Filosofia
Teorias do direito e do
contratualismo
2º bimestre Ensino
Aula 7 Médio
● Teorias do direito divino; ● Analisar a justificação do poder
soberano segundo as teorias do
● O jusnaturalismo;
direito divino do início do período
● A passagem do estado de moderno;
natureza para a sociedade civil.
● Analisar a justificação do poder
● Contrato social: o contratualismo soberano segundo o
de Thomas Hobbes. contratualismo de Thomas
Hobbes;
● Comparar as duas posições
filosóficas.
Para começar
3 minutos
O Estado brasileiro é laico
Isso quer dizer que o Estado não deve favorecer ou
discriminar nenhuma religião, garantindo a liberdade
religiosa e a separação entre as instituições religiosas e
governamentais.
A laicidade do Estado está manifesta na Constituição
Federal de 1988, que no parágrafo 2o do artigo 11
proclama que “é vedado aos Estados, como à União,
estabelecer, subvencionar, ou embaraçar o exercício de
cultos religiosos”.
Em sua opinião, qual é a importância do princípio da
laicidade do Estado? Capa da Constituição da República Federativa
do Brasil de 1988, criada por Cosme Rocha.
Reprodução – WIKIMEDIA COMMONS, 2018. Disponível em:
[Link]
[Link]. Acesso em: 5 fev. 2025.
Foco no conteúdo
Teoria do direito divino dos reis
8 minutos
A teoria do direito divino dos reis ganhou
força na Europa dos séculos XVI e XVII em
um cenário de crise política e religiosa após
a Reforma Protestante. Em meio às Guerras
da Religião e às disputas entre monarquias e
instituições aristocráticas tradicionais,
monarcas como Jaime I da Inglaterra e Luís
XIV da França buscaram centralizar o poder
do Estado, subjugando a nobreza, o clero e os
parlamentos. A teoria do direito divino dos reis
sustentava que a autoridade real deriva
diretamente da vontade de Deus,
legitimando assim o processo de concentração
de poder na figura do soberano. Ao vincular
seu poder à vontade divina, os reis
justificavam seu domínio absoluto como forma
Coroa dinamarquesa. de impor ordem em meio ao caos,
neutralizando rivais e consolidando os Estados
Reprodução – WIKIMEDIA COMMONS, 2006. Disponível em:
[Link] nacionais em formação.
Acesso em: 5 fev. 2025.
Foco no conteúdo
Teoria do direito divino e
absolutismo
O absolutismo caracteriza-se pela concentração
do poder político na figura de um soberano,
geralmente um monarca, que não se submete a
outras instâncias de controle institucional, como
leis, parlamentos e outros poderes. Essa forma
de poder soberano absolutista, defendida por
filósofos como Jean Bodin (1530-1596),
encontrou uma forte justificativa na afirmação
do direito divino dos reis articulada por
pensadores como Jacques-Bénigne Bossuet
(1628-1700). Concedido por Deus ao monarca
absoluto, o poder soberano não deveria ser
contestado por seus súditos ou por pretendentes
Jean Bodin (1530-1596) foi um jurista e filósofo político francês. Ele viveu
à coroa! O monarca absoluto seria o durante um período de intensos conflitos religiosos na França, o que
instrumento divino em uma ordem sagrada e influenciou sua defesa de um governo forte e centralizado.
imutável. A ordem política deveria ser, portanto, Reprodução – WIKIMEDIA COMMONS, 2016. Disponível em:
preservada das disputas mundanas e das [Link] Acesso em: 5 fev. 2025.
constantes mudanças nas leis humanas.
2 minutos
O poder do Estado e a sua legitimidade
Pause e responda
Qual das seguintes afirmações melhor descreve a teoria da
autoridade divina dos reis?
A autoridade dos reis é
A autoridade dos reis é derivada
concedida por uma entidade
do consentimento dos
divina e não pode ser
governados.
questionada pelos súditos.
O poder do Estado e a sua legitimidade
Pause e responda
Qual das seguintes afirmações melhor descreve a teoria da
autoridade divina dos reis?
A autoridade dos reis é
A autoridade dos reis é derivada
concedida por uma entidade
do consentimento dos
divina e não pode ser
governados.
questionada pelos súditos.
Foco no conteúdo
O Estado de Direito na contemporaneidade
Como vimos, as discussões da filosofia política do início do período moderno foram
marcadas por tentativas teóricas de fundamentar a legitimidade da ordem política dos
Estados absolutistas a partir de princípios teológicos, argumentando que o poder
soberano derivaria de uma vontade divina.
Estados de direito contemporâneos, ao contrário, são constituídos a partir de princípios
como a laicidade do Estado e a soberania popular, de acordo com os quais o poder
político emana do consentimento dos cidadãos, expresso por meio de leis e de
instituições seculares. A afirmação de um mandato divino ao poder não é, portanto,
compatível com esses princípios.
• Como argumentos derivados de crenças religiosas e utilizados para justificar posições
de poder podem desafiar os princípios de laicidade e pluralismo inerentes à democracia
brasileira, especialmente em um contexto de diversidade religiosa e cultural?
Foco no conteúdo
A Constituição Federal de 1988
fundamenta a legitimidade do poder
estatal no Brasil. Ela estabelece os
direitos, os deveres e as regras “do jogo
político”, como a determinação para a
realização periódica de eleições livres e
democráticas, para a escolha de
administradores e dos representantes
parlamentares nos âmbitos municipal,
estadual e federal.
• Muitas vezes se faz referência à
Constituição como “contrato social”.
Você sabe por quê? Sessão parlamentar que então estabeleceu a Constituição de 1988.
Reprodução – AGÊNCIA BRASIL/WIKIMEDIA COMMONS, 2009. Disponível em:
[Link] Acesso em: 5 fev.
2025.
Foco no conteúdo 20 minutos
A limitação ao poder soberano
Se o Estado absolutista era marcado por uma situação O jusnaturalismo é uma corrente
jurídica em que o detentor do poder soberano não estava filosófica que defende a existência
submetido às leis, o Estado de Direito contemporâneo, de direitos naturais, ou seja,
ao contrário, se fundamenta no princípio da igualdade direitos fundamentais, inerentes à
de todos perante a Lei. Ou seja, governados e natureza humana.
governantes devem estar, igualmente, submetidos às Isto é, são direitos universais e
obrigações legais. imutáveis, válidos para todos os
seres humanos,
Desse modo, enquanto no absolutismo o poder soberano
independentemente de sua cultura
não encontrava limites, no Estado de direito há
ou época.
mecanismos de limitação ao exercício do poder e a
Esses direitos são considerados
necessidade de respeitar garantias aos governados.
superiores às leis criadas pelos
Embora a preferência pelo Estado de direito às homens, servindo, portanto, como
configurações autoritárias de poder pareça evidente no fundamentos às leis humanas, logo,
contexto em que vivemos, a instituição desses como limites naturais ao
mecanismos de limitação ao poder exigiu um longo exercício do poder soberano.
processo de construção conceitual. A afirmação de
direitos naturais foi fundamental nesse processo.
Foco no conteúdo
O contratualismo de Hobbes
Um marco no debate sobre as condições
de legitimidade do poder soberano
ocorreu entre os séculos XVI e XVII, Thomas Hobbes
quando pensadores como Thomas Reprodução – NATIONAL PORTRAIT
Hobbes passaram a fundamentar a GALLERY/WIKIMEDIA COMMONS, 2008.
Disponível em:
autoridade política em bases seculares [Link]
Hobbes_(portrait).jpg. Acesso em: 5 fev. 2025.
e racionais.
Em Leviatã (1651), Hobbes concebeu a
constituição de um poder soberano pela
celebração de um contrato social. Thomas Hobbes (1588-1679), filósofo político inglês,
Sua filosofia política, porém, não visava vivenciou a Guerra Civil Inglesa (1642-1651), conflito
limitar o poder soberano, mas assegurar entre partidários absolutistas do rei Carlos I e
a legitimidade de uma autoridade parlamentaristas, que defendiam a limitação do poder
soberana forte como poder capaz de real. O período, marcado por conflitos políticos e
garantir aos cidadãos o direito natural religiosos, resultou na execução do rei e na instauração
à segurança e à proteção da vida. temporária da Comunidade da Inglaterra, liderada por
Oliver Cromwell.
Foco no conteúdo
Hobbes e a concepção de um estado de natureza
Para além da ideia da instituição do Estado político por
meio do contrato social, um ponto em comum aos
pensadores contratualistas é a concepção hipotética do • Como você imagina que
as pessoas agiriam numa
estado das interações humanas anterior à instituição da
situação assim?
vida política. Não se trata da análise de uma situação • A supressão do Estado e
histórica concreta, mas de uma ferramenta teórica do poder soberano
utilizada para explicar a necessidade do poder político e resultaria em quê?
da organização estatal. Hobbes designou essa condição • Seria um estado de coisas
natural da humanidade como estado de natureza. pacífico ou conflituoso?
Trata-se de uma situação em que cada ser humano é
completamente livre e não deve obediência a nenhuma
autoridade superior. Nesse estado, não há leis,
instituições estatais ou autoridades políticas que
regulem as relações entre os indivíduos.
Foco no conteúdo
O estado de natureza como
guerra de todos contra todos
Segundo Thomas Hobbes, a natureza humana é essencialmente
egoísta e movida pelo instinto de autopreservação. Cada
indivíduo busca satisfazer seus próprios desejos e garantir sua
sobrevivência, o que inevitavelmente leva à competição e ao conflito.
Para Hobbes, na ausência de uma autoridade política capaz de Gravura Os desastres da guerra nº 5: “E
impor limites aos impulsos egoístas e violentos que os indivíduos são feras”, de Francisco Goya.
dirigem uns contra os outros, vive-se uma situação de conflitos Reprodução – ARNO SCHMIDT
REFERENCE LIBRARY/WIKIMEDIA
contínuos, o que configura o estado de natureza e uma guerra de COMMONS, 2006. Disponível em:
[Link]
todos contra todos. a-Guerra_(05).jpg. Acesso em: 5 fev. 2025.
A igualdade natural e a liberdade irrestrita que cada um dispõe
nesse estado pré-político não pode ser, portanto, desfrutada. Em vez
disso, o que se experimenta é uma sensação de medo e de
insegurança permanentes.
Hobbes retoma uma expressão romana segundo a qual “o homem é o lobo do homem”.
• Você concorda com a visão de Hobbes sobre a natureza humana? Por quê?
Foco no conteúdo
O contrato social
Para Hobbes, a estruturação da comunidade, ou seja,
do vínculo social estável entre indivíduos e suas
famílias, é essencial para garantir segurança e
ordem. No entanto, a manutenção dessa coesão
entre seres naturalmente egoístas e violentos exige
um contrato social, por meio do qual cada indivíduo
consente em ceder seu direito natural à liberdade
e abdicar da igualdade irrestrita em favor de uma
autoridade comum. Essa autoridade passa a
constituir um poder soberano que se impõe com
legitimidade às vontades individuais dos súditos
e tem o dever e a responsabilidade de preservar o
direito natural e inalienável de cada homem à vida
e à segurança. Assim, o Estado é instituído como © Pixabay
detentor legítimo de um domínio absoluto capaz de
garantir a estabilidade social, impedindo o retorno da
sociedade ao estado de natureza, situação na qual
prevaleceria o caos, a insegurança e a constante
ameaça da guerra de todos contra todos.
Na prática
10 minutos
O Leviatã
A ilustração do Leviatã na capa da primeira
edição desta obra de Thomas Hobbes,
publicada em 1651, retrata um monstro bíblico
que simboliza o Estado – um homem artificial
cuja armadura, composta por inúmeras
escamas, é formada pelos próprios súditos.
Essa figura representa a fusão dos indivíduos
em um único corpo político, no qual a
autoridade suprema é centralizada no
soberano. A imagem está associada à noção
de alienação dos direitos e da vontade Detalhe da capa da edição original da obra Leviatã, de Thomas Hobbes, de
individual dos súditos, os quais, por meio do 1651. A figura do Leviatã se eleva sobre as construções humanas. Acima, a
descrição bíblica dessa figura mitológica, em latim, Non potestas super terram
contrato social, renunciam à liberdade natural e quae comparetur ei iob [Não há poder sobre a Terra a ele comparável].
outorgam o poder ao soberano em favor de um
Reprodução – WIKIMEDIA COMMONS, 2024. Disponível em:
governo forte e unificado, responsável por [Link]
[Link]. Acesso em: 5 fev. 2025.
garantir a ordem e a estabilidade da sociedade.
• Observe a imagem ao lado.
Na prática
O Leviatã A única maneira de instituir um tal poder
comum, capaz de defendê-los das invasões
dos estrangeiros e das injúrias uns dos
Leia o trecho extraído do capítulo outros, garantindo-lhes assim uma
XVII do Leviatã, intitulado "Das segurança suficiente para que, mediante
seu próprio labor e graças aos frutos da
causas, geração e definição de um
terra, possam alimentar-se e viver
Estado". satisfeitos, é conferir toda sua força e poder
Em pequenos grupos, discuta as a um homem, ou a uma assembleia de
questões a seguir: homens, que possa reduzir suas diversas
vontades, por pluralidade de votos, a uma
1. Por que Hobbes escolheu a
só vontade [...] Uma pessoa de cujos atos
metáfora do Leviatã para uma grande multidão, mediante pactos
representar o Estado? recíprocos [...] foi instituída por cada um
2. Como a metáfora do Leviatã como autora, de modo a ela poder usar a
ajuda a entender a visão de força e os recursos de todos [...] para
Hobbes sobre a autoridade e assegurar a paz e a defesa comum.
o poder do Estado?
HOBBES, T. Leviatã, capítulo XVII.
Compartilhe suas ideias principais
com a turma.
Na prática
Correção
1. Hobbes escolheu a metáfora do Leviatã para representar o Estado pois essa
criatura representada na tradição bíblica detém imensa força, simbolizando poder e
domínio absolutos. Ele utiliza essa imagem para enfatizar que o Estado deve ser
um poder soberano incontestável, capaz de subjugar os instintos naturais de
violência e egoísmo dos indivíduos, garantindo a ordem e a segurança social.
2. A metáfora do Leviatã reflete a visão de Hobbes de que o Estado deve ter
autoridade suprema para evitar os conflitos sociais e a insegurança que
caracterizam o estado de natureza. O Leviatã representa um poder centralizado e
absoluto que impõe regras e mantém a estabilidade, garantindo a segurança dos
indivíduos em troca da renúncia a certas liberdades. Esse poder soberano impede
a anarquia e a "guerra de todos contra todos".
Encerramento 3 minutos
A questão da segurança nos dias atuais
A partir do que vimos nesta aula, discuta sobre a
importância da segurança para a vida política
contemporânea.
Responda à pergunta:
Quais os riscos de utilizar um discurso hobbesiano para
criticar a ineficiência do Estado em garantir a segurança
de algumas populações ou grupos específicos?
Reprodução – WIKIMEDIA COMMONS, 2024. Disponível em:
[Link]
ra!.png?uselang=pt. Acesso em: 5 fev. 2025.
Referências
ARANHA, M. L. de A.; MARTINS, M. H. P. Filosofando: introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna,
2003.
ARANHA, M. L. de A.; MARTINS, M. H. P. Temas de Filosofia. São Paulo: Moderna, 2005.
HOBBES, T. Leviatã. Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. Disponível em:
[Link] Acesso em 18 fev.
2025.
LEMOV, D. Aula nota 10: 49 técnicas para ser um professor campeão de audiência. São Paulo: Da
Boa Prosa/Fundação Lemann, 2011.
ROSENSHINE, B. Principles of instruction: research-based strategies that all teachers should know.
American Educator, v. 36, n. 1, Washington, 2012. pp. 12-19. Disponível em:
[Link] Acesso em: 5 fev. 2025.
SÃO PAULO (Estado). Secretaria da Educação. Currículo Paulista: etapa Ensino Médio, 2020.
Disponível em: [Link]
content/uploads/2023/02/CURR%C3%8DCULO-PAULISTA-etapa-Ensino-M%C3%A9dio_ISBN.pdf.
Acesso em: 5 fev. 2025.
Identidade visual: imagens © Getty Images.
Para professores
Slide 2
Habilidade: (EM13CHS206) Analisar a ocupação humana e a produção do espaço em
diferentes tempos, aplicando os princípios de localização, distribuição, ordem, extensão,
conexão, arranjos, casualidade, entre outros que contribuem para o raciocínio geográfico.
(SÃO PAULO, 2020).
Obs.: a habilidade EM13CHS206 é uma habilidade de área, conforme o currículo do Estado
de São Paulo. O componente curricular Filosofia promove o desenvolvimento dessa
habilidade, seus valores e atitudes, em conformidade com a sua tradição, não se aplicando
à Filosofia abordar outros elementos da habilidade que competem ao raciocínio geográfico.
A escolha dessa habilidade reflete a definição do seguinte Objeto do Conhecimento para o
componente filosofia no Currículo Paulista: a autonomia do indivíduo frente ao poder do
Estado: as contribuições dos pensadores contratualistas.
Slide 3
Tempo: 2 minutos.
Dinâmica de condução: professor(a), a atividade de abertura tem como objetivo convidar
o estudante para problematizar a relação entre religião e política a partir do artigo 11 da CF
que define o Estado brasileiro como laico.
Expectativas de respostas: as respostas são abertas, contudo, espera-se que os
estudantes respondam de acordo com o que foi perguntado, contribuindo para a dinâmica
da aula.
Slides 6 e 7
Tempo: 2 minutos.
Dinâmica de condução: professor, a seção “Pause e responda” pode ser trabalhada
rapidamente. Pode-se escolher algum estudante para responder à pergunta e comentar sua
resposta rapidamente. A atividade pretende verificar a compreensão dos estudantes.
Slides 15 a 17
Tempo: 3 minutos.
Dinâmica de condução: professor(a), aqui, os estudantes são convidados a se manifestar
relacionando o conteúdo da aula com a sua própria realidade.
Expectativas de respostas: resposta aberta e pessoal. Contudo, espera-se que os
estudantes relacionem os conteúdos sobre Hobbes com suas próprias experiências dentro
de uma democracia.