Não, era mesmo um cachorro. Não há dúvida.
- E foi ele que lhe dilacerou o rosto e o matou?
- Sim. A causa da morte foi a perda de sangue devido a esses ferimentos no rosto
e no pescoço.
Slaughter descansou a lata de cerveja e olhou para ele.
- Acha que a garganta foi cortada?
Accum sacudiu a cabeça.
- Não, lembro-me do que você disse lá no terreno baldio. Examinei bem a
garganta. A jugular foi rasgada, não cortada. Claro, alguém pode tê-lo atacado com
um objeto cortante, mas isso deixaria outro tipo de marcas e não aquelas mordidas
todas que você viu.
Accum olhou para a lata de cerveja. Slaughter deu de ombros.
- Tudo bem, mas vamos supor outra coisa. Alguém corta a garganta de Clifford e
foge. Um cachorro o encontra e começa a morder. Isso confunde todas as marcas
anteriores. - Accum sacudiu a cabeça novamente. - Ora, por que não? - Quis saber
o xerife.
- Todos os ferimentos mostram evidências de perda de sangue. Slaughter se
recostou na cadeira e coçou a testa. Aquilo encerrava a conversa. Só corpos vivos
sangravam. Portanto, Clifford tinha de estar vivo ao ser mutilado. Se alguém lhe
tivesse cortado a garganta, poderia ainda ter vivido alguns minutos, porém não o
suficiente para ainda perder sangue com as mordidas de um cachorro.
Slaughter tomou um gole da cerveja e virou a cadeira para a janela escurecida,
quando um cachorro começou a latir lá fora. Logo depois ouviu um uivo e alguns
ruídos que não conseguiu identificar. Ficou escutando por algum tempo, estava
fascinado e, ao mesmo tempo, profundamente perturbado. Viu que Accum também
estava olhando para a janela, atento aos ruídos que lhes chegavam.
- Sabe - disse Slaughter. - Desde que eu vi Clifford naquele lugar, fiquei me
lembrando da folha de ocorrência que li esta manhã. Alguma coisa me incomodou
nela. Voltei e a li novamente. Além do desaparecimento de Clifford, há também o
registro de um cachorro que ficou uivando.
- E daí?
- Essa reclamação veio do mesmo bairro. - Accum se voltou para ele. - Não
diretamente dali, mas de bastante perto. - Prosseguiu. - Ele estava muito bêbado?
Accum deu de ombros, sem sequer tocar no papel a sua frente.
- Zero vírgula oitenta e três por cento. E ele bebia assim havia muitos anos. Seu
fígado parecia uma geleia.
- Mas conseguia andar?
- Sei o que está querendo dizer. Foi arrastado ou caminhou até lá? Não encontrei
nenhum sinal de luta. Mas pode ser que você ache alguma coisa diferente no
terreno. Encontrei hematomas em seu antebraço direito que correspondem à
posição em que estava no buraco. E hematomas no ombro também.
- E daí?
- Ora, pense bem; todos esses hematomas eram muito recentes. Tanto que devem
ter sido provocados pouco antes de sua morte.
- E não depois? Não podem tê-lo chutado depois de morto?
- Não. Hematomas não são mais que hemorragias internas localizadas. Se você
chutar um cadáver, pode lhe causar algum dano, mas não hematomas no sentido
em que os conhecemos. Apenas os corpos vivos sangram e por isso apenas eles
podem desenvolver hematomas. Por outro lado, um hematoma leva algum tempo
para tomar cor. Meia hora, em média.
Slaughter deu outro gole na cerveja e olhou para ele.
- Você quer dizer que ele caiu no buraco pelo menos meia hora antes de ser
atacado?
- Isso mesmo. Mas preste atenção ao que eu disse: os hematomas são
compatíveis com a posição em que estava naquele buraco. Talvez os tenha sofrido
antes, em algum outro lugar. Mas meu palpite profissional é de que são
consequência de sua queda no buraco. Também é possível que o tenham
empurrado. Sendo assim, não sei o que isso significa, pois o que o matou foram
mordidas de cachorro pelo menos meia hora mais tarde.
- A que horas?
- Três da manhã. Três e meia, no máximo.
- Sim, no bar, disseram que Clifford saiu pouco depois das duas, quando fechou.
Até aquele terreno, são quinze minutos a pé. Meia hora mais, e já estamos perto
das três.
- Está compreendendo?
- Estou começando. Não havia outra pessoa. Sua carteira estava intacta. Ele saiu
do bar e avançou cambaleando pela rua. Teve de urinar ou tentou cortar o caminho,
talvez estivesse apenas confuso. Nunca saberemos exatamente por que foi para
aquele terreno. Mas, na metade do caminho, caiu no buraco. E foi assim que ficou
com os hematomas. Então deve ter dormido um pouco devido à bebedeira e, por
fim, apareceu o cachorro.
- É o que eu imagino.
- Mas quantos?
- O quê?
- Quantos cachorros? Um? Vários?
- Oh, apenas um.
- Tem certeza?
- Você sabe como se diz: é o meu palpite profissional.
- Sim, mas com que base?
- Bem, as marcas de dentes são todas uniformes. Mas vamos levantar a hipótese
de que foram dois cachorros com dentes do mesmo tamanho. Mesmo assim, as
enzimas seriam diferentes.
- As o quê?
- As enzimas. A saliva deles. Nenhum cachorro crava os dentes em alguma coisa
sem deixar saliva. Todas as enzimas, naqueles ferimentos, eram uniformes. Vieram
de um único animal.
Slaughter olhou para ele e, lentamente, puxou o anel de outra lata de cerveja. O
estalo pareceu mais forte que de costume. Chupou a espuma que saiu.
- Não pode ter sido um coiote ou um lobo?
- Não, os dentes eram grandes demais para um coiote. Está bem, pode ser,
admito. Um lobo seria uma possibilidade. Mas não mais do que isso. Não se veem
lobos por aqui há mais de vinte anos. Não vale a pena considerar essa hipótese.
- Está bem; um cachorro então - disse Slaughter repentinamente exausto. - Mas
como é possível?
- Você mora aqui há uns cinco anos, não é?
- Mais ou menos. - Slaughter se voltou para ele.
- Bem, nasci e me criei aqui. Os cachorros podem ser terríveis. As pessoas os
levam às montanhas, quando vão acampar, e os perdem ou os abandonam. Os mais
fracos morrem. Os outros podem se tornar mais ferozes do que muitos animais que
vivem lá. Se encontrar um cachorro nas montanhas, fuja dele. É o mesmo que topar
com uma ursa parida. Já vi gente com o braço ou a perna arrancados por eles.
- Mas Clifford morreu aqui na cidade.
- Não faz diferença. Claro, eles moram nas montanhas, mas descem até aqui em
busca de comida. O inverno foi muito rigoroso, não se esqueça. Tiveram de colocar
guardas naqueles currais para proteger o gado das feras. Algum cachorro deve ter
vindo das montanhas e encontrado Clifford perto dos currais.
- Mas não tentou comê-lo. Apenas o atacou.
- Sem nenhuma razão. Esse é o problema. Estamos lidando com animais de
comportamento totalmente pervertido. Simplesmente gostam de matar. Às vezes
descem aqui e correm vários quilômetros atrás de um novilho só pelo exercício.
Derrubam-no, matam-no e o abandonam. Se se tratasse de um ser humano,
diríamos que esse comportamento é patológico.
Slaughter encostou na testa a lata de cerveja ainda gelada. Estava agora
pensando no velho Markie.
- Você não está com boa aparência - disse Accum.
- Só preciso de algumas horas de sono. Levantou-se e rumou para a porta.
- Ei, e a cerveja? Ainda há meia dúzia.
- Fique com elas. Diabos, você merece.
- Tem algum palpite?
- Tenho, e espero que esteja certo. Girou a maçaneta e saiu.
29
- Sim, tudo bem, estou olhando.
O homem saiu pela porta dos fundos com a lanterna. Estava cochilando diante
do televisor quando a esposa o acordara.
- Há alguém na janela do quarto - dissera. - Um cachorro, lá fora. Ele demorou
um pouco para entender.
- O quê? Alguém ou um cachorro?
- Os dois, acho.
Resmungando, ele se levantou do sofá. Ultimamente ela andava imaginando que
estava sendo observada, esquecia das coisas ou despertava de madrugada. Estava
ficando nervoso com aquilo e teve vontade de dizê-lo, mas, para evitar uma briga,
preferiu acalmá-la, saiu. E estava junto à porta dos fundos, vasculhando a
escuridão com a lanterna.
- Não tem nada aqui.
- Veja o quintal do vizinho. Não vou conseguir dormir, se houver alguém aí fora.
- Não vai conseguir dormir de qualquer jeito.
Foi andando em direção aos arbustos. Mas já não precisava da lanterna. A lua
estava tão cheia que parecia dia.
O cachorro estava estendido no chão, à sua frente. Parecia um dobermann.
Estava dilacerado, uma perna aqui, outra ali; a barriga aberta e os intestinos
espalhados. Viu-lhe o pescoço torcido e desviou o olhar. Estava horrorizado.
30
- Tem alguma coisa ali com o gado.
Voltaram-se para Peter, que estava olhando pela porta. Tinha dezoito anos, era
alto e forte, mas, ao despertar, ainda se parecia com o garotinho de que se
lembravam tão bem.
- Nós o acordamos?
- Não, foi o gado. Vocês vão ver o que é?
Bodine fez um gesto afirmativo.
- Sim, imaginei - disse Peter. - Também vou.
E Peter era forte como Abby. Bodine não podia discutir com ele. E mais,
manejava o rifle melhor que a mãe. Saíram pela porta dos fundos, a noite estava
fria. As luzes da cidade brilhavam à distância. Com o luar, viram Appaloosa
agitada na estrebaria.
- Ela está sentindo alguma coisa.
Bodine subiu na caminhonete, Abby entrou pelo outro lado e Peter trouxe o rifle.
Bodine acendeu os faróis, e rumaram para o oeste, ao lado do celeiro. O campo
começou a correr debaixo deles. Ao ver o coelho paralisado diante dos faróis,
Bodine desviou para não o atropelar e, então, acelerou. O ruído do gado vinha do
lugar onde encontrara os ossos e tripas naquela manhã. Esperava pegar o animal
que fizera aquilo mais ou menos no mesmo lugar no sopé das colinas, um animal
que morava nas montanhas e descia para capturar presas fáceis. Mas não aquela
noite, pensou. Aquela noite não seria tão fácil.
Agora, ouviu o gado distintamente. Estava aterrorizado. Viu os cavalos
galoparem em fuga; viu o contorno sombrio das colinas, em cujos picos cobertos
de neve refletia-se o luar. E os arbustos agitados na floresta.
- Ali. Está vendo?
- Vendo o quê?
Estava a ponto de parar, saltar e atirar nos arbustos, mas seu pai se zangara
muito quando uma vez, aos doze anos, ele fizera isso.
- Só atire quando tiver um alvo - dissera.
Lembrou-se disso e rumou para os arbustos, tentando penetrá-los com os faróis.
Chocou-se com a vegetação e se encolheu para absorver o impacto. O mato se
fechou à sua volta e ele ouviu ruídos da floresta. Viu chifres entre as árvores; por
Deus, era apenas um veado e devia estar tão assustado quanto o gado. De repente,
viu algo parecido com um gato selvagem, pisou no freio e desceu para atirar. O
veado vinha, contudo, em sua direção, os chifres em riste, fugindo do gato. Estava
em seu caminho, diante do caminhão, e, quando ouviu o uivo, era tarde demais, os
chifres já lhe perfuravam o estômago. Começou a tossir, a cair. Ouviu Abby gritar.
Pensou que poderia ter salvado os veados se eles tivessem deixado; logo
compreendeu que era inútil pensar naquilo enquanto agonizava. Ouviu uma vez
mais o uivo. Um lobo ou um coiote, além do gato selvagem? Não tinha sentido.
Viu, então, os olhos do Mal fitando-o por entre os chifres.
Abby continuava gritando.
31
Slaughter não sabia o que estava fazendo ali. Perguntou-se se não devia ir para
casa cuidar dos cavalos. Já fizera muito, aquele dia, alguém podia fazer o resto em
seu lugar. Mas sabia a resposta. Estava com medo. E tinha duas alternativas: fugir
ou enfrentar aquilo. Algo estava acontecendo, e sabia que, se não tomasse logo
uma atitude, escapar-lhe-ia ao controle. Aquelas duas crianças na mercearia. E
desceu do jipe. Foi até o Railhead, com a lanterna na mão, examinou as portas, mas
estavam fechadas como era de esperar. Para ter certeza, verificou também todas as
janelas e os fundos. Olhou no lixo e viu que todas as garrafas haviam sido
quebradas. Agora você está mesmo perdendo tempo, disse a si mesmo e,
desligando a lanterna, voltou ao jipe.
Eram três da manhã, mais ou menos a hora em que Clifford fora morto. Claro, o
homem havia ido para aquele lugar pelo menos meia hora antes, talvez tivesse
dormido uma hora. Aquele era o momento em que fora atacado, e Slaughter,
parado junto ao jipe, ficou olhando para a rua e para o campo. Havia casas do outro
lado da rua; a maioria delas em ruínas, já que aquela era a parte da cidade mais
parecida com uma favela: varandas inclinadas, sujeira em vez de grama, janelas
com papelão em lugar de vidros. Mas as pessoas, embora pobres, eram pacíficas e
nunca lhe haviam dado muito trabalho. O bar, sim, é claro. Mas se tratava quase
sempre dos trabalhadores que cuidavam dos currais. Olhou para outro lado, onde
mal se distinguiam as silhuetas das construções dos currais. Eram três: o gado
ficava do lado de fora, exceto em circunstâncias especiais; nesse negócio não havia
necessidade de construir nada mais que um escritório e uns dois pátios de
exposições. No silêncio, podia ouvir os remotos mugidos do gado, que vinham do
lado mais distante do campo, e ficou esperando, pensando. A seguir, pôs-se a
caminhar na calçada em sua direção.
Naquele campo aberto não havia necessidade de lanterna. Havia as estrelas e a
lua cheia, que emprestavam à noite um brilho quase mágico. É o que Clifford deve
ter pensado, supôs. Na verdade, estava se esforçando para pensar como Clifford. A
noite anterior fora clara como aquela e ele havia tomado o mesmo caminho em
direção ao campo ao sair do bar. Estava bêbado, é claro. Com aquele álcool todo no
corpo - zero vírgula oitenta e três por cento -, a única coisa que devia ter notado era
o luar. E não devia estar caminhando. Devia ir cambaleando, subindo a rua em vez
de percorrer o dobro da distância dando volta no quarteirão. Porque sabia que, de
outro modo, jamais conseguiria chegar em casa. Já tropegamente pelo campo, e
algum animal escondido no mato deve ter visto que era uma presa fácil. Não.
Havia a questão do tempo. Os trinta minutos entre o momento em que caiu e o
momento em que foi atacado. Qualquer animal que o visse como presa fácil
poderia atacar imediatamente. Não havia por que esperar. Talvez não tivesse se
interessado por ele a princípio. Talvez quisesse atacar o gado ali perto e, tendo se
assustado com os guardas, voltara e matara Clifford. Mas por quê? Não comeu.
Teria sido só por raiva? E aquele pensamento lhe provocou um estranho calafrio,
quando, deixando o concreto da calçada, começou a caminhar sobre a vegetação
rasteira, as ervas e o cascalho que recobriam o campo.
Disse a si mesmo que aquilo era uma estupidez. Estava cansado e devia ir para
casa, dormir. Mas, se houvesse algum tipo de cachorro selvagem perto da cidade,
certamente voltaria àquele lugar, onde havia encontrado uma presa fácil. E aquela
noite era tão adequada quanto qualquer outra para esperá-lo. Caminhara dez
metros e estava se dirigindo ao centro do campo onde ficava o buraco, viu a casa
de Clifford no final do outro quarteirão. Era o caminho mais próximo do que
Clifford devia ter tomado, embora não pudesse ter certeza. Os dois homens que
investigariam isso só estariam ali pela manhã. Ótimo, pensou, realmente
fantástico. Percebia, agora, o quanto estava cansado, a ponto de ficar vagando por
ali, desfazendo todas as pistas que pudessem encontrar. Era um maravilhoso
trabalho de investigação. Como uma piada de mau gosto. Partindo do princípio de
que o criminoso sempre volta ao lugar do crime, nosso detetive apaga todas as
evidências que possam ter sido deixadas. Realmente ótimo. O que você tem na
cabeça? Bem, agora já fiz a besteira. E como não admitia voltar para casa de mãos
abanando, achou melhor continuar.
E prosseguiu com relutância. Porque, apesar de sua determinação, estava
passando realmente mal. Não se tratava do vago mal-estar que vinha sentindo
desde que vira o cadáver de Markie. Era algo diferente, mais preciso; uma reação
visceral àquele lugar e àquela hora. Sem dúvida, aquilo se devia, em parte, ao
cansaço, à lembrança do rosto mutilado de Clifford e à ideia daquele
comportamento animal que Accum chamara de "psicótico". Era uma sugestão
pavloviana que ele era capaz de compreender. Por outro lado, aquela sensação era
provocada pela quietude da noite; ele sozinho naquele silêncio que, por contraste,
enfatizava o roçar de sua calça na erva, o ruído de seus passos no cascalho. Agora
estava com o mato pelos joelhos, andando devagar, a lanterna pronta para ser
acesa, a mão direita muito perto do coldre aberto.
Achou uma vez mais que estava bancando o tolo. Enfrentara coisas piores
quando trabalhava em Detroit, investigando armazéns abandonados, caçando
criminosos nos becos, andando naquela mercearia, aquelas duas crianças. Mas já
faz muito tempo, pensou. Você acabou perdendo o hábito nos últimos anos. E o
pior era que o vento começava a soprar na vegetação, no mato alto, fazendo um
barulho que dava a impressão de que alguém estava ali. Voltou-se uma vez, mas
nada viu. Conteve-se para não acender a lanterna. Aguente até realmente precisar
dela, pensou. Não se assuste com nada antes de ver de perto o que é.
Assim, continuou andando. Acreditara que, com o luar e as estrelas, não teria
problemas para enxergar. Mas a luz prateada distorcia as coisas. Na verdade, fazia-
as parecer muito mais próximas, obscurecia os detalhes, de modo que tudo se
transformava num borrão indecifrável. Olhou para os currais, com suas sombras, as
pálidas silhuetas das reses se movendo, o vulto dos edifícios mais além. Estava
pensando que era melhor não se aproximar demais, pois um guarda poderia tomá-
lo por ladrão e atirar nele. Chegara ao centro do campo e não conseguia encontrar
o buraco. Olhara tantas vezes ao seu redor que havia perdido a orientação e, agora,
não sabia se devia ir para a direita ou para a esquerda. O buraco ficava encoberto
pelo mato alto, lembrava-se, e talvez não o visse mesmo estando a três metros dele.
Pensou que devia ter mantido os olhos na casa de Clifford, traçar uma linha reta até
lá, mas se lembrou de que os bêbados não andavam em linha reta. Certamente,
vagara de um lado para outro, reproduzindo, afinal, o que de fato acontecera,
embora o buraco fosse ainda importante. Slaughter percebeu que se desviara
demais para junto dos currais. E, quando tomava a outra direção, foi que se deu
conta do vento. Ou melhor, de sua ausência. Mas não cessara o farfalhar da
vegetação que parecia cada vez mais próximo.
Voltou-se assustado, a lanterna preparada. Recuou alguns passos, para ganhar
distância, e aquele emaranhado de arame farpado da cerca quebrada devia ter
estado ali o tempo todo, desde a primeira vez, quando viera examinar o corpo de
Clifford. Tropeçou, abriu os braços, ergueu a cabeça, viu a lua e caiu. Estava
esperando bater no solo, calculando, já, como deveria rolar para deter a queda, mas
continuou caindo, ultrapassou o nível do chão e sua cabeça bateu em alguma coisa
dura que, por alguns instantes, lhe provocou ondas de choque no cérebro,
deixando-o momentaneamente cego. Rolou. Era tudo o que podia fazer, um reflexo
adquirido no treinamento, pura adrenalina que o impulsionava a um gesto
aprendido. Procurou o revólver. Havia-o perdido.
Estava no buraco. Assaltaram-no ideias eivadas de pânico que não conseguia
ordenar. Meu Deus, o buraco. Era exatamente o que se passara com Clifford.
Tateou em busca da lanterna, mas tampouco a encontrou. Ouviu o ruído que se
aproximava. Rastejou para fora do buraco, saiu ao campo aberto, onde, ao menos,
teria chance de correr, sentiu as garras no rosto e começou a gritar ao mesmo
tempo que caía de costas e se chocava contra outro objeto tão duro que pareceu
partir-lhe o rim direito. Estendeu as mãos e, por Deus, viu a coisa se agachar para
saltar sobre ele. O pelo eriçado a tornava ainda maior, e sibilava, o olhar feroz, a
boca escancarada, os dentes expostos, e já estava saltando sobre ele, quando
encontrou o revólver sob seu próprio corpo. Ergueu-o na direção da fera, que
mergulhava sobre ele, e apertou o gatilho. Ficou ofuscado pela faísca, foi para trás
devido ao recuo da arma e a coisa explodiu no ar acima dele e lhe caiu sobre o
estômago. Teve a impressão de que o sangue jamais cessaria de jorrar sobre seu
corpo.
32
Dunlap acordou. Apalpou a cabeceira da cama. Foi se acalmando aos poucos. O
quarto estava vazio, procurou a garrafa no chão. Recordou-se vagamente de como
saíra daquele beco e cambaleara pela rua. Viu a valise, o gravador e a câmera num
canto e se lembrou de que os havia deixado no bar onde arranjara a briga. Como
vieram parar ali? Aqueles homens os haviam levado ao beco? Ou ele voltara para
pegá-los? Estava confuso. Tomando o uísque, esperou que suas ideias se
aclarassem. Doía-lhe o queixo; compreendeu, sem necessidade de olhar, que
estava machucado. Sentiu dores nas costelas, onde o tinham socado e chutado.
Apalpou os ossos, mas não detectou fratura alguma.
Bebendo, olhou ao redor do quarto. O sol entrava obliquamente pela janela, o
lugar era pequeno e úmido, espaço para uma cama de solteiro, uma janela aberta e
sem tela, deixava entrar os insetos. O prédio foi construído em 1922. Lera-o numa
placa no bar, no andar inferior, como se aquele hotelzinho decadente fosse motivo
de orgulho para a cidade.
Carpete rasgado, cama rangente, um banheiro comum no fundo de cada
corredor. Tivera de se levantar à noite para urinar, errara o caminho ao voltar e
quase não achara seu quarto, tão emaranhados eram os corredores do hotel, que
davam uns nos outros e estes em outros ainda, como a toca de um coelho ou um
gigantesco labirinto que se multiplicava a cada passo. Não sabia o que fazer em
caso de incêndio, sentia medo, não lhe agradava a ideia de pular do segundo andar.
E mais, não tinha força para tanto. Estava doente de novo. Tentou se recordar de
um dia que não tinha passado assim e, não tendo conseguido, sentiu ainda mais
medo. Até quando aguentaria aquilo? Ficara assistindo à televisão no bar do andar
inferior das dez até a hora de fechar. Não conseguia calcular quanto havia bebido,
mas, no final, o barman estava olhando de maneira estranha para ele, e os
programas se transformaram numa confusão de anúncios e interrupções. Sem falar
nas cotações do mercado. Sim, as cotações. Mas não as da Xerox ou da Kodak.
Cotações de gado, e os preços eram divulgados às dez, às doze e ainda à hora de
fechar. Achou que não devia ter bebido tanto, do contrário como teria conseguido
gravar todos aqueles detalhes? Neste caso, por que estava tremendo? Por que se
sentia tão mal que não conseguia tolerar a ideia de ingerir o café da manhã? Teve
de tomar outro drinque antes de se atrever a sair, para se barbear, e outro mais ao
voltar e começar a abotoar a camisa. Sentiu medo. Mal podia se lembrar do tempo
em que não precisava de uísque para funcionar de manhã. Pegou o gravador e a
câmera, olhou para a garrafa, e estava jurando abandonar a bebida no momento em
que passou pela cama e saiu.
O corredor ia para a direita, para a esquerda, novamente para a direita e, então,
se abria para desembocar no saguão lá embaixo, em cuja parede havia uma cabeça
de alce que, sem dúvida, devia datar de uns vinte ou trinta anos. Piso de cerâmica,
balcão de madeira descorada e, atrás dele, um velho enrugado de uniforme de brim.
Dunlap respirou fundo e imediatamente se arrependeu: no alto da escada o bolor
era ainda pior. Perguntou-se uma vez mais o que estava fazendo ali; a seguir,
desceu os degraus e foi para a rua. O sol era uma lâmina incandescente que lhe
feria a vista. Ainda eram oito horas da manhã, como não haveria de ser aquele dia
se ainda tão cedo o sol já estava assim! Não queria pensar nisso. Eram oito horas, a
bebida o havia afetado também nisso. Agora, quase não dormia, e quando
dormia.... Tampouco queria pensar nisso, naquela figura de chifres de veado a
avançar para ele, cada noite mais próxima; aqueles olhos felinos que o fitavam, a
cauda de lobo. Estava tremendo. Controle-se, disse para si mesmo. O sonho
começou logo depois que você saiu deste lugar e é aqui que há de vê-lo terminar.
33
Saíra da cidade para ir às montanhas. Mesmo sob proteção das árvores, cego
pela luz, piscava muito e teve de baixar o rosto. Tropeçando entre árvores e
arbustos, agarrou-se nas pedras para subir mais. Tinha matado e comido um
cachorro. Agora estava se encolhendo e gemendo de dor. Dormir. Precisava dormir.
Mas em alguma parte, lá em cima, devia estar o lugar onde se sentia chamado. Que
lugar era aquele não sabia. Tampouco compreendia onde poderia estar. Mas os
picos nevados eram como um ímã e, assim, gemendo, continuou subindo cada vez
mais.
34
Dunlap, no banco de trás, olhou para Rettig e o jovem policial da frente.
Entraram por um portão aberto de madeira. Viram-se, então, numa estrada sulcada
por rodas de carroça, e ele ouviu tiros, muitos tiros, um após o outro, que se
tornavam mais altos à medida que o jipe avançava, aos solavancos, na estrada
poeirenta.
- Algum problema?
Mas os dois policiais não responderam. Estavam descendo velozmente uma
colina, a terra seca e vermelha em ambos os lados, e ele viu umas construções em
um vale: primeiro uma casa de veraneio, como ele a chamaria; talvez uns três
cômodos e um alpendre na frente, tudo pintado de branco; depois uma espécie de
celeiro e um barracão, brancos também. Tudo ao lado de um pasto cercado onde
dois cavalos estavam assustados com o barulho.
35
Slaughter parou no alpendre e ficou olhando para os cavalos assustados. Voltou-
se para Accum.
- Não, era um gato, já disse. Estourei a maldita cabeça dele. Accum o fitou.
- Mas eu não entendo.
Os tiros vinham do campo, atrás do celeiro.
- Um felino grande, grande mesmo, de uns cinquenta quilos pelo menos, e se
não o tivesse atingido eu acabaria como Clifford.
Com expressão grave, Accum balançou a cabeça. Aquilo simplesmente não
tinha sentido. Não só o ataque, mas a reação violenta de Slaughter. Parecia um
demônio. Claro, trabalhara até tarde e, afinal, tinha sido atacado, mas, santo Deus,
por um gato, e aquilo não era razão para estar com aquele olhar. E então tudo
começou a ter sentido. Aquele buraco, a ideia de que podia acabar como Clifford.
Não sentira medo desde que chegara de Detroit. Não estava acostumado a isso e
ficara furioso por ter se deixado assustar por um gato. Accum não imaginava que
Slaughter fosse capaz de ter medo. Aquilo era estranhamente novo para ele. Ficou
com pena do amigo e sentiu que sua estima por ele estava aumentando.
- Mas você disse que foi um cachorro.
- Certo. Foi um cachorro que matou Clifford - respondeu Accum.
- Então, diga-me por que aquele gato me atacou. No campo, os tiros
continuavam.
- Eu não sei. De qualquer maneira, é melhor me mostrar esse arranhão.
Slaughter mostrou o rosto.
- Eu mesmo fiz o curativo.
O arranhão era longo e profundo; uma ferida grossa e feia.
- O velho Markie me fez tomar umas injeções antitetânicas, quando cheguei
aqui. Contra qualquer eventualidade. Quando eu estava criando aqueles cavalos. Já
teve de enfiar uma agulha na bunda?
Os dois começaram a rir.
- Não. Ainda bem.
- Devia experimentar.
Riram de novo, e os tiros continuavam no campo.
- Talvez precise de alguns pontos.
- Não, não está tão ruim assim. Eu ia procurar você, mas achei melhor voltar
para casa.
Pararam de rir. Claro, eu entendo isso também, pensou Accum. Você não queria
que o vissem tremendo de medo.
Ouviu o motor mais perto e se voltou para olhar o jipe que vinha descendo a
estrada de terra entre as colinas.
36
Slaughter viu o jipe chegar com Rettig e o novo policial a seu lado. Quando se
aproximaram mais, notou outra pessoa atrás. Um homem cujo rosto, através da
poeira, parecia tão enrugado e cinzento quanto seu terno. Mas, quando o jipe parou
e todos desceram, ele pegou um gravador e uma câmera. Slaughter não o via desde
o outono de 1969. Havia mudado muito naqueles dez anos, o cabelo seco e ralo
estava grisalho como... Slaughter desceu do alpendre e foi a seu encontro.
- Há cerveja lá dentro - disse a Accum. - Conversamos depois.
- Espere um pouco. Tenho algumas perguntas.
- Mais tarde.
E continuou se aproximando do homem com a câmera e o gravador. Rettig e o
outro policial não se davam ao trabalho de olhar para o barranco, mas o homem de
rosto cinzento não tirava os olhos de lá, de onde vinham os estampidos.
- Fizemos tudo o que você mandou - disse Rettig. - Não deu em nada.
- Eu esperava isso - disse Slaughter, e olhou para o homem grisalho. - Senhor
Dunlap.
- Então você o conhece? - Perguntou Rettig. - Ele nos disse que...
- Sim, eu conheço. Gordon. Há quanto tempo! O outro sorriu.
- Nathan. Apertaram-se as mãos.
- Recebi vários telefonemas a seu respeito.
- Parsons?
- Isso mesmo. Como veio parar aqui?
- De trem.
- Não foi isso o que perguntei.
- Eu sei. Posso falar com você um instante? Slaughter se voltou para Rettig.
- Veja se Accum tem alguma pergunta.
Rettig olhou para ele durante um momento. Depois, dirigiu-se ao alpendre com o
outro homem. Slaughter se voltou para Dunlap.
- Que machucado é esse em seu rosto?
- Um pequeno desentendimento. E esse arranhão no seu?
- Um probleminha com um gato.
E os dois ficaram em silêncio, enquanto os tiros continuavam no campo.
- Nathan, se não se importa com a pergunta...
- É só um exercício de tiro. Dunlap não entendeu.
- É uma prática que adotamos. Aos sábados, trago meus homens para tomar uma
cerveja e comer alguma coisa. Mas, antes de beber, vão atrás do celeiro e atiram
um pouco. Cidades com esta não exigem isso, mas eu insisto em que treinem tiro
ao alvo pelo menos duas vezes por mês. O pessoal que está em serviço na cidade
estará aqui na semana que vem. Fazemos revezamento. Quer ver?
- Claro.
- Ótimo.
Os dois foram para o celeiro. Dunlap franziu a testa.
- Nathan, eu não entendo. Por que saiu de Detroit?
- Acho que me cansei. Queria algo melhor, mais tranquilo.
- Potter 's Field?
- Um lugar tão bom como qualquer outro. Eu crio meus cavalos. Sei que não
parece muita coisa, mas tenho passado bem.
Estavam mais perto do celeiro.
- Então, qual é o problema?
- O problema é o problema.
- Não entendi.
Eles pararam. Os tiros ecoaram mais alto.
- Nathan, as coisas mudaram muito desde que nos vimos pela última vez.
- Dez anos fazem um bocado de diferença.
- Não, escute, vou ser direto com você. Sempre fui. Tive uma espécie de colapso
nervoso. Não sei bem o que aconteceu, mas perdi todo o estímulo que tinha. Não
sei o que estou fazendo.
Slaughter ficou tenso. Você também? Pensou. Mas não mostrou reação alguma.
Limitou-se a fitar Dunlap.
- Diga-me em que posso ajudá-lo.
- Não sei. É uma coisa louca. Veja, eu tenho esse sonho e..... Tudo bem, eu já
estive aqui antes. Em dezembro de 1971. Havia um ajuntamento lá - e apontou para
as montanhas.
- Sim, ouvi falar. Foi antes da minha chegada.
- Escrevi uma reportagem que nunca foi publicada. Depois disso, comecei a
decair. Ontem, quando me encontrei com Parsons, descobri que nessa época houve
um crime de que eu não sabia. E agora esse sujeito, o Clifford...
- Como você soube disso?
- Eu ainda faço o meu trabalho. Você me perguntou como eu cheguei aqui. Não
tenho certeza. Por Deus, gostaria de ter. Tomei um trem para Seattle e quando
parou aqui não tive outra escolha. Já estava descendo e não tenho a menor ideia do
que estou fazendo aqui. Estou procurando justificativas. E quer ouvir a parte mais
assustadora? E esse sonho. E como se ele me chamasse.
Slaughter não mostrou reação.
- Que sonho?
Estava pensando em seu próprio sonho.
- Por favor, não me pergunte.
- Você anda bebendo?
- Bastante.
- Tenha calma. Olhe, preciso dar uma espiada em meus homens. Não vai
demorar muito. Poderemos falar um pouco mais. Dunlap assentiu.
- Queria tanto saber o que eu estava fazendo...
Passaram pelo celeiro, os tiros ecoando cada vez mais alto, contornaram-no e
viram os homens, todos de jeans e com as mangas arregaçadas, espalhados na
ravina, fazendo pontaria e atirando em latas dispostas a uns oito metros de
distância, abaixo da borda do barranco. Três policiais interromperam o exercício
para carregar as armas e olharam para Slaughter e Dunlap.
- Como estão indo? - Quis saber o xerife.
Os dois que ainda estavam disparando se voltaram e riram.
- Tomara que a cerveja esteja mesmo gelada como você disse.
- Eu menti. Está mais gelada. - Continuaram rindo. - Podemos arranjar alvos
novos se quiserem.
De fato, as latas ali espalhadas tinham mais furos que metal.
- Ora, quando não sobrar nada delas, poderemos considerar que merecemos essa
cerveja.
- Cem tiros cada um. Não menos que isso.
- E você? Não atira nunca?
- Já treinei por hoje.
- Claro que sim. E todos riram.
Slaughter olhou para Dunlap, depois para os outros, deu de ombros e sacou o
revólver. Instintivamente, o jornalista deu um passo atrás. Com um sorriso nos
lábios, Slaughter se aproximou dos homens, o cotovelo dobrado, a arma apontando
para o céu. Concentrou a atenção nas latas. Posicionou-se, o corpo de lado, os pés
bem separados e, baixando lentamente o braço direito, começou a alinhar a mira
com a alça. Era um 38, estilo faroeste, que podia ser carregado tanto com munição
comum quanto com a de tipo Magnum. Fabricação Ruger: coronha quadriculada,
equilíbrio perfeito em sua mão grande e capaz apenas de tiros isolados, de modo
que era preciso engatilhá-lo a cada disparo. Mas Slaughter achava mais precisas as
armas engatilhadas, moviam-se menos ao apertar o gatilho.
A lata foi sacudida pelo tiro firme, o impacto do coice da arma se distribuiu por
igual em todo seu corpo. Engatilhou-a novamente e disparou, engatilhou e disparou
cinco vezes seguidas, os tiros ecoaram um após o outro enquanto a lata se
deslocava, bailava, até tombar o último disparo. Manuseava a arma com uma
rapidez que os olhos mal podiam acompanhar; sabia que estava fazendo uma
exibição, que seus homens queriam apreciar a habilidade que os fazia rir e, agora,
aplaudir, enquanto ele retirava do tambor os cartuchos vazios.
- Vocês ainda têm muitos tiros - disse, apontando para as caixas de balas.
Aproximou-se de Dunlap. - A cerveja está gelada. Peguem os cartuchos vazios
desta vez.
- Sim, sim. - Riram-se os policiais, voltando-se para as latas enfileiradas.
Retomaram o exercício quando, acompanhado de Dunlap, Slaughter passou pelo
celeiro e foi para a casa.
- Você continua muito bom - disse o jornalista.
- É só uma questão de prática. Eu não estava brincando. Faço meus exercícios
antes de eles chegarem. Às vezes atiro com eles. Geralmente, só fico sentado no
alpendre para receber o pessoal. É algo que descobri ao chegar aqui. Há um
cowboy em mim tentando aparecer.
Então, viu Dunlap sorrir. Era bom. Significava que não se havia dado conta do
quanto Slaughter estava preocupado, de que aqueles homens não estavam ali
apenas para praticar tiro ao alvo, mas também para falar sobre o problema que
atingia a todos.
Estava recarregando o revólver.
- É esse seu sonho?
- Já disse que não quero falar a respeito.
- Ora, o que é isso? Em Detroit conseguíamos viver em meio a todos aqueles
tiros. Isso é mais fácil de conseguir.
Sorriu e começou a subir os degraus da varanda. Ia perguntar se Dunlap não
queria uma cerveja quando viu Accum se voltar para ele.
- Seu auxiliar, aqui, diz que o animal ainda está naquele buraco. Quero ver se o
mordeu.
- Não. Pensei nisso também e já verifiquei. Até tirei a roupa ao chegar, mas a
única marca é este arranhão.
Dunlap estava olhando, uma vez mais, para a cicatriz no rosto de Slaughter.
Accum insistiu.
- Só arranhou? Não mordeu?
- Acaso esta cicatriz é de uma mordida? Não, tenho certeza.
E ficou olhando. Controle-se, pensou. O exercício de tiro lhe fizera bem, mas o
assunto fora novamente tocado, e, uma vez mais, ele se sentia invadido pelo terror.
Virou-se para Dunlap.
- É esse o problema. Agora você entende. Se a coisa for divulgada na cidade,
haverá um tumulto incontrolável.
Dunlap estava pálido.
- Foi isso o que aconteceu com esse sujeito, o Clifford? Slaughter o fitou
atentamente.
- Não, não temos certeza. Estamos especulando sobre esse assunto desde ontem
à noite. - Voltou-se para Accum. - Tem certeza de que foi um cachorro que o
matou, não um gato?
- Já disse que sim.
- Tudo bem. - E Slaughter olhou para o chão. - Estou precisando de uma cerveja.
- Olhou a sua volta.
- Claro - disse Dunlap. - Vou buscar.
E Rettig:
- Eu também.
- Vou trazer um isopor - disse Slaughter, e entrou na casa.
37
Por Deus, o que há com você? Pensou, tremendo, quando a porta se fechou. Está
quase entrando em crise. Um gato o ataca, e é como se você nunca tivesse usado
uma arma. O que está acontecendo?
Não estou acostumado a isso.
Você está ficando fraco e frouxo, essa é a verdade. Esta vida, aqui, é tão fácil
que você acaba perdendo a calma ante o primeiro problema.
- Bem, de qualquer forma eu quero examinar aquele gato. Não é comum que
ataquem pessoas dessa maneira.
- Alguns gatos, sim. Quando estava em Detroit, tive meu quinhão de mordidas e
arranhões. Gatos que viviam em lugares abandonados e que tinham se tornado
selvagens. Mas o problema aqui é outro. Foi diferente. Os gatos são capazes de
revidar um ataque, mas não costumam atacar a gente.
Os cinco homens ficaram em silêncio. Dunlap ouvira tudo com interesse.
Slaughter se voltou para ele. Notou que Rettig e o novo policial também estavam
olhando para ele.
- Este é Gordon Dunlap - disse para Accum. - Éramos amigos em Detroit. Uma
vez ele fez uma matéria sobre mim. - Voltou-se para Dunlap. - Gordon, nós
estamos com um problema, mas não quero que você conte para ninguém. Eu
poderia lhe dizer que fosse tomar uma cerveja, mas isso o faria supor que estamos
escondendo algo, e você haveria de fazer tudo para descobrir do que se trata. Por
isso, vou deixá-lo ficar. Mas entenda: o que vamos falar agora fica estritamente
entre nós - e esperou.
- Claro. Imagino que tenha suas razões.
- Logo vai saber delas, - Voltou-se para Accum novamente. - Carreguei meu
revólver com munição tipo Magnum, antes de ir para lá. Eu lhe contei que
arranquei a cabeça do gato, ao atirar. Não sou patologista, mas sei que, para
verificar se um animal está com raiva, é preciso examinar uma amostra de seu
cérebro.
- É mais ou menos isso.
- Pois bem, lá você vai encontrar quantas amostras quiser. O cérebro está
espalhado, em pedaços, em todo aquele maldito terreno. Mas devem estar tão
contaminados que não lhe terão utilidade alguma.
Não, não é verdade. Cumpro o meu dever. Faço bem o meu trabalho.
Mas você sabe que está mentindo. Pode passar anos dando o melhor de si. Mas,
depois, você se vê diante de um problema realmente sério e entende que, na
verdade, estava se enganando o tempo todo. E nem se havia dado conta.
Droga, não sei por que insisto tanto em tentar.
Claro que sabe. É esse vazio dentro de você. E aquela mercearia? Precisa
mostrar para eles.
E aquela era a mais pura verdade.
Estava parado na pequena cozinha, olhando para as duas caixas de isopor com
gelo e latas de cerveja, e pensou em abrir logo uma. Mas aquilo seria uma
demonstração pública de fraqueza. Não aos olhos dos outros. Mas aos dele. Pegou
uma caixa, atravessou a sala de visitas e abriu a porta.
Sequer olharam para ele, concentrados que estavam na cerveja e no gelo. Numa
espécie de ritual, todos abriram as latas ao mesmo tempo, brindaram e beberam.
- Ótimo. O que você sugere? - Disse a Accum. A cerveja muito fria e dourada
lhe desceu pela garganta. Esperava que o relaxasse.
- Bom, independentemente do que você diga, eu quero ver aquele gato. Sugiro
que seus homens fiquem de olho em animais estranhos. Vou verificar, no hospital,
quem chega mordido. Você vê, não há muito que possamos fazer antes que ocorra
outro incidente.
- Isto é, se acontecer.
Rettig não falava há algum tempo, e todos olharam para ele.
- Certo. Se acontecer. Vamos esperar, pelo menos.
A cerveja gelada era uma carícia no estômago de Slaughter.
- Não fiquem esperando um gato ou um cachorro com a boca espumando.
Sintomas como esse são tardios - disse-lhes Accum. - O que estamos procurando é
um ataque sem motivo. Uma agressão totalmente irracional.
Algo surgiu na mente de Slaughter.
- É engraçado.
- O quê?
- Você disse a mesma coisa sobre aqueles cachorros nas colinas. E todos ficaram
em silêncio.
Silêncio demais, notou Slaughter. Em tudo o que os rodeava. Claro. Os homens
haviam parado de atirar e, agora, estavam andando atrás do celeiro, rindo,
gracejando, guardando as armas, esfregando as mãos, e se aproximaram para tomar
uma cerveja.
- Quem morreu? - Perguntou um deles.
- Não é nada. Temos um probleminha.
- Nós recolhemos os cartuchos vazios.
- Ótimo. Recarregue-nos. Podemos precisar deles. E pararam onde estava a
cerveja.
- Tenho de cuidar dos cavalos. Deem um passeio. Vou contar tudo a vocês.
Estava saindo da varanda.
- Não há muito para contar - ouviu.
Rettig, que se afastara para falar com Dunlap, viu como Slaughter o fitava.
- Tem certeza de que não há problemas em falar com ele sobre aquele
ajuntamento?
- Eu não me importo.
Você está ficando nervoso, Slaughter disse para si mesmo, e foi para a estrebaria
com os outros homens.
38
Rettig ficou observando-os quando se foram. Apesar da permissão para falar no
assunto, estava relutante. Lembrava-se ainda do segredo que envolvera o caso.
Houvera tamanho tumulto na cidade, tanta publicidade negativa naquele inverno
que o Conselho Municipal chegara a convocar sessões secretas para discutir os
acontecimentos. Parsons era então, o prefeito, como continuava sendo, e o
consenso geral fora o de abafar as notícias sobre o crime. Do contrário, aqueles
hippies poderiam voltar, aqueles repórteres, e os problemas começariam de novo.
O julgamento fora discreto e o caso permaneceu no Vale; contaram com certa
compreensão das cidades vizinhas situadas além das montanhas, e a vida voltou ao
normal. Mesmo a polícia estadual, que tinha jurisdição sobre o caso, cooperou com
a cidade, pois compreendeu que o Vale estava ligado a ela, e Rettig, que então
estava na cavalaria, foi aconselhado a manter a boca fechada. Não, ninguém lhe
dissera isso explicitamente, mas as implicações eram evidentes e ele, muito
cuidadoso. Fazia agora sete anos que trabalhara no caso, mas ele se lembrava de
como eram as coisas então, e lhe era difícil quebrar o hábito.
- Realmente. Não é muita coisa. Você já tem a maioria dos dados. Eu fui lá e
procurei o lugar.
- O Corvette vermelho. Você o encontrou? - Perguntou Dunlap.
- O quê?
- O Corvette vermelho. O modelo clássico de 1959 que Quiller dirigia.
- Ouvi falar sobre isso. Não, não o encontrei. Ah, eu encontrei um furgão e uma
pick-up. Só isso. Nenhum Corvette vermelho. Pode acreditar, eu me lembraria.
- Que diabo está acontecendo? - Rettig olhou para ele. - Eu investiguei e, pelo
que descobri, esse carro nunca foi vendido. Mas sei que Quiller o levou para lá. O
que foi feito dele?
- Quem há de saber? Estou lhe contando exatamente o que vi. Se eu estivesse
procurando aquele carro, poderia tê-lo encontrado. Mas estava preocupado em
achar o garoto.
- Você o achou?
- Depois. Demorou um bocado. Vasculhei o acampamento e a floresta.
Se eu não tivesse parado para um cochilo, nunca o teria encontrado. Achei-o
perto de uma cova que estavam cavando para um outro. Ele estava imundo.
Lembro-me disso. E amedrontado também, embora jamais tenha dito o que lhe
havia acontecido no acampamento. Estava com medo sobretudo do pai. Quando o
levei para os jipes, recusou-se a viajar com o pai. Fomos obrigados a levá-los
separados.
- O que disse Quiller?
- Como?
- Quiller.
Rettig deu de ombros.
- Ninguém o viu.
- O quê? Você vasculhou o acampamento e não o viu?
- Ninguém o viu.
- Bem, onde poderia ter se escondido? Em primeiro lugar, por que haveria de se
esconder?
- Não me pergunte isso. Deve ter ficado na floresta. Não sei que diferença isso
faz.
- Nem eu - disse Dunlap, voltando-se para ver se os outros ainda estavam
olhando. - Mas gostaria de entender o que houve.
39
- Warren!
Ele estava gritando. Ela foi rapidamente da sala à cozinha, olhou pela porta de
tela e o viu correndo, no quintal, em sua direção.
- Warren!
Vinha segurando a mão. Ela viu o sangue, a carne arrancada, e empurrou a porta
para ir a seu encontro. Ele continuava gritando.
- Warren! Diga o que aconteceu! - Ela o segurou e sentiu o sangue lhe ensopar a
manga, as lágrimas assustadas lhe molhavam a blusa. - Warren! Por favor! Você
tem de...
- Foi vidro!
- Mas...
- Vidro quebrado!
- Deixe-me ver!
Olhou para ele, para o sangue. Não sabia bem o que fazer. Sabia que tinha de
conter o sangue. Mas o que causara aquilo? Como era o corte? Tentou guiá-lo.
- Deixe-me ver, Warren!
Ele apontou para os fundos da casa. Ela olhou e viu a barrica de metal no quintal
do vizinho. O sangue na borda. O sangue nas latas enferrujadas, no vidro quebrado,
nos refugos que o velho amontoava. Warren devia ter subido à procura de alguma
coisa e, tendo perdido o equilíbrio, cortara-se.
- Meu Deus, quanto sangue!
Girou o corpo para vê-lo. Segurando a mão, ele corria para a porta; chamou-o,
mas já desaparecera da porta. Correu em sua direção, viu o sangue no chão.
Procurou-o no banheiro. Onde estava? Voltou. Encontrou-o no quarto, chorando, o
sangue molhando os lençóis. Precipitou-se. Que importavam os lençóis? Enrolou a
mão num deles e o levou ao banheiro.
- Não!
- Tenho de lavar isso, para ver como está.
- Não toque na ferida!
Ele chorava enquanto ela retirava o lençol e lhe empurrava a mão para a pia.
Abriu a torneira.
Ele gritou novamente.
Muito quente. Abriu a outra chave, a água começou a sair morna, e ela lavou o
sangue. Viu a ferida, mas o sangue continuava a escorrer. Esfregou mais, removeu
a sujeira e os coágulos escuros, e, por Deus, a mão estava toda lacerada. Oh, meu
filhinho, pensou, e sentiu o peso, e compreendeu, mesmo antes de olhar, que ele
havia desmaiado.
40
Sentiu um cheiro estranho. Não queria estar ali e tentou voltar para o escuro,
mas o cheiro era ainda mais forte. Começou a piscar, a tentar evitar a luz que o
rodeava, e viu o estranho homem de avental branco se inclinando sobre ele.
Começou a chorar.
- Está tudo bem, Warren.
Era a voz da mãe, voltou-se para ela. O pai estava ao seu lado. Pareciam
zangados.
- Mamãe, eu...
- Está tudo bem, Warren. Não fique com medo. O médico está cuidando de você.
Voltou a olhar para o homem cujo avental branco estava salpicado de manchas
vermelhas. Estava segurando uma espécie de cápsula de plástico que acabava de
partir, e o cheiro estranho parecia vir dali. Warren continuava chorando. O homem
era bem mais jovem e mais magro que o médico que ele sempre consultava, e as
espinhas que tinha no rosto se pareciam com as manchas vermelhas do avental.
Warren não conseguia parar de chorar.
- Tudo bem, filhinho. Estamos aqui agora. Você está bem. Warren entendeu,
lentamente, que o haviam deitado numa mesa, seu corpo coberto com um lençol
branco, e sua mão estava entorpecida, esquisita. Levantou-a. Parecia uma bola
branca. Estava toda enfaixada, de modo que ele não conseguia ver nem mover os
dedos.
- Ainda está em estado de choque. Vai levar algum tempo para voltar ao normal -
ouviu o médico dizer.
Alguém lhe enxugou os olhos. Olhou. Era a mãe. Estava sorrindo. Não, afinal
não estava zangada afinal. Como o teriam levado ali?
- Warren, pode nos contar o que aconteceu?
Voltou-se para o médico, tentando se lembrar da história que pensava contar.
- Foi o vidro - disse lentamente.
- Naquela barrica?
- É, eu me cortei.
O pai cerrou o punho.
- Eu vou processar aquele velho.
- Harry, por favor; aqui não - disse a mãe.
Bem, livrara-se do pior. Eles que continuassem conversando.
- Warren, deixe-me dizer o que eu fiz em você - disse o médico. - Sua mão tem
de ficar enfaixada. Eu a costurei. Dei alguns pontos. Entende isso?
- Entendo. É como quando mamãe faz um vestido. Todos sorriram.
- É uma coisa assim. O corte era fundo demais para que a ferida cicatrizasse
sozinha. Peguei uma linha como esta, que se chama categute, e costurei o corte.
- A linha vai ficar aqui dentro?
- Não. Daqui a uma semana, mais ou menos, vou tirar os pontos e você vai ficar
como antes. Talvez fique com uma cicatriz - e o médico olhou para os pais - mas
você ainda vai crescer muito, e ela vai desaparecer. Agora que entendeu isso, não
carregue muito peso com essa mão. Se pegar coisas pesadas com ela ou brigar, vai
demorar mais para que possamos tirar os pontos. Vá com calma. Deixe seu pai e
sua mãe fazerem as coisas por você.
- Eles vão arrumar a cama para mim?
- Claro que vamos - disse o pai. - E vamos continuar lhe dando a mesada.
Warren sorriu. Que bom, conseguira se sair daquela, e podia enxugar as
lágrimas. Desajeitadamente, tentou se sentar, com auxílio da mão enfaixada.
- Deixe-me ajudá-lo - disse a mãe, e o colocou sentado na beira da mesa.
- Acho que ele vai ficar bom - disse o médico. - Levem-no para casa. Deem-lhe
estes comprimidos, quando passar o efeito da anestesia. Telefonem se houver
algum problema. Mas acho que vocês só vão precisar trazê-lo de volta dentro de
uma semana.
- E a bandagem?
- Troque toda noite. Nas primeiras vezes, vão ter de molhá-la antes de tirar. O
sangue seco pode arrebentar os pontos.
- E curativos?
- Qualquer coisa que a senhora tenha em casa. Pomada antisséptica é boa. Eu
lhe apliquei uma injeção antitetânica. Não vejo nenhum problema a mais.
- Ótimo, então. Obrigada - disse a mãe.
- Foi bom terem-no trazido logo para cá. Estava sangrando muito. Continuaram
conversando, mas Warren não prestou atenção. Ficou olhando para a sala, os
armários e os instrumentos brilhantes de metal. Não queria pensar nisso, mas
estava atordoado. Houve um momento em que quase caiu da mesa.
- Tudo bem, rapaz. É melhor a gente voltar para casa. Apesar da coceira e do
ardor na mão, não deixava de se sentir feliz.
Tinha se livrado daquilo. Agradeceu ao médico, como lhe disse a mãe, e até
acenou para ele com a outra mão, e acompanhou os pais. Ao passar pela porta, viu
que aquele não era o consultório de sempre. Estava num corredor, viu as
enfermeiras, o velho na cadeira de rodas e ficou maravilhado com a ideia de estar
num hospital. Sabia que se havia machucado muito, mas não imaginava que fosse
tanto.
Foram andando para o carro, e o pai lhe segurou a mão sadia. Não estava
zangado por ter sido chamado no trabalho. Ter ido direto para o quarto fora melhor
do que havia planejado. Não havia pensado nisso até o momento em que começara
a correr para o banheiro. Durante toda a noite, tentara achar um meio de esconder
a mordida. A mão estava toda inchada, com marcas de dentes. Ele ficara
encolhido de dor. Na hora do café, a mãe veio chamá-lo, mas ele se enfiou nas
cobertas, fingindo querer continuar dormindo. Ficou ali até perceber que ela vinha
tirá-lo da cama. Por isso esperou que ela fosse para a sala e, então, tentou fazer o
curativo sozinho. A dor era tanta que o fazia tremer. Chegou a sujar a manga.
Então percebeu o que tinha de fazer, e foi até a barrica do vizinho. A pior parte
tinha sido pingar algum sangue no vidro. Quando tirou o trapo que tinha enrolado
na mão, viu a mordida feia, inchada, latejante, coberta de sangue sujo. Sentiu um
calafrio e tocou uma garrafa quebrada com a ferida. Mas perdeu o equilíbrio e a
ferida arrebentou, não por causa do vidro, e sim do choque. Nunca sentira uma dor
tão alucinante.
E não conseguiu parar de gritar.
41
- Diga como veio parar aqui.
- De carro.
Dunlap riu. Estavam na estrada em direção à cidade. Olhou para Slaughter.
- Não. Essa não.
- Não gosto muito de falar nisso.
- Você parece comigo. Entreolharam-se.
- Suas mãos estão tremendo.
- É normal.
- Precisa de um drinque?
- De alguns.
- Você devia andar sempre com uma garrafa, para emergências - ironizou
Slaughter.
- Deixei uma no quarto. Achei que ia aguentar.
- É tão grave assim?
- Pior ainda. Eu não estava brincando.
- E o seu sonho?
- Então me conte como veio parar aqui.
Slaughter olhou para ele. Seu olhar era estranho. Alguma coisa aconteceu
comigo, pensou. Perdi a calma. Dunlap sabia o quanto era difícil para ele admiti-lo.
- Estou dependendo da sua amizade.
- Sim, eu sei.
- Não sou capaz de dizer com exatidão, mas nunca mais voltei a ser o mesmo.
Minha mulher se divorciou de mim - continuou Slaughter.
- Você a estava enganando?
- Não, nunca tive essa inclinação.
- Ela simplesmente não aguentou mais.
- Exatamente.
- Acho que minha esposa também não demora a se divorciar de mim - disse
Dunlap.
- Pela mesma razão?
- Sem dúvida.
- A bebida?
- Em parte.
- Então eu saí da polícia - prosseguiu Slaughter. - Sentei-me uma noite à mesa da
cozinha e me perguntei em que lugar estaria melhor.
- E escolheu isto aqui?
- Espere. Abri um mapa. Eu sonhava com as montanhas. Cavalos correndo
livremente. Nunca os tinha visto, nunca havia estado perto deles. Mas eles
representavam tudo o que eu queria. Procurei as regiões montanhosas. Selecionei
no mapa todos os lugares que tinham algo a ver com cavalos.
- E escolheu Wyoming.
- Eu simplesmente fechei os olhos e apontei o dedo.
- E era Potter 's Field.
- Conheço muita gente que acabou ficando num lugar por razões piores.
- Não estou questionando.
- Eu sei. Vim para cá no dia seguinte e achei ótimo. Claro, foi difícil no começo.
Tentei criar cavalos e não consegui. E de repente me vi de novo na polícia. Mas a
vida aqui é exatamente como eu quero. As coisas não são complicadas a ponto de
me absorverem. Tenho liberdade. Veja, o que aconteceu com você?
- Ah, a gente tem ambições, imagino. Você quer provar o quanto é bom e eu
nunca cheguei a corresponder às minhas expectativas.
- Ou talvez gostasse tanto da bebida que acabou se distraindo delas. Dunlap deu
de ombros.
- O ovo ou a galinha. Que diferença faz? Terminei aqui. Não importa como isso
aconteceu; eu sei que me pegou.
- Bem, então por que você não cede? Por que não se estabelece num lugar como
este? - Dunlap começou a rir. - Estou falando sério. As coisas poderiam ser muito
piores, às vezes acabamos ficando exatamente onde deveríamos estar.
- Ou onde merecemos estar. Estou contente de ver você, Nathan. Mas não gosto
nada do que estou sentindo.
42
Estava cheirando o sapato. Sentou-se, confuso com a estranha sensação na
garganta. Continuou olhando para o sapato. Esperou, quase o cheirou novamente,
mas preferiu ir até a pilha de roupas num canto. Azuis, ainda enlameadas, úmidas
como o sapato. Mais uma vez sentiu aquele aperto na garganta, ficou com raiva,
investiu contra as roupas. Rosnando.
A um lado, um outro tipo de sapato, escuro e esfolado, levemente manchado e
com um fraco odor, em parte de suor, em parte da pele do animal a que tinha
pertencido. Farejou mais de perto. Então mordeu o couro e o sacudiu. As roupas
que estavam dependuradas lhe roçaram a cabeça e o incomodaram. Avançou sobre
elas, mordeu-as, e algumas lhe caíram em cima. Abafado, assustado, estava lutando
para sair debaixo e rosnava, dava patadas. Começou a latir. Estava mordendo e
rasgando uma peça quando ouviu ruídos no corredor. Voltou-se e ficou atento, mas
a porta estava fechada. Os ruídos cessaram. Voltou às roupas, rosnando, rasgando.
Houve um estalo. Olhou para a porta. A maçaneta se moveu. Ficou rígido, o
tecido ainda entre os dentes. A maçaneta continuou girando. A porta se abriu e ela
entrou. Com a peça de roupa na boca, arreganhou os dentes e rosnou.
Ela respirou fundo.
- Warren?
Saltou sobre ela, fazendo-a recuar, tropeçar e bater o cotovelo na porta, que se
fechou a suas costas. Apoiando-se no batente, ela começou a tatear em busca da
maçaneta, mas ele voltou a atacá-la. Ela fez um movimento na direção da cômoda,
para esquivar-se.
- Warren!
Ele não parava de rosnar, continuava avançando.
- Warren!
Começou a chutá-lo e a atirar as fotos e objetos de cima da cômoda. Subindo na
cama, pôs-se a gritar. Atacando novamente, ele a surpreendeu mal equilibrada, e os
dois caíram do outro lado da cama; ela bateu duramente as costas no chão quando
ele lhe agarrou a garganta. Ela gritou e esmurrou, atingindo-o no nariz, no
pescoço. Ele sentiu o sangue escorrer pelos lábios, o gosto salgado na boca, e teve
náuseas. Agitou-se um pouco para se livrar daquele sabor e, irritado com a náusea,
tentou lhe cravar os dentes no rosto. Aproveitando-se, no entanto, de sua hesitação
momentânea, ela encontrara apoio na mesinha ao lado da cama e se levantando
para chutá-lo. O sapato vinha diretamente contra seu rosto, mas ele teve tempo de
se esquivar e de mergulhar os dentes pouco acima de seu joelho. Ela gemeu e
sacudiu a perna para se livrar, mas ele continuava mordendo e rosnando e sentindo
o sangue lhe jorrar na boca, o mesmo gosto salgado. Teve náuseas novamente. Ela
conseguiu girar o corpo, torcer a perna e livrar-se. Alguma coisa dura o atingiu no
ombro, cacos de vidro e o quebra-luz passaram voando. A dor lhe atravessou o
corpo. Ganiu e ficou mais um momento atordoado. Ela, porém, já não estava
diante dele. Estava passando tropegamente a seu lado, tentando chegar à porta, e
ele girou o corpo, rosnou e saltou quando ela estava estendendo a mão para agarrar
a maçaneta, e a puxou, e fugiu para o corredor.
Ele saltou para a porta e tentou mover a maçaneta. Ela estava do lado de fora,
gritando. Mas a maçaneta não se movia. Ouvindo-a gritar do outro lado,
compreendeu vagamente que estava segurando a maçaneta, puxando a porta,
mantendo-a fechada, não tinha como chegar a ela. E mais, percebeu o perigo.
Outros viriam. Prendê-lo-iam. Tinha de fugir. Voltou-se em busca de uma saída,
viu a janela aberta, a tela, depois o alpendre e o ar livre, e já estava avançando,
saltando, chocando-se com a tela que lhe cortou o rosto, mas cedeu; e atravessou-a,
caiu, o alpendre pareceu subir a seu encontro. Escuridão. Dor. Sacudiu a cabeça, o
gosto salgado lhe inundava a boca. Logo conseguiu voltar a ver, cuspiu, teve
náusea, pulou a cerca rumo ao matagal e escutou alguém gritar:
- Warren!
43
Slaughter recebeu o chamado ao passar pela periferia da cidade. Pegou o
microfone.
- Tudo bem, Marge, entendido. - Ligou a sirene e o pisca-pisca e olhou para
Dunlap. - Bem, aquele drinque vai ter de esperar.
Pisou no acelerador, passando velozmente pelas casas, cantando os pneus numa
ruela, fazendo com que as pessoas parassem para olhar, concentrando-se
unicamente no caminho à sua frente. Desviou-se a tempo de um rapaz num furgão.
Se não tomar cuidado, vai atropelar uma criança para procurar outra. Diminua a
velocidade.
Mas não conseguiu. Tremiam-lhe as mãos enquanto ele se esforçava para não
atropelar ninguém numa esquina. Ultrapassou um sinal de PARE, apesar do carro
que se aproximava; quando virou a esquina seguinte, viu o aglomerado de pessoas,
os carros estacionados e uma mulher alta que estava gritando enquanto outras a
rodeavam.
Todos se voltaram para o jipe. Ele estendeu a mão para desligar a sirena. Outras
pessoas começaram a atravessar a rua em direção à casa, obrigando-o finalmente a
diminuir a velocidade. Deixou o carro estacionado em fila dupla diante da casa,
desligou o motor e pegou o chapéu. Um caminhão parou a sua frente, no momento
em que estava descendo do jipe, um homem saltou e correu na direção do grupo de
mulheres. Imaginou que era o marido. Abriu caminho e se aproximou das mulheres
no mesmo instante. Ele percebia vagamente a presença de Dunlap atrás de si.
Ela se agarrou ao marido.
- Peg, o que aconteceu?
- Ele me atacou.
- Quem? - Perguntou Slaughter, chegando mais perto.
Ela continuou soluçando.
- Warren. - E engasgou.
Agora, Slaughter tinha pelo menos um nome.
- O que aconteceu com a sua perna?
Todos olharam para o sangue que lhe escorria da perna e molhava o sapato.
- Ele me mordeu.
- Quem? - Perguntou o marido.
- É o que estou dizendo. Não pude evitar que me atacasse.
- Onde está ele? - Quis saber Slaughter.
- A janela. Ele estava andando de quatro, como um animal. Slaughter correu
para a casa. Era térrea, com varanda à frente e a um lado. Imaginou que Warren era
o menino de que Marge havia falado quando chamou; achou que era melhor olhar
pelas janelas do lado de dentro, em vez de entrar e correr o perigo de ser atacado.
Passou pela faia de jardim, subiu os degraus e se viu no alpendre que lhe fazia
ecoarem os passos. Olhou para a sala, e nada viu. Seguiu pelo lado da casa. Outra
janela que dava para a sala. Mais além, parou diante de uma tela que pendia de
uma terceira janela. Pegou o revólver - um revólver contra um menininho? - E,
quando viu o estado do quarto, engoliu em seco. Tudo estava destruído. Viu o
rastro de sangue no chão, tanto lá dentro quanto na varanda, e que chegava até o
lugar onde ele estava, junto ao parapeito, pouco acima dos arbustos quebrados ao
lado da casa. Correu novamente para a frente da casa. A mulher continuava
soluçando e o marido a sustentava nos braços. As pessoas se haviam afastado
deles, ficavam observando e conversando entre si.
- Ele fugiu pela janela do quarto? - Perguntou Slaughter. Sem fôlego para falar,
ela fez um gesto afirmativo.
- Foi para aquele terreno lá atrás?
- Eu não vi. Só ouvi o barulho e, quando olhei, ele já tinha ido. Por que fez isso?
- Ainda não sei.
- Não entendo por que me mordeu.
Voltou a soluçar descontroladamente. Depois de pensar um pouco, Slaughter
correu para o jipe.
- Marge, temos um problema aqui. Esse menino entrou numa espécie de crise.
Atacou a mãe e, agora, está solto por aí. Quero todo mundo procurando.
- Mas nós já tivemos chamados demais.
- Não importa. Faça isso. E no endereço que você me deu. E mais uma coisa:
chame Accum.
- Alguém morreu?
- Chame-o, só isso. Não tenho tempo para conversar agora. Chamo novamente
dentro de quinze minutos.
Ele estava recolocando o microfone no gancho. Não tinha pensado em perguntar
à mãe, mas já sabia a resposta. De qualquer modo tinha de verificar. Desceu do
jipe, olhou para Dunlap, que estava a seu lado, e correu novamente para junto da
mulher.
Ela ainda estava agarrada ao marido.
- Senhora Standish. - Lera o nome na caixa de contas. - Veja, eu sei que é difícil
para a senhora, mas, por favor, eu preciso fazer algumas perguntas.
Ela se voltou lentamente. Desde o começo, ele sabia que teria de mexer na
ferida, mas não lhe restava senão perguntar. Olhou para as pessoas que os
rodeavam e lhes voltou as costas.
- Por acaso seu filho se queixou de algum animal que o tenha ferido? Um
cachorro que o tenha mordido ou um gato? Qualquer coisa assim?
Todos olharam para ele.
- Mas eu não entendo. - Disse a mulher.
- Não foi mordido - disse o marido. - Nós o ensinamos a não brincar com
animais que não conhecesse.
- Ele se cortou - disse a mulher, e Slaughter olhou para ela.
- Diga-me como se cortou.
- Vidro quebrado - disse o marido. - Uma barrica cheia de cacos no terreno aqui
atrás.
Slaughter ficou intrigado. Tinha certeza de que o garoto fora mordido.
- Há algumas semanas, tente lembrar-se. Aconteceu algo estranho com ele?
- Esta manhã.
- O quê?
- Ele se cortou esta manhã. Mas por que uma mordida de cachorro? Por que isso
é importante?
Slaughter mal conseguiu responder.
- É que tivemos problemas com esses cachorros selvagens das colinas. Não é
nada. Olhe, eu preciso de uma foto de seu filho. Para me ajudar a identificá-lo.
Queria mudar de assunto. Os dois olharam para ele e assentiram. Foram para a
casa, Slaughter atrás deles, realmente sem compreender. Se o garoto não havia sido
mordido, por que se comportara daquela maneira? Quem sabe o que ele dissera a
Marge estivesse certo. O menino sofrera um ataque. Talvez o tivessem maltratado.
Talvez houvesse reagido e fugido de casa. A única maneira de saber era encontrá-
lo, e, quando o casal entrou em casa, Slaughter se voltou para ver o sol, que estava
quase junto às montanhas do Oeste. Logo viria o crepúsculo e, depois, a noite;
como haveriam de encontrar o garoto na escuridão?
Olhou para a sala. Tudo muito limpo e em ordem. Uma pessoa que conservasse
assim a casa não era do tipo capaz de espancar uma criança.
Mas foi isso que o enganara em Detroit. E começou a desejar que seus homens
estivessem ali, para começar a procurar o garoto.
O marido voltou com a foto. Louro, rosto claro, olhos azuis, roupa de domingo.
O garoto se parecia muito com o filho de Slaughter nessa idade, e ele se sentiu
incomodado ao olhar para a fotografia. Meu Deus, esse garoto deve estar
aterrorizado. Mas não podia mostrar o que estava sentindo. Simplesmente voltou-
se para o pai.
- Obrigado. Nós a devolveremos.
- Olhe, minha esposa está abalada demais para voltar a falar sobre isso. Por
favor, encontre-o.
Slaughter ouviu as sirenes e se voltou quando dois jipes pararam na rua em
frente.
- Vamos encontrá-lo. Prometo. E acho que sua esposa deve ir ao médico.
- Ela vai melhorar. Só precisa descansar um pouco.
- Não, estou me referindo à perna. Uma mordida humana. Provavelmente está
infeccionada.
- Vou tomar o cuidado de limpá-la.
- Leve-a ao médico - disse Slaughter. - Eu volto para perguntar isso. Agora tenho
de ir.
Com a foto na mão, saiu da varanda, e os policiais vieram ao seu encontro.
- Este é o menino que estamos procurando - disse-lhes. - O nome dele é Warren
e deve estar assustado. Mas fiquem longe dele. É uma criança, mas já atacou a
mãe, e eu não quero nenhum de vocês feridos.
Olharam preocupados para ele e, depois, para a foto.
- Vocês dois vasculham as ruas nesta direção. Vocês dois, na outra. Eu vou para
o terreno dos fundos. E lembrem-se: não se descuidem só porque ele é pequeno.
Não sei o que aconteceu aqui, mas alguma coisa está errada.
Ele olhou para os homens. Depois, voltou-se para os curiosos junto à cerca.
- Já está tudo bem. Nós vamos cuidar das coisas. Quero que todos vocês voltem
para casa. - Mas eles continuaram ali parados, olhando para ele. - Aqui vocês só
atrapalham. - E começou a andar em direção a eles, gesticulando para que se
fossem, e, lentamente, começaram a se afastar. - Vocês logo vão saber o que está
acontecendo aqui. Agora voltem para casa.
O grupo se dispersou, e ele se voltou para os homens. Viu-os entrando nos carros
e ficou sozinho, a não ser por Dunlap, que estava olhando para ele.
- Não tenho tempo de levá-lo ao hotel.
- Eu esperava que não. Slaughter concordou.
- Disseram que ele não foi mordido.
- Sim, eu sei. Não faz muito sentido.
Os dois fecharam as portas do jipe e Slaughter foi dirigindo.
44
Ouvira um barulho ali e vira um cachorro sair correndo do buraco, o olhar
furtivo, as orelhas baixas, a cauda entre as pernas, e fugir rapidamente. Viu um
fiapo de carne sangrenta em sua boca e, embora tivesse de consultar os manuais no
escritório, tinha certeza de haver lido em algum lugar que a raiva podia ser
transmitida pela carne dos animais afetados. Não tinha revólver nem saberia usá-lo
se tivesse, mas, se Slaughter estivesse ali, ter-lhe-ia pedido que matasse aquele cão.
Ou que o capturasse. Se bem que esta segunda alternativa fosse arriscada, o
animal podia ser mais esperto que eles. Melhor simplesmente matá-lo. Não
importava que tivesse dono. Não importava sequer que ele preferisse um animal
vivo para fazer alguns testes. Aquele cachorro era um perigo. Estava indo na
direção dos currais e, se estivesse mesmo com raiva, não seria pequeno o dano que
haveria de causar. É claro que tão cedo não desenvolveria os sintomas, não
morderia o gado, mas poderia deixar o vírus, bebendo, talvez, da mesma água, e o
gado todo poderia se contaminar. Ficou observando o cachorro que desapareceu
entre os arbustos perto dos currais. Viu o movimento suave do gado, aquelas
formas pardas agrupadas. Molhou os lábios e olhou para o sol de verão.
Era meio-dia, estava com sede e se sentia abatido pelo calor. Tinha deixado o
casaco no carro, tirara a gravata e desabotoara a camisa. Agora estava
arregaçando as mangas e indo para o buraco. Todos os ruídos que fazia lhe
pareciam muito fortes. A areia seca triturava sob seus passos - nunca usava as
botas de cowboy que tantos usavam por ali, suas roupas ainda eram as do Leste - e
estava convencido de que seria perda de tempo fazer testes no que havia sobrado
ali. Havia apenas pedaços espalhados de cérebro e, pior, já estavam contaminados
com ovos de mosca e em pleno processo de deterioração. O gato era grande, negro,
forte. Podia entender porque Slaughter se havia assustado tanto, mas teria sido bem
melhor se tivesse atirado em outro lugar que não a cabeça, se não o tivesse matado.
Bem, não havia mais o que fazer. Mas aquilo não podia ficar ali. Se estivesse
contaminado, teria de colocar tudo num saco lacrado e destruí-lo.
Era meticuloso. Colocando avental, luvas de borracha, máscara, usou uma pinça
para colocar os pedaços num saco plástico. O processo levou meia hora. Ao
colocar a carcaça no saco plástico, guardou também a pinça. Não confiava naquele
sangue seco na areia e voltou ao carro para pegar a pá que sempre levava no porta-
malas, assim como o saco de lixívia. Colocou a areia no saco e borrifou com
lixívia. Guardou, finalmente, tudo, pá, máscara, avental, luvas, no porta-malas do
carro.
Teve súbita consciência do silêncio. Nenhum vento, nenhum carro passando,
nenhuma voz humana. Nenhum ruído nos currais. Bem, pensou, num sábado não
há muito o que fazer. Mas tinha a estranha sensação de não estar sozinho. Claro,
pensou. Com avental, máscara e luvas neste buraco, eu devo parecer um ser de
outro planeta. A vizinhança toda deve estar me observando por trás das persianas.
Mas, ao olhar, nada viu que confirmasse sua hipótese e, tentando evitar a
premonição dentro de si, entrou no carro e se afastou.
Tomou a direção do hospital. Olhando pelo retrovisor, viu dois homens saírem
rindo do Railhead. Viu uma mulher sair de casa, atravessar a rua e entrar no carro.
Acreditou ver, vagamente refletidos no espelho, trabalhadores dos currais andando
na rua atrás dele. Era como se o mundo tivesse retomado seu movimento depois
que ele saiu daquele lugar. Achou que devia controlar sua imaginação, colocar a
mente em ordem.
Porque aquilo era algo que realmente mexia com ele. Se não se atrevia a
imaginar todo o problema que talvez estivesse prestes a tomar corpo, em abstrato,
achava-o bastante atraente. Estava na mesma situação que enfrentara, certa vez, na
Filadélfia. Tinha um enigma a resolver, um segredo pronto para ser descoberto. No
caminho, viu um gato empoleirado, com todo seu esplendor felino, na balaustrada
de uma varanda. Passou por um garoto que passeava com um Cocker Spaniel. E,
porque o dia estava quente, descansou o cotovelo na janela aberta, deixando que o
vento provocado pelo movimento do carro lhe acariciasse os pelos do antebraço.
Estava quase espantado com o bem-estar que sentia. Dez quarteirões mais adiante,
entrou no estacionamento do hospital. Acenou para um homem da enfermaria
infantil que passou por ele. Estacionou em sua vaga, desceu e já estava com a
chave na mão para abrir o porta-malas quando algo o fez caminhar mais
lentamente e por fim parar.
Algo a que já estava tão habituado que, havia muito, deixara de merecer sua
atenção. A não ser na noite anterior, quando estava conversando com Slaughter no
escritório e voltara a notar aquilo, se bem que fora o xerife quem tocara no assunto
primeiro, lembrando-o inconscientemente. De qualquer modo, a coisa ficara tão
associada à conversa deles que, sem dúvida, tê-la-ia notado, mas, normalmente, ela
simplesmente se misturava com tudo quanto a rodeava e não chamava a atenção.
Agora que todas as coisas que o ocupavam o distraíam, aquele som mudara,
chamando atenção sobre si mesmo.
Deteve-se e, com a mão estendida para o porta-malas, voltou a cabeça. Mesmo
ao girar todo o corpo em direção às árvores ali atrás, sua mão ainda estava
estendida, rígida, então ele a notou e a deixou cair lentamente para junto do corpo.
Sentiu os músculos tensos, quase não foi capaz de comandá-los quando se dirigiu
às árvores. Durante todos os anos que passara trabalhando ali, jamais se
aproximara delas, nunca sentira curiosidade. Havia um leito seco de regato, sabia,
que na primavera se enchia com a neve derretida das montanhas. Mas não tinha por
que se aproximar dele e sempre se limitara a observá-lo à distância, do
estacionamento. Todas aquelas árvores com suas folhas verdes, seus ramos sem
flor, no começo da primavera eram um espetáculo agradável aos olhos. Agora,
porém, em junho, aquilo parecia uma selva, as árvores densas, sombrias, os
arbustos enredados em trepadeiras, sem falar na cerca enferrujada.
Tinha medo das cobras, de bichos rastejantes que não podia ver, mas, agora que
se aproximava da cerca e olhava para o mato denso do outro lado, só conseguia
pensar no ruído que vinha de além das árvores.
Segurando-se numa estaca inclinada para manter o equilíbrio, colocou o pé no
arame. A estaca continuou balançando e, sob a pressão de seu peso, foi cedendo
suave e debilmente, inclinando-se para o chão até quase tocá-lo.
Olhou para as formigas, centenas, talvez milhares de formigas. Estavam fugindo
do formigueiro destruído pelo movimento da estaca, levavam ovos brilhantes,
oblongos entre as pinças, e se dispersaram em todas as direções. Recuou enojado.
Aquelas horríveis formas rastejantes! Sentiu coceiras na pele, um azedume na
boca. Teve consciência da ironia que havia em ser capaz de olhar para cadáveres
queimados e mutilados, montes de cadáveres, ocupando-se exclusivamente com os
problemas, por exemplo, dos pulmões, e, ao mesmo tempo, não suportar olhar para
aqueles insetos em pânico aos seus pés. Ora, pensou, devia ser por causa da
surpresa. Na morgue, tinha o controle da situação, enquanto ali era esta quem o
governava. O ruído, além das árvores, ficou ainda mais forte, e ele se aproximou da
cerca. Passou por cima do arame caído, evitando as formigas, olhando fixamente
para elas mesmo quando as contornava, dirigindo-se às árvores.
Sentiu os arbustos agarrarem às calças enquanto avançava, inclinou-se sob um
ramo mais baixo e não demorou para que se visse rodeado pelas árvores. O chão
era um declive coberto de mato alto, as trepadeiras se agarravam à bainha da calça.
Tudo era abafado, escuro e tímido. Logo as árvores se separaram e ele se deparou
com o leito do regato. Era fundo, seco, arenoso e, em alguns lugares, via-se uma
pedra ou um pedaço de madeira polido pela água. Notou as minúsculas trilhas dos
animais visíveis na areia. Seguindo uma delas com os olhos, percebeu um
movimento dez passos à sua direita, perto da margem - um esquilo, erguido sobre
as patas traseiras, estava olhando para ele e, num instante, desapareceu num buraco
sob a raiz de uma árvore. Ainda colocou a cabeça para fora e piscou antes de sumir.
Olhou uma vez mais para o leito do regato, engoliu em seco e, estendendo
cuidadosamente a perna, começou a descer a margem. A areia do fundo era macia
sob seus pés, e ele não gostou daquela sensação nem gostou do pneu roto e
semienterrado que viu entre as pedras, no lugar onde o riacho fazia uma curva para
a direita. Estava ansioso por subir ao outro lado, foi caminhando de lado na terra
desbarrancada da outra margem, subindo lentamente, depois perdeu o equilíbrio,
agarrou-se instintivamente a uma raiz mais acima, largou-a rapidamente, caiu sobre
os joelhos, porém, mesmo tropeçando, continuou subindo.
Por fim, chegou à outra margem e, ofegante, parou e olhou à sua volta. Limpou
a terra das calças e olhou para as mãos. O ruído estava ainda mais forte e vinha da
direita, não de sua frente. Seguiu naquela direção, inclinando-se ao passar por
outras árvores, evitando os arbustos, e, subitamente, viu-se liberto daquele
emaranhado vegetal, o sol dardejou sobre ele, o ar livre se abriu a sua frente e ele
viu o fundo das casas com seus quintais, as cercas brancas que os protegiam.
Ao transpor a cerca de madeira, porém, mudou de ideia. À sua esquerda, o ruído
estava mais próximo, mais forte. Vinha a poucos metros do lugar onde estava.
Caminhou ao longo da cerca e, então, o viu enlaçado na corrente, a casinha de
cachorro mordida e arranhada, lascas pelo chão e manchas de sangue no relvado.
Era um Setter irlandês e fazia um ruído assustador. Não se tratava exatamente de
um rosnado nem chegava a ser um latido. Era um som muito mais grave, um quase
falar que lhe era longamente expelido do fundo da garganta, e, de repente, se
transformava numa sequência de rápidos engasgos e, a seguir, num gemido sem
balbuciado e laringítico. Ficou olhando para aqueles beiços sangrentos, para a
baba espumosa que lhe escorria dos cantos da boca. De repente, parando de morder
a corrente, o animal se voltou para a ferida de uma das patas traseiras, que
mastigara até deixar o osso exposto. Agarrando-se à cerca, ele ficou olhando para
a grama mal cuidada, lutando para controlar o estômago revoltado. Tinha a
impressão de estar vendo o próprio rosto do diabo. Mais tarde se lembraria de
como essas palavras peculiares lhe ocorreram. Haveria de julgá-las e ponderá-las,
esperando reprovar a emoção selvagem que continham, mas sabendo que era
adequada. Jamais vira algo tão insano e brutal, e seu primeiro impulso foi o de
fugir dali, de afastar aquela imagem de sua vista.
Em vez disso, correu ao longo da cerca até o quintal vizinho, subiu, olhou para
os lados em busca de algum outro cachorro, mas nada encontrou além de uma
pequena piscina plástica, pela qual passou correndo até chegar à calçada da frente;
atravessou o jardim ao lado até chegar à porta da casa cujo cachorro continuava
latindo ainda mais grotescamente.
Se fosse o homem que imaginava ser, teria sabido o que ia acontecer a seguir,
teria prestado atenção ao gramado mal cuidado, aos arbustos por podar, teria
imaginado o proprietário. Mas estava tomado pela urgência.
Segurou no corrimão e subiu a escada. Apertou a campainha, mas, como o som
do televisor saía em alto volume pela janela aberta, não pôde ouvi-la tocar. Não
conseguia sequer ouvir o cachorro; apertou novamente a campainha, olhando,
através da porta de tela, para a sala de estar às escuras. Percebeu que a campainha
não estava funcionando. Começou a bater com urgência na porta, a gritar. Batia
com tanta força, chamando por quem estivesse em casa, que a madeira chegou a
tremer, e uma sombra muito pálida contra o sofá escuro se moveu lá dentro e se
aproximou da porta.
O homem era forte, estava nu acima da cintura, com uma lata de cerveja na mão,
a barba por fazer.
- Sim, o que é?
- Olhe, o seu cachorro...
- Eu sei. Não vai parar de latir.
- Ele precisa de tratamento.
- O quê? Eu já disse aos vizinhos que estou cuidando disso. Até comprei uma
coleira especial.
- Eu não...
- Uma coleira com baterias. Do tipo que lhe dá um choque para que pare de latir.
- Accum ficou boquiaberto. - Mas, afinal, quem é você?
- O médico-legista.
- Mora por aqui?
- Não, eu...
- Ora, então meta-se com a sua vida.
Não havia como fazê-lo entender. Agarrou a porta, abriu-a e entrou.
- Ei, espere um pouco.
- Preciso usar seu telefone.
- Há um na loja da esquina.
- Não há tempo.
Uma multidão aplaudiu no televisor. Ao se desviar do homem, viu o aparelho,
diante do sofá, que mostrava dois boxeadores trocando golpes no centro do ringue.
- Estou perdendo a paciência.
- Seu cachorro está com raiva.
- Não seja idiota. Já foi vacinado. Está fazendo assim por causa da coleira.
- Não posso arriscar.
Os dois homens, agora, estavam quase no centro da sala.
- Tenho de telefonar para o veterinário.
- Se não cair logo fora daqui, vai ter de telefonar para a ambulância. Mas
Accum, conseguindo passar por ele, se aproximou do telefone que vira junto ao
sofá.
- Pare onde está!
Mas ele começou a discar.
- Tudo bem, meu velho, depois não vá dizer que não o avisei.
Ao ouvir a voz da mulher da Associação dos Animais, Accum se voltou a tempo
de ver a mão que segurava a lata de cerveja se erguendo contra ele. Teve uma vaga
consciência da outra mão que o segurava. Mas do soco que estourou em seu rosto,
jogando-o para trás, não teve consciência alguma. Teve apenas a impressão de
ouvir um gemido e, mergulhado na escuridão, tentou compreender de onde vinham
os aplausos.
45
Agachou-se perto da jaula dos veados, observando o carro de polícia que
chegava ao fim da rua, parava um momento e, então, seguia rumo à piscina. A
ideia da água o fez engasgar novamente e, arrastando-se de seu esconderijo, para se
certificar de que o carro continuava se afastando, viu aquela gente pulando do
trampolim, caindo na água, nadando alegremente, e teve de virar o rosto para não
vomitar. Haviam pessoas também no playground, crianças e uma mãe. Estavam
rindo. Outros, um homem e uma mulher, vinham na direção da jaula dos veados.
Estes já faziam tempo que se afastaram para o canto mais distante dele. Fitavam-no
agitados e o incomodavam tanto quanto as pessoas que se aproximavam. Aqueles
chifres - e ele queria apenas ficar em paz, esconder-se num lugar seguro, acabar
com os espasmos que o atormentavam. Finalmente as pessoas chegaram à jaula dos
veados e ele se embrenhou entre os arbustos rumo à colina. Lembrou-se vagamente
de uma trilha que subia até lá, encontrou-a. Começou a correr.
Protegia-se, com a mão, da luz do sol, tinha dificuldade para ver. Tropeçou e
caiu, pôs-se de quatro e rastejou, ganindo, gemendo, sangrando através da
bandagem da mão. Ao chegar ao topo, viu a mansão lá adiante. Sua mãe o
trouxera, certa vez, a uma visita ao lugar, uma casa alta e antiga, com muitos
quartos e escadarias; ainda se lembrava daqueles cantos escuros, de todas aquelas
reentrâncias ocultas onde poderia se abrigar. Olhou, ofuscado, à sua volta, para o
parque lá embaixo, para as pessoas. Voltou-se para a casa novamente, viu as
árvores que cresciam a seu redor, as folhagens e arbustos, o caminho que levava à
porta. Notando, a seguir, o carro estacionado à frente, mergulhou entre os arbustos
para poder se aproximar. Todos aqueles quartos escuros. A porta da frente
subitamente se abriu, e ele se deteve entre as folhagens. Um homem saiu; vinha
falando com uma mulher. Traziam caixas nas mãos.
- A tarde foi fraca. Acho que ninguém virá para cá agora.
- Bem, eu tenho convidados. Não posso mais ficar. Fecharam a porta. O homem
estendeu o braço para enfiar a chave na fechadura.
- Esqueci de lhe contar. Eva telefonou. Não conseguiu achar a chave dela.
- Ora, ela pode pegar a minha, amanhã cedo.
- Não, ela quer fazer o trabalho dela hoje. Não poderá vir amanhã.
- Mas se algum vândalo...
- Só dez minutos. Ela estará aqui em menos de dez minutos.
- A ideia foi sua.
- Que cavalheiro.
E estavam rindo, quando começaram a descer a escada. Escondido entre as
folhagens, viu-os colocar as caixas no carro.
- Eu te levo para casa.
- Não, tudo bem. Estou precisando andar um pouco. Quando é o seu próximo
turno?
- Daqui a duas semanas. Domingo à tarde.
- Bem, a gente se vê.
Ele foi andando pelo caminho, e a mulher, tendo entrado no carro, passou e
buzinou. O homem acenou e não demorou para que ambos desaparecessem. Ele
esperou um pouco antes de sair de seu esconderijo e correr até a varanda. Olhou a
sua volta, girou a maçaneta e entrou.
Muito silêncio, escuridão e cheiro de bolor. Lembrou-se do longo e amplo
corredor, maior que a sala de sua casa, onde havia mesas, pilhas de papéis e uma
caixa onde as pessoas colocavam o dinheiro.
Sua mãe o fizera em todo o caso. E lhe falara sobre as sociedades históricas,
explicara-lhe que casas como aquela tinham de ser conservadas para que as
pessoas soubessem como eram as coisas no passado. Ele não compreendera
perfeitamente as palavras, mas teve a sensação de que aquele velho lugar era de
certo modo especial. Não gostara do cheiro de bolor então, mas agora gostava.
O corredor era sombrio, quartos em ambos os lados, mobília antiga e, na parede,
armas penduradas, mapas e fotografias ovais. Ele escutou atentamente, mas, não
tendo detectado movimento algum na casa, foi adiante. Entrou numa sala enorme
com a mais larga mesa que já tinha visto, cadeiras com encosto alto, pratos e copos
arrumados, facas, garfos e uma quantidade de colheres, como se, em breve, fosse
haver uma festa ali, muita gente, com as pessoas comendo. Havia fantasmas ali,
tinha certeza, mas curiosamente a ideia lhe era agradável. A escadaria subia em
curva ao segundo andar, e havia um elevador ao lado. Sua mãe lhe falara sobre o
elevador, explicara-lhe como a plataforma subia sem motor. Bastava puxar a corda
para que um sistema de pesos a alçasse. Mas a caixa do elevador tinha grades, ele
nunca entraria ali. Mais parecia uma armadilha.
Caminhou um pouco mais, parando quando o chão rangia. Não era ele quem
provocava aquele ruído. Não havia ninguém ali, ele não sabia aonde ir. Ao
primeiro andar ou ao porão. Não, o porão também seria uma armadilha, e assim,
fazendo ranger os degraus de madeira, começou a subir.
E parou quando a porta da frente se abriu. Voltou-se, a luz do dia forte e
dolorida, e olhou para o homem que estava parado junto à porta aberta. Era o
homem que acabara de sair. Fora a pé, até desaparecer no caminho, por isso não
havia percebido sua volta, não ouvira nenhum barulho de carro que o prevenisse.
Começou a silvar, quando o homem avançou em sua direção.
- Era isso mesmo que eu esperava. Ela disse para deixar a porta aberta. Dê o fora
daqui garoto.
Ele continuou silvando.
- Qual é o seu nome? Eu vou chamar os guardas. - Ele rosnou e o homem franziu
a testa. - Pare com isso. Dê o fora daí.
Um passo mais. O homem estava no começo da escada, estendeu a mão, e ele
saltou, o corpo em arco, e, precipitando-se, chocou-se contra o homem,
derrubando-o.
- Ei, maldição!
Aparentemente, o homem esperava que tentasse passar por ele e fugir pela porta
aberta. Moveu-se para bloquear a passagem, o pescoço desprotegido, e o menino
lhe saltou logo abaixo do queixo.
- Meu Deus!
Começaram a lutar. Ele sentiu o sangue explodir na boca. Teve náuseas
novamente. O gosto não era desagradável, chegava a ser bom até; no entanto,
aquela náusea era uma agonia. Mastigou e engoliu.
De repente não conseguiu respirar.
O homem estava lhe apertando a garganta. Sentiu a pressão no peito. Retorceu-
se, girou o corpo.
- Maldito garoto!
Com os dentes livres, rosnou para as mãos que lhe seguravam a garganta. Tentou
mordê-las, mas só conseguiu tocar as mangas do paletó, que fedia a cigarro. De
repente, uma perna estava por baixo dele empurrando, atirando-o para o alto e para
o lado, fazendo com que seu corpo batesse no soalho e rolasse até se chocar,
duramente, contra uma mesa.
Mesmo assim, seu instinto agora era automático. Voltando-se, pôs-se de quatro e
preparou um novo bote. Rolando também, o homem se levantou. Encararam-se.
Então o homem olhou para o sangue em suas roupas. Tocou o pescoço.
- Meu Deus!
Acabava de compreender. Erguendo as mãos, começou a recuar. Ele saltou, mas
não com força suficiente para derrubar o homem; só conseguiu fazê-lo recuar mais
depressa.
- Oh, meu Deus! - Continuava dizendo.
A porta aberta estava atrás dele. O homem saiu rapidamente, respondendo com
um pontapé, quando avançou de novo. Atingiu-o no ombro. O impacto se espalhou
por todo o corpo. Caiu sobre o ombro machucado. Voltou a rastejar, a rosnar.
Rosnava não para o homem, mas para o ruído de um carro que vinha pelo
caminho. Outro carro. Outra mulher ao volante. Sempre rosnando, rastejou em
direção à escada. O ombro não funcionava. Estava inclinado, rosnando perto da
escada. Ao ouvir abrir-se a porta do carro, o homem se voltou rapidamente, reuniu
a pouca força que lhe restava, subiu correndo a escada em curva e, girando,
girando, chegou ao segundo andar, onde não podia ser visto pelos que estavam lá
embaixo; estava tenso, confuso.
- Senhor Cody! - Ouviu passos apressados na escada do lado de fora. - Meu
Deus! Sua garganta! O... Senhor Cody!
- Não se preocupe comigo. Vá chamar os guardas e uma ambulância.
Ouviu o corpo se desmoronando na soleira da porta, ouviu-lhe a voz rouca:
- Cuidado com a criança, com a coisa, na escada. Voltou-se e ficou de frente para
o corredor.
46
Estava subindo as montanhas. Antes, uma matilha de cães se aproximara, mas
ele rosnou e os detivera; farejando o ar em sua direção, as orelhas baixas,
começaram a recuar. Ele fez um movimento como se fosse atacá-los, e os cães
fugiram espavoridos, dispersando-se entre os arbustos. Vira-lhes os rabos entre as
pernas, os olhares amedrontados, e saboreou, por um momento, seu triunfo. Então,
embrenhou-se na floresta rumo às montanhas, atraído pela neve dos picos, que o
chamava, que o fazia seguir subindo.
47
Willie ouviu o ruído. Vinha do porão. Passara a noite bebendo com o irmão.
Haviam trazido duas garotas ali para sua casa. Agora, ao despertar, não via sinal
delas. Só via a desordem, as latas de cerveja, as garrafas de bebida, as almofadas
espalhadas no chão e as marcas de cigarro no carpete. As batatas fritas estavam na
mesa havia duas noites, e ele começou a rir, pensando no que diria para sua esposa
se voltasse. Ao abrir a geladeira para pegar uma garrafa de água, ouviu novamente
o ruído no porão. Primeiro, achou que fosse um animal, mas todas as janelas, lá
embaixo, estavam fechadas. No porão, não havia porta que desse para fora. Já
sabia! Seu irmão. Sem dúvida haviam descido ao porão e, ao acordar, acharam que
podiam meter medo nele. Estava sorrindo quando abriu a porta, e ela o estava
esperando.
- Oi, queridinha.
O sorriso dela, no entanto, era estranho e o sangue lhe escorria dos lábios. Willie
franziu a testa. Ela avançou, e ele pensou, em primeiro lugar, que a única arma com
que contava era a lata de cerveja. Não chegou a pensar em mais nada. As unhas
longas e afiadas que tanto admirara na noite anterior lhe rasgaram a garganta e
vazaram os olhos. Ele caiu e bateu a cabeça na pia. Ouviu-a mexendo na gaveta
das facas.
48
- Olhe, você tem de me ajudar.
Accum olhou para o homem sem camisa. Na televisão, estavam dando o
noticiário.
- Eu não...
- Ora, você não me deixou outra escolha. Eu não queria bater em você com tanta
força.
Lembrou-se da tarde. A cabeça lhe doía quando ele a movia e tinha a impressão
de que seu nariz e seus lábios eram os de outra pessoa. Ao tocá-los, notou-os
insensíveis, inchados, mas sentiu o sangue e gemeu.
- Olhe. Meu cachorro. Você tem de me ajudar.
- Qual é o problema?
- Ele não está se mexendo. Está só deitado, ali, olhando para mim.
- Por Deus, fique longe dele.
- Estou longe. Deus, se eu lhe tivesse dado ouvidos... Será que posso pegar raiva
porque ele me lambeu? Accum fez um esforço para se sentar.
- Quando foi?
- Esta manhã. Ele estava bem.
- Lave as mãos! Espero que não as tenha posto na boca. Você não tem nenhum
corte que ele possa ter lambido?
- Não me lembro.
- O quê?
- Não estou com nenhum corte. Não me lembro se pus a mão na boca.
- Eu já lhe disse, vá lavar as mãos. Passe um desinfetante. - O esforço para falar
lhe dava tontura. - Gargareje. Lave a boca. Mude de roupa.
Segurou no braço do sofá para se levantar. Caiu. Tomou fôlego e conseguiu pôr-
se de pé. Tinha sangue na gravata e na camisa. Aquilo o deixou irritado, coisa que
lhe fez bem.
- Corra e vá lavar as mãos.
Então, subitamente, pensou naquela mão que lhe havia arrebentado o lábio e
amassado o nariz. Correu até o banheiro e empurrou o homem.
- Saia daí. Tenho de lavar o rosto.
Molhou o rosto, ensaboou as mãos e o esfregou, esfregou-o até a dor começar e,
mesmo assim, continuou esfregando. Olhou para o sangue que, misturando-se com
o sabão e a água, se escoava pelo ralo. Continuou esfregando. Pegou então uma
toalha e a apertou até o tecido poroso ficar ensanguentado.
- Esfrega com álcool! - Ordenou. Vasculhou o armário, mas não o achou. -
Álcool! - Gritou para o homem, que já estava abrindo a porta sob a pia. Viram a
garrafa ao mesmo tempo. Accum o apanhou, abriu-a e molhou o rosto. No
entanto, precisava de mais. Inclinou o rosto sobre a pia, pô-lo de lado, derramou. O
álcool ardente se espalhou queimando. Estava ofegante. Logo, o esforço cobrou
seu tributo, e ele começou a cair lentamente de joelhos.
- Meu Deus, você é tão louco quanto aquele cachorro lá fora.
- Você não tem noção da coisa. Lave as mãos e o rosto e gargareje, como lhe
disse.
O homem foi para a pia e começou a ensaboar as mãos. Accum olhou para ele,
estava zangado. Meu Deus, preciso de vacinas. Saiu tropegamente do banheiro e
foi, pelo corredor, até a cozinha. Da janela, viu o cachorro estendido lá fora, sangue
e espuma em volta da boca escancarada, olhos fitos no vazio.
Era o que precisava. Correu para o telefone.
Teve de se concentrar para discar. O telefone tocava do outro lado, mas
ninguém atendia. O que estaria acontecendo? Sábado. Olhou para o relógio. Claro,
não estavam mais lá. Começou a procurar na lista telefônica. Veterinários.
Encontrou o número. Discou. Dessa vez atenderam.
- Chame o doutor Owens, por favor.
- Sim, quem está falando?
- O médico-legista.
- Sinto, mas ele não está em casa agora. Vou pedir que lhe telefone.... Não,
espere um pouco. Ele está chegando.
- Sim, aqui é o doutor Owens.
- E Accum. Há um cachorro aqui que parece estar com raiva.
- Tem certeza?
- Não. Já lhe disse: parece estar. O cachorro está com uma coleira que emite
choques para que pare de latir. Também pode ser exaustão térmica ou algum
desarranjo. Eu não sei. É melhor você vir aqui.
49
O cego se deteve no lugar onde estava fazendo o chá. O cachorro rosnava
novamente. Não o ouvia rosnar daquele modo desde que haviam saído para
passear, duas noites antes, e, de repente, ele ficara com medo. Alguém devia ter
entrado ali, enquanto o levava ao parque.
- Tem alguém aí?
O cachorro continuava rosnando. Ele ergueu as mãos.
- Por favor, eu sou um velho. Roubem, mas não me façam mal.
O cão se aproximou para defendê-lo, e ele ficou esperando o tiro, ou a
machadada. Então percebeu que não havia ninguém ali, que o animal estava
rosnando para ele. E começou a rezar.
50
Dunlap se agarrou ao para-lama quando o jipe, fazendo uma curva brusca, virou
a esquina, passou pela piscina e começou a subir o caminho arborizado que levava
à mansão.
Viu Slaughter pegar o microfone.
- É Nathan, Marge. Estou chegando. Mande as outras viaturas. E a ambulância?
- Está a caminho.
- Espero que esteja.
Dunlap contemplou as árvores e o parque que se estendia lá embaixo. Tornando
a olhar para a frente, viu que o caminho fazia uma curva e, bruscamente, além das
árvores, no alto da colina, deparou com o velho casarão de três andares, cujas
janelas refletiam os últimos raios de sol.
Slaughter parou, erguendo uma nuvem de poeira, e ambos desceram apressados.
Chegaram à escada da frente, seus passos soavam asperamente nas pedras.
Os dois policiais se voltaram para eles.
- O garoto está no segundo andar.
- Ou no terceiro. Tem certeza de que está lá em cima?
- Pergunte a essas pessoas.
Dunlap olhou, mas teve de desviar os olhos. Um homem estava caído do lado
de dentro da porta, a camisa e a roupa ensopadas de sangue, a garganta aberta, as
mãos segurando o ferimento.
- A ambulância! - Gritou uma mulher.
- Vem vindo. A senhora tem certeza de que ele está lá em cima?
- O senhor Cody disse que subiu a escada quando eu cheguei.
- Aquele carro é seu?
Ela fez que sim.
- É melhor tirá-lo dali. O tráfego vai ficar congestionado.
Mal pronunciara essas palavras quando viram um jipe subindo velozmente o
caminho. Atrás dele, com a sirene ligada, vinha uma ambulância.
- Vamos levá-lo. O senhor pode andar?
O homem fez que sim, lutando para se levantar.
- Deixe-me ajudá-lo - disse Slaughter, e se voltou para os policiais. - Vigiem
essa escada.
Segurou o homem e foi andando com ele. Os dois enfermeiros da ambulância
correram até eles. Os guardas desceram do outro jipe. A mulher veio ajudar.
- Há algum modo de descer do segundo andar?
- Só se ele pular para o telhado dos quartos dos empregados, lá atrás. Não sei
como faria isso sem se machucar.
- As árvores em volta da casa.
- Nunca pensei.... Não sei.
- Vão para os fundos - disse Slaughter aos policiais. - Não deixe ninguém sair de
casa. É a criança que estamos procurando.
- O garoto?
- Não deixe ninguém sair. Fiquem de olho no telhado dos quartos dos
empregados.
Slaughter entregou o ferido aos enfermeiros. Todos olharam para o sangue que
lhe manchava as mãos e a camisa.
- Um garoto o mordeu. E isso, não? A mulher fez que sim.
- Me mordeu - Dunlap ouviu o homem ferido repetindo, a voz distorcida, quase
um latido. Além de tudo o que estava sentindo, estava com medo de que a garganta
não tivesse remédio.
Ouviram-se novas sirenas, dois outros carros da polícia subiram até a casa.
Slaughter foi a seu encontro.
Dunlap ficou parado em meio àquilo tudo. Tremiam-lhe as mãos. Estava ansioso
por um drinque, precisava beber. Havia momentos em que achava que ia gritar.
Ora, deixe de drama. Estava procurando uma boa matéria, não estava? Pois agora
você a tem. Não sabia ao certo o que estava acontecendo ali, mas, fosse o que
fosse, estava ficando cada vez pior, e se ele perdesse aquela matéria por fraqueza
sua, como perdera tantas outras, só poderia culpar-se a si mesmo. Você vai tomar
seu drinque. Controle-se um pouco. Isto tudo está quase terminado por hoje.
Estaria mesmo? Talvez estivesse apenas começando. Viu os dois enfermeiros
colocarem o ferido na ambulância. A mulher fora para seu carro. Slaughter,
parado entre os jipes, conversava com os guardas recém-chegados.
Ele olhou para a casa, para a penumbra lá dentro, onde imaginou ver dois
policiais. Aquilo era demais. Não sabia se aguentaria. Estava tremendo cada vez
mais. Começou a andar até a mulher que acabava de afastar o carro para um lado e
estava descendo.
- Que lugar é este?
- É a mansão Baynard.
E Dunlap soube que Baynard fora, por volta de 1890, o homem mais rico da
região.
- Ele possuía gado em todo o vale e construiu esta casa para a sulista com quem
se casou.
Havia algo de automático no modo como ela falava, como se estivesse
acostumada a repetir aquilo muitas vezes. Admirado, ouviu-a explicar que Baynard
trouxera do Sul a madeira, a mobília, as plantas, tudo para que a mulher se sentisse
mais em casa. Mas, num verão, ela acabou voltando para o Sul, onde morreu. Ou
talvez ela o tenha abandonado, e ele inventou essa história.
- Ninguém sabe. Já tentamos encontrar o registro da morte dela, mas nunca
conseguimos. Se o abandonou, é porque tinha razão. Ele quase nunca estava em
casa. Vivia cuidando dos negócios e também era senador. Além disso, havia
rumores sobre certo tipo de festas no terceiro andar. Mas ele disse que ela havia
morrido, e todo mundo aceitou a história. Ele voltou e nunca mais saiu de casa.
Soube que o povo dizia que Baynard passara os últimos tempos vagando pela
casa. As causas de sua morte diziam ter sido um ataque cardíaco, mas todos
suspeitavam que morrera de tanto beber. Outros boatos diziam que ele a havia
matado. Ao ouvi-la dizer que ia abandoná-lo, ele foi tomado de tanta raiva que nem
se deu conta de que a estava matando. Então, ele escondeu o corpo e se entregou à
dor e ao remorso. Por fim, suicidou-se, e seus familiares trataram de abafar tudo.
- É o que dizem os boatos. Ninguém jamais provou nada, embora, recentemente,
tenham procurado encontrá-la. Mas não tiveram sucesso tampouco.
- Mas isso foi em 1890.... Como a senhora sabe disso?
- Sou membro da Sociedade Histórica de Potter 's Field.
- Ainda não entendo. - Continuo sem compreender.
E ela explicou:
- Ninguém mora aqui. Baynard tinha dois filhos. Cresceram e continuaram
administrando a propriedade. Depois, eles tiveram filhos, e essa nova geração
doou a mansão ao Estado para evitar os impostos. Já não são ricos. Moram numas
casas lá embaixo, perto da piscina. Nós restauramos a casa, está exatamente como
era. Os encanamentos são da época de 1890. Não há luz elétrica. Para entrar à
noite, é preciso usar velas ou uma lanterna.
Oh, que ótimo, pensou Dunlap. Só falta cair uma tempestade.
Não haveria tempestade, mas o cair da noite já era suficiente. Ele viu o disco
alaranjado e distorcido que já quase desaparecia atrás das montanhas a oeste. Em
breve, tudo estaria completamente escuro, precisariam de lanternas, faróis, talvez
até mesmo de velas e lampiões, como a mulher havia sugerido, para continuar a
busca do garotinho na casa. Sentiu um arrepio quando a mulher perguntou:
- Que criança é essa?
- Eu não sei.
Exausto, aproximou-se de Slaughter, que estava falando com os policiais.
- Precisamos de redes.
- Redes?
E Dunlap viu que era Rettig quem perguntava. Parecia que estivera com ele
havia vários dias.
- É isso. Ou você acha que deveríamos atirar nele?
- Não sei onde conseguir redes.
- Tente numa loja de esportes ou naquele zoológico ali no parque. Você fica
responsável por isso, Rettig. O resto de vocês, eu os quero vigiando os dois lados
da casa. Vamos, mexam-se.
Estavam olhando para Slaughter. Correram para a mansão.
- Esperem - disse ele. Todos se voltaram. - Entreguem suas chaves a este
homem. Quero os faróis iluminando a casa.
Olharam para Dunlap, que, embora não estivesse esperando aquilo, estendeu
instintivamente a mão. Deram-lhe um molho de chaves. Ele ficou olhando para
aquelas peças de metal duro ainda mornas do bolso onde haviam estado. Esperava
mais; porém, deu-se conta de que Rettig usaria um dos carros. As chaves que tinha
na mão eram de outro.
O terceiro era o de Slaughter, e o quarto e o quinto haviam sido trazidos pelos
policiais que estavam vigiando a mansão.
Ainda inseguro, estava esperando quando aqueles três policiais voltaram a se
ocupar da casa. Separaram-se, dois e um, para controlar os lados, ao mesmo tempo
que Slaughter lhe entregava outro molho de chaves.
- Entendeu?
- Acho que sim. Vou dispor os carros, de modo que os faróis apontem para as
janelas.
- Motores ligados: não quero que as baterias se descarreguem. E use os faróis de
busca, ficam ao lado dos espelhos.
- E o carro da mulher?
- Boa ideia.
Dunlap correu para os jipes. Reconheceu o de Slaughter ao mesmo tempo que
via Rettig descer velozmente o caminho, a sirene ligada. Aproximou-se do carro
próximo ao lugar onde Rettig havia estacionado o seu, e entrou, procurou até
encontrar a chave que servisse e ligou o motor. Não demorou a compreender que
qualquer um podia fazer aquilo tão bem quanto ele, mas era a maneira que
Slaughter escolhera para distraí-lo.
E ajudava. Não havia dúvida alguma. Deixando-se envolver pelo que estava
fazendo, respirou fundo e tratou de suportar o ardor que sentia no estômago.
Agradava-lhe movimentar-se, levar o veículo para junto da casa, escolhendo o
lugar onde julgava que os faróis seriam mais eficientes. Achou o botão do farol de
busca, ligou-o e o lado direito da mansão ficou iluminado, até quase o segundo
andar, destacando-se na penumbra.
Correu para o carro de Slaughter e fez o mesmo, apontando, dessa vez, para o
lado esquerdo da casa, que ficou igualmente iluminado. Sem precisar que lhe
dissessem o que fazer, a mulher, que o observava, entrou em seu carro e fez o
mesmo, colocando-o diante da porta da frente. Agora o sol estava por detrás das
montanhas, o parque era uma névoa escura abaixo deles, mas as janelas da mansão
refletiam todos os faróis, e as pessoas não teriam de tropeçar na escuridão.
Dunlap ouviu o motor de outro carro. Pensou que era da polícia, mas a sirene
estava desligada. Quando o carro parou ao seu lado, reconheceu o homem e a
mulher. Oh, céus, não!
O casal desceu.
- Onde está Slaughter?
- Não sei.
Nesse momento Slaughter saiu da casa, deteve-se na varanda e, iluminado pelos
faróis, ficou olhando para eles. Subitamente, aproximou-se.
- Olhem, vocês não podem ficar aqui. - Dunlap notou que ele estava irritado. -
Como souberam?
- Nosso vizinho tem um rádio. O senhor encontrou o menino? Slaughter apontou
para os andares de cima.
- É tudo o que sei. Estou lhes pedindo que voltem para casa e esperem.
Não havia o que responder. Parado diante dos faróis acesos, Slaughter parecia
dez anos mais velho, as bochechas caídas e as olheiras profundas. Por Deus,
Slaughter não estava irritado. Estava com medo!
- Por que há de estar escondido? Deixe-me subir e falar com ele
- Disse a mulher.
- Não, não concordo. - Slaughter raspou a sola da bota na poeira.
- Acho que vocês devem deixar que eu cuide disso.
- O senhor ouviu a minha esposa. Ela vai subir.
- Não posso permitir.
- Isso é o que o senhor pensa.
Eles avançaram para a casa. Slaughter os ultrapassou e os deteve.
- Essas luzes, esses carros de polícia. Vocês o estão assustando - disse o marido.
- Estava tentando não lhes contar, mas vocês, evidentemente, ainda não sabem
de tudo. Seu filho atacou novamente. Um homem, desta vez. Está à morte.
- Oh, meu Deus - disse a mulher.
O marido ficou sem fala.
- A vítima está naquela ambulância. Deem uma olhada no estado em que se
encontra. Saberão por que não quero deixá-los entrar.
Voltaram-se para o lugar apontado por Slaughter no momento em que os dois
enfermeiros saíam e fechavam as portas traseiras.
- Fizemos tudo o que pudemos - disse um deles. Slaughter fez um gesto
afirmativo. Os dois homens ligaram o motor da ambulância. A sirene começou a
tocar e eles manobraram para descer a colina. Dunlap ficou observando até que o
veículo desaparecesse. Depois, voltou-se para a mulher, que estava chorando.
- Por favor, acho que vocês deviam sair daqui - disse Slaughter.
- Eu quero ficar.
Num gesto de impotência, Slaughter ergueu os braços e os deixou cair, soltos, ao
longo do corpo.
- Pelo menos fiquem no carro. E, se querem ajudar, acendam os faróis sobre a
casa. E, por favor, não se ponham em nosso caminho. Temos muito o que fazer.
Prometo que cuidaremos da segurança do menino.
Ela estava soluçando. Amparando-a, o marido a levou para o carro.
Foi quando ouviram. Todos ouviram, a mãe, o pai, Slaughter, Dunlap, os
policiais, e se voltaram e olharam para os andares superiores.
No interior da casa, no alto, algo ou alguém começou a uivar. Era como um
coiote ou um cachorro, era feito um lobo nas montanhas, se bem que pior, mais
lamentoso, rouco e profundo; era um ladrar, um uivar, que aumentava e diminuía,
para logo aumentar novamente.
Ouviram-no por duas vezes ecoar em algum lugar lá no alto, lá no fundo, e
sentiram calafrios. Depois cessou, e a noite voltou ao silêncio apenas perturbado
pelo suave ronco dos motores.
- Que diabo é isso? - Perguntou, aterrorizado, um homem que estava à direita.
- Nem sei se quero saber - disse outro.
E Slaughter, acompanhado de Dunlap, começou a correr na direção da porta da
casa.
51
Agarrou o corpo pelos tornozelos e, arrastando-o, atravessou a cozinha. A
cabeça foi batendo ao descer a escada. Chegou ao fundo do porão, e a escuridão
lhe deu um bem-estar. Ofegante, puxou o cadáver para junto dos outros, no canto,
um homem e uma mulher estendidos lado a lado, e colocou esse outro homem ao
lado da mulher. Sentiu o cheiro do sangue e olhou para aqueles rostos e pescoços
dilacerados, para a faca que ainda estava enterrada no estômago do segundo
homem. Rosnou então, sem razão alguma, e enxugou as mãos no vestido. Sim,
assim era melhor. Não havia necessidade de sair agora, e a noite não demoraria a
cair. Sentindo tonturas, estendeu-se no canto, ao lado daquele segundo homem.
Mergulhou o dedo no sangue, lambeu-o e, distraidamente, começou a esfregar o
braço, a coceira ardente que sentia no lugar onde, no dia anterior, seu gato a havia
mordido.
52
Accum abriu a porta dos fundos da clínica, e entrou no laboratório. Viu o
cachorro na mesa, sobre um lençol de plástico, e Owens, que, já com o avental e a
máscara, voltou-se para ele.
- O cachorro estava morto antes de eu chegar com ele - disse sem sequer
cumprimentá-lo.
Accum o fitou.
- Mas, que diabo, eu o vi na fase ativa. Como pode ter morrido em tão poucas
horas? A paralisia devia ter demorado mais.
- Talvez. Concordo com você. Mas pode ter sido outra coisa. Há um avental e
uma máscara naquela gaveta ali.
Atravessou a sala para vesti-los, calçou também um par de luvas de borracha.
Ao voltar à mesa, notou o zumbido das lâmpadas no teto.
- Primeiro, vamos tirar esta coleira. - Owens a desatou e ficou olhando para as
baterias. - O que eu não gostaria de fazer com aquele sujeito... - Guardou-a. - Você
devia ver as pessoas que vêm aqui, querendo que a gente emudeça seus cachorros,
que lhes corte as cordas vocais. Dá vontade de cortar as deles. Pelo menos não
falariam tanto. - Balançou a cabeça. - Bem, vamos lá. Você é o craque neste tipo de
coisa. Quem corta, você ou eu?
- Não. Obrigado por perguntar, mas você conhece o seu trabalho. Estou aqui só
para ajudar.
- Eu preciso daquele escalpelo.
Com quatro incisões, Owens retirou o couro. Então, pegou a broca.
Ligou-a. Fez quatro perfurações espaçadas, formando os cantos de um quadrado.
Pegou a serra. Usou-a com habilidade, o motor vibrando, e foi cortando rápida e
delicadamente, de um orifício para outro. Terminado o trabalho, examinou o
interior do crânio.
- Bem, o cérebro está intumescido e sem cor. Veja este tom rosa-claro. É um
indício. Mas preciso extrair e dissecar o cérebro.
Accum lhe passou o escalpelo, o fórceps, e o cérebro foi colocado num vidro
sobre a mesa.
- O Chifre de Ammon.
- Correto. - Owens cortou a porção que ele queria. - Pode preparar as lâminas.
- Você as quer maceradas ou em secções?
- Não, as secções demoram muito. Faça-a macerada. O que estamos procurando
vai aparecer do mesmo modo.
Accum, então, apenas pressionou um pedaço do tecido entre as lâminas e olhou
à sua volta.
- Está em cima do armário.
O microscópio estava numa caixa de madeira, ao lado de um frasco de líquido
contrastante. Accum colocou um pouco do líquido na amostra, para realçar pelo
contraste o que estava procurando. Arrumou a lâmina e olhou através das lentes.
- Está vendo? Corpúsculos Negri. - Accum continuou olhando em silêncio. -
Qual é o problema? Devia estar vendo.
Accum se voltou para ele e balançou a cabeça.
- Acho melhor você dar uma olhada.
- Está querendo dizer que não conseguiu vê-los e que vamos ter de fazer os
outros testes?
- Só acho que você devia dar uma olhada.
Dessa vez foi Owens quem franziu a testa ao olhar através das lentes.
O que estava procurando era uma evidência dos Corpúsculos Negri. Estes eram
pequenos, estruturas redondas e, às vezes, ovais no protoplasma das células
nervosas daquela porção do cérebro chamada Chifre de Ammon. Segundo as
teorias correntes, tratava-se de partículas do vírus da raiva ou matéria degenerada
das células afetadas pelo vírus. Talvez ambas as coisas. Mas vê-las significava ter
certeza de que a raiva estava presente.
- Não entendo. Alguma coisa está errada. Não deviam ter essa aparência.
Mas Accum sabia. Esperou Owens olhar mais uma vez. Pois o que vira não
eram partículas redondas nem ovais. Eram oblongas, com um lado denteado.
- Parecem amendoins - disse Owens. - Que, diabos, será isso?
- Algum vírus correlato?
- Qual? Diga-me qual.
- Não sei.
- Aposto que não sabe mesmo, nem eu. A raiva é uma coisa que eu sou capaz de
reconhecer muito bem, e você pode ter certeza de que não há nada nos livros sobre
essas coisas que estamos vendo.
- Teremos de fazer o teste de anticorpos.
- Isso leva horas, e o teste do camundongo demora pelo menos uma semana. Eu
quero saber o que é isso.
- Por enquanto temos de supor que é raiva. Ou um vírus que provoca os mesmos
sintomas.
- O que seria ótimo se ninguém se tivesse exposto a ele. Mas e o dono? E você?
Se for raiva, vai ter de tomar o soro, mas não sabemos se vai adiantar.
Entreolharam-se. Accum tocou a máscara e, sob ela, o lábio inchado. Havia se
esquecido ou, mais exatamente, vinha tentando parar de pensar naquelas injeções.
- Eu vou tomar, de qualquer maneira.
- Mas e se a vacina não combinar com o vírus? E se houver uma reação
negativa?
- Diabo, se pegar essa doença, em breve estarei morto de qualquer modo. Que
diferença faz?
Aquilo chegava a ter graça, mas nenhum dos dois sentiu vontade de rir. Contudo,
se ele fingira esquecer o perigo que estava correndo, havia algo mais de que sabia
que se esquecera de fato. Algo que o dono do animal lhe havia dito e que ele
deixara escapar, algo que a ideia de tomar injeções lhe trouxera à lembrança.
- Ele disse que o cachorro estava vacinado.
- O quê?
- O dono. Disse-me que o cão tinha recebido a vacina. Acabo de me lembrar.
- Como se chama? Accum lhe disse o nome.
- Esta é a única clínica; a ficha dele tem de estar aqui. Tente preparar outras
lâminas. Veja se nós não cometemos algum erro. Volto num minuto.
Accum fez o que Owens pediu. Sentiu trêmulas as pernas ao se aproximar do
microscópio. Examinou todas as lâminas e eram idênticas. Agora, estava realmente
com medo.
Owens empurrou a porta com mais força do que necessário, fazendo com que
Accum ficasse mais tenso.
- Ele tinha razão. Este cão tinha cinco anos. Foi vacinado quando pequeno e
depois anualmente.
- Terão sido essas vacinas a causa da doença? Estariam contaminadas?
- Não sei, mas tenho certeza de que vou saber.
- Mesmo que a vacina tivesse sido corretamente preparada, poderia o cachorro
estar tão fraco a ponto de contrair a raiva a partir da própria vacina?
- No caso de raiva, talvez. Um cão fraco. Uma chance em cem mil. Mas não sei
como a vacina haveria de produzir essa coisa que estamos vendo.
- Talvez essa coisa não precisasse senão de uma única chance. Entreolharam-se
novamente, ambos com expressão preocupada.
- Olhe, preciso telefonar.
Pegou o telefone e discou. Marge atendeu.
- Preciso falar com Nathan.
- Ele está atrás de você.
- O quê?
Ela lhe contou tudo, e ele começou a se sentir cada vez pior.
- Estou indo.
Desligou e se virou para Owens.
- Faça o teste de anticorpos, o fluoroscópio. Volto assim que puder.
- Mas o que está acontecendo?
Não havia tempo para explicações. Tirou o avental, as luvas e a máscara.
Empurrou a porta e saiu para a escuridão.
53
Continuava uivando lá dentro.
- O que está acontecendo?
Estavam agrupados na calçada, os vizinhos não tiravam os olhos da casa.
- Está uivando há horas.
- Não há como fazê-lo parar?
- E o velho? É o cachorro dele.
- Ele é cego.
- É o que estou querendo dizer. Deve ter se ferido. Aproximaram-se.
- Você pergunta. Você o conhece melhor.
- Ora, eu só o conheço de vista.
- Bem, alguém tem de fazer isso.
Ele suspirou e subiu os degraus. Não estava gostando do uivo lá dentro, temia
que o homem tivesse morrido. Bateu na porta. O uivo cessou. Olhou para os
vizinhos.
- Vá em frente. Bata de novo. Bateu, mas não houve resposta.
- Alguém em casa?
Tentou abrir a porta, mas estava trancada. Foi pela varanda, a fim de olhar por
alguma janela, e o cachorro o atacou.
54
- Meu Deus, queria que isso parasse!
Os homens estavam próximos à luz dos faróis, a rede estendida diante deles,
enquanto os uivos continuavam chegando dos andares superiores da casa.
- E se ele nos atacar?
- Não o machuquem - disse-lhes Slaughter. - Mantenham a rede entre vocês e o
garoto. Vai se embaraçar nela. Depois disso, não teremos muitos problemas.
Slaughter olhou para Dunlap, esperando que este tivesse notado o quanto as
ordens haviam sido claras e cautelosas. Se aquilo acabasse mal, ele não estava
disposto a ler notícia alguma sobre a "brutalidade policial". Queria que todos os
homens soubessem, sem sombra de dúvida, que só tinham de prender o garoto.
Desviou-se das luzes, voltando-se para o alpendre. Viu o pai e a mãe, que ainda
não estavam em seu carro. Viu a mulher da Sociedade Histórica de Potter 's Field,
os outros jipes que haviam chegado não faziam muito e os faróis de outro mais,
que vinha subindo o caminho.
- Bem, temos homens suficientes. Vamos começar. - Mas os faróis não eram do
outro jipe. Slaughter reconheceu o carro. - Esperem um pouco. - Desceu da
varanda, viu Accum se aproximar correndo. - Onde você esteve? Estive
procurando... – Notou o sangue na camisa, os lábios cortados. - O que aconteceu?
Onde se machucou?
- Não importa. - Accum tomou fôlego. - Não há mais tempo. Já sei que se trata
de um vírus, mas não tenho certeza se é de raiva.
- É tão grave assim?
- Talvez seja pior. - Respirou fundo novamente. - Parece atuar muito mais
depressa. Há um cão que passou mais rapidamente do que devia um dos estágios
da doença. Ainda estamos fazendo testes.
- Bem, e esse garoto lá em cima?
E Accum recuou ao ouvir o uivo no andar superior.
- É um garoto que está fazendo isso? - Estava com o rosto contorcido pelo susto
e a incredulidade.
- Tenho de pensar que sim. Pode haver algum vira-lata perdido lá em cima, mas
não temos nenhuma razão para acreditar nisso.
- Na escola médica..., mas os outros sintomas não eram iguais. Um homem com
raiva pode ficar agressivo ou até latir e avançar nas pessoas.
- Latir?
- A raiva destrói o sistema nervoso. Todos os músculos do pescoço ficam
constritos. A vítima tenta falar, mas não lhe saem senão latidos.
- Mas ele está uivando.
- É exatamente o que estou querendo dizer. Os sintomas não são os mesmos.
Aquilo lá em cima parece mais um animal. Por outro lado, nunca ouvi falar de
pacientes com raiva que tenham realmente atacado alguém. Claro, li sobre casos
nos livros, mas nunca encontrei um médico que tenha testemunhado um.
- Mas os pais garantem que o garoto não foi mordido.
- Claro, acabo de ver um cachorro que foi vacinado e agora está morto no
veterinário.
Os uivos começaram novamente. Erguiam-se na direção da lua quase cheia que
estava surgindo, derramando seu clarão na colina e sobre a casa.
- A lua. Eu devia ter percebido.
- Não entendo.
- Bem, pelo menos este é um sintoma permanente. As vítimas de raiva ficam
furiosas com a luz. Seus olhos se tornam sensíveis. Procuram a escuridão. Quando
a lua aparece, reagem.
- Uivando?
- E o que fazem os cães raivosos e, neste caso, o menino.
- Os pais disseram que se cortou com uns cacos de vidro esta manhã.
- É muito cedo ainda. Demora pelo menos uma semana para que o vírus da raiva
comece a agir. Mas, se essa coisa for mais rápida que o vírus normal, se os vidros
tiverem sido lambidos por um animal contaminado, já pode estar tendo efeito.
Quando você o agarrar, eu quero ver os cortes.
Os uivos estavam mais fortes.
- Parece um louco - disse Slaughter.
- Chama-se Lunatismo. Loucura provocada pela lua. E Slaughter já não quis
falar no assunto.
- Tenho de ir atrás dele. - Fez uma pausa. Então, foi ao encontro de seus homens
na varanda.
- Vou buscar minha maleta.
- Vamos precisar dela - concordou Slaughter, já subindo os degraus de pedra. -
Estão todos prontos?
Embora tensos, eles fizeram que sim com a cabeça.
- Calcem as luvas. Rettig, você segura a rede naquela ponta. Vocês três a
seguram na outra ponta e no meio. E lembrem-se: ninguém vai machucá-lo.
Slaughter se voltou uma vez mais para Dunlap, para ver se ele o ouvira.
Começaram a entrar. Mas Dunlap ia atrás dele.
- Você fica lá fora.
- Eu quero ver.
- Não tenho tempo para protegê-lo.
- Eu tomo cuidado.
- Claro que toma. Vai tomar cuidado aqui na varanda. Dunlap o fitou. Estavam
parados à luz dos faróis. Slaughter pensou, subitamente, na amizade que os ligava.
- Está bem, eu vou correr o risco. Mas, se você se colocar no caminho, eu o
mando de volta à varanda.
- É tudo o que estou pedindo.
Slaughter o estudou com o olhar. Virou-se para Accum, que retornava com a
maleta.
- Vai precisar destas luvas.
- Ei, eu também.
- Você não vai se aproximar a ponto de precisar.
Entraram no amplo saguão de onde subia a escada curva. Os homens se
espalharam pouco adiante deles.
- Prontos com as lanternas?
Eles fizeram que sim, acendendo as lanternas, iluminando a escada. Slaughter
lhes ouvia a respiração, sentia o cheiro de suor. Que tipo de conservação tem este
lugar, que não ligam a luz? Pensou. Mas não obteve resposta.
- Então vamos em frente.
Começaram a subir, os passos ruidosos, nos velhos degraus, e a rede à frente.
Ficou esperando. Fugira para o último andar. Agora, ouvia-lhes os passos e os
sussurros, via suas lanternas varrendo as sombras. Ainda se encontravam a uma
boa distância, mas logo estariam ali em cima. Emitindo um silvo, começou a
buscar proteção. Mas não havia nenhum outro quarto atrás dele, somente aquele
grande espaço aberto que se estendia de ponta a ponta. Não compreendia, embora
tivesse uma vaga lembrança do que sua mãe lhe explicara. Havia suaves projeções
de cada canto, espaços ocultos, mas aquilo seria muito óbvio. Precisava de outra
coisa. Foi quando viu o que estava procurando. Um esconderijo perfeito, de onde
poderia atacar se necessário. Estava indo para lá, mas não conseguia deixar de
olhar para o raio de lua que se filtrava pela janela, espalhando-se, frio e pálido, no
assoalho. Começou a uivar, não conseguia conter-se, não tinha forças para lutar
contra aquela compulsão. Acocorou-se simplesmente, ergueu a cabeça e ficou
uivando alta e longamente, a garganta dolorosamente constrita. Saciada a
necessidade, ele seguiu seu caminho. A escuridão daquele esconderijo era
maravilhosa, o negrume, suave e seguro. Fechou os olhos para descansá-los da
contemplação daquele pálido raio que entrava pelas janelas. Estava respirando
rápida e nervosamente, embora o esconderijo fosse confortável. Lambeu os lábios,
o sangue seco que se lhe pegara em placas na boca. Aquele gosto de sal ao qual se
havia acostumado e do qual começava a gostar. O gosto de sal tinha sido líquido, e
aquela lembrança lhe deu náuseas novamente. Voltou a uivar.
55
Estavam no segundo andar.
- E lá em cima, no terceiro andar.
- Talvez - disse Slaughter.
- Mas você ouviu os uivos.
- Não sabemos se aqui há também um cachorro. Vamos fazer como planejamos.
Gordon, você está tão ansioso! Aponte essa lanterna para a escadaria. Avise
imediatamente se notar algum movimento.
- Ah, não se preocupe. Se houver alguma coisa, vou gritar como um louco.
Slaughter olhou para ele.
- Você preferia não ter vindo?
- Eu não perderia isso por nada.
- Você quer muito essa matéria.
- Não faz ideia.
Slaughter viu que a lanterna de Dunlap estava tremendo.
- Está nervoso ou é a bebida?
- Não sei dizer.
Slaughter lhe tomou a lanterna.
- Sinto muito. Isto é sério demais. - Entregou-a a Accum. - É melhor você ficar
com isto. Faça como eu disse para ele. - Voltou-se para Dunlap. - Não fique
magoado, está bem?
Dunlap deu de ombros, e Slaughter já não tinha tempo para consolá-lo. Voltou-
se para seus homens. - Muito bem, vamos por esse corredor, revistando todos os
quartos. Não creio que esteja neste andar, mas não posso arriscar. Assim, a rede se
estendeu diante deles, estavam caminhando na escuridão. Ao encontrar as
primeiras portas, a cada lado, pararam e olharam para Slaughter.
- Olhem do lado esquerdo. Eu fico aqui de olho no outro.
Foram devagar, respirando fundo. Mas nada encontraram. Iluminaram os cantos
e os armários, era um quarto antigo, com um dossel acima da cama, um véu que
caía impedindo a entrada dos mosquitos. Olharam embaixo da cama, saíram,
examinando todos os demais cômodos que davam para o corredor. Outras camas,
uma sala de jogos, um escritório, todo decorado como havia cem anos: mapas,
fotografias e armas nas paredes; uma cadeira de onde parecia que o velho Baynard
acabara de se levantar, mas não havia ninguém ali. Saíram, olhando para o lugar
onde Accum os esperava com a lanterna apontada para o alto da escada.
- Acho que está mesmo lá em cima - disse Slaughter. Olharam para a escada e,
com a rede estendida, começaram a subir.
A luz das lanternas formava sombras estranhas nas paredes e no teto.
Avançavam com cautela, esperando que, a qualquer momento, um pequeno vulto
avançasse sobre eles. No entanto, chegaram ao último patamar e varreram com as
lanternas a enorme sala que era o terceiro andar.
- Eu não entendo - disse Slaughter. - O que é este lugar?
- Nunca esteve aqui? - Perguntou Rettig.
- Sempre quis vir, mas nunca tive tempo.
- Este é o salão de baile. A esposa de Baynard era do Sul e não gostava da gente
daqui. Adorava festas, jantares, bailes a fantasia. Baynard construiu esta casa para
ela e, uma vez por mês no mínimo, dava uma grande festa. Os fazendeiros ricos
vinham de longe para cá, assim como as melhores pessoas da cidade, deputados e
senadores. Ele pagava tudo. Mandava trazer uma orquestra inteira de Denver. E
dançavam, comiam e....
- Qual é o problema? - Perguntou Slaughter.
No escuro, com as lanternas percorrendo o salão de baile, Slaughter sentiu arder-
lhe o estômago.
- Bem, foi meu avô quem me contou, mas eu nunca soube se era verdade ou não.
Ele dizia que às vezes essas festas escapavam do controle.
- Não sei o que você está querendo dizer.
- Está vendo como o terraço fica afastado da extremidade? Bem, a orquestra
tocava em cima daquele balcão, e, com aquele maciço parapeito de madeira, os
músicos não viam direito o que acontecia abaixo deles. Aqui nos cantos do salão
você pode ver uns tabiques de madeira que vão até o teto.
- Formando um triângulo com as paredes.
- Certo. E aqueles bancos estofados nos lados.
- Certo, mas e daí?
- São apenas boatos, mas meu avô dizia que nessas festas se trocavam as esposas
e que as pessoas entravam com diferentes parceiros atrás desses tabiques. Dizia
que havia portas secretas que levavam a outros quartos.
- Ele presenciou isso?
- Nunca foi convidado a vir aqui. E ninguém jamais achou porta secreta alguma
neste salão.
- Então são apenas boatos, como você disse. Se fosse verdade, alguém teria
contado, e todo mundo acabaria sabendo.
- Quem contasse talvez nunca mais fosse convidado para essas festas.
- Mas, e a esposa de Baynard? Por que entraria numa coisa dessas? Você não
disse que ela era da sociedade?
- Sim, não tinha muito boa reputação. Baynard era que aguentava as coisas, para
tê-la com ele. Então essas festas começaram a ir um pouco longe demais. Ela
encontrou um homem de quem gostou mais que dos outros. Alguns dizem que
fugiu com ele, outros, que Baynard a matou. Mas nunca encontraram o corpo.
- Ah, ótimo! Então estamos numa espécie de casa mal-assombrada. Mas prestem
atenção ao que temos de fazer. Gordon, você fica aqui com Accum. Vamos
examinar este canto. Depois vamos, juntos, examinar o outro. Gritem, se alguma
coisa passar por nós. Todos prontos?
Fizeram que sim com a cabeça. Vagarosamente, eles procuraram no primeiro
canto, em volta do tabique. Bateram na madeira, em busca de uma porta secreta.
Atravessaram o salão para procurar no outro canto. Seguiram, depois, ao longo da
grande parede em direção aos cantos do outro lado.
- Até agora nada. Mas ainda faltam dois tabiques e o terraço. Estamos quase o
achando. Tomem cuidado. Não havia nada no da esquerda, nem no da direita.
- Tudo bem, vamos subir ao terraço. Tem de estar lá. Começaram a subir a
escada estreita, mas não havia espaço para os quatro.
- Assim não dá - disse Slaughter. - Você, Rettig, fica atrás. Vocês três podem
subir. Rettig estará bem atrás de vocês.
Rettig deu um suspiro de alívio. Os outros três estavam tensos, as lanternas
apontadas para a escada estreita.
- E se estiver no alto dos tabiques?
- Não, como poderia subir ali?
E naquele breve momento de distração, quando estavam olhando para cima, tudo
começou a acontecer. Primeiro, o rosnado, depois o corpo desabalado. Saiu do
balcão, um vulto apenas visível que mergulhou sobre eles e desabou sobre Rettig.
Os homens tropeçaram, gritaram e rolaram no chão. Slaughter ouviu-lhe rosnar os
gritos de Rettig, quando tentava passar por cima dos homens caídos. Viu Rettig
lutando, alguma coisa agarrada a ele. Viu Rettig cair para trás, com aquele peso
extra sobre ele, chocando-se contra um dos tabiques, partindo as velhas tábuas.
Outros homens avançaram com a rede.
- Onde está ele?
- Aqui, eu o peguei!
Rettig continuava gritando. A rede foi jogada no lugar onde ele estava lutando
com o vulto, no banco estofado junto ao triângulo.
- Meu Deus, tirem-no de cima de mim! - Gritou Rettig.
E deu um pontapé. O garoto foi atirado no chão, sempre rosnando.
A rede caiu sobre ele. Estava preso. Agitava os braços e as pernas, porém cada
movimento o enrolava mais. Os homens puxaram a rede, enrolando-a em seu peito
e em suas costas, de modo que ele já não tinha como escapar. Estava sem forças,
mesmo assim rosnava e mordia furiosamente a malha.
Ao se voltar, Slaughter viu Accum ao lado do garoto, tirando a seringa da
maleta.
- Segurem-no firme.
- Deixá-lo ir embora é que não vamos.
Accum pegou uma ampola e encheu a seringa. Aproximando-se de uma
lanterna, empurrou de leve o êmbolo, até que o líquido jorrasse da agulha. Olhou
para Slaughter.
- Puxe a manga dele para cima.
- Você está brincando. Naquela rede? Não dá para mexer.
- Rasguem a roupa, então. Preciso ver a pele.
Por entre as malhas da rede, Slaughter pegou e rasgou a manga. Fê-lo
rapidamente, estava com medo de que o garoto o agarrasse. Accum passou álcool
na pele e enfiou a agulha. O garoto deu um grito e retesou o corpo.
- Vamos esperar um minuto.
- E aqueles tijolos ali? - Alguém disse, e Slaughter se virou. Muita coisa estava
acontecendo.
- Eu não...
Viu o canto onde Rettig, na queda, quebrara o tabique. Atrás da madeira, sua
lanterna iluminou uma parede de tijolos. Olhou para Rettig, que estava estendido
no banco, com a mão na garganta.
- Você está bem? Ele não o mordeu?
Rettig respirou fundo, engoliu, engasgou, respirou novamente.
- Acho que só perdi o fôlego. - Tentou se levantar, mas desistiu e continuou
deitado. - Vou ficar bom em um segundo. De que tijolos estão falando?
- Aí atrás de você.
Rettig se voltou, ainda respirando com dificuldade.
- Eu não sabia disso. Que estão fazendo esses tijolos aí? Notei que esse tabique
tinha um som diferente dos outros, mais sólido, mais pesado.
- O que será que significa? - Perguntou um dos policiais.
- A esposa de Baynard. Acho que agora sabemos o que aconteceu com ela.
E o grupo ficou em silêncio.
Slaughter sentiu a presença de Dunlap a seu lado. Estavam olhando para o
garotinho enredado na malha e, agora, inconsciente.
- Um menino tão pequeno, e toda esta confusão. Caramba, eu não sabia que era
tão pequeno assim.
- É melhor levá-lo ao hospital - disse Accum. - Você também, Slaughter, e você,
Rettig. Vão ser examinados.
- Ele nem me tocou - disse Slaughter.
- Mas o gato, sim. Se este vírus for como o da raiva, você já deveria ter tomado a
vacina há muito tempo. E você, Rettig, eu não sei. Se não foi mordido, não vai
haver problema.
- Mas eu também não fui mordido - disse Slaughter. - Fui só arranhado.
- Quer correr o risco? - Slaughter fez que não com a cabeça. - É isso o que eu
acho. Não se preocupe. Vai ter companhia. Eu também vou ter de tomar soro.
- Mas tampouco você foi mordido.
- Não. Mas, com este lábio sangrando, não posso arriscar. - Voltou-se. - O garoto
já ficou inofensivo. Podem levantá-lo. Fiquem longe da cabeça.
Os policiais olharam para Slaughter, que fez um gesto afirmativo. Um homem
segurou as pernas do menino, outro, os ombros. Ergueram-no.
- Meu Deus, ele não pesa nada.
- Foi o que eu disse: um menino tão pequeno, e toda esta confusão. - Slaughter
ficou olhando, enquanto o corpo era levado para as escadas. - Alguém tem de pegar
aquela ponta da rede, para evitar acidentes.
Com ar sombrio e contrariado, ficou observando como os policiais, com o
menino nos braços, começavam a descer a escada.
Slaughter o iluminou com a lanterna. No segundo andar, voltaram-se e olharam
para baixo. Ele viu o clarão dos faróis entrando pela porta, ouviu os motores dos
jipes. Viu os pais do menino esperando, a mulher da Sociedade Histórica, o
policial que os acompanhava.
- Cuidado aqui - disse um dos homens e parou para segurar melhor os ombros. -
Tudo bem, está seguro.
Eles chegaram ao térreo e atravessaram o saguão para chegar à entrada.
- Rettig, você pode dizer para aquela mulher o que encontramos lá em cima.
Aqueles tijolos podem significar uma porção de coisas, nenhuma delas importante.
- Duvido que você ache isso.
- Não tenho opinião. Mas a mulher precisa ser informada sobre o estrago.
Saíram à varanda. Os pais se aproximaram correndo.
- Ele está...?
- Só tomou um sedativo - disse Accum. - Levando em conta o que aconteceu, até
teve sorte. Fiquem longe dele. Não os quero contaminados. Podem vê-lo no
hospital.
Os pais não se convenceram.
- É apenas uma precaução - disse Slaughter. - Nós não sabemos com o que
estamos lidando. Vamos colocá-lo no banco traseiro do meu carro - disse para os
homens.
- É melhor colocá-lo num cobertor - disse Accum. - Nós o queimaremos ao
chegar ao hospital.
- Temos de tomar esse cuidado todo? Accum se limitou a fitá-lo.
- Eu vou pegar um cobertor no meu carro - disse o pai, afastando-se
rapidamente.
- Ótimo. Muito bom. Precisamos de sua ajuda.
Foram para o jipe. Slaughter abriu a porta traseira e o pai do menino estendeu o
cobertor no banco.
- Obrigado - disse Slaughter. - Eu sei como é duro... - Olhou para a mãe, que
chorava, ao lado do jipe. - É duro para todos nós.
Colocaram o menino no carro. Accum se debruçou sobre ele para examiná-lo.
Ficou um longo tempo assim. Quando se levantou, Slaughter notou o quanto ficara
subitamente pálido.
- Quero falar com você - disse Accum.
- O que é?
- Lá.
Accum foi andando na direção do bosque. Slaughter esperou, pensativo, depois
o seguiu.
- Qual é o problema?
- .... Eu matei o garoto.
- O quê?
- Devia ter pensado nisso. - E passou a mão no rosto.
- Pelo amor de Deus, explique isso.
- O sedativo. Eu devia ter pensado nisso. O cachorro que eu achei. O veterinário
também lhe deu um sedativo.
- Mas o que...
- O cachorro entrou em choque, ficou paralisado. O sedativo o matou. O menino
não está respirando mais.
- Oh, meu Deus.
- Você entende agora. Não sei como esse maldito vírus age, mas é muito rápido,
pelo menos isso eu sei. Ele ia entrar em choque, talvez, mas o sedativo precipitou
tudo. Relaxou-lhe o corpo até matá-lo.
- Mas você não teve...
- Claro que tive culpa. Eu devia ter prestado atenção. Eu simplesmente o matei. -
Estava rouco, os olhos fechados, trêmulo.
Voltando-se, Slaughter viu o pai debruçando-se sobre o menino.
- Eu não.... Alguma coisa está errada. - Ouviu-o dizer.
E ouviu a mãe gritar quando o pai se precipitou sobre o pequeno corpo dentro do
jipe. Viu seus homens, as demais viaturas, os faróis iluminando a casa, viu Rettig
conversando com a mulher. Chegou a sentir a lua no céu, bem acima dele. Accum,
ao seu lado, tremia, sentindo o mundo ruir ao seu redor. Lá embaixo, no parque,
um animal uivou para a lua. Dunlap começou a tirar fotografias. Slaughter não
tinha força sequer para se irritar. Deixou-o seguir tirando fotos, os flashes piscando
como raios.
56
Estava bêbado. Voltara para casa pouco antes da uma da manhã e ainda passara
um bom tempo lá fora, cuidando dos cavalos. Depois, tendo retornado, com a luz
da varanda acesa, contemplou a caixa de isopor cheia de água quase morna e ainda
com as latas de cerveja daquela manhã. Também havia latas vazias espalhadas na
varanda. Não tivera tempo para arrumar a casa. Muita coisa começara a
acontecer. Tampouco agora ia arrumar coisa alguma. Simplesmente olhou para a
escuridão lá fora e se voltou para entrar. Primeiro, acendeu as luzes a fim de
vasculhar o outro isopor na cozinha. A seguir, foi até o armário onde guardava a
garrafa de Bourbon. Era uma bebida que quase nunca tomava, mas aquela fora uma
noite especial, oh, sim, e uma boa dose não lhe cairia mal. Sabia, contudo, que
aquilo era uma prova de fraqueza, e, já que estava disposto a ser fraco o bastante
para começar, resolveu estabelecer alguns limites. Pegou a garrafa, colocou gelo no
copo e o encheu até a boca. Com três goles, tomou um terço da bebida.
O choque quase o paralisou. Apoiando as mãos na pia, inclinou-se para a frente,
sufocado, esperando que o líquido se acomodasse em seu estômago. A tensão fê-lo
lembrar-se de que nada comera desde a manhã; assim, acabaria vomitando
facilmente o Bourbon. Pouco a pouco, no entanto, os espasmos cessaram, ele
respirou fundo e estremeceu, como se seu corpo estivesse sacudindo aquele súbito
castigo.
Permaneceu um momento mais debruçado sobre a pia. Então, pôs um pouco de
água no Bourbon e olhou para a sala às escuras. Já havia tentado entrar em contato
com Marge, mas não a encontrara nem em casa nem na delegacia. Desejou
telefonar uma vez mais, porém era muito tarde, não queria acordá-la. Ao mesmo
tempo, precisava conversar com alguém. Lembrou-se, como se ainda estivesse ali,
do pai e da mãe chorando, amaldiçoando, acusando-o de exagerada brutalidade
para prender um garotinho. O pior, fora a luta com o pai.
- Não, o senhor não pode entrar, não pode tocá-lo.
- É o meu filho!
- Eu sei. Mesmo assim ainda pode contaminá-lo. Sua esposa já deve estar
contaminada com aquela mordida.
Foram precisos dois homens para afastá-lo do banco traseiro do jipe. Dunlap
continuou tirando fotos. Oh, Deus, que absurdo! E, quando ele conseguira reunir
energias para falar com Dunlap, não o encontrara. Aquele homem, seu antigo
amigo, tinha sido esperto o suficiente para dar o fora dali enquanto era tempo,
temendo, provavelmente, que suas fotos fossem confiscadas. Slaughter não sabia
se lhe teria realmente tomado a câmera. Na ocasião, estava assustado demais para
ter qualquer iniciativa. E também já havia pouca coisa a fazer, quando procurou
Dunlap. A mãe e o pai do menino tinham ido para casa. Accum levara o corpo
para a morgue. Os guardas estavam fechando a casa; na manhã seguinte viriam
investigar. E ele ficara parado na escuridão, junto ao jipe, olhando para a mansão,
e tornara a ouvir o uivo no parque, mas estava por demais cansado e desgostoso,
para não dizer amedrontado, para ir ver o que era. Já tinha visto o bastante naquela
noite e pressentia que em breve veria muito mais. Tudo o que queria era sentar-se
em casa e se anestesiar com aquele Bourbon.
Mas não por muito tempo. Teria muito que conversar na manhã seguinte.
Dunlap, Parsons, Accum, o Conselho da cidade e Deus sabia quem mais. Havia
muito que explicar e ele estava pensando como. Tinha certeza de que o Conselho
pediria sua renúncia. Accum podia muito bem perder o emprego. Pior que isso,
podia perder a licença. Ambos haviam sido negligentes. O pai do menino faria
acusações, processá-los-ia.
Accum levara o corpo. Slaughter preferia não o ter deixado.
- Não vê que eu preciso saber o que é? - Suplicara o amigo.
E que diferença fazia? O menino já estava morto. Não havia tempo para arranjar
outra pessoa que fizesse o trabalho. Era preciso saber imediatamente como agia
aquela doença.
Tomou um gole do Bourbon, com a esperança de que Accum descobrisse que a
morte do garoto não tinha sido causada pelo sedativo.
Mas será que o Conselho confiaria em seu julgamento?
Ou você mesmo? Perguntou-se. Acreditaria nele? Confia nele tanto assim?
Sim, pensou. E, quando o telefone tocou e ele atendeu, imaginou que fosse
Marge. Não era. Nenhuma voz se fez ouvir do outro lado.
- Quem é? - Repetiu, mas não obteve resposta. Perguntou-se se não era Accum
ou o pai do menino. - Há alguém na linha?
Mas o aparelho começara a dar sinal de linha ocupada e, depois de olhar alguns
momentos para o fone, Slaughter o recolocou no gancho.
Foi quando, no campo, perto do celeiro, os cavalos começaram a relinchar e a
bufar. Pela janela, ouviu barulho de cascos movimentando-se de um lado para o
outro. Depositou o copo e se levantou da cadeira. O Bourbon o deixara tonto,
esperou um pouco antes de abrir a porta. Ao sair da varanda, acendeu a luz, parou,
olhou à sua volta e, então, se voltou para o celeiro, à esquerda. Notou algo
diferente no ar. Nem os insetos estavam fazendo barulho. Sempre ficavam voando
e zunindo no mato. Estavam lá, quando ele chegou e estacionou o jipe e foi cuidar
dos cavalos.
Mas agora a noite estava silenciosa, pesada, ouvia-se apenas o relinchar dos
cavalos. Arrependeu-se de não ter trazido o rifle. Em todo o caso, estava com o
revólver e, na escuridão, sua eficiência de tiro era suficiente para qualquer alvo que
chegasse a ver. E provavelmente não era nada. Os cavalos, às vezes, ficavam
agitados ao notar uma serpente ou algo como um coiote descendo pelo riacho seco
que passava atrás do celeiro. Frequentemente, o que tinha de fazer era acalmá-los
ou, quem sabe, iluminar o mato com a lanterna, para que o animal fosse embora.
Mas, graças ao Bourbon, esquecera a lanterna em casa, e estava imaginando se
teria controle suficiente para resolver o problema. E, a julgar pelo barulho dos
cavalos, devia haver mesmo um problema.
Aproximou-se da porta aberta do celeiro e, apesar da lua clara, acendeu
rapidamente as luzes, tanto dos fundos, que iluminavam o riacho seco e o campo
que se estendia mais além, quanto das que estavam voltadas para a casa. Seus olhos
arderam por um breve momento quando olhou para o lugar onde os cavalos
escoiceavam e galopavam de um lado para o outro. Movimentavam-se em círculo,
como se estivessem se sentindo ameaçados a ambos os lados e, embora se
mantivessem afastados da cerca, Slaughter podia ver-lhes os olhos assustados e as
narinas dilatadas.
Nunca os tinha visto assim. Quando incomodados, costumavam se agitar um
pouco, depois retiravam-se para um canto mais tranquilo do campo. Mas ambos os
animais, bufando e galopando freneticamente, pareciam fora de si. Ele estava a
ponto de subir na cerca, para acalmá-los, quando lhe ocorreu que podiam estar
contagiados. Sua atitude era estranha demais, o que podia ser um sintoma daquela
doença. Não podia arriscar.
No entanto, o que haveria de fazer? Admitir que algo, na escuridão, podia havê-
los incomodado. Desejou que fosse isso. Adorava aqueles cavalos, seria horrível
ter de matá-los. Caminhou até lá. Percebeu que sua hesitação era fruto do medo e,
respirando fundo, sacou o revólver e se obrigou a caminhar até o riacho seco.
As lâmpadas iluminavam tudo até cinquenta metros além do celeiro. Viu a terra
vermelha, os arbustos na ladeira e as árvores na outra margem. Olhou para trás,
temendo que algo o estivesse espreitando atrás do celeiro, e, então, com as costas
protegidas, foi caminhando lentamente até a borda do riacho.
Nada havia no fundo do riacho, a não ser o barro vermelho, as pedras e os galhos
que ele mesmo jogara ali para evitar a erosão. Mesmo assim, sentia uma presença
ali. No campo, os cavalos continuavam relinchando e bufando e ele não sabia bem
o que fazer. Num verão normal, não pensaria duas vezes para atravessar o riacho e
ir averiguar o que havia no mato. Afinal, o que haveria de lhe fazer mal? Mas os
últimos acontecimentos o forçaram a reconsiderar as coisas. De certo modo tinha
de desconfiar de qualquer ser vivo. Contudo, não conseguia suportar a agonia e o
pânico dos cavalos, tinha de saber o que os havia assustado. Estava começando a
descer o barranco, quando ouviu um estalar de galhos do outro lado do riacho,
onde a luz se misturava com a escuridão. Recuando uns passos, pôs-se a caminhar
ao longo da borda, escrutando as sombras. Com o revólver engatilhado, pronto
para disparar, não sabia ao certo se o ruído fora provocado por algo que estava se
aproximando ou se afastando dali. Então, notando o movimento em outro grupo de
ramos, relaxou um pouco, convencido de que se tratava de algo que estava indo
embora. Os galhos, contudo, voltaram a balançar perto do primeiro lugar, e ele
compreendeu que ali havia mais de uma coisa. Ficou rígido, lutando para não fugir
em pânico como queriam fazer os cavalos. Fique calmo. São só alguns coiotes.
Então, por que precisa parar de respirar? Ao ouvir novamente o ruído dos galhos,
notando, então, que a coisa estava se aproximando, agiu sem pensar.
Instintivamente, atirou no ar e viu fugir pelo mato a criatura esquálida, peluda, de
quatro patas. Então, avistou a outra, e mais outra, e deve ter gritado quando viu
uma delas chegando mais perto. Nunca saberia ao certo. Ouviu um ruído no fundo
do riacho, à sua direita, outro na outra extremidade do celeiro, e começou a correr
paralelamente à cerca, em direção à casa. Os cavalos, galopando, o acompanharam
durante algum tempo, logo dispararam no campo. Ele continuou correndo, ouvindo
barulhos atrás de si, mas sem sequer olhar para trás. Chegou à casa ofegante,
entrou precipitadamente e trancou a porta. Correu pela sala, passou pela cozinha e
bateu a porta dos fundos. Depois de fechar e travar as janelas, correu ao telefone.
- Alô?
- Rettig, é Slaughter. Pegue Hammel e venha correndo para cá.
- Chefe, é o senhor? Eu...
- Rettig, não faça perguntas. Venha já para cá.
- Para a delegacia? Que horas são?
- Para a minha casa. Depressa. Preciso de você.
Slaughter ainda repetiu o pedido e desligou. Lá fora, os cavalos relinchavam
desesperadamente. Foi até a janela e tentou ver pela persiana porque estavam se
comportando daquele modo. Mas o telefone tocou. Aquele maldito Rettig! O que
está acontecendo com ele? Atravessou a sala para atender, mas não ouviu voz
alguma. Apenas o silêncio.
- O que você quer? - Gritou.
Mas o silêncio continuou. Então ouviu o ruído de discar e, ao mesmo tempo,
algo arranhando na varanda. Apenas um dos cavalos estava relinchando lá fora.
Ficou de frente para a porta, o revólver na mão, pronto para atirar, e olhou para a
janela mais próxima dos animais. Mas agora não ouviu cavalo algum e se
aproximou da janela da frente, mas o ruído cessou. Não havia nada.
57
Dunlap desligou o telefone. Estava em seu quarto, a câmera e o gravador sobre a
mesa, anotações espalhadas a sua frente. Já quase não tinha cigarros. Olhou para o
uísque que ali deixara pela manhã. Apesar do sofrimento, manteve-se firme na
promessa de não beber. Era uma promessa recente, e, embora já tivesse feito
muitas outras iguais, desta vez estava determinado a não a quebrar. Viera a pé do
parque. Vira partir os pais do garoto, o médico-legista levar o cadáver e sabia
que Slaughter não demoraria a abordá-lo. Afinal, sabia demais. Tinha até tirado
fotografias: os pais chorando, o corpo, o médico olhando com uma expressão de
culpa capaz de, por si só, condená-lo. Dunlap sabia que abusara de uma amizade.
Slaughter haveria de se sentir ameaçado e traído, jamais lhe daria outra chance.
Não via uma matéria como aquela havia anos, desde a primeira vez em que
estivera em Potter 's Field. Se a situação piorasse - e ele sentia que ia piorar -
podia se transformar numa das dez melhores matérias do ano; não estava disposto a
prejudicar seu retorno ao jornalismo. Na verdade, voltara correndo para o quarto.
Tendo enrolado o filme, procurara um lugar onde escondê-lo. No quarto seria
bobagem. Fora, então, ao corredor e o escondera atrás de um quadro na parede.
Atrás de outro, ocultara a fita gravada. Tinha registradas todas as vozes, desde o
momento em que haviam chegado ao salão de baile até o instante em que os pais
acusaram o médico-legista de negligência. Estava tudo ali, nos mínimos detalhes,
e ele ficaria com aquilo. Slaughter poderia procurar o material, mas não haveria de
encontrá-lo.
Voltando ao quarto, trancou a porta e, naquele momento, seu olhar se fixou no
que restava do uísque. Aproximou-se da garrafa, chegou a girar a tampa, mas se
deteve. Não, aquela era a razão de sua decadência. A bebida lhe arruinara a sorte.
Dessa vez, ele seria um vencedor. Aguentara desde a manhã sem beber, era a
primeira vez que conseguia em muitos anos, e, se pudera suportar o sofrimento
um dia inteiro, haveria de aguentar um pouco mais. Haveria de suportar aquela
noite. Enfrentaria a primeira hora, depois a segunda. Não era assim que os
Alcoólicos Anônimos o conseguiam? Claro, enfrentando cada hora.
Começou a rir, mas suas mãos estavam tremendo. Colocou a garrafa ao lado do
televisor. Foi ao banheiro beber água, tomou um chuveiro e aquilo ajudou; a água
quente lhe diminuiu a tensão. Porém continuava se sentindo mal e com vontade de
beber. Mesmo que se sentisse pior depois, precisava beber. Atração e repulsão.
Vestiu roupas limpas. Não sabia por quê. Devia ir para a cama, mas estava
pensando em dar um passeio. Em vez disso, sentou-se à mesa e tentou fazer umas
anotações. Um primeiro registro do que havia na fita e no filme. Fumando,
escreveu suas impressões, sem nenhuma ordem especial, soltando as palavras
apenas e observando suas próprias mãos que tremiam. Mas as frases lhe saíram tão
miseravelmente rabiscadas que mal conseguia ler. Por que não tomar um drinque,
só um? Para acabar com aquele mal-estar. Não. E, olhando para o uísque,
continuou fumando e escrevendo.
Deu-se conta, então, de que estava precisando dormir um pouco. Apagou a luz,
deitou-se e se concentrou em relaxar o corpo. Estava rígido, trêmulo. Soltou os
músculos dos pés, das pernas, do peito, e, lentamente, foi subindo rumo à cabeça.
Devia estar mais cansado do que supunha, ou, talvez, aquele exercício fosse como
contar os números de trás para diante ou repetir frases sem sentido. O fato é que
adormeceu antes de chegar à cabeça. Acordou agitado, quase gritou na escuridão,
mas se conteve. Estava sentado na cama, suando; levantou-se para acender a luz.
Dormira meia hora. Viu os insetos entrando pela janela; apoiando-se na parede,
esfregou a testa. Uma vez mais, vira aquela imagem, aquele estranho vulto semi-
humano, de chifres, meio homem, meio veado, meio gato. Deus sabe o que mais. E
aquela barba grotesca, aquele corpo ereto virando-se a um lado, aquelas patas
erguidas, aqueles olhos redondos fitos nele. Era horrível. E mais, era hipnótico,
poderoso como um feitiço; como se, de certa forma, estivesse apavorado com
aquilo, com o enigma que representava. O que estava acontecendo com ele? Se
continuasse vendo aquela coisa, terminaria num sanatório. Num hospício. Já não
podia aguentar.
Tinha de falar com alguém, mas não sabia a quem telefonar. Atravessou o quarto
e pegou o telefone. Ficou surpreso ao notar que dera ao recepcionista o número do
telefone de Slaughter. Estava com medo do que o amigo lhe haveria de dizer. Não
sabia como resolver o problema que havia criado. Quando o telefone tocou, teve
vontade de desligar, mas Slaughter atendeu, e ele perdeu a voz.
- Sim, quem é? - Disse Slaughter e repetiu. Dunlap esperou, paralisado,
emudecido. - Há alguém...? - Insistiu ainda, e Dunlap pôs o fone no gancho.
Aquilo era uma estupidez. O que estava acontecendo? Pensou. Mas ele sabia o
que estava acontecendo, muito embora tivesse dificuldade para admiti-lo. Estava
envergonhado do que fizera aquela noite, estava arrependido, confuso. O que você
vai fazer? Pensou. Desistir da fita e do filme? Renunciar à matéria? Não, claro que
não. Porque a vergonha que está sentindo não passa de mais uma maneira de ser
um perdedor. Não é sua culpa se o garoto morreu. Você simplesmente está aqui
para escrever sobre isso. Pode continuar sentindo toda a vergonha que quiser, mas
não deixe de escrever essa matéria, não deixe que as emoções interfiram em suas
decisões profissionais. As emoções são apenas luxo.
Sabia que tinha razão, mesmo assim continuava com os olhos fitos no telefone.
Apesar da amizade comprometida, precisava falar com Slaughter, amenizar as
coisas, arranjá-las de modo que ele não fosse cortado da matéria. Mas passou
outros dez minutos refletindo antes de pegar o telefone novamente. Pediu o número
à recepção e esperou tocar. Dessa vez, a voz de Slaughter parecia irritada:
- Sim, que diabo, Rettig, o que é? Venha já para cá. - Dunlap não respondeu. -
Diga o que quer!
Dunlap recolocou o fone no gancho. Não tinha como conversar com uma pessoa
tão furiosa. Teria de esperar até a manhã seguinte. Fumou o último cigarro, olhou
para as anotações e, então, fez algo que nunca havia feito antes; algo a que jamais
se atrevera porque o abalava imensamente. Ainda sob o efeito do sonho, a imagem
fixada no fundo de sua mente, sempre se voltando, sempre olhando para ele, viu-se
forçado, e a contragosto, numa atitude passiva, empenhou-se, esforçou-se para
desenhá-la.
Ficou olhando para a imagem, hipnotizado por aqueles olhos. Continuou
olhando para ela, sem conseguir mover a cabeça. Sentiu que a escuridão, em sua
mente, começava a ceder, e não fraquejou imediatamente. Demorou vários
minutos, lutou contra aquilo; mais tarde se lembraria disso. Lutou o quanto pôde,
mas a decisão tomada foi perdendo sentido. Chegara até ali, provara que era capaz
de aguentar um dia inteiro. Então estendeu a mão e pegou a garrafa de uísque.
58
Accum puxou o lábio ferido e enfiou a agulha. Doeu. Empurrou rapidamente o
êmbolo e sentiu o líquido lhe penetrar o tecido. Ainda bem que prendera a
respiração e não tinha deixado que o líquido se derramasse em seu lábio: não lhe
sentiu o gosto. Era um soro antirrábico preparado com sangue de pessoas
vacinadas contra o vírus. Ajudaria seu sistema a produzir os anticorpos necessários
e, combinado com um segundo tipo de tratamento, dar-lhe-ia boas chances de
sobreviver ao contágio, caso o soro tivesse efeito contra aquele vírus. Encolheu-se
ao retirar a agulha. Descansou-a, arriou as calças e a roupa de baixo, e, tendo
pegado outra agulha, espetou-a numa das nádegas. Era o mesmo tipo de injeção,
que teria de tomar novamente no dia seguinte, àquela mesma hora. Não tinha razão
para se sentir aliviado, pois, no dia seguinte, começaria o segundo tratamento. Não
com aquele soro, mas com a vacina antirrábica. Ninguém que já a tivesse tomado
gostava de recordá-lo. Desenvolvida inicialmente por um inglês chamado Semple,
era preparada com vírus de raiva retirado do cérebro de coelhos, camundongos ou
ratos e morto por incubação em ácido carbólico. Com efeito, as células mortas
ajudavam no processo de imunização do corpo. Embora inofensivas em si,
provocavam crescente rejeição por parte das outras células. Mas o problema era
que não bastava uma só injeção. Eram necessárias no mínimo quatorze, e o melhor
seria tomar vinte e uma, aplicadas diariamente nos músculos do abdome. Era
preciso um horário mais ou menos fixo: as injeções eram tão atrozes que os
músculos ficavam hipersensíveis. E, mesmo que o paciente pudesse aguentar as
primeiras cinco ou dez, as últimas eram uma verdadeira agonia, coisa na qual não
estava querendo pensar.
Mas não havia outra escolha. Expusera-se indiretamente e, se estivesse
contaminado e não se tratasse, a doença fatalmente o mataria. Conheciam-se
apenas dois casos de pessoas que haviam sobrevivido à raiva, se bem que havia
dúvidas sobre se realmente estavam afetadas daquele mal, já que os sintomas eram
os de encefalite. Mesmo com o tratamento ele corria o risco de morrer caso a
doença fosse forte demais para as precauções tomadas. As probabilidades eram,
contudo, reduzidas, e, de qualquer modo, como continuava pensando, não tinha
escolha. Mesmo algumas raras reações contra a vacina, como febre ou paralisia,
não eram nada diante de uma morte certa. Mas esse começo de tratamento ainda
não acalmava os medos. Aquele cachorro havia tomado vacina preventiva e mesmo
assim morrera.
E também não lhe acalmava o pesar. Estava pensando no menino estendido na
mesa da morgue. Por que não lhe ocorrera que não lhe podia aplicar o sedativo?
Os pais. Como haveria, ele mesmo, de se perdoar? Ainda ouvia os gritos daquela
mãe desesperada. Bem, ele descobriria tudo o que pudesse sobre aquela coisa. E,
quando terminasse o trabalho, haveria de saber mais sobre aquele vírus que
qualquer outro médico. Já fora um famoso especialista em patologia, no Leste,
antes de seu colapso. Agora ele mostraria o especialista que era capaz de ser.
Chegara a hora de prová-lo.
Tendo vestido e abotoado a calça, saiu do escritório, pensando nos testes que ia
fazer. Owens logo estaria ali para comparar o cérebro do cachorro com o resultado
da autópsia. Enquanto isso, ele faria o simples teste de Corpúsculos Negri. Faria
também um teste mais específico, em que uma pequena amostra do cérebro, tratada
com soro antirrábico fluorescente, era examinada num microscópio ultravioleta.
Para observar os sintomas do vírus, inocularia meia dúzia de camundongos recém-
nascidos com material do cérebro do garoto. Poderia até tirar uma fotografia do
vírus, usando o microscópio. Fosse o que fosse aquela coisa, pretendia dar uma
olhada nela e, quando abrisse aquele corpo, trataria de entender por que a paralisia
fora tão rápida e por que havia piorado com o sedativo.
Ao percorrer o corredor, viu que as enfermeiras o observavam. O caso fora
divulgado, sem dúvida, e muito depressa, como costumava acontecer naquele
meio. Estavam olhando para um homem cujo erro fora fatal para um paciente. Fez
força para se controlar. Talvez elas apenas estivessem sensibilizadas pela angústia
estampada em seu rosto. Bem, de qualquer modo ele não lhes ia perguntar nada. E
o melhor para elas era ficarem longe de seu caminho.
Chegando à porta que conduzia ao subsolo, pensou em Slaughter, que também
precisaria de injeções, e também na mãe, no homem que fora mordido, no dono do
cachorro. Havia muitos detalhes aos quais não havia prestado atenção. E o pior, ele
precisava dormir. E comer. Não se alimentava desde cedo. Bem, faria isso e
cuidaria do resto. Com a ajuda de Owens, encontraria tempo para chamar aquelas
pessoas e vaciná-las. Mas sabia também o que realmente queria: descobrir o que
havia matado aquele menino.
Chegou ao pé da escada e entrou na antessala. Lavou as mãos, colocou a
máscara, as luvas e o avental. Para ser ainda mais meticuloso, calçou proteções
para os sapatos e, tendo feito todo o necessário, entrou.
Os azulejos verdes nas paredes, as luzes fluorescentes no teto, as pias de metal e
os instrumentos e, então, as mesas com calhas. Eram três, uma ao lado da outra.
Concentrou-se na terceira, no pequeno volume sob o lençol. Aproximou-se lenta e
decididamente, respirando o vapor que se formava em sua máscara. Parou e puxou
delicadamente o lençol, olhando para o corpo nu sobre a mesa. Tão pequeno e tão
machucado, todos aqueles hematomas causados pela fúria que dele se haviam
apossado. Havia sangue ressecado nos lábios inchados, que, entreabertos,
mostravam lesões nos dentes da frente. Mas aqueles detalhes não eram
importantes. Mesmo com eles, o garoto o impressionava. Louro e pálido, angelical,
quase inocente. Era a primeira vez que trabalhava em alguém que tratara como
paciente. A questão, aliás, era justamente essa. Nunca tivera um paciente.
Escolhera ser médico-legista para não ter obrigações com a vida, para evitar
responsabilidades. Pois bem, ele mesmo criara o problema. Tornara-se responsável.
Deteve-se, a fim de controlar suas emoções antes de pegar o escalpelo com que
rasparia a cabeça do garoto. Respirou fundo e se inclinou, aproximando-se
bastante, para escolher o ponto de contato.
Foi quando aqueles olhos se abriram e o fitaram. Mas, despidos de toda
inocência, eram velhos e duros como quaisquer olhos que tinha visto e
continuavam fitando-o. Quando a mão se ergueu, a sala pareceu girar. Levando a
própria mão à boca, quase gritou sob a máscara. Recuou tropegamente. O menino
se sentou, olhou-o de soslaio e, então, ficou de cócoras na mesa. Accum pensou no
velho Markie. Quando o garoto saltou sobre ele, seu reflexo foi o de empurrá-lo
para longe de si, mas, com o escalpelo na mão, atingiu-lhe o estômago nu. E o
sangue começou a jorrar.
59
Marge ficara na delegacia até que tudo estivesse encerrado na mansão. Não
tinha como ajudar lá, mas podia substituir um dos operadores de rádio, liberando-o
para dar uma mão a Nathan, que estava precisando de todos os policiais da cidade.
Pelo rádio, foi se inteirando aos poucos, fragmentariamente, do que estava
acontecendo e, quando soube do desfecho da história, fez todo o esforço de que era
capaz para não chorar. Não conseguiu, porém, conter as lágrimas; sentada diante
do aparelho, enxugava-as ao mesmo tempo que transmitia as mensagens. Conhecia
bem os pais do garoto, haviam sido colegas de escola. Moravam a apenas duas
quadras de sua casa, e ela os visitava com frequência, brincava com o menino,
levava-lhe presentes. Agora, estava morto. Tudo o que podia fazer era chorar. Ao
retornar para terminar seu turno, o homem que a substituiria a encontrou chorando
ainda. Fez-lhe companhia até que estivesse em condições de dirigir. Sugeriu-lhe
que dormisse um pouco, muito embora ambos soubessem que não seria fácil, que,
naquela noite, muita gente não conseguiria dormir. Ofereceu-se para acompanhá-la,
mas ela preferiu que ficasse operando o rádio. Fazia, agora, cinco anos que estava
com Nathan, tempo suficiente para ter aprendido a importância do autocontrole.
Tinha certeza de que conseguiria.
Foi para o estacionamento atrás da delegacia, examinou o assento traseiro do
carro, entrou e deu partida. Era sábado, quase meia-noite, normalmente esperava
ver muito movimento nas ruas, principalmente à porta dos bares do centro, mas
não se surpreendeu ao encontrar a cidade quase deserta. Só alguns carros velhos e
caminhonetes, e dois homens tomando cerveja em lata à porta de um bar. Mais
parecia uma terça-feira. Marge se perguntou se a notícia já não se espalhara entre a
população. Em todo o caso, o problema não se devia apenas ao que havia
acontecido na cidade, mas também aos incidentes no vale. Durante todo o dia
ouvira falar no gado mutilado no campo, e imaginou que os rancheiros, tendo
perdido algumas reses, haviam ficado em casa, para protegê-las contra as feras. Ao
chegar à periferia da cidade, viu muitas luzes acesas, coisa que, àquela hora,
tampouco era normal. Lamentou não ter podido falar com Nathan, que passara o
dia tão ocupado, mas não queria ficar em casa sozinha. Pensou no pai e na mãe do
menino e, ao chegar em casa, não parou. Avançou duas quadras mais e, se as luzes
estivessem acesas, entraria para consolá-los.
Sim, a casa estava totalmente iluminada. Viu o caminhão do marido, o carro à
sua frente. Ambos deviam estar ali. Estacionou, perguntando-se se não estava
sendo intrusa. Mas já estava à porta e considerava aquela visita uma obrigação, de
modo que fechou o carro e avançou pela calçada. Ouviu o cricrido dos grilos ao
olhar pelas janelas iluminadas, imaginando que outros amigos vieram visitá-los.
Foi quando ouviu vozes de homem, altas. Logo a seguir, um grito calou os grilos,
e alguém correu desesperado para a varanda. Era um vizinho.
- Meu Deus, ela ficou louca! - Disse, olhando fixamente para ela.
- O quê?
Marge, no entanto, ouvia o rosnar e quase obedeceu ao impulso de fugir.
Naquele instante, a janela da casa explodiu sobre a varanda e, em meio aos cacos
de vidro, caíram duas pessoas, que lutavam e se estorciam. Eram a mãe e o pai do
garoto, aquela rosnando, este gritando, aquela por cima, mordendo, arranhando.
Depois de hesitar um momento, Marge subiu correndo os degraus.
- Você tem de ajudar! - Gritou. - Tire-a de cima dele!
- Mas ela está louca!
Marge haveria de se lembrar, mais tarde, de como pensou em Nathan, do quanto
desejou tê-lo por perto, dizendo-lhe que estava agindo bem. Empurrou o homem.
- Vá buscar ajuda!
E começou a procurar, à sua volta, alguma coisa com que sujeitar a mulher. Não
estava disposta a agarrá-la e ser mordida como o pai, que não parava de gritar.
Mas, quando viu o objeto que precisava num canto da varanda, hesitou. Warren
evidentemente havia brincado com aquilo no dia em que morreu. Não queria tocá-
lo. Os gritos do pai eram, no entanto, tão lancinantes que ela acabou pegando o
taco de beisebol. Pisando no vidro quebrado, ergueu-o sobre a cabeça da mulher. E
foi pensando em Nathan que começou a bater.
60
Slaughter esperou que acendessem os faróis de busca. Então foi à varanda.
- O que é?
- Não acha que eu também gostaria de saber?
Ficaram olhando para ele. Estavam de jeans e camisa esporte, revólver na
cintura. Viram Slaughter tirar a arma e sacaram as suas ao começarem a caminhar
em direção à cerca que ele lhes mostrava.
- Acendam as lanternas. A luz banhou o campo.
- Mas eu não estou entendendo - disse Rettig.
- Proteja as costas. Havia alguma coisa ali. Diabo, chegou até a minha varanda.
Slaughter pulou a cerca e a iluminou com a lanterna para que os outros o
seguissem. Foram pelo campo.
- A sua varanda?
- Isso mesmo.
E Slaughter ficou sem jeito de admitir que havia corrido de medo e que só usara
o revólver para dar um tiro para cima, de admitir que simplesmente perdera a
cabeça e trancara as portas, apavorado com o que podia estar lá fora. Sentia-se
mais seguro, agora, com aqueles dois homens para ajudá-lo, mas não conseguia se
livrar da apreensão, preferia que não fizessem tantas perguntas.
- Mas o que é essa coisa? - Insistiu Rettig.
- Já disse que não sei. Nem cheguei a vê-la.
- Mas não foi até a sua varanda?
- Eu estava falando com você quando a ouvi. Quando fui olhar, não estava mais
lá.
Slaughter viu, então, o que estava procurando e desejou ter estado enganado. Era
capaz até de confessar àqueles homens o medo que sentira se estivesse enganado.
Mas, apontando a lanterna, viu os corpos caídos no campo.
Aproximou-se correndo e parou, perplexo. Estavam tão mutilados que ele...
- Algum animal maldito esteve, de fato, por aqui. Por Deus, eu sinto muito,
xerife.
- Meus cavalos. Eles eram tudo o que eu....
Caminhou decididamente até o riacho seco.
- Eu ouvi três deles ali no mato e dois outros perto do celeiro.
- Ei, espere um pouco, chefe.
Rettig pousou a mão em seu ombro. Slaughter a afastou.
- Aqueles malditos...
- Espere um pouco! Nós nem sabemos o que vamos enfrentar. Você disse que
havia cinco deles?
Slaughter visualizou a sombra que vira de relance.
- Pareciam pumas.
Eles o fitaram.
- Viu cinco pumas?
- Sei que não faz muito sentido, mas...
- Não é isso o que me preocupa. Os pumas não caçam em grupos, é claro, mas
tudo pode acontecer. O que eu estou querendo dizer é que precisamos de ajuda para
fazer isso. Precisamos de mais luz.
- Você quer esperar até que saia o sol? O que há com você? Eles já terão ido
embora quando isso acontecer.
- Você pode arranjar um rastreador.
- Quem, por Deus? Não há tempo!
- Sinto muito, chefe, mas eu não vou. Slaughter encarou Rettig. Virou-se para
Hammel.
- E você? - O policial deu de ombros. - Isso não diz nada - insistiu Slaughter.
- Vou ficar só olhando.
- Pois vai ver muita coisa!
Slaughter olhou para Rettig. Depois se voltou para a margem escura. Apesar da
lanterna e da lua, não conseguiu ver muito entre os arbustos, e sua raiva voltou a se
transformar em medo.
- Está bem. Vocês têm razão. É loucura ir até lá. Vi esses cavalos, eu...
- Vamos descobrir quem fez isso, não se preocupe. Mas não agora. Ele teve de se
afastar.
- Ei, e os cavalos?
- Deixe-os aí. Diabos, que diferença faz?
Eles o seguiram. Ao pular a cerca, Slaughter ouviu o telefone tocando
novamente. Continuavam telefonando, pensou ele, lívido. Mas, fosse quem fosse,
iria acabar com aquilo. Correu para a casa, amaldiçoando; mas, dessa vez, ao pegar
o fone, ouviu uma voz. E, enquanto ouvia, já se via correndo novamente. Era como
se não tivesse parado de correr nos últimos dias.
61
Passou pelo corredor em disparada, as enfermeiras ficaram olhando para ele.
Empurrou a primeira porta, passou pela antessala e empurrou a segunda. A morgue
parecia um matadouro. Sangue, vidro quebrado, instrumentos espalhados. Accum
estava debruçado sobre uma das mesas, com sangue na roupa e a máscara
pendurada no pescoço. Seu rosto muito pálido contrastava com o vermelho do
sangue, as mãos lhe tremiam. O homem ao seu lado, vestindo roupas normais, não
parecia muito melhor.
Owens. Slaughter reconheceu o veterinário que via de vez em quando. Embora
um tanto casmurro, era muito eficiente em seu trabalho.
Voltaram-se para ele. Slaughter olhou à sua volta, sentiu o cheiro de desinfetante
e do sangue recém-coagulado. Compreendeu o que estava acontecendo, tomou
fôlego para perguntar, mas Accum o interrompeu.
- Eu o matei.
Slaughter olhou para ele, depois para Owens. Estava aturdido.
- Olhe, procure acalmar-se. Quando telefonou, você parecia ter tido um colapso.
- Mas eu o matei
- Sim, eu sei. Você já me disse pelo telefone, já o dissera na casa. Não tinha
como saber se o sedativo o mataria. Que sangue é este aqui? Não compreendo o
que aconteceu.
- Por Deus, ouça o que estou lhe dizendo. Eu o matei. Slaughter se voltou para
Owens.
- O que há com ele?
- Dê uma olhada ali. Vai entender.
Owens estava com certa dificuldade para falar. Apontou o fundo da sala, para
trás da última mesa, onde uma mancha de sangue escorria da parede, e Slaughter
voltou a sentir uma apreensão. Avançou, embora algo nele parecesse querer segurá-
lo. Viu uma poça de sangue ao lado da mesa e, mesmo sem querer, olhou para o
chão, para o pequenino pé. Inclinando-se, viu o garoto com a barriga aberta, o rosto
horrivelmente contorcido pela morte.
- Cristo, você o mutilou!
- Não! Estou dizendo que o matei! Slaughter girou o corpo e o encarou.
- Na casa, você disse que ele morrera!
- Eu tinha certeza de que estava morto. Teria sido capaz de apostar na minha
própria reputação.
- Sua reputação!
- Isso mesmo. Fiz todos os testes normais, e ele estava morto.
- Bem, então ele...
- Parecia ter retornado da morte. E tentou me agarrar.
Slaughter não conseguia entender aquelas palavras. Não tinha sentido. Ficou
olhando para o legista. Então, compreendendo pouco a pouco o que elas
significavam, recuou.
- Meu Deus, você está mesmo em crise. Você enlouqueceu!
- Não, ouça-me. Não foi isso o que eu quis dizer.
- Deus queira que não.
- Acho que o estágio de paralisia da doença pode ter sido agravado pelo
sedativo. - Slaughter continuava olhando para ele. - Estava tão inconsciente que
não se detectavam sinais de vida nele.
- Que história é essa? Um conto de Edgar Allan Poe?
- Não, por favor. Eu lhe auscultei o coração, examinei sua respiração e até lhe
tomei a temperatura ao voltar para cá. Foi tudo negativo.
- Você verificou os impulsos cerebrais?
- Fiz tudo, já lhe disse. Estava morto, eu mesmo o constatei. Quando ia começar
a necropsia, ele olhou para mim, atacou-me. Eu...
- Vá devagar. Uma coisa por vez. Você está dizendo que ele se encontrava em
estado catatônico. É isso? É isso o que está dizendo?
- Pode acontecer. Raramente. Há casos em que o paciente é dado como morto e
recobra os sentidos na mesa de um necrotério.
- E os impulsos cerebrais?
- Veja, durante anos se pensou que a falta de batidas no coração indicava a
morte. Depois, descobrimos que o coração de uma pessoa é capaz de bater tão
debilmente que não se pode detectar. Então, fizeram-se outros testes. De
temperatura. De ritmos do cérebro. O fato é que não se sabe exatamente quando
uma pessoa morre. Alguém vai para uma cirurgia. Está passando bem, mas, de
repente, seu coração para e seu cérebro falha. Teoricamente morreu. Cinco minutos
depois, contudo, recupera as funções. Não há quem possa explicar isso.
Slaughter olhou para ele. Não podia crer no que ouvia.
- Tudo bem, vamos supor que você tenha razão. O sedativo agravou a paralisia.
- Ele me agarrou. Começamos a lutar. Eu não podia deixar que me mordesse.
Não importa se se tratava de uma criança. Não podia deixá-lo alcançar-me.
Quando saltou sobre mim, eu estava com o escalpelo na mão.
Ficaram em silêncio, entreolhando-se.
- Oh, meu Deus. - Accum deu um soco na mesa.
Slaughter se aproximou e pousou a mão em seu ombro.
- Calma.
- Mas eu...
- Calma. Tudo vai ficar bem. Agora nós sabemos o que aconteceu com aquele
homem atropelado que desapareceu. Foi mordido antes de chegar aqui.
- E Markie. Sua expressão era de pavor. Entreolharam-se novamente.
- E mais - disse Owens -, os camundongos do teste morreram. Slaughter o
encarou. Não precisou perguntar.
Owens começou a explicar. Accum estava com os olhos fitos na mesa.
- Temos, no laboratório, camundongos em que fazemos testes de vírus. Nascidos
e criados em ambientes esterilizados, da mesma maneira que seus pais, de modo
que sabemos que não estão contaminados. Podemos aplicar-lhes injeções, com a
certeza de que os sintomas que desenvolverem terão sido causados por essas
injeções. Assim, podemos isolar a causa da doença e estudar sua cura. Um teste
padrão de raiva consiste em injetar tecidos contaminados em ratos. Se estes
sobreviverem, é porque não estamos lidando com raiva. Se morrerem, teremos
amostras perfeitas do vírus para examinar. Bem, os primeiros testes que fizemos
com esse vírus não foram conclusivos. Ora, sabíamos que era mortal, mas as
lâminas que examinamos apresentaram-se um pouco diferentes do esperado, de
modo que, quando Accum foi à mansão encontrar-se com você, eu prossegui com
os testes. Em vez de examinar o cérebro do cachorro, injetei vários camundongos.
- E, agora, eles estão mortos? - Owens fez que sim. - Bem, isso não é novidade.
Você mesmo disse que o vírus era mortal.
- Mas os camundongos levam pelo menos uma semana para desenvolver
sintomas. Esses morreram em mais ou menos quatro horas. E como se
estivéssemos diante de uma versão ultra rápida dos sintomas da raiva. Primeiro,
uma sensível mudança no comportamento. Depois, a hostilidade. E finalmente a
paralisia e a morte. A hostilidade ficou muito pronunciada, e, apesar de não se
atacarem uns aos outros, ficaram se atirando contra as paredes da gaiola.
Finalmente, Slaughter conseguiu organizar as ideias e começou a fazer
verdadeiros malabarismos lógicos.
- Mostre-me. - Owens franziu a testa. - Quero vê-los. Mostre-me onde estão.
- Eu não contava com os instrumentos de que precisava, como um microscópio
eletrônico. Por isso vim para cá a fim de...
- Não importa. Mostre-me.
- Estão ali. Trouxe-os comigo.
Slaughter foi até a valise de couro ao lado da porta. Agachou-se para apertar os
fechos.
- Tudo bem se eu abrir isto?
- Os ratos estão em recipientes.
Slaughter abriu a mala e olhou para os frascos de vidro. Viu o pelo branco dos
camundongos e algo mais, que temia, mas já esperava. Levantou um dos
recipientes e o mostrou. Accum e Owens viram que o camundongo estava
rosnando para eles. Slaughter sentiu que arranhava o vidro.
- Mas eles estavam mortos, eu posso jurar.
Owens tirou da valise os outros frascos. Todos os ratos estavam enlouquecidos.
- Tem certeza? - Perguntou Slaughter.
- Então eu não sei quando um animal morreu? Ele também sabia que o menino
morrera.
Os ratos estavam furiosos.
- Não sei o que está acontecendo aqui - disse Slaughter -, embora saiba que
alguma coisa está acontecendo. - Olhou para a última mesa. - E o garoto? O pai e a
mãe não vão acreditar quando lhes contarmos que ele acordou e que você teve de
matá-lo. Não consigo imaginar como dizer isso a eles.
- Então não vamos dizer nada. - Accum finalmente estava se movendo,
aproximando-se deles, a cor de volta ao rosto. - Vou continuar a autópsia. Eu teria
de fazer isso, de qualquer maneira, para descobrir como age esse vírus. Vou
costurar aquele corte no estômago, como se tivesse sido necessário, e só nós três
ficamos sabendo disso.
Entreolharam-se subitamente, compreendendo o significado daquela
conspiração.
Ficaram em silêncio. Slaughter concordou com um gesto. Owens o imitou.
- Owens, você trouxe as amostras para o microscópio?
- Estão com os ratos.
- Tudo bem, vamos começar. Slaughter, se você subir ao meu escritório, vai
encontrar uns livros ao lado de minha mesa. Procure o índice geral e leia tudo o
que encontrar sobre raiva. Não é com isso que estamos lidando. Mas é muito
parecido, e não podemos perder tempo explicando-lhe o que vamos fazer.
Slaughter olhou para ele, depois para Owens. Levantou-se.
- Quanto tempo vai demorar?
- Pelo menos algumas horas.
Slaughter consultou o relógio, eram três horas.
- Nem quero pensar no dia de hoje.
- Tem muitas razões para isso.
- Vão me procurar com suas perguntas.
- Bem, vamos ver se encontramos alguma resposta. Slaughter tentou sorrir, mas
não conseguiu. E foi para a porta.
62
Estava rosnando, debaixo do assoalho da varanda, quando dois homens lhe
apontaram as lanternas.
- Meu Deus, você viu o que ele fez com o corpo daquele cego?
- Nem quero falar nisso. Atire nessa maldita coisa.
- Aqui na cidade?
- Está disposto a entrar aí embaixo e agarrá-lo?
- Não estou disposto nem a ficar aqui. Sacaram os revólveres.
As luzes. Não podia aguentar. Ao ouvir engatilharem as armas, saltou.
- Meu Deus!
63
Agora, estava subindo a escada. Alimentara-se dos corpos, lá embaixo, e
dormira um pouco, mas acordou, e não conseguia deter aquela estranha
compulsão. Estava ganindo ao chegar à cozinha e não pôde deixar de sair para
olhar a noite. Ao abrir a porta dos fundos, ouviu os tiros. Começou a rosnar.
64
- Assim é que é o vírus da raiva. - Slaughter olhou para onde Ac-cum apontou e
fez um gesto afirmativo. - Ótimo. Agora, uma micrografia do microscópio
eletrônico. O vírus do cachorro morto.
Slaughter examinou a micrografia colocada ao lado do livro que estavam
olhando. Ficou pensando durante um bom tempo.
- Bem, é mais delgado que o vírus da raiva.
- Sim, essa é uma das muitas diferenças. Normalmente, dizemos que o vírus da
raiva tem a forma de uma bala, mas este se parece com.... eu não sei...
- Um míssil - disse Owens, e ambos olharam para ele.
- Por que não? Isso mesmo, um míssil. - Accum apontou de novo para a
micrografia. - Em todo o caso, a velocidade de ação dessa coisa lembra mesmo a
de um míssil. O problema é que muitos vírus têm essa forma, mas nenhum é
exatamente como este. É muito mais liso, tem um recorte dentado na base, mas
nenhum sinal de apêndice. E, o que é mais estranho, o sistema nervoso do menino
não estava infectado.
Slaughter sabia, pelo que lera, que o vírus da raiva atacava o sistema nervoso,
dele se alimentava e depois o destruía. Franziu a testa.
- Mas eu pensava que...
- Sim, eu sei. Não devia ser assim. Esta coisa é diferente de todos os vírus que
conheço. Mas infectou o lobo límbico. - Slaughter não entendeu. - É a parte em
torno da qual se desenvolvem todas as outras seções do cérebro. É provavelmente o
centro de nossos instintos de sobrevivência, nossas emoções e agressões. Isto
explica por que o menino se comportou daquela maneira. Trocando em miúdos, ele
virou um animal.
- Mas e o estado de coma em que entrou?
- Não me apresse. Espere até eu chegar a isso. Quando examinei o lugar onde o
menino disse haver se cortado, achei algumas evidências de que fora mordido. No
máximo ontem. Para agir com tanta rapidez, o vírus precisa ser transmitido pela
corrente sanguínea. E é seletivo. Ataca apenas algumas células.
- As do lobo límbico? Accum fez que sim.
- Produz muito rapidamente os sintomas da raiva. Nos seres humanos, em,
digamos, doze horas, provoca a paralisia e o estado de coma. Evidentemente,
quando o cérebro se fecha, o vírus fica em repouso. Quando a vítima recobra a
consciência, ele volta a agir. É, de fato, muito eficiente. Alimenta-se até o estado
de quase-morte e, então, hiberna até que a vítima possa alimentá-lo novamente.
Mas, ao passar pela corrente sanguínea, manifesta-se nas glândulas salivares,
infecta a saliva e passa para outra vítima pela mordida. Se você tiver um corte e
entrar em contato com sangue infectado, acontece a mesma coisa.
Franzindo a testa, Slaughter tocou a ferida do rosto.
- Não precisa mais se preocupar, Slaughter. Se você estivesse infectado, nós
teríamos sabido ontem.
- Mas não poderiam fazer nada.
- Certo. Nossa vacina não teria utilidade. Também tive sorte. Eu estaria
apresentando os sintomas da doença agora se meu lábio estivesse infectado. Mas
tomei duas vacinas anti rábicas.
- Deve ter sido muito agradável.
- Sim, gostei tanto que até vou continuar. Droga, não sei o que fazer.
- Você disse que nunca tinha visto uma coisa como esta? Nem ouviu falar?
Accum sacudiu a cabeça.
- Bem, eu ouvi - disse Owens, e os dois o fitaram. - Li a respeito. Em 1969, na
Etiópia. Um rebanho de gado foi atacado por um tipo especial de raiva. Poucos
sintomas de agressividade, somente paralisia. Todos entraram em colapso. O
proprietário não sabia exatamente o que tinham. Deu-os por mortos e, então, todos
se recuperaram.
- Pelo que sei, isso é impossível - disse Accum. - Ninguém sobrevive à doença.
- Esse rebanho sobreviveu. O problema é que eles ainda estavam com o vírus e,
vários dias depois, manifestaram novamente os sintomas. Tiveram de ser
sacrificados.
- Tem certeza de que era raiva?
- Sim, todos os testes posteriores o confirmaram. E li sobre outro caso, na índia,
há dois anos. Búfalos.
- Mas isto aqui não é raiva. Nenhuma vacina que tenham desenvolvido faria
efeito. Mesmo que fizesse, não haveria tempo.
Owens baixou a vista e deu de ombros.
- Mas eu não entendo - disse Slaughter. - O que causaria o aparecimento de um
vírus novo?
- Quem sabe? - Respondeu Accum. - Com os diabos, quer saber a verdade?
Enfermidades como a "doença de legionários" apareceram por um bom tempo, e
ninguém as diagnosticou. Males como a gonorreia sofreram mutações e
desenvolveram resistência a drogas como a penicilina. Admitimos que estamos
diante de um vírus novo. Perguntar o que causa o aparecimento de um vírus como
este é o mesmo que perguntar por que nossos ancestrais desenvolveram cérebros
grandes, a partir do sistema límbico, e se tornaram humanos. Não há resposta
pronta. A evolução é um acidente. Uma célula pode se desenvolver erradamente.
Algo pode acontecer com o DNA. Gostamos de acreditar que tudo, no universo,
está fixado e ordenado. Mas não está. As coisas que nos rodeiam não cessam de
mudar, embora isso nem sempre seja perceptível. Os seres humanos se tornam
mais altos, os cachorros defeituosos morrem. Claro que reconhecemos os casos
extremos. Nós os chamamos de monstros. Porém as mais fantásticas mudanças
estão ocorrendo nas formas simples de vida que nós nem notamos, formas tão
pequenas e tão reprodutivas podem passar por várias gerações num único dia. A
escala de tempo, para essas formas, é muito diferente da nossa, muito mais rápida.
Nelas, a evolução trabalha incansavelmente, as variantes são as mais ricas
possíveis. Mas a evolução nem precisa se dar em estágios. Grandes saltos podem
ser dados num instante. Toda vez que alguém recebe raios X, seus cromossomos se
alteram. Querem um exemplo? Imaginemos um cachorro. Imaginemos que esteja
com raiva, embora os sintomas ainda não tenham se manifestado. Mas o animal
está machucado. Digamos que esteja com uma perna quebrada ou com algum
desarranjo interno. O dono o leva para receber raios X, o cão é tratado e melhora.
Mas o dano já está feito. O vírus da raiva pode ter sido atingido por um dos raios
X. E pode ter se alojado numa única célula mutante do lobo cerebral. Começa a se
reproduzir. O dono do cachorro faz uma viagem de férias. Vem com o cachorro
para cá. Este fica louco e foge. Começa então o contágio.
- É o que você disse sobre os cachorros das colinas - disse Slaughter. -
Comportamento animal psicótico.
Ficaram em silêncio por um momento.
- Certo - concordou Owens. - As montanhas estão à nossa volta, de modo que o
vírus foi localizado. Mas por que ninguém o reconheceu até agora?
- Porque, até onde posso me lembrar, ninguém ainda fez testes com ele. Os
rancheiros talvez já tenham matado e queimado alguns desses cachorros, mas você
já viu algum? - Owens balançou a cabeça. - Bem, aí está.
- Mas você me disse, sexta-feira à noite, que algumas pessoas foram mordidas
por eles - disse Slaughter. - Essas pessoas podem ter feito o tratamento antirrábico
e, mesmo assim, ter desenvolvido os sintomas.
- Elas vieram realmente para se tratar e não houve problema algum. Será que o
cachorro que as mordeu não estava com o vírus ou será que este só sofreu a
mutação posteriormente?
- Mas o vírus é tão terrível que, agora, tudo pode estar contaminado.
- Não creio. Os ataques que vimos são simplesmente criminosos. Poucas pessoas
ou animais sobreviveriam. Além disso, as vítimas devem estar enfraquecidas pelo
vírus. Quando o inverno chegar, ele provavelmente as matará. É um controle
natural. Não estudamos nenhuma consequência do vírus a longo prazo. Talvez haja
um processo de abrandamento. Não o conheço a esse ponto.
- Por que o vírus estaria se manifestando na cidade agora?
- Você sabe tanto quanto eu. Basta um cachorro vagando pelas ruas. Mas acho
que há outra razão. Não se esqueça de que o inverno foi rigoroso. Isso pode ter
desviado as vítimas de seus habituais lugares de caça nas montanhas. O que
sabemos, pelos testes, é que as vítimas têm hábitos noturnos. Era por isso que o
garoto uivava daquela maneira. A lua estava entrando pelas janelas da casa. E isso
ajuda a explicar por que houve tantos problemas naquela noite. As vítimas se
escondem e dormem durante o dia. E atacam durante a noite. Agora, no entanto, a
lua está quase cheia, e elas estão reagindo a isso.
- Outra coisa: sabemos que elas não se atacam entre si. - Disse Owens. - Quando
coloquei juntos vários ratos, eles ficaram alheios uns aos outros. Mas olhavam
ferozmente para a luz e investiam contra o vidro.
Slaughter se lembrou das sombras que vira perto do celeiro.
- Quer dizer que atacam em bandos?
- Não necessariamente, embora seja possível.
- Mas o que as faria agir assim?
- Veja, o vírus devolve o controle do organismo para o lobo límbico, fazendo-o
funcionar como há várias centenas de milhares de anos. Atacar em grupo é natural.
É até uma forma de sobrevivência. O indivíduo, pelo menos o humano, é bastante
recente.
65
Estava na parte mais alta das montanhas, os olhos fitos nos contornos cobertos
de neve. Então o céu começou a se iluminar, e ele levantou a mão para proteger os
olhos. Viu chifres de veado na floresta, que se aproximavam, e compreendeu que
estava em casa.
66
Slaughter estava parado diante da divisória de vidro, paralisado pelo que via.
Cody, que encontrara o menino no interior da casa e por ele fora mordido, estava,
agora, rosnando e debatendo-se para escapar das tiras que o prendiam à cama.
Estava com a garganta enfaixada, e os ferimentos ali podiam explicar os roucos e
animalescos sons que emitia. Slaughter, no entanto, sabia que o vírus estava agindo
e, apesar de a cama estar acolchoada para que não se machucasse, a violência com
que se contorcia devia ter seus efeitos. O homem estava enlouquecido. Slaughter se
lembrou do que Accum disse sobre a influência da lua.
- Apague as luzes do quarto e talvez ele se acalme. Meu Deus, seria até melhor
que perdesse os sentidos - disse ao enfermeiro a seu lado.
Mesmo abafado pelo vidro, Slaughter sentiu- se sentiu tocado por aquele rosnar.
Ficou nauseado com a espuma que escorria sobre o curativo. Cody começou a se
debater, a rosnar mais intensamente, a tentar morder as faixas que o prendiam.
- Não posso ver isso.
Engolindo em seco, olhou para Marge, que o esperava no fundo do corredor.
Olhava por outra janela. Slaughter sabia que a mãe do menino morto estava
naquele quarto. Depois de olhar ainda uma vez para Cody, aproximou-se
lentamente dela.
- Olá, Marge - disse, sabendo como ela estava se sentindo. Beijou-a. Mas ela
continuou olhando pelo vidro. Slaughter a fitou. - Tentei ligar, mas acho que você
não estava em casa. - Ela não respondeu. - Marge, eu...
- Nathan, eu dei uma pancada nela. Nada mais havia que eu pudesse fazer. Mas
não queria bater tão forte. Ela estava...
- Calma.
- Ela fraturou o crânio.
- Eu sei. Mas tenha calma. Você fez o que devia fazer. Ela vai sobreviver. Isso é
o que importa. Muito embora sua doença não tenha cura.
Tomou-a nos braços.
Olhou para a mãe do garoto, inconsciente, amarrada à cama, a cabeça envolvida
em bandagens, o soro escorrendo lentamente na direção da agulha que lhe
penetrava o braço. Marge estava chorando. Ele a apertou com mais força.
- Calma. Por que não vai para casa, Marge? Por favor. Não há nada que você
possa fazer aqui. Você vai ter notícias dela.
- Você vem comigo?
- Eu bem que gostaria, você sabe.
- Mas não pode?
- Você sabe disso também. A única coisa que eu queria, neste momento, era ficar
com você. Mas tenho medo do que está por acontecer.
- Fique só uma hora. Você também precisa descansar.
- Não sabia? Estou tentando bater um recorde. Quanto tempo consigo ficar sem
dormir. - Ela não achou graça. - Marge, eu queria poder fazê-la entender. Sei que o
que você fez foi duro. - Ela o fitou intensamente. - Sei que, se houvesse outra
saída, você a teria escolhido. Ela ia matar o marido, Marge. Você fez muito bem.
Não fique assim.
- Você ficaria do mesmo jeito.
- Claro que sim. E, então, eu precisaria de uma amiga como você que me
dissesse o que acabo de lhe dizer. Não gosto de vê-la assim. Você é muito
importante para mim.
- Obrigada. Mas não adianta. Ela se voltou para a janela.
- Tudo bem. Mas vá para casa, Marge. Por favor. Eu me comunico com você.
- Estou com medo, Nathan.
- Venha. Deixe-me acompanhá-la até lá embaixo.
Beijou-a. Tocou-lhe o braço, e ela reagiu caminhando com ele pelo corredor.
Nenhum dos dois olhou para Cody. Chegando à escada, ela se voltou ainda uma
vez para a janela e começou a descer. Slaughter lhe acariciou os cabelos e,
detendo-se junto à porta dos fundos, ficou observando enquanto ela se afastava do
estacionamento.
Tão adorável e tão atormentada, pensou. Devia estar desesperada ao erguer
aquele taco de beisebol. Acenou ao vê-la sair com o carro, mas ela, cansada, triste,
só respondeu com um movimento de cabeça. Ainda ficou um momento ali,
pensando, antes de se dirigir ao telefone na enfermaria.
67
- Slaughter? Às oito horas? Não pode ser mais tarde?
- Não. Realmente precisamos conversar.
- Tenha paciência, Slaughter!
- É coisa séria. E não temos muito tempo. Houve um breve silêncio.
- Está bem então. Encontramo-nos no jornal dentro de uma hora. Mas é bom que
seja mesmo importante.
- Não se preocupe - disse-lhe Slaughter. - Você vai preferir não ter sido
informado de nada.
- Já prefiro.
Com o cenho enrugado, Slaughter desligou. Ocorreu-lhe que, em todos aqueles
anos que passara ali, jamais tinha ido à casa de Parsons, e se perguntou por que
pensara em fazê-lo justamente quando tinha tantas outras coisas em que pensar.
Achou que era por causa dos inúmeros jogos de poder que Parsons gostava de
jogar. Mantinha os subordinados afastados de onde morava para guardar a
distância, para que não o imaginassem um amigo. Era um modo de intimidá-los.
Slaughter não se importava com aquilo. Nunca temera Parsons, muito embora, na
verdade, preferisse não ter de tratar daquilo com ele agora. Para manter-se
ocupado, saiu, foi até a delegacia, onde, àquela hora da manhã, já haviam novas
chamadas dando parte de ladrões rondando pelos bairros, cães, gatos e reses
destroçados, várias pessoas desaparecidas. Ora, pensou, aquilo era apenas o
começo. A seguir, fez o que pôde para tranquilizar-se enquanto se lavava no
banheiro e, depois, trocava a camisa suada por uma limpa que costumava ter
guardada na gaveta de sua escrivaninha. Não, Parsons não ia gostar nada da
história, e, meia hora mais tarde, quando os dois homens, com a barba por fazer, se
viram frente a frente, a coisa foi pior do que Slaughter esperara. Parsons se atrasou
quinze minutos, e o xerife tivera de esperar do lado de fora, diante das portas
trancadas da Gazeta de Potter 's Field. Então, Parsons apareceu, camisa esporte e
calça de algodão.
- Ainda não - disse. - Espere até que estejamos lá em cima.
Subiram. O homem o ouviu atentamente e, depois, perguntou com muita calma:
- Você espera mesmo que eu acredite nisso? Slaughter ficou muito sério.
- Não sei. Preferia não esperar.
- Francamente, Slaughter, pense um pouco. A única coisa de que você sabe com
certeza é que o garoto foi atacado por alguma doença ou, talvez, apenas teve uma
crise. Sua mãe, então, ficou histérica e se atracou com o marido. Cody está
delirando de febre. E o cão do cego ficou furioso. Eis a explicação de tudo.
- Esqueceu-se do corpo de Clifford.
- Não, não me esqueci. Ele foi atacado, já sei, e, provavelmente, por um
cachorro selvagem, como você diz. Mas foi feito algum teste?
- Só para determinar que animal o atacou. Naquele momento ainda não tínhamos
por que suspeitar de um vírus.
- Neste caso, os únicos testes são os que se fizeram com aquele cachorro doente,
e resultou em qualquer coisa parecida com raiva.
- Accum acha que...
- Slaughter, não quero decepcioná-lo, mas todos sabemos que ele só voltou para
cá porque ninguém mais o queria. Fracassou na Filadélfia e eu não me
surpreenderia se tentasse fazer disso um escândalo, só para se sentir importante.
Pelo que você me disse, ainda não houve tempo para testar o suposto vírus desse
garoto. O cérebro dele deve ter sido infectado, se é verdade o que diz Accum. Mas
isto pode ter muitas causas. Preparar uma lâmina para o microscópio eletrônico
leva pelo menos alguns dias. Eu sei que alguns passos podem ser eliminados,
quando se está com pressa, e Owens aprontou suas amostras rapidamente. Mas eu
sei muito bem que as lâminas do cérebro desse cachorro foram feitas tão
rapidamente que não merecem muita confiança. Vou precisar de mais do que isso
para me convencer. Pense no que estou lhe dizendo. O que faz mais sentido, raiva
ou algum novo tipo de vírus?
- Você não estava lá, não viu o garoto.
- Mas sei de tudo sobre o caso. - Slaughter o encarou. - Claro, Slaughter, qual é o
problema? Achava que eu não sabia? Sou eu que dirijo este maldito jornal. Eu que
sou o prefeito. E tenho todo tipo de gente colhendo informações para mim. Se os
pais daquele garoto abrirem um processo, Accum vai ter problemas. Administrou
um sedativo sem tomar as precauções normais. Claro que agora vai dizer que foi
um vírus que matou o menino. Não há de querer se incriminar. Mas sua opinião
sobre o caso não é o que se possa chamar de objetiva. E há outra coisa sobre a qual
quero conversar com você. Vamos deixar de lado essa mulher que você emprega e
que bateu na mãe do menino com um taco de beisebol. Isso vai ter consequências
legais e eu não sei por que você ainda não a indiciou. Mas vamos deixar isso de
lado, concentremo-nos em Accum. Ele é a última pessoa que eu escolheria para
fazer testes naquele garoto. Ele...
- Isso não importa. Se você tivesse visto o menino, saberia que não estava
agindo normalmente.
- Mas é exatamente para isso que nós lhe pagamos. Para lidar com coisas como
essas. Você se acomodou demais, Slaughter. Nunca acontece nada por aqui. E, a
primeira vez que acontece alguma coisa diferente, você vem me acordar domingo
de manhã com a sua ideia maluca de interditar o vale e exterminar todo o gado.
Slaughter o encarou. Cerrou os punhos sobre as pernas, sentiu o rosto em fogo e
tentou controlar a respiração.
- Se fosse necessário, eu disse. Não sei se é. Só estou perguntando sua opinião.
- Pois não é necessário. Acalme-se por um minuto, Slaughter. Deixe-me falar um
pouco sobre meu trabalho. Eu já era prefeito há muitos anos antes de você chegar.
Vinte anos. Era eu o prefeito quando, por exemplo, aqueles hippies chegaram à
cidade, e eu sabia que ia haver barulho e que teria de pô-los fora da cidade. Mas
não fiz isso, porque haveria queixas, as pessoas iriam dizer que, embora não
gostassem de hippies, deveríamos dar-lhes uma chance. Assim, eu esperei a
oportunidade. As drogas e o lixo deles chegaram ao extremo, mas, ainda assim, eu
esperei, pois sabia que logo viriam me implorar que os expulsasse daqui. E foi
exatamente o que aconteceu. Consegui o que queria, mas diplomaticamente. Isso
faz algum sentido para você? - Slaughter se limitou a dar de ombros. - A verdade é
que as pessoas sempre sabem o que é melhor para elas. Um bom líder não faz
senão executar o que sabe que querem - continuou Parsons. - E por isso que elas
vêm me elegendo prefeito há tantos anos. Porque eu sei disso. Tudo o que faço é o
que me dizem para fazer. Então você acha que vai haver uma epidemia. Pois bem,
vamos esperar para ver. Não há evidências conclusivas, mas vou ficar atento. Em
todo o caso, as medidas que você sugere são desaconselháveis. Exterminar o gado,
todos os animais? Não, realmente não, Slaughter. E se não houver epidemia
alguma? E se for só o caso de alguns testes malfeitos e de um médico-legista
tendencioso? O povo haveria de querer nossas cabeças. Exigiriam indenização
pelo gado morto, e eu não creio que você ganhe tanto para isso. Mesmo sem
interditar o vale. Nossa Senhora, o gado é o ganha-pão deste vale. Deixar que se
espalhe o boato de que todo o nosso gado está doente é a mesma coisa que matá-lo.
Não haveria como vendê-lo. Não, vamos esperar para ver. Se realmente houver
uma epidemia, o próprio povo dirá o que temos de fazer. O próprio povo dirá, e sua
escolha será a correta, e nós todos vamos sobreviver a isso com a consciência
limpa, da mesma maneira como por ocasião da vinda dos hippies.
- A diferença - disse Slaughter - é que, no caso dos hippies, ninguém morreu
porque preferiu esperar. Agora, no entanto, os chamados estão se empilhando em
minha mesa, e vai haver mais ainda, até que o vale todo entre em pânico. Não é só
o gado estraçalhado. Não apenas Clifford e o garoto. Em breve estaremos
caminhando entre cadáveres e não vamos poder fazer mais nada para ajudar essa
gente.
- Você não me entendeu, Slaughter. Acontece que não há outra alternativa.
Vamos pôr um fim nessa conversa. Você vai agir como se tudo estivesse normal.
Vai isolar as pessoas contagiadas, caso haja algum vírus, o que eu duvido. Vai
apanhar todos os cachorros, gatos e até esquilos que achar estranhos. Mas vai
manter a calma e dizer à população que a situação está sob controle. E preste
atenção, Slaughter, se você apenas insinuar que há uma epidemia, seu traseiro não
vai valer nem o pé que há de chutá-lo rumo à porta do tribunal. Está claro o
suficiente? Você entendeu minha ordem?
Mas Slaughter apenas ficou olhando para ele.
- Posso, ao menos, avisar pela rádio que tivemos um caso de raiva? Parsons
refletiu durante um momento.
- Sim, não vejo problema. Afinal, há uma evidência de raiva, e a cidade precisa
ser informada para se proteger. Mas não se atreva a mencionar o gado. Este é um
problema. Agora eu tenho de ir para casa. Estou atrasado para a missa e, depois,
tenho gente esperando para a merenda. - Levantou-se, Slaughter ficou esperando. -
Ah, sim, e aquele repórter de Nova York? O tal Dunlap?
- Ainda está aqui.
- Bem, despache-o. A última coisa de que precisamos é ver esses boatos
publicados. Faça com que vá embora esta tarde.
- E se ele não quiser ir?
- Ele vai. Quer ir embora e não sabe disso. Ponha-o no trem, mas, antes disso, se
arrume um pouco. Está com péssima aparência. Talvez esse trabalho seja duro
demais para você.
Slaughter quase riu. Seu bastardo, pensou. Não perde uma oportunidade de se
colocar acima das pessoas, não é? Estavam indo para a porta. Slaughter ainda tinha
os punhos cerrados e o rosto quente. Esperou que Parsons passasse. Era melhor
agir assim dali por diante: tratar de proteger as costas.
68
Entrara na cabine telefônica, mas a linha estava ruim, os ruídos o perturbavam.
- Olhe, Altick, não posso dizer por que preciso deles, mas eu...
- Espere aí. - E para alguém ao fundo: - Ponha-os ali. Eu vou com você. Não
quero que esse helicóptero decole sem mim. Ótimo. Desculpe-me, Slaughter, está
uma confusão aqui. Estou ouvindo.
- Preciso de alguns homens. Não posso lhe dar as razões, mas talvez precise de
uns reforços.
- Não vai dar.
O tom de voz era definitivo.
- Mas...
- Escute. Estou precisando de todo mundo aqui. Mandei cinco homens com
cachorros para ver o que está acontecendo com aquele gado. Vários rancheiros
sumiram. E meus homens...
- Mas...
- Meus homens. Estou dizendo que meus homens também desapareceram. Não
estou gostando nada disso. Se você chamasse cinco minutos mais tarde, eu teria... -
Ruídos no fundo. - Esperem até que eu termine. Sim, vamos precisar disso
também. Leve tudo para o helicóptero.
Slaughter, não tenho como ajudá-lo. Está acontecendo muita coisa aqui.
- Mas...
- Sinto muito, Slaughter.
Ouviram-se novos ruídos no fundo, e o telefone foi desligado.
Slaughter pôs o fone no gancho e ficou olhando para o aparelho. Sem dúvida,
uma nova escalada. Já se acostumara aquele ardor no estômago, mas era o que lhe
passava pela mente que o incomodava. Tudo estava acontecendo depressa demais.
Mal tinha tempo para pensar. A conversa com Parsons. Agora, o desaparecimento
de soldados da polícia estadual. Saindo da cabine, foi até a recepção do hotel.
- Gordon Dunlap - disse ao velho com roupa de brim.
- O que tem ele?
- Diabo, quero saber onde está!
Ante o olhar espantado do homem, começou a vasculhar o fichário para saber o
número do quarto.
Tendo-o encontrado, gritou "obrigado" por cima do ombro e começou a subir a
escada. Procurou orientar-se pelas setas que indicavam que quartos se encontravam
a que lado. Dobrou à esquerda, seguiu por um corredor, voltou a consultar as setas,
entrou por outra passagem. Aquilo era um labirinto, os corredores se contorciam,
giravam. Ao virar outra esquina, avistou a porta. Aproximou-se rapidamente e
bateu.
- Acorde, Dunlap. É Slaughter.
Tornou a bater. Tentou girar a maçaneta, mas estava travada. Quando, no
entanto, se apoiou na porta, ela cedeu e abriu.
Dunlap não havia trancado. Estava estendido na cama, a roupa amassada,
ensopada. No chão, havia uma garrafa de uísque vazia, papéis, pontas de cigarro,
um cinzeiro quebrado, uma cadeira tombada.
Que teria acontecido ali? Ao sentir o cheiro de vômito, recuou um passo; depois,
avançou e ficou olhando para ele. Dunlap parecia não respirar. Estava imóvel.
Slaughter o agarrou.
- Dunlap! Acorde, é importante! - Nenhuma reação. Sacudiu-o. - Vamos,
Dunlap. Acorde. - Tratou de lhe verificar as batidas do coração. Sentiu-as. Era uma
preocupação a menos. - Dunlap, que diabo! - Sacudiu-o novamente. O jornalista
resmungou qualquer coisa e tentou se virar para o outro lado. Slaughter não
deixou. - Sou eu, Dunlap. Acorde. Temos problemas.
Dunlap tornou a resmungar. Seu hálito era insuportável. Sem tempo para se
importar com aquilo, Slaughter o ergueu no ombro e o carregou, pelo corredor, até
o banheiro. Colocando-o sentado na privada, começou a lhe desabotoar a camisa,
mas, como a operação era muito demorada, simplesmente a rasgou. Dunlap perdeu
o equilíbrio e quase caiu. Slaughter o deitou no chão e lhe tirou a calça, os sapatos,
as meias e a cueca. Esta estava toda emporcalhada, e ele preferiu atirá-la a um
canto. O jornalista continuava resmungando; Slaughter o arrastou até o boxe e
abriu a água fria do chuveiro. Dunlap acordou aos berros.
- Calma. - O outro continuava gritando. Slaughter lhe deu umas bofetadas. - Ei,
sou eu, Slaughter.
Pestanejando, Dunlap tentou olhar para ele. Estava com os olhos vermelhos. A
água removeu o vômito ressecado de seus lábios e de seu queixo. Ele franziu a
testa e virou a cabeça para o lado. Parecia disposto a chorar. Ergueu o corpo.
- Está tudo bem. Estou aqui com você - disse Slaughter. - Trate de melhorar.
Ficou olhando para o jornalista, a água espirrando em ambos, enquanto os
espasmos se sucediam. Dunlap soluçou e se reclinou no boxe, tossindo. Estava
chorando.
- O que foi? Pesadelos? - Dunlap apenas sacudiu a cabeça. - Bem, eu tenho
trabalho para você. E preciso de você sóbrio. - Dunlap se voltou para ele. A água
continuava caindo. - Enquanto ainda está tonto, responda a algumas perguntas -
prosseguiu Slaughter. - E não quero que minta. Preciso saber se posso confiar em
você.
Dunlap fechou os olhos e estremeceu com a água gelada que caía sobre ele.
- Você já sabe o que quer ouvir. Não preciso lhe dar resposta alguma.
- Ouça - disse Slaughter, cravando os dedos no ombro de Dunlap -, você não está
tão bêbado assim. Quero ouvir a resposta.
- Tudo bem. Pode confiar em mim.
- Se você der para trás, vai desejar nunca ter me conhecido.
- Você pode confiar em mim, já disse. Solte meu ombro! Vendo que sua pele
estava vermelha, Slaughter lhe soltou o ombro.
Sentou-se no vaso sanitário.
- Preciso de alguém que me dê cobertura - disse. - Alguém de fora, que não
esteja envolvido nisto. Quero que você me observe o tempo todo, confira tudo o
que eu fizer e faça um registro. Logo vai haver barulho por aqui, e eu quero estar
protegido. Dunlap fechou os olhos, tremendo sob a ducha fria.
- Está me ouvindo?
- A coisa está mal assim?
- Está.
- Eu seria maluco se não ficasse do seu lado.
- Vai ser maluco se ficar. Mas com uma condição. Tudo o que peço é que você
espere até que eu autorize a publicação.
- Mas eu...
- Eu não quero ter de me preocupar com você. Tenho muito que fazer.
A água continuava caindo; Slaughter sentia a camisa molhada e fria colar-se na
sua pele.
- Está bem, você me diz o que publicar. Desde que não haja mais ninguém nisto.
- Só você e eu.
- Combinado!
Slaughter não sabia exatamente por onde começar. Acomodou-se na privada.
- Você disse que queria uma boa matéria. A que eu tenho é a mais incrível que
você já ouviu.
69
Hammel não estava gostando daquilo. Mandaram-no fazer o acompanhamento
de todos os que haviam estado em contato com o vírus. E, como se não bastasse ter
sido acordado no meio da noite, ter visto aqueles cavalos destroçados e quase ter
tido de caçar os pumas, agora fora designado para observar o dono do cachorro
que Accum havia encontrado no dia anterior. Só porque era novo na guarnição
obrigavam-no a fazer os piores trabalhos. Estava olhando pela porta de tela, ouvia
a televisão em alto volume, mas o dono da casa não respondia. Droga, com a
televisão naquele volume, como poderia ouvir alguém batendo? Esmurrou a porta,
gritou, mas a televisão foi a única resposta. Empurrou-a, e ela se abriu.
- Alguém em casa? - Entrou, viu muitas latas de cerveja. - Há alguém? ...
Dê uma olhada no banheiro ou no quarto. Viu o corredor à direita e entrou.
- Há alguém aqui?
Primeiro, encontrou o banheiro, aproximou-se e sentiu um cheiro fétido. Entrou
e quase ficou nauseado. Não haviam dado a descarga.
- Meu Deus!
Voltou-se instintivamente, mas o hall estava vazio. Ao lado, uma espécie de
escritório, os papéis espalhados, o abajur quebrado. Mas o quarto estava
impecável, nada fora de lugar, o lençol estendido e sem nenhuma ruga, como nas
camas de um quartel. Pensou em procurar no porão, mas achou melhor telefonar
antes, pedindo ajuda. Era evidente que alguma coisa ali estava errada.
Ao voltar-se, no entanto, ouviu algo arranhando no armário. Puxou a porta,
revólver na mão, e o dono da casa soltou sobre ele. A única vantagem de Hammel
era sua juventude e inexperiência. Outro policial podia ter se sentido tentado a
recuar, a apontar a arma e a fazer-lhe uma advertência ou ameaça para que
ninguém saísse ferido. Se o policial fosse mais velho, talvez lhe tivesse faltado
reflexo. Hammel, contudo, não teve chance de recuar, pensar ou falar. Estava
apavorado demais. Simplesmente disparou no rosto do proprietário.
70
Estavam olhando para os caixotes.
- Normalmente não venho aos domingos, mas havia muito que fazer - disse o
capataz. - Vi a janela quebrada, ali atrás, e devia tê-los chamado imediatamente,
mas fiquei pensando na mercadoria e entrei para dar uma olhada.
Entre logo no assunto, pensou Slaughter, mas preferiu não o dizer; não queria
piorar as coisas mostrando suas emoções. Olhou, de relance, para Dunlap, que
estava com os olhos muito abertos.
- Então eu dei uma volta por aqui, nada estava faltando, pelo menos nada que eu
tivesse notado. Conferi todo o estoque que tínhamos na sexta-feira.
Estava frio ali, o chão de cimento, o armazém envolto em sombras.
Aproximaram-se dos engradados.
- Então, vi estes caixotes vazios aqui. Nós descarregamos vários freezers antes
de fechar, sexta-feira, e não sei se o senhor entende, mas eu gosto de manter as
coisas em ordem. Passo mais tempo aqui do que em casa, e, se encontro alguma
coisa fora do lugar, fico aborrecido.
- Claro, eu entendo - disse Slaughter. Estava impaciente, receoso.
- Bem, de qualquer modo, retiramos as tampas dos caixotes. Já era tarde e eu
imaginei que poderia voltar hoje e terminar o trabalho. Mas hoje, quando eu vi, a
tampa estava neste caixote. Não podia estar. Não estava, quando saímos sexta-
feira.
O capataz levantou a tampa. Slaughter olhou.
- Meu Deus!
O que viu havia sido uma mulher, e, de certo modo, ainda era, apesar das roupas
rasgadas e sujas e do rosto e da cabeça cobertos de crostas de sangue ressecado.
- Eu não sei - disse o capataz. - Não sei como entrou aqui. Eu quase urinei nas
calças de medo. Quem a matou? Por que a colocaram aqui?
Slaughter estava com dificuldade para falar.
- Alguém mais sabe disto? - Perguntou.
- Só o senhor. Eu pensei em telefonar para o necrotério, mas achei melhor
chamar, antes, a polícia.
- O senhor agiu bem. Ouça, o senhor teve um choque muito grande. Sugiro que
volte para casa enquanto cuidamos disto. Finja que é realmente domingo. Volte
amanhã pela manhã, quando já tivermos ido embora.
- Mas eu quero ajudar.
- O senhor já fez o que podia. É impressionante como conseguiu manter o
controle. Vá para casa agora. Deixe-me cuidar disto.
O capataz ficou aliviado com as palavras de Slaughter. Demorou-se meio minuto
ainda. Ao chegar à porta, olhou uma vez mais para eles.
- Eu o chamo se tiver alguma pergunta - disse Slaughter. O homem fez um gesto
afirmativo e saiu.
Slaughter esperou que o carro desse a partida e que o ruído do motor se
distanciasse. Então, olhou para Dunlap.
- Tome nota de tudo o que eu fizer - disse.
- Mas...
- Preste atenção.
Inclinando-se, Slaughter tomou o pulso da mulher. Nada. Levantou-lhe as
pálpebras e não detectou nenhuma dilatação da córnea. Trouxera um espelhinho
de bolso. Segurou-o junto às narinas da mulher. Nenhum sinal de vapor.
- Ela está morta? - Perguntou.
- Assim me parece.
- Só que não está - disse.
- Não. Se o que você diz é verdade, acho que não está.
- Devíamos levá-la para a morgue, mas ela poderia acordar, apesar da luz do dia.
- E nos atacaria?
- Isso mesmo. Dunlap estremeceu.
- Você me viu procurar sinais de vida e está convencido, por todas as aparências,
de que ela está morta. O máximo de que me podem acusar é profanação.
Dunlap olhou fixamente para Slaughter, que sacava o revólver e o engatilhava.
71
Tinha caminhado as doze quadras, desde o depósito. Não foi fácil, carregando a
mala e a bolsa, mas tinha ido de ônibus até Cheyenne e, então, dera-se conta de que
saíra com tanta pressa que havia esquecido várias coisas de que precisava; além do
dinheiro do banco, a metade do qual era dela. Bancara a idiota, fora precipitada. É
verdade que tinha ido para a cama com Orval, mas aquilo fora somente para irritar
Willie. Não pensara realmente em ir embora. Esperava que Willie ficasse com
ciúme e passasse a estimá-la mais ao saber que o irmão a achava atraente. Orval,
no entanto, conseguira convencê-la de que, para sua segurança, era melhor que
fugisse. Agora que estava de volta, não sabia o que fazer. Viu o carro de Orval na
entrada da casa de Willie, e se preparou para a gritaria que havia de acontecer, mas,
ao entrar, encontrou apenas a desordem, e, agora, era ela que estava gritando o
nome dele. Ninguém respondia. Mas ela sabia que os dois jamais saíam a pé e, com
os carros ali, deviam estar por perto. Então, ao entrar na cozinha, viu o rastro de
sangue que levava até o porão.
- Oh, meu Deus, eles se mataram!
Desceu correndo, olhando para o sangue espalhado na escada, e viu os corpos
estendidos num canto. Orval, uma mulher que ela nunca vira e Willie, com uma
faca no peito. Os três corpos dilacerados.
Ficou gritando até que alguém entrasse e a encontrasse.
72
Slaughter não sabia como aquilo haveria de acabar, se é que ia acabar. Olhou
fixamente para os corpos no canto. Haviam sido esfaqueados, espancados, alguns
pedaços arrancados, mordidos. Não sabia quanto mais era capaz de aguentar.
Passou da náusea para o choque.
Virou-se para Dunlap. A mulher de Willie estava no andar superior com um
médico. Winston era o policial que ali chegara primeiro, magro, asmático, mas boa
pessoa. Embora bastante pálido, agia como se ainda estivesse em condições de
fazer seu trabalho.
- Acho que você já sabe o que aconteceu com Hammel.
- Ele matou o sujeito.
- Podia ter acabado no porão, como estes aqui. Meu Deus, eu falei com Willie na
quinta-feira à noite. E vi o irmão dele.
- Xerife, eu não me importo de admitir que estou com medo.
- Pense bem, em toda a cidade, quantos corpos mais nos porões? Ficaram em
silêncio, olhando para toda parte, menos para os cadáveres.
- Bem, eu não tenho outra saída. Telefonei para a polícia estadual, mas eles já
têm muito que fazer. Vou chamar a milícia estadual.
E, então, lembrou-se de que não podia fazer aquilo. Só Parsons tinha
competência para tanto, e, mesmo assim, o governador tinha de lhe dar permissão.
Não havia tempo. Em breve cairia a noite.
- E os reforços da cidade, o Exército? - Winston perguntou. - Eles já estão aqui.
O senhor não precisa chamá-los.
- Vou usá-los. Meu Deus, a única coisa lógica que consigo imaginar é ir de casa
em casa vistoriar os porões. Antes do pôr-do-sol.
- E estes corpos aqui?
- Vamos deixá-los.
- Como?
- São o estoque de comida de alguém ou alguma coisa. Não me pergunte como
sei disso nem para onde o monstro foi. Procuramos em toda a casa, não está aqui.
Tenho certeza de que quando anoitecer, se não conseguir caçar nada, ele...
- Vai voltar aqui para comer um pouco mais? Ficaram nauseados com aquele
pensamento.
- Tenho muita coisa para você fazer hoje - disse Slaughter. - Mas, quando cair o
sol, venha para cá e fique esperando. Quando o monstro chegar, não faça
perguntas. Aponte bem e atire.
- Mas isso é um crime.
- Esses cadáveres são um crime também. O monstro ou o que for com que
estamos lidando mudou as regras do jogo. O que seria normal já não tem
importância alguma.
73
Ia tropegamente pela rua.
Arrastava-se, apoiado nas mãos e nos joelhos, e tentava se proteger da luz do
sol, mas a dor era muito intensa, e tudo o que conseguia era continuar
engatinhando cegamente. Ia rosnando, espumando pela boca, muito embora não o
fizesse voluntariamente. À sua frente, estendia-se a linha branca interrompida.
Hesitou entre um lado e o outro e, em sua agonia, tentou se manter no centro.
Objetos passavam por ele, buzinando. Ouvia vozes, sentia as pessoas se
aglomerando a sua volta, rosnava para eles, mostrava os dentes cobertos de espuma
e seguia rastejando. Não conseguia recordar de como chegara até ali. Lembrava-se
de árvores e campos verdes. Mas não conseguia recordar nem compreender aquela
superfície quente e negra, nem aquela linha branca. Continuou engatinhando pelo
centro. Alguém gritou perto dele. Mais objetos passaram, buzinando. E a dor. A
horrível dor. Caiu, batendo o rosto na superfície negra, e foi se arrastando sobre o
ventre, a linha branca estendendo-se sob seu nariz. Começou a dar pontadas no
próprio crânio. Sacudiu a cabeça. O rumor pareceu mais próximo. Ele rosnou para
se defender.
74
Rettig parou o jipe, intrigado com a multidão aglomerada na rua principal. Viu
carros e caminhões parados, motoristas descendo, pessoas na calçada, apontando, e
outras que chegavam das ruas transversais, saindo dos restaurantes de domingo.
Colocando o chapéu e abrindo o fecho do coldre, desceu do jipe e se aproximou.
Que diabo era aquilo? Vira tantas coisas ruins nos últimos dias que já não tinha
ideia do que poderia acontecer de pior. E aquela manhã. Os comentários tinham
circulado tão depressa que, mesmo para uma cidade pequena, chegava a ser
espantoso. As pessoas, em pânico, abandonando a cidade ou reunidas em pequenos
grupos e falando agitadas. Topara com três engarrafamentos no trânsito daquela
manhã, vira-se obrigado a perder tempo desfazendo-os. Disparara num cachorro
enfurecido, havia levado o dono ensanguentado para o médico. Encontrara uma
mulher estraçalhada. E agora uma multidão enchendo a rua. Não sabia aonde
aquilo tudo ia levar.
Debilitado pela falta de sono e amedrontado porque, em breve, a cidade
mergulharia no caos; preocupado com a família, ele recomendara que não saíssem
de casa sob pretexto algum. Havia telefonado para a irmã, em Denver, e
providenciara para que as crianças fossem para lá. Naquele momento, estavam
fazendo as malas, e ele imaginava quanta gente já havia pressentido que algo
estava por acontecer, e que não eram poucos os que urdiam planos de abandonar a
cidade.
Mesmo assim, achava que sabia o que esperar agora: mais coisas como aquelas,
porém nada pior. Contudo, à medida que se aproximava da multidão, começou a
sentir algo que parecia estar muito além de seu entendimento, algo que, quando ele
estendesse os braços para separar aquela gente - como quem abre uma cortina -,
haveria de lhe revelar uma negra verdade final que tudo modificaria.
Ouviu as palavras, mas não as compreendeu, não pôde distingui-las, eram um
murmúrio gutural, um grunhido. Internou-se ainda mais na multidão, parou de
súbito e arregalou os olhos. Aquilo devia ter sido um ser humano, mas levava o
tronco coberto de tiras do que talvez tivesse sido sua pele. Os braços e as pernas
estavam ensanguentados. Rosnava, babava, sacudia-se, o cabelo, que lhe chegava
até a cintura, caía-lhe ao redor do corpo inteiro, a barba era enorme, e o rosto,
escuro de sujeira e feridas, os percevejos a infestá-lo todo. Ergueu os olhos,
pestanejou.
- Aaaa... ooohhn... - fez com voz sufocada.
Sem compreender aqueles sons inarticulados, Rettig recuou tropegamente,
chocando-se com a multidão, o coração disparado. Então compreendeu. O som
áspero e sufocado, o ladrar.
- A sala do trono - dizia. - A sala do trono - repetia. - A sala do trono. A sala do
trono. A sala do trono.
75
A natureza voltara a tomar conta do lugar. Novas árvores cresceram ao redor
dos tocos de onde fora tirada a madeira para construir os refeitórios e os
dormitórios. As ervas e os arbustos sufocavam as alamedas e o pátio. As paredes
haviam ruído, os telhados desabaram e as portas despencaram dos gonzos. Nas
edificações, os animais haviam construído ninhos em meio às teias de aranha e a
serragem provocada pelos insetos que abriam buracos na madeira. Empoleirado
numa janela destroçada, um pássaro contemplava aquela desolação. A poeira de
anos se depositava no soalho, e as vespas zumbiam ao redor de seu cortiço, a um
canto. Nas paredes, viam-se frases apagadas, símbolos, um crânio com tíbias
cruzadas, bandeiras americanas em que as listras eram fuzis e as estrelas, balas, um
esqueleto sobre um pentágono. E o vento soprava lá de baixo.
76
Estavam perto do vulto, na emergência.
- Alguém o conhece? - Perguntou Accum.
- Alguém conhece... esta coisa, é o que você devia perguntar. Todos se voltaram
para Rettig.
- Não sei exatamente do que se trata.
O vulto vestia agora uma camisola e estava coberto com um lençol. Haviam-no
barbeado e cortado o cabelo, um vidro de soro pendia a seu lado, a agulha espetada
em seu braço. Estava inconsciente, imóvel, mas amarrado, com tiras, na cama.
- Eu sei - disse Dunlap. Todos olharam para ele. - Slaughter não deve saber, é
claro. Mas vocês, não sei como não entenderam até agora. Ele é da colônia.
Todos ficaram assombrados.
- O quê?
- Vejam o número tatuado em seu pulso. Quiller tatuava a todos quando
ingressavam no grupo.
- Meu Deus, ele tem razão!
- Mas todos eles já se foram - disse Slaughter.
- Será?
- Eu costumo caçar por lá - disse Rettig. - O lugar está abandonado há muitos
anos.
- Pode ser que se tenham mudado para outro lugar. O inverno e o crime. Talvez
tenham preferido ir para um lugar melhor.
- Mas aonde?
Como resposta, a criatura amarrada começou a murmurar. Sacudia a cabeça,
inconsciente, dilatava as narinas e resmungava:
- Sala do trono.
- O quê? - Accum franziu a testa.
- Está dizendo "sala do trono" - respondeu Slaughter. - Também não entendo.
Era o que estava murmurando quando Rettig o encontrou. - Slaughter não estava
gostando do cheiro ali. Embora tivessem banhado a criatura amarrada à cama, o
quarto continuava fedendo a suor e a carne podre. Aquele odor penetrante,
misturando-se ao dos remédios, provocava-lhe náuseas. - Onde terá vivido durante
todo esse tempo?
- Na sala do trono - respondeu Dunlap.
- Muito engraçado.
- Não, esse lugar tem, evidentemente, importância para ele. Talvez se lhe
perguntássemos...
- Não vê que ele está inconsciente?
- Pouco importa. Vamos tentar. Slaughter fitou Accum.
- Não sei. Ele está muito mal. Enfim, acho que isso não vai deixá-lo pior do que
já está.
- Que diferença faz? - Disse Dunlap, debruçando sobre a criatura. - Está me
ouvindo?
- Cuidado - recomendou Slaughter. Dunlap se afastou um pouco.
- Você está me ouvindo? - Não obteve resposta. Esperou. Logo repetiu a
pergunta em tom mais suave.
A figura se contorceu, silvou um pouco. Depois se acalmou.
- Está entre amigos agora. Fale sobre a sala do trono.
- Sala do trono - disse a figura com voz entrecortada, mas todos ouviram.
Dunlap olhou para os outros. E tornou a falar carinhosamente:
- Isso mesmo. Fale sobre a sala do trono.
- Sala vermelha.
Dunlap franziu a testa. Olhou novamente para os demais.
- Pode ser sangue - disse Accum.
- Talvez - acrescentou Slaughter. - Mas pode ser alguma lembrança da infância.
Não há como sabê-lo.
Subitamente, a criatura começou a gritar. Todos ficaram olhando, enquanto os
gritos, cada vez mais altos e estridentes, enchiam o quarto e aquele corpo se
contorcia convulsivamente. A seguir, tão repentinamente quanto haviam
começado, os gritos diminuíram, a criatura se acalmou e ficou quase imóvel,
gemendo na cama. Outras pessoas se aglomeravam à porta.
- Você não pode lhe dar algum remédio? - Quis saber Slaughter.
- Eu não vou arriscar ministrar-lhe um sedativo. A única coisa que podemos
fazer é esperar e ver o que acontece.
- E as luzes? Não podemos diminuí-las?
- Ele está inconsciente, de modo que não vão incomodá-lo. Mas por que não?
Não precisamos de luz aqui.
Foi até a parede e apagou as luzes. O quarto ficou em penumbra. A criatura não
parou de gemer nem de virar a cabeça de um lado para o outro, mas começou a se
acalmar.
- E a sala vermelha? Fale sobre ela - disse Dunlap. Nenhuma resposta.
- A sala vermelha - repetiu o jornalista. A criatura murmurou:
- Sala vermelha, sala vermelha, antílope.
- Eu lhe disse que era inútil. Ele está só balbuciando - disse Slaughter.
- Ou dizendo o que lhe é importante - respondeu Dunlap.
- Neste caso, diga-me o que significa isso.
- Você sabe que eu não sei.
- Claro que não. Temos de descobrir onde eles foram. Se existe algum tipo de
sala vermelha, eu quero saber o que há lá.
- Mas onde? - Interferiu Rettig. - Aquelas colinas são usadas para acampar,
pescar, caçar. Já os teriam encontrado.
- Talvez tenham mesmo. Acho bom verificar seu arquivo de pessoas
desaparecidas, além dos casos ocorridos em outros lugares - disse Dunlap. - Não se
sabe onde isso pode ter levado.
- Slaughter, você pode me explicar o que significa isto?
A voz do recém-chegado trovejou no quarto, e todos olharam para a porta. Ao
verem Parsons, que os observava de cima para baixo, tornaram, uma vez mais,
para Slaughter.
- Ainda não sabemos. Estamos...
- No corredor.
- Como?
- Estou esperando, Slaughter. Parsons saiu batendo a porta. O quarto ficou em
silêncio.
- Bem, eu acho que sabia que isso ia acontecer.
- O que ia acontecer?
- Nada. É melhor eu dar um jeito nisso.
Slaughter foi até a porta e a abriu. Viu o lugar onde Parsons o esperava. Este
esperou que a porta se fechasse antes de começar a falar:
- Eu disse para você não deixar aquele repórter ver isso! Mandei-o colocá-lo
num trem e despachá-lo da cidade!
As enfermeiras olharam do fundo do corredor.
- Não creio que possa fazer isso.
- Se quiser manter seu emprego, você...
- Olhe, Parsons, nós realmente deveríamos nos conhecer melhor. Agora é tarde,
mas vou tentar fazer com que você entenda. Já passei muitas vezes por situações
como esta. Quando surgia algum problema, lá em Detroit, faziam pressão sobre os
nossos superiores, e eles sempre procuravam alguém para colocar a culpa. E a
gente acabou aprendendo a sair dessas enrascadas sem se "queimar". Agora esta
cidade está com um problema enorme, e você vai ter de colocar a culpa em algum
babaca, mas eu garanto que não há de ser em mim. Esse sujeito aí dentro, Dunlap,
está me seguindo como minha própria sombra. Não vou a lugar algum, nem
mesmo ao banheiro, sem levá-lo comigo. Porque eu quero garantir a minha
proteção. Ele anota cada movimento que eu faço, e, se você fizer alguma acusação,
armar algum truque para salvar a sua preciosa reputação, vai haver a palavra de
mais alguém além da sua.
- Eu vou....
- Ouça-me. Ainda não terminei. Você quer ficar parado, esperando que as coisas
aconteçam. Bem, não é o que pretendo fazer. Se necessário, vou declarar lei
marcial. Não tenho autoridade para isso, mas, depois que eu o tiver feito, não vai
nos faltar tempo para discutir o assunto. Antes, porém, vou estar pelo menos
fazendo alguma coisa, ao contrário de você. Pode ser que eu cometa erros. Tudo
bem, assumirei as consequências. Mas não vou levar a culpa pelo seu imobilismo.
Parsons o encarou.
- Você ainda vai desejar nunca ter vindo para cá.
- Pode ser. Mas pense nas suas opções. Se eu agir corretamente, você vai
aparecer e ficar com o crédito. Se eu errar, você vai ter a quem culpar. Mas Dunlap,
agora, é a minha segurança. É a minha testemunha. E eu estou no comando. Não se
esqueça disso.
- Ah, não vou me esquecer. - Parsons tremia de ódio. - Vou me lembrar de você
durante muitos anos - continuou -, mas você não vai estar por aqui para saber.
77
Owens não queria fazer aquilo. Ao entrar no escritório de Slaughter, viu que
Accum, Rettig e outro homem, que não conhecia, estavam se voltando para ele.
- Ótimo. Estou contente com que tenha conseguido fazê-lo - disse Slaughter.
- Mas não por muito tempo. - Owens apontou, pela janela, para a fila de carros
que estavam saindo da cidade. - Esta noite já não haverá ninguém aqui.
Slaughter olhou para Owens e, a seguir, para onde ele estava apontando.
- Então, o boato circulou rapidamente, e as pessoas estão indo embora. Isso pode
ser bom.
- Bom para quê? Para proteger uma cidade fantasma?
- Não era o que eu queria ouvir. Você trabalhou um bocado nisso. Pensei que
pudesse contar com você.
- Mas com que finalidade? Você sabe que não podemos vencer isso.
- Podemos tentar.
- Ora, você não tem família. Mas minha mulher e meus filhos estão arrumando
as malas.
- A minha também - disse Rettig. - Mas isso não significa que eu vou com eles.
Owens olhou para ele e depois para os outros. Sua expressão era de
incredulidade.
- Vocês ainda não entenderam, não é? Não entenderam nada do que
descobrimos, o fato de que não suportam a luz e de que aparecem na escuridão, de
como ficam afetados pela lua e de como os incidentes têm se multiplicado.
Slaughter franziu a testa e balançou a cabeça.
- Eu ainda não o entendi.
- E a lua. A lua está ficando cheia, hoje vai chegar ao máximo. Este vale inteiro
vai se transformar numa casa de loucos. - Todos o fitaram com espanto. - Você é
um tira. Quando estava em Detroit, deve ter notado como os loucos agiam em
noites de lua cheia ou quando a estação do ano começava a mudar. Nem é preciso
ser um tira para entender isso. Basta conversar com os médicos ou mesmo comigo
sobre a maneira como meus animais começam a se comportar. A lua faz coisas
incríveis. E hoje teremos, exatamente, lua cheia. Estamos em pleno verão. Conhece
as histórias sobre o caos do verão? Hoje à noite você vai ver o inferno.
Todos continuaram olhando, os rostos mudaram de cor.
- Meu Deus!
- Caramba, você me assusta! - Disse Slaughter. Olhou para a escrivaninha, para a
janela e, depois, para ele. Tomou fôlego. - Sim, eu admito, e acho que, depois do
que vimos, você tem razão em acreditar que qualquer coisa pode acontecer. Não sei
o que fazer.
- Caia fora enquanto é tempo.
- Não posso.
- Por quê?
- Porque esse é o meu trabalho.
- Isso é tão louco quanto as coisas que nós estamos vendo. Você não vai
conseguir fazer nada e, mesmo que consiga, quem vai lhe agradecer? Parsons?
Acha que os habitantes deste vale vão ficar agradecidos se você morrer por eles?
Não espere isso. Vão dizer que você perdeu o controle, que estava doido.
Aproveite a oportunidade e caia fora enquanto pode.
- Mas não é pela cidade que eu estou fazendo isto. É por mim mesmo. Se eu
fugir agora, nunca mais serei capaz de me suportar. E também não creio que vocês
fujam.
- Não? Olhe para mim.
Ficaram olhando. Esperaram. Houve um momento em que ele pareceu disposto
a sair. Mas não o fez.
- Algo errado? Você está incomodado com alguma coisa? - Quis saber Slaughter.
Owens se limitou a fitá-lo. - Tem mais alguma coisa a dizer? - Mas Owens
continuou olhando apenas. - Vou lhe dizer uma coisa. Ainda é dia. As coisas não
vão piorar muito até que anoiteça. Diga a sua família que vá embora. E continue
ajudando-nos como acaba de fazer. Você nos deu mais informações do que
tínhamos. Eu não sei como usá-las, mas você é muitíssimo importante.
Owens continuou olhando para ele.
- Até o pôr-do-sol.
- Não é mais do que eu poderia pedir.
E então Slaughter fez algo estranho. Aproximou-se e apertou a mão de Owens,
que pareceu sentir-se um pouco melhor. Os outros também se acalmaram.
- Bem, nós somos uma equipe novamente. Vamos trabalhar.
78
Parsons puxou o cavalete até a estrada. Encontrara-o à margem da pista, fora ali
abandonado pela turma que havia reparado o asfalto. Puxou um segundo cavalete,
de modo que as duas vias ficaram bloqueadas. Não estava acostumado àquilo.
Durante toda a vida, tratara de ocupar o lugar e deixar que o poder passasse por
ele, em vez de persegui-lo ativamente. Chegara àquela posição simplesmente
concordando com o que todos já haviam aceitado. O melhor governo era o que
menos governava, costumava dizer. O trabalho de um servidor público não era o de
liderar, e sim o de seguir. E, durante os vinte anos que passara na prefeitura,
constatara que aquelas ideias davam certo. Agora, no entanto, estavam falhando.
De sua casa, vira a população abandonando a cidade, ali havia recebido
telefonemas de censura e de deserção. Implorara aos amigos que ficassem, que
confiassem nele, mas o momento em que devia ter agido já havia passado e, agora,
ele via a cidade se dissolver e, com ela, o poder que durante tanto tempo recebera
passivamente. Pela primeira vez na vida, ele se sentia um fracasso. Pior que isso:
jamais voltaria a ocupar aquela posição. Mesmo que a cidade se salvasse e a
população retornasse a suas casas, certamente já não lhe seria leal. Tudo mudaria,
elegeriam outro prefeito, exigiriam mudanças, e ele seria como os velhos
presidentes, os líderes que um dia haviam sido influentes, mas que, agora, eram
colocados de lado e até chegavam a ser um estorvo. Sabia que a comparação era
até certo ponto grandiosa, mas seu país era aquilo, aquela cidade, aquele vale.
Reinara com absolutismo, e não podia suportar a ideia de ser deposto e
considerado inútil.
Tendo colocado os dois cavaletes na estrada, sacou o revólver e caminhou,
resoluto, para o primeiro carro da fila. Era corpulento, enorme. E a primeira coisa
que havia aprendido era usar seu tamanho, sua presença.
- Volte. Nós temos de enfrentar isso juntos.
- Tire esses cavaletes da estrada antes que eu passe por cima deles.
- E depois? Se todos forem embora, não haverá quem enfrente isso.
- Olhe, meu vizinho foi destroçado por seu cão pastor. Duas casas abaixo, o
marido enlouqueceu. Sei de umas vinte pessoas que desapareceram na noite
passada. Alguma coisa está acontecendo, mas está sendo encoberta, e não sou eu
quem vai ficar para descobrir o que é.
- Eu vou atirar nos seus pneus.
- E os outros carros depois de mim? Você não tem balas para tanto. Tire esses
cavaletes da estrada. Deixe-me seguir o meu caminho.
- Não posso permitir isso. Nós não sabemos o que é essa coisa, mas, se eu os
deixar sair daqui vocês vão disseminá-la. A partir de agora, todo o vale está de
quarentena.
Sabia que estava sendo contraditório, que estava fazendo o que havia proibido a
Slaughter. Mas estava em guerra com o xerife, e, se a tática do inimigo dava certo,
era preciso incorporá-la. E a situação estava tão descontrolada que a melhor tática
era mesmo aquela. Por isso, disse ao motorista:
- Se vocês forem embora, se o vale se tornar um inferno, ninguém poderá voltar
aqui. Ninguém poderá confiar em viver aqui. Pense um pouco, pelo amor de Deus.
Volte para a cidade e lute.
Os carros estavam alinhados, os motoristas buzinando, descendo e caminhando
em sua direção. Ele estava pronto com o revólver.
- Se confiarem em mim, posso lhes mostrar como acabar com isso. - Eles
estavam se aproximando dos cavaletes. - É a colônia. Não perceberam?
Sim, também sabia daquilo. Tinha informantes em toda a parte e vinha
mantendo contato com eles desde seu encontro com Slaughter. Havia ainda
algumas coisas que não compreendia, mas sabia que, agora, contava com um bode
expiatório. Além disso, aqueles hippies realmente eram o inimigo, e, se aquele
método tivera sucesso havia sete anos, poderia dar certo uma vez mais.
- A colônia? Mas eles se foram há muito tempo.
- Estou lhes dizendo que eles ainda estão nas montanhas. Claro, podem ter
mudado o lugar, mas ainda estão lá em cima e enlouqueceram. Só Deus sabe o que
andaram fazendo durante esse tempo todo, mas, agora, pegaram alguma doença e
estão descendo para o vale. Os gatos e os cachorros também se contagiaram, mas
nós podemos controlá-los. O que me atemoriza é a colônia.
Era o argumento pré-histórico, que apelava para seus instintos tribais, unindo-os
a todos contra a ameaça que vinha de fora, que ninguém entendia e todos temiam.
Quase se envergonhava de recorrer àquilo, embora ele mesmo acreditasse no que
dizia, naquelas lembranças ressentidas dos anos 60, ainda vivas, prontas para serem
acionadas. Agora, seu ódio era tanto que ele estava querendo liquidar as contas.
Recuperaria aquela cidade. Slaughter que fosse para o inferno. Por Deus, haveria
de pagar caro pela maneira atrevida com que lhe havia falado.
Esperou. Todos o encaravam com assombro.
- Vão descer aqui e matar-nos a todos se não nos unirmos para detê-los. -
Continuaram olhando para ele. - Eu nem preciso de vocês. Eu vou ver os
rancheiros. Eles, sim, sabem o que é importante. Eles, sim, sabem como proteger
aquilo por que tanto lutaram. Eu vou procurar homens de verdade, que não tenham
medo.
E então percebeu que a emoção se apossava da multidão. Logo mais, perguntaria
se alguém conhecia as pessoas que haviam sido mortas. Falar-lhes-ia sobre
Slaughter, sobre como seu xerife fora inepto. Tanto que ele, o prefeito, se vira
forçado a sair às ruas e tomar conta de seu povo.
79
Junto com os outros Slaughter olhou para o mapa. Haviam providenciado para
que se divulgasse um comunicado pela rádio e a televisão, orientando as pessoas
para que permanecessem dentro de casa, mantivessem-se longe de animais e de
estranhos, avisassem a polícia sobre qualquer caso de mordida ou de
comportamento anormal e esperassem os jipes que estavam circulando pelas ruas e
que lhes prestariam assistência. Ele já entrara em contato com os contingentes do
Exército, na cidade, que se estavam munindo para dar uma busca de casa em casa.
Consultou o relógio.
- Você conhece essas montanhas melhor do que eu. Diga onde pode estar essa
colônia.
- A área é muito grande - disse Rettig.
- Sim, mas... - Slaughter parou e esfregou a testa. Estava com dor de cabeça
devido à falta de sono e de alimentação adequada, à tensão acumulada e à
discussão com Parsons. Esperava poder contornar aquilo, mas estava confrontando
com algo que o deixava cada vez mais acuado e cheio de dúvidas. - Sim, mas você
deve se lembrar de alguns lugares, cavernas e desfiladeiros, onde um grupo de
pessoas poderia viver sem ser notado.
- Há centenas de lugares assim - respondeu Rettig. - Quando eu era criança, não
havia nem mapas dessas montanhas. Caçadores, pescadores, todos as percorriam,
mas eu conheci um índio que tinha vivido ali, durante uns três anos, como eremita,
e nunca fora encontrado por ninguém.
- O que você está me dizendo é que não vamos encontrar coisa alguma.
- Estou dizendo que não vamos ter tempo para procurar.
- Olhe, tem de haver alguma lógica nisso tudo - disse Dunlap. Todos se voltaram
para ele. O homem da cidade que pretendia lhes dar uma lição sobre as montanhas.
- Lógica? Que diabo de lógica pode haver nisso? - Perguntou Slaughter.
- Pense um pouco. Quiller contava com cerca de duzentas pessoas. Algumas
delas morreram de frio naquele inverno. Mas e o resto? Estamos procurando um
lugar grande o suficiente para, digamos, umas cinquenta pessoas. E um lugar alto,
onde ninguém vai normalmente. Longe de todos os caminhos conhecidos.
- Pode ser - disse Rettig.
- Mas isso ainda não nos leva a lugar algum - disse Slaughter.
- Você saberia como cuidar disso se estivesse em Detroit. Pense numa série de
crimes que estivessem acontecendo nas ruas. Você não faria um diagrama?
- Mas não há como fazê-lo.
- Claro que há. Que parte do vale vem perdendo o gado?
- Aqui. O lado oeste.
- E os rancheiros desaparecidos?
- No Oeste.
- O terreno onde você encontrou Clifford? Slaughter começou a marcar o mapa.
- Precisamos de uma lista de tudo o que aconteceu.
Desejou que Marge estivesse ali para ajudá-lo. Depois, dando-se conta de que
sua própria casa também ficava no lado oeste da cidade, teve um arrepio: de fato, o
que havia visto naquela noite não eram pumas.
- Troquem algumas linhas. Interceptem-nos. Estavam agrupados em torno da
mesa.
- Bem, é um lugar alto. Como você esperava.
- Alto o suficiente para as pessoas não irem muito lá. Veja que aqui não há
trilhas marcadas.
- E esta linha interrompida aqui?
- É a estrada de ferro que antigamente levava às minas de ouro. Agora está
abandonada, destruída.
- Minas de ouro? Que ouro?
- Esta era uma das regiões mais ricas do Estado. Há muito tempo, em 1895.
Havia até uma cidade lá no alto.
Slaughter sentiu um calafrio.
- Meu Deus, nós fomos cegos. Como não vimos isso?! - Exclamou Owens.
- A cidade fantasma - disse Rettig. - Chamava-se Motherlode. É difícil como o
diabo chegar até lá sem a estrada de ferro. Quer dizer, já não há trilhos sequer. Foi
por isso que construíram a ferrovia antes de mais nada.
- Motherlode. E lá deve haver túneis cortando as rochas. Não é impossível viver
ali durante anos. Os mineiros faziam isso.
- E agora aquela colônia - disse Slaughter.
- E agora a colônia - repetiu Owens. - Quem há de saber o que poderemos
encontrar lá?
- Desculpe, Slaughter.
A voz de Parsons trovejou na sala. Eles olharam pela divisória de vidro. Um
grupo de homens armados de fuzis acabava de entrar pela porta principal e se
postara no centro da sala maior, Parsons à frente.
- Continua se intrometendo? - Perguntou Slaughter.
- Ora, é a última vez.
Todos ficaram em silêncio. O policial junto ao rádio arregalou os olhos, os três
homens que estavam atendendo os telefones apressaram a conversa e desligaram.
Quase no mesmo momento os telefones voltaram a tocar.
- Tirem essas coisas da tomada - ordenou Parsons. Eles olharam para Slaughter e
depois para Parsons. - Tirem-nas da tomada, eu disse. - Ele avançou alguns passos,
e os policiais puxaram os fios dos telefones. - Assim é melhor. Agora ninguém vai
nos interromper. Bem, vamos lá, Slaughter. Vamos andando.
- Por quê?
- Acabo de declarar situação de emergência.
- Eu não...
- É o que você chamaria de prisão preventiva.
- Você está brincando.
- Acaso estou sorrindo? Mexa-se antes que eu o obrigue a fazê-lo.
- Mas você não pode estar falando sério.
- Não estou disposto a discutir. Já é fato conhecido que você não obedece a
ordens.
- Foi porque você não quis enfrentar a situação.
- Por acaso parece que eu não estou preparado para lidar com uma situação
como esta? Você não convence, Slaughter. Você agiu por conta própria, sem
autoridade para isso. Seus métodos foram irresponsáveis. Você deixou a coisa
escapar ao controle enquanto conspirava com Ac-cum e Owens para encobrir um
assassinato.
- O quê?
- O garoto que Accum retalhou na morgue. Ainda estava vivo. Pensa que eu não
sei? Quando percebi que os pais iam entrar em processo, pedi uma segunda
autópsia. Aqueles cortes no corpo do menino não foram exatamente profissionais.
Claro, Accum fez o que pôde para dar essa impressão, mas não conseguiu. Vou
prender todos vocês até sabermos a verdade sobre isso.
- Eu não - disse Dunlap. - Não sei nada sobre isso.
- Mas viu o suficiente para ser uma testemunha circunstancial. Slaughter estava
alardeando isso.
- E eu, como fico? - Rettig deu um passo adiante.
- Não tenho nada contra você. Ao contrário, vou colocá-lo no comando, apesar
de desconfiar de sua amizade com Slaughter. Mas, se você fizer qualquer coisa
para ajudá-lo, vai acabar junto com ele. Este departamento andou mal por muito
tempo. Vou dar um jeito nisso. Rettig, pegue a arma dele.
Rettig olhou de um para o outro.
- Faça o que ele manda - disse Slaughter. - Não temos escolha. Fique tranquilo.
Eu vou ficar bem.
Parsons começou a rir.
- Claro que sim. Vai ter uma cela só para você. Agora vamos acabar com isto.
Rettig olhou para Slaughter e pegou o revólver. Os homens com os fuzis deram
um passo à frente para formar um cordão e levaram os quatro prisioneiros.
80
Rettig estava de pé, em silêncio. Ao olhar pela janela, viu pessoas no jardim, a
maioria homens. Estavam zangados, empunhavam armas. Ele se sentiu
subitamente cansado.
- Mas, afinal, o que aquele bastardo pensa que vai fazer? - Perguntou o policial
ao lado do rádio.
- Está com medo de que Slaughter lhe puxe o tapete.
- Mas ele está instigando aquela multidão lá fora.
- Está apenas fazendo o que lhe pedem. É isso que vai dizer depois; sempre agiu
assim. Vai levar isso adiante, e há de voltar com o dobro do poder. Odeio dizer
isso, mas, seja como for, vamos passar uns maus bocados, não há como evitá-lo.
Pela janela, viu as pessoas darem passagem a Parsons, que começava a discursar.
81
Agora começava a experimentar uma sensação estranha. Fora avisado de que
aquilo podia acontecer, mas a mordida no dedo não tinha sido profunda. Recebera
muitos arranhões no rosto e no pescoço, mas apenas aquela única e leve mordida
ao estender os braços para se defender. Na noite anterior, ao vê-la começar com
aquilo, pensou que ela havia enlouquecido de dor. Seu único filho estava morto.
Depois, compreendeu, vagamente, que nem mesmo o desespero seria capaz de
fazê-la agir daquela maneira e tentou se afastar dela. Não foi possível. Se aquela
mulher não a tivesse golpeado com o taco de beisebol, talvez ele já não tivesse
força para seguir lutando. Agora, a desgraça era maior. A esposa inconsciente.
Lamentava que tanta força tivesse sido necessária para dominá-la. Perguntava-se se
um dia suas vidas recobrariam a normalidade. Preocupava-o saber que talvez ela
não sobrevivesse.
E, agora, sabia do vírus que ela, Warren e talvez ele também havia contraído.
Explicaram-lhe que, se estivesse com a doença, devia apresentar sintomas nas vinte
e quatro horas seguintes; por isso, haviam-no encerrado naquele quarto. Na
verdade, tinham-no prendido ali. Era uma cela toda estofada, as paredes, o chão, o
teto, e sem janelas. Uma cela para histéricos. E o temor do que lhe podia acontecer
era reforçado por aquelas condições.
Consultou o relógio. Haviam lhe permitido ficar com ele, o que de certa forma o
consolava. Havia quatorze horas que fora mordido. Talvez conseguisse sobreviver
àquilo, mas estava se sentindo estranho. Seria angústia? Depressão? Seria alguma
outra coisa? Era assim que aquilo começava?
Esmurrou uma das paredes com súbita raiva. Chutou-a e praguejou.
Até o dia anterior, sua vida tinha sido perfeita. Ao levar Warren do médico para
casa, sentiu alívio e felicidade, sentiu-se muito ligado à família. Agora tudo estava
destruído para ele. O filho morto. Socou a parede estofada novamente. Rosnou. E
se deu conta de que havia rosnado.
Imobilizou-se, perplexo. Não, apenas ficara com raiva. Não era nada. Mas o
odor salgado de suor, ali dentro, era muito forte. Farejou. O cheiro se exalava das
paredes. Aproximou-se e farejou. Então, era assim que começava, pensou. Mas
para que pensar? Embora devesse sentir mais medo, a raiva e o desespero, agora
subjugados, o haviam debilitado. No final, ele já nem se incomodava. E talvez
aquela passividade também fosse parte da coisa. Não tinha escolha. A doença o
estava forçando a aceitá-la.
E aquele penetrante cheiro de suor. Aproximou-se ainda mais, inclinou-se,
farejando. Começou a lamber. Sabia que o estava fazendo, mas não conseguia se
controlar. Era uma necessidade irresistível. Esfregava asperamente a língua na
lona. Por um instante, chegou a reconhecer sua dupla personalidade, mas logo
perdeu a capacidade de análise. Quando eles vieram, dez minutos depois, estava
furioso.
82
Parsons estava esperando no campo perto do parque de exposições de gado. Já
eram muitos ali, mas ele sabia que logo haveria mais gente. Tinha enviado
mensageiros a todos os ranchos do vale. Os homens da cidade já estavam indo para
lá, e, agora, via chegarem também os rancheiros. Subiu no jipe e levantou o
megafone.
- Atenção.
Amplificadas, suas palavras explodiram com estridência. Todos se voltaram, os
rostos tensos de expectativa. Ondas de agitação percorreram a turba; logo, o grupo
ficou imóvel, esperando.
- Vocês todos conhecem o problema que temos. Preciso de alguns voluntários
para trazer nossos vizinhos ao parque de exposições. Vamos examiná-los, para ver
se não estão contagiados, e alojá-los aqui até que tudo termine. Enquanto isso,
precisarei de outros voluntários para dar busca nas casas. Se virem um gato ou um
cachorro com aparência suspeita, matem-no. E temos sedativos para qualquer
pessoa que esteja com o vírus.
- E a colônia?
- Primeiro vamos colocar a cidade em ordem. Depois, vamos dar um jeito no que
quer que esteja nas montanhas. Não se preocupem.
Começaram a murmurar. Ele apontou para o comandante do destacamento do
Exército. Teve de fazer esse gesto.
83
Estavam dormindo nos esconderijos espalhados pela cidade, os homens, as
mulheres e as crianças desaparecidos. O instinto selvagem havia se apossado
deles, obrigando-os a buscar proteção contra a luz. Havia também gatos, cachorros
e outros animais. Em banheiros, cisternas abandonadas, sótãos, quaisquer lugares
onde houvesse escuridão.
84
Nas montanhas, em suas cavernas, em seus ninhos de folhas e por entre o
emaranhado dos ramos, eles dormiam e murmuravam. Os chifres raspavam uns nos
outros. Quando a lua surgiu novamente, puderam sair e ver a noite, e suas mentes
assombradas se povoaram do sonho de seu santuário, e eles suspiraram pelo
banquete da cidade que se estendia lá embaixo.
85
Quatro homens nas celas do andar inferior; dois outros, armados de fuzis, os
vigiavam. Estes estavam reclinados nas cadeiras apoiadas na parede. Havia uma
escrivaninha, uma porta que levava para o andar superior e outra que dava para um
túnel que conduzia ao tribunal. Assim, os prisioneiros podiam ser escoltados até o
juiz sem ter de sair do edifício. O túnel era úmido e fétido e seus odores invadiam
as celas. Slaughter só descia à carceragem quando era necessário. Nunca fora preso
e estava compreendendo a humilhação, jurando agir melhor se tivesse uma única
chance, embora aquilo parecesse improvável. Estava liquidado naquela cidade,
sabia muito bem. Parsons havia sido muito mais esperto que ele. Estava nauseado,
e aquela úmida opressão que o rodeava só fazia piorar as coisas.
Por fim, conseguira dormir um pouco. Ficara ansioso a princípio, andando de
um lado para o outro na cela. Tentou discutir com os guardas, mas estes se
limitaram a fitá-lo, nada responderam. Esgotada a discussão, os três amigos que
estavam presos com ele trocaram algumas queixas e logo desistiram, estirando-se,
derrotados, em seus catres e silenciando. Slaughter também desistiu. Como estava
exausto, adormeceu.
Eram quatro celas em fila, uma para cada prisioneiro.
Accum estava intrigado. Como se metera naquela situação? Chegara a ser uma
estrela da medicina, na Filadélfia. Sua preocupação com os mortos, no entanto, o
havia afastado dos vivos. Toda noite ele ficava até mais tarde trabalhando com
cadáveres. Estes haviam se tornado sua derradeira verdade, e bastou, para
despertá-lo, um único e suave toque no ombro sem vida de uma menina. Erguendo
a vista, deu com seu chefe que estava junto à porta, olhando para ele. Nenhum
deles pronunciou uma palavra. Não era necessário. No dia seguinte, ele pediu
demissão e retornou a Potter 's Field, onde havia nascido e crescido, e onde seu pai,
médico, fora impotente para lhe salvar a mãe que agonizava com câncer. Ali
tentou colocar a mente em ordem, e agora, depois de tudo, estava correndo o risco
de ser processado devido a seu envolvimento com a profissão. No dia anterior, ao
descobrir o cachorro contagiado, devia ter telefonado para a delegacia e deixado
que eles se encarregassem do resto. Em vez disso, porém, comprometeu-se e,
agora, seria certamente forçado a....
Owens não cessava de se preocupar com a família, que o estava esperando. Não
lhe haviam permitido que telefonasse para casa, e, agora, arrependia-se de não ter
ido embora quando disse que ia. Ficara por estúpidos motivos, por lealdade para
com outros que não os seus, por lealdade para com aqueles homens que diziam
precisar dele quando seu primeiro dever era para com o lar. Agora, talvez tivesse
de enfrentar um tribunal porque Slaughter e o médico-legista o haviam convencido
de que todos deviam mentir sobre a morte do garoto. Onde estivera com a cabeça?
Que poder tinham aqueles homens? Será que fizera tudo aquilo para que gostassem
dele? Seria punido por proteger pessoas para com as quais não tinha obrigação
alguma, e, agora, desejava que sua família tivesse fugido para algum lugar além
do...
Dunlap havia sonhado, pouco antes, com aquela criatura de chifres que se
voltava e olhava para ele por cima do ombro. Nunca sonhara tão vivamente com
aquilo, como se, a cada visita, aquele ser se tornasse mais real, mais nítido, até que
um dia, ao despertar, se deparasse com ele. Mas não o encontrou na cela ao
despertar. Apenas a lembrança do que havia acontecido e, além das grades, os dois
guardas nas cadeiras inclinadas, com os fuzis nas mãos. Estava suando por causa
do sonho e da falta do álcool, que lhe dava força. As mãos lhe tremiam como
durante todo o dia e o anterior, e ele pensou que, se pudesse tomar um único trago,
sua situação não seria tão insuportável, conseguiria enfrentá-la. Mas, de certo
modo, estava feliz. Em sua agonia, ao menos conseguira sua reportagem, e, se
Parsons achava que aquela prisão podia impedi-lo de descobrir a verdade sobre
tudo aquilo, é porque não tinha ideia de como aquele homem derrotado era bom
profissional. Mesmo porque já não se sentia derrotado. Descobriria a verdade,
neutralizaria o sonho e se salvaria. Apegava-se a cada instante, imaginando o que...
Slaughter estava pensando nos últimos cinco anos ali passados, no velho Markie
e no segredo que com ele partilhava. Jamais o revelara ao velho e este nunca
fizera alusão a ele, mas ambos sabiam. Slaughter era um covarde. Ao ver Clifford,
ao percorrer aquele terreno baldio e enluarado, ao encurralar o garoto, sentira o
antigo medo crescer dentro dele. Maldição, entrara em pânico naquele terreno e
naquela casa. Perdera completamente o controle. E não entendia, agora, como
conseguira ir tão longe. Sua pose de macho diante dos amigos, suas discussões
com Parsons. Eram meras compensações, meras tentativas de conservar o auto
respeito, pois a única coisa que queria era cair fora dali e livrar-se de toda a
necessidade de demonstrar força e coragem. Vinha disfarçando isso havia cinco
anos. Parsons tinha razão. Na verdade, acabava de lhe fazer um favor.
Aprisionando-o, aliviará-o de sua carga. Silenciosamente, ele lhe era grato. Tentara
convencer os guardas a libertarem-no, mas, como sabia que não tinha chance
alguma, fora fácil argumentar. Fora até agradável. Mas a lembrança do velho
Markie lhe havia reavivado uma culpa antiga, e ele se viu dividido entre desejos
conflitantes. Fique aqui. É um lugar seguro para você. Encontre um jeito de sair.
Prove que ainda vale alguma coisa. Disse a si mesmo que não tinha escolha.
Independentemente da vergonha que sentia, estava preso. Sublime a vergonha.
Livre-se dela!
A noite pesava sobre ele. Pelas minúsculas janelas, no alto da parede, podia
ouvir os uivos, os tiros e os gritos. Graças a Deus você está aqui, em segurança.
Mas começou a ficar cada vez com mais raiva de si mesmo, de Parsons, daquele
problema. Estava a ponto de começar a argumentar com os guardas novamente.
Seria inútil, mas lhe aliviaria a tensão. Contudo, a porta se abriu e Rettig entrou.
Os dois guardas se levantaram, cautelosos.
- Calma - disse Rettig. - Cuidado com esses rifles, senão vão acabar atirando em
suas próprias bocas.
Eles olharam, confusos, nervosos.
- Você não devia estar aqui - disse um deles.
- É mesmo? Bem, então vou dizer à mulher que vá embora com a comida.
E lhes deu as costas.
- Um momento. Que comida?
- Para os prisioneiros. Eles não comeram.
- Nem nós.
- Oh, lamento não ter pensado nisso.
- Ei, traga a comida.
- Não estou gostando disso - disse o outro.
- É só comida, por Deus. Que diabo, estou com fome.
- É, mas pode ser um truque.
- Estamos armados. Traga a comida.
- Vocês querem mesmo? - Rettig deu de ombros.
- Traga-a.
- Tudo bem, então. Aproximou-se da porta e fez um gesto.
Aiarge entrou com dois cestos, olhando para os quatro homens nas celas,
particularmente para Slaughter. Este tentou sorrir, mas ela parecia nervosa. Aqueles
últimos dias a haviam envelhecido muito. Ele sentiu pena.
- Olá, Marge. Ela o fitou.
- Achei que talvez quisesse comer um pouco.
- Aconteceu alguma coisa?
- A mulher em quem eu bati.
- Sim, o que houve com ela?
- Morreu há meia hora.
86
Debatia-se em sua abafada prisão. Metera-se naquele caixote para dormir, e,
agora, sentia a noite lá fora, precisava sair. Bateu na tampa que não se mexia,
estava travada. Suava, ofegava. Os gritos abafados foram se tornando mais fracos.
87
Ele estava de prontidão naquela esquina, observando o bêbado que se
aproximava.
- Ei, você não pode ficar aqui. Todo mundo está no parque de exposições.
Mas o bêbado continuou se aproximando tropegamente, cambaleando à luz do
luar. Ao se adiantar para detê-lo, o policial descobriu que não se tratava
simplesmente de um bêbado. E aqueles olhos se acercaram dele, terríveis.
88
Quando viu o cachorro correndo na rua, disparou.
Alguém gritou então:
- Você matou o meu cachorro!
89
As criaturas haviam se encontrado na escuridão. Rastejando para fora dos
abrigos, dos porões, das carcaças de velhos carros abandonados, juntavam-se em
grupos e se espalhavam pelas ruas, fazendo com que os voluntários, que haviam
dado busca nas casas, fugissem em pânico. Por vezes, estes encontravam forças
para se agrupar sob as luzes das esquinas e atirar nos vultos grotescos, horrendos,
que estavam diante deles. Cães e gatos também formavam bandos e, agora,
apareciam juntos, furiosos, rosnando, avançando. Em toda a cidade detonavam as
armas.
90
Winston se perguntou que tiros eram aqueles. Trabalhara o dia todo e só a
contragosto voltara àquele porão como lhe ordenaram. Acendera a lanterna sobre
os cadáveres e se encolhera num canto perto do lavatório. Se alguma coisa
voltasse para o jantar, ele teria chance de atirar nela logo que aparecesse na escada.
Ficou esperando enquanto o tiroteio aumentava. Ouviu gritos lá fora, mas se
manteve concentrado em sua tarefa, até satisfeito de estar seguro ali. Então o
tiroteio diminuiu um pouco, e ele teve a impressão de ter ouvido alguma coisa.
Estava tenso. O ruído vinha da escada. Estava com a lanterna pronta. Espere até
que ele chegue aqui embaixo, não vá errar o tiro. Ouviu algo raspar, mas não era o
ruído que esperava nem vinha de onde pensava que viria. Assustado, acendeu a
lanterna, e Orval se levantou, investiu contra ele. Winston atirou e continuou
atirando.
91
Vasculharam os cestos, examinaram as garrafas térmicas. Agitaram-nas. Estava
tudo em ordem.
- Tudo bem, você fica aí, e a gente distribui a comida. Passando por Rettig, o
guarda deixou alguns sanduíches diante de cada cela, assim como os copos
plásticos e as garrafas.
- Prestem atenção. Assim que eu me afastar, vocês pegam isso. Só têm duas
garrafas, por isso vão ter de passá-las de um para outro. Mas, logo que puserem o
café nos copos, deixem as garrafas em frente, onde eu possa vê-las. Não quero que
as joguem.
Slaughter não lhe deu atenção. Não deixava de olhar para Rettig.
- E lá fora como está?
- Nem me pergunte.
Slaughter olhou para o chão, depois para Marge. Pigarreou.
- Bem, ouça, obrigado, Marge. - Ela não respondeu. - Ei, tome conta dela - disse
a Rettig.
- Prometo. - Rettig olhou para os guardas que o vigiavam atentamente. - Não
fiquem nervosos. Já estou indo. - Olhou para as celas e depois para Slaughter. - Até
mais, xerife. - E saiu.
- Tome cuidado.
A porta se fechou atrás de Rettig e Marge.
Os quatro ficaram em silêncio, observando os guardas.
- Comecem - disse um deles. - Vamos ver se isso tem alguma droga. Estou com
fome.
Abaixaram-se lentamente, estenderam as mãos. Slaughter foi o último. Mastigou
o sanduíche sem gosto.
- Vou servir café.
Pensando no tiroteio lá fora, estendeu as mãos e girou a tampa. Colocou o café
nos copos e os distribuiu.
Tomou, no entanto, o cuidado de reservar um deles somente para si, pois junto
com o café viera um pequeno bastão, tão fino e leve que nem fizera barulho
quando os guardas sacudiram as garrafas. Não se atreveu a verificar se alguém o
havia notado. Simplesmente continuou agindo como se tudo estivesse normal.
Levantou-se e mastigou de novo o sanduíche, mexendo o café com o dedo. Não ia
beber aquela porcaria, mas teria de fingir. O dedo tocou no objeto. Parecia um
verme. Sentiu-o, era longo, delgado, flexível. Mas o que seria aquilo? Por um
momento, suspeitou que fosse um explosivo, se bem que não lhe teria utilidade
alguma, já que não havia como arma-lo. Além disso, o barulho chamaria a atenção.
Rettig não lhe daria algo que não pudesse usar. Mas, se não era um explosivo, que
mais poderia ser? Inclinou-se para um lado, a fim de não ser visto, e pegou o
objeto, olhou-o e tornou a colocá-lo no café. Era vermelho como o verme que tinha
imaginado. Mas ainda não imaginava o que era ou como poderia usá-lo.
- Céus, este café está horrível - murmurou Dunlap.
- Cale-se e beba - disse o primeiro guarda.
- Eu tinha razão - comentou o segundo. - Deve haver alguma coisa aí dentro.
Logo eles estarão dormindo.
- Ou pior.
- Era o que faltava. Ora, eles podem vomitar quanto quiserem. Eu não os vou
ajudar. Lembrem-se disso - disse aos prisioneiros -, se alguém passar mal, o
problema não é nosso.
Eles abandonaram seus copos.
- É verdade, o café está estragado - disse Owens.
- Não bebam isso - disse Accum.
O primeiro guarda começou a rir. Slaughter se aproximou das grades.
- Ora, não sei o que há com vocês. Estou achando ótimo o café. Se não
quiserem, passem para cá outra garrafa.
- Cuidado, Slaughter - disse Accum.
- Eu sei o que estou fazendo. Diabo, estou com sede.
- Sirva-se.
E, do outro extremo, Owens empurrou a garrafa, que foi passando de mão em
mão, diante das celas. Slaughter a colocou ao lado da outra.
- Vou guardá-lo para depois.
- Se você ainda conseguir beber alguma coisa - riu o segundo guarda.
- Não sabem o que estão perdendo.
- Logo você vai nos mostrar - disse o outro guarda.
Slaughter deu de ombros e voltou ao catre, fingindo estar tomando, com prazer,
o café. Bocejou. Ao se deitar, perguntou se haveria outro bastão na segunda garrafa
e se descobriria o que era e como usá-lo. Na parede, o relógio estava dando meia-
noite e meia.
92
No parque de exposições, as pessoas se acotovelavam nos estandes e
espreitavam, furtivamente, os caóticos ruídos que vinham da cidade. Os tiros e os
gritos pareciam cada vez mais próximos. As crianças choravam. A arena e o
campo, mais adiante, estavam desertos, e as montanhas escuras se erguiam ao
longe, com os picos nevados banhados no luar. Parsons estava preocupado pela
primeira vez. Tivera tanta certeza de que daria certo! Mas, agora, percebia que
havia reunido toda aquela gente, num lugar central, tornando-as um alvo fácil, e
que toda a fúria espalhada pela cidade estava convergindo para lá.
- Formem uma linha com os fuzis! - Gritou.
93
Estavam observando do alto da colina que dominava o parque de exposições, os
olhos fitos naqueles objetos outrora familiares. Nervosos, relanceavam a lua e
estremeciam, e uivavam, mas as pessoas, lá embaixo, estavam distraídas, não se
davam ao trabalho de olhar para as montanhas. Então, eles abandonaram aquela
colina. Foram descendo silenciosamente pela floresta. Estavam ansiosos pelo sabor
que, embora nauseante, desejavam e, à medida que avançavam por entre os
arbustos, ouviam o rumor da cidade que se estendia a seus pés.
94
Slaughter esperava na escuridão. Deitado no catre, fingia dormir e, ao mesmo
tempo, com os olhos semicerrados, espreitava as grades e, além delas, os guardas.
Haviam apagado a luz e estavam acomodados nas cadeiras inclinadas sobre a
parede. Sabia que tinha de agir logo, mas, se o fizesse cedo demais, poderia
despertá-los, e eles acabariam descobrindo.
Praguejou consigo mesmo. Estava em segurança. Uma cela para mantê-lo
ocupado, enquanto tudo continuava acontecendo sem ele. Agora, estava
novamente ante a necessidade de fazer uma escolha e, se não agisse, sabia que
Rettig o compreenderia. Isso importava? Sim, decidiu finalmente. Não voltaria a
viver a humilhação do passado. Fixara-se naquela cidade para recomeçar tudo, e,
se perdesse aquela oportunidade, nunca mais se sentiria inteiro. Claro, poderia
fingir, diante de Rettig, que não havia entendido os objetos no café, mas não sabia
se seria convincente. Ainda que sim, não conseguiria convencer-se a si mesmo.
Precisava agir.
Ainda praguejando, observou os dois guardas. Então, sentou-se lentamente no
catre. Porque finalmente compreendera os objetos no café.
Tratava-se de algo tão óbvio que ele se perguntou como pudera levar tanto
tempo para entender e percebeu que Rettig era muito mais esperto do que
imaginara. O plano era genialmente simples. Talvez por isso tenha demorado tanto
para concebê-lo. Os bastões no café eram de puro fósforo. O líquido não deixava
que se inflamassem. Ainda pensando que aqueles objetos fossem explosivos, ficou
a imaginar como detoná-los. Isto o fez pensar na luz, numa luz brilhante. Mas o
estampido alertaria os guardas. Aquilo, então, devia funcionar sem ruído, mas, se
se tratasse mesmo de um explosivo, como o acenderia? Raramente fumava,
portanto não carregava fósforos. Luz brilhante, fósforos, ignição, e ele se lembrou
da escola, de uma ocasião em que o professor retirou uns bastões de fósforo de
jarras de água, e eles se acenderam repentinamente ao entrar em contato com o ar.
Levantou-se devagar do catre e caminhou com cautela até as grades. Viu que
seus companheiros estavam dormindo. Imóvel, esperou uma reação dos guardas.
Continuavam dormindo. Ajoelhando-se, passou a mão por entre as grades para
pegar a segunda garrafa, abriu vagarosamente e deitou o café nos copos de
plástico. Outro bastão caiu. Havia, pois, mais um. Colocou-o no outro copo, com o
primeiro bastão. Uma coisa o preocupava, no entanto. Sabia que o fósforo era
venenoso, e, se se tivesse dissolvido no café, haveria de lhes fazer mal. Pensou,
então, que o péssimo sabor do café não se devia ao fósforo, mas à maneira como
tinha sido preparado. Rettig cuidara para que ninguém o bebesse, por isso todos
tinham tomado um gole e cuspido. Não ficariam doentes.
Observou os guardas e achou que não devia esperar mais. Retirou os bastões do
copo e, enquanto ainda pingavam, socou-os na fechadura da porta da cela. Não
teria feito isso se estivesse numa cadeia nova e bem-feita. Mas aquela fora
construída em 1923. Ele ficara boquiaberto ao descer ali pela primeira vez. Claro,
as fechaduras resistiriam se alguém as forçasse ou tentasse arrombá-las, mas, como
o metal não lhe parecera bom, nem grosso o suficiente, havia solicitado uma
reforma, que a prefeitura, porém, recusara. O que ele esperava? Perguntaram.
Uma bomba? Nunca havia acontecido algo assim ali e, se ele fizesse seu trabalho
direito, nenhum explosivo entraria naquela prisão. Pois bem, agora ele tinha um
truque para lhes mostrar e estava muito agradecido por não lhe haverem acolhido a
sugestão. O fósforo queimava a altas temperaturas. Não o suficiente para derreter o
aço, mas o calor enfraqueceria aquele metal vagabundo. Afinal, ele não tinha nada
a perder, não custava tentar.
Deu um passo atrás, mas o fósforo não ardeu. Ou ele estava errado ou a coisa
não era o que imaginara. Não, o café ainda estava escorrendo dos bastões. Ainda
não estavam expostos ao ar. O café tinha de secar. Subitamente, Slaughter viu uma
faísca e, num instante, o fósforo estava ardendo. Metal incandescente, faíscas,
densa fumaça subindo. Olhou para os guardas. O chiado era mais alto do que
imaginara. Um dos guardas se moveu um pouco na cadeira, e Slaughter forçou a
porta.
Ela não cedeu. O fósforo continuou queimando, ele forçou novamente e dessa
vez pôde ver as juntas da fechadura se separando. O guarda se mexeu de novo na
cadeira, logo acordaria. Slaughter forçou a grade. O metal estalou e, de repente, ele
foi arremessado para a frente, tropeçou, quase caiu e se deu conta de que estava do
lado de fora, a porta aberta e o fósforo ainda em chamas. Recuperou o equilíbrio,
no momento em que o guarda, já desperto, endireitava o corpo na cadeira.
Slaughter arremeteu contra ele. Quando o homem caiu, ele lhe tomou o fuzil.
Saltou sobre o segundo guarda, que estava acordando, uma expressão
grotescamente assustada no rosto, encolhendo-se ante a coronhada na testa,
tombando. Slaughter apontou um dos fuzis para os dois guardas, que se detiveram
onde estavam, ainda caídos.
- Fiquem onde estão. Não se mexam - disse.
- Como, diabos, você...
Olharam para o que restava do fósforo ardente.
- O que foi? - Perguntou Accum.
Os homens começaram a se mexer nas celas.
- Não foi nada. Apenas estamos fugindo - respondeu Slaughter. Voltou-se para
os guardas. - E vocês não se atrevam nem a piscar um olho.
Foi até a mesa, puxou a gaveta e procurou as chaves. Não tirou os olhos dos
guardas enquanto voltava para a primeira cela, onde Owens o esperava.
- Aqui. A chave grande - disse-lhe Slaughter, e a entregou. Ficou vigiando os
guardas. As celas foram se abrindo.
- Mas como você...? - Quis saber Dunlap.
- Conto depois. Vocês dois, entrem aqui. - Apontou para os guardas.
Eles hesitaram.
- Mexam-se, eu disse. Avançou, e eles levantaram as mãos.
- Tudo bem, estamos indo.
- Você fica na primeira e você na última.
- Mas por quê?
- Façam o que eu digo. Eu não quero vocês juntos, só isso. Mexam-se, pelo amor
de Deus!
Obedeceram.
Slaughter ficou olhando enquanto Accum os amarrava e amordaçava, rasgando
os lençóis da cela. Owens fechou e trancou as portas.
- Traga as chaves e o outro fuzil. Dunlap estava se dirigindo a uma das portas.
- Não, vamos por aqui - disse Slaughter. - Essa porta leva para cima. Melhor ir
pela outra. - Dunlap ficou intrigado. - Você vai ver.
- Abriu-a, acendeu a luz, e eles viram o túnel úmido à sua frente.
- Vai dar no tribunal. Não há tempo.
Entraram. Slaughter olhou mais uma vez para os guardas presos. Acenou,
penetrou no túnel, fechou a porta e a trancou.
E começaram a correr, com os passos ecoando pelas paredes. Slaughter tinha de
baixar a cabeça para não bater nas lâmpadas que pendiam do teto, e, de repente,
após uma curva, o túnel deu em outra porta.
- Está trancada. Preciso usar a chave.
Mas, tendo girado a chave, a porta continuou trancada.
- O que está acontecendo?
Percebeu, então, que a porta já estava aberta, e ele a havia trancado. Girou a
chave e novamente acionou a maçaneta. Abriu lentamente, encolhendo-se quando
a porta rangeu, empurrou-a, e eles encararam a escuridão.
- Ali há um corredor. - Seguiu por ele. - Vai dar numa escada. Slaughter apagou
as luzes.
- Mas nós...
- Eu não quero ser alvo de ninguém. Vamos apalpando as paredes. Avançaram
na escuridão. O chão era de cerâmica e fazia um ruído leve sob seus passos
hesitantes. Owens bateu em alguma coisa, gemeu.
- Silêncio!
- É uma mesa.
- Silêncio. Pode haver alguém lá em cima.
Assim, seguiram lentamente pelo corredor, com Slaughter à frente. Não
demorou para que sentisse a madeira e segurasse no corrimão.
- Conseguimos - disse Owens.
Subiram. Lá em cima também estava tudo às escuras, somente o luar, entrando
por algumas janelas, mostrava a porta dianteira e o grande corredor principal. Do
lado de fora, ouviam-se tiros.
- Vamos pelos fundos - disse Slaughter. - Na frente pode haver guardas. Não
cheguei até aqui para ser capturado novamente.
Entraram pelo corredor e passaram pelos escritórios vazios, parecidos com os da
delegacia. Chegando à porta dos fundos, ele parou, olhou primeiro para fora,
depois para os outros, abriu-a e saiu. A lua brilhava.
Gritos, disparos.
- Lá. Meu carro está no pátio, atrás da delegacia. Se tivermos cuidado,
conseguiremos chegar lá.
Slaughter avançava concentrado nos disparos e no estacionamento logo à frente,
quando um homem saiu de trás da folhagem ao lado do tribunal. Seguia-o outra
pessoa. Pensou nas duas crianças que haviam atirado nele naquela mercearia, e
quase ergueu o fuzil para atirar. Mas não tinha razões para matar aqueles dois. Se o
prendessem, tudo bem, fizera o possível. Ficou esperando, com a arma nos braços.
Rettig se aproximou.
- Quase desisti de esperar. Então você percebeu que a coisa era aquela.
- Como você foi tão esperto para pensar nisso?
- Não fui eu. Foi Marge. - Voltou-se para ela, que, agora, se aproximava. -
Lembrou-se do que você falava das celas; de como eram frágeis.
- Ainda bem que não foi ideia sua. Estava com medo de tê-lo julgado mal.
- Muito obrigado.
Slaughter fitou Marge e, depois, estendeu o braço para tocá-la.
- Obrigado. - Notou que ela havia chorado recentemente. - Olhe, aquela mulher,
eu...
- Está tudo bem. - Disse a moça. - Acho que morrer foi a melhor coisa para ela.
O tiroteio e os gritos se intensificaram. Slaughter arregalou os olhos.
- Que diabo está acontecendo?
- É Parsons. Levou todo mundo para o parque de exposições.
- Meu Deus!
- É isso mesmo. Agora estão todos juntos, em campo aberto. Slaughter se voltou
para eles.
- Não sei o que vamos fazer, mas não adianta nada ficarmos aqui. Vamos para lá.
- Eu fico fora - anunciou Owens. Slaughter olhou para ele. - Minha mulher e
meus filhos.
- Não precisa se explicar. Vá. Nós conversamos sobre isso algum dia.
- Claro.
Ambos sabiam que não voltariam a tocar no assunto. Owens hesitou.
- Você disse que esperaria até o pôr-do-sol. Cumpriu a promessa.
- Claro.
Owens olhou para ele, deu de ombros, tentou dizer mais alguma coisa, porém
mudou de ideia e, lentamente, se afastou até desaparecer nas sombras.
Slaughter ficou observando-o.
- Aqui, xerife - disse Rettig. - Pegue outro revólver. Slaughter aceitou.
- E a sua família?
- Meu irmão está com eles. Fizeram as malas esta tarde.
- Acho que isso também era tudo o que Owens queria. - E Slaughter olhou na
direção dos tiros. - Vamos.
- Cuidado ao chegar ao estacionamento. Parsons colocou alguns homens na
delegacia.
- Não vou me anunciar. E você, vem? - Perguntou a Accum.
- Tenho trabalho para fazer. Slaughter fez que sim.
- E você, Dunlap?
- Eu quero ir até o fim.
E Marge estava parada diante dele.
- Se você pensa que vai a algum lugar sem mim, está maluco.
- Talvez todos nós estejamos. E foram para o estacionamento.
95
O grupo que Hammel comandava posicionou-se junto a dois carros que estavam
bloqueando uma rua. Estavam olhando para a multidão que vinha cambaleando em
sua direção, e, talvez por já ter matado um homem, Hammel hesitou. Os outros, no
entanto, não resistiram e começaram a atirar. Olhando a sua volta, Hammel viu
outros vultos que vinham pela rua lateral e lhes apontou o revólver.
- Recuem! Eles estão cercando! - Gritou.
Os homens olharam para a direita e para a frente. Engoliram em seco e, de
repente, começaram a correr rumo ao parque de exposições.

96
Slaughter chegou tarde, ou, de certo modo, bem a tempo. As pessoas, agora,
estavam em pânico, encolhidas entre os estandes, enquanto os disparos ecoavam
cada vez mais perto. Muitos, abandonando seus frágeis abrigos, haviam se
agrupado no campo aberto. Parsons organizara uma linha de homens armados de
fuzis, que estavam olhando atentamente para a periferia do terreno, quando um
grupo de policiais surgiu, recuando, no espaço entre duas casas. Vinham todos
atirando em alvos invisíveis. Pouco depois, começaram a correr em desordem para
o parque. Parsons ordenou que lhes dessem cobertura até que estivessem em
segurança entre eles. Um grupo de civis, também correndo, surgiu numa das ruas
laterais. Pouco depois, outro grupo, igualmente civil, apareceu.
- Suspendam o fogo - gritou Parsons.
Um cachorro, no entanto, foi visto saltando na escuridão, e alguém o matou.
Outros começaram a atirar.
- Droga, suspendam o fogo!
Um terceiro grupo veio correndo em sua direção. Haviam sido civis um dia.
Agora, já nem eram humanos. Vinham rosnando, babando, agitando-se
furiosamente. A fuzilada foi ensurdecedora.
97
A casa estava às escuras quando Owens chegou. Ouviu tiros a duas quadras dali,
viu o carro estacionado na rua. Correu para o portão. Então, alguma coisa se
moveu na escuridão. Voltando-se, viu o cachorro. Subiu os degraus e tentou abrir
a porta, mas estava trancada. O cachorro começou a se aproximar. Chamando a
mulher aos gritos, quebrou a janela e conseguiu abrir a porta por dentro; entrou
precipitadamente, fechou-a e ouviu o arranhar das patas. Vinha da porta dos
fundos.
- Oh, meu Deus, estou completamente cercado!
98
Avançavam tropegamente pela floresta. Agora as árvores começavam a
escassear e o declive se fundia com o plano. Ouviram os disparos no parque e se
apressaram; seu apetite era atormentador.
99
Slaughter dobrou velozmente a esquina com o jipe, a sirene ligada. Viu homens
alinhados, atirando ao longo de toda a rua. Viu as criaturas que se aproximavam,
trôpegas, nas travessas, em sua direção. Desviou o veículo para um terreno,
avançou, derrubou uma cerca, e os homens, atrás dele, continuavam atirando.
Chegando, então, à grande cerca do parque de exposições, saltou acompanhado de
Marge e Dunlap. Parsons correu a seu encontro.
- Você precisa me ajudar.
- Por Deus, você devia ter pensado nisso antes. Os refletores ali em frente.
Acenda-os todos.
E Slaughter sacou a arma.
- Eu não...
- Acenda os refletores. Eles não suportam a luz. Alguém se aproximou e disse:
- Eu faço isso. Sei onde está a chave. E saiu correndo.
Slaughter olhou para os corpos que tombavam sob os tiros e pensou que, afinal,
aquilo podia ser controlado. Mas ouviu algumas pessoas gritando. Estavam
apontando para o campo que se estendia atrás do parque. Olhou para lá e, apesar do
tiroteio, conseguia ouvir. Uivos na floresta. Quando uma nuvem encobriu a lua, ele
apenas teve tempo para ver a floresta em movimento. Dunlap começou a gritar ao
ver os chifres.
100
Rettig ficou incomodado. Vira Slaughter partir, com Marge e Dunlap, em
direção ao parque. Foi para a delegacia, buscar outro revólver. Estava pensando em
Owens. Por que o haviam deixado voltar sozinho à cidade? A mulher e os filhos
não estariam em casa. Ou haviam abandonado a cidade ou estavam no campo de
exposições. Rettig resolveu ir até a casa de Owens. Lá chegando, viu os cachorros
em volta, uivando, rosnando. Viu as janelas quebradas, a porta totalmente
desgastada no lugar onde fora arranhada, e, sem descer do jipe, começou a atirar.
101
Primeiro os chifres, depois apareceram os cervos e, depois deles, os animais
menores todos guiados pelo horror que os possuía. Vinham correndo da floresta,
tomados de pânico, os olhos aterrorizados, vinham com grande estrondo.
Slaughter arregalou os olhos, ouviu Dunlap gemer a suas costas, ouviu os gritos
das pessoas no parque e compreendeu que tudo, até aquele momento, havia sido
apenas uma preparação. Viu chifres, um número incalculável, chocando-se
ruidosamente na floresta, aparecendo acima da vegetação. Ficou paralisado de
pavor. Entendeu que nada pior poderia jamais acontecer e, então, começou a perder
a cabeça. Viu a mata se abrindo num tumulto de criaturas que, rosnando,
avançavam para o parque, cada uma mais horrenda que a outra, todas, parte
homem, parte cervo, parte lobo, gato, urso, dezenas de outras coisas, cada uma, um
bestiário monstruoso. E as partes humanas eram anormais. Faltavam-lhes os
narizes, as orelhas, os dedos, vinham coxeando sobre os membros mutilados.
Slaughter fechou os olhos por um momento. Depois começou a agir.
- Marge, preciso de sua ajuda.
Nem olhou para ver se ela o estava seguindo. Tinha certeza de que o fazia.
Quando o parque não estava em uso, a prefeitura costumava estacionar ali seus
caminhões. Naquela noite, contudo, Slaughter teve a impressão de que os veículos
estavam ali para salvá-los. Viu o caminhão-tanque à sua frente, que parecia ter
estado o tempo todo à sua espera, com o líquido utilizado para eliminar as pragas
das árvores e a palavra INFLAMÁVEL escrita nas laterais. Sabia, também, que
encontraria as chaves na cabine e fósforos embaixo do assento.
- Puxe aquela mangueira lá atrás.
- Mas, Nathan...
- Faça isso. Abra o registro. Quando o caminhão começar a andar, acenda os
fósforos e jogue no líquido.
Duas coisas aconteceram, então, que lhes mostraram que estava agindo
corretamente. A nuvem se afastou. A lua apareceu. Os monstros se agacharam,
ganiram. A seguir, os refletores se acenderam, fazendo aumentar os uivos de
agonia.
Slaughter girou a chave. O motor roncou. Ligou a pressão. Ouviu o líquido
jorrar atrás do veículo, engatou a marcha e saiu. Foi na direção dos monstros, a
toda velocidade.
Eles o viram e avançaram contra ele, o objeto mais próximo para a vingança.
Estava tão excitado que quase se entregou à morte, mas, acalmando-se, colocou
o motor em ponto morto e, sem soltar o volante, pôs-se no estribo. Viu os monstros
mais perto, apontou o caminhão para eles e saltou, rolando no chão. Começou a
correr, sentindo a chama se alastrar no líquido. Sentiu alguma coisa lá atrás, ouviu
um tiro. Mergulhou no chão, e a chama passou por ele e atingiu o caminhão.
Foi como um grande cogumelo explodindo. O fogo subiu muito e se espalhou.
Suas roupas começaram a arder e ele se debateu para apagar as chamas. Choveu
metal à sua volta, e em toda a parte se ouviam os gritos daquelas criaturas
condenadas. Depois, o silêncio.
102
Marge tirou o casaco e, com ele, estava batendo em Slaughter para apagar o fogo
de sua camisa. Sentiu o cheiro da carne queimada, mas sabia que não era de
Nathan, vinha das criaturas lá adiante. E as pessoas se aproximavam para ajudá-la.
Cambaleando e gemendo, Slaughter estendeu os braços para segurá-la. Olhou
para o monstro que quase o agarrara. Estava morto, com um tiro na testa.
- Quem...?
- Eu sirvo para alguma coisa, Slaughter. - Era Parsons, e eles se entreolharam. -
Em todo o caso, você venceu.
Slaughter o encarou.
- Não. Os chifres. Pesadelo meu?
- O quê?
- Os outros, ali adiante.
- Estão mortos.
Slaughter viu os corpos carbonizados.
- Mas o que são eles?
103
Rettig ouviu a explosão perto da feira, mas não teve tempo para imaginar o que
podia ser aquilo. Tinha matado os cachorros que rodeavam a casa. A seguir, entrou
e matou mais um, na escada. Chamou em voz alta, mas não obteve resposta.
Revistou a casa, matou mais um cachorro no segundo andar. Tentou a porta do
banheiro, mas estava trancada. Arrombou-a e encontrou Owens encolhido na
banheira.
- Malditos cachorros. Nunca mais vou tocar em um deles.
104
Estavam olhando, admirados, para os corpos, os chifres presos à cabeça com
tiras de couro. Os monstros usavam peles de urso e de puma - Slaughter pensou no
que vira atrás de seu celeiro -, caudas de lobo, e eram barbudos, cabeludos. Dedos,
orelhas e narizes mutilados.
- Foi o congelamento - alguém disse. - São os hippies da colônia. Dunlap
continuava gemendo.
- Mas o que aconteceu com eles? - Perguntou Slaughter. - Esses chifres, eu não...
- Ninguém vai saber enquanto não descobrirmos onde viviam.
105
Accum observava os corpos que estavam chegando. O trabalho duraria dias e
noites, sim, noites terríveis. Sabia, contudo, que, quando essa tarefa terminasse,
nunca mais voltaria a olhar para a morte. A beleza estava destruída para ele, a
verdade para a qual vivera. Deixaria a cidade. E passaria a cuidar dos vivos.
106
Parsons estava diante da janela de seu escritório.
- Nós podemos lutar um contra o outro ou cooperar nisso - disse Slaughter.
Parsons não olhou. Continuava de costas, olhando pela janela. - Amanhã vai haver
estranhos aqui, a imprensa, o governo, os advogados. Há uma porção de fios soltos
e eu acho melhor acertar o que há entre nós. Eu não o culpo. Estou disposto a achar
que agiu com boas intenções. O mesmo vale para mim. - Parsons continuava
olhando a noite lá fora.
- O problema não terminou ainda - prosseguiu Slaughter. - Quando penso nisso,
acho que precisamos da ajuda um do outro.
Parsons se voltou.
- Não tenho outra escolha.
- Nem eu.
- O que você sugere?
- O parque de exposições foi uma boa ideia. A hora é que foi errada, mas a ideia
foi boa. Podemos manter todo mundo lá enquanto terminamos de revistar as casas.
Agora a população vai cooperar. Todos os animais da cidade vão ter de entrar em
quarentena, mas teremos ajuda de fora para providenciar isso.
- E o gado?
- Não sei. Vamos esperar para ver.
Parsons dava a impressão de já não suportar o peso de seus vinte anos de poder.
- Não vejo como isto tudo pode acabar. E os animais das montanhas?
- Só do lado oeste. Vamos ter de matá-los.
- Isso é impossível.
- Eu sei.
- Basta um animal com o vírus. Se o deixarmos escapar, o ciclo recomeçará.
Isto, considerando que o vírus esteja localizado. Mas e se algum animal o tiver
levado para além das montanhas?
107
Accum estava olhando, pela janela, para a criatura amarrada na cama. Em seu
delírio, ela continuava rosnando, periodicamente, e, apesar de exausto, ele estava
fascinado. Durante toda a noite, enquanto trabalhava com os cadáveres que não
cessavam de chegar, sentira-se incomodado por um pensamento que mal
conseguia formular. A julgar pelo estado daquele integrante da colônia, devia estar
contagiado há um bom tempo. Não entendia como alguém podia ter sobrevivido
tão longamente ao vírus. Agora, observando aquela criatura, começava a pensar
com mais clareza. Devia haver alguma forma de adaptação. Até então, vinha
supondo que o vírus ficava latente durante o coma, para se reativar quando a
vítima recobrasse os sentidos. Mas e se estivesse errado? E se a ressurreição
significasse que o vírus fora morto e apenas restassem seus efeitos? O contágio
poderia se limitar apenas às primeiras horas. Mais que isso, aquela criatura devia
ter no organismo algumas células mortas pelo vírus, cuja reação com os anticorpos
poderia ser o começo de uma vacina. Accum começou a sorrir. Trabalharia para
vencer a morte. Encheu-se de piedade daquela criatura, pensando no inferno por
que devia ter passado.
108
Dunlap sonhou com os chifres de veado.
109
Dois dias depois tudo se lhe revelou, o derradeiro santuário. Foram, em
caminhões e furgões, até o fim das trilhas. Seguiram a pé entre fendas e
desfiladeiros. Depois a velha estrada de ferro, que se dirigia para uma colina. O
trecho central se deteriorara havia anos, mas, perto do final, os dormentes ainda
estavam firmes, e Slaughter começou a subir, com Marge, Dunlap, Rettig,
Hammel, Accum, Parsons e muitos outros. Subiram ao cume varrido pelo vento e
viram um caminho que levava para ainda mais alto. E, no fim desse caminho,
descobriram o segredo.
- Meu Deus, é como há mil anos.
- Muito mais, talvez dez mil anos. Trinta, quarenta.
Estavam diante da Era Glacial. Neve nos altos picos. Haviam chegado a
Motherlode, mas o lugar estava diferente. As cabanas e as estruturas de metal
haviam muito ruído. Em seu lugar erguiam-se toscas cabanas de madeira,
instrumentos de pedra e carcaças podres. As ruas pareciam montes de refugos, e
em toda a parte viam-se os totens, chifres de veado encravados nas rochas, cabeças
de urso enfiadas em grossas estacas, pilhas de ossos, esqueletos arrumados em
estranhos desenhos.
E, ao redor, o vento uivante.
- Eles regrediram. Todos olharam para Accum.
- Mentalmente. Retornaram ao limiar, ao começo das coisas. Eram realmente
como animais.
- E os veneravam. Voltaram-se para Owens.
- É um culto da morte.
- Olhem aqui!
Alguém estava gritando de um túnel.
Slaughter se aproximou, seguido pelos outros.
Viram as pinturas, as cores misturadas com rocha triturada, ocre, preto e verde,
os animais, o urso e o cervo, o antílope saltando em admirável e silenciosa beleza,
e as clavas e as pedras como se estivessem em pleno voo para atingi-los.
- Céus, é maravilhoso.
Percorreram com as lanternas o urso que voltava na primavera, o antílope e o
veado que, quando se viam cercados pelos caçadores, ofereciam voluntariamente
suas vidas para salvar os outros.
Estavam avançando pelo túnel. Slaughter hesitou.
- O que foi? - Perguntou Marge.
- É que, desde que tudo acabou, eu me sinto diferente.
- Melhor?
- Sim, acho que sim. Mas nunca lhe contei. Quando fui para o caminhão, tinha a
sensação de que algo estava me empurrando, de que não tinha controle sobre mim,
estava sendo levado.
- Desculpe, mas eu...
- Eu também não entendo, mas tinha a impressão de já ter feito aquilo há muito
tempo.
Marge ficou olhando para ele, com os olhos muito abertos.
- Parsons.
- Ele fez o que achava que devia fazer. Eu não o culpo. Nada importa.
- Accum.
- Vai embora.
- Owens.
- Nunca mais vai tocar num animal.
- E Dunlap?
- Não! - Eles ouviram gritar em algum lugar no túnel. - Não! Foram até lá e
encontraram a cripta, a câmara mortuária, os corpos que jaziam com armas e
contas, pedaços de comida. Sem dúvida, esperavam que retornassem da morte
como muitos outros haviam retornado do profundo coma do vírus.
- Sem dúvida um culto da morte - disse Slaughter. - Sentiam que não
conseguiam morrer. Continuavam voltando sempre.
- Mas havia os que não voltavam.
Sim, havia esqueletos, mortos recentes servindo de pasto aos vermes, e outros
que bem podiam estar vivos.
O cheiro era insuportavelmente nauseante e lhes penetrava profundamente os
pulmões.
Os homens estavam amordaçados.
- Dunlap?
Ele não estava em parte alguma.
Slaughter viu outra entrada, passou por ela e o encontrou.
E três outras coisas mais.
Percorreu com a lanterna o Corvette vermelho. A incongruência era gritante.
Como conseguiram transportá-lo até ali ou que história maluca Quiller teria
inventado para que seus seguidores o levassem até ali?
Dunlap havia encontrado a sala vermelha, sim, a sala do trono, pois a segunda
coisa que se via ali era Quiller, apodrecendo no banco do motorista, as mãos no
volante para viajar à eternidade e a cabeça, adornada com chifres, voltada para
cima.
Para a terceira coisa.
Dunlap estava olhando fixamente para ela.
Slaughter ergueu a lanterna. Lá em cima, perto do teto, girando, os olhos
redondos, malignos, o enegrecido contorno de um pesadelo, chifres de veado,
cauda de lobo...
Slaughter desviou o olhar. Voltou-se para Dunlap.
- Ei, o quê...?
Mas sabia que agora Dunlap jamais responderia. Estava em outro lugar, em
outro tempo.
Quando Slaughter estendeu as mãos para tocá-lo, Dunlap se afastou, pousou as
mãos no Corvette, ajoelhando-se.
Slaughter olhou para trás. Viu Marge, Accum e os outros.
- Oh, meu Deus!
Mas a exclamação não veio deles ou de Slaughter. Veio de Dunlap.
- Oh, meu Deus!
O eco reverente. Finalmente em paz, ele encontrara sua reportagem.
110
Slaughter estava sentado na varanda. Ouvia, lá dentro, o ruído de Marge na
cozinha e, a seu lado, na cadeira de balanço, via Dunlap, que estava com os olhos
fitos nas montanhas.
- Oh, meu Deus! - Murmurou este, embora já não repetisse tanto estas palavras
agora.
Slaughter bebeu cerveja da lata que tinha na mão, aproximou-se e arrumou a
manta que cobria o jornalista.
- Ei, cara, você vai se resfriar. Quer cerveja? - Dunlap continuou se balançando.
- Tome da minha.
Slaughter estendeu a cerveja, mas Dunlap recusou o líquido que já tinha sido a
razão de sua vida.
Agora ele tem sua religião, pensou Slaughter. Bem, talvez seja melhor assim.
Porque, à sua maneira, Slaughter também tinha a sua. Em paz, finalmente, ele
pensou na vacina que Accum havia desenvolvido. E as duas crianças da mercearia
desapareceram. O vale retornara ao normal. Talvez ainda acontecessem coisas
melhores.
Marge estava parada na porta.
- Como vai indo o Chuí? - Ele perguntou, sorrindo.
- Bem, não sei para que lhe demos fósforo naquela noite. Você certamente
derreteria aquelas barras com essa receita. - Ele começou a rir. - Quanto tempo
Rettig e os outros vão demorar para chegar?
- Meia hora.
- Então nós temos algum tempo.
- Eu ainda não sei como durar tanto. Ele continuava sorrindo.
- Bem, acho que vou ter de lhe ensinar, mas não era bem disso que eu estava
falando. - Ele esperou. - Há uma coisa que ainda não entendi. Por que me escolheu
como ajudante quando você foi para o caminhão?
Ele pensou.
- Acho que você era a única pessoa a quem eu podia confiar a vida. - Calaram-se
por alguns momentos. - Sabe o que significa isso?
- Não tenho certeza - respondeu ela.
- Você confiaria a sua vida a mim?
- Disso eu tenho muita certeza.
- No mês que vem?
- Melhor na próxima semana.
Ela estava sorrindo. Slaughter se aproximou. Do campo, ao lado da casa, ouviu
seus recém-comprados cavalos dando cabriolas. O sol começava a se pôr quando
um coiote uivou nas montanhas.
Dunlap levantou as mãos em oração.
- Oh, meu Deus! - Ouviram-no murmurar.
Fim
Digitalização e revisão: TV CINESOM
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