A quatro anos atrás Elnan vivia com sua família em um ducado próximo ao reino dos elfos,
então era muito comum humanos terem relacionamentos com eles, por isso esse ducado tinha
muitos meios elfos. Sua mãe era humana e seu pai um elfo, líder da patrulha da floresta que
fazia a guarda da fronteira entre os dois reinos. Eles tinham uma vida boa, a família de Elnan
era umas das famílias nobres do ducado.
Um certo dia quando o seu pai estava em casa o ducado foi atacado por uma horda de
monstros, praticamente todos os humanos e elfos que estavam lá foram mortos, os poucos que
sobraram estavam no castelo do Duque juntamente com todos meio elfos. A luta foi difícil, mas
com muito sacrifício eles conseguiram vencer essa batalha, só não esperavam que o pior estava
por vir. Os dias de confinamento e batalhas sem fim foram só o ponto de partida, pois mais
tarde naquele dia, os verdadeiros monstros apareceriam, cultistas de um deus maligno
atacaram o ducado, lançando magias nos sobreviventes. O pai e a mãe de Elnan lutaram o
máximo que podiam, mas por fim eles cederam e não aguentaram.
Uma coisa que ficou marcada na memoria de Elnan foi aquele grande salão de castelo repleto
de corpos de humanos e elfos, várias pessoas encapuzadas usando armas retorcidas e com
sorrisos malignos juntando todos os meios elfos dentro de um circulo e pronunciando alguns
encantamentos que foram esquecidos por nosso pequeno meio elfo. Assim que o
encantamento acabou uma luz esverdeada tomou conta do lugar e todos os cultistas
começaram a massacrar os meios elfos.
Elnan que nessa época era apenas uma criança de nove anos, foi perfurado na barriga por uma
espada e caiu no chão sangrando. Algum tempo depois tudo fica em silencio, Elnan acorda
assustado, ele sente muita dor no abdome, não consegue levantar, olha em volta e vê aquele
massacre, todos mortos, nenhum ser vivo naquele lugar, ao longe no canto da sala ele encontra
os corpos de seus pais. O jovem meio elfo se arrasta até lá com muita dificuldade, chorando,
sentindo suas forças se esvaírem, até que finalmente ele está junto dos corpos de seus pais. Ele
chorando muito pensa o porque disso ter acontecido com seu lar, com seus pais, com ele
mesmo. Ele não merecia isso, tinha muita coisa para viver ainda, então tudo fica escuro, calmo
e aconchegante.
_ Acorde e se levante garoto. – Uma voz acolhedora ecoa pela escuridão.
O menino abre os olhos, tudo está escuro, mas isso não o incomoda. Ele levanta, não sente
mais dor nenhuma, olha para baixo e não vê a ferida e nem o sangue.
_Quem ta ai? Onde cê ta? Papai? Mamãe? Cadê vocês? – O menino clama.
Uma figura feminina se revela na escuridão, ela era alta, magra, usando um lindo vestido
negro, com alguns detalhes prateados, cabelos negros como aquela escuridão que os cercavam
e usando uma mascara branca esculpida como se fosse um rosto feminino, ela se aproxima do
garoto suavemente e se abaixa, mas mesmo abaixada ela era muito mais alta que ele. Elnan
sentiu uma admiração por aquela mulher, ele sem nenhum medo abraçou-a. Ela fica assustada
com a reação dele, pois nenhum mortal se atreveu a fazer isso, ela o afasta gentilmente e passa
sua mão no rosto do garoto num gesto de carinho.
_Querido, você tem conhecimento do que ocorreu com você e sua família? – Ele, chorando,
acena com a cabeça, afirmando. – Eu posso auxiliá-lo na resolução de seus problemas, embora
não possa prometer que você encontre seus pais ao final de tudo. No entanto, posso lhe
oferecer a oportunidade de buscar vingança contra aqueles que destruíram sua cidade.
Aquela tristeza que envolvia o coração do menino se transformou em raiva e depois ódio, ele
não sabia explicar o que estava sentindo, mas era um sentimento ruim, sem pensar duas vezes
ele aceitou o acordo com aquele ser misterioso.
Ela então se levanta, coloca sua grande mão sobre a cabeça de Elnan fazendo um pequeno
cafuné.
_ A partir de hoje, jovem, você esquecerá teu nome, teu passado e tua identidade. Recordará
apenas de teu propósito e o último dia de sua primeira vida. Não se lembrará de nomes, nem
de lugares, apenas dos acontecimentos e de MIM. Agora, vá e leve minhas palavras aos
mortais.
O garoto acorda sem saber onde está, vê aquela cena macabra com vários corpos no chão e
não se importa, olha para os dois corpos em seu lado, sente um aperto no coração, mas ele
não sabe quem é, sua roupa está suja de sangue, mas não há nenhum machucado, apenas uma
marca estranha em seu abdome, parece uma runa estranha, mas ele não se importa. Ele se
levanta, anda pelo castelo, pega algumas coisas se julga importante e enfia tudo na bolsa,
parecia que ele estava no automático, estava vendo as coisas acontecendo, mas não tinha
controle completo do seu corpo, acha roupas melhores e as vestes, acha uma capa preta com
uma gola alta e um broche com um brasão de uma folha com um arco e uma espada
atravessada, coloca a bolsa nas costas, a capa sobre tudo e sai desse lugar. Quando ele chega
na entrada do castelo parece que finalmente recupera o controle do seu corpo, olha par baixo
e vê mais cinco pares de pegadas indo em direções diferentes, todas elas de crianças também,
as ignora e segue um caminho diferente.
No ano seguinte o garoto faz de uma cidade grande sua casa, lá ele conhece Midi Nait, sua
única amiga, um corvo fêmea que o acompanha desde que ele a salvou de um ataque de uma
cobra e as vezes ela parece mais humana que certos humanos, mas ele não se importa. Nessa
cidade para sobreviver ele aprendeu a roubar. Por esses e outros motivos eles tiveram que sair
fugidos dessa cidade. Andaram por várias semanas, a comida tinha acabado a dias, ele estava
com fome e com sede e não aguentou mais, exausto caiu a beira da estrada sem força para dar
um único passo.
Midi vendo seu amigo daquele jeito voou desesperada pela estrada até achar uma carruagem,
ela foi até o condutor e o atrapalhou por um momento voando em sua frente, pousando em
cima da carruagem e grasnando o mais alto que podia, depois de um tempo ela voou estrada a
frente.
_ Que barulho foi esse Robert? – uma voz masculina saia de dentro da carruagem, uma
pequena janela se abria atrás do condutor e um rosto rechonchudo aparecia nela.
_ Não foi nada meu senhor, apenas um corvo louco me atrapalhando, não precisa se
preocupar, logo mais chegaremos ao seu território.
_ Um corvo? Nunca vi um corvo, me da um corvo de presente papai? Você sabe que amo
animais. – uma menina fala toda empolgada de dentro da carruagem.
Alguns poucos metros mais a frente Robert ouve aquele mesmo grasnar de antes, ele olha para
os lados procurando aquele maldito pássaro até que o encontra em cima de um galho na beira
da estrada e logo abaixo dele um corpo de uma criança imóvel. Por algum motivo que nem
mesmo ele sabe ele parou a carruagem e correu até a criança fazendo toda a caravana parar no
meio do caminho.
_ Papai você está ouvindo isso, o corvo de novo! – a menina fala já se colando de pé e saindo
pela porta da carruagem!
_ Alice não saia da carruagem assim é perigoso! – o homem grita de dentro da mesma e vendo
que já era tarde demais para segurar sua filha ele sai logo atrás.
Os guardas se mobilizam para frente da carruagem, o caos se instaura naquele lugar.
_ Robert, quem te deu a permissão de para e ainda mais sair da carruagem assim? E você Alice,
está mais louca que Robert? Saindo de dentro da carruagem como uma louca, você sabe muito
bem que as estradas estão repletas de bandidos e monstros. – O homem alto, com o corpo
largo e o rosto rechonchudo berra para os dois a sua frente.
_ Me desculpe Conde Augustus, não sei o que deu em mim, mas quando eu vi esse garoto senti
que era minha obrigação parar para ver como ele está, e olho como esse corvo está agindo
estranho. – Robert fala ao conde.
_ Ele ainda está vivo né, então arrume algum espaço em alguma das outras carruagens e
vamos leva-lo, podemos o ensinar alguma coisa e a Alice está muito interessada nesse corvo
estranho que parece que está cuidando dessa criança. – Augustus fala para Robert com alguma
empatia na voz, provavelmente porque aquela criança teria a mesma idade do que seu filho
mais velho que faleceu a alguns anos atrás.
Um tempo depois o garoto acorda assustado, está em uma cama, limpo e com roupas novas,
dentro de um quarto que nunca viu na vida, desesperado ele procura por Midi com os olhos e
a encontra em cima da cabeceira da cama. Um homem alto, com um corpo atlético, de cabelos
e barba negros, uma cicatriz próxima ao olho no lado esquerdo do rosto entra no quarto
trazendo uma bandeja com comida e água. O garoto nem pensa duas vezes e pula em cima da
comida. Depois de um tempo ele descobre que o nome do homem era Robert e que ele estava
no Condado de Arkalis e que o tinha encontrado desmaiado do lado da estrada por causa
daquele corvo barulhento.
Dias se passaram até que o garoto foi apresentado ao Conde Augustus, como já era de
conhecimento de todos que ele não se lembrava do seu nome o Conde não fez questão em
perguntar. Ele falou para o garoto que daquele dia em diante ele iria servir como empregado
pessoal de Alice, que era sua filha, e com o tempo e o treinamento correto ele também iria se
tornar seu guarda costas. O menino logo agradeceu ao conde e aceitou sua proposta.
Um ano depois ele já servia a Lady Alice como mordomo pessoal, o garoto tinha aprendido a
etiqueta em uma velocidade assustado, até parecia que ele já sabia de tudo e apesar de sua
falta de músculos ele era bem habilidoso com as artes da guerra, nada extraordinário, mas ele
estava a cima da média para crianças de sua idade. E como ele se mostrou um combatente
digno de reconhecimento até do Conde, ele o deu o nome de Lui, que significa grandioso
guerreiro. Era isso que ele esperava para o futuro do menino.
Porém os outros servos do Conde, tirando Robert, não se sentiam a vontade com o garoto,
aqueles olhos amarelados lembrava-os de olhos de monstros, demônios e Lui se movia pelas
sombras e silenciosamente, parecendo um predador caçando sua presa.
Lui ganhou alguns torneios e trouxe muita fama ao condado de Arkalis., as outras pessoas
começaram a ter inveja do garoto, pois ele estava tendo mais atenção do Conde doque certos
nobres, então se reuniram e armaram contra o menino. Vários objetos de valor sumiram do
castelo, e foram encontrados no quarto de Lui. Ele sem saber o que fazer e falando que não
tinha feito nada as pessoas não acreditavam nele. Preso em uma cela por dois dias até que
Robert apareceu no meio da noite.
_Rápido Lui, você tem que sair daqui. Nobres estão pressionando o Conde para que você tenha
pena de morte, eu e ele sabendo que você não fez isso, você nos serviu bem nesses dois anos e
meio, porém se destacou mais do que os outros, jovens nobres que treinam a mais tempo que
você e não conseguem fazer as coisas que você faz e um boato se espalhou pela cidade que
você tem algum pacto com um ser demoníaco e que conversa com a Midi.
Robert entregou uma bolsa com roupas, comida e um pouco de dinheiro e aquela capa velha e
mandou eu partir, não antes de me dar um abraço e se despedir.
Lui saiu escondido de Arkalis, um tempo depois Midi o encontrou e os dois caminharam sem
rumo. Passaram por vários problemas no meio do caminho, uma vez ele foi ferido por bandidos
e quando estava quase para se morto ele descobriu seus poderes mágicos, isso que o salvou.
Outra vez ele estava passando por uma floresta e viu fumaça vindo de um lugar e quando a
encontrou ele viu que um grupo de gnolls tinham invadido uma cabana, matado todas as
pessoas e saqueado tudo, Lui com pesar no coração juntou aqueles pobres corpos e os
queimou, uma oração meio macabra surgiu em sua mente e ele a pronunciou em voz alta.
“Ó Soberana das Sombras,
Rainha dos Corvos, Guardiã das Almas Perdidas,
Que tua presença envolva aqueles que partem,
E que teus olhos vejam além do véu da morte.
Mestre do Destino,
Tu que caminhas entre o crepúsculo e a eternidade,
Guia-nos para longe das ilusões do medo,
E concede-nos a força para aceitar o ciclo da vida.
Que teu toque nos mantenha lúcidos diante da mortalidade,
Que tua asa negra nos proteja contra os horrores do além,
E que, quando o momento chegar,
Sejamos recebidos com honra em tua corte sombria.
Ó Rainha Eterna,
Que teus corvos anunciem os presságios,
E que tua vontade nos guie na escuridão.
Com respeito e devoção,
Nos curvamos diante de teu poder imortal.
Assim seja!”
Assim que ele terminou a oração ele abasteceu suas provisões com o que tinha sobrado e
encontrou um chapéu preto e pontiagudo, ele gostou muito e o pegou e se despediu da casa.
Depois disso coisas estranhas começaram a acontecer com Lui e cada vez mais Midi agia
estranhamente até que um dia uma voz familiar vinda dela pediu para que ele fizesse uma
coisa completamente aleatória, era pra roubar uma moeda de prata de um nobre em uma
certa cidade e jogar num poço de uma fazendo abandonada. Sem discutir Lui fez o que a voz
pediu. E hoje ele está aqui nesse lugar, esperando a sua refeição chegar, enquanto ouve uma
boa musica de um grupo de bardo, o Sistema Feudal.