Características dos títulos de crédito
Segundo Abudo (2009), certas características gerais de títulos de crédito como a incorporação,
literalidade, autonomia e circulabilidade devem ser satisfeitas para que sejam protegidos os
interesses dos intervenientes iniciais, o titular do direito e o devedor, e aqueles que venham a
adquiri-los de boa-fé, os quais, certamente, só aceitarão a sua emissão e transmissão caso tais
medidas de segurança e proteção sejam criadas. Através da satisfação dessas características se
transformam títulos em instrumentos aptos para circularem e transmitirem-se sem apartamento
dos direitos que eles representam. Pois, o título de crédito é um bem móvel que servindo de
suporte ao direito sujeita-se á circulação de acordo com as regras que lhe são inerentes, o que
conduz a que o direito sobre o título defira do direito nele mencionado.
Na visão do mesmo autor, aquele (o direito mencionado no titulo) acha-se como a configuração
de um direito real que tem por objeto nele mencionado, o chamado “direito cartular ” (de
cártula=carta, documento). Este pode apresentar-se de entre diversificadas naturezas: umas
vezes, apresenta-se como um direito de crédito a uma dada prestação, como pode acontecer com
o cheque, a letra e a livrança; Outras vezes, como títulos que representam direitos reais, como é o
caso do conhecimento de carga, o conhecimento de depósito; outras vezes, ainda, como títulos
que atribuem outros direito, como ocorre com as ações das sociedades anónimas. Tais
características observam-se a seguir:
a). Incorporação
Abudo (2009), afirma que o título de crédito é caracterizado pela incorporação porque sua
detenção é essencial para exercer e transmitir o direito que nele se menciona, porém, a
incorporação aqui referida não passa de uma “imagem plástica”. A ideia de incorporação nasceu
para dar a conhecer a conexão que possa existir entre o documento e o direito nele mencionado,
mas tal não é totalmente correto dado o direito ser algo de imaterial que não é capaz de uma
vinculação de carácter corpóreo. Daí, que com elevada exatidão se deva considerar que a
característica incorporação traduz a ideia da posse do título de crédito legitimar o respetivo
portador para o exercício ou transmissão do direito, sendo deste modo, mais correto chamar esta
característica de legitimação ativa, porque a mesma diz respeito a “posição jurídica do sujeito
ativo do direito”, á sua aptidão jurídica para exercê-lo ou transmiti-lo, o que conduz a que se
considere que só a detenção material do titulo de acordo com as regras de circulação pertinentes,
pode conferir ao respetivo possuidor a legitimação formal para o exercício ou transmissão do
direito que o alude.
Este afirma que consequentemente, a presunção de que o possuidor do titulo, de harmonia com
as suas regras de circulação, permite que não só o verdadeiro titular do direito, mas também uma
outra pessoa, desde que possuidor do titulo possa exercer ou transmitir o direito nele expresso,
fazendo neste ultimo caso, com que o titular seja completamente impedido de exercê-lo ou
transmiti-lo. O regime da presunção da boa-fé dos títulos de crédito tem por fim fortalecer a
natureza da sua circulabilidade, bem como o cumprimento da sua função jurídico-económica, ao
passo que a regra geral do direito civil impõe a simultaneidade do da titularidade do direito com
a legitimação para o seu exercício.
b). Literalidade
Abudo (2009) declara que o título de crédito é um documento escrito que se apresenta com a
delimitação da sua existência, conteúdo e amplitude do direito nele mencionado, pelo que só
pode ser avaliado pelo respetivo teor, pelo que nele se acha contido. Só desta forma pode se
proteger terceiros que confiam naquele teor e afastar todo e qualquer tipo de discussão que possa
prejudicar a circulação do título de crédito. Na ausência do título, o direito nele expresso não
pode ser exigido, por ser um direito formal, ou seja, ele não pode ser redigido a vontade do
credor ou devedor, pois as suas enunciações principais são determinadas em lei.
Segundo o mesmo, a literalidade dos títulos pode ser direta ou implícita, sendo direta ou
completa nos títulos de crédito abstratos, que são os que não tem uma causa-função típica e se
apresentam independentes da respetiva causa concreta. No caso de cheques, letras, livranças e
extratos de fatura, mostra-se essencial o documento a dar a conhecer todos os elementos de
identificação dos termos, limites e modalidades de cada obrigação constante do título. Existe
literalidade implícita ou por referência nos títulos causais, que são os que tem uma função-causa
típica e única. É o que se verifica com as ações e obrigações das sociedades nas quais não se
procura introduzir mais que elementos essenciais para identificar a sociedade emitente e limites
básicos da situação jurídica do titular, deixando atrás todas as regras do pacto social que definam
os direitos e obrigações dos sócios.
c). Autonomia
Abudo (2009, p. 308) explicita que o título de crédito é autónomo pelo facto de o direito nele
mencionado ser completamente independente de outras relações ou contractos, não incluídos
nele, levados a efeito pelos seus anteriores titulares. E mais, porque a pessoa a quem é
transmitido o crédito torna-se um credor com direito próprio, independente da pessoa que o
transmitiu. Ou seja, o portador no momento do vencimento não é representante dos portadores
anteriores, pois tudo se passa como se a obrigação fosse constituída inicialmente para com ele.
Diz ele que a autonomia do título de crédito pode ser entendida em dois sentidos: a autonomia
face ao direito subjacente e a face aos portadores anteriores. O direito mencionado no título de
crédito, ou o direito cartular emergindo duma relação jurídica anterior ao surgimento do título de
crédito, a chamada relação subjacente ou fundamental, apresenta-se como “novo e diferente do
direito subjacente ou fundamental, tendo um regime próprio”. Fala-se de autonomia face os
portadores anteriores, quando o possuidor do título adquirindo-o de acordo com a sua lei de
circulação, adquire o direito nele mencionado independentemente da titularidade do seu
antecessor, ou seja, é como se o direito cartular não tivesse sido transmitido, mas sim adquirido
de forma originária sempre que o título circula de um titular para o outro.
d). Circulabilidade
A aparição dos títulos de crédito imposta pelas exigências e transformações económicas, a sua
função jurídico-económica torna indispensável que se potenciem de ser transmitidos da
titularidade de uma pessoa para a outra, sucessivamente, transportando cada uma das
transmissões do direito sobre o título a transmissão do direito que ele representa, do direito
cartular. Daí que não possam ser considerados como títulos de crédito, propriamente ditos, ou
são tratados como títulos impróprios, todos os documentos que não suportem a possibilidade de
circulação e que não fomentem a difusão do crédito através da ampla, fácil e sucessiva
transmissibilidade dos direitos neles incorporados (Abudo, 2009, p.309).