FAMÍLIA
faniília é uma instituição social que tem passado por mudanças aceleradas
enl sua estrutura, organização e funções de seus membros, a partir da segunda metade do
século XX, Ao modelo tradicional de família, somam-se mui
Digitalizado com CamScanner
237
tos outros e não é possível afirmar se são melhores ou piores; são diferentes. Como
Família de imigrantes portugueses em São José do Rio Preto (SP) na década de 1930.
Atualmente, é impossível não enxergar -- vários estudos antropológicos e para
mesmo re- entendermos as
portagens em revistas, jornais e TV mostram — que existem muitas mudanças na
formas de estrutura familiar: a família de pais separados que realizam concepção de
novas uniões das quais resulta uma convivência entre os filhos dos
família, a
casamentos anteriores de ambos e os novos filhos do casal; a família
chefiada por mulher (em todas as classes sociais), a nuclear, a extensa, a função social
homossexUal, enfim, observa-se uma infinidade de tipos que a cultura e os dessa
novos padróes de relações humanas vão produzindo. Isso sem
instituição (a
considerarmos culturas bastante diferentes da nossa, como as de grupos
indígenas, por exemplo. família é uma
instituição
Digitalizado com CamScanner
social) e a produção de subjetividade que ocorre em seu interior, é trabalho — a
necessário (como sempre!) recorrer à história. procriação e a
educação do
futuro
frabalhador —
OLHAR PELA HISTÓRIA das classes ditas
subalternas.
A família monogâmica é um ponto de partida histórico — sempre FAMÍLIA | 237
precisamos partir de um ponto! embora devamos considerá-la como Atualmente existem
muitas formas de
produto de muitas e diversificadas formas anteriores de o homem
organizar-se para dar conta da sua reprodução e da sobrevivência da
de pais separados,
espécie (desde o estado selvagem até a barbárie), Pesquisas realizadas pelo a chefiada por
antropólogo americano L, H. Morgan (1818-1881) demonstraram que, mulher, a nuclear,
a extensa, a
desde a origem da humanidade, houve, sucessivamente: homossexual.
• a família consanguínea — intercasamento de irmãos e irmãs carnais e
colaterais no interior de um grupo;
• a família punaluana — o grupo de homens era conjuntamente casado com
o grupo de mulheres: havia o casamento de várias irmãs, carnais e
colaterais, com os maridos de cada uma das outras; e, os irmãos também
se casavam com as esposas de cada um dos irmãos.
• a família sindiásmica (ou de casal) — casamento sem obrigação de morar
juntos; existia enquanto os cônjuges desejassem;
• a família patriarcal — o casamento de um só homem com diversas
mulheres;
• e, finalmente, a família monogâmica, que se funda sobre o casamento de
duas pessoas, com obrigação de coabitação exclusiva e a fidelidade, o
controle do homem sobre a esposa e os filhos, a garantia de descendência
por consanguinidade e, portanto, a garantia do direito de herança aos
filhos legítimos (a garantia da propriedade privada). A ideia de
propriedade — criar, possuir e regular por meio de direitos legais sua
transmissão hereditária — Introduz essa forma de organização familiar: é
necessário ter certeza sobre a paternidade dos filhos e de que o
patrimônio não sairá da família.
Vamos percebendo, então, que a família, como a conhecemos hoje, não é
uma orga-
nização natural nem uma determinação divina. A organização familiar
transforma-se no decorrer da história do ser humano. A família está inserida
na base material da sociedade 01-1' dito de outro modo, as condições
históricas e as mudanças sociais determinam a forma como a família irá se
organizar para cumprir sua frnção social, ou seja, garantir a manuten çã0 da
propriedade e do statu quo das classes superiores e a reprodução da força de
Digitalizado com CamScanner
239
A família, como a conhecemos hoje, não é uma organização natural nem uma
determinação divina.
1 PSICOLOGIAS
Por assunlir papel fundannenlal na sociedade — é chamada de célula
mater a família é forte Iransnnissora dc valores ideológicos. A função
social atribuída a ela é transmitir os va101cs que consliluem a cullura e as
ideias dominantes em determinado momento histórico, isto é, educar as
novas gerações segundo padrões dominantes e hegemónicos de valores e
de condutas. Nesse sentido, revela-se o caráter conservador e de
manutene çào social que lhe é atribuído.
A familia é Não podemos nos esquecer de que a família — reconhecida como lugar de
procriação responsável pela das crianças, constituindo-se o primeiro
sobrevivência física e é responsável pela sobrevivência física e psíquica psíquica das crianças,
grupo de mediação do indivíduo daquele bebé, que está ali no berço — com a sociedade. É
constituindo-se na família que ocorrem os primeiros aprendizados dos hábitos e costumes da
cultura, Exem_ o primeiro grupo plo: o aprendizado da língua, marca da identidade cultural e
ferramenta imprescindível para de mediação do
indivíduo. que a criança se aproprie do mundo à sua volta. É na família que se concretiza,
em primeira instância, o exercício dos direitos da criança e do adolescente: o
direito aos cuidados essen_ ciais para seu crescimento e desenvolvimento físico,
psíquico e social.
Saiba que...
Ideologia é o sistema de representações e crenças que encobrem a realidade,
falseando-a e não permitindo que percebamos e questionemos as contradições
de nossa sociedade, Um exemplo de falseamento da realidade: responsabilizar
crianças por não irem à escola, justificando que não o fazem porque não
gostam, são desinteressadas ou porque os pais não se preocupam em dar-lhes
educação. Outros exemplos de valores ideológicos transmitidos pelas famílias
são os de "cada um por si e Deus por todos"; da esperteza que deve prevalecer
sobre a solidariedade; de que homens e mulheres não têm os mesmos direitos;
de que o valor de uma pessoa é dado pelo que tem e consegue acumular de
bens materiais,
A família, do ponto de vista do indivíduo e da cultura, é um grupo tão
importante que, na sua ausência, dizemos que a criança ou o adolescente
precisa de uma "família substituta" ou deve ser abrigado em uma
instituição que cumpra as funções materna e paterna, isto é, as funções de
cuidado e de transmissão de valores e normas culturais condição para sua
posterior participação na coletividade.
Portanto, inexistindo a família de origem — consanguínea, biológica
—, outro grupo deverá dar conta de sua função.
Digitalizado com CamScanner
,11,
As funções da família são repartidas com outras agências socializadoras, comO as instituições
educacionais.
nas intelectuais)
A REVOLUÇÃO SOCIAL Do PAPEL DA MULHER como
segunda metade do século XX, 0 mundo viveu duas grandes revoluções
sociais: a
Ñvoluçào da juventude e a revolução do papel da mulher.
Desde a conquista do direito ao Voto e dos direitos civis após a Primeira
Guerra Mundial, é a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho e
a expansão da educação superior que criam as condições para, a partir da
década de 1960, o reflorescimento do feminismO. Um indicador dessa
consciência de género é a revolta contra doutrinas impopulares da Igreja, A entrada massiva
como a proibição do divórcio; e, na década de 1990, pesquisas no mundo das mulheres no
mercado de trabalho
todo vão demonstrando diferenças importantes de opiniões entre os géneros, e a expansão da
afirmando a autonomia da mulher.
Um aspecto relevante dessa mudança é a alteração do desempenho do papel criam condições
feminino, tanto no mundo público (ocupação de cargos políticos em vários países do para o
reflorescimento do
mundo, entrada no mercado de trabalho em profissões exclusivamente masculinas e
feminismo.
no privado (a família). Ou seja, as mulheres passam a ter projetos pessoais e profissionais autónomos
e, em muitos casos, uma dupla jornada de trabalho, porque os encargos domésticos continuam sob
sua responsabilidade. Um fenómeno já observável é a família chefiada por mulheres. Em 13 anos, o
total de famílias chefiadas por mulheres cresceu 10 vezes, pas-
sando de 3,4% (ou 247,795 famílias) em 1993, para 14,2% (ou 2.235.233 famílias) em 2006, segundo
dados elaborados pelo Instituto de Pesquisa Económica Aplicada (Ipea).
A essa revolução social corresponde uma revolução cultural, de costumes, de padrões de conduta
que se revelam em uma moral sexual menos repressiva, na pouca estabilidade do casamento, na
sexualidade desligada da procriação; e, portanto, ocorrem mudanças na estrutura e na organização da
família tradicional e nas atividades domésticas.
As famílias redefinem as funções parentais (pai e mãe) do cuidar e do educar dos filhos e, cada vez
mais, dividem essa função com outras agências sociais — educacionais (a escola), recreativas,
culturais — e com técnicos, particularmente os especialistas em saúde mental.
O papel de cada um dos membros se altera com novas atribuições, como, por exemPIO, a
redistribuição dos serviços domésticos entre todos e uma autonoma maior de cada um dos
integrantes. Um dos valores da educação nessa nova família é a autonomia cada vez mais
precoce dos adolescentes e das crianças, o que vai produzindo pessoas diferentes e novas
subjetividades.
Então, nesse início de século XXI há uma discussão intensa sobre a responsabilização da
família e de outras instituições como a escola, por exemplo, na formação das novas e futuras
gerações — as crianças e os adolescentes. Por isso, é frequente nas polémicas sobre os
determinantes de alguma conduta transgressora do adolescente a tentativa de acusar a família
de omissão ou descuido e, ao mesmo tempo, de considerar a influência de outras instituições.
Digitalizado com CamScanner
241
Essa polémica revela que além da família outras agências sociais partilham, neste momento,
mais diretamente a responsabilidade social pela formação das novas gerações: escola, agências
culturais, mídia eletrônica — a TV, a internet.
NO caso das crianças e adolescentes das famílias pobres é cada vez mais intensa a demanda
pela função substitutiva e protetora do estado por meio de seus serviços e programas (núcleos
de proteção, serviços de atenção especial) com o objetivo de garantir os direitos à infância e à
juventude.
Para retornar o tema central do capítulo, lembremos da citação do psicanalista francês
Jacques Lacan, em Os complexosfamiliares:
PSICOI OGIAS
Q conservactio das técnicas e do patri'llónlo stio com ela disputados por outros
grupos ciais, a latnília prevalece na ptlmclra educaçüo, na repressüo dos
instintos, na aquisição da lingua acertadamente cliarnada materna, Com Isso,
ela preside os processos fUndarnentais do desenvolvimento ps(qulco"
Esta síntese de uma concepção de família precisa ser
Este quarto é de
menino ou de problematizada,
menina? Por que Lacan afirma que a família preside os processos
fundamentais do (lesen. volvilnenlo psíquico da criança? Se
considerarmos os três pontos levantados pelo autor — a primeira
nussà
o de educação, a repressão do desejo e a aquisição da linguagem teremos
cultura pistas de respostas e poderemos agregar outros elementos que permitam
, Se as problematizar sua afirmação,
tradiçõ
es
espirit
uais, a
A
PRIMEIRA
manutc
nçao EDUCAÇÃO
dos Mesmo antes do nascimento do filho vemos a preocupação dos
ritos e
pais com a cor de sua roupa, E já podemos perguntar, por que azul e
dos
COSI não rosa para o menino? Outra preocupação refere-se à escolha do
Umes.
Digitalizado com CamScanner
nome: o do regiões do mundo? Foi dessa forma que a jovem mãe justificou a
santo de escolha do nome Lucas para o filho.
devoção, o Antes de nascer, a criança vai ocupando um lugar na família, no
daquele avô cenário social, e o que a espera são os hábitos da cultura
tão querido ou metabolizados pela família, já revelados no modo diferente de esperar
do artista de a chegada do menino e da menina. Isso porque às diferenças
sucesso? Ou, biológicas são atribuídas representações sociais, expectativas de
um nome que conduta para cada género, embora as diferenças sejam cada vez menos
seja facilmente evidentes.
identificado em Por exemplo, é possível desejar para a menina que acabou de nascer que ela
várias línguas, possa um
Os pais são os ele seja bonito e venha a ser modelo profissional. Mas ainda é
primeiros
modelos de estranho, a qualquer um de nós, imaginar uma luva de boxe como
como é ser enfeite do quarto de maternidade em que se encontre uma menina,
homem e ;er
mulher.
ou uma bonequinha pendurada na porta do quarto de um menino.
dia dar É com essa naturalidade que se processa a primeira educação.
continuidade Tudo parece óbvio. O exemplo mais claro é o da educação em função
aos negócios da diferença anatómica dos sexos. As crianças encontram nos pais os
da família modelos de como os adultos se comportam — como atendem ao
ou à telefone e às visitas; como se portam à mesa, resolvem conflitos e
profissão do lidam com a dor; o que pensam sobre os acontecimentos do mundo
pai, e para o etc. Os pais são os primeiros modelos de como é ser homem e ser
menino que mulher: padrões de conduta que, em nossa cultura, são marcadamente
diferentes. Essa situação se coloca de modo bastante dife-
referências externas flilnlli(li a que servirá como modelo
desse papel e social, cada adulto, E nas criança homossexuaiou adolescente s esse dessa
aspecto constelaçáo se coloca familiar de modo vai cons•mmc, soluçüo nas
suas redes de relações sociais,
Assim, família reproduz, em seu interior, a cultura que a criança internalizará, f, considerar aqui o
poder que a família e os adultos têm no controle da con- Cultura queacrt¿ da criança, pois ela depende
deles para sua sobrevivência física e psíquica. Basta internatizzrá, lenlbrar que uma criança de oito
meses depende de alguém para Obter alimentos e que criança de três anos depende de alguém para levá-
la ao médico. A criança necessita, também, das ligações afetivas estabelecidas com seus cuidadores e as
quais ela não quer (e nem pode!) perder. O medo de perder o amor (e os cuidados) desses adultos que
lhe
são tão importantes é um poderoso controlador de sua conduta e ela, pela "vigésima" vez,
recita para o vizinho aquele poema que tanto o aborrece, mas faz a alegria do pai no
exercício de exibição dos dotes do seu filho.
Digitalizado com CamScanner
243
A importância da primeira educação é tão grande na formação da pessoa que podemos
compará-la ao alicerce da construção de uma casa. Depois, ao longo da sua vida, virão
novas experiências que continuarão a construir a casa/indivíduo, relativizando o poder da
família.
A REPRESSÃO DO DESEJO
Ao nascer, a criança encontra-se numa fase de indiferenciação com o mundo — não
existe mundo externo (o outro) nem interno (o eu). O mundo, nesse momento da vida,
significa a mãe. Essa é a díade fundamental que cada pessoa vivencia ao nascer. A marca
dessa relação é a fusão, isto é, não existe, para quem acabou de nascer, o eu e o outro (o
mundo). Essa diferenciação vai se estabelecendo paulatinamente, e uma experiência
importante desse desenvolvimento é o tempo (cronológico) que a criança espera para a
satisfação de suas necessidades. Ela começa a registrar que há um desconforto — a fome,
por exemplo — e que esse estado não é automaticamente superado; a criança precisa
esperar que algo aconteça: o seio ou a mamadeira deve chegar... e, para isso, depende de
alguém — a mãe ou sua substituta nessa função.
A diferenciação do ego magistralmente descrita por Freud em A Psicologia de massa e a
análise do ego — é um processo em que, ao princípio do prazer (que rege o funcionamento
psíquico), interpola-se o princípio da realidade, isto é, surgem os limites impostos pela
realidade. Assim, a satisfação, para ser obtida, deve ser postergada (esperar) e, às vezes,
substituída por outro objeto de satisfação (em vez do bico do seio, uma chupeta) ou .com
frequência) ocorrem as primeiras vivências de frustração, de não satisfação. A frustração
marca a experiência humana desde o nascimento e é algo constitutivo da humanidade de
todos nós.
Ao lado desse aspecto intrínseco à constituição psíquica, existe outro que vai consfruindo
a subjetividade da criança e é base da vida psíquica: a interdição — lei social que se ancora
na subjetividade ao marcar a repressão do desejo, seja dos impulsos agressivos, seja dos
impulsos eróticos. Em nossa cultura, o tabu do incesto é um exemplo clássico dessa marca da
repressão. O filho não pode ter relações sexuais com a mãe, nem a filha com o
Pai, embora mãe e pai sejam seus primeiros objetos de amor erótico (segundo a Psicanálié
claro!). Esse desejo é inconsciente e a repressão coloca sua marca nesse inconsciente;
1 PSICOtOGlAS O treino para a autonomia é, com frequência, confundido com a afirmação da
vontade da criança.
("é COIMO se nada houvesse existido"). No jogo da vida familiar, a
criança irá incorporando outms proibições relativas obtenção do prazer e à
expressão dc seus sentimentos hostis.
bando; ou esta outra: "Nüo pode bater no amiguinho, tem de conversat','
Ao mesmo tempo, observa-se hoje, em muitas famílias, a dificuldade de
limites e regras claras para as crianças e adolescentes, A educação para a
autonomia tem também, esse efeito de confundir os próprios adultos em sua
função de autoridade na re_ lação com as novas gerações, O treino para a
autonomia é, com frequência, confundido com a afirmação da vontade da
Digitalizado com CamScanner
criança: o que A AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM
ela quer comer,
o que ela quer
vestir, a hora
que quer dormir
etc. e é comum
ouvir "aquela
criança é uma
pequena
ditadora", E,
mais tarde,
como será o
encontro, a
convivência de
indivíduos com
experiências tão
precoces de
afirmação de
sua vontade?
Digitalizado com CamScanner
245
dele — o significado das coisas, dos objetos, das situações — e nele interfira. Isso é o
que realiza a dimensão humana e social de cada pessoa, A linguagem é uma
ferramenta ne_ cessária e imprescindível para a troca e comunicação com o mundo e,
também, para a relação consigo mesma. Por meio da linguagem, a criança nomeia
seus afetos e desejos, troca-os com o outro e os compreende, dando sentido ao que
ocorre dentro de si.
Na fase anterior à aquisição da linguagem, os impulsos estão livres e o inconsciente
prepondera. É no contato com a realidade — que se dá, principalmente, por meio da
linguagem — e pela compreensão dos mecanismos que a regulam, que a criança vai
discriminando o seu desejo e o que é permitido satisfazer ou não, A linguagem é o
instrumento privilegiado que possibilita a compreensão dessa realidade, A família, como
primeiro grupo de pertencimento do indivíduo, é, por excelência, em nossa sociedade, o
espaço em que esse aprendizado ocorre, embora possa ocorrer também em qualquer
grupo humano que substitua a função da família do qual a criança participe em seus
primeiros anos de vida.
0 APRENDIZADO DA CONVIVÊNCIA
1. Pedro volta e meia briga feio com Francisco. Até já chegou a dar uns tapas nele.
Hoje, Pedro brigou na escola com Tiago, que fazia gozações com Francisco
numa rodinha de amigos,
Qual a relação de parentesco entre Pedro e Francisco?
Não há dúvida... são irmãos, Uma relação de amor, rivalidade, cuidado,
hostilidade. Uma relação humana rica, cheia de ambivalência, multifacetada; com
desvantagens dividir o amor dos pais, a atenção deles, o quarto, as roupas — e
muitas vantagens — a possibilidade de companheirismo, de solidariedade, de
cumplicidade e principalmente (a vantagem invisível) de vivenciar, no cotidiano,
a aprendizagem das relações sociais com iguais, algo extremamente facilitador
como treino de participação social nos mais diferentes grupos humanos.
Esse vínculo significativo e a característica da ambivalência — a existência do
amor e do ódio — denunciam o que é próprio de todo o vínculo em que existe
proximidade'
A linguagem é a
condição básica
para que a
criança "entre"
no mundo,
aproprie_se
Digitalizado com CamScanner
[Link]: a umbilical), social (o grupo familiar e suas responsabilidades, inclusive
possibilidade legais) e afetivo (o acolhimento) é condição para o crescimento e o
de expressar o desenvolvimento global da criança. Não há possibilidade de sobrevi
amor e, véncia física e psíquica no desamor. As doenças mentais e mesmo as
também, a físicas, em crianças pequenas, denunciam a fragilidade de vínculos
raiva, Em familiares, a dificuldade dos adultos em criar um ambiente estável e
suma, a ga seguro — isto é, amoroso a negligência, os maus-tratos, Abordar a
de que nào importância desse elo, o vínculo, é dizer que sempre existe ou deve existir
perderá o amor um outro significativo que lhe assegura as condições de vida, de
e de que esse crescimento e desenvolvimento (senão a criança adoece, morre), Nessa
sentimento perspectiva, é necessário dizer que o vínculo tem mão dupla para ser
prevalecerá significativo, ou seja, a criança também é importante para os pais, muda
sobre a raiva suas vidas, ocupa-os, Aliás, por serem as crianças e os adolescentes
permite a importantes para os pais é que os pais tornam-se importantes para eles.
explQssü() da Dois exemplos de situações bastante delicadas que demonstram essa
hostilidade. ligação dos pais com seus filhos: no primeiro, os pais exibem o filho, ou
Essas aspectos dele, como se fossem seus; no segundo, projetam no filho a
expressões de possibilidade de eles realizarem sonhos pessoais que não conseguiram
raiva e amor realizar em suas próprias vidas.
sàO reguladas
pelos pais, Há
um limite para
as brigas,
ofensas e
A LEGISLAÇÃO SOBRE A FAMÍLIA
agressões O direito a ter uma família e a sua importância para a criança estão colocados no
físicas. Nesse princípio 62 da Declaração dos Direitos da Criança (20/11/1959), da qual o Brasil é
limite, signatário,
constatamos
como essa Princípio 6 2
relação é um -para o desenvolvimento completo e harmonioso de sua personalidade, a
modelo de criança precisa de amor e compreensão- Criar-se-á, sempre que possível. aos
conduta de cada cuidados e sob a responsabilidade dos pais e, em qualquer hipótese, num
indivíduo em ambiente de afeto e de segurança moral e material; salvo circunstâncias
outras relações excepcionais, a criança de tenra idade não será apartada da mãe. À sociedade
entre iguais ao e às autoridades públicas caberá a obrigação de propiciar cuidados especiais
às crianças sem família e àquelas que carecem de meios adequados de
longo da vida.
subsistência. É desejável a prestação de ajuda oficial e de outra natureza em
Nesse processo prol da manutenção dos filhos de famílias numerosas."
de convivência fAMfLlA | 243
familiar, o
fundamento
das relações
está no
vínculo, No processo de convivência familiar, o fundamento das relações está no
vínculo.
2, 0 vínculo, em
seus aspectos
biológico (o
cordão
Digitalizado com CamScanner
247
Os pais filho, ou aspectos dele, como se fossem seus; ou projetam no filho a possibilidade
exibem o de que ele realize sonhos pessoais que eles próprios não conseguiram realizar.
NO Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Lei 8,069, de 13/7/1990, que
regula os direitos da criança e do adolescente — apresenta, no Capítulo 3 — "Do Di reito à
Convivência Familiar e Comunitária" —, artigo 19: "Toda criança ou adolescente tem direito a
ser criado e educado no seio de sua família e, excepcionalmente, em família substituta,
assegurada a convivência familiar e comunitária, em ambiente livre da presença de pessoas
dependentes de substâncias entorpecentes!
Essa lei de proteçâo dos direitos da criança e do adolescente é considerada uma das mais
avançadas do mundo. Sua importância reside em vários aspectos, No que concerne
I PSICOtOGlAS
O modelo de em igualdade de condições, pelo pai e pela mãe..." , A novidade aí é a
família pai-máe-
prole tornase um inclusão da mãe,
entre vários Portanto, essa lei acaba incorporando, na ordem jurídica, as mudanças
modelos possíveis,
culturais e his. tóricas que vão se processando na sociedade e repercutem
na família, Portanto, a família monogâmica apresenta-se diferente do que
era anos atrás. E, mais, coexiste com outros modos de organização familiar
em que, como foi sinalizado no parágrafo anterior, a pode ser considerada
chefe da família.
A família já não é
o refúgio de um Assim, o modelo de família pai-mãe-prole torna-se um entre vários
mundo sem modelos possí_ veis de estrutura e organização desse grupo humano.
compaixão.
ao (etna deste
cap(lulo —
fannflia — a
E A FAMÍLIA DO FUTURO?
lei garante,
Eric Hobsbawm encerra seu livro sobre o século XX (A Era dos
por exemplo,
Extremos o breve século XX. São Paulo: Cia. das Letras, 2001) afirmando
a igualdade
que não temos o mapa do futuro, Ou seja, não sabemos "para onde caminha
de direitos
a humanidade'.' Ele se refere ao século XXI, E, nessas mudanças fantásticas
aos filhos
e enigmáticas que estão ocorrendo e estão por vir, sem dúvida a instituição
próprios da
família ocupa papel de destaque. Os novos métodos de reprodução, os
relação do
bancos genéticos, a possibilidade de gerar um ser humano sem contato
casamento e
sexual, sem conhecer o outro membro da parelha, a distribuição de
aos filhos
responsabilidade sobre as novas gerações, a tecnologia que faz a mediação
adotivos (isto
das relações substituindo o contato face a face (o celular, a internet que
é, proíbe
permite o monitoramento a distância) e mais todos os outros recursos que
qualquer
inventamos a cada dia e são assimilados por este grupo social leva a refletir
discriminação
sobre a constatação de Jurandir Freire Costa: "a família já não é o refúgio de
). Além disso,
um mundo sem compaixão'.' Será essa afirmação uma mitificação da família
afirma que o
acolhedora, do lugar de segurança que todos almejamos? Ou será uma
Ilpátrio poder
constatação de que no mundo atual "cada um é um" e precisamos nos virar
será exercido,
com novos outros grupos de pertencimento?
Digitalizado com CamScanner
Síntese papel da mulher e seus efeitos na estrutura e na organização
familiar,
5 As funções da família.
I 6 As demais agências socializadoras que dividem a função que é da
importância do família. 7 A concepção de Lacan e sua relativização nos tempos atuais.
estudo sobre
esse grupo 8 O vínculo como característica das relações
social. familiares e a especificidade da relação entre
2 Os irmãos.
diferentes 9 A legislação vigente; o ECA, 10 A família do
modelos futuro.
de
família
ao longo
da
história
da
humanida
de.
3 Os efeitos
do
contexto
histórico e
cultural
sobre a
organizaçã
o dessa
instituição
social.
4 As
mudanças
sociais do
Digitalizado com CamScanner