Competências em Consultoria de RH Digital
Competências em Consultoria de RH Digital
SUPERIOR
DE CONTABILIDADE
E ADMINISTRAÇÃO
DO PORTO
POLITÉCNICO
DO PORTO
f
M MESTRADO
GESTÃO E DESENVOLVIMENTO DE RECURSOS HUMANOS
As Competências na Consultoria de
Recursos Humanos: Desafios da Era
As competências na Consultoria de Recursos Humanos: Desafios da Era Digital
Digital
Andreia Luisa da Gama Carvalho Antunes
VERSÃO FINAL
(ESTA VERSÃO CONTÉM AS CRÍTICAS E SUGESTÕES DOS ELEMENTOS DO
JÚRI)
Andreia Luisa da Gama Carvalho Antunes
11/2020
INSTITUTO
SUPERIOR
DE CONTABILIDADE
E ADMINISTRAÇÃO
DO PORTO
POLITÉCNICO
DO PORTO
M MESTRADO
GESTÃO E DESENVOLVIMENTO DE RECURSOS HUMANOS
As Competências na Consultoria de
Recursos Humanos: Desafios da Era
As Competências na Consultoria de Recursos Humanos: Desafios da Era Digital
Digital
Andreia Luisa da Gama Carvalho Antunes
11/2020
ii
Agradecimentos
Tenho de agradecer em primeiro lugar à minha família. Muito obrigada ao meu marido,
que durante estes dois anos fez um enorme esforço para me ajudar na gestão familiar,
escolar e profissional. Vítor, obrigada por estares sempre ao meu lado e por nunca me
teres deixado desistir.
Às minhas filhas, que apesar de serem pequeninas, sentiram muito a minha falta.
Obrigada pelos abraços e sorrisos reconfortantes. Matilde e Maria, nunca se esqueçam:
Conseguimos tudo! Somos fortes! Lutem sempre pelos vossos objetivos, mesmo quando
parece difícil superar os obstáculos.
À minha mãe que me deu todo o apoio na logística familiar e sempre me motivou para
continuar. Apesar de todas as adversidades, esteve sempre aqui. À minha irmã, por me
ter apoiado incondicionalmente nesta nova aventura.
A todos os que participaram neste estudo, porque sem eles esta investigação não seria
possível. Pela disponibilidade, pelo profissionalismo, pela partilha de experiências e pela
energia positiva partilhada.
Às minhas orientadoras, Professoras Doutoras Dora Martins e Susana Silva, obrigada pela
dedicação ao longo de todo o mestrado e, em particular pelo apoio durante este ano.
Durante estes dois anos aprendi muito com os meus colegas, a quem agradeço a partilha
das suas experiências. Um especial obrigada ao André e à Filipa, pois estiveram sempre
lá! Ainda bem que tive oportunidade de vos conhecer e muito obrigada por todo o
companheirismo e amizade.
Aos meus companheiros de jornada profissional, muito obrigada pela ajuda, pela
disponibilidade, pela partilha, pelas jornadas de apoio muitas vezes pela noite dentro.
Obrigada por me apoiarem! Obrigada por me ajudarem a manter a sanidade em tempo de
guerra.
Aos que estiveram sempre lá…Muito obrigada! Não teria páginas suficientes para
agradecer a todos os que me apoiaram e que sempre acreditaram em mim.
A todos…Muito obrigada!
iii
Resumo:
O ano de 2020 foi marcado pela pandemia da Covid-19, o que obrigou a mudanças
radicais na forma de trabalhar, o que impulsionou um salto tecnológico de 5 a 10 anos. O
desafio está lançado para o setor de Consultoria de Recursos Humanos: adaptar a sua
cultura corporativa à transformação digital e criar um compromisso permanente com a
inovação e transformação.
Por fim, são identificadas algumas limitações do estudo e apresentadas sugestões para
pesquisas futuras.
iv
Abstract:
The main goal of this research is to contribute to the characterization of the Human
Resources consulting sector and explore the perception of Human Resources consultants
regarding the challenges posed by the digital Era to the skills level required in their scope
of influence.
The year of 2020 was marked by the Covid-19 pandemic, which forced radical changes
in the way of working and in the Portuguese market which drove a technological leap of
5 to 10 years. The challenge is launched for the Human Resources Consulting sector:
adapt its corporate culture to digital transformation and creating a permanent commitment
to innovation and transformation.
Finally, some limitations of the study are identified and suggestions for future research
are presented.
v
Índice
Capítulo II – Metodologia......................................................................................... 38
vi
Índice de Figuras
Figura 1: As Revoluções Industriais ............................................................................ 20
Figura 2: Recursos Tecnológicos da Indústria 4.0........................................................ 21
Figura 3: Competências e Habilidades da Era Digital .................................................. 30
Figura 4: Categorias e subcategorias da dimensão Consultoria de Recursos Humanos . 49
Figura 5: Categorias e subcategorias da dimensão Competências ................................ 59
vii
Índice de Tabelas
viii
Lista de abreviaturas
RH – Recursos Humanos
ix
CAPÍTULO - INTRODUÇÃO
1
As organizações atuam em ambientes de negócio voláteis, incertos, complexos e
ambíguos (VUCA), com frequentes mudanças e inovações tecnológicas que resultam das
revoluções industriais que decorreram ao longo dos séculos (Llop et al., 2017; Maior,
2016). Vivemos numa profunda transformação digital, caracterizada pela acelerada
evolução da tecnologia e multiplicidade de inovações tecnológicas disponibilizadas
(Chulanova, 2019; Hecklau et al., 2016).
O ambiente VUCA não é uma realidade que possa ser combatida ou que vá desaparecer.
É o novo quadro de referência que obriga as organizações a ajustarem-se e competirem
entre si para alcançarem o sucesso (Dries, 2013; Llop et al., 2017). Neste contexto,
marcado pela globalização, competitividade do mercado e avanço tecnológico, os
profissionais de consultoria de Recursos Humanos são desafiados a responderem de
forma eficaz às mudanças (Almeida, 2007).
O impacto da Indústria 4.0 vai para além da simples digitalização, passando por uma
forma muito mais complexa de inovação na combinação de múltiplas tecnologias, que
forçará o setor de consultoria de Recursos Humanos a repensar como gerem os seus
negócios e processos; como se posicionam na cadeia de valor; como pensam no
desenvolvimento de novos produtos e serviços e os introduzem no mercado (Almeida,
2007; Ferreira & Martins, 2018).
Na Era digital, o sucesso das organizações pressupõe a eficácia na gestão dos seus
recursos, sabendo que a mesma é complexa, em constante mutação e inovação. Exige,
assim, que a estratégia adotada pelos profissionais de Recursos Humanos ofereça uma
proposta de distinto valor, num mercado de trabalho cada vez mais globalizado
(Armstrong, 2014; Martins et al., 2019).
2
estejam capacitadas para aceitar e ultrapassar os desafios emergentes (Ferreira & Martins,
2018; Pereira, 2018).
Por esta razão, o presente estudo pretende contribuir para a caracterização do setor de
consultoria de Recursos Humanos, identificar os desafios relacionais e técnicos dos
profissionais decorrentes da transformação digital e, por fim, identificar as competências
exigidas aos consultores de Recursos Humanos nesta Era digital.
Esta investigação debruça-se sobre um tema ainda pouco explorado na literatura, sendo a
informação bastante escassa no que diz respeito aos desafios que o setor de consultoria
enfrenta nesta na Era digital, tal como, no que diz respeito às competências a considerar
como resposta para esta transformação. Tendo em conta este lapso de informação,
propomo-nos a dar resposta à seguinte questão: Quais os desafios dos Consultores de
Recursos Humanos decorrentes da transformação digital?
Posto isto, este estudo está subdividido em cinco capítulos. No primeiro capítulo é
apresentado o enquadramento teórico, fazendo alusão à evolução do conceito de
competência e as suas tipologias. É também explorado o conceito, contexto e
competências da Era digital e, ainda, um enquadramento do setor de consultoria de
Recursos Humanos.
Nos capítulos três e quatro debruçamo-nos sobre os resultados obtidos, a sua apresentação
e discussão. Por fim, no capítulo cinco desenham-se as principais conclusões e
contributos desta investigação, identificam-se as limitações encontradas e definem-se
orientações para investigações futuras.
3
CAPÍTULO I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO
4
Este capítulo tem como objetivo apresentar um breve enquadramento e explicar conceitos
do presente estudo, servindo assim de suporte teórico para a investigação. Será explorado
a evolução do conceito de competência e as suas dimensões, a caracterização da era digital
e os desafios inerentes e, por fim o setor de Consultoria de Recursos Humanos.
1.1 Competências
O movimento em torno das competências teve início nos Estados Unidos da América no
final dos anos 60 e início dos anos 70, com McClelland (1973). McClelland (1973),
reconhecido como impulsionador do debate sobre a temática da competência, levou a
cabo uma investigação que rompeu com a análise tradicional do trabalho típico do modelo
taylorista, que se centrava nas atitudes e comportamentos e não na análise, descrição e
qualificação de funções (Pedro, 2014).
5
Contrariamente ao defendido por McClelland (1973), Boyatzis (1982:21) definiu
competências como “uma característica subjacente a um indivíduo de que resulta um
desempenho profissional médio ou superior”, e pode ser traduzida como motivações,
traços de carácter, autoconceito, atitudes, valores, conhecimentos, aptidões cognitivas e
comportamentais (Camara, 2017; Fleury & Fleury, 2001; Pedro, 2014). Boyatzis (1982)
adiciona, assim, uma vertente extrínseca ao conceito anterior, uma vez que considera que
a competência para a função provém de características inatas de um indivíduo, associadas
a uma performance profissional superior e manifesta-se através de resultados específicos,
com ações particulares, mediante o contexto onde está envolvido (André & Rodrigues,
2014).
Le Boterf (1995), por sua vez, dá um novo contributo ao conceito de competência a partir
de uma abordagem claramente construtivista, sublinhando a existência de recursos que
influenciam a competência (socialização, formação académica e experiência
profissional). Neste sentido, apesar de estar relacionada com o contexto profissional,
verificamos, desta forma, que a competência ultrapassa diferentes esferas da vida dos
sujeitos, sendo um elemento dinâmico, que recebe diversos contributos ao longo da vida
(Fleury & Fleury, 2001). Na perspetiva de Le Boterf (1995) destacam-se os resultados da
competência no contexto profissional, nomeadamente o valor acrescentado que resulta
desta, ou seja, a mobilização, a integração e a transferência de recursos (conhecimentos,
capacidades e habilidades).
6
Fleury & Fleury (2001) defendem um conceito mais amplo relacionado com um saber
agir responsável e reconhecido, que implica mobilizar, integrar, transferir conhecimentos,
recursos e habilidades que agreguem valor económico à organização e valor social ao
indivíduo. Por sua vez, Zarifian (2003), estudioso da corrente francesa, entende as
competências como uma forma de inteligência prática, que transforma os conhecimentos
adquiridos em respostas a situações concretas e de complexidade distinta. Zarifian (2003)
confere uma forte inovação nas suas conceptualizações, uma vez que reconhecem a
influência da envolvente, quer seja pelas características do contexto, quer pelos recursos
disponíveis aos indivíduos.
A corrente teórica anglo-saxónica (e.g. Boyatzis, 1982; McClelland, 1973; Spencer &
Spencer, 1993) e a corrente francesa (e.g. Le Boterf, 1995; Zarifian, 2003), apresentam
uma perspetiva individual das competências aplicadas ao nível das organizações (do
individual ao coletivo), mas diferem na sua conceção. Isto é, a corrente anglo-saxónica
(e.g. Cascão, 2014; Ceitil, 2016; Ulrich et al., 2008) atribui os resultados ou desempenhos
organizacionais em função dos comportamentos isolados dos indivíduos (abordagem
comportamental) estabelecendo uma relação causal entre as características individuais e
o superior desempenho. Por sua vez, a corrente francesa, centrada na abordagem
construtivista (e.g. Boterf, 2003; Fleury & Fleury, 2001; Perrenoud, 2013; Zarifian, 2003)
visa identificar as competências e os processos, associando a competência às realizações
do indivíduo em contexto de trabalho, ou seja, aquilo que o indivíduo realmente produz
7
ou realiza. As duas correntes são, portanto, assentes na convergência das competências
individuais e das necessidades do contexto. No entanto, ambas dão enfase ao contexto e
à ação em que é observada a competência.
8
A competência é manifestada nas ações e comportamentos e é indissociável da
atividade. Está relacionada com o desempenho, resultados alcançados e com
Cascão (2014) situações específicas (contextual e contingente). É observável, reconhecível e
avaliável. Constitui um processo estruturado, mas simultaneamente dinâmico
e mutável e está relacionada com os conhecimentos.
Competência traduz-se na capacidade de o indivíduo mobilizar saberes
adquiridos (qualificação), nas experiências profissionais, nas diferentes
Pedro (2014) trajetórias profissionais e em práticas de socialização adquiridas durante o
percurso da vida, a fim de resolver problemas que emergem da prática do
trabalho.
Modalidades estruturadas de ação, requeridas, exercidas e validadas num
Ceitil (2016) determinado contexto.
Júnior, Buzatto, Competência consiste no conhecimento e capacidade de avaliar determinada
Medeiros & situação e ter um desempenho acima do desejável, através da mobilização de
Heinzmann (2017) recursos e interpretação do indivíduo.
Conjunto de qualidades e comportamentos profissionais que mobilizam os
conhecimentos técnicos e comportamentos profissionais que mobilizam os
Camara (2017) conhecimentos técnicos e que permitem agir na solução de problemas,
estimulando desempenhos profissionais superiores, alinhados com a orientação
e estratégia da organização.
Conjunto de conhecimentos, recursos e habilidades que um indivíduo possui
El Asame & para realizar uma atividade específica, ou seja, um indivíduo é competente se
Wakrim (2018) for capaz de mobilizar todos os recursos pessoais e da envolvente para realizar
uma determinada tarefa, numa situação concreta.
Os nossos comportamentos são o reflexo das nossas competências individuais
Gonerak, Spindler
que, por sua vez, resultam da junção de três dimensões: formação, know-how
& Brumen (2019) e experiência.
Tabela 1: Conceitos de Competência
O conceito de competência advém do que, até então, era utilizado comummente como o
termo de qualificação, o qual surgiu após a II Guerra Mundial, como consequência das
novas exigências de modernização do tecido produtivo, dos impulsos gerados pelo
taylorismo e pela emergência de novas formas de gestão do trabalho e do trabalhador
(André & Rodrigues, 2014; Fleury & Fleury, 2001; Pedro, 2014; Perez, 2005).
Qualificação não é um conceito estático, mas, pelo contrário, tem evoluído no decorrer
da história, e assenta no paradigma da identificação da qualificação com a atividade de
trabalho e a sua complexidade, ou seja, há uma correspondência entre o grau de
complexidade das tarefas e as competências mobilizadas pelos trabalhadores na
realização do seu trabalho (André & Rodrigues, 2014; Fleury & Fleury, 2001; Pedro,
2014).
9
percebe-se que não há uma oposição entre as noções de competência e de qualificação
profissional. Competência traduz-se na capacidade de o indivíduo mobilizar saberes
adquiridos, isto é, mobilizar a qualificação, nas experiências profissionais, nas diferentes
trajetórias profissionais e em práticas de socialização adquiridas durante o percurso da
vida, a fim de resolver problemas que emergem da prática do trabalho (André &
Rodrigues, 2014; Fleury & Fleury, 2001; Perez, 2005; Zarifian, 2003).
A diversidade de sentidos, inerentes às diferentes conceções sobre o que são e não são as
competências, conduzem a que existam intervenções e sistemas muito diferenciados,
suportados por metodologias e instrumentos igualmente diferentes e, portanto, com
consequências e resultados distintos (André & Rodrigues, 2014; Ceitil, 2016).
10
De acordo com Camara (2017) e Ceitil (2016), competence consiste nos outputs medidos
a nível de desempenho profissional do indivíduo, comportamentos e ações que são fáceis
de observar e monitorizar e competency está relacionado com os inputs que o indivíduo
traz para a atividade, isto é, o seu contributo para um desempenho superior (valores,
autoconceito, traços de personalidade e motivações). Em linha com os argumentos de
Camara (2017) e Ceitil (2016), Armstrong (2014) refere que competency está relacionado
com a pessoa (person-related concept) e as suas características. Por sua vez, o conceito
de competence está relacionado com o trabalho (work-related competence), referindo-se
às áreas de trabalho nas quais o indivíduo é competente.
De acordo com a abordagem anglo-saxónica (Almeida & Rebelo, 2011; Maior, 2016), o
conceito de competência divide-se em duas dimensões, em outras palavras, as
competências hard (as competências essenciais caracterizadas pelos conhecimentos e
habilidades que um indivíduo precisa para ser eficaz no seu trabalho) e competências soft
(a perceção que um indivíduo tem do seu “eu” enquanto líder ou membro de um grupo,
os traços de personalidade que contribuem para um determinado comportamento e as
motivações que correspondem às forças interiores, recorrentes e que geram os
comportamentos no trabalho). Nesta dicotomia, as competências hard são fundamentais
para que o indivíduo seja considerado competente no seu trabalho, enquanto as
competências soft permitem diferençar as performances inter individuais (Almeida &
Rebelo, 2011; Maior, 2016).
Por outro lado, a abordagem francesa das competências (Almeida & Rebelo, 2011; Maior,
2016) distingue o saber-saber (savoir-savoir), que se traduz na dimensão teórica das
competências; o saber-fazer (savoir-faire), que corresponde às competências de caráter
prático, e (3) o saber-ser (savoir-être) que abrange as competências sociais e
comportamentais.
11
associadas com o sucesso do indivíduo no trabalho” (Cascão, 2014, p.31). Esta avaliação
de incidentes críticos, baseia-se no pressuposto de que o que as pessoas dizem ou fazem
relativamente às suas competências ou motivações, pode não ser totalmente verdade.
Apenas a forma como se comportam perante os incidentes críticos, é que transmite
credibilidade (Rego et al., 2015).
12
desenvolvimento de competências. Considera que as competências são características
intrapessoais dos indivíduos, representando as capacidades que estes poderão ter (Ceitil,
2016).
McClelland (1973), (citado por Ceitil, 2016, p.29), defende a perspetiva das competências
enquanto características pessoais, referindo que “o melhor preditor para aquilo que uma
pessoa é capaz de fazer e irá fazer no futuro, é aquilo que ela espontaneamente pensa e
faz numa situação não estruturada – ou então aquilo que ela já fez em situações
semelhantes no passado”.
13
1) O saber agir, que pressupõe o saber combinar e mobilizar recursos pertinentes, tais
como conhecimentos, saber fazer;
2) O querer agir, referente à motivação e ao compromisso pessoal do sujeito;
3) O poder agir que remete para a existência de um contexto, de uma organização do
trabalho, de condições sociais que tornam possíveis e legítimas o assumir de
responsabilidade por parte do sujeito.
Decima (2001 citado por Maior, 2016) corrobora com a perspetiva de Le Boterf (2006),
promovendo um melhor entendimento da sua aplicabilidade na prática:
McClelland (1973, citado por Maior, 2016) evidenciou que há certos tipos de
competências que se apresentam como fundamentais para o desenvolvimento de uma
tarefa de forma eficaz e, consequentemente, para o sucesso do colaborador e da
organização. Apresenta, assim, cinco dimensões das competências:
14
5) Motives: são os comportamentos que o indivíduo adota no local de trabalho para a
concretização de uma determinada tarefa, mobilizando as forças internas capazes
de gerar a ação.
Para Ceitil (2016), as competências são definidas em função do contexto de trabalho onde
são postas em prática e, desta forma, constituem uma união integrada de todos os seus
componentes no desempenho de uma determinada função.
15
existindo, em alguns casos, uma hierarquização de tipologias, o que nos permite avocar a
existência de uma relevância distinta entre competências no contexto da organização
(Fleury & Fleury, 2001; Maior, 2016).
Por outro lado, Prahalad & Hamel (1990) apenas consideraram as competências
essenciais, explicando que estas são as que oferecem os benefícios reais aos clientes e que
são difíceis de imitar, abrindo assim as portas de vários mercados.
Spencer & Spencer (1993), por sua vez, apresentam as competências quanto à sua
tipologia agrupadas em dois conjuntos. Um diz respeito às competências básicas, isto é,
as que são essenciais para que se consiga ser minimamente eficaz em qualquer trabalho.
No outro conjunto, inserem-se as competências distintas, que são as que distinguem o
desempenho de um indivíduo face aos restantes.
Decima (2001), citado por Fleury & Fleury (2001), apresentou as competências em três
grupos. Num deles, as competências são individuais, resultantes da combinação de
saberes construídos. Num outro, as competências são coletivas, por se constituírem num
grupo organizado das competências individuais. No terceiro grupo estão as
organizacionais, que são construídas com base na história da empresa, cultura e valores,
da combinação de saberes individuais e coletivos e ferramentas de gestão de recursos
humanos.
Neves et al. (2006) defendem que um indivíduo deve possuir um vasto leque de
conhecimentos técnicos altamente especializados, bem como reunir um conjunto de
16
competências pessoais e interpessoais. Deve, também, dominar uma panóplia de
competências instrumentais mais especificas.
Assim, para Neves et al. (2006), as competências podem ser divididas em três grandes
grupos: competências pessoais (competências em que o indivíduo é o interveniente
determinante no seu funcionamento e aplicação), competências interpessoais
(competências nas quais o indivíduo ou o grupo tem um papel específico, influenciado
pelas características estruturais de cada organização) e competências instrumentais
(embora possuam um valor intrínseco por serem transferíveis para variados domínios da
vida pessoal e profissional, constituem-se como instrumentos fundamentais de outputs
considerados essenciais). Os mesmos autores (Neves et al., 2006) defendem que possuir
competências para gerir recursos, informação ou para usar tecnologia são insuficientes
para garantir um desempenho de sucesso nas atuais organizações. É importante, também,
dominar um conjunto de outras competências mais de natureza comportamental.
De acordo com Cascão (2014), verifica-se com alguma frequência a presença das
competências distintivas nos respetivos sistemas de competências. No entanto, as
transformacionais e as transversais são que mais se encontram nos modelos das
competências, pois são a chave de melhoria nas organizações e a criação de uma cultura
de competência.
17
As competências podem ser divididas em transversais e específicas (Ceitil, 2006). As
competências transversais são as mais requeridas universalmente e que devem existir
mesmo em contextos mais amplos e diversificados. As competências específicas são as
requeridas para atividades ou contextos mais específicos, por norma associadas aos
domínios técnicos e instrumentais.
Camara et al. (2013) defendem que as competências identificadas numa organização são,
por norma, divididas em clusters, consoante a sua natureza. Estes clusters reúnem um
conjunto de competências que têm especial enfoque na área da liderança e gestão, no
domínio técnico e no domínio comportamental. As competências de liderança e gestão
englobam as competências de visão e alinhamento estratégico, de comunicação,
garantindo o envolvimento. Os líderes detentores destas competências demonstram ser
promotores de mudança com coragem, determinação e credibilidade (Camara et al.,
2013).
Para Camara (2017), num sentido mais amplo, as competências podem ser consideradas
genéricas e específicas. As genéricas ou core competences estão essencialmente
associadas à estratégia, missão e valores da organização. Englobam as competências que
são transversais a toda a organização, ou seja, são aplicadas a todos os colaboradores e
são nomeadas pelos gestores de topo, os quais devem identificar as competências que
consideram mais importantes para o sucesso da organização e, por essa, razão, desejáveis
em todos os colaboradores da organização (Camara, 2017). As competências específicas
são as que se reportam a uma função ou família de funções, ou seja, por áreas de expertise
(Camara, 2017). Idealmente, o perfil de uma função deve ser composto quer por
competências genéricas, quer por competências específicas devendo ainda incorporar o
grau de exigência de cada uma das competências integradas no perfil da função (Camara,
2017).
18
De acordo com Fleury & Fleury (2001), as diferentes tipologias de competências surgem
no âmbito da perspetiva que vê as organizações como um portefólio de recursos de
diversas naturezas, uma perspetiva estratégica que se concentra nas empresas e no facto
de estas terem nos seus recursos humanos uma vantagem competitiva. O que a literatura
nos sugere (e.g. Fleury & Fleury, 2001; Maior, 2016) é que as organizações possuem
diversas competências, que lhes conferem a vantagem competitiva que necessitam no
mercado, do qual, cada vez mais, se exige a definição de uma visão mais estratégica sobre
as organizações, baseada em recursos e competências (Fleury & Fleury, 2001; Maior,
2016).
A primeira revolução industrial, que teve início no final do século XVIII, ocorreu em
Inglaterra com a introdução da máquina a vapor e de novas técnicas de produção. Esta
revolução é caracterizada pela transição dos métodos de produção artesanal para
processos de produção mecanizados (Araujo et al., 2020; Santos & Alberto, 2018).
A terceira revolução surgiu em meados dos anos 50 do século XX e foi muito mais além
de uma transformação industrial. Com esta revolução assistimos a avanços significativos
no uso da eletrónica e tecnologia de informação e, também na evolução consistente na
ciência e robótica (Araujo et al., 2020; Santos & Alberto, 2018).
Desde o início do século XXI que estamos a viver a fase de transição da terceira para a
quarta revolução industrial, também conhecida por Indústria 4.0 ou Revolução 4.0. Este
termo é usado para definir a quarta revolução industrial que se refere a uma variedade de
19
mudanças e inovações tecnológicas que têm estado a ocorrer desde o início do século
XXI (K. Armstrong et al., 2018). Trata-se de uma revolução com efeitos potencialmente
profundos e transformadores sobre a economia e a sociedade, pelo que não pode ser visto
como um conceito futurista, mas sim uma realidade que começa a ter efeitos nos
indicadores operacionais das organizações (Hermann et al., 2015; Schwab, 2016).
A origem do termo quarta revolução industrial pode ser atribuída à ideia de Indústria 4.0,
usada pela primeira vez na Feira de Hannover de 2011 e, posteriormente, identificado
pelo governo alemão como um dos dez projetos futuros do seu plano de ação da estratégia
2020 “The new High Tech Strategy Innovations for Germany” (Gerlach, 2018).
De acordo com Schwab (2016), “velocidade”, “alvo” e “impacto nos sistemas” são as três
razões pelas quais as transformações atuais representam não apenas um prolongamento
da terceira revolução industrial, mas também a chegada de uma quarta e distinta revolução
(Araujo et al., 2020; Schwab, 2016).
20
A aceleração da inovação e a velocidade da disrupção são difíceis de compreender ou de
antecipar e constituem uma constante fonte de surpresa, mesmo para os mais informados
(Schwab, 2016). Já há, em todos os setores, provas de que as tecnologias que sustentam
a quarta revolução industrial estão a ter um grande impacto nas interações e formas de
trabalhar nas organizações, como elas constroem, gerem e mantêm os relacionamentos
com os clientes (Christidis et al., 2018; Chulanova, 2019).
21
A Inteligência Artificial é uma das ciências mais recentes, com início após a segunda
Guerra Mundial. Alan Turing (1950), foi o primeiro a articular uma visão da Inteligência
Artificial no artigo “Computing Machinery and Intelligency” (Gomes, 2010; Mathur,
2019).
Gomes (2010) e Leong (2018) referem que a Inteligência Artificial permitirá que os
computadores desenvolvam comportamentos inteligentes, ajudem na tomada de decisão
e pesquisam informações. As utilidades cognitivas da Inteligência Artificial podem,
assim, aumentar e melhorar o trabalho humano através do processamento de linguagem
natural, da aprendizagem e da visão das máquinas.
O termo Big Data é caracterizado por 5 dimensões, as quais são denominadas de “5Vs”:
Volume: satisfação, acessibilidade aos dados; Variedade: diversidade de fontes e tipos
de dados; Velocidade: tempo de acesso à informação e a tomada de decisão; Veracidade:
confiança na exatidão apresentada pelos dados; e Valor: o que as informações melhoram
nos resultados, valor financeiro utilizado para conseguir obter dados com um bom nível
de qualidade (Carty, 2014; Mendonça et al., 2018).
22
De acordo com Mendonça et al. (2018), a Big Data tem vindo a progredir devido à sua
utilização enquanto ferramenta de análise que fornece resultados e informações úteis para
a tomada de decisão e definição de estratégias. Ao aplicar processos de Big Data, a análise
preditiva dos dados pode mudar a atuação dos colaboradores e a estratégia das
organizações (Carty, 2014).
A Internet of Things (IoT), ou traduzido Internet das Coisas (IdC), é o termo utilizado
para designar a conectividade entre vários tipos de objetos do dia-a-dia sensíveis à
internet, desde eletrodomésticos, carros, roupas, sapatos, remédios, etc., com sensores
capazes de captar aspetos do mundo real e enviá-los a plataformas que recebem estas
informações e as utilizam de forma inteligente, moldando uma rede de objetos
interligados (Martins et al., 2019). Conceptualmente é a possibilidade de conectar o
mundo físico com o mundo digital através da internet. Assim, será possível registar dados
ligados às nossas ações de maneira mais assertiva e usar essas informações a nosso favor,
de forma a integrar processos, serviços e aplicações (Martins et al., 2019).
Accenture, em parceria com o The Economist Intelligence Unit, realizou o estudo CEO
Briefing 20151, no qual explorou a perspetiva de 1400 executivos sobre a Internet of
Things (IoT). A maioria dos 50 executivos portugueses inquiridos, reconhece o impacto
positivo da IoT na economia como nas organizações e admitem redirecionar o seu
investimento para superar os principais desafios do investimento digital.
Realidade Virtual, Realidade Aumentada ou Realidade Mista está a mudar a forma como
as pessoas percebem e interagem com o mundo digital, o que origina uma mudança
fundamental na experiência do indivíduo (Panetta, 2017).
De acordo com Tori et al. (2006), Realidade Virtual pode ser definida como um ambiente
simulado, com o qual as pessoas interagem e emergem, ou seja, têm a possibilidade de
imergir num mundo virtual, em tempo real, uma vez que este é modificado consoante as
reações e movimentos dos indivíduos. É, portanto, uma simulação artificial, gerada por
computador ou a recreação de um ambiente ou situação real da vida. O utilizador é
1
CEO Briefing Portugal 2015 | A Internet das Coisas como impulsionador da estratégia das
empresas portuguesas - [Link]
23
submetido a uma experiência imersiva, fazendo com que este sinta a experiência na
primeira pessoa, através da estimulação visual e auditiva do dispositivo, sentindo-se mais
perto da realidade (Pereira et al., 2013).
De acordo com Tori et al. (2006), a Realidade Aumentada permite que o utilizador veja
o mundo real com objetos virtuais sobrepostos ou combinados com ele, ou seja,
suplementa a realidade sem a substituir completamente.
É, portanto, uma tecnologia que cria camadas invisíveis geradas por software sobre
superfícies ou objetos existentes no mundo real, permitindo torná-la mais significativa e
permitindo a interação com a mesma (Pereira et al., 2013).
Em suma, a realidade virtual oferece uma recreação digital de um ambiente de vida real,
enquanto a realidade aumentada disponibiliza elementos virtuais como uma sobreposição
ao mundo real (Pereira et al., 2013; Tori et al., 2006).
Milgram e Kishino (1994) introduziram o conceito de Realidade Mista, dizendo que esta
se situa no espetro entre a Realidade Virtual e a Realidade Aumentada. A Realidade Mista
consiste na fusão do mundo real com o virtual para produzir novos ambientes e formas
de visualização em que os objetos físicos e digitais coexistem e podem interagir em tempo
real. E, para isso, é necessária a combinação do poder de processamento computorizado
com a intervenção humana e ambiental, de forma a garantir que o movimento no mundo
físico é transposto para o universo digital (Rodello et al., 2010).
24
Como as revoluções que a precederam, a Quarta Revolução Industrial tem o potencial de
elevar os níveis de proveito e melhorar a qualidade de vida das populações em todo o
mundo (Schwab, 2016). As economias mais industrializadas e dependentes de mão-de-
obra intensiva são as que mais beneficiam da transformação digital, caracterizada pela
fusão conceptual de tecnologias que encurtam a fronteira entre os sistemas físico, digital
e o ser humano (Martins et al., 2019).
Correia & Deus (2016), defendem que a 4ª revolução industrial está focada na
digitalização de processos e integração em ecossistemas digitais. Gerar, analisar e
comunicar a informação é fundamental para comprovar os ganhos resultantes da
revolução 4.0.
Do lado da oferta, muitas empresas assistem à introdução de tecnologias que criam novas
formas de suprimir as necessidades existentes, perturbando significativamente a cadeia
de valor. Já do lado da procura, as empresas necessitam de mudar o modo como projetam,
vendem e entregam o seu produto promovido por um maior envolvimento por parte do
consumidor e também pelos novos padrões de comportamento (Schwab, 2016).
De acordo com Schwab (2016), estamos, atualmente, perante uma revolução tecnológica
que alterará fundamentalmente a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos
uns com os outros. Bitkom et al. (2016), definem esta revolução como sendo a mais
disruptiva e transformadora da humanidade, que compreende a ligação entre as várias
tecnologias digitais, físicas e biológicas.
25
A transformação resultante da quarta revolução será diferente de qualquer outra
transformação vivida. Desconhece-se, ainda, como se vai desenrolar, mas antevê-se a
necessidade de uma resposta integrada e abrangente, envolvendo todas as partes
interessadas da política global, dos setores público e privado ao meio académico e à
sociedade civil (Schwab, 2017).
De acordo com Marques & Cayolla (2018), o futuro não será o tema de decisão
relativamente às profissões, mas sim a necessidade de escolher as competências e as
habilidades que urgem serem aprendidas e desenvolvidas ao longo da vida.
Chulanova (2019) considera que a Indústria 4.0 irá criar uma série de oportunidades para
o desenvolvimento dos Recursos Humanos, nomeadamente o aumento da produtividade,
a redução de perdas de produção e o seu uso racional devido à introdução das tecnologias
e a passagem de tarefas perigosas e repetitivas para máquinas e robots, constituindo assim
um posicionamento mais propício para alcançar mercados anteriormente inacessíveis.
Uma das vantagens trazidas pela Indústria 4.0, de acordo com Götz & Jankowska (2017)
é o combate às alterações demográficas da população ativa e na prossecução do equilíbrio
entre a customização e a produção em massa. No entanto, a literatura (e.g. Chulanova,
2019; Gray, 2016a; Schwab, 2016) defende que muitos desafios e riscos aparecerão com
o desenvolvimento da Indústria 4.0.
26
A proteção de dados e a segurança informática, adaptação dos recursos humanos às novas
condições e altas taxas de mudança tecnológica, o risco de desaparecimento de algumas
das profissões existentes atualmente e o aparecimento de novas funções ou áreas
profissionais, bem como a necessidade de ajuste de competências e conhecimento,
constituem alguns dos desafios e riscos desta Era (Benešová & Tupa, 2017; Chulanova,
2019; Leopold et al., 2018).
A este respeito, recentemente Zahidi (2020) sublinhou que o contexto da Indústria 4.0
será marcado pela robótica avançada, pelo transporte autónomo, pela Inteligência
Artificial e aprendizagem mecanizada. Estes desenvolvimentos trarão, como
consequência, desenvolvimentos que vão transformar a maneira como vivemos e a forma
como trabalhamos.
No relatório do World Economic Forum intitulado “The 10 skills you need to thrive in the
Fourth Industrial Revolution”, Gray (2016b), dá uma perspetiva do emprego, estratégia
de trabalho e elenca as dez competências mais críticas para o futuro do trabalho: (1)
resolução de problemas complexos, (2) pensamento crítico, (3) criatividade, (4) gestão de
pessoas, (5) trabalho de equipa, (6) inteligência emocional, (7) tomada de decisão, (8)
orientação para o cliente, (9) negociação e (10) flexibilidade cognitiva.
27
complexos pressupõe usar a análise para tomar decisões e implementar soluções (Gray,
2016a; Martins et al., 2019).
De acordo com Martins et al. (2019), outra competência basilar é a gestão de pessoas. Um
gestor de sucesso tem a capacidade de identificar talentos, motivar e desenvolver pessoas,
sendo essencial para o crescimento da organização. Tradicionalmente considerada uma
competência exclusiva dos profissionais de recursos humanos, mas que atualmente é
responsabilidade transversal a todos os gestores, que inclui a capacidade de motivar, atrair
e desenvolver pessoas.
28
De acordo com Goleman (2010), os indivíduos com elevada inteligência emocional
gerem melhor as emoções e têm melhor desempenho. Por esta razão, a inteligência
emocional está diretamente relacionada com as outras competências profissionais e é
fundamental para o aperfeiçoamento do indivíduo. Esta competência inclui avaliar e gerir
as próprias emoções, diminuir o stress e o conflito, e melhorar a comunicação para
alcançar a máxima eficácia no trabalho (Gray, 2016a; Martins et al., 2019).
Para Martins et al. (2019), a orientação para servir e a negociação são competências
indispensáveis para o futuro. A orientação para ajudar os outros é uma das competências
mais requisitadas no mercado, sendo relevante para conhecer bem o seu público e oferecer
as melhores soluções, por forma a adaptarem-se às mudanças causadas pela tecnologia.
Por fim, a flexibilidade cognitiva é definida como a capacidade de criar ou usar diferentes
conjuntos de regras para combinar e agrupar em diferentes formatos, ou seja, desenvolver
esta capacidade é uma forma de pensar e imaginar diferentes perspetivas de resolver
problemas (Gray, 2016a; Martins et al., 2019).
29
Figura 3: Competências e Habilidades da Era Digital
Na mesma linha, o estudo “Como preparar a força de trabalho do amanhã para a Indústria
4.0”, em parceria com a Global Business Coalition for Education, Armstrong et al. (2018)
corroboram com as competências para os empregos do futuro anteriormente identificadas
e apresenta caminhos para que as empresas possam ajudá-los a terem êxito nesse
processo, assumindo assim um papel mais proativo na sua preparação (Armstrong et al.,
2018). Mais recentemente, o estudo do World Economic Forum (2020), intitulado “Here
are 5 skills researchers say employers are looking for right now”, identifica que, devido
à transformação digital, foram criados 1.8 milhões novos postos de trabalhos que
precisam de novas competências para os conseguir realizar. E, por esta razão, o World
Economic Forum (2020) partilhou as cinco top soft skills de acordo com o resultado da
análise da rede social Likedin, o qual teve por base as competências mais procuradas na
plataforma, em comparação com a oferta: (1) Comunicação, (2) Capacidade de resolução
de problemas, (3) Competências analíticas, (4) Orientação para o cliente e (5) Capacidade
de liderança.
30
os distingam uns dos outros, pelo que as denominadas soft skills assumem uma
importância de maior relevância na era digital (Agrawal et al., 2020).
De acordo com estudo da McKinsey & Company, “To emerge stronger from the COVID-
19 crisis, companies should start reskilling their workforces now”, a flexibilidade,
resiliência e capacidade de (re)aprender a aprender, capacidades digitais e cognitivas,
habilidades sociais e emocionais, são hoje competências que se tornaram muito
procuradas e valorizadas tanto por organizações como por colaboradores (Agrawal et al.,
2020). Por outro lado, à medida que o trabalho se torna mais robótico, são cada vez mais
valorizadas as competências que nos mantêm humanos e que são essenciais para manter
a competitividade (Forjaz, 2019; Plumanns et al., 2017).
O mundo atual está a viver uma mudança significativa com o aparecimento e expansão
da Indústria 4.0, baseada na digitalização da economia, uso de inovadores sistemas
informáticos e alta tecnologia, o que aumenta a velocidade de difusão das inovações e a
sua implementação em larga escala (Chulanova, 2019).
As organizações parecem precisar, cada vez mais, de pessoas criativas, ágeis, com
capacidade de adaptação às constantes mudanças do mercado, que dominem não só a
linguagem digital, mas também que garantam um conjunto de soft skills sociais,
emocionais e comportamentais determinantes para acelerar a performance, a
competitividade e o sucesso individual das suas equipas (Griffin & Coleman, 2018).
Em suma, para fazer face às mudanças que ocorrem atualmente no mercado de trabalho,
é crucial que as organizações acelerem o ritmo de desenvolvimento das competências das
suas equipas, pois as alterações tecnológicas obrigam a que todos os profissionais tenham
de estar constantemente a (re)aprender para conseguir acompanhar o ritmo, por vezes
avassalador, da mudança da nossa função, profissão ou ambiente de trabalho (Christidis
et al., 2018).
31
1.3 Consultoria de Recursos Humanos
Para Armstrong (2014), durante muito tempo a Gestão de Recursos Humanos atuou
dentro da especialidade administrativa composta pela rotina operacional, e isso fez com
que historicamente não fosse reconhecida como um parceiro estratégico na maioria das
organizações.
Apesar deste estigma ter perseguido, a gestão de recursos humanos até há relativamente
pouco tempo, com os avanços técnicos e científicos na área de gestão, a ênfase nas boas
práticas de gestão de recursos humanos é fulcral para o sucesso de qualquer organização
(Ferreira et al., 2015).
Para Schuler (1990) e Wiley (1992), os profissionais de Recursos Humanos deve assumir
os seguintes papéis: gestor de negócio, agente de mudança, consultor, assessor,
implementador da estratégia e parceiro de negócio. Na mesma linha Rego et al. (2015)
afirmam que, atualmente, a Gestão de Recursos Humanos é vista como uma área capaz
de ajudar as organizações a alcançarem os seus objetivos.
Perante estes desafios resultantes da introdução das tecnologias, da mudança para uma
economia do conhecimento e da globalização, a Gestão de Recursos Humanos tem
evoluído e assumido um maior envolvimento nas decisões estratégicas das organizações,
apesar de Rego et al. (2015) reforçarem que ainda é pequena a proporção de empresas
que apresenta uma estratégia sustentada de Recursos Humanos (Camilo et al., 2019).
32
as chefias diretas e intermédias práticas como a avaliação de desempenho, processo de
contratação, compensação e benefícios, enquanto que as tarefas de processamento
salarial, formalização de contratos e processos de despedimento são asseguradas pela
gestão administrativa. Por outro lado, outras organizações optam pela externalização da
função ou pela subcontratação de serviços, quer técnicos (recrutamento e seleção,
formação ou avaliação de desempenho), quer administrativos.
Desde que Portugal aderiu à União Europeia (meados da década de 1980), a consultoria
teve um elevado crescimento económico e a sua estrutura organizacional também mudou
significativamente, pois muitas empresas cresceram de forma considerável e
diversificaram as suas atividades, obrigando-as a procurarem soluções de gestão para
lidar, não só com os mercados mais competitivos como também com a complexidade
organizacional (Cunha & Marques, 1995; Mayrhofer & Brewster, 2005).
Silva & Fernandes (2014), sugerem que as organizações devem, atualmente, ter como
objetivos fundamentais (1) manter a competitividade no mercado, (2) a redução de custos,
(3) a otimização dos processos internos, (4) a satisfação de seus clientes externos e,
principalmente, (5) a busca de um melhor relacionamento com seu público interno. Por
conseguinte, para que sejam tomadas as melhores e mais eficientes decisões, devem, por
isso, escolher um parceiro estratégico e de confiança em Recursos Humanos (M.
Armstrong, 2014; Silva & Fernandes, 2014).
33
A consultoria em Recursos Humanos tem o papel de se diferenciar nas decisões apontadas
pelas figuras decisoras inseridas numa organização, colocando à disposição,
independentemente do seu setor de atuação no mercado, as melhores ferramentas e
metodologias para que a tomada de decisões seja facilitada e as metas apontadas sejam
reais e alcançáveis (Costa, 2015; Silva & Fernandes, 2014).
A profissão de consultor nem sempre foi (ou é) bem vista em vários setores profissionais.
Por um lado, sublinha-se a ligeireza com que, por vezes, são encarados os aspetos
deontológicos e éticos da profissão e, por outro lado, são acusados de na sua prática
profissional cuidarem mais dos interesses das empresas que representam, do que dos
interesses das organizações que estão a servir (Ceitil, 2006).
Para Camilo et al. (2019), a função de consultor é bastante complexa e abrangente, pois
consiste num processo interativo de um agente de mudança externo à organização, o qual
tem a responsabilidade de auxiliar na tomada de decisão, não tendo, no entanto, o controlo
direto da situação (Oliveira, 2015).
34
posicionamento dos consultores perante a organização (Costa, 2015). O papel da
consultoria de Recursos Humanos e dos consultores é inovar e acrescentar valor aos seus
parceiros e clientes, trabalhando com atitude, garra, seriedade e paixão. Soluções
standardizadas têm o futuro contado, sendo necessário um alinhamento permanente
(Silva & Fernandes, 2014). No cumprimento deste papel, a consultoria de Recursos
Humanos deverá renovar constantemente os serviços prestados, bem como nas
competências dos consultores que prestam os serviços (Bellman, 2001; Ceitil, 2014;
Nissen & Seifert, 2015).
Para garantir a sua viabilidade futura, o setor da consultoria deve repensar os modelos de
negócios, relacionamentos com clientes, produtos e serviços (Cardea, 2020; Nissen,
2017). No passado, a indústria de consultoria nem sempre foi conhecida por ser pioneira
em mudar seus próprios modelos de negócios. No entanto, Cecere (2016) reconhece que
é imperativo a este setor adaptar-se cada vez mais às novas necessidades de seus clientes,
avaliar criticamente os seus modelos de negócio, bem como a forma como prestam os
seus serviços de consultoria e investir na digitalização de seus próprios processos e
ofertas, obtendo uma vantagem competitiva sustentável (Nissen & Seifert, 2015).
A Era digital está a exigir que a estratégia adotada pelos profissionais de Recursos
Humanos ofereça uma proposta de valor diferente num mercado de trabalho cada vez
mais globalizado (M. Armstrong, 2014; Martins et al., 2019). A implementação desta
abordagem estratégica e proativa exige que se introduzam novos processos e
35
procedimentos, e que os consultores atuem como agentes de mudança (M. Armstrong,
2014).
Ceitil (2006) reforça que o futuro da atividade de consultoria de recursos humanos passa
por uma exigência, cada vez maior, de qualidade, da capacidade de incorporar a voz do
cliente e a sua envolvente como parte integrante da conceção do serviço. Cardea (2019),
defende, ainda, que apenas esta atuação resultará num output com rigor técnico e de
sucesso. Com a entrada na Era digital, os consultores de Recursos Humanos, devem ser
capazes de alavancar ferramentas tecnológicas que os apoiem nos processos e práticas de
suporte à Gestão de Recursos Humanos (Ulrich et al., 2016).
36
Para alcançar resultados, algumas características e competências são recomendáveis ser
detidas pelo consultor. Diversa literatura (e.g. Araujo et al., 2020; Hecklau et al., 2016;
Phan & Trang, 2020) sugere ser necessário dedicação, esforço, estudo, comunicação,
agilidade e perseverança. Devem possuir um perfil de competências vasto, que transcenda
a especialização técnica, deve ter pensamento estratégico, experiência e conhecimento
consistente da sua área de atuação, bem como foco no cliente, agilidade digital,
capacidade de adaptação, perspicácia analítica e, investir em competências humanas
críticas como a resolução de problemas, comunicação, criatividade, gestão de projetos,
escuta ativa e tomada de decisão.
O setor de consultoria deve preparar-se para os desafios e dificuldades que possam surgir,
identificando e aprendendo a usar soluções tecnológicas para ultrapassar os mesmos
(Bala, 2015). Desta forma, o setor deve planear, desenvolver e implementar mecanismos
inovadores de desenvolvimento de habilidades e competências, de forma a que os
consultores de Recursos Humanos sejam preparados para aceitar e a ultrapassar os
desafios emergentes (Ferreira & Martins, 2018; Pereira, 2018).
37
CAPÍTULO II – METODOLOGIA
38
Iniciamos, assim, neste capítulo, com a apresentação do desenho metodológico realizado,
integrando o objetivo geral e os objetivos específicos definidos, a caraterização da
natureza do estudo, a caraterização dos participantes e do material de recolha de dados,
bem como a explicitação dos procedimentos realizados ao longo do processo
investigativo.
Assim, surgiu como pertinente o presente estudo, orientado pela seguinte questão: Quais
os desafios dos Consultores de Recursos Humanos decorrentes da transformação digital?
Partindo da moldura teórica apresentada, esta dissertação tem como objetivo central
contribuir para a caracterização do setor de consultoria de Recursos Humanos, identificar
os desafios relacionais e técnicos dos profissionais decorrentes da transformação digital
e, por fim, identificar as competências exigidas aos consultores de Recursos Humanos
nesta Era digital.
39
Atendendo ao objeto e aos objetivos deste estudo, a opção metodológica qualitativa
apresenta-se como a mais apropriada para a sua concretização, uma vez que pretendemos
conhecer e compreender em profundidade as perceções e experiências dos Consultores
de Recursos Humanos relativamente aos desafios colocados pela Era digital, em
particular no que respeita às competências requeridas.
40
41
2.3 Técnica de Recolha de Informação
Para esta investigação, foi construído um guião de entrevista, com um total de onze
perguntas e divide-se em quatro grupos (cf. Anexo III).
42
No primeiro grupo procura-se caracterizar a consultora onde o entrevistado/a trabalha
atualmente relativamente aos serviços e soluções e como se distinguem da concorrência,
através das seguintes questões: Quais os principais serviços e soluções que a vossa
empresa presta? Em que aspetos se distinguem da concorrência? E, ao serem indagados
sobre as necessidades do mercado, em concreto, quais têm sido os principais
ajustes/alterações que os vossos serviços e soluções têm vindo a sofrer nos últimos anos?
pretende-se contribuir para o primeiro objetivo específico acima referido, caracterizando
as mudanças nos serviços e soluções da consultoria, decorrentes da transformação digital.
Por sua vez, o segundo grupo de questões irá permitir obter a opinião dos entrevistados
sobre a consultoria na era digital, sendo realizadas questões como: Na sua opinião, quais
têm sido as principais alterações nas ferramentas e metodologias de trabalho em
consultoria?, Na sua opinião, como vê o setor da consultoria na Era Digital? Se
preparada: Que elementos destaca neste setor que o levam a reconhecer estar preparada
para a Era digital? Se não preparada: Na sua opinião, de que forma está a Consultoria
de Recursos Humanos a preparar-se para a Era Digital? e No futuro, como vê o sucesso
das empresas de Consultoria de Recursos Humanos? (o que as vais distinguir no
mercado).
O terceiro grupo de questões procura obter informação que ajudem a responder aos
segundo e terceiro objetivos específicos. Engloba as seguintes questões: Em concreto,
quais as principais transformações que identifica no perfil funcional de consultor de
Recursos Humanos?, Que competências comportamentais considera que um consultor
RH deve deter nesta era digital?, Que competências técnicas considera que um consultor
RH deve deter nesta era digital?, Na sua opinião, quais têm sido os principais desafios
para o consultor de Recursos Humanos nesta era digital? e De que forma a
transformação digital tem influenciado a vossa abordagem com os clientes?
43
para isso aceite através de um formulário online a declaração de consentimento
informado.
Os estudos qualitativos são tipicamente caracterizados por uma amostra menos numerosa
do que os estudos quantitativos, pois privilegiam a riqueza da informação em detrimento
da representatividade da amostra (Maxwell, 2013). Os participantes foram selecionados
de forma intencional e conveniente, isto é, procuram-se participantes que se enquadrem
nos critérios de relevância para o estudo em questão (Patton, 2014), ou seja, aqueles que
aportarão informação mais rica, permitindo assim responder às questões centrais da
investigação (Patton, 2014).
44
Entre abril e junho foram contactados 22 possíveis participantes, dos quais 10 aceitaram
participar nesta investigação. Foram agendadas as entrevistas via zoom, de acordo com a
sua disponibilidade. Antes da realização das entrevistas, foi partilhado com cada um dos
participantes um formulário online, através do qual preenchiam o questionário
sociodemográfico (cf. Anexo I) e declaravam dar permissão para recolha e utilização dos
dados, bem como a gravação da entrevista, através do consentimento informado (cf.
Anexo II).
Após a transcrição das entrevistas, procedeu-se à análise dos dados de acordo com os
princípios da Grounded Theory. Este é, de acordo com Fernandes & Maia (2001), um
método de pesquisa qualitativa capaz de conceptualizar fatores ontológicos em fatores
epistemológicos, ou seja, consiste num método dotado de ferramentas que têm como
finalidade o desenvolvimento de teorias a partir de dados recolhidos numa determinada
realidade empírica (Gonçalves, 2016).
A Grounded Theory consiste numa metodologia de pesquisa qualitativa que foi criada,
nos anos 60, pelos sociólogos Barey Glaser e Anselm Strauss, que visa desenvolver
teorias suportadas em dados sistematicamente recolhidos e analisados (Charmaz, 2014).
Este método baseia-se na identificação das categorias semânticas criadas a partir da
análise dos discursos, até este processo ficar saturado, criando assim uma teoria sobre um
fenómeno social em estudo (Fernandes & Maia, 2001).
45
Terminada a etapa de recolha de dados a partir da realização de entrevistas, estes são
submetidos a um processo de codificação e interpretação. Na Grounded Theory
identificam-se três tipos de codificação: aberta, axial e seletiva (Fernandes & Maia, 2001).
Por fim, a codificação seletiva consiste num processo de seleção da categoria central, ou
seja, a atribuição de uma categoria principal, resultante da relação encontrada entre os
códigos axiais já identificados (Fernandes & Maia, 2001). É nesta fase que o investigador
constrói a narrativa descritiva do fenómeno central do estudo, ou seja, depois de analisar
e codificar os dados recolhidos, o investigador integra as categorias em forma de teoria
(Gonçalves, 2016).
Por conseguinte, a análise dos dados foi realizada com base nas fases assentes nos
princípios da Grounded Theory, iniciando-se com a codificação aberta, depois a
codificação axial e, por fim, a codificação seletiva.
Os participantes do nosso estudo são consultores com dez anos ou mais de experiência
no setor de atividade da Consultoria de Gestão de Recursos Humanos.
A investigação qualitativa caracteriza-se por utilizar amostras teóricas que, no caso deste
estudo, integra participantes que apresentam determinadas características e detêm os
conhecimentos essenciais para alcançarmos os objetivos da investigação (Patton, 2014).
Dos 10 participantes, seis são do sexo feminino e quatro do sexo masculino. Seis
entrevistados são casados, três são solteiros e um em união de facto.
A média de idades é de 42,8 anos, sendo que, à data da entrevista, o participante mais
novo tem 36 anos e o mais velho 50 anos. Cinco dos entrevistados possuem licenciatura
e cinco possuem mestrado.
46
Em ternos de senioridade no setor de atividade de consultoria de Recursos Humanos,
varia entre os 33 anos de experiência profissional e os 10 anos de experiência. A tempo
médio de experiência no setor de atividade é de 18,3 anos.
O tempo médio (anos) no desempenho da atual função é de 7,6 anos, variando entre 1 a
23 anos na atual função, no conjunto dos 10 participantes. No âmbito da função de
consultoria de Recursos Humanos, os participantes ocupam diferentes categorias: dois
são Chief Executive Officer (CEO), três HR Consulting Manager, um Key Account
Management, dois Partner/Consultor, um Sénior Manager Associado e um sócio gerente.
47
CAPÍTULO III – APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS
48
Ao longo deste capítulo serão apresentados os resultados da análise de conteúdo das
entrevistas conduzidas junto dos participantes do estudo, que resultaram da categorização
realizada de acordo os princípios da Grounded Theory. Da análise qualitativa emergiram
dois códigos seletivos: Consultoria de Recursos Humanos e Competências.
Serviços
e
Soluções
Fatores
Profissional Consultoria
Distintivos
de de Recursos
da
Consultoria Humanos
Consultoria
Era digital
49
3.1.1 Serviços e Soluções
50
Por sua vez o Desenvolvimento de Recursos Humanos caracteriza os seguintes processos
de Recursos Humanos: Avaliação de Desempenho, Gestão de Carreira e Gestão de
Talento.
“Depois, para além disto temos a consultoria virada para aquilo que são as
organizações e aí também trabalhamos muito o coaching, ou seja, prestamos esse
serviço às organizações. Muitas vezes, grandes organizações criam programas de
coaching contínuos em que os nossos coachs vão prestar esse serviço aos
colaboradores da organização.” (Entrevista 1)
“(…) e nós normalmente falamos com os clientes, porque há uma regra na empresa
que é antes de fazer uma proposta fala-se sempre com o cliente para perceber
porque é que ele entende que aquela é a solução que lhe serve as necessidades.”
(Entrevista 2)
Tendo em conta a tecnicidade dos processos e a sua linguagem própria, urge uma maior
proximidade estratégica com os vários intervenientes das organizações, conforme
detalhado na Entrevista 6:
A Era digital poderá trazer alguns desafios para este fator distintivo, pois os avanços
tecnológicos e científicos, permitem a combinação da interação do humano com o digital
e de alguma forma se perder a interação humana e a experimentação do grupo:
“A minha melhor resposta é que, no nosso setor de RH, eu acho que a digitalização
pode ser um enabler, pode ser um auxiliador de um conjunto de processos, de
52
ferramentas, de intervenções. Não pode ser uma… ou seja, na minha opinião, não
se podem substituir as intervenções tradicionais que nós fazemos, e eu aqui falo
“tradicionais”, mais presenciais, por intervenções puramente digitais, porque
faltando aqui a dimensão do contacto, faltando aqui a dimensão da experiência,
faltando aqui a dimensão da emoção, eu acho que não dá para fazer tudo.”
(Entrevista 9)
“(…) nós conseguirmos criar canais de comunicação que criem proximidade e que
também passem esse clima seguro dentro do grupo, é aquilo que é o futuro.”
(Entrevista 3)
53
“Num perfil funcional… Eu diria que existe cada vez mais uma necessidade das
pessoas terem competências, que são competências de natureza transversal (…) faz
todo o sentido que as pessoas consigam ter uma abrangência maior em termos de
competências, isso não significa que essa especialização não exista, mas que não
haja uma estanquicidade tão grande, porque na realidade, na maior parte dos
casos da intervenção da gestão de RH, nós temos intervenções que ganham
manifestamente. Por exemplo, alguém que está a desenvolver processos de
recrutamento e seleção ganha se compreender como é que a empresa funciona em
todos os processos de RH, nomeadamente, a gestão de desempenho, a formação, a
questão das recompensas, tudo isso ajuda a que o processo de consultoria seja um
processo mais robusto.” (Entrevista 5)
“(…) implicou termos os consultores com esse know-how, de qual é o impacto que
isto teria no negócio dos nossos clientes, implica também terem competências que
lhes permitam usar as ferramentas, não é? Apesar de nós não irmos capacitar as
empresas nessas ferramentas, nós temos que as conhecer para poder também usar
como exemplo e termos mais força depois, quando vamos para as organizações.
(Entrevista 8)
54
consultor. E acho que muitas vezes ainda não está claro. Nem para os próprios
consultores, nem para os próprios clientes qual é o valor acrescentado que é esperado
para este trabalho. E, portanto, eu diria que é necessário haver uma reflexão ainda mais
profunda sobre o propósito e o papel do consultor.” (Entrevista 6)
No que concerne ao Upgrade skills, este remete para a importância dos profissionais de
consultoria de Recursos Humanos sejam capazes de se adaptarem à mudança, através do
reskilling e upskilling de competências.
A Entrevista 1 destaca que o upgrade de skills é fulcral para que a atuação dos consultores
seja inovadora e reconhecida:
“Eu não me imagino a fazer nada sem ser na consultoria. Isto por um motivo…
(…) que é eu gosto muito do… do trabalho de consultoria de ir, de pensar quais
são os desafios, quais são as dificuldades e que soluções é que nós podemos
encontrar para aumentar a performance, para aumentar o engagement. E gosto de
fazer isto várias vezes e em contextos diferentes e de alguma forma sinto, (…) que
se estivesse numa organização única… eu… iria perder esta riqueza de conhecer
várias realidades. E, portanto, sim, sim. Acho que daqui a uns dez, quinze, vinte
anos é bem capaz de me conseguir continuar a ver na consultoria.” (Entrevista 6)
Contexto Económico
“Não sei, sinceramente não lhe consigo responder a isso, porque não sei que
caminho nós vamos tomar. Se o mundo tomar um caminho de forte recessão e de
corte de gorduras, eu diria que não é um futuro favorável para as empresas de
consultoria de RH (…)” (Entrevista 2)
Contexto Organizacional
Exigência do Mercado
“(…) o que nós nos tivemos de adaptar também foi a projetos de consultoria, eu
diria, menos alargados, menos generalizados. Antes, estávamos formatados para
uma intervenção mais abrangente, começamos a ter que definirmos as nossas
metodologias e as nossas ferramentas para intervenções mais incisivas.”
(Entrevista 2)
“O mercado de trabalho e, não está relacionado com a pandemia, está muito mais
mutável do que no passado. Mais mutável no sentido em que há muitas funções que
estão a terminar e outras que passam a existir. A tecnologia traz aqui um mundo
novo, os avanços tecnológicos são feitos pelo homem, por isso somos nós com a
tecnologia que estamos a eliminar postos de trabalho, estamos a eliminar funções
que deixam de fazer sentido porque a tecnologia os substitui. (…) o que está a
acontecer é que, o que é necessário tanto do ponto de vista da consultoria como do
ponto de vista das pessoas nas organizações e no mercado, é uma mudança que está
56
orientada para outro tipo de comportamentos, mindsets muito diferentes do que eram
no passado.” (Entrevista 4)
Exigência do Setor
Concorrência
“Eu acredito que o que as vai distinguir no mercado será algo que as distinguiu
sempre, que é a solidez do ponto de vista técnico, eu acredito muito nisso, quero
acreditar que vai continuar a ser uma base muito importante. Acredito também que
a questão da capacidade de entregar coisas que não sejam padrão, será algo cada
vez mais valorizado, (…) portanto nós sabemos que aquilo que valia há 10 anos ou
há 5 anos, hoje já não vale.” (Entrevista 5)
Desafio
“Deixar de ser tanto uma empresa conotada com a formação e com a consultoria
e sermos mais vistos como uma empresa de transformação. De transformação a
vários níveis – de comportamentos, de atitudes, de valores – que possamos ajudar
os clientes a transformar aquilo que possa fazer sentido, em termos de cultura, em
termos de valores, em termos de competências, das nossas empresas clientes.”
(Entrevista 9)
Para os entrevistados, o maior desafio na Era digital está em perceber como usar a
tecnologia sem perder o “toque” humano?: “O meu tema é quando há necessidade de ter
essa proximidade para fazer a leitura, com mais do que uma pessoa, pois lemos mais
entrelinhas e no olhar cruzado das pessoas do que propriamente aquilo que elas estão a
dizer, e aí sim, a leitura não verbal é um desafio.” (Entrevista 4)
57
Estratégia
“Neste momento, aquilo que eu acho que aconteceu nos últimos três ou quatro
meses, nas grandes consultoras e também nas médias consultoras, foi que, isto é,
ou parar ou… não é “ou parar”! Ou é, fazemos qualquer coisa diferente ou
morremos. Eu acho que toda a gente entrou nesta lógica da digitalização das
intervenções, da digitalização de todos os processos de RH, em termos – estou a
falar de consultoras! – de oferta de formação, de outros processos de consultoria,
está tudo a ir para o ambiente digital.” (Entrevista 3)
58
3.2 Competências
Equilíbrio de
Competências
Competências
As Hard Skills prendem-se com as características técnicas mais relevantes num consultor
de Recursos Humanos, tais como: competências digitais e conhecimento
técnico/científico.
Competências Digitais
59
Conhecimento Técnico/Científico
“(…) tem de estar bem documentado, tem de conhecer os estudos, tem de ler e estar
informado sobre as investigações e a cientificidade ligada à sua área de
especialidade. Eu acho que nos últimos anos e não sei o que vai acontecer, mas
temos tido uma grande facilidade em ir beber às áreas científicas e depois traduzir
as coisas em coisas tão simples e evidentes que se perde a noção da cientificidade
que está por trás. Que ciência está por detrás? Que ciência está por detrás disto
que nos leva a ser influenciadores de outros neste tipo de comportamento?”
(Entrevista 2)
“(…) um consultor não tem de ser formado em X e ter a experiência Y, isso para
mim é claríssimo como a água. Para mim, um consultor deve ter experiência de
vida e experiência profissional. Por exemplo, se um consultor quiser trabalhar a
área da liderança nas empresas, se o consultor não for líder não vai ser consultor.
Aliás, até pode achar que vai ser, mas não dá. É impossível!” (Entrevista 1)
Capacidade Comunicacional
“Eu diria que a competência da comunicação é crítica e mais uma vez esta altura
e este momento que vivemos torna isso super evidente. Nós podemos ter pessoas
60
que até têm competências de comunicação quando estão num registo presencial,
mas depois o facto de não fazerem uma adaptação à sua comunicação quando estão
neste registo mais à distância, acaba por penalizar a prestação deles, portanto eu
acredito que a comunicação, em todas as suas vertentes, é uma competência
absolutamente crítica.” (Entrevista 5)
Capacidade de Adaptação
“(…) a capacidade que a pessoa tem de ter para entrar ou estar numa empresa e
assumir que é essa a empresa e que é a representação dos seus valores, da sua
cultura, missão, da sua forma de atuar, porque na realidade a "empresa não existe
(…). Esta noção de fazer parte do todo e de representar esse todo, sendo que se
calhar nunca na vida vai ver esse todo.” (Entrevista 6)
Capacidade de Decisão
“Os perfis de sucesso são aqueles, muito engraçados, que tomam decisões rápidas
e que depois vão ajustando lentamente. Mas é rápido, por isso é curiosidade. As
pessoas que não se adaptam, tomam decisões muito lentamente, “isto vai passar!
Não te preocupes!”, e depois quando acontece a barraca tomam decisões
rápidas!” (Entrevista 5)
Criatividade e Inovação
“(…) criatividade, inovação. Porque quando eu digo para ser criativa, eu digo:
“tens que pensar fora da caixa”, é uma expressão, “pensa fora da caixa!
(Entrevista 10)
61
Capacidade de Aprendizagem
“Nós temos de ser os primeiros a receber e a explorar aquilo que é novo, porque
se não, também não podemos ajudar as organizações a fazê-lo, porque se não
também não conseguimos ser provocadores e desafiar os outros. Portanto, a
curiosidade deve estar presente num consultor na era digital.” (Entrevista 3)
Empatia
Escuta Ativa
“Deve ter uma capacidade de escuta brutal, porque eu acho que isso… mas isso
sempre achei, e atenção que, provavelmente, também tive esse problema quando
era mais novo, que é: nós vamos para lá, para o cliente, a achar que sabemos mais
que o cliente nestas áreas e que já sabemos qual é o problema dele e o que é que
ele vai fazer e, tendencialmente, escutamos pouco, ouvimos pouco, procuramos
entender um pouco daquilo que é o problema que ele verdadeiramente tem e que
às vezes não tem, e é com a nossa ajuda que chega lá. Portanto, eu acho que esta
questão da escuta ativa é crítica para um consultor. Tem que ouvir 10 vezes mais
do que falar. Falar, fala nas intervenções. Numa primeira fase tem que ouvir.”
(Entrevista 9)
62
Relacionamento Interpessoal
Resiliência
“Acho que cada vez mais temos de estar… como é que eu hei de dizer… atentos à
mudança, ou seja, ter pessoas que estejam a… habituada sou que tenham apetência
para lidar com imprevisto, com mudança. Em consultoria isso é uma constante e
acho que vai continuar a ser, ou seja, o mundo está sempre em constante mutação.”
(Entrevista 7)
É destacado ainda a necessidade de se olhar para a resiliência numa ótica da saúde mental,
tal como destaca a Entrevista 1: “(…) resiliência, não numa lógica de resiliência pelo
contexto que é, mas resiliência naquilo que são os temas da saúde mental. (…)pelo
contexto que tem e a capacidade que tem que ter para ter uma fortíssima e saudável saúde
mental é, para mim um tema que ainda não está muito explorado, mas para mim é uma
competência, se quisermos, a forma como é resiliente e trabalha esse assunto e resolve
esses temas, que um consultor deve deter nesta era digital.” (Entrevista 1)
Trabalho em Equipa
“Depois, uma vez que não trabalha sozinho, uma outra caraterística engraçada – eu vou-
lhe chamar trabalho de equipa, mas é muito redutor – é a capacidade de ir conseguindo
aprender com os outros, que eu acho que, em termos organizacionais, isto pode ser uma
competência muito interessante (…) nós éramos muito sinérgicos e conseguíamos,
rapidamente, capitalizar o conhecimento da organização para o pôr ao serviço dos
projetos.” (Entrevista 9)
“O foco nas pessoas (…). Como tratamos os candidatos, como tratamos os clientes, como
tratamos os nossos parceiros, porque muitas vezes também trabalhamos com outras
empresas que não são candidatos nem clientes, mas são muito importantes também na
nossa, portanto, na forma como nos relacionamos com o mercado. E por isso esse é
sempre o grande foco.” (Entrevista 7)
63
Capacidade de Análise
Consideram que as Soft Skills prevalecem sobre as Hard Skills, nas quais se encontra a
base de diferenciação dos profissionais de consultoria, enquanto que as Hard Skills
podem ser colmatadas através da aprendizagem.
“(…) trabalhar muito as soft skills, muito mais que as technical skills. As technical
skills tipicamente são muito mais fáceis de entender, soft skills e mindset é muito
mais difícil, de se alterar comportamentos, alterar princípios de trabalho, valores.
Esta questão é interessante porque eu penso sempre no sentido de se eu estiver a
contratar um consultor para a minha equipa, ele pode não ter competências
técnicas nenhumas, porque isto é tudo formatável, ou seja, a pessoa tem uma
formação e rapidamente chega lá, todas as outras competências é que são mais
importantes.” (Entrevista 4)
64
CAPÍTULO IV – DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
65
Neste capítulo irá proceder-se à discussão dos principais resultados obtidos, tendo por
base a perceção dos Consultores de Recursos Humanos sobre os desafios colocados pela
Era digital ao nível das competências requeridas no seu âmbito de atuação, corroborada
com a literatura relacionada sobre a temática.
66
Caracterização das Estratégias e Técnicas Utilizadas
Nissen (2017) refere que a diferenciação neste sector de atividade não passará pelo tipo
de serviços oferecidos, dado serem geralmente muito semelhantes, mas deverá passar por
uma atitude comunicacional mais ativa e assertiva e um maior enfoque na relação de
proximidade com o cliente.
Os resultados deste estudo demonstram também que a estratégia passa pelos profissionais
de consultoria alcançarem a confiança e o respeito que necessitam nas organizações,
assumindo-se como parceiros valiosos e estratégicos. A literatura corrobora que o âmbito
de atuação dos profissionais de Recursos Humanos tem evoluído no sentido de um maior
envolvimento nas decisões estratégicas das organizações (Barracho, 2015; Santos &
Júnior, 2013).
Nissen (2017) prevê que os modelos de negócios e a entrega serviços e soluções tenham
de ser redesenhados e que, inevitavelmente as soluções de consultoria com base digital
ganhem mais terreno. Na ótica dos entrevistados, as consultoras de Recursos Humanos
estão a ajustar-se às rápidas mudanças sociais, económicas, tecnológicas e, por
conseguinte, às exigências do mercado.
67
2014). Por conseguinte, os consultores de Recursos Humanos entrevistados são unânimes
ao identificar que o maior desafio na abordagem foi a transformação do presencial para o
virtual.
Os entrevistados do nosso estudo reforçam que o growth mindset digital interno é fulcral,
para que possam repensar as estratégias e fazerem a mudança acontecer e prosperar,
assumindo, assim, o papel de impulsionadores desta mentalidade digital seja parte
integrante da cultura organizacional dos seus clientes. A literatura (e.g. Reddy & Reinartz,
2017) salienta que a tecnologia está a evoluir a um ritmo nunca antes visto, a automação
e a globalização estão a ganhar cada vez mais lugar e o setor da consultoria de Recursos
68
Humanos precisa de tornar os seus modelos de negócios e fluxos envolvidos mais digitais,
garantindo assim a sua sobrevivência no mercado competitivo.
Nissen & Seifert (2015) corroboram que as consultoras de Recursos Humanos já reagem
a esta revolução e, por forma a obter uma vantagem competitiva e sustentável, oferecem
um vasto portefólio de serviços que incluem soluções baseadas em tecnologia. As
consultoras digitalizam e inovam os seus serviços de consultoria, transformando os seus
serviços tradicionais e presenciais numa consultoria inovadora, digital e até automatizada.
69
corrobora que a consultoria em Recursos Humanos tem o papel de se diferenciar,
agregando valor às suas atividades (Girardi, 2008).
Do ponto de vista dos entrevistados, o consultor deve assumir o papel de especialista, não
apenas nos processos de recursos humanos do seu âmbito de atuação, mas também deve
deter um conhecimento robusto de todos os outros processos, tornando o processo de
consultoria mais robusto e aportando valor na sua entrega. A literatura sugere que os
profissionais de recursos humanos de sucesso devem ter conhecimento dos princípios,
práticas e funções da gestão eficaz de recursos humanos (SHRM Society for Human
Resource Management, 2012).
Bala (2015) salienta que o primeiro e principal obstáculo dos profissionais de consultoria
de Recursos Humanos é prepararem-se para os desafios e dificuldades que possam surgir,
identificando e aprendendo a usar soluções tecnológicas para ultrapassar os mesmos.
Alinhados com a literatura, os resultados deste estudo demonstram que o sucesso dos
negócios está cada vez mais dependente da colaboração entre a tecnologia e o ser humano.
70
O desafio dos profissionais de Recursos Humanos passa por adaptarem-se às mudanças
que possam surgir e adaptarem os seus modelos de negócios às exigências e
competitividade do mercado (Bala, 2015). Só assim, podem marcar pela diferença e
assumir o seu papel de “Change Champion” (campeões da mudança), ao desafiar e
influenciar as organizações clientes a acompanharem a mudança digital e a criarem uma
cultura de mudança e inovação (Ulrich, 2017).
Os entrevistados corroboram a literatura (e.g. Ferreira & Martins, 2018; Savage, 2012;
Júnior et al., 2012), ao defenderem que os profissionais de alto desempenho são os que
pensam e agem de fora para dentro, são detentores de conhecimento científico, técnico e
das tendências de mercado e, estrategicamente são capazes de traduzir as tendências
externas de negócios em decisões e ações internas. Para Júnior et al. (2012), o propósito
do consultor de Recursos Humanos é trabalhar em estreita parceria com os seus clientes
no desenho das políticas mais ajustadas de gestão, motivação, desenvolvimento ou
retenção dos ativos humanos, em prol da missão e dos objetivos estratégicos da
organização e de uma gestão da mudança sustentável.
As consultoras de Recursos Humanos vivem sob uma constante pressão motivada pelo
contexto organizacional, bem como pela adaptação tecnológica e competitiva
provenientes da globalização (Becker & Gerhart, 1996). O nosso estudo salienta que a
envolvente organizacional e contexto económico requer que o setor de atividade da
consultoria se reinvente.
A capacidade de inovar é uma competência mais importante atualmente que outrora, pois
tal como os entrevistados salientam, provavelmente, uma das partes mais difíceis é mudar
a mentalidade e romper com o aprisionamento mental nos sucessos do passado e nos
modelos de negócios antigos. Ulrich e colegas (2012) corroboram que é fundamental que
71
o setor da consultoria de Recursos Humanos reflita sobre o que faz, como faz e porque o
faz.
A transformação digital nos serviços de consultoria irá promover mudanças nos serviços
tradicionais e presenciais em serviços de consultoria inovadora, virtual e até automatizada
(Nissen & Seifert, 2015). Esta mudança irá, consequentemente, reduzir a interação direta
dos consultores de Recursos Humanos com os seus clientes, apenas a momentos mais
cruciais do processo de consultoria. É evidenciado pelos entrevistados que a qualidade da
interação seja de baixa qualidade, pois sentem que a interação pessoal lhes permite uma
análise do problema, permite interagir com diversos interlocutores no seu local de
trabalho e obter uma avaliação não só da informação obtida, como de toda a envolvente
organizacional.
Existe, portanto, uma dicotomia que se pretende saudável entre a ampliação exponencial
da Inteligência Artificial, da domótica e a humanidade. Numa transformação que se
define ágil e veloz, é necessário não perder o sentido de que as organizações são orgânicas
e que, portanto, integram contextos emocionais (Reddy & Reinartz, 2017). Pretende-se
sim que a estratégia esteja assente numa proposta de valor diferente e inovadora com o
objetivo de servir melhor os seus clientes (Martins et al., 2019).
72
A literatura (e.g Araujo et al., 2020), em sintonia com os resultados deste estudo evidencia
que a evolução tecnológica exige que as estratégias do setor da consultoria de Recursos
Humanos, sejam revistas e que os seus profissionais se adaptem à mudança. O
crescimento não pode ser somente tecnológico, pelo contrário, é imperativa uma transição
humana que passa por reskilling e upskilling – requalificar e aprimorar competências,
respetivamente. A aposta em formação deve ser por isso o mais imediata possível, caso
contrário dificilmente se atingirá a sustentabilidade necessária para manter os modelos de
negócio atuais.
A digitalização representa mais do que uma mudança tecnológica pela qual as empresas
estão a passar, representa igualmente uma mudança na forma como se utilizam os dados
e as informações, e também mudança de processos. Assim, a forma como as pessoas se
organizam e agem, no mercado de trabalho e dentro de cada empresa, e as mudanças
associadas é essencial à avaliação dos efeitos da digitalização (McKinsey & Company,
2018).
Como constatado neste estudo, urge uma verdadeira revolução no mindset dos
profissionais e uma necessária adaptação para enfrentar cenários corporativos até agora
inimagináveis. A preparação do capital humano para estas mudanças e para o seu novo
papel no mercado trabalho e no conjunto que são as organizações está intimamente
relacionada com a sua capacitação/requalificação e desenvolvimento de competências
específicas (Cardea, 2020).
73
Os resultados do estudo demonstram que, com a entrada na Era digital, os consultores
necessitam de interagir e utilizar cada vez mais as novas tecnologias. A aquisição e
desenvolvimento de competências digitais, deve ser o foco do setor da consultoria de
recursos humanos, pois estas competências são fundamentais, não só para a evolução
profissional de qualquer indivíduo, como para a própria competitividade das organizações
(Hecklau et al., 2017). Os consultores devem ser capazes de alavancar ferramentas
tecnológicas que os apoiem diariamente, em processos como o recrutamento,
desenvolvimento e retenção (Ulrich et al., 2016).
No contexto atual, as soft skills tornaram-se os ativos mais procurados, pois são
consideradas mais importantes do que as competências técnicas e os conhecimentos
especializados da área de negócio. As organizações precisam de pessoas que sejam mais
ágeis e adaptáveis, capazes de lidar com as mudanças do mercado (Deloitte, 2016).
74
Por empatia entende-se a capacidade de conseguir-se por no lugar do outro, de forma a
perceber as necessidades dos outros (Camara, 2017), isto é, sentir as emoções dos outros
e assumi-las como se as sentíssemos (Martins et al., 2019). A empatia com as pessoas é
algo que as máquinas ainda não conseguem fazer e é um diferencial poder integrar na
transformação digital (Marr, 2019).
No entanto, foi unânime a opinião de que as soft skills prevalecem sobre as hard skills,
nas quais se encontra a componente de diferenciação dos consultores, enquanto que as
competências técnicas podem ser colmatadas com a aprendizagem. Robles (2012)
corrobora com esta opinião, ao afirmar que as empresas consideram as competências
interpessoais dos seus colaboradores mais importantes do que as competências analíticas.
75
CAPÍTULO V – CONCLUSÃO
76
O presente estudo teve como principal objetivo explorar a perceção dos Consultores de
Recursos Humanos sobre os desafios colocados pela Era digital ao nível das competências
requeridas no seu âmbito de atuação. Através da revisão da literatura, foi possível explorar
a evolução do conceito de competência, conhecer as competências essenciais na Era
digital, marcada pela mudança e digitalização, bem como explorar o setor de atividade da
consultoria de Recursos Humanos.
77
Só depois de impulsionarem a mudança de paradigma internamente, é que estarão aptos
a assumir uma parceria estratégica na gestão da mudança e processos de inovação dos
seus clientes (McKinsey & Company, 2018).
Os resultados permitem identificar que para enfrentar estes novos desafios, as consultoras
começaram a avaliar seu portfólio de serviços e a transformar o seu modelo tradicional
de consultoria onde reside uma forte interação pessoal. A transformação digital em
consultoria pode funcionar como uma ponte entre estratégia e tecnologia e, assim,
fortalecer a posição competitiva (Nissen, 2018).
O ano de 2020 foi marcado pela pandemia da Covid-19, o que obrigou a mudanças
radicais na forma de trabalhar e no mercado em Portugal o que impulsionou um salto
tecnológico de 5 a 10 anos (Randstad Portugal, 2020). Perante este cenário, o desafio está
lançado para o setor de Consultoria de Recursos Humanos: adaptar a sua cultura
corporativa à transformação digital e criar um compromisso permanente com a inovação
e transformação (Costa, 2015; Nissen, 2018).
A quarta revolução industrial está a mudar a forma de interação no trabalho e a abrir novas
oportunidades. Por um lado, o ritmo acelerado das mudanças tecnológicas é um grande
desafio para os profissionais se adaptarem às exigências do mercado e do setor de
78
atividade. Por outro lado, os profissionais de Recursos Humanos atuam como driver da
transformação digital nos seus clientes, ou seja, devem impulsionar a redefinição de
valores e competências, para ajudarem as organizações a ajustarem-se às mudanças
(Chulanova, 2019).
A cultura organizacional é, sem dúvida, o primeiro passo para esta reinvenção. O setor da
consultoria de Recursos Humanos precisa de ser mais inovador, ágil, flexível e, acima de
tudo, influenciar a cultura de inovação e investir na aquisição das competências digitais
(Nissen & Seifert, 2015).
79
Em suma, devem adotar uma abordagem holística no planeamento estratégico,
explorando como as competências chave podem ser melhoradas ou reforçadas, tendo em
vista o desenvolvimento de novos produtos e serviços, e a criação valor para um leque
mais vasto de stakeholders. Devem, também, dar prioridade ao desenvolvimento dos
colaboradores para a nova era da Indústria 4.0, criando uma cultura de aprendizagem e
de colaboração, e oportunidades de formação. Por fim, devem ver a tecnologia como o
elemento mais diferenciador no universo da Indústria 4.0 e investir na integração de
aplicações que suportem novos modelos de negócio. Mais importante ainda, perceber que
as tecnologias da Indústria 4.0 não devem estar limitadas a uma área da organização, mas
integradas em toda a empresa.
Por fim, o facto de as entrevistas terem sido feitas durante a pandemia Covid-19. Esta
situação obrigou o setor da consultoria reinventar-se e adaptar-se ao facto de o País estar
em confinamento obrigatório, o que, eventualmente, pode ter enviesado os resultados
obtidos das entrevistas.
80
A perspetiva dos clientes das consultoras de Recursos Humanos sobre a atuação dos
profissionais, bem como o seu posicionamento e as competências mais valorizadas por
estas, complementariam o estudo realizado.
Outra linha de investigação para complementar o presente estudo, é perceber se após este
período critico de pandemia, como é que o setor de Consultoria de Recursos Humanos
atua no mercado e se a adaptação urgente ao contexto pandémico foi o mote para a
consultoria se reinventar no mundo digital ou voltam atrás e o valor criado pelos
consultores anulam-se para acompanhar o cliente.
Por fim, outra perspetiva pertinente seria um estudo mais aprofundado, através de uma
Metodologia Quantitativa, para uma análise mais alargada da problemática e assim
perceber em que medida os resultados apresentados são confirmados ou contrariados.
81
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101
ANEXOS
102
Anexo I – Declaração de Consentimento Informado
Asseguro que todos os dados recolhidos através desta investigação serão anónimos e
confidenciais, tendo apenas acesso a eles o investigador e os orientadores desta
investigação.
E-mail: ____________________________________________________________
103
Anexo II – Questionário Sociodemográfico
1. Sexo:
Masculino Feminino
3. Estado Civil:
4. Habilitações Literárias:
Doutoramento
5. Função: _____________________________
6. Há quanto tempo trabalha no setor da consultoria de Recursos humanos _______
7. Há quanto tempo desempenha a função atual _________
8. Há quanto tempo trabalha na consultora atual __________
9. Nº de trabalhadores da consultora (agência onde trabalha) __________
104
Anexo III – Guião de Entrevista
1. Quais os principais serviços e soluções que a vossa empresa presta? Em que aspetos
se distinguem da concorrência?
2. Atendendo às necessidades do mercado, quais têm sido os principais ajustes/alterações
que os vossos serviços e soluções têm vindo a sofrer nos últimos anos (pode especificar
nos últimos 3 anos)?
3. Na sua opinião, como vê o setor da consultoria na Era Digital?
a. PREPARADA: Que elementos destaca neste setor que o levam a reconhecer estar
preparada para a Era digital?
b. NÃO PREPARADA: Na sua opinião, de que forma está a Consultoria de Recursos
Humanos a preparar-se para a Era Digital?
4. Em concreto, quais as principais transformações que identifica no perfil funcional de
consultor de Recursos Humanos?
5. Que competências comportamentais considera que um consultor RH deve deter nesta
era digital?
6. Que competências técnicas considera que um consultor RH deve deter nesta era
digital?
7. De que forma a transformação digital tem influenciado a vossa abordagem com os
clientes?
8. Na sua opinião, quais têm sido as principais alterações nas ferramentas e metodologias
de trabalho em consultoria?
9. Na sua opinião, quais têm sido os principais desafios para o consultor de Recursos
Humanos nesta era digital?
10. No futuro, como vê o sucesso das empresas de Consultoria de Recursos Humanos?
(o que as vais distinguir no mercado)
11. Imagina-se a trabalhar em consultoria daqui a 5 anos? E a 10 anos? Porquê? (o
que o motiva)
12. Gostaria de deixar alguma sugestão, ou acrescentar mais alguma informação
relevante sobre o tema.
105
Anexo VI – Categorias
106
Categoria – Competências
107