Os Poemas (Mário Quintana)
A Rua dos Cataventos (Mário Quintana) Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
Da vez primeira em que me assassinaram,
no livro que lês.
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha. Quando fechas o livro, eles alçam voo
Depois, a cada vez que me mataram, como de um alçapão.
Foram levando qualquer coisa minha. Eles não têm pouso
nem porto
Hoje, dos meus cadáveres eu sou alimentam-se um instante em cada par de
O mais desnudo, o que não tem mais nada. mãos
Arde um toco de Vela amarelada, e partem. E olhas, então, essas tuas mãos
Como único bem que me ficou. vazias,
no maravilhado espanto de saberes
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada! que o alimento deles já estava em ti…
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai! Esperança (Mário Quintana)
Que a luz trêmula e triste como um ai, Lá bem no alto do décimo segundo andar do
A luz de um morto não se apaga nunca! Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Emergência (Mário Quintana) Todas as buzinas
Quem faz um poema abre uma janela. Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
Respira, tu que estás numa cela
E — ó delicioso voo!
abafada, Ela será encontrada miraculosamente
esse ar que entra por ela. incólume na calçada,
Por isso é que os poemas têm ritmo — Outra vez criança…
para que possas profundamente respirar. E em torno dela indagará o povo:
Quem faz um poema salva um afogado. — Como é teu nome, meninazinha de olhos
verdes?
E ela lhes dirá
Relógio (Mário Quintana) (É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não
O mais feroz dos animais domésticos esqueçam:
é o relógio de parede: — O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…
conheço um que já devorou
três gerações da minha família.
em faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo —
para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
Para ir à Lua (Cecília Meireles) A bailarina (Cecília Meireles)
Enquanto não têm foguetes Esta menina
para ir à Lua tão pequenina
os meninos deslizam de patinete quer ser bailarina.
pelas calçadas da rua. Não conhece nem dó nem ré
Vão cegos de velocidade: mas sabe ficar na ponta do pé.
mesmo que quebrem o nariz, Não conhece nem mi nem fá
que grande felicidade! Mas inclina o corpo para cá e para lá
Ser veloz é ser feliz. Não conhece nem lá nem si,
Ah! se pudessem ser anjos mas fecha os olhos e sorri.
de longas asas! Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
Mas são apenas marmanjos! e não fica tonta nem sai do lugar.
Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.
Ou isto ou aquilo (Cecília Meireles) Esta menina
Ou se tem chuva e não se tem sol, tão pequenina
ou se tem sol e não se tem chuva! quer ser bailarina.
Ou se calça a luva e não se põe o anel, Mas depois esquece todas as danças,
ou se põe o anel e não se calça a luva! e também quer dormir como as outras
Quem sobe nos ares não fica no chão, crianças.
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares! As meninas (Cecília Meireles)
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, Arabela
ou compro o doce e gasto o dinheiro. abria a janela.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo… Carolina
e vivo escolhendo o dia inteiro! erguia a cortina.
Não sei se brinco, não sei se estudo, E Maria
se saio correndo ou fico tranquilo. olhava e sorria:
Mas não consegui entender ainda “Bom dia!”
qual é melhor: se é isto ou aquilo. Arabela
foi sempre a mais bela.
Carolina,
O eco (Cecília Meireles) a mais sábia menina.
O menino pergunta ao eco E Maria
Onde é que ele se esconde. apenas sorria:
Mas o eco só responde: Onde? Onde? “Bom dia!”
O menino também lhe pede: Pensaremos em cada menina
Eco, vem passear comigo! que vivia naquela janela;
Mas não sabe se o eco é amigo uma que se chamava Arabela,
ou inimigo. uma que se chamou Carolina.
Pois só lhe ouve dizer: Migo! Mas a profunda saudade
é Maria, Maria, Maria,
que dizia com voz de amizade:
“Bom dia!”
Cora Coralina, Quem É Você? Leilão de jardim (Cecília Meireles)
(Cora Coralina) Quem me compra um jardim com flores?
Sou mulher como outra qualquer. borboletas de muitas cores,
Venho do século passado lavadeiras e passarinhos,
e trago comigo todas as idades. ovos verdes e azuis
Nasci numa rebaixa de serra nos ninhos?
entre serras e morros. Quem me compra este caracol?
"Longe de todos os lugares". Quem me compra um raio de sol?
Numa cidade de onde levaram Um lagarto entre o muro e a hera,
o ouro e deixaram as pedras. uma estátua da Primavera?
Junto a estas decorreram Quem me compra este formigueiro?
a minha infância e adolescência. E este sapo, que é jardineiro?
Aos meus anseios respondiam E a cigarra e a sua canção?
as escarpas agrestes. E o grilinho dentro do chão?
E eu fechada dentroda imensa serrania (Este é meu leilão!)
que se azulava na distância
longínqua. A chácara do Chico Bolacha
Numa ânsia de vida eu abria (Cecília Meireles)
o vôo nas asas impossíveis Na chácara do Chico Bolacha,
do sonho. o que se procura
Venho do século passado. nunca se acha!
Pertenço a uma geração Quando chove muito,
ponte, entre a libertação o Chico brinca de barco,
dos escravos e o trabalhador livre. porque a chácara vira charco.
Entre a monarquia Quando não chove nada,
caída e a república Chico trabalha com a enxada
que se instalava. e logo se machuca
Todo o ranço do passado era e fica de mão inchada.
presente. Por isso, com o Chico Bolacha
A brutalidade, a incompreensão, o que se procura
a ignorância, o carrancismo. nunca se acha!
Dizem que a chácara do Chico
só tem mesmo chuchu
Assim Eu Vejo a Vida (Cora Coralina) e um cachorro coxo
A vida tem duas faces: que se chama Caxambu.
Positiva e negativa Outras coisas ninguém procura,
O passado foi duro porque não acha,
mas deixou o seu legado coitado do Chico Bolacha!
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver
Momento (Adélia Prado) Retrato (de Cecília Meireles)
Enquanto eu fiquei alegre, Eu não tinha este rosto de hoje,
permaneceram um bule azul com um Assim calmo, assim triste, assim magro,
descascado no bico, Nem estes olhos tão vazios,
uma garrafa de pimenta pelo meio, Nem o lábio amargo.
um latido e um céu limpidíssimo Eu não tinha estas mãos sem força,
com recém-feitas estrelas. Tão paradas e frias e mortas;
Resistiram nos seus lugares, em seus ofícios, Eu não tinha este coração
constituindo o mundo pra mim, anteparo Que nem se mostra.
para o que foi um acometimento: Eu não dei por esta mudança,
súbito é bom ter um corpo pra rir Tão simples, tão certa, tão fácil:
e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo — Em que espelho ficou perdida
alegre do que triste. Melhor é ser. a minha face?
Fragmento(Adélia Prado) Poema No Meio do Caminho
Bem-aventurado o que pressentiu (Carlos Drummond de Andrade)
quando a manhã começou: No meio do caminho tinha uma pedra
não vai ser diferente da noite. tinha uma pedra no meio do caminho
Prolongados permanecerão o corpo sem tinha uma pedra
pouso, no meio do caminho tinha uma pedra.
o pensamento dividido entre deitar-se primeiro
à esquerda ou à direita Nunca me esquecerei desse acontecimento
e mesmo assim anunciou o paciente ao meio- na vida de minhas retinas tão fatigadas.
dia: Nunca me esquecerei que no meio do
algumas horas e já anoitece, o mormaço caminho
abranda, tinha uma pedra
um vento bom entra nessa janela. tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Casamento (Adélia Prado)
Há mulheres que dizem: Poema sujo (Ferreira Gullar)
Meu marido, se quiser pescar, pesque, Que importa um nome a esta hora do
mas que limpe os peixes. anoitecer em São Luís
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. febre entre irmãos
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, e pais dentro de um enigma?
de vez em quando os cotovelos se esbarram, mas que importa um nome
ele fala coisas como “este foi difícil” debaixo deste teto de telhas encardidas vigas
“prateou no ar dando rabanadas” à mostra entre
e faz o gesto com a mão. cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez armário diante de
atravessa a cozinha como um rio profundo. garfos e facas e pratos de louças que se
Por fim, os peixes na travessa, quebraram já
vamos dormir. um prato de louça ordinária não dura tanto
Coisas prateadas espocam: e as facas se perdem e os garfos
somos noivo e noiva. se perdem pela vida caem pelas falhas do
assoalho e vão conviver com ratos
e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos
entre os pés de erva-cidreira