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Modalização e Advérbios na Linguagem

A obra 'Os construtores' de Fernand Léger retrata uma visão avaliativa dos trabalhadores da construção, utilizando a técnica de corte da imagem para criar uma sensação de continuidade. O texto explora a função dos advérbios como modalizadores que expressam avaliações e julgamentos, além de discutir a importância das preposições na construção de sentido. Modalizações lógicas, apreciativas e deônticas são abordadas como ferramentas para entender e produzir textos com diferentes nuances de significado.

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Modalização e Advérbios na Linguagem

A obra 'Os construtores' de Fernand Léger retrata uma visão avaliativa dos trabalhadores da construção, utilizando a técnica de corte da imagem para criar uma sensação de continuidade. O texto explora a função dos advérbios como modalizadores que expressam avaliações e julgamentos, além de discutir a importância das preposições na construção de sentido. Modalizações lógicas, apreciativas e deônticas são abordadas como ferramentas para entender e produzir textos com diferentes nuances de significado.

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Os construtores, 1950.

© Léger, Fernand/ AUTVIS, Brasil, 2021.


Foto: Sandor Esik/Alamy/Fotoarena
Localização: Museu Nacional
Fernand Léger, Biot.

FRENTE 1

CAPÍTULO Modalização, conexão e sentido

3
A obra Os construtores, de autoria do pintor cubista francês Fernand Léger
(-), evidencia um ponto de vista avaliativo do artista. A tela retrata
um edifício por meio da técnica de corte da imagem, ou seja, faz com que
pareça se prolongar indefinidamente em todas as direções. Os trabalhadores,
que se assemelham a robôs, movimentam-se sobre as vigas, e as nuvens con-
trastam em forma e cor com a estrutura metálica do edifício em construção.
Em analogia, na língua portuguesa também há palavras que expressam o pon-
to de vista do interlocutor, como os advérbios; e as vigas do edifício da pintura
podem ser comparadas à classe de palavras cuja função é estabelecer cone-
xões entre as palavras para “construir” sentidos: as preposições.

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Advérbio: modalização e expressividade
Ao observar a obra Os construtores na abertura deste capítulo, podemos afirmar que sua composição evidencia um
ponto de vista avaliativo de Léger sobre os trabalhadores de uma construção. Nas línguas, existem alguns termos cuja
função é expressar as avaliações e os julgamentos do interlocutor sobre o que é apresentado. Esses termos, em sua
maioria advérbios, são chamados modalizadores.
Em capítulos anteriores, estudamos brevemente os advérbios. Do ponto de vista morfológico, os advérbios são pala-
vras invariáveis, e é isso que os diferencia dos adjetivos, posto que muitos adjetivos funcionam similarmente a advérbios,
como você pode observar em:
• Agora é meio-dia e meia.
• Estou meio cansada.
Veja que, no primeiro caso, o vocábulo “meia” concorda com “hora”, substantivo feminino; logo, trata-se de um adje-
tivo. Já no segundo exemplo, não há essa concordância, pois “meio” é um advérbio modificador do adjetivo “cansada”,
portanto é invariável.
Os advérbios são palavras que podem estar relacionadas ao verbo, ao adjetivo ou a outro advérbio, classes modifi-
cadas por eles. Veja a seguir o quadro de alguns exemplos de advérbios e de locuções adverbiais.

Classificação Advérbio Locuções adverbiais


Afirmação realmente; certamente; sim. com certeza; de fato; sem dúvida.
Dúvida talvez; porventura; possivelmente. quem sabe; por certo.
Intensidade menos; mais; bastante. por demais; de todo.
Lugar dentro; fora; abaixo; acima. em cima; à direita; ao lado de.
Modo rapidamente; devagar; mal; simplesmente. às pressas; ao contrário de.
Negação nunca; jamais; não; absolutamente. de modo algum; de forma alguma.
Tempo sempre; nunca; depois; ontem. em breve; à tarde; de manhã.
Ordem primeiramente; ultimamente. em primeiro lugar; antes de tudo.
Inclusão somente; inclusive; senão (exclusão). além disso; em adição.
Designação eis. −

Também há alguns advérbios interrogativos, que possuem valores semânticos de:


• Causa: por quê? • Modo: como?
Por que não fala comigo? Como está o planejamento dos seus estudos?
Não sei por que não fala comigo. Preciso saber como está o planejamento dos seus estudos.
• Lugar: onde? • Tempo: quando?
Onde fica a sua nova casa? Quando estaremos juntos de novo?
Não sei onde fica sua nova casa. Quero saber quando estaremos juntos de novo.
Algumas palavras, mesmo que tenham características semelhantes aos advérbios, não são consideradas dessa classe
gramatical. Na Morfologia, são palavras invariáveis, mas do ponto de vista sintático guardam diferenças com o uso dos
advérbios. Em relação ao valor semântico, essas palavras têm importância no contexto em que se encontram, por isso
recebem o nome de palavras denotativas ou locuções denotativas.
Leia a tirinha a seguir.
Armandinho, de Alexandre Beck

Apesar de os termos “lá” e “agora” não alterarem nenhuma das palavras da tirinha, eles são essenciais para a compreensão do que é enunciado.

88 LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 3 Modalização, conexão e sentido

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Os termos “lá” e “agora”, no contexto da tirinha, não “Estamos vivendo um caos e, infelizmente, acho
alteram um verbo nem um adjetivo e tampouco outro ad- que vai piorar”, diz médica
vérbio. Porém, podemos observar que essas palavras têm
FERNANDES, Daniel. CNN Brasil, 28 fev. 2021.
significado importante para a compreensão da tira, pois
denotam sentido que interfere na construção da mensagem Outros modalizadores apreciativos: alegremente; fe-
a ser transmitida. O quadro a seguir exemplifica algumas lizmente; lamentavelmente etc.
palavras denotativas. • Modalizações deônticas
Palavras ou locuções denotativas Consistem em apresentar as informações como domí-
nio do direito, da obrigação social e/ou da conformidade
Valor semântico Exemplo
com as normas. Leia a manchete a seguir.
Eu sei lá quanto
Realce: lá; cá; só; é que etc.
anos você tem. Pandemia aumenta casos de depressão e
Retificação: aliás; ou melhor; Ele gosta de viajar, é preciso buscar ajuda, alerta médica
ou antes etc. ou melhor, adora.
MEDEIROS, Tiago. Agência Senado, 17 mar. 2021.
Situação: afinal; agora;
Afinal, você irá conosco?
então etc. Outros modalizadores deônticos: deve ser; não pode,
Explicação: isto é; por exem- Tenho três sapatos, isto é, obrigatoriamente, necessariamente etc.
plo; ou seja etc. três tênis.
Nos títulos jornalísticos apresentados, podemos obser-
Como estudamos até aqui, os advérbios podem ex- var que a marcação linguística da modalização ocorre por
pressar diferentes valores, que, na produção textual, podem unidades diversas. Veja o quadro.
indicar posicionamentos do enunciador.
certamente; provavelmente;
Quando produzimos um texto, escrito ou oral, temos a
Advérbios e evidentemente; talvez; verdadeiramente;
equivocada impressão de que somos inteiramente respon- locuções adverbiais sem dúvida; felizmente; infelizmente;
sáveis por nossos dizeres. No entanto, em todo texto que obrigatoriamente; deliberadamente etc.
planejamos estamos estabelecendo diálogos com diversos
Verbos auxiliares poder; querer; dever; ser etc.
outros autores, ideias e posicionamentos. Essas outras “vo-
zes” com as quais tecemos uma relação de concordância ou Orações impessoais
é provável que; é lamentável que;
oposição são chamadas discursos alheios. Frente a eles nos admite-se geralmente que etc.
posicionamos para avaliar e julgar. Essas avaliações e esses Tempos verbais do
poderia; teria; seria etc.
julgamentos são denominados modalizações. modo condicional

Conhecer as modalizações pode nos ajudar na com-


Saiba mais
preensão e produção de textos. Vamos analisar a seguir o
O linguista russo Valentin Volóchinov (-) foi um cartaz de uma campanha de doação de órgãos, a fim de
dos principais pesquisadores que estudaram o discurso estudar os possíveis efeitos de sentido dos modalizadores.
alheio. Para o estudioso, toda comunicação humana é

Reprodução
dialógica, isto é, tecida por textos nos quais são/foram re-
tomados os discursos alheios do passado ou do presente.

As modalizações podem ser reconhecidas por um


conjunto de unidades linguísticas que já estudamos em
capítulos anteriores. Há três principais funções de modali-
zação. Vamos conhecê-las:
• Modalizações lógicas
Apresentam os conteúdos do ponto de vista de suas
condições de verdade, como fatos atestados, certos, pos-
síveis, prováveis e eventuais. Veja a manchete a seguir.

Astrônomos descobrem novo tipo de exoplaneta


possivelmente habitável
HARADA, Eduardo. TecMundo, 27 ago. 2021.

Outros modalizadores lógicos: certamente; evidente-


mente; talvez; é evidente que etc.
• Modalizações apreciativas
FRENTE 1

Consistem em uma avaliação subjetiva, apresentando


as informações de uma perspectiva benéfica, maléfica, es- No contexto comunicativo do cartaz, o advérbio “sempre” traz uma ideia
tranha, alegre ou triste. Observe o título a seguir. de certeza.

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Vejamos as orações em destaque no cartaz: “Você sempre doou o que não lhe servia mais. Faça o mesmo com os
seus órgãos”. O advérbio “sempre” tem valor de tempo, porém, tal qual foi empregado no cartaz, passa a expressar um
ponto de vista de certeza, uma modalização lógica, pois, na perspectiva do enunciador, o leitor do cartaz “sempre” fez
doações de seus pertences (roupas, brinquedos e objetos diversos), assim como os representados na imagem do pulmão;
por isso, é certo que o leitor também doará seus órgãos para salvar vidas. Caso o ponto de vista de certeza não tivesse
sido empregado, o efeito argumentativo seria menor, logo a adesão à campanha também.

Grau comparativo e grau superlativo


O parágrafo a seguir é parte da conclusão de uma redação do Enem  que recebeu a nota máxima. O tema da
redação era “Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil”. Leia o fragmento e observe o uso
das palavras em destaque.
Tal ação deve ocorrer por meio da criação de um Projeto Nacional de Acesso à Certidão, a qual irá promover, nas escolas
públicas de todos os 5570 municípios brasileiros, debates acerca da importância do documento de registro civil para a preservação
da cidadania, os quais irão acontecer tanto extracurricularmente quanto nas aulas de sociologia.
DIAS, Giovanna Gamba. In: BRASIL. A redação do Enem 2022: cartilha do participante. Brasília: MEC; Inep, 2022. Disponível em: [Link]
download/enem/cartilha_do_participante_enem_2022.pdf. Acesso em: 1o jul. 2023.

A expressão “tanto extracurricularmente quanto” indica o modo como deverá ocorrer o Projeto Nacional de Acesso à
Certidão – sugerido pela autora do texto –, o qual visa promover igualmente dentro e fora da escola a importância do registro
civil para a cidadania. Alguns advérbios, principalmente os que indicam circunstância de modo, são passíveis de gradação,
de forma semelhante ao que ocorre com os adjetivos na construção dos graus comparativo e superlativo. Esse uso também
pode evidenciar uma modalização apreciativa de quem escreve determinado texto, isto é, uma avaliação subjetiva.
No quadro a seguir, veja como são construídos o comparativo e o superlativo dos advérbios.

Grau dos advérbios


De inferioridade: Compara algo a outro, demarcando inferioridade.
Composto de: menos + advérbio + que/do que.
Ex.: Ela correu menos rápido do que eu.
De igualdade: Compara algo a outro, demarcando igualdade.
Comparativo
Composto de: tão/tanto + advérbio + quanto/como.
Compara algo
Ex.: Ela correu tão rápido quanto eu.
De superioridade: Compara algo a outro, demarcando superioridade.
Composto de: mais + advérbio + que/do que.
Ex.: Ela correu mais rápido do que eu.
Absoluto analítico: É acompanhado de outro advérbio que altera o grau de intensidade.
Composto de: muito + advérbio.
Superlativo Ex.: Ela correu muito rápido.
Expressa qualidades em
níveis elevados ou máximos Absoluto sintético: Altera o advérbio devido ao uso de um sufixo.
Composto de: advérbio + sufixo “-íssimo”.
Ex.: Ela correu rapidíssimo.

Preposição: conceito e classificação


A preposição (pré + posição) serve de instrumento de ligação entre dois segmentos do enunciado, de modo que a
sequência colocada após a preposição explica ou completa o sentido da que precede a preposição. Leia o excerto de
notícia a seguir.

Redação do Enem tem como tema A falta de empatia nas relações sociais
A falta de empatia nas relações sociais no Brasil é o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) aplicado
hoje (23), tanto para estudantes que tiveram as provas canceladas por conta da pandemia do novo coronavírus (covid-19) quanto
para aqueles que pediram para participar da reaplicação do exame porque foram prejudicados na aplicação regular, e para os
candidatos privados de liberdade.
[...]
A opinião do autor deve estar fundamentada com explicações e argumentos, ou seja, na redação o participante deverá
dissertar sobre o assunto proposto descrevendo-o e explicando-o. Além disso, é necessário defender a opinião colocada na
construção textual, com o objetivo de convencer o leitor com base em argumentos. A redação deve ter, no máximo, 30 linhas e
o texto deverá ser desenvolvido a partir da situação-problema apresentada e dos subsídios oferecidos pelos textos motivadores.
A prova de redação é a única subjetiva do exame e tem, por isso, critérios especiais de correção [...]
TOKARNIA, Mariana. Agência Brasil, 23 fev. 2021. Disponível em: [Link]
tema-falta-de-empatia-nas-relacoes-sociais. Acesso em: 6 jul. 2023.

90 LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 3 Modalização, conexão e sentido

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As palavras destacadas no texto são preposições. Observe que a função dessas palavras é conectar dois termos,
contribuindo para a construção de sintagmas.

Atenção
Sintagma é o conjunto de palavras organizadas em torno de um núcleo. O sintagma pode ser nominal, se o núcleo for um
nome, ou verbal, se o núcleo for um verbo.

Vamos analisar duas construções desse fragmento que utilizaram os verbos “pedir” e “dissertar”, respectivamente.
[...] aqueles que pediram para participar da reaplicação do exame [...]
A depender da preposição com a qual o verbo se junta, o sentido que expressa é diferente. No exemplo anterior,
“pedir para” expressa um pedido de permissão, autorização ou licença. Já o sentido de “pedir a” é solicitar que alguém
atenda ao que foi pedido, como em “Pediu ao prefeito melhorias”.
Observe outro exemplo:
[...] o participante deverá dissertar sobre o assunto proposto [...]
O verbo “dissertar”, quando se junta à preposição “sobre”, tem o sentido de apresentar um assunto em detalhes, de
maneira sistemática. No entanto, ele também pode ser intransitivo, como em “Ele dissertou durante o evento”.
Em suma, as preposições estabelecem uma coesão adequada entre verbo e complemento, além de interferir na
construção de sentido, sendo, portanto, um recurso estilístico na compreensão textual.
No trecho da notícia também encontramos a expressão nominal “opinião do autor”, em que “do autor” é uma locução
adjetiva. A preposição “do” (de + o) une-se ao substantivo “opinião” para construir uma expressão modificadora.
A preposição pode ligar termos de classes gramaticais iguais, como ocorre entre os dois substantivos em “opinião
do autor”, ou de classes gramaticais diferentes, como em “dissertar sobre o assunto”, na qual estabelece conexão entre
verbo e substantivo. Nessa relação entre dois termos, o que precede a preposição é chamado subordinante, e o que a
sucede recebe o nome de subordinado.
O termo subordinante pode ser um substantivo (“redação do Enem”), um verbo (“pediram para participar”), um adjetivo
(“especial de correção”) ou um advérbio (“tanto para estudantes”). Já o subordinado pode ser um substantivo (“prova de
redação”), um pronome (“quanto para aqueles”) ou um verbo no infinitivo (“objetivo de convencer”). Por causa dessas va-
riadas possibilidades de combinações, as preposições podem participar de diferentes construções, com distintas funções
sintáticas. Confira alguns exemplos no quadro a seguir.

Sentença Preposição na construção do


Acredito em milagres. objeto indireto
Ele tem orgulho da filha. complemento nominal
O segredo de Paulo foi revelado. adjunto adnominal
Ela voltou com saudades. adjunto adverbial
A notícia foi dada por Pedro. agente da passiva

Categorização e contração das preposições


Algumas palavras sempre funcionam como preposições, por isso são chamadas preposições essenciais. Outras são as
preposições acidentais, isto é, embora pertençam a outras classes de palavras, funcionam como preposição dependendo
do contexto. A maior parte dessas preposições é derivada de advérbios de lugar, mas também podem surgir de outras
categorias gramaticais, como adjetivos, verbos no particípio e substantivos. Veja o quadro a seguir:

Preposições essenciais: a, ante, até, após, com, contra, de, desde, em, entre, para, perante, por, sem, sob, sobre, trás.
Preposições acidentais: afora, como, conforme, consoante, durante, exceto, malgrado, mediante, salvo, segundo.

As preposições essenciais podem se unir a outras palavras, originando locuções prepositivas. Geralmente, essas
locuções são formadas com o acréscimo de uma preposição a um advérbio ou a uma locução adverbial (depois de, junto
a, apesar de, acima de, ao redor de, em frente a etc.). Também podem ser formadas por outras classes de palavras e por
mais de uma preposição (por causa de, com base em, a partir de, em vez de etc.).
Algumas preposições contraem-se com artigos (do, às, nas, pelo), pronomes (deles, àquela, naquele) ou advérbios
(daqui, dali). Há contração quando, ao se juntar com outra palavra, a preposição sofre redução. E há combinação quando
FRENTE 1

a junção da preposição a outro termo não reduz ou altera as palavras, como ocorre com a preposição “a” ao se juntar com
o artigo masculino definido (ao, aos) e com o advérbio onde (aonde). Há ainda preposições com mais de um elemento
(desde... até, de... até) e preposições derivadas (durante, mediante, salvo etc.).

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Preposições e relações de sentido
Observe algumas das relações de sentido que as preposições podem estabelecer conforme o contexto em que são
empregadas.

Preposição Exemplos Relação de sentido


Vim a cavalo. Meio
Realizou a tarefa aos gritos. Modo
a
Chegaremos ao meio-dia. Tempo
Fui a Paris. Destino
A casa de Luiza. Posse
Chorava de felicidade. Causa
de
É feito de ferro. Matéria
Minha barraca de camping. Finalidade
Limpou a casa com a vassoura. Instrumento (por meio de)
Ela estava com ele ontem. Companhia
com
Concordaram com o professor. Conformidade
Ela se parece com o pai. Comparação
Estou em meu apartamento. Lugar
Estava em desespero. Modo
em
Saíram em poucas horas. Tempo
O galpão estava em chamas. Estado ou qualidade
Chegou à empresa para se destacar. Finalidade
para
Viajamos para o campo. Lugar
Estou sem dinheiro algum. Falta, privação
sem
Ganhei sem pagar nada. Concessão

Revisando

1. Fuvest-SP 2018 Uma obra de arte é um desafio; não a explicamos, ajustamo-nos a ela. Ao interpretá-la, fazemos uso dos
nossos próprios objetivos e esforços, dotamo-la de um significado que tem sua origem nos nossos próprios modos de viver e
de pensar. Numa palavra, qualquer gênero de arte que, de fato, nos afete, torna-se, deste modo, arte moderna.
As obras de arte, porém, são como altitudes inacessíveis. Não nos dirigimos a elas diretamente, mas contornamo-las.
5 Cada geração as vê sob um ângulo diferente e sob uma nova visão; nem se deve supor que um ponto de vista mais recente é
mais eficiente do que um anterior. Cada aspecto surge na sua altura própria, que não pode ser antecipada nem prolongada;
e, todavia, o seu significado não está perdido porque o significado que uma obra assume para uma geração posterior é o
resultado de uma série completa de interpretações anteriores.
Arnold Hauser, Teorias da arte. Adaptado

No trecho “Numa palavra, qualquer gênero de arte que, de fato, nos afete, torna-se, deste modo, arte moderna”
(L. 2-3), as expressões sublinhadas podem ser substituídas, sem prejuízo do sentido do texto, respectivamente, por
a) realmente; portanto.
b) invariavelmente; ainda.
c) com efeito; todavia.
d) com segurança; também.
e) possivelmente; até.

2. Uece

MENSAGEM DE NATAL
Um cartão de Natal com um desenho colorido de Papai Noel e uma menina, postado em 1914, chegou a seu destino
na cidade americana de Oberlin, no estado do Kansas, depois de ficar extraviado durante 93 anos. O cartão, datado de 23
de dezembro de 1914, tinha sido enviado a Ethel Martin, de Oberlin. Ethel Martin nunca chegou a ler a mensagem de Natal.
Ela morreu antes de receber o cartão. (17/12/2007)

92 LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 3 Modalização, conexão e sentido

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5 Para ele, o fim do ano era sempre uma época dura, I. Modifica o processo expresso pela forma verbal
difícil de suportar. Sofria daquele tipo de tristeza mórbida resistiu.
que acomete algumas pessoas nos festejos de Natal e de
II. Contribui significativamente para traçar o perfil da
Ano Novo. No seu caso havia uma razão óbvia para isso:
personagem “filho”.
aos setenta anos, solteirão, sem parentes, sem amigos, não
10 tinha com quem celebrar, ninguém o convidava para festa III. Mantém relação semântica com o trecho Não se
alguma. O jeito era tomar um porre, e era o que fazia, tratava de tarefa fácil: como ele, a mãe era uma
mas o resultado era melancólico: além da solidão, tinha mulher amargurada (linhas -).
de suportar a ressaca. Está correto o que se declara
No passado, convivera muito tempo com a mãe. Fi- a) apenas em I. c) apenas em II e III.
15 lho único, sentia-se obrigado a cuidar da velhinha que b) apenas em I e II. d) em I, II e III.
cedo enviuvara. Não se tratava de tarefa fácil: como ele,
a mãe era uma mulher amargurada. Contra sua vontade, 3. Uespi 2017
tinha casado, em 31 de dezembro de 1914 (o ano em
que começou a Grande Guerra, como ela fazia questão DA FELICIDADE
20 de lembrar), com um homem de quem não gostava, mas Quantas vezes, a gente em busca de ventura.
que pais e familiares achavam um bom partido. Resultado Procede tal e qual o avozinho infeliz:
desse matrimônio: um filho e longos anos de sofrimen- Em vão por toda a parte, os óculos procura,
to e frustração. O filho tinha de ouvir suas constantes e Tendo-os na ponta do nariz!
ressentidas queixas. Coisa que suportava estoicamente; Mario Quintana. In: Mario Quintana de bolso. Porto Alegre:
25 não deixou, contudo, de sentir certo alívio quando de seu L&PM, 1997, p. 39
falecimento, em 1984. Este alívio resultou em culpa, uma A expressão em vão, verso 03, tem o mesmo sentido de:
culpa que retornava a cada Natal. Porque a mãe falecera
a) Ansiosamente.
exatamente na noite de Natal. Na véspera, no hospital,
b) Cuidadosamente.
ela lhe fizera uma confissão surpreendente: muito jovem,
c) Inutilmente.
30 apaixonara-se por um primo, que acabou se transforman-
d) Visivelmente.
do no grande amor de sua vida. Mas a família do primo
mudara-se e ela nunca mais tivera notícias dele. Nunca
e) Desesperadamente.
recebera uma carta, uma mensagem, nada. Nem ao menos
um cartão de Natal. 4. EEAR-SP 2023 Leia os provérbios abaixo:
35 No dia 24 pela manhã ele encontrou um envelope I. Muito riso, pouco siso.
na caixa do correio. Como em geral não recebia corres- II. O muito sem Deus não é nada.
pondência alguma, foi com alguma estranheza que abriu III. Muito ajuda quem não atrapalha.
o envelope.
Era um cartão de Natal, e tinha a falecida mãe como A palavra “muito” neles presente é advérbio somente em
40 destinatária. Um velhíssimo cartão, uma coisa muito antiga, a) III. c) I e III.
amarelada pelo tempo. De um lado, um desenho do Papai b) I e II. d) II e III.
Noel sorrindo para uma menina. Do outro lado, a data:
5. AFA-SP 2017
23 de dezembro de 1914. E uma única frase: “Eu te amo”.
A assinatura era ilegível, mas ele sabia quem era o PARA SEMPRE JOVEM
45 remetente: o primo, claro. O primo por quem a mãe se
Recentemente, vi na televisão a propaganda de um jipe
apaixonara, e que, através daquele cartão, quisera associar
que saltava obstáculos como se fosse um cavalo de corrida.
o Natal com uma mensagem de amor. Uma nova vida era
Já tinha visto esse comercial, mas comecei a prestar atenção
o que estava prometendo. Esta mensagem e esta promessa
na letra da música, soando forte e repetindo a estrofe de
jamais tinham chegado a seu destino. Mas de algum modo
5 uma canção muito conhecida, “forever Young... I wanna
50 o recado chegara a ele. Por quê? Que secreto desígnio
live forever and Young... (para sempre jovem... quero viver
haveria atrás daquilo?
para sempre e jovem)”. Será que, realmente, queremos viver
Cartão na mão, aproximou-se da janela. Ali, parada
muito e, de preferência, para sempre jovens? [...]
sob o poste de iluminação, e provavelmente esperando o
O crescimento da população idosa nos países desen-
ônibus, estava uma mulher já madura, modestamente ves-
10 volvidos é uma bomba-relógio que já começa a implodir
55 tida, uma mulher ainda bonita. Uma desconhecida, claro,
os sistemas previdenciários, despreparados para amparar
mas o que importava? Seguramente o destino a trouxera
populações com uma média de vida em torno de 140
ali, assim como trouxera o cartão de Natal. Num impulso,
anos. A velhice se tornou uma epidemia incontrolável
abriu a porta do apartamento e, sempre segurando o car-
nos países desenvolvidos. Sustentar a população idosa
tão, correu para fora. Tinha uma mensagem para entregar
15 sobrecarrega os jovens, cada vez em menor número, pois,
60 àquela mulher. Uma mensagem que poderia transformar
nesses países, há também um declínio da natalidade. Será
a vida de ambos, e que era, por isso, um verdadeiro pre-
isso socialmente justo?
sente de Natal.
Uma pessoa muito longeva consome uma quantidade
FRENTE 1

(Moacyr Scliar. Histórias que os jornais não contam.)


total de alimentos muito maior do que as outras, o que
Considere as proposições sobre o uso do advérbio 20 contribui para esgotar mais rapidamente os recursos finitos
estoicamente (linha 24). do planeta e agravar ainda mais os desequilíbrios sociais.

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Para que uns poucos possam viver muito, outros terão resigna-se a escutar durante 20 minutos, no volume mais
de passar fome. Será que, em um futuro breve, teremos possante, o rádio despejando assaltos e homicídios do dia.
uma guerra de extermínio aos idosos, como na ficção do Os tiros, os gemidos, os desabamentos o acompanharão
25 escritor argentino Bioy Casares, O diário da guerra do ______ todo o percurso. É a fatalidade da vida, quando se
porco? Seria uma guerra justa? [...] tem pressa.
(TEIXEIRA, João. Para sempre jovens. In: Revista Filosofia: ciência & vida. Mas eis que o motorista pega de um imprevisto casse-
Ano VII, n. 92, março-2014, p. 54.)
te, coloca-o no lugar devido, liga, e os acordes dos Contos
Elementos de modalização são responsáveis por ex- dos Bosques de Viena irrompem do fusca amarrotado, mas
pressar intenções e pontos de vista do enunciador. digno.
Por intermédio deles, o enunciador inscreve no texto Bem, não é a Nona Sinfonia nem um título menor da
seus julgamentos e opiniões sobre o conteúdo, forne- grande música, mas não estamos na Sala Cecília Meireles,
cendo ao interlocutor “pistas” de reconhecimento do e isso vale como homenagem especial a um passageiro
efeito de sentido que pretende produzir. Observe os distinto, que pede por favor. Cumpre agradecer a fineza:
— Obrigado. O senhor mostra que tem satisfação em
elementos de modalização destacados nos excertos
agradar aos passageiros, oferecendo-lhes música e não
e as respectivas análises.
barulho e crimes.
I. “...e agravar ainda mais os desequilíbrios sociais.”
— Não tem de quê. O senhor também aprecia?
(l. ) – O advérbio destacado ratifica a ideia de
— O quê?
que a situação que já é caótica vai piorar.
— Strauss. É um dos meus prediletos.
II. “...terão de passar fome.” (l.  e ) – O verbo
— Sim, ele é agradável. O senhor está sendo gentil
auxiliar utilizado ressalta a total falta de saída para comigo.
os jovens. — Ora, não é tanto assim. Pus o cassete porque gosto
III. “Será que, realmente, queremos viver muito...” (l.  de música. Não sabia se o senhor também gostava ou
e ) – O advérbio utilizado reforça o questiona- não. Se não gostasse, eu desligava. Portanto, não tem que
mento sobre o desejo de viver muito, presente no agradecer.
senso comum. — E já lhe aconteceu desligar?
IV. “...queremos viver muito e, de preferência, para — Ih, tantas vezes. Fico observando a fisionomia do
sempre jovens?” (l.  e ) – A locução adverbial su- passageiro. Uns, mais acanhados, disfarçam, não dizem
gere que a vida longa será também de qualidade. nada, mas tem outros que reclamam, não querem ouvir
Apresentam afirmações corretas as alternativas esse troço. O senhor já pensou: chamar Tchaikovski de
a) I e II apenas. c) I, II e III apenas. “esse troço”? Pois ouvi isso de um cidadão de gravata e
b) III e IV apenas. d) I, II, III e IV. pasta de executivo. Ele disse que precisava se concentrar
por causa de um negócio importante e Tchaicovski per-
6. UFJF-MG 2019 A terceira parte de Um livro de ins- turbava a concentração.
truções e desenhos de Yoko Ono, da artista plástica, — Ele talvez quisesse dizer que ficava tão empolgado
compositora e escritora Yoko Ono (Tóquio, 1933-), é pela música que esquecia o negócio.
intitulada “Evento”. Nele, Yoko Ono fornece “instru- — Pois sim! Nesse caso, não falaria “esse troço”, que
ções” para que seus leitores produzam eventos. é o cúmulo da falta de respeito.
— Estou adivinhando que o senhor toca um instrumento.
Evento do cheiro I — Como é que o senhor viu?
Envie o cheiro da Lua. — Porque uma pessoa que gosta tanto de música, em
geral toca. Seu instrumento qual é? Virou-se com tristeza
Evento do cheiro II na voz:
Envie um cheiro para a Lua. — Atualmente nenhum. O senhor sabe, essa crise geral,
(ONO, Yoko. Grapefruit – A Book of Instruction and Drawings by Yoko a gasolina pela hora da morte, e não é só a gasolina: a
Ono. Nova Iorque: Simon & Schuster, 2000[1964].)
comida, o sapato, o resto. Tive de vender pra tapar uns
No texto, há uma mudança de preposições do Evento buracos. Mas se as coisas melhorarem este ano...
I para o II, em que o “da” passa a ser “para”. Sobre — Melhoram. As coisas têm de melhorar – achei _____
essas preposições podemos dizer que: meu dever confortá-lo.
a) No Evento I, a Lua é a possuidora do cheiro. — Porque clarinetista sem clarinete, o senhor sabe, é
b) No Evento I, a Lua é a mensageira do cheiro. um negócio sem sentido. Clarinete tem esta vantagem: dá
c) No Evento I, a Lua é para onde o cheiro é enviado. o recado sem precisar de orquestra. Um solo bem executa-
d) No Evento II, a Lua é o agente do envio do cheiro. do, não precisa mais pra encantar a alma. Mas clarinetista,
sozinho, fica até ridículo.
e) No Evento II, a Lua é o lugar onde estava o cheiro.
— Não diga isso. E não desanime. O dia em que arran-
7. IFPR 2015 jar outro clarinete – quem sabe?, talvez até seja o mesmo
que lhe pertenceu – será uma festa.
MÚSICA NO TÁXI — Mas se demorar muito eu já estarei tão desacostu-
Carlos Drummond de Andrade mado que nem sei se volto a tocar razoavelmente. Porque,
Quando menos se espera... Você pega o táxi, manda o senhor compreende, eu não sou um artista, minha vida
tocar ________ seu destino (manda, não, pede por favor) e não dá folga pra estudar nem meia hora por dia.

94 LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 3 Modalização, conexão e sentido

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— O importante é gostar de música, ter amor e devo- acordo com a dermatologista Patrícia Mafra (SP), esse
ção por música, e está se vendo que o senhor tem de sobra. antioxidante ajuda no combate aos radicais livres e evita
— Lá isso tá certo. o envelhecimento precoce da pele causado pelos raios
— Não importa que o senhor não seja solista de uma ultravioleta.
grande orquestra, e mesmo de uma orquestra comum. Nin- [...]
guém precisa ser grande em nada, uma vez que cultive
alguma coisa bonita na vida. Cuidados importantes
Seu rosto iluminou-se. Para quem apresenta problemas digestórios, como
— Que bom ouvir uma coisa dessas. Agora vou lhe a gastrite, a recomendação é tomar cuidado. “Esse é um
confessar que isso de não ser músico dos tais que arreba- alimento ácido, que aumenta a produção de ácido clorí-
tam o auditório sempre me doeu um pouco. Não era por drico, causando mais dor”, adverte Amanda. Ela também
vaidade não, quem sou pra ter vaidade? Mas um sonho alerta sobre a quantidade de potássio contida no tomate,
esquisito, sei lá. Ficava me imaginando num palco ilumi- que pode aumentar a formação de cálculos renais, princi-
nado, tocando... Bobagem, o senhor desculpe. Agora a palmente para as pessoas que possuem essa predisposição.
sua palavra deixou tudo claro. Basta eu gostar de música. Em relação ao consumo, 100 g de tomate (algo como
Não é preciso que gostem de mim, nem que ela goste de uma unidade grande) forneceriam cerca de 6% da dose
mim. Obrigado ao senhor. diária recomendada de potássio para adultos. A maior
Olhei o taxímetro, tirei a carteira. ingestão do nutriente na dieta está associada a menores
— Eu nem devia cobrar do senhor. Fico até encabulado! taxas de acidente vascular cerebral (AVC) e pode diminuir
(Boca de Luar, 6 ed. pág. 69-71, Editora Record, Rio, 1987) a incidência de doenças cardiovasculares. A nutricionista
Regina recomenda incluí-lo no cardápio diariamente e
Assinale a alternativa que preenche corretamente as
acrescenta: “Existe uma vantagem no consumo cozido,
lacunas de linha contínua do texto:
porque nosso organismo absorve melhor o licopeno, es-
a) para o – por – do. pecialmente quando regado com um fio de azeite”.
b) ao – a – o. [...]
c) a – em – no. VIEIRA, Mariana; TORETTA, Murilo. Tomate, o diurético natural.
d) à – a – o. VIVASAÚDE. São Paulo: Editora Escala, Ed. 188, jan. 2019. p. 36-39.
[Adaptado].
e) até o – por – em.
Para responder à questão, considere o excerto abaixo.
8. UFRN 2019 (Adapt.)
A[1] maior ingestão do nutriente na dieta está asso-
TOMATE, O DIURÉTICO NATURAL ciada a[2] menores taxas de acidente vascular cerebral
Quem tem raízes italianas sabe que o tomate é um (AVC) e pode diminuir a[3] incidência de doenças car-
fruto indispensável no preparo de refeições. Ingrediente diovasculares.
principal de molhos, ele faz parte do dia a dia dos brasilei- Os elementos linguísticos [1], [2] e [3] são, respectivamente,
ros, acompanhando massas, cortado na salada, picado no a) preposição, preposição e artigo.
vinagrete, batido na sopa ou até em forma de suco. Caqui, b) artigo, preposição e artigo.
cereja, italiano, o que não faltam são opções para quem c) artigo, artigo e preposição.
quiser variar no cardápio com ele, que sempre agrega d) preposição, artigo e preposição.
sabor e saúde às mais diversas refeições.
Porém, sua versatilidade não está só nos tipos. Muito 9. EsPCEx-SP 2022
saudável, é também uma boa escolha para quem busca
prevenir uma série de doenças. É o caso do câncer de Assiste à demolição
próstata: um estudo recente publicado na revista Molecular – Morou mais de vinte anos nesta casa? Então vai sentir
Cancer Research relacionou a ingestão de altos níveis de “uma coisa” quando ela for demolida. Começou a demo-
betacaroteno à prevenção do desenvolvimento de tumores lição. Passando pela rua, ele viu a casa já sem telhado, e
na região. Outro fator de saúde associado ao seu consumo operários, na poeira, removendo caibros. Aquele telhado
é a perda de peso. “O fruto auxilia no emagrecimento por que lhe dera tanto trabalho por causa das goteiras, tapa-
ter baixo valor calórico. Possui ainda propriedades desin- das aqui, reaparecendo ali. Seu quarto de dormir estava
toxicantes, influenciando positivamente o funcionamento exposto ao céu, no calor da manhã. Ao fundo, no terraço,
dos rins e promovendo efeito diurético, que aumenta a tinham desaparecido as colunas da pérgula, e a cobertura
quantidade de líquido eliminado”, explica a nutricionista de ramos de buganvília – dois troncos subindo do pátio
Amanda Maffei (SP). Ela ressalta ainda que o fruto é capaz lá embaixo e enchendo de florinhas vermelhas o chão de
de combater o acúmulo da gordura localizada graças à ladrilho, onde gatos da vizinhança amavam fazer sesta e
sua ação anti-inflamatória. surpreender tico-ticos.
Uma das substâncias do tomate que traz benefícios Passou nos dias seguintes e viu o progressivo desfa-
ao organismo é o licopeno, um carotenoide que lhe dá zer-se das paredes, que escancarava a casa de frente e
a coloração vermelha. “Esse antioxidante combate os de flancos jogando-a por assim dizer na rua. Os marcos
radicais livres, prevenindo o envelhecimento precoce e das portas apareciam emoldurando o vazio. O azul e as
FRENTE 1

protegendo o sistema cardiovascular”, pontua Amanda. nuvens circulavam pelos cômodos, em composição sur-
O carotenoide também tem sido associado aos fatores realista. E o pequeno balcão da fachada, cercado de ar,
de prevenção do câncer de próstata. Além disso, de parecia um mirante espacial, baixado ao nível dos míopes.

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A demolição prosseguiu à noite, espontaneamente. cruzam e assentam as ripas, frequentemente mais finas e com-
Um lanço de parede desabou sozinho, para fora do tapu- pridas, e sobre as quais se apoiam e se encaixam as telhas.
me, quando já cessara na rua o movimento das lotações. pérgula: s.f. espécie de galeria coberta de barrotes espa-
Caiu discreto, sem ferir ninguém, apenas avariando – des- cejados assentados em pilares, geralmente guarnecida
culpem – a rede telefônica. de trepadeiras.
A casa encolhera-se, em processo involutivo. Já agora buganvília: s.f. designação comum às plantas do gênero
de um só pavimento, sem teto, aspirava mesmo à desin- bougainvillea, trepadeira, muito cultivadas como ornamentais.
tegração. Chegou a vez da pequena sala de estar, da sala de flanco: s.m. pela lateral.
de jantar com seu lambri envernizado a preto, que ele marco: s.m. parte fixa que guarnece o vão de portas e ja-
passara meses raspando a poder de gilete, para recuperar nelas, e onde as folhas destas se encaixam, prendendo-se
a cor da madeira. E a vez do escritório, parte pensante e por meio de dobradiças.
sentinte de seu mecanismo individual, do eu mais íntimo tapume: s.m. cerca ou vala guarnecida de sebe que defen-
de uma área; anteparo, geralmente de madeira, com que
e simultaneamente mais público, eu de gavetas sigilosas,
se veda a entrada numa área, numa construção.
manuseadas por um profissional da escrita. De todo o
lambri: s.m. revestimento interno de parede, usado com
tempo que vivera na casa, fora ali que passara o maior
fim decorativo ou para proteger contra frio, umidade ou
número de horas, sentado, meio corcunda, desligado de
barulho; feito de madeira, mármore, estuque, numa só peça
acontecimentos, ouvindo, sem escutar, rumores que che- ou composto por painéis, que vão até certa altura ou do
gavam de outro mundo – cantoria de bêbados, motor de chão ao teto (mais usado no plural).
avião, chorinho de bebê, galo na madrugada. caliça: s.f. conjunto de resíduos de uma obra de alvenaria
E não sentiu dor vendo esfarinharem-se esses com- demolida ou em desmoronamento, formado por pó ou frag-
partimentos de sua história pessoal. Nem sequer a mentos dos materiais diversos do reboco (cal, argamassa
melancolia do desvanecimento das coisas físicas. Elas ressequida) e de pedras, tijolos desfeitos.
tinham durado, cumprido a tarefa. Chega o instante em lote: s.m. porção de terra autônoma que resulta de lo-
que compreendemos a demolição como um resgate de teamento ou desmembramento; terreno de pequenas
formas cansadas, sentença de liberdade. Talvez sejamos dimensões, urbano ou rural, que se destina a construções
levados a essa compreensão pelo trabalho similar, mais ou à pequena agricultura.
surdo, que se vai desenvolvendo em nós. E não é preciso
imaginar a alegria de formas novas, mais claras, a sur- Fonte: HOUAISS, A. e Villar, M. de S. Dicionário Houaiss da Língua
Portuguesa. Elaborado no Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia e
girem constantemente de formas caducas, para aceitar Banco de Dados da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro. Objetiva, 2009.
de coração sereno o fim das coisas que se ligaram à
nossa vida. No trecho “Ao fundo, no terraço, tinham desaparecido
Fitou tranquilo o que tinha sido sua casa e era um as colunas da pérgula…”, a preposição presente no
amontoado de caliça e tijolo, a ser removido. Em breve termo sublinhado encontra o mesmo emprego, quan-
restaria o lote, à espera de outra casa maior, sem sinal dele to à relação de sentido, na preposição presente no
e dos seus, mas destinada a concentrar outras vivências. termo sublinhado na sentença da alternativa:
Uma ordem, um estatuto pairava sobre os destroços, e a) “E o pequeno balcão da fachada, cercado de ar,
tudo era como devia ser, sem ilusão de permanência. parecia um mirante espacial, baixado ao nível dos
Fonte: ANDRADE, Carlos Drummond de. Cadeira de balanço. 12. ed. míopes.”
Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1979.
b) Ao chegar à Amazônia, senti estar ante um mun-
do diferente.
caibro: s.m. elemento estrutural de um telhado, geralmente c) Ao entardecer, avistei uma povoação…
peças de madeira que se dispõem da cumeeira ao frechal, d) Foi ao tribunal em obediência à intimação judicial.
a intervalos regulares e paralelas umas às outras, em que se e) Ao romper da aurora, a natureza torna-se mais
aprazível.

Exercícios propostos

Leia o trecho do livro O erro de Descartes: emoção, em que a apresentei muita gente estranhou, e mesmo a
razão e o cérebro humano, do neurocientista por- recebeu com certo ceticismo. Tudo sopesado, a ideia, em
tuguês António Rosa Damásio, para responder às grande medida, foi aceita e até, em certos casos, acolhida
questões 1 e 2. com tanta sofreguidão que acabou deturpada. Por exemplo,
nunca afirmei que a emoção era um substituto para a razão,
O principal enfoque em O erro de Descartes é a re- mas em algumas versões superficiais depreendia-se que
lação entre emoção e razão. Baseado em meu estudo de minha ideia era que se você seguisse o coração em vez da
pacientes neurológicos que apresentavam deficiências na razão tudo daria certo.
tomada de decisão e distúrbios da emoção, construí a hi- Na verdade, em certas ocasiões a emoção pode ser um
pótese de que a emoção era parte integrante do processo substituto para a razão. O programa de ação emocional que
de raciocínio e poderia auxiliar esse processo ao invés de, denominamos medo pode afastar rapidamente do perigo a
como se costumava supor, necessariamente perturbá-lo. maioria dos seres humanos com pouca ou nenhuma ajuda
Hoje em dia essa ideia já não causa espécie, mas na época da razão. Um esquilo ou um pássaro não pensa para reagir

96 LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 3 Modalização, conexão e sentido

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a uma ameaça, e o mesmo pode acontecer a um humano. Cada época tem seus padrões de sensibilidade, e os
Aí é que está a beleza no modo como a emoção tem funcio- limites do aceitável se alteram ao longo da história. Hoje,
nado no decorrer da evolução: ela abre a possibilidade de procuram-se impor novas normas, nem sempre de manei-
levar seres vivos a agir de maneira inteligente sem precisar ra razoável, com o objetivo de fazer com que também a
pensar com inteligência. Acontece que, nos humanos, essa linguagem, em sintonia com a sociedade, se torne mais
história tornou-se mais complexa, para o bem e para o mal. inclusiva.
O raciocínio faz o que fazem as emoções, mas alcança o Não surpreende, portanto, que alguns artistas, como
resultado conscientemente. O raciocínio nos dá a opção mostrou reportagem desta Folha, venham substituindo
de pensar com inteligência antes de agir de maneira inteli- algumas formulações que hoje possam soar inadequadas
gente, e isso é bom: descobrimos que muitos dos problemas na reedição de suas obras.
que encontramos em nosso complexo ambiente podem O compositor Criolo, por exemplo, decidiu abolir o
ser resolvidos apenas com emoções, porém não todos, e termo “traveco” da letra de uma de suas canções, ao re-
nestas ocasiões as soluções que a emoção oferece são, na lançá- la recentemente.
realidade, contraproducentes. Outros casos ilustram a mesma preocupação: tradu-
Mas como evoluiu nas espécies complexas o sistema ções de seriados dos anos 1970 evitam piadas ou palavras
de raciocínio inteligente? A proposta inovadora em O erro tidas como potencialmente ofensivas, e uma nova versão
de Descartes é que o sistema de raciocínio evoluiu como do popular “Os Trapalhões” abandona tiradas jocosas en-
uma extensão do sistema emocional automático, com a volvendo negros, gays e nordestinos.
emoção desempenhando vários papéis no processo de Note-se que essas correções de rumo parecem incen-
raciocínio. tivadas também por um zelo de mercado. Produtores e
(O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano, 2012. exibidores não querem correr o risco de ataque e eventuais
Adaptado.) boicotes a seus produtos.
Em momentos como o atual, de mudanças de costu-
1. Unifesp 2023 “Hoje em dia essa ideia já não causa mes, é difícil evitar que exageros entrem em cena – um
espécie, mas na época em que a apresentei muita efeito colateral sem dúvida problemático. No afã de lutar
gente estranhou, e mesmo a recebeu com certo ceti- por suas causas e defender seus representados, ativistas
cismo.” (1o parágrafo) não raro assumem papel inquisidor.
No contexto em que se insere, o termo sublinhado indica Tentativas de interditar manifestações de adversários
a) inclusão. d) comparação. ideológicos, de fomentar polarizações e de eliminar as
b) concessão. e) finalidade. possibilidades de diálogo tornaram-se frequentes e agressi-
c) condição. vas em diversos países, em meio ao que se convencionou
chamar de “guerra cultural”.
2. Unifesp 2023 O termo sublinhado em “nunca afirmei O tempo, espera-se, vai contribuir para que as tensões
que a emoção era um substituto para a razão” (1o pará- em curso deem lugar a um ponto de equilíbrio.
grafo) pertence à mesma classe gramatical do termo Folha de [Link], 30 set. 2018
sublinhado em:
O emprego do advérbio “potencialmente”, no sexto
a) “na época em que a apresentei muita gente estra-
parágrafo, implica
nhou” (o parágrafo).
a) a preocupação em reproduzir as palavras em “Os
b) “O raciocínio nos dá a opção de pensar com inteli-
Trapalhões”.
gência” (o parágrafo).
b) a potência com que palavras ofensivas são pro-
c) “a hipótese de que a emoção era parte integrante feridas.
do processo de raciocínio” (o parágrafo). c) a volta de as palavras serem empregadas joco-
d) “com a emoção desempenhando vários papéis no samente.
processo de raciocínio” (o parágrafo). d) o fato de as palavras poderem instaurar ofensas.
e) “Um esquilo ou um pássaro não pensa para reagir
a uma ameaça” (o parágrafo). 4. Unicentro-PR 2016

3. FDSBC-SP 2019

Palavras trocadas
Os movimentos politicamente corretos – que irrompe-
ram em diversos países, a começar pelos Estados Unidos,
a partir do final da década de 1980 – têm provocado uma
série de controvérsias em torno dos limites à liberdade de
expressão e dos direitos de pessoas ou coletividades a não
serem estigmatizadas por meio da linguagem.
Determinadas expressões e manifestações que em
outros tempos eram usadas publicamente para se referir
FRENTE 1

a certos grupos sociais, como negros, mulheres e homos-


sexuais, são agora objeto de contestação pelo caráter ALVES, Luís. O verdadeiro otimista. Disponível em: [Link]
discriminatório e ofensivo que encerram. [Link]/mensagens-incentivo/. Acesso em: 11 jul. 2016.

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Sobre o termo destacado no trecho “mas simples- a agir como se pudesse substituir a mãe pode ter efeitos
mente por acreditar”, a única afirmativa incorreta é a devastadores.
que se faz na alternativa [...] Os homens estão sendo submetidos a duas forças
a) Expressa a ideia de exclusão. 20 opostas. De um lado, a pressão das mulheres para que
b) Possui o mesmo valor morfológico de “não”. exerçam a paternidade de uma maneira historicamente
c) É um modificador de “acreditar”, que exprime inédita, em que várias das tarefas maternas lhes são con-
modo. fiadas. De outro, a limitação de ordem natural, que faz
d) Pode ser substituído, sem prejuízo de sentido, por com que eles não se sintam totalmente à vontade nas
25 novas funções.
meramente.
Ordem natural? O pensamento de extração feminista
e) Indica impossibilidade de deslocamento para de-
atribui o desconforto dos homens nos cuidados com os
pois do verbo.
filhos a aspectos culturais originados do machismo pa-
5. UFC-CE Assinale a alternativa em que o advérbio triarcal. Por esse argumento, os pais não conseguem ter a
incide sobre toda a oração, como “certamente” em 30 mesma delicadeza, afetuosidade e disponibilidade que as
“Mesmo com as dificuldades verificáveis no cotidiano, mães simplesmente porque não se despem dos valores que
certamente vale a pena aprender um novo idioma, lhes foram inculcados e que continuam a ser reproduzidos
nas diferentes esferas da vida social. Não foram educados
mesmo depois da adolescência”.
para cuidar de crianças e não encontram respaldo no am-
a) Ela, quando nervosa, fala rapidamente.
35 biente de trabalho para ser pais participativos. Tudo isso é,
b) Ela foi facilmente influenciável pela mídia.
em parte, verdadeiro. Meninos são ensinados a manter-se
c) Ele portou-se, naquela festa, vergonhosamente.
longe de bonecas, e é mais fácil para uma mãe do que
d) Ele viveu felizmente com a mesma mulher por
para um pai convencer o chefe de que precisa sair mais
toda a vida. cedo para levar o filho ao médico. [...] Chegamos, então,
e) Eles optaram pela não permanência dele no gru- 40 à “ordem natural”. Por mais que as pessoas acreditem na
po, lamentavelmente. versão politicamente correta da paternidade, o fato é que a
maioria estranha quando os homens desempenham tarefas
6. Univap-SP 2017 Os advérbios são classificados de
tradicionalmente maternas. Isso é errado? Não. “As regras
acordo com as circunstâncias que exprimem. Eles
sociais e culturais não surgem do nada. Elas têm uma
podem ser de afirmação, de negação, de modo, de
45 origem biológica”, diz o psicólogo evolutivo americano
lugar, de dúvida, de intensidade, de tempo e interro-
David Barash, da Universidade de Washington.
gativos. Já quando duas ou mais palavras (geralmente
Entre as características tipicamente masculinas que,
preposição + substantivo ou advérbio) formam uma em geral, são deixadas de lado quando se tenta cuidar de
expressão que equivale a um advérbio, chamamos de uma criança com a mesma dedicação de uma mãe, estão
locução adverbial. Na frase, “O jogador errou o gol de 50 a autonomia, o gosto pela competição e a agressividade.
propósito, no jogo de domingo, à noite”, há A perda de virilidade experimentada pela maioria dos
a) advérbio de modo. homens que se põem a realizar trabalhos associados a
b) locução adverbial de modo. mulheres tem bases químicas. Experiências de laboratório
c) advérbio de intensidade. mostram, por exemplo, que os níveis de testosterona no
d) locução adverbial de intensidade. 55 organismo caem quando o homem segura uma boneca
e) advérbio e, consequentemente, locução adverbial. nos braços. O efeito é o mesmo de quando o marmanjo
embala um bebê de verdade. O hormônio masculino por
7. UEM-PR excelência é aquele que, entre outras coisas, proporcio-
nava aos machos humanos, nos tempos das cavernas, o
Papai não é mamãe 60 ímpeto de caçar, acasalar-se – e dar uma bordoada na
Diogo Schelp cabeça do inimigo.
Faz sentido, portanto, que a evolução tenha moldado
Todo homem que queira se manter competitivo no mer-
o organismo do homem de forma tal a diminuir os níveis
cado das relações amorosas, atualmente, precisa demonstrar
de testosterona na presença de crianças – não só as suas,
que reza pela cartilha do politicamente correto no quesito
65 como as de outros. Do contrário, eles representariam
paternidade. Ou seja, ter disposição (ou pelo menos dizer
sempre um perigo para aqueles serzinhos adoráveis – e
5 que tem) para desempenhar toda e qualquer tarefa relacio-
gritadores, e chorões, e... irritantes. [...] A descoberta refor-
nada ao cuidado com os filhos. [...] Já vai longe o tempo
ça a tese de que o natural para um homem é ser provedor
em que levantar as pernas para a mulher passar o aspirador
e protetor – não um trocador de fraldas. [...]
era considerado uma grande ajuda. Esquentar a mamadeira,
70 Evidentemente, não se trata de propor que os pais
preparar a papinha, trocar a fralda e dar banho no bebê
modernos voltem a se comportar como na idade da pedra.
10 são atividades, entre muitas outras, que um pai pode per-
“O que não se pode é exigir que eles assumam o papel
feitamente desempenhar. Mas há excessos na concepção
das mães”, diz o psicólogo americano Aaron Rochlen, da
mais difundida de paternidade moderna. O principal deles
Universidade do Texas, autor de um estudo sobre homens
é equiparar pai e mãe na capacidade de suprir as neces-
75 que se tornaram donos de casa.
sidades físicas e afetivas dos filhos. A influência que o pai
15 pode ter sobre seus rebentos, especialmente quando eles Assinale o que for correto a respeito do uso do ad-
ainda são bebês, é limitada por fatores biológicos. Forçá-lo vérbio no texto.

98 LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 3 Modalização, conexão e sentido

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 Em “Evidentemente, não se trata de propor que de outros atos recentes, contra o aumento dos ônibus e o
os pais modernos voltem a se comportar como fechamento do Belas Artes.
na idade da pedra.” (linhas -), o advérbio Ambos parecem ter razão. Bem-humorado e anarqui-
em negrito modifica toda a oração e demonstra zante, o “churrascão” marca até aqui o ápice de um caldo
a certeza do autor do texto a respeito da ideia 35 de cultura novo, ou renovado, de mobilização progressista
veiculada na oração. de parte das camadas privilegiadas. Em jargão, é uma
 Em “Já vai longe o tempo...” (linha ), o advérbio fração de classe reagindo ao sentimento ostensivamente
em negrito assume sentido de distância espacial, antipovo de representantes dessa mesma classe.
uma vez que o comportamento do homem atual (Texto retirado da Folha de [Link], 16/5/2011. Opinião A2)
se aproxima do esperado pelas mulheres.
 Em “politicamente correto” (linha ), “tradicio- gauche: expressão francesa cujo significado é de
nalmente maternas” (linha ) e “tipicamente “esquerda”.
masculinas” (linha ), os advérbios em negrito
modificam os adjetivos que os sucedem. Texto 2
 Em “... eles representariam sempre um perigo...”
(linhas -), o advérbio em negrito indica uma É interessante a posição dos críticos dos moradores
circunstância de tempo. de Higienópolis que não querem o metrô.
 Em “A influência que o pai pode ter sobre seus Uma das razões é no Primeiro Mundo a maioria
dos habitantes usa metrô. Mais razão tem a leitora
rebentos, especialmente quando eles ainda são
5 Silvana Russo (15/5) quando diz que com o metrô vêm
bebês ...” (linhas -), o advérbio em negrito
os camelôs de pipoca, milho e drogas. Infelizmente isso
delimita o alcance da validade da ideia expressa
acontece porque não podemos equiparar a educação
pela oração antecedente.
do nosso povo europeu com a nossa. Lá as pessoas são
Soma: multadas na hora quando jogam qualquer tipo de lixo
10 no chão; aqui, mesmo sabendo que é proibido, desafiam
8. UEM-PR as autoridades quando dirigem seus carros e falam ao
Texto 1 mesmo tempo no celular.
Gente diferenciada Texto 3
Fernando de Barros e Silva Tivessem os parisienses temido a presença dos “di-
ferenciados”, hoje não teriam as estações de metrô na
Acompanhei o “churrascão da gente diferenciada” Champs-Elysées, na Foch, na Madeleine ou na Royale. Os
quase inteiro. Foi um protesto de estudantes e das classes londrinos sentiriam falta de uma estação na nobilíssima
médias (médias mais altas do que baixas). O povão ali era 5 Buckingham Palace. E os moradores de Nova York não
residual. Não pretendo tirar o brilho do evento, apenas desfrutariam do conforto do metrô na av. Amsterdã, com
5 caracterizá-lo. Havia muitos moradores de Higienópolis uma parada quase ao lado do edifício Dakota.
no meio das pessoas que gritavam “é a elite mais porca Numa cidade carente de transporte de massa, o go-
do Brasil”. verno encontra tempos para dar ouvidos a meia dúzia de
Vi cenas curiosas: muitos cachorros “diferenciados” 10 gatos pingados que, poucos anos atrás, tentaram impedir
na coleira, entre os manifestantes. Pelo menos três golden a construção de um shopping center, hoje seu venerado
10 retriever que decidiram ser “gauche na vida”. templo do consumo.
Dois “empreendedores” (assim foram chamados) (Textos retirados da Folha de [Link], 16/5/2011. Painel do Leitor. A3)
vendiam camisetas com a inscrição: “gente diferenciada”.
Assinale a(s) alternativa(s) correta(s) quanto ao empre-
Estavam no meio da avenida Angélica e, acredite, acei-
go de expressões linguísticas nos textos 1, 2 e 3.
tavam pagamento em cartão de crédito. Seriam camelôs
 Em “Estavam no meio da avenida Angélica e,
15 “diferenciados”?
acredite, aceitavam pagamento em cartão de cré-
O clima era festivo, performático. Alckmin e Kassab
foram xingados (o prefeito até mais que o tucano), mas
dito.” (texto , linhas -), o elemento “acredite”
entre as palavras de ordem surgiam músicas como “Trem
é exemplo da função conativa.
das Onze”, de Adoniran, e a marchinha carnavalesca  Em “Outro amigo, porém, disse que a manifesta-
20 “Bandeira Branca”. Havia lirismo e deboche nesse enfren- ção...” (texto , linhas -), o elemento “porém”
tamento teatral de classes. é empregado para apresentar uma conclusão do
No final, perto de 21h, cerca de 150 estudantes gri- autor em relação às opiniões de seus amigos.
tavam: “Ei, polícia/maconha é uma delícia”. A PM estava  As expressões “lá” e “aqui” (texto , linhas  e )
claramente orientada a não contrariar os jovens. Compor- retomam, respectivamente, os conteúdos prece-
25 tou- se como uma babá zelosa. Como teria agido se o ato dentes, estabelecendo contraste entre os mundos
fosse na periferia? europeu e paulistano.
Um amigo veterano da esquerda brincou que o pro-  Em “Infelizmente isso acontece, porque não po-
FRENTE 1

testo mais parecia um “playground revolucionário”. Outro demos equiparar a educação do povo europeu
amigo, porém, disse que a manifestação – espontânea, de- com a nossa.” (texto , linhas -), “infelizmente”
30 satrelada de partidos ou sindicatos – comunga do espírito modifica o verbo “acontece”.

99

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 A expressão “Numa cidade carente de transporte Então estranha ansiedade invade os mais provados
de massa...” (texto , linha ) é empregada para valentes, ante o antagonista que vê e não é visto. Forma-se
referir-se à cidade de São Paulo, que não está ex- 55 celeremente em atiradores uma companhia, mal desta-
pressa no texto. cada da massa de batalhões constritos na vereda estreita.
Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
Soma:
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente
dentro das galhadas... Mas constantes, longamente interva-
9. IME-RJ 2021
60 lados sempre, zunem os projéteis dos atiradores invisíveis
A GUERRA DAS CAATINGAS batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resolu-
Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa,
ções enérgicas. Destacam-se outras unidades combatentes,
invadem escandalosamente a ciência, perturbando-lhe
escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas
o remanso com um retinir de esporas insolentes – e for-
65 à primeira voz; – e o comandante resolve carregar contra
mulam leis para a guerra, pondo em equação as batalhas,
têm definido bem o papel das florestas como agente táti- o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A força,
5
co precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa
feldmarechais – guerreiros de cujas mãos caíram o franquisquc expansão irradiante de cargas. Avança com rapidez. Os
heroico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge
que às caatingas pobres cabe função mais definida e grave 70 o antagonismo formidável da caatinga.
10 que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado a As seções precipitam-se para os pontos em que esta-
sua importância para a defesa do território – orlando as lam os estampidos e estacam ante uma barreira flexível,
fronteiras e quebrando o embate às invasões, impedindo mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que
mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das as agrilhoa, que lhes arrebata das mãos as armas, e não
artilharias – se tornam de algum modo neutras no curso das 75 vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
15 campanhas. Podem favorecer, indiferentemente, aos dois um como rastilho de queimada; uma linha de baionetas
beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às enfiando pelos gravetos secos. Lampeja por momentos
emboscadas, dificultando-lhes por igual às manobras ou entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas;
todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia e parte-se, faiscando, adiante, dispersa, batendo contra
os exércitos. É uma variável nas fórmulas do problema te- 80 espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
20 nebroso da guerra, capaz dos mais opostos valores. cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espa-
do sertanejo em revolta. Entram também de certo modo lham- se, correm à toa, num labirinto de galhos. Caem,
na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou
impenetráveis, ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas 85 estacam, pernas imobilizadas por fortíssimos tentáculos.
25 multívias para o matuto que ali nasceu e cresceu. Debatem-se desesperadamente até deixarem em pedaços
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível... as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no. macambiras...
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não Impotentes estadeiam, imprecando, o desaponta-
se surpreende. Segue pelos caminhos em torcicolos, afor- 90 mento e a raiva, agitando-se furiosos e inúteis. Por fim a
30 radamente. E os soldados, devassando com as vistas o ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto.
matagal sem folhas, nem pensam no inimigo, reagindo à Atiram a esmo. Sem pontaria, numa indisciplina de fogo
canícula e com o desalinho natural às marchas, prosse- que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços.
guem envoltos no vozear confuso das conversas travadas Os mesmos transes reproduzem-se maiores, acresci-
em toda a linha, virguladas de tinidos de armas, cindidas 95 das a confusão e a desordem; – enquanto em torno,
35 de risos joviais mal sofreados. circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem
É que nada pode assustá-los. Certo; se os adversários apontados, caem inflexivelmente os projetis do adversário.
imprudentes com eles se afrontarem serão varridos em De repente cessam. Desaparece o inimigo que nin-
momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um guém viu.
breve choque de espadas e não é crível que os gravetos 100 As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de
40 finos quebrem o arranco das manobras prontas. E lá se inúteis pesquisas nas macegas. E voltam como se saíssem
vão, marchando, tranquilamente heroicos... de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras;
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro... armas estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes;
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em ter- claudicando, estropiados; mal reprimindo o doer infernal
ra, um homem. Sucedem-se, pausadas, outras, passando 105 das folhas urticantes; frechados de espinhos...
45 sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, [...]
mil olhos perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. A luta é desigual. A força militar decai a um plano
Nada veem. inferior. Batem-na o homem e a terra. E quando o sertão
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever
de uma a outra ponta das fileiras. 110 a quem cabe a vitória. Enquanto o minotauro, impotente
50 E os tiros continuam raros, mas insistentes e com- e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos
passados, pela esquerda, pela direita, pela frente agora, de baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos
irrompendo de toda a banda... primeiros sintomas da fome, reflui à retaguarda, fugindo

100 LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 3 Modalização, conexão e sentido

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ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva 11. Unifesp 2016 Leia o excerto do “Sermão de Santo
115 abre ao sertanejo um seio carinhoso e amigo. Antônio aos peixes” de Antônio Vieira (1608-1697)
[...] para responder à questão.
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como
Anteu, indomável. E um titã bronzeado fazendo vacilar a A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós,
marcha dos exércitos. é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é
CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2a ed. São
este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos
Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186. comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os
pequenos. [...] Santo Agostinho, que pregava aos homens,
“Ouve-se uma voz de comando e um turbilhão de para encarecer a fealdade deste escândalo mostrou-lho
balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...” nos peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais
(linhas 57 a 59). quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens.
O valor semântico do vocábulo “estrugidoramente” Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso
no trecho acima se aproxima de: o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para
a) violentamente. o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de
b) ruidosamente. olhar. Cuidais que só os tapuias se comem uns aos outros,
c) velozmente. muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os
d) certeiramente. brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele
e) mortalmente. andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas:
vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele
10. Fuvest-SP 2018 entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo
é andarem buscando os homens como hão de comer, e
Os bens e o sangue
como se hão de comer.
VIII [...]
[...] Diz Deus que comem os homens não só o seu povo,
Ó filho pobre, e descorçoado, e finito senão declaradamente a sua plebe: Plebem meam, por-
ó inapto para as cavalhadas e os trabalhos brutais que a plebe e os plebeus, que são os mais pequenos, os
com a faca, o formão, o couro... Ó tal como que menos podem, e os que menos avultam na república,
[quiséramos estes são os comidos. E não só diz que os comem de
para tristeza nossa e consumação das eras, qualquer modo, senão que os engolem e os devoram:
para o fim de tudo que foi grande! Qui devorant. Porque os grandes que têm o mando das
Ó desejado, cidades e das províncias, não se contenta a sua fome de
ó poeta de uma poesia que se furta e se expande comer os pequenos um por um, poucos a poucos, senão
que devoram e engolem os povos inteiros: Qui devorant
à maneira de um lago de pez e resíduos letais...
plebem meam. E de que modo se devoram e comem? Ut
És nosso fim natural e somos teu adubo,
cibum panis: não como os outros comeres, senão como
tua explicação e tua mais singela virtude...
pão. A diferença que há entre o pão e os outros comeres
Pois carecia que um de nós nos recusasse é que, para a carne, há dias de carne, e para o peixe, dias
para melhor servir-nos. Face a face de peixe, e para as frutas, diferentes meses no ano; porém
te contemplamos, e é teu esse primeiro o pão é comer de todos os dias, que sempre e continua-
e úmido beijo em nossa boca de barro e de sarro. damente se come: e isto é o que padecem os pequenos.
Carlos Drummond de Andrade, Claro enigma. São o pão cotidiano dos grandes: e assim como pão se
come com tudo, assim com tudo, e em tudo são comidos
descorçoado: assim como “desacorçoado”, é uma os miseráveis pequenos, não tendo, nem fazendo ofício
variante de uso popular da palavra “desacoroçoado”, em que os não carreguem, em que os não multem, em
que significa “desanimado”. que os não defraudem, em que os não comam, traguem
pez: piche. e devorem: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis.
Parece-vos bem isto, peixes?
(Antônio Vieira. Essencial, 2011.)
Considere o tipo de relação estabelecida pela prepo-
sição “para” nos seguintes trechos do poema: “Santo Agostinho, que pregava aos homens, para en-
carecer a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos
I. “ó inapto para as cavalhadas e os trabalhos brutais”.
peixes; e eu, que prego aos peixes, para que vejais
II. “Ó tal como quiséramos para tristeza nossa e con-
quão feio e abominável é, quero que vejais nos ho-
sumação das eras”.
mens.” (1o parágrafo)”
III. “para o fim de tudo que foi grande”.
Nas duas ocorrências, o termo “para” estabelece re-
IV. “para melhor servir-nos”.
lação de
A preposição “para” introduz uma oração com ideia a) consequência.
de finalidade apenas em b) conformidade.
FRENTE 1

a) I. d) III e IV. c) proporção.


b) I e II. e) IV. d) finalidade.
c) III. e) causa.

101

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12. Acafe-SC 2018 Nas frases a seguir, preencha as la- Epidemiológico Aids e DST 2011, do Ministério da Saúde,
cunas com uma das preposições sugeridas entre 15 aponta para uma estabilização da taxa da doença ao longo
parênteses e depois assinale a alternativa com a se- dos últimos 12 anos.
quência correta. Mas há sempre o outro lado: no mesmo período, por
regiões, a taxa de incidência da doença diminuiu apenas no
I. Nesse caso, é estranho que o Ministro do Meio
Sudeste e aumentou no Sul, Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Ambiente ignore as informações técnicas _____
20 Ainda conforme o boletim, a taxa de prevalência da infec-
que detém a posse. (sobre, com, de)
ção pelo HIV na população jovem apresenta “tendência ao
II. De acordo com as fontes _____ as quais mantive
aumento”. As campanhas de prevenção não se comparam
contato ontem, a mudança na legislação eleitoral àquelas realizadas no decorrer dos anos 90. A disseminação
não valerá para . (com, perante, a) do vírus entre heterossexuais não recebe a devida divulga-
III. Quando um homem _____ quem eu confiava me 25 ção. E o Brasil continua a quantificar oficialmente apenas
disse que havia uma solução para isso, eu acredi- os casos de Aids e não os de infecção por HIV.
tei. (a, em, de) O título do manifesto, a propósito, é uma alusão à
IV. Logo cedo chegaram dois gaúchos pilchados e participação do Brasil na XIX Conferência Internacional de
um vizinho meu recente, ____ cuja procedência Aids, realizada em Washington, nos Estados Unidos, no final
não me lembro. (em, de, sobre) 30 de julho. Durante a conferência, questionado sobre o que
V. Ontem resolvi mandar uma carta à empresa _____ lhe tirava o sono hoje, o representante do governo brasileiro
a qual o jornal fez uma longa reportagem, publica- respondeu que dormia tranquilo. Se os gestores nacionais
da na semana passada. (com, perante, sobre) dormem tranquilos, o que dizer daqueles que atuam em
solo gaúcho? Porque, quando o tema é Aids, o Rio Grande
a) sobre – perante – a – em – perante
35 do Sul e Porto Alegre batem praticamente todos os recordes.
b) sobre – a – de – de – com Fragmento da reportagem Aids: tendência de aumento entre jovens,
c) de – com – em – de – sobre de Flavia Bemfica, disponível no site: [Link]
d) com – perante – em – sobre – com extraclasse/set12/[Link]?id_conteudo=436.

Qual a função morfológica dos termos destacados, na


13. UEMG 2019
ordem em que se encontram, no trecho a seguir? “As
33% dos brasileiros têm acesso à internet em campanhas (1) de (2) prevenção (3) não se (4) comparam
casa, diz pesquisa da FGV àquelas realizadas no decorrer dos anos 90”. (l. 22-23)
Uma pesquisa divulgada pela Fundação Getulio Var- a) () Pronome; () verbo; () advérbio; () pronome.
gas (FGV) aponta que 33% dos brasileiros têm acesso à b) () Preposição; () substantivo; () advérbio; () verbo.
internet em seus domicílios. Segundo o estudo chamado c) () Preposição; () adjetivo; () advérbio; () conjunção.
de Mapa da Inclusão Digital, o Brasil ocupa a 63a posi- d) () Conjunção; () verbo; () pronome; () conjunção.
ção no ranking mundial que avaliou 154 países. O Brasil e) () Pronome; () substantivo; () pronome; ()
vence a Argentina nesse ranking: a Argentina está na 66a preposição.
posição, já que 31% dos argentinos têm acesso à internet
em suas casas, em 2012. 15. UFC-CE Assinale a alternativa que apresenta uma lo-
([Link] Acesso: 17/07/2012. Adaptado.) cução prepositiva.
a) O Estado não substitui a família, a menos que ela
As preposições, negritadas na última linha da notícia,
esteja em dificuldade.
introduzem, respectivamente, a ideia de
b) Com receio de contrariá-los, eles reforçam suas
a) direção e tempo. c) lugar e tempo.
atitudes.
b) instrumento e lugar. d) posse e matéria.
c) A águia afia as garras no momento que julgar
14. Ulbra-RS A questão refere-se ao fragmento da reporta- oportuno.
gem Aids: tendência de aumento entre jovens, de Flavia d) Eles não precisam se esconder diante das ameaças.
Bemfica, disponível no site: [Link] e) Com todo respeito, acho a família responsável.
extraclasse/set12/imprimir. asp?id_conteudo=436.
16. UEM-PR
No final de agosto, um manifesto de instituições e pes-
Texto 1
quisadores passou quase despercebido do grande público
e teve pouca repercussão na imprensa. Intitulado “O que A economia precisa parar de crescer
nos tira o sono?”, o documento afirma que o Brasil perdeu Serge Latouche
5 o controle sobre a epidemia da Aids e que hoje dispõe de A princípio, o crescimento é um fenômeno natural. O
um programa desatualizado e insuficiente para enfrentar ciclo biológico do nascimento, desenvolvimento, reprodu-
a configuração nacional da doença. Ele pode ser taxado ção, maturidade, declínio e morte do ser vivo é condição
de alarmista por gestores públicos e outra parte dos pes- de sobrevivência da espécie. Porém, enquanto a maioria
quisadores. Afinal, ser portador de HIV deixou de ser uma 5 das sociedades dedicou um culto ao crescimento, o Oci-
10 sentença de morte e novas descobertas de tratamento sur- dente moderno o transformou em sua religião.
gem a cada ano. O país investe pesado na distribuição de O decrescimento – termo que vem sendo usado nos
medicamentos de combate à epidemia (R$ 900 milhões debates ecológico, econômico e social – propõe o aban-
à compra de coquetéis só no ano passado). E o Boletim dono do crescimento ilimitado, da economia cujo motor

102 LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 3 Modalização, conexão e sentido

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10 é a busca do lucro por parte dos detentores do capital, Texto 2
com consequências desastrosas para o meio ambiente e,
portanto, para a humanidade. Shakespeariana
Para que seja sustentável e durável, toda sociedade
deve estabelecer limites próprios. A nossa, ao contrário, se
15 glorifica em deixar de lado qualquer restrição, optando pela
desmesura. O emprego, o pagamento dos aposentados, a
renovação dos gastos públicos supõem o aumento constan-
te do produto interno bruto (PIB). No fim, o círculo virtuoso
se transforma num círculo infernal. A vida das pessoas ge-
20 ralmente se reduz à de um biodigestor que metaboliza o
salário com as mercadorias e as mercadorias com o salário,
transitando do trabalho para o hipermercado e vice-versa.
Quando há desaceleração do crescimento, vem a crise e
até o pânico. Reencontramos o “Acumulem! acumulem!”.
25 Mas a proposta do decrescimento não é a de um cres-
cimento negativo, que mergulha a sociedade na incerteza,
aumenta as taxas de desemprego e acelera o abandono dos
programas sociais. Para sermos rigorosos, conviria mais fa- (Disponível em: <[Link]
lar de “a-crescimento”, como se fala de “a-teísmo”. A meta tomate-o-campeao-da-piada-pronta>. Acesso em 12/06/2013.)
30 é uma sociedade em que se viverá melhor trabalhando e
Apoiando-se na leitura dos textos 1 e 2, assinale a(s)
consumindo menos. Esse novo modelo se resumiria em
alternativa(s) correta(s).
8 Rs: reavaliar, reconceitualizar, reestruturar, relocalizar,
redistribuir e os já tradicionais reduzir, reutilizar e reciclar.
 No texto , Latouche associa a sua proposta de
Assim seríamos capazes de desencadear uma dinâmica decrescimento da economia à redefinição da fe-
35 rumo a uma sociedade autônoma. licidade, que, para ele, consiste na “autolimitação”
Sair do imaginário econômico, contudo, implica (linha ).
rupturas concretas, como fixar regras que enquadrem e  Em “para a humanidade” (texto , linha ), a
limitem o desvario da ganância (busca do lucro, do cada palavra grifada é uma preposição, assim como
vez mais), legislação do trabalho, limitação da dimensão também o é em “Ser ou não ser, eis a questão”
40 das empresas etc. (texto , quadro ).
Por fim, a redefinição da felicidade como “abundân-  “deixar de lado qualquer restrição” (texto , linha
cia frugal em uma sociedade solidária” pressupõe sair do ) contrapõe-se ao sentido de “Ter ou não ter, eis
círculo infernal da criação ilimitada de necessidade e de a inflação” (texto , quadro ).
produtos e da frustração crescente que esta acarreta. A  “abundância frugal” (texto , linhas -) contra-
45 autolimitação é a condição para que se alcance a pros- põe-se ao sentido contido em “Ter ou não ter, eis
peridade sem crescimento, evitando, assim, a queda da a inflação” (texto , quadro ).
civilização humana.  O fato de a economia ser movida pela “busca do
(Texto Adaptado. Revista Galileu. São Paulo: Globo, jun. 2013, p. 82.) lucro por parte dos detentores do capital” (texto ,
linha ) implica que esses detentores farão de
desmesura: que não tem medida. tudo para motivar um consumismo irracional.
frugal: aquilo que é moderado, simples.
Soma:

Texto complementar

Semântica: a espantosa presunção dos “na verdade”


          
        
     
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Veja os principais assuntos e conceitos trabalhados neste capítulo acessando a seção Resumindo
no livro digital, na Plataforma Poliedro.

104 LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 3 Modalização, conexão e sentido

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Quer saber mais?

Vídeo Site
Pedido de desculpas: análise do uso de recursos insa- Wordwall. Disponível em: [Link]
tisfatórios e equivocados. Português é legal, YouTube. resource//jogo-das-preposi%C%A%C%Bes
Disponível em: [Link] Acesso em:  mar. .
fPwlAcrAA. Acesso em:  abr. . A plataforma oferece jogos de preposições em formato
No canal Português é legal, professores discutem as con- de quiz.
venções da língua portuguesa, as estruturas utilizadas no
Música
dia a dia e o preconceito linguístico. No vídeo indicado,
“Diariamente”, de Nando Reis.
são analisadas algumas formas linguísticas e modaliza-
Na letra da canção, cujo título é um advérbio de tempo,
dores discursivos, bem como seus efeitos de sentido em
há uma repetição da preposição “para” na construção de
um pedido de desculpas.
imagens que remetem a situações do cotidiano.

Exercícios complementares

Leia o texto a seguir para responder às questões 1 e 2.


O que mais a impressionou no passeio foi a miséria geral, a falta de cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido da
gente pobre. Educada na cidade, ela tinha dos roceiros ideia de que eram felizes, saudáveis e alegres. Havendo tanto barro,
tanta água, por que as casas não eram de tijolos e não tinham telhas? Era sempre aquele sapé sinistro [...]. Por que ao redor
dessas casas não havia culturas, uma horta, um pomar? Não seria tão fácil, trabalho de horas? [...] Mesmo nas fazendas, o
5 espetáculo não era mais animador. Todas soturnas, baixas, quase sem o pomar olente e a horta suculenta. [...] E todas essas
questões desafiavam a sua curiosidade, o seu desejo de saber, e também a sua piedade e simpatia por aqueles párias, mal-
trapilhos, mal alojados, talvez com fome, sorumbáticos!...
[...] aproveitou a ocasião para interrogar a respeito o tagarela Felizardo.
Olga encontrou o camarada cá embaixo, cortando a machado as madeiras mais grossas; [...] Ela lhe falou.
10 — Bons dias, sá dona.
— Então trabalha-se muito, Felizardo?
— O que se pode.
[...]
— É grande o sítio de você?
15 — Tem alguma terra, sim senhora, sá dona.
— Você por que não planta para você?
— Quá, sá dona! O que é que a gente come?
— O que plantar ou aquilo que a plantação der em dinheiro.
— Sá dona tá pensando uma coisa e a coisa é outra. Enquanto planta cresce, e então? Quá, sá dona, não é assim.
20 [...] – Terra não é nossa... E frumiga?... Nós não tem ferramenta... isso é bom pra italiano ou alamão, que governo dá
tudo... governo não gosta de nós...
(BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: O Estado de São Paulo / Klick Editora, 1997, p. 97-98.)

1. AFA-SP 2023 O emprego do advérbio “não”, em diversas passagens do texto, demarca carências de personagens
que representam pessoas excluídas. Esse uso só NÃO se verifica na alternativa:
a) “...governo não gosta de nós...” (l. )
b) “Nós não tem ferramenta...” (l. )
c) “Terra não é nossa...” (l. )
d) “...o espetáculo não era mais animador.” (l. )

2. AFA-SP 2023 Considerando os recursos de organização da narrativa do texto, julgue cada afirmativa a seguir como
Verdadeira (V) ou Falsa (F).
O emprego do discurso direto permite ao narrador inserir no texto marcas típicas da linguagem coloquial do
personagem Felizardo.
As três sentenças interrogativas do 1o parágrafo demonstram o emprego do discurso indireto livre na narrativa.
O emprego do advérbio “cá” (l. 9) demonstra que o narrador, mesmo sendo observador, faz-se presente na cena
narrada no texto.
FRENTE 1

A partir da análise das afirmativas, é correto concluir que


a) todas estão corretas. c) apenas uma está correta.
b) todas estão incorretas. d) apenas duas estão corretas.

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3. FGV-SP 2023 4. FICSAE-SP 2021 Leia o trecho do ensaio “Depressão
e imagem do novo mundo”, de Maria Rita Kehl, para
CAPÍTULO XXXI responder à questão.

AS CURIOSIDADES DE CAPITU A depressão, tão em voga em nossos dias quanto foi


Capitu preferia tudo ao seminário. Em vez de ficar a histeria nos tempos de Freud, é uma expressão da dor
abatida com a ameaça da larga separação, se vingasse a psíquica que desafia todas as pretensões da ciência de pro-
ideia da Europa, mostrou-se satisfeita. E quando eu lhe gramar a vida humana na direção de uma otimização de
contei o meu sonho imperial: resultados. Fatia de mercado disputada pelos laboratórios
— Não, Bentinho, deixemos o Imperador sossegado, farmacêuticos, os depressivos formam um grupo desuni-
replicou; fiquemos por ora com a promessa de José Dias. do e incômodo a desafiar, ainda que inadvertidamente, a
Quando é que ele disse que falaria a sua mãe? — Não norma do bem-estar predominante nas sociedades ditas
marcou dia; prometeu que ia ver; que falaria logo que avançadas: estas que se tornaram incapazes de refletir so-
pudesse, e que me pegasse com Deus. bre a dor de viver. Estas que, convencidas de que a riqueza
Capitu quis que lhe repetisse as respostas todas do se mede pela abundância de mercadorias em circulação,
agregado, as alterações do gesto e até a pirueta, que ape- tornaram-se incapazes de tolerar a falta, de criar estéticas
nas lhe contara. Pedia o som das palavras. Era minuciosa para o vazio, de usufruir da lentidão e vislumbrar o saber
e atenta; a narração e o diálogo, tudo parecia remoer contido na tristeza.
consigo. Também se pode dizer que conferia, rotulava e A experiência da depressão talvez prove que algo
pregava na memória a minha exposição. no humano resiste à aliança entre tecnologia e publi-
Esta imagem é porventura melhor que a outra, mas a cidade, assim como às novas formas de credo que elas
ótima delas é nenhuma. promovem. Do homem, sabemos, a máquina de moer
Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, carne capitalista aproveita até o berro: os depressivos,
mais mulher do que eu era homem. Se ainda o não disse, porém, não oferecem nem isso. Os depressivos não ber-
aí fica. Se disse, fica também. Há conceitos que se devem ram. Seu silêncio, seu recolhimento, sua falta de interesse
incutir na alma do leitor, à força de repetição. por todas as ofertas do gozo em circulação, fazem do
Era também mais curiosa. As curiosidades de Capitu depressivo a expressão do sintoma social contemporâneo.
dão para um capítulo. O depressivo, como no verso do poeta suicida Torqua-
Eram de vária espécie, explicáveis e inexplicáveis, to Neto, desafina o coro dos contentes nestas primeiras
assim úteis como inúteis, umas graves, outras frívo- décadas do século XXI.
las; gostava de saber tudo. No colégio onde, desde os (Adauto Novaes (org.). Mutações, 2008. Adaptado.)
sete anos, aprendera a ler, escrever e contar, francês,
doutrina e obras de agulha, não aprendeu, por exem- Indicam incerteza e inclusão, respectivamente, os ter-
plo, a fazer renda – por isso mesmo, quis que prima mos ou expressões sublinhados em:
Justina lho ensinasse. Se não estudou latim com o Pa- a) “a norma do bem-estar predominante nas socie-
dre Cabral foi porque o padre, depois de lhe propor dades ditas avançadas” e “os depressivos, porém,
gracejando, acabou dizendo que latim não era língua não oferecem nem isso”.
de meninas. b) “ainda que inadvertidamente, a norma do bem-es-
Capitu confessou-me um dia que esta razão acendeu tar predominante” e “assim como às novas formas
nela o desejo de o saber. Em compensação, quis aprender de credo que elas promovem”.
inglês com um velho professor amigo do pai e parceiro c) “ainda que inadvertidamente, a norma do bem-es-
deste ao solo mas não foi adiante. Tio Cosme ensinou-lhe tar predominante” e “os depressivos formam um
gamão. grupo desunido e incômodo a desafiar”.
— Anda apanhar um capotinho Capitu, dizia-lhe ele. d) “estas que se tornaram incapazes de refletir sobre
[...] a dor de viver” e “O depressivo, como no verso
Machado de Assis, Dom Casmurro. do poeta suicida Torquato Neto, desafina”.
e) “A experiência da depressão talvez prove que
solo: tipo de jogo de cartas algo no humano” e “a máquina de moer carne ca-
capotinho: diminutivo de “capote”. Em um jogo, ganhar pitalista aproveita até o berro”.
por grande diferença de pontos.
5. Unesp A questão toma por base um fragmento da
crônica Letra de canção e poesia, de Antonio Cicero.
A palavra sublinhada na frase “Esta imagem é porven-
Como escrevo poemas e letras de canções, frequen-
tura melhor que a outra” pode ser substituída, sem temente perguntam-me se acho que as letras de canções
alteração de sentido, por: são poemas. A expressão “letra de canção” já indica de
a) talvez. que modo essa questão deve ser entendida, pois a palavra
b) sem dúvida. “letra” remete à escrita. O que se quer saber é se a letra,
c) literalmente. separada da canção, constitui um poema escrito.
d) consequentemente. “Letra de canção é poema?” Essa formulação é inade-
e) por isso mesmo. quada. Desde que as vanguardas mostraram que não se

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pode determinar a priori quais são as formas lícitas para a de entender um dado que ocorre regularmente, mas que
poesia, qualquer coisa pode ser um poema. Se um poeta 10 parece oferecer alguma dificuldade de análise.
escreve letras soltas na página e diz que é um poema, Em primeiro lugar, é óbvio que se trata de um pe-
quem provará o contrário? dido (ou de uma ordem) mais ou menos informal. Caso
Neste ponto, parece-me inevitável introduzir um contrário, não se usaria a expressão “pessoal”, mas talvez
juízo de valor. A verdadeira questão parece ser se uma “Senhores” ou “Senhores alunos”.
letra de canção é um bom poema. Entretanto, mesmo 15 Em segundo lugar, não se trata da tal concordân-
esta última pergunta ainda não é suficientemente pre- cia ideológica, nem de silepse (hipóteses previstas pela
cisa, pois pode estar a indagar duas coisas distintas: gramática para explicar concordâncias mais ou menos
1) Se uma letra de canção é necessariamente um bom excepcionais, que se devem menos a fatores sintáticos
poema; e 2) Se uma letra de canção é possivelmente e mais aos semânticos; exemplos correntes do tipo “A
um bom poema. 20 gente fomos” e “o pessoal gostaram” se explicam por esse
Quanto à primeira pergunta, é evidente que deve ter critério). Como se pode saber que não se trata de concor-
uma resposta negativa. Nenhum poema é necessariamente dância ideológica ou de silepse? A resposta é que, nesses
um bom poema; nenhum texto é necessariamente um bom casos, o verbo se liga ao sujeito em estrutura sem vocativo,
poema; logo, nenhuma letra é necessariamente um bom diferentemente do que acontece aqui. E em casos como
poema. Mas talvez o que se deva perguntar é se uma boa 25 “Pedro, venha cá”, “venha” não se liga a “Pedro”, mesmo
letra é necessariamente um bom poema. Ora, também que pareça que sim, porque Pedro não é o sujeito.
a essa pergunta a resposta é negativa. Quem já não teve Para tentar formular uma hipótese mais clara para o
a experiência, em relação a uma letra de canção, de se problema apresentado, talvez se deva admitir que o sujeito
emocionar com ela ao escutá-la cantada e depois consi- de um verbo pode estar apagado e, mesmo assim, produzir
derá- la insípida, ao lê-la no papel, sem acompanhamento 30 concordância. O ideal é que se mostre que o fenômeno
musical? Não é difícil entender a razão disso. não ocorre só com ordens ou pedidos, e nem só quando
Um poema é um objeto autotélico, isto é, ele tem o
há vocativo. Vamos por partes: a) é normal, em português,
seu fim em si próprio. Quando o julgamos bom ou ruim,
haver orações sem sujeito expresso e, mesmo assim, haver
estamos a considerá-lo independentemente do fato de que,
flexão verbal. Exemplos correntes são frases como “che-
além de ser um poema, ele tenha qualquer utilidade. O
35 garam e saíram em seguida”, que todos conhecemos das
poema se realiza quando é lido: e ele pode ser lido em
gramáticas; b) sempre que há um vocativo, em princípio,
voz baixa, interna, aural.
o sujeito pode não aparecer na frase. É o que ocorre em
Já uma letra de canção é heterotélica, isto é, ela não
“meninos, saiam daqui”; mas o sujeito pode aparecer, pois
tem o seu fim em si própria. Para que a julguemos boa, é
não seria estranha a sequência “meninos, vocês se com-
necessário e suficiente que ela contribua para que a obra
40 portem”; c) se forem aceitas as hipóteses a) e b) (diria que
lítero-musical de que faz parte seja boa. Em outras palavras,
são fatos), não seria estranho que a frase “Pessoal, leiam
se uma letra de canção servir para fazer uma boa canção,
o livro X” pudesse ser tratada como se sua estrutura fosse
ela é boa, ainda que seja ilegível. E a letra pode ser ilegí-
“Pessoal, vocês leiam o livro x”. Se a palavra “vocês” não
vel porque, para se estruturar, para adquirir determinado
estivesse apagada, a concordância se explicaria normal-
colorido, para ter os sons ou as palavras certas enfatizadas,
ela depende da melodia, da harmonia, do ritmo, do tom 45 mente; d) assim, o problema real não é a concordância
da música à qual se encontra associada. entre “pessoal” e “leiam”, mas a passagem de “pessoal” a
(Folha de [Link], 16.06.2007.)
“vocês”, que não aparece na superfície da frase.
Este caso é apenas um, dentre tantos outros, que nos
“Nenhum poema é necessariamente um bom poema; obrigariam a considerar na análise elementos que parecem
nenhum texto é necessariamente um bom poema; logo, 50 não estar na frase, mas que atuam como se lá estivessem.
nenhuma letra é necessariamente um bom poema”. Adaptado de: POSSENTI, Sírio. Malcomportadas línguas. São Paulo:
Parábola Editorial, 2009. p. 85-86.
O advérbio necessariamente, nas três ocorrências
verificadas na passagem mencionada, equivale, pelo Considere os usos de advérbios no texto e assinale
sentido, a: com 1 aqueles em que o advérbio modifica o sentido
a) forçosamente. de apenas uma palavra e com 2 aqueles em que mo-
b) raramente. difica o sentido de segmentos textuais.
c) suficientemente. Certamente (l. 5)
d) independentemente. menos (l. 12)
e) frequentemente. mais (l. 27)
talvez (l. 28)
6. UFRGS 2019 Recebi consulta de um amigo que tenta
deslindar segredos da língua para estrangeiros que que- A sequência correta de preenchimento dos parênte-
rem aprender português. Seu problema: “se digo em uma ses, de cima para baixo, é
sala de aula: ‘Pessoal, leiam o livro X’, como explicar a)  –  –  – .
5 a concordância? Certamente, não se diz ‘Pessoal, leia o b)  –  –  – .
FRENTE 1

livro X’”. c)  –  –  – .
Pela pergunta, vê-se que não se trata de fornecer re- d)  –  –  – .
gras para corrigir eventuais problemas de padrão. Trata-se e)  –  –  – .

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7. Unespar-PR 2018 e submisso. “Nosso céu tem mais estrelas / Nossas várzeas
têm mais flores / Nossos bosques têm mais vida Nossa vida
Por que o Brasil é o melhor país do mundo 60 mais amores”, cantava o poeta Gonçalves Dias em 1847.
(Luiz Ruffato) Nossa natureza é a mais exuberante, nossas mulheres as
mais belas, nossos homens os mais viris, repetimos no sé-
Há uma fábula de origem hindu, conhecida em inú-
culo XXI. Somos os cegos da fábula hindu que, incapazes
meras versões, que relata a seguinte história: certa feita,
de perceber o elefante como um todo, nos contentamos
um príncipe convocou cinco cegos e colocando cada um
65 em deduzi-lo por suas partes, com resultados evidente-
deles para apalpar partes específicas do corpo de um ele-
mente desastrosos.
5 fante pediu que discorressem sobre o aspecto do animal
O superlativo sempre transporta um dado absoluto,
que tinham à sua frente. O que examinou a barriga disse
impermeável, na maioria das vezes, à comprovação. Deve-
que se tratava de algo como uma grande panela; o que in-
ríamos, ao invés de continuar reforçando lugares-comuns,
vestigou as patas falou que parecia o tronco de uma árvore;
70 pensar em termos de comparação. Uma coisa somente
o que tocou as orelhas vislumbrou um imenso leque; o
é em relação a outra. Temos pois que, antes, escutar o
10 que tateou o rabo descreveu uma vassoura; o que sondou
discurso discordante, mirar os olhos de quem não se as-
a tromba, uma enorme cobra, perigosa e destruidora.
semelha a nós, nos colocar na pele do vizinho. Talvez até
Cataguases, minha cidade-natal, embora fique a ape-
descobríssemos, afinal, que nosso céu tem mais estrelas,
nas 300 quilômetros do Rio de Janeiro, só conheceu um
75 mas não as vemos por causa da poluição; que as flores
oriental em 1976. Naquele ano, instalou-se na Praça Rui
estão morrendo nas várzeas contaminadas; que estamos
15 Barbosa, a mais importante do lugar, um nissei vendendo
destruindo nossos bosques; que estamos oprimindo as mu-
churros – algo bem brasileiro, um descendente de japo-
lheres, e os negros, e os índios, e os homossexuais, que
neses negociando doce de procedência espanhola... Em
estamos dizimando os jovens nas guerras do trânsito e do
pouco tempo, ambos, o homem e o doce, tornaram-se
80 tráfico; que, portanto, nossa vida poderia sim até ter mais
a atração da cidade. Havia filas durante todo o dia de
amores, mas no momento tudo encontra-se envenenado
20 pessoas interessadas menos em comprar churros que
pela peçonha da ignorância.
em observar de perto aquele ser humano de olhos puxa-
(Texto original disponível em: [Link]
dos, cabelos escorridos, pele amarelada. O vendedor de opinion/1444737066_408985.html. Acessado em 31/10/2015)
churros ganhou tanto dinheiro que logo passou à frente a
carrocinha e deslocou-se para longe. Os advérbios são uma classe de palavras que tem
25 Na segunda metade da década de 1980, meu amigo como finalidade modificar um verbo, um adjetivo,
J. T. L. transferiu-se com a família (mulher e duas filhas) para ou até mesmo um outro advérbio. Essa função de
Bangor, País de Gales, onde, por seis anos, desenvolveu modificador faz com que o advérbio atribua uma cir-
sua tese de doutorado na área de engenharia florestal. Em cunstância ao termo que ele modifica.
1989, encontramo-nos em Londres para matar a saudade, A partir dessa afirmação, analise os enunciados a seguir:
30 num pub perto da ponte de Westminster, onde se localiza I. “[...] algo bem brasileiro [...]” (linha ).
o Big Ben. Sorvendo uma caneca de cerveja, perguntei a
II. “[...] onde se localiza o Big Ben” (linhas -).
ele como era viver em uma ilha. Ele respondeu: Ilha? Se
quiser, em pouco tempo estou na França, Espanha, Portu- III. “[...] podemos agir pateticamente [...]” (linhas -).
gal, Itália ou Alemanha. Alguns quilômetros e muda tudo, IV. “Talvez até descobríssemos [...]” (linhas -).
35 o idioma, a cultura, a comida, os hábitos, os costumes. Ilha De acordo com o texto, os advérbios “bem”, “onde”,
é o Brasil, prosseguiu, onde pode-se passar uma existên- “pateticamente” e “talvez”, nas passagens acima, ex-
cia inteira sem nunca ouvir uma língua estrangeira; onde primem, respectivamente, as circunstâncias de:
pode-se cortar o território de leste a oeste, de norte a sul, a) Modo – lugar – meio – intensidade;
mais de quatro mil quilômetros em ambas as direções, b) Meio – lugar – modo – intensidade;
40 sem anotar praticamente nenhuma variação significativa c) Modo – lugar – intensidade – dúvida;
de nada. d) Afirmação – lugar – modo – dúvida;
A ausência de experiências divergentes, ou, em ou- e) Intensidade – lugar – modo – dúvida.
tras palavras, a carência de contato com o outro, com o
estranho – o que é de fora, o que nos é desconhecido – 8. Uerj
45 acaba estimulando comportamentos tacanhos. Por isso,
nós, brasileiros, temos uma descomunal dificuldade de Memórias do cárcere
lidar com aquilo que não se parece conosco – podemos Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação, casos
agir pateticamente como os cataguasenses frente ao nissei passados há dez anos − e, antes de começar, digo os moti-
vendedor de churros (quando nos sentimos inferiores) ou vos por que silenciei e por que me decido. Não conservo
50 bestialmente como em relação aos imigrantes haitianos notas: algumas que tomei foram inutilizadas, e assim, com
(quando nos sentimos superiores). E é por isso, também 5 o decorrer do tempo, ia-me parecendo cada vez mais
que, ao invés de olharmo-nos no espelho e admitirmos o difícil, quase impossível, redigir esta narrativa. Além dis-
quanto somos intolerantes, xenófobos, hipócritas e ufa- so, julgando a matéria superior às minhas forças, esperei
nistas, preferimos nos esconder por detrás da dissimulada que outros mais aptos se ocupassem dela. Não vai aqui
55 máscara de cordialidade que nos assenta bem ao rosto. falsa modéstia, como adiante se verá. Também me afligiu
Continuamos a repetir clichês inventados por uma 10 a ideia de jogar no papel criaturas vivas, sem disfarces,
elite predatória, interessada no pastoreio de um povo dócil com os nomes que têm no registro civil. Repugnava-me

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deformá-las, dar-lhes pseudônimo, fazer do livro uma es- As palavras classificadas como advérbios agregam
pécie de romance; mas teria eu o direito de utilizá-las em noções diversas aos termos a que se ligam na frase,
história presumivelmente verdadeira? Que diriam elas se demarcando posições, relativizando ou reforçando
15 se vissem impressas, realizando atos esquecidos, repetindo sentidos, por exemplo.
palavras contestáveis e obliteradas? O advérbio destacado é empregado para relativizar o
[...] sentido da palavra a que se refere em:
O receio de cometer indiscrição exibindo em público a) utilizá-las em história presumivelmente verdadei-
pessoas que tiveram comigo convivência forçada já não ra? (l. -)
20 me apoquenta. Muitos desses antigos companheiros dis- b) Certamente me irão fazer falta, (l. )
tanciaram- se, apagaram-se. Outros permaneceram junto c) Afirmarei que sejam absolutamente exatas? (l. -
a mim, ou vão reaparecendo ao cabo de longa ausência,
-)
alteram-se, completam-se, avivam recordações meio con-
d) desenterrarmos pacientemente as condições que
fusas − e não vejo inconveniência em mostrá-los.
25 a determinaram. (l. -)
[...]
E aqui chego à última objeção que me impus. Não 9. Uece 2014 O texto que você lerá é um excerto reti-
resguardei os apontamentos obtidos em largos dias e meses rado do primeiro parágrafo do artigo de opinião “Com
de observação: num momento de aperto fui obrigado a um braço só”, escrito por J. R. Guzzo, que trata da cor-
atirá-los na água. Certamente me irão fazer falta, mas terá rupção na política.
30 sido uma perda irreparável? Quase me inclino a supor que
foi bom privar-me desse material. Se ele existisse, ver-me-ia Um dos aspectos menos atraentes da personalidade
propenso a consultá-lo a cada instante, mortificar-me-ia humana é a tendência de muitas pessoas de só condenar os
por dizer com rigor a hora exata de uma partida, quantas vícios que não praticam, ou pelos quais não se sentem atraí-
demoradas tristezas se aqueciam ao sol pálido, em manhã das. Um caloteiro que não fuma, não bebe e não joga, por
35 5 exemplo, é frequentemente a voz que mais grita contra o ci-
de bruma, a cor das folhas que tombavam das árvores, num
pátio branco, a forma dos montes verdes, tintos de luz, garro, a bebida e os cassinos, mas fecha a boca, os ouvidos
frases autênticas, gestos, gritos, gemidos. Mas que significa e os olhos, como os três prudentes macaquinhos orientais,
isso? Essas coisas verdadeiras podem não ser verossímeis. E quando o assunto é honestidade no pagamento de dívidas
se esmoreceram, deixá-las no esquecimento: valiam pou- pessoais. É a velha história: o mal está sempre na alma dos
40 10 outros. Pode até ser verdade, infelizmente, quando se trata
co, pelo menos imagino que valiam pouco. Outras, porém,
conservaram-se, cresceram, associaram-se, e é inevitável da política brasileira, em que continua valendo, mais do
mencioná-las. Afirmarei que sejam absolutamente exa- que nunca, a máxima popular do “pega um, pega geral”.
Extraído do artigo ”Com um braço só”, de J.R. Guzzo. VEJA. 21/08/2013.
tas? Leviandade. [...] Nesta reconstituição de fatos velhos,
neste esmiuçamento, exponho o que notei, o que julgo Atente para as seguintes afirmações sobre alguns dos
45
ter notado. Outros devem possuir lembranças diversas. elementos do texto.
Não as contesto, mas espero que não recusem as minhas: I. Os gramáticos modernos distinguem os advér-
conjugam-se, completam-se e me dão hoje impressão de bios frásicos (aqueles advérbios que modificam
realidade. Formamos um grupo muito complexo, que se um elemento da frase, como em Ele correu mui-
50 desagregou. De repente nos surge a necessidade urgente to.) dos advérbios extrafrásicos (aqueles que
de recompô-lo. Define-se o ambiente, as figuras se deli- são exteriores à frase, estão no âmbito da enun-
neiam, vacilantes, ganham relevo, a ação começa. Com ciação, como em Ele, naturalmente, passou de
esforço desesperado arrancamos de cenas confusas alguns
primeira, não foi?). Esse segundo grupo congrega
fragmentos. Dúvidas terríveis nos assaltam. De que modo
os advérbios avaliativos, isto é, que indicam uma
55 reagiram os caracteres em determinadas circunstâncias? O
avaliação do enunciador acerca do conteúdo
ato que nos ocorre, nítido, irrecusável, terá sido realmente
enunciado. No texto em estudo, temos um advér-
praticado? Não será incongruência? Certo a vida é cheia
bio frásico na linha : “sempre”; e um advérbio
de incongruências, mas estaremos seguros de não nos ha-
extrafrásico na linha : “infelizmente”.
vermos enganado? Nessas vacilações dolorosas, às vezes
60 necessitamos confirmação, apelamos para reminiscências II. Na expressão “os três prudentes macaquinhos
alheias, convencemo-nos de que a minúcia discrepante orientais” (linha ), o artigo definido “os” confere a
não é ilusão. Difícil é sabermos a causa dela, desenter- “três macaquinhos orientais” o status de informa-
rarmos pacientemente as condições que a determinaram. ção conhecida.
Como isso variava em excesso, era natural que variássemos III. O texto, embora constitua apenas um excerto
65 também, apresentássemos falhas. Fiz o possível por enten- do parágrafo original, apresenta a estrutura pa-
der aqueles homens, penetrar-lhes na alma, sentir as suas ragráfica canônica: tópico frasal ou introdução,
dores, admirar-lhes a relativa grandeza, enxergar nos seus desenvolvimento e conclusão.
defeitos a sombra dos meus defeitos. Foram apenas bons
Está correto o que se diz em
propósitos: devo ter-me revelado com frequência egoísta
70 a) I e II apenas.
FRENTE 1

e mesquinho. E esse desabrochar de sentimentos maus era


a pior tortura que nos podiam infligir naquele ano terrível. b) II e III apenas.
GRACILIANO RAMOS. Memórias do cárcere. c) I, II e III.
Rio de Janeiro: Record, 2002. d) II apenas.

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10. Unifesp 2015 Para responder à questão, leia as opi- • Suggar da Suggar é o depurador mais vendido do País.
niões em relação ao projeto de adaptação que visa Neste segmento, temos, também, mais de 20 modelos
facilitar obras de Machado de Assis. de coifas ilha e parede; vidro e aço inox;
• As lavadoras Suggar também têm a preferência dos con-
Texto 1 sumidores, pois garantem maior eficiência na lavagem,
Isso é um assassinato e eu endosso. A autora [da adap- com baixo consumo de água e energia, comprovados
tação] quer que a Academia se manifeste. Para ela, vai ser pelo INMETRO;
a glória. Mas vários acadêmicos se manifestaram. Eu me • Parque industrial de 40 000m2, em expansão para
manifestei. Há temas em que a instituição não pode se ba- 56 400m 2 de área coberta, com apoio do Gover-
ratear. Essa mulher quer que nós tenhamos essa discussão no do Estado, Prefeitura Municipal, BDMG, INDI,
como se ela estivesse propondo a ressurreição eterna de FIEMG, A.D.C.E (Associação dos Dirigentes Cristãos
Machado de Assis, como se ele dependesse dela. Confio de Empresas), CEMIG, Secretaria da Fazenda e do De-
na vigilância da sociedade. Vamos para a rua protestar. senvolvimento Econômico;
(Nélida Piñon. [Link]
• 154 produtos diferentes, entre eles, linha branca, premium,
Texto 2 eletroportáteis, com a qualidade que a força da marca
Não defenderia, jamais, que Secco [autora da adap- Suggar exige;
tação] fosse impedida de realizar seu projeto, mas não • Mais de 28 milhões de peças produzidas;
me parece que a proposta devesse merecer apoio do Mi- • Mais de 1 000 colaboradores;
nistério da Cultura e ser realizada com a ajuda de leis • 968 postos de assistência técnica no país;
que, afinal, transferem impostos para a cultura. Trata-se, • 11 mil pontos de vendas comercializam a marca Suggar;
na melhor das hipóteses, de ingenuidade; na pior, de ex- • Empresas conglemeradas: Cook Cozinhas, Linha Bran-
cesso de “sagacidade”. Não será a adulteração de obras, ca Expresso, Cook Eletroraro, Cook Interação e Grave
para torná-las supostamente mais legíveis por ignorantes, Multimídia.
que irá resolver o problema do acesso a textos literários Por tudo isso, os brasileiros adoram a marca Suggar!
históricos – mesmo porque, adulterados, já terão deixado Fonte: Revista Encontro 137, ano XI, de 1o de outubro de 2012.
de ser o que eram. Observe o trecho:
(Marcos Augusto Gonçalves. [Link]
“Suggar da Suggar é o depurador mais vendido do País”.
Examine os enunciados:
• “Vamos para a rua protestar.” (Texto ) É exemplo da mesma relação de sentido estabelecida
entre a preposição destacada no trecho:
• “Não será a adulteração de obras, para torná-las su-
a) “milhões de peças”.
postamente mais legíveis por ignorantes” (Texto )
b) “apoio do governo”
O termo “para”, em destaque nos enunciados, expres- c) “consumo de água”.
sa, respectivamente, sentido de d) “ anos de sucesso”.
a) movimento e finalidade.
b) modo e conformidade. 13. Fasm-SP 2014 Leia um trecho do conto Uma vela
c) tempo e comparação. para Dario, do escritor curitibano Dalton Trevisan,
d) movimento e comparação. para responder à questão.
e) conformidade e finalidade. Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço es-
11. UEMG 2019 querdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo
até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela
Eu sei que um outro Mas eu duvido escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chu-
deve estar falando Duvido que ele tenha va, e descansou na pedra o cachimbo.
Ao seu ouvido tanto amor Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se
Palavras de amor como E até os erros do meu não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios,
eu falei português ruim. [...] não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu
(Roberto e Erasmo Carlos) que devia sofrer de ataque.
Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na
A preposição até tem o mesmo valor semântico do calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode
sublinhado no texto em: pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar.
a) Até você acha que não compreendo isso? Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quan-
b) Ela continuou ali até eu acabar de falar. do lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de
c) Foram até a sala para receber os convidados. espuma surgiram no canto da boca.
d) Penso que até lá teremos tempo de sobra. Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés,
embora não o pudesse ver. O senhor gordo repetia que
12. UFVJM-MG 2017
Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do
A SUGGAR ESTÁ COMPLETANDO 34 ANOS DE cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas
SUCESSO. não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.
Muito obrigado a você pela preferência! A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava
Sucesso comprovado por números: morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já

110 LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 3 Modalização, conexão e sentido

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no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem Acordei finalmente. O que estivera eu pensando an-
pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. tes de encontrar o menino? O fato é que o pedido deste
Dario conduzido de volta e recostado à parede – não tinha pareceu cumular uma lacuna, dar uma resposta que podia
os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata. servir para qualquer pergunta, assim como uma grande
Alguém informou da farmácia na outra rua. Não car- chuva pode matar a sede de quem queria uns goles de água.
regaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do Sem olhar para os lados, por pudor talvez, sem querer
quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na espiar as mesas da confeitaria onde possivelmente algum
porta de uma peixaria. conhecido tomava sorvete, entrei, fui ao balcão e disse
Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram com uma dureza que só Deus sabe explicar: um doce
apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, go- para o menino.
zavam as delícias da noite. Dario ficou torto como o (A descoberta do mundo, 1999.)
deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso. “Sem olhar para os lados, por pudor talvez, sem querer
Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis,
espiar as mesas da confeitaria onde possivelmente al-
retirados – com vários objetos – de seus bolsos e alinha-
gum conhecido tomava sorvete” (4o parágrafo)
dos sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome,
A preposição destacada assume valor semântico se-
idade, sinal de nascença. O endereço na carteira era de
melhante ao que se verifica na frase:
outra cidade.
a) A crítica tem Machado de Assis por um grande
Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos
autor.
que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a
polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas
b) Há ainda algumas questões por fazer.
tropeçaram no corpo de Dario. O guarda aproximou-se c) Ficaremos na Europa por cinco dias.
do cadáver e não pôde identificá-lo – os bolsos vazios. d) As tropas cercaram os inimigos por terra e por mar.
(Herberto Sales (org.). Antologia escolar de contos brasileiros, s/d. e) Muitas pessoas vão cedo para casa por medo.
Adaptado.)
15. Cesmac-AL 2017
Considere as frases a seguir.
A calçada _____ que Dario se sentou ao passar mal
Saúde, sociedade e qualidade de vida
ainda estava úmida da chuva. Saúde é um direito humano fundamental, reconheci-
O cachimbo _____ que Dario soprava fumaça ficou do por todos os foros mundiais e em todas as sociedades.
sobre o calçamento. Como tal, se encontra em pé de igualdade com outros
direitos garantidos pela Declaração dos Direitos Humanos,
O motorista de táxi _____ quem as pessoas requi-
de 1948: liberdade, alimentação, educação, segurança,
sitaram ajuda questionou-as sobre o pagamento da
nacionalidade etc.
corrida.
A saúde é amplamente reconhecida como o maior re-
A farmácia _____ que pretendiam conduzir Dario era curso para o desenvolvimento social, econômico e pessoal,
no fim do quarteirão. e como uma importante dimensão da qualidade de vida.
As preposições que preenchem, respectivamente e Saúde e qualidade de vida são, assim, dois temas correla-
de acordo com a norma-padrão, as frases são cionados, aspecto com o qual pesquisadores e cientistas
a) de – com – a – com. concordam. A saúde contribui para a qualidade de vida, e
b) em – a – de – em. esta é fundamental para a saúde.
A Carta de Ottawa – um dos documentos mais impor-
c) em – com – a – a.
tantes que se produziram no cenário mundial sobre o tema
d) a – para – em – a.
da saúde e da qualidade de vida – afirma que são recursos
e) a – a – em – em.
indispensáveis para se ter saúde: paz, renda, habitação,
14. Famerp-SP 2016 Leia o trecho do conto “As caridades educação, alimentação adequada, ambiente saudável, re-
odiosas”, de Clarice Lispector, para responder à questão. cursos sustentáveis, equidade, justiça social. Isto implica o
entendimento de que a saúde não é nem uma conquista,
Foi uma tarde de sensibilidade ou de suscetibili- nem uma responsabilidade exclusiva do setor saúde. É o
dade? Eu passava pela rua depressa, emaranhada nos resultado de um conjunto de fatores sociais, econômicos,
meus pensamentos, como às vezes acontece. Foi quan- políticos e culturais, coletivos e individuais, que se combi-
do meu vestido me reteve: alguma coisa se enganchara nam, daí resultando sociedades mais ou menos saudáveis.
na minha saia. Voltei- me e vi que se tratava de uma Na maior parte do tempo de suas vidas, a maioria das
mão pequena e escura. Pertencia a um menino a que a pessoas é saudável. Isto significa que, na maior parte do
sujeira e o sangue interno davam um tom quente de pele. tempo, a maioria das pessoas não necessita de hospitais,
O menino estava de pé no degrau da grande confeitaria. ou de complexos procedimentos médicos ou terapêuticos.
Seus olhos, mais do que suas palavras meio engoli- Mas durante toda a vida, todas as pessoas necessitam de
das, informavam-me de sua paciente aflição. Paciente água e ar puros, ambiente saudável, alimentação ade-
demais. Percebi vagamente um pedido, antes de com- quada, situações social, econômica e cultural favoráveis,
preender o seu sentido concreto. Um pouco aturdida prevenção de problemas de saúde, educação e informação.
FRENTE 1

eu o olhava, ainda em dúvida se fora a mão da criança Isto quer dizer que fatores políticos, econômicos, sociais,
o que me ceifara os pensamentos. culturais, ambientais, comportamentais e biológicos po-
— Um doce, moça, compre um doce para mim. dem tanto favorecer, como prejudicar a saúde.

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Para se melhorar realmente as condições de saúde baseados no engano. Porque aquela alegria toda se deve
de uma população, são necessárias mudanças profundas precisamente a isto: eles estão enganados.
dos padrões econômicos no interior destas sociedades e Estão alegres porque acreditam que a universidade
intensificação de políticas sociais, eminentemente polí- é a chave do mundo. Acabaram de chegar ao último
ticas públicas. Para que uma sociedade conquiste saúde patamar. As celebrações têm o mesmo sentido que os
para seus membros, são necessárias uma verdadeira eventos iniciáticos – nas culturas ditas primitivas, as
ação intersetorial e políticas públicas saudáveis, isto é, provas a que têm de se submeter os jovens que pas-
comprometidas com a qualidade de vida e a saúde da saram pela puberdade. Passadas as provas e os seus
população. sofrimentos, os jovens deixaram de ser crianças. Agora
Além destes elementos estruturais, que dependem da são adultos, com todos os seus direitos e deveres. Po-
decisão e da ação dos indivíduos, a saúde também é de- dem assentar-se na roda dos homens. Assim como os
corrência de fatores comportamentais. Isto é, as pessoas nossos jovens agora podem dizer: “Deixei o cursinho.
desenvolvem padrões alimentares, de atividade física, de Estou na universidade”.
maior ou menor estresse na vida quotidiana, entre outros, Houve um tempo em que as celebrações eram justas.
que também têm grande influência sobre a saúde. Se cada Isso foi há muito tempo, quando eu era jovem. Naqueles
pessoa se preocupar em desenvolver um padrão comporta- tempos, um diploma universitário era garantia de trabalho.
mental favorável à sua saúde e lutar para que as condições Os pais se davam como prontos para morrer quando uma
sociais e econômicas sejam favoráveis à qualidade de vida destas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia
e à saúde de todos, certamente estará dando uma podero- o seu sustento pelo resto da vida; 2) a filha tirava o diplo-
sa contribuição para que tenhamos uma população mais ma de normalista. Isso garantiria o seu sustento caso não
saudável, com vida mais longa e prazerosa. casasse; 3) o filho entrava para o Banco do Brasil; 4) o
(Paulo M. Buss. Folha de [Link]). filho tirava diploma.
Analise o trecho: “Saúde e qualidade de vida são, as- O diploma era mais que garantia de emprego. Era um
sim, dois temas correlacionados, aspecto com o qual atestado de nobreza. Quem tirava diploma não precisava
trabalhar com as mãos, como os mecânicos, pedreiros e
pesquisadores e cientistas concordam”. O uso da pre-
carpinteiros, que tinham mãos rudes e sujas.
posição – uma exigência sintática do verbo – também
Para provar para todo mundo que não trabalhavam
está correto na alternativa:
com as mãos, os diplomados tratavam de pôr no dedo
a) Saúde e qualidade de vida são dois temas rela-
um anel com pedra colorida. Havia pedras para todas as
cionados, fato do qual pesquisadores e cientistas profissões: médicos, advogados, músicos, engenheiros.
atribuem toda consistência. Até os bispos tinham suas pedras.
b) Saúde e qualidade de vida são dois temas rela- (Ah! Ia me esquecendo: os pais também se davam
cionados, fato no qual pesquisadores e cientistas como prontos para morrer quando o filho entrava para
admitem facilmente. o seminário para ser padre – aos 45 anos seria bispo –
c) Saúde e qualidade de vida são dois temas rela- ou para o exército para ser oficial – aos 45 anos seria
cionados, fato ao qual todos nós nos sentimos general.)
dependentes. Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais e é
d) Saúde e qualidade de vida são dois temas rela- introduzida na cabeça dos filhos desde pequenos. Profis-
cionados, fato do qual nenhum pesquisador ou são honrosa é profissão que tem diploma universitário.
cientista discorda. Profissão rendosa é a que tem diploma universitário. Cria-
e) Saúde e qualidade de vida são dois temas rela- -se, então, a fantasia de que as únicas opções de profissão
cionados, fato ao qual pesquisadores e cientistas são aquelas oferecidas pelas universidades.
confiam. Quando se pergunta a um jovem “O que é que você
vai fazer?”, o sentido dessa pergunta é “Quando você for
16. ITA-SP 2016 Vou confessar um pecado: às vezes, faço preencher os formulários do vestibular, qual das opções
maldades. Mas não faço por mal. Faço o que faziam os oferecidas você vai escolher?”. E as opções não oferecidas?
mestres zen com seus “koans”. “Koans” eram rasteiras Haverá alternativas de trabalho que não se encontram nos
que os mestres passavam no pensamento dos discípulos. formulários de vestibular?
Eles sabiam que só se aprende o novo quando as certezas Como todos os pais querem que seus filhos entrem
velhas caem. E acontece que eu gosto de passar rasteiras na universidade e (quase) todos os jovens querem en-
em certezas de jovens e de velhos... trar na universidade, configura-se um mercado imenso,
Pois o que eu faço é o seguinte. Lá estão os jovens mas imenso mesmo, de pessoas desejosas de diplomas
nos semáforos, de cabeças raspadas e caras pintadas, na e prontas a pagar o preço. Enquanto houver jovens que
maior alegria, celebrando o fato de haverem passado no não passam nos vestibulares das universidades do Estado,
vestibular. Estão pedindo dinheiro para a festa! Eu paro haverá mercado para a criação de universidades particu-
o carro, abro a janela e na maior seriedade digo: “Não lares. É um bom negócio.
vou dar dinheiro. Mas vou dar um conselho. Sou profes- Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-se, então,
sor emérito da Unicamp. O conselho é este: salvem-se a multidão de jovens com diploma na mão, mas que não
enquanto é tempo!”. Aí o sinal fica verde e eu continuo. conseguem arranjar emprego. Por uma razão aritmética:
“Mas que desmancha-prazeres você é!”, vocês me di- o número de diplomados é muitas vezes maior que o
rão. É verdade. Desmancha-prazeres. Prazeres inocentes número de empregos.

112 LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 3 Modalização, conexão e sentido

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Já sugeri que os jovens que entram na universidade deveriam aprender, junto com o curso “nobre” que frequentam, um
ofício: marceneiro, mecânico, cozinheiro, jardineiro, técnico de computador, eletricista, encanador, descupinizador, motorista
de trator... O rol de ofícios possíveis é imenso. Pena que, nas escolas, as crianças e os jovens não sejam informados sobre
essas alternativas, por vezes mais felizes e mais rendosas.
Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade, à posição de reitor de um grande colégio americano
no interior de Minas. Ele odiava essa posição porque era obrigado a fazer discursos. E ele tremia de medo de fazer discursos.
Um dia ele desapareceu sem explicações. Voltou com a família para o seu país, os Estados Unidos. Tempos depois, encontrei
um amigo comum e perguntei: “Como vai o Fulano?”. Respondeu-me: “Felicíssimo. É motorista de um caminhão gigantesco
que cruza o país!”.
(Rubem Alves. Diploma não é solução, Folha de [Link], 25/05/2004.)

No trecho “Até os bispos tinham suas pedras.”, a palavra sublinhada expressa a ideia de
a) inclusão.
b) tempo.
c) modo.
d) quantidade.
e) qualidade.

BNCC em foco
EM13LP07

1. PUC-SP

Depois de brincar de referendo... É hora de falar sério


Ganhe o NÃO ou ganhe o SIM, o problema do crime no Brasil vai continuar do mesmo tamanho. Durante quase um
mês as autoridades submeteram o país à propaganda eleitoral de uma questão sobre a qual a opinião das pes soas, por mais
bem-intencionadas, não tem o menor poder. O referendo das armas vai ser lembrado como um daqueles momentos em
que um país entra em transe emocional e algumas pessoas se convencem de que basta uma torcida muito forte para que
se produza um resultado positivo para a sociedade. Em finais de Copa do Mundo essa mobilização é muito apropriada. O
referendo das armas no Brasil tem algo dessa ilusão coletiva de que se pode vencer um inimigo poderoso, o crime violento,
apenas pela repetição de mantras e mediante sinais feitos com as mãos imitando o voo da pomba branca da paz. Infelizmente
a vida real exige mais do que boas intenções para seguir o vetor do progresso social.
Ganhe o SIM ou o NÃO na proposta de proibir a comercialização de armas, continuará intacto e movimentado o principal
caminho que elas percorrem das forjas do metal até as mãos dos bandidos. Esse caminho é a corrupção policial. Se quisesse
efetivamente diminuir o número de armas em circulação o governo deveria ter optado por agir silenciosa e drasticamente
dentro das organizações policiais. São conhecidos os expedientes usados por policias corruptos que deixam as armas esca-
parem para as mãos dos bandidos em troca de dinheiro.
O caminho mais comum é a simples venda para os bandidos de armas ilegais apreendidas em operações policiais. A
apreensão não é reportada ao comando policial e, em lugar de serem encaminhadas para destruição, elas são vendidas aos
bandidos. É frequente criminosos serem soltos em troca de deixarem a arma com policiais. O mesmo vale para cidadãos
pegos com armas ilegais ou sem licença para o porte. Eles são liberados pagando como pedágio a arma que portavam. Poli-
ciais corruptos também simulam o roubo, furto ou até a perda da arma oficial. Depois raspam sua numeração e a vendem. A
corporação cuida de entregar-lhes uma nova, que pode vir a ter o mesmo destino. Enquanto esse tráfico não for interrompido,
podem ser organizados milhares de referendos e o problema do crime continuará do mesmo tamanho.
Shelp, Diogo. Veja. São Paulo. 26 out. 2005. p. 62.

De acordo com o discurso gramatical tradicional, advérbio é palavra invariável que expressa circunstância e incide
sobre verbos, adjetivos e até mesmo advérbios. No entanto, extrapolando esse discurso, sabe-se que, como moda-
lizador, em vez de exprimir uma circunstância (tempo, lugar, intensidade etc.) relacionada a um verbo, advérbio ou
adjetivo, o advérbio pode revelar estados psicológicos do enunciador. Isso se vê em:
a) “[...] basta uma torcida muito forte para que se produza um resultado positivo para a sociedade.”
b) “Infelizmente a vida real exige mais do que boas intenções para seguir o vetor do progresso social.”
c) “o governo deveria ter optado por agir silenciosa e drasticamente dentro das organizações policiais.”
FRENTE 1

d) “A apreensão não é reportada ao comando policial [...]”


e) “Depois raspam sua numeração e a vendem.”

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EM13LP07

2. Enem Na verdade, o que se chama genericamente de índios é um grupo de mais de trezentos povos que, juntos, falam mais
de 180 línguas diferentes. Cada um desses povos possui diferentes histórias, lendas, tradições, conceitos e olhares sobre a
vida, sobre a liberdade, sobre o tempo e sobre a natureza. Em comum, tais comunidades apresentam a profunda comunhão
com o ambiente em que vivem, o respeito em relação aos indivíduos mais velhos, a preocupação com as futuras gerações,
e o senso de que a felicidade individual depende do êxito do grupo. Para eles, o sucesso é resultado de uma construção
coletiva. Estas ideias, partilhadas pelos povos indígenas, são indispensáveis para construir qualquer noção moderna de ci-
vilização. Os verdadeiros representantes do atraso no nosso país não são os índios, mas aqueles que se pautam por visões
preconceituosas e ultrapassadas de “progresso”.
AZZI, R. As razões de ser guarani-kaiowá. Disponível em: [Link]. Acesso em: 7 dez. 2012.

Considerando-se as informações abordadas no texto, ao iniciá-lo com a expressão “Na verdade”, o autor tem como
objetivo principal
a) expor as características comuns entre os povos indígenas no Brasil e suas ideias modernas e civilizadas.
b) trazer uma abordagem inédita sobre os povos indígenas no Brasil e, assim, ser reconhecido como especialista
no assunto.
c) mostrar os povos indígenas vivendo em comunhão com a natureza, e, por isso, sugerir que se deve respeitar o
meio ambiente e esses povos.
d) usar a conhecida oposição entre moderno e antigo como uma forma de respeitar a maneira ultrapassada como
vivem os povos indígenas em diferentes regiões do Brasil.
e) apresentar informações pouco divulgadas a respeito dos indígenas no Brasil, para defender o caráter desses
povos como civilizações, em contraposição a visões preconcebidas.
EM13LP06

3. Enem A crônica muitas vezes constitui um espaço para reflexão sobre aspectos da sociedade em que vivemos.
Eu, na rua, com pressa, e o menino segurou no meu braço, falou qualquer coisa que não entendi. Fui logo dizendo que
não tinha, certa de que ele estava pedindo dinheiro. Não estava. Queria saber a hora.
Talvez não fosse um Menino De Família, mas também não era um Menino De Rua. É assim que a gente divide. Menino
De Família é aquele bem-vestido com tênis da moda e camiseta de marca, que usa relógio e a mãe dá outro se o dele for
roubado por um Menino De Rua. Menino De Rua é aquele que quando a gente passa perto segura a bolsa com força porque
pensa que ele é pivete, trombadinha, ladrão. [...] Na verdade não existem meninos De rua. Existem meninos NA rua. E toda
vez que um menino está NA rua é porque alguém o botou lá. Os meninos não vão sozinhos aos lugares. Assim como são
postos no mundo, durante muitos anos também são postos onde quer que estejam. Resta ver quem os põe na rua. E por quê.
(COLASSANTI, Marina. In: Eu sei, mas não devia. Rio de Janeiro: Rocco, 1999)

No terceiro parágrafo, em “... não existem meninos De rua. Existem meninos NA rua”, a troca de De pelo Na determina
que a relação de sentido entre “menino” e “rua” seja:
a) de localização, e não de qualidade.
b) de origem, e não de posse.
c) de origem, e não de localização.
d) de qualidade, e não de origem.
e) de posse, e não de localização.

114 LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 3 Modalização, conexão e sentido

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Common questions

Com tecnologia de IA

Os advérbios interagem com verbos, adjetivos e outros advérbios para modificar seus significados ao agregar valores como tempo, lugar, modo, intensidade, entre outros. Embora invariáveis morfologicamente, sua função sintática depende do contexto, e eles podem modificar o sentido de frases inteiras ou apenas partes delas, como no caso das expressões concatenadas através de palavras denotativas .

Preposições alteram relações de sentido, por exemplo, 'a' pode indicar meio (Vim a cavalo), modo (Realizou a tarefa aos gritos), ou tempo (Chegaremos ao meio-dia). Elas funcionam como vínculos que conectam substantivos ou verbos a outros elementos, enriquecendo o texto com especificidade semântica e clareza contextual .

Palavras denotativas, como 'afinal', 'lá', 'agora', oferecem nuances essenciais ao texto, sem modificar o verbo, o adjetivo, ou outro advérbio. Elas são cruciais para indicar realce, retificação, situação ou explicação; e apesar de invariáveis, adicionam camadas de sentido que guiam a compreensão do leitor e promovem clareza no texto .

As caatingas, vistas como aliadas naturais, proporcionam aos sertanejos uma vantagem estratégica ao camuflar movimentos e oferecer caminhos familiares, enquanto confunde o inimigo desconhecedor do terreno. Elas agem como barreiros físicos que protegem os locais e dificultam as forças adversárias, mostrando-se uma força defensiva ativa no confronto militar .

Os advérbios são instrumentos de modalização que expressam o ponto de vista de quem fala ou escreve, similar à maneira como os elementos estruturais dos trabalhadores e edifícios sob construção são representados na tela 'Os construtores' de Léger. Eles adicionam expressividade e conectam elementos no texto, contribuindo para a construção de significados ao modificar o verbo, o adjetivo ou outro advérbio .

As modalizações lógicas envolvem a avaliação de condições de verdade com advérbios como 'possivelmente' ou 'certamente', mostrando a realidade fática ou a negação dela. Já as modalizações apreciativas refletem avaliações subjetivas, oferecendo juízos de valor ou opinião pessoal como 'interessante' ou 'medonho'. Ambas influenciam significativamente a percepção do leitor sobre a veracidade ou emoção vinculada ao discurso .

A dicotomia é manifestada através de descrições detalhadas que, embora verdadeiras, podem não parecer verossímeis. Essas narrações convocam o leitor a questionar a realidade, criando um conflito interno sobre o que é percebido versus o que é verdadeiro, destacando a complexidade entre memória e percepção na formação de narrativas .

Advérbios como 'certamente' ou 'quase' podem relativizar uma afirmação, alterando a certeza percebida dos eventos ou declarações, e modulando a carga emocional do texto. Eles oferecem ao narrador uma ferramenta para aumentar a intensidade narrativa ou suavizar a retórica, afetando a credibilidade, a urgência ou a emotividade na literatura .

As preposições essenciais são aquelas que sempre atuam como preposições, como 'a', 'de', 'em', enquanto as preposições acidentais desempenham essa função em contextos específicos, mesmo que pertençam a outras classes de palavras como advérbios ou adjetivos. As essenciais formam locuções prepositivas para enriquecer o sentido, estabelecendo relações de modo, tempo, posse, entre outras, enquanto as acidentais podem modificar o significado dependendo do uso contextual .

Valentin Volóchinov destaca que toda comunicação é dialógica, usada e reinterpretada a partir de discursos alheios. As modalizações são reveladoras dessa prática, pois ao expressar julgamentos e avaliações, conduzem a uma teia intertextual onde a reprodução de ideias prévias influencia novos discursos, evidenciando um diálogo constante e um posicionamento frente a outros discursos .

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