CAPÍTULO 1 - Ashley
Acordo com o som do despertador em meus ouvidos.
Honestamente, ainda não sei como não joguei esse treco na parede,
de tão alto que toca. Considero fortemente tirar as pilhas e voltar a
dormir, mas meus pensamentos são interrompidos pela minha mãe.
— Ash! O café está na mesa, vem comer, querida!
Oferta tentadora. Penso, minha barriga instantaneamente
roncando com o cheiro de bolo fresco invadindo meu quarto.
Levanto relutantemente da cama, vestindo o uniforme e
descendo para tomar café, encontrando mamãe e papai já prontos
para deixar meu irmão e eu na escola e ir trabalhar. Murmuro um
“Bom dia” e me sento em meu lugar, cortando uma fatia de bolo e
colocando-a em meu prato.
— Por que o Liam ainda não desceu? — pergunto
Meus pais se entreolham, provavelmente se preguntando o
motivo de eu estar perguntando sobre meu irmão, quando sempre
deixei claro que o único motivo de ainda não o ter matado são os
laços sanguíneos. E está tudo bem, pois ele faz o mesmo.
— Por que quer saber, querida? — questiona meu pai
— Nada, não. — respondo
Ah, se ele soubesse... A verdade é que Liam prometeu que faria
meu dever de casa por uma semana se eu não contasse para o papai
e para a mamãe que ele estava namorando. E quem sou eu para
negar, né?
Como se sentisse que estávamos falando sobre ele, meu amado
irmão entra na cozinha.
— Falando no diabo... — murmuro
— Ashley, modos! — mamãe retruca
— O que ela disse? — Liam pergunta à nossa mãe, nunca
tirando o olhar de ódio dos meus olhos
— Nada, querido, coma um pouco.
E como sempre, mamãe tem a última palavra, mas os olhares
de desgosto continuam sendo trocados entre Liam e eu enquanto
comemos.
Apenas uma manhã de terça comum na casa dos Viarelle, não
se assuste.
Depois que nossos pais nos deixam na escola e nós entramos,
Liam me dá meu dever de casa, dizendo que conferiu e está tudo
certo. E eu espero que esteja, porque eu odiaria saber que mamãe e
papai acidentalmente descobriram que ele tem dado uns namoricos
por aí.
— Não se preocupe com a redação, sou bom em falsificar letras.
Não acredito que concordei em escrever um texto falando sobre
contos de fadas, é tão estúpido. — diz ele, me passando o papel com
a redação, e me deixando sozinha
...
O dia passou num borrão. As aulas chatas e entediantes
finalmente acabaram. Por hoje, pelo menos. Me encontro com Liam
na saída, sem dar uma palavra enquanto esperamos o carro de papai
aparecer.
Quando aparece, entramos no carro, ainda sem falar nada,
quando papai quebra o silêncio:
— Como foram as aulas?
— O de sempre. — Dizemos eu e Liam em uníssono. Pelo menos
nisso concordamos, e não somos nem do mesmo ano!
A viagem de volta para casa é em silêncio. Um silêncio com o
qual estou acostumada, papai constrangido, e eu e meu irmão
evitando olhar um para o outro.
Quando chegamos em casa, encontramos mamãe com alguns
baldes de pipoca, sentada no sofá. Ela sinaliza para nos sentarmos,
com um sorrisinho no rosto, o mesmo sorriso que se apresenta no
rosto de meu pai quando ele se senta.
— Pensamos em assistir um filme. Em família. — diz nossa mãe
Liam olha para eles e segue reto, em direção as escadas,
quando é parado pelo papai:
— William Alexander Viarelle, sente no sofá. Isso não é um
pedido.
Dou uma pequena risadinha em direção ao meu irmão,
enquanto me sento no sofá. Ele odeia quando usam o nome completo
dele, o que é bom para mim, que não tenho problema nenhum com o
meu, na hora de ganhar uma discussão.
...
Pior filme que eu já vi na minha vida. Será que meus pais
pensam que ainda sou uma garotinha de seis anos? Francamente!
— Contos de fada são para bebês. — Liam parece tirar as
palavras da minha cabeça
— Nisso nós concordamos.
Nós dois subimos as escadas e entramos em nossos quartos.
Pego meu livro em cima da mesa e leio até mamãe nos chamar para
jantar, quando desço e sento em meu lugar na mesa.
O clima no jantar é pesado, ninguém fala nada, provavelmente
com medo de Liam e eu começarmos a discutir, como sempre.
— Como estão as notas? — o primeiro a quebrar o silêncio é
papai
— De boa. — respondo
Liam revira os olhos.
— O que? Inveja? — digo
— De você? Claro que não.
— O que está insinuando?
— “De boa”? Isso é como você chama suas notas horríveis?
Mal ouvimos mamãe murmuras um “crianças” chamando nossa
atenção.
— Como assim?! — pergunto
— Duvido que você tenha tão boas notas comigo fazendo seu
dever de casa! Você é burra feito uma pedra! E isso é uma ofensa a
pedra! — ele retruca
— Então estamos soltando segredos ao ar agora?! Como a
mamãe eu o papai vão reagir quando eu disser que você está
namorando escondido, hein?!
É possível ouvir o suspiro de surpresa que sai do meu pai
quando digo isso, os olhos dele se arregalando.
— Ela terminou comigo está bem?! Você é tão idiota a ponto de
botar isso na mesa agora?!
— Já estava assustada, como alguém pode aguentar você por
perto por tanto tempo, honestamente! — respondo
— Crianças! — mamãe grita, apontando para as escadas,
sinalizando para nós irmos para nossos quartos.
Levantamos, de cabeça baixa, sem olhar nos olhos um do outro,
e subimos, entrando em nossos respectivos quartos.
Me arrumo para dormir e me deito na cama, com um leve
suspiro.
Sério, Como alguém pode ser tão babaca?
CAPÍTULO 2 – Ashley
Meus sonhos são bizarros.
Vejo uma tempestade forte, a chuva caindo na terra. A
paisagem é de uma floresta no outono, consigo estranhamente sentir
a leve brisa nos meus braços, e a água molhando minhas roupas.
Tenho a impressão de que tem alguém comigo, mas logo espanto a
ideia da minha cabeça.
Depois de um tempo andando, avisto um livro antigo, com uma
aparência quase podre. Consigo ver a capa marrom, com uma
fechadura protegendo as páginas amarelas.
Me abaixo para pegar o livro, que já está molhado, mas quando
estou quase encostando nele o sonho acaba, e mergulho no sono sem
sonhos.
...
Meus olhos começam a se abrir levemente, meu corpo
desconfortável. Percebo tarde de mais que não acordei ao som do
despertador. Quando consigo assimilar o ambiente, percebo que não
estou na minha cama. Nem sequer estou embaixo de um teto.
Vejo a mesma floresta do meu sonho, mas sem chuva. As copas
das árvores em tons variados de vermelho, amarelo e marrom, quase
me impossibilitando de ver o céu azul. Estou prestes a fechar os olhos
e voltar a dormir, ne esperança de acordar em casa, quando escuto
uma voz conhecida.
— Onde...? Pera, Ashley? Isso é algum tipo de pegadinha? — e é
claro que é meu irmão favorito.
Ele está surrado, o que me faz pensar que estou do mesmo
jeito. O cabelo castanho escuro está mais encaracolado e bagunçado
do que o normal, com uma ou duas folhas grudadas. O olhar que ele
me lança é o mesmo olhar de desgosto de sempre. Demora um pouco
para raciocinar que ambos ainda estamos de pijamas, descalços.
Ele percebe que estou confusa e seu olhar suaviza, algo que da
última vez que vi, foi quando tinha sete anos e algumas meninas
tinham sido maldosas comigo. Um irmão mais velho exemplar, mas só
naquele momento.
— Você não sabe onde a gente está, né? — ele pergunta, eu
assinto
Ambos olhamos em volta, tentando ter alguma ideia de onde
estamos. Talvez ainda estejamos em algum lugar perto de casa,
talvez não em Manchester, mas ainda em New Hampshire.
— Você acha que devemos explorar? — pergunto
Ele pensa por um momento e responde:
— Na falta de nada melhor para fazer, né...? Então tá, vamos. —
ele se levanta, estendendo a mão para me ajudar a me levantar
também.
Olho, relutante, para a mão dele, mas eventualmente aceito a
ajuda. Uma vez que estou de pé, puxo rapidamente minha mão da
dele. Não precisamos de mais um climão. E então andamos rumo ao
desconhecido.
...
Perco a noção do quanto andamos, meus pés dormentes de
tanto caminhar. Tem tempo que Liam ouviu o som de água corrente, e
ele jura que estamos chegando cada vez mais perto, apesar de eu
não estar ouvindo nada. Perdi a conta de quantas vezes já discutimos,
então não questiono, só ando.
— Eu juro Ashley, isso é barulho de água.
Só assinto, fazendo uma nota mental para examinar os ouvidos
dele quando (ou se) chegarmos em casa.
De repente sinto um calafrio e paro, Liam parando à minha
frente também. Permanecemos assim pelo que pareceram horas,
apenas o som das nossas respirações audíveis, até que ouço o som
de galope se aproximando por trás.
Eu me viro, vendo um garanhão negro a três metros de nós. O
cavalo veste uma sela prateada, com detalhes em um verde quase
cintilante. Montada no cavalo há uma figura encapuzada, segurando
um arco. Nós três ficamos em silêncio por um momento, até que a
figura falar.
— O que fazem por aqui, orelhas redondas?
— Nós acordamos aqui, não sabemos...
— “Orelhas redondas”? — Liam me interrompe
A figura abaixa o capuz lentamente, revelando um rosto
masculino. O rosto emoldurado por cabelos pretos encaracolados,
olhos azuis fitando-nos. Uma cicatriz corta seu nariz, e suas orelhas...
As orelhas são pontudas, quase escondidas entre o cabelo.
Parando para prestar mais atenção, percebo que por baixo da
capa com padrões geométricos em tons de prata e marrom, ele veste
uma camisa de tecido claro, em um tom branco, um pouco suja, com
mangas largas franzidas nos ombros. Os braços estão fortemente
enfaixados com tiras de tecido e pulseiras de couro, metal e outros
materiais. Usa luvas parcialmente cobertas por anéis reluzentes.
As calças são escuras e de tecido solto, e ele usa botas de cano
médio, feitas de couro, já desgastadas. Foram pretas em algum
momento, mas agora está em tons de marrom e cinza-escuro. As
botas têm detalhes em tiras de couro e cadarços reforçados, com
amarras cruzadas até a canela. A bota direita tem uma pequena bolsa
costurada.
— Quem é você? — Liam se coloca na minha frente
— Eu poderia fazer a mesma pergunta — o jovem fala — Quem
vocês pensam que são, invadindo nosso território? Não são feiticeiros,
eles não se vestem assim. São algum tipo de fada sem asas?
— Desculpa — começo, esperando estar usando um tom mais
calmo do que o do meu irmão — Como eu estava dizendo, acordamos
aqui essa manhã. Não sabemos onde estamos. E só uma coisa...
Feiticeiros? Fadas? Isso é algum tipo de brincadeira de mal gosto?
Os olhos do jovem se arregalam levemente, ele desmonta do
garanhão, rápido, como se já tivesse feito isso milhões de vezes.
— Vocês são...?
Liam o olha, impaciente.
— O que, caralho? Fala logo.
— Vocês são humanos? — ele pergunta
Liam olha para trás, para mim, com uma expressão confusa, a
qual eu retribuo. Olho para o jovem e assinto, com uma má impressão
dessa situação toda.
— Você não? — pergunto
— Claro que não. — o jovem responde
— Como assim...
— Sério?! “Claro que não”?! Você tá de sacanagem comigo, né?!
—Liam me interrompe — Que porra de brincadeira de mal gosto é
essa?!
Fito Liam com um olhar reprovador, silenciosamente falando
para ele calar a boca.
— Estamos perdidos. Achávamos que poderíamos estar perto de
casa, mas... Bom, está claro que não estamos. E se você puder nos
dar uma visão geral do que está acontecendo, agradeceríamos.
— Vocês estão na fronteira de Vheq com Fehit, mais para Fehit.
— ele olha para nossas expressões confusas — Vheq é o reino das
fadas, Fehit o território dos elfos.
— Fadas e elfos? Impossível. — Liam interfere
— Você pode deixar ele falar, idiota? — retruco
O garoto troca o olhar entre mim e Liam, provavelmente vendo
se já é um bom momento para continuar.
— Atlas Thalvaren, do clã de Velquorin. — ele estende a mão
para mim, provavelmente percebendo que é melhor não falar com
meu irmão por enquanto.
— Ashley e William Viarelle, mas não chama ele de William, ele
vai te cortar em pedaços se chamar. — estendo a minha mão e aperto
a dele
— Gostaria de velo tentar chegar perto. — ele dá uma leve
risadinha e se vira para mim de novo — Espera, qual é o seu
sobrenome mesmo?
— Viarelle. — Diz Liam, em um tom nada convidativo
Atlas se enrijece, sua expressão se endurecendo. Ele olha para
o cavalo, para o caminho de onde veio, e para nós.
— Viarelle? — pergunta — Venham comigo.
— Espera mesmo que sejamos burros a ponto de seguir alguém
que acabamos de conhecer? — Liam segura meu pulso quando
começo a andar — Tá bem, a Ashley é, mas quem liga? E para onde
você quer nos levar?
— Entendo, mas precisam vir. Iremos mais para o leste de Fehit,
depois do Lago Habuk, no vilarejo de Medge. Eles vão saber o que
fazer por lá.