Obtenção de matéria
1. Obtenção de matéria pelos seres
heterotróficos
Os seres heterotróficos precisam obter matéria orgânica do
meio externo para produzir energia e sintetizar novos constituintes
celulares. Nos ecossistemas, estes organismos incluem
consumidores e decompositores.
Como os alimentos contêm, na maioria, macromoléculas
(moléculas complexas), a maior parte dos heterotróficos necessita de
realizar digestão. Deste processo resultam moléculas orgânicas mais
simples que sofrem absorção, ou seja, são transportadas, por
processos transmembranares, para o meio interno.
No entanto, alguns parasitas e simbiontes heterotróficos não
fazem digestão, pois absorvem diretamente matéria orgânica simples
fornecida pelos seres dos quais dependem.
Obtenção de matéria por absorção
Muitas bactérias e fungos desempenham nos ecossistemas o
papel de decompositores. Estes organismos heterotróficos são
capazes de produzir enzimas digestivas que lançam para o meio
ambiente, realizando a digestão química da matéria orgânica no
exterior, um processo designado por digestão extracorporal. Como
ocorre fora das células, este processo também é classificado de
digestão extracelular. As moléculas orgânicas simples resultantes
da digestão sofrem posteriormente absorção, atravessando as
membranas celulares para o citoplasma
Obtenção de matéria por ingestão
Muitos seres eucariontes obtêm o seu alimento por ingestão,
introduzindo outros seres vivos ou fragmentos alimentares no seu
organismo.
Os seres mais simples que se alimentam por ingestão são
protozoários. Estes organismos unicelulares ingerem o alimento por
fagocitose, ocorrendo depois digestão intracelular. Dessa forma
originam-se compostos mais simples que são depois utilizados pela
célula.
Na digestão intracelular intervêm diversos organelos do
sistema endomembranar
Interação dos diferentes constituintes do sistema
endomembranar na digestão intracelular:
1. os ribossomas ligados ao retículo endoplasmático rugoso
sintetizam proteínas
2. as proteínas são incluídas em vesículas que migram para o
complexo de Golgi
3. no complexo de Golgi, as proteínas sofrem maturação e tornam-
se funcionais. As enzimas digestivas são incluídas em lisossomas.
Outras proteínas podem ser libertadas por exocitose
4. as membranas dos lisossomas fundem-se com as vesículas de
fagocitose, que contêm as partículas de alimento originando
vacúolos digestivos
5. nos vacúolos digestivos, as enzimas hidrolisam o alimento em
moléculas orgânicas simples, que são absorvidas para o
citoplasma. Os resíduos são expulsos por exocitose.
O sistema endomembranar está também associado à
produção e secreção de diversas substâncias, nomeadamente
enzimas digestivas, que atuam em meio extracelular na generalidade
dos animais.
Nos animais, o processo de obtenção de matéria inicia-se pela
ingestão de alimento, através da boca, para o interior de um tubo
digestivo. Após a digestão, os nutrientes são absorvidos, sendo
depois distribuídos por todas as células do organismo.
Alguns animais possuem um tubo digestivo incompleto, com
apenas uma abertura, que permite tanto a ingestão como a egestão
(eliminação de produtos não digeridos). No entanto, a maioria dos
animais possui um tubo digestivo completo, com duas aberturas,
uma servindo de boca e outra de ânus.
Nos animais invertebrados mais simples, com tubo
digestivo incompleto, como a hidra e a planária, o alimento é
ingerido através da boca para o interior da cavidade
gastrovascular. Nesta cavidade, o alimento sofre digestão
extracelular através da ação de enzimas digestivas libertadas pelas
células secretoras do tecido que reveste essa cavidade. As partículas
de alimento resultantes da digestão parcial são, de seguida,
fagocitadas por células digestivas, onde ocorre a digestão
intracelular. Após a digestão, os nutrientes difundem-se pelas
restantes células do organismo.
Os invertebrados mais evoluídos, como a minhoca,
apresentam um tubo digestivo completo. Neste animal, o alimento
ingerido desloca-se para o papo, onde é amolecido. De seguida, na
moela, sofre digestão mecânica, sendo triturado e reduzido a
partículas minúsculas, o que favorece a ação de enzimas digestivas
que atuam no intestino, onde é concluído o processo digestivo.
Nestes animais, toda a digestão ocorre no tubo digestivo, pelo
que se considera que neles há apenas digestão extracelular. Ao
longo do intestino, os nutrientes são absorvidos para o sangue, sendo
expulsos pelo ânus os materiais não absorvidos.
O tubo digestivo completo nos animais aumentou a eficácia
dos processos de digestão e de absorção, vantagens:
movimento unidirecional dos alimentos, permitindo digestão e
absorção em sequência
maior aproveitamento dos alimentos
especialização dos órgãos com diferentes enzimas para digestão
mecânica e/ou química
existência de áreas especializadas na absorção, aumentando a
eficácia do processo
2. Obtenção de matéria pelos seres vivos
autotróficos
Os seres autotróficos, destacam-se pela sua capacidade de
produzir compostos orgânicos a partir de carbono inorgânico presente
no meio.
Ocorre nos cloroplastos e é deste processo que ocorre a
libertação de oxigénio.
A maioria dos seres autotróficos são fotoautotróficos, uma vez
que utilizam a luz solar como fonte de energia para a produção de
matéria orgânica. Essa produção ocorre através da fotossíntese.
Processo metabólico dependente da existência de
pigmentos fotossintéticos, as moléculas responsáveis pela
captação da luz. Nas bactérias fotossintéticas os pigmentos
encontram-se na membrana celular ou em membranas
especializadas.
Fórmula geral da fotossíntese: 6 CO 2+ 12 H 2 0 →C 6 H 12 O6 +6 H 2 0+ 6 CO2
Os principais pigmentos presentes nos organismos
fotossintéticos são as clorofilas e os carotenoides.
À estrutura interna da folha dá-se o nome de mesófilo. Na
epiderme evidenciam-se os estomas, por onde ocorrem as trocas
gasosas associadas à fotossíntese. Estroma – meio aquoso interno –
e os tilacoides – membranas onde se localizam os pigmentos.
Nas plantas e nas algas, a fotossíntese ocorre em estruturas
especializadas – os cloroplastos -, particularmente abundantes nas
células das folhas, que constituem os principais órgãos fotossintéticos
das plantas.
A energia luminosa proveniente do sol tem um papel
fundamental neste processo de síntese. Ao ser absorvida pelos
pigmentos fotossintéticos, existentes nos cloroplastos, a energia
luminosa é convertida em energia química que irá ser acumulada nos
compostos orgânicos produzidos.
Etapas da fotossíntese
Nas plantas e nas algas, a fotossíntese decorre no interior dos
cloroplastos, ao longo de duas fases sequenciais; e a fase química,
corresponde às reações que ocorrem no estroma.
Fase fotoquímica
A fase fotoquímica é diretamente dependente da luz,
correspondente às reações que ocorrem nas membranas dos
tilacoides. É no decorrer desta etapa que a energia luminosa é
transformada em energia química (ATP), se produz oxigénio e NADPH.
A planta utiliza água, que através da ação da luz, inicia um fluxo de
eletrões que termina na formação de NADPH, após ter permitido a
formação de ATP.
Fenómenos mais relevantes durante esta fase:
Fotólise da água – corresponde à decomposição da molécula de
água por ação da luz. Desta decomposição restam dois eletrões,
oxigénio (que se liberta para a atmosfera) e dois iões de
hidrogénio ( H +¿¿ )
Fosforilação do ADP ADP + PI + energia → ATP + H 2 O
Redução do NADP+¿¿ - os iões de hidrogénio provenientes da
fotólise da água vão ser utilizados na redução do NADP+¿¿ em
NADPH
Fase química
O dióxido de carbono proveniente do exterior é fixado e,
conjuntamente com o ATP e o NADPH, formados durante a fase
fotoquímica, é utilizado num conjunto de reações que integram o
fenómeno mais importante desta fase, o ciclo de Calvin.
O ciclo de Calvin compreende três etapas. Por cada
molécula de glicose produzida, o ciclo tem de ocorrer seis
vezes.
Ciclo de Calvin
1. Fixação do dióxido de carbono – o dióxido de carbono combina-
se com RuDP, formando o PGA (fosfoglicerato)
2. Redução – as moléculas de PGA são fosforiladas por moléculas de
ATP e reduzidas pelos iões e eletrões de hidrogénio transportados
pelo NADPH, que passa à sua forma oxidada. O ADP e o NADP+
ficam novamente disponíveis para as reações da fase fotoquímica.
Algumas das moléculas deste processo de redução são utilizadas
na formação de moléculas orgânicas, como a glicose.
3. Regeneração – as restantes moléculas são utilizadas na
regeneração da RuDP, num processo que envolve o uso de ATP.
Após este processo, a RuDP fica disponível para fixar o dióxido de
carbono, reiniciando o ciclo.
Distribuição da matéria
[Link] nas plantas
1.1. Tecidos condutores
Nas plantas vasculares, a distribuição de matéria, como a água
ou as substâncias orgânicas resultantes da fotossíntese, é feita
através de tecidos vasculares. Já nas plantas avasculares (mais
simples) essa distribuição é feita célula a célula, através de processos
como a osmose ou a difusão.
O sistema de transporte das plantas vasculares é constituído
por dois tipos de tecidos: xilema e o floema. Ambos percorrem todos
os órgãos vegetais de modo contínuo, permitindo o movimento ou
translocação, das substâncias que constituem os fluidos que circulam
nesses tecidos.
Xilema Floema
Conduz a seiva bruta, Conduz a seiva elaborada,
ou xilémica, ou floémica constituída por
constituída por água e água, sacarose e
sais minerais aminoácidos
Tecido complexo Tecido complexo
Os elementos do vaso Constituído por células de
e os traqueídos são companhia e por células do
responsáveis pelo tubo crivoso, onde circula a
transporte da seiva seiva
As células Nas células, as paredes de
desenvolvem topo possuem placas
espessamentos crivosas, cujas prefurações
internos de lenhina permitem ligações
(substância que lhes citoplasmáticas entre células
Posição do xilema e floema
Folha - localizados em posição colateral, nos alinhamentos
correspondentes às nervuras da folha (xilema orientado para a
página superior).
Caule - localizados em posição colateral (xilema orientado para o
interior)
Raiz - localizados de forma alternada
1.2. Absorção de água e sais minerais
Diversas plantas, através da raiz, absorvem do solo água e sais
minerais. A seiva xilémica segue depois para os caules, onde se
desloca numa trajetória unidirecional, em sentido ascendente até às
folhas.
O percurso da água e dos sais minerais, desde o solo até ao
xilema, inicia-se com a absorção destas substâncias para as células
da epiderme, que reveste a superfície das raízes mais finas. Estas
células, que estão em contacto com as partículas do solo e com a
solução aquosa existente entre elas, apresentam frequentemente
expansões – os pelos radiculares -, que contribuem para o aumento
significativo da área de absorção.
A absorção de água deve-se à existência de um gradiente de
potencial de água entre o solo e a raiz. Habitualmente, verifica-se
uma baixa concentração de solutos na solução do solo (baixa pressão
osmótica), que se traduz num elevado potencial de água no exterior
da raiz. Por outro lado, no interior do xilema, o potencial de água é
geralmente mais baixo, em virtude da diminuição da pressão da
água, como resultado do seu fluxo em direção às folhas. Este
gradiente de potencial é a principal causa da entrada de água por
osmose na raiz, onde passa a movimentar-se através do citoplasma
das células, ou através dos espaços intercelulares, em direção ao
xilema.
Ao nível da raiz dá-se também a absorção de iões para o seu
interior. Este movimento está associado, normalmente, ao transporte
ativo, uma vez que a solução do solo tende a ser muito diluída. Dessa
forma, os iões são transportados contra o gradiente de concentração,
com dispêndio de energia pela planta, levando ao aumento da
pressão osmótica no interior da raiz. Este processo de captação ativa
de iões provoca a diminuição do potencial de água no interior do
xilema, contribuindo também para a entrada de água por osmose.
1.3. Transporte no xilema
Uma vez que os vasos do xilema são constituídos por células
mortas, a ascensão de água no interior deste tecido não envolve
gasto de energia metabólica.
Hipótese da pressão radicular
Algumas plantas,, apresentam valores elevados de pressão de
água na raiz – pressão radicular. Este processo inicia-se com a
acumulação de iões no interior da raiz por transporte ativo, o que
provoca a entrada de água por osmose. O aumento do volume de
água no interior da raiz faz aumentar a pressão no xilema,
impulsionando a seiva no sentido ascendente.
Devido à pressão radicular, pode ocorrer, em certas plantas de
pequeno porte, a libertação, sob pressão, de gotas de água pelo
bordo das folhas (gutação) ou também a exsudação de seiva bruta,
através de superfícies de corte em caules.
Por outro lado, a maior parte das árvores, sobretudo as mais
altas, apresentam valores de pressão radiculares inferiores aos
necessários para mobilizar a água. Estes aspetos limitam a aplicação
da hipótese da pressão radicular do movimento da seiva bruta.
Hipótese da adesão-coesão-tensão
A transpiração – perda de água na forma de vapor através das
folhas – é a principal causa do movimento da água no interior das
plantas, sendo esse movimento ascendente dependente apenas de
causas físicas.
De acordo com a hipótese da adesão-coesão-tensão, o
movimento de água no interior das plantas vasculares resulta da ação
de três forças fundamentais: a tensão, resultante da perda de água
por transpiração, ao nível das folhas; a coesão entre as moléculas da
água, decorrente das ligações de hidrogénio existentes entre elas; e a
adesão das moléculas de água às paredes dos vasos condutores.
Na atmosfera, o potencial de água é geralmente inferior ao que
se verifica no interior das folhas, o que determina a saída de água
através dos estomas por difusão (transpiração). Este fenómeno é
responsável pela tensão exercida sobre a água existente no mesófilo
e pelo seu movimento em direção aos estomas. A tensão criada no
mesófilo provoca a saída da água do xilema e o movimento da coluna
de água no interior dos vasos xilémicos, desde a raiz até às folhas.
A manutenção deste fluxo depende da forte coesão entre as
moléculas de água e é favorecida pelas forças de adesão entre a água
e as paredes dos vasos do xilema. À medida que a água ascende a
partir das raízes, novas moléculas são absorvidas por osmose a partir
do solo, mantendo o potencial de água na raiz, que normalmente é
superior ao que se verifica nas folhas
Quando a tensão no interior do xilema se torna excessiva, pode
haver formação de bolhas de ar (embolismo) que interrompem a
corrente de água em movimento nos elementos vasculares. Este
processo, conhecido como cavitação, pode levar à inativação dos
vasos xilémicos cavitados ou à transferência lateral de água para
vasos funcionais através das perfurações nas paredes laterais.
1.4. Transporte no floema
A seiva floémica é um fluido de natureza aquosa onde se
encontram substâncias orgânicas que são translocadas nas plantas.
Este movimento verifica-se principalmente desde os órgãos
fotossintéticos onde há a produção de glícidos, até aos locais onde
estes são consumidos ou armazenados, tais como raízes, frutos e
caules. A translocação pode também ocorrer desde os órgãos de
armazenamento para os locais de consumo, podendo considerar-se
que o transporte no floema é bidirecional, pois ocorre tanto no
sentido ascendente como no sentido descendente.
Hipótese do fluxo de massa
O transporte da seiva elaborada pode ser explicado com base
na hipótese do fluxo de massa . De acordo com esta hipótese, o
movimento da seiva floémica deve-se a um gradiente de pressão
entre os locais de produção, onde é feito o carregamento de sacarose,
e os locais de consumo ou de armazenamento, onde este açúcar sai
do floema.
Locais de produção
Nas folhas, verifica-se a produção de sacarose a partir de
monossacarídeos, produzidos na fotossíntese. A sacarose é
transportada por transporte ativo para interior das células de
companhia. A partir destas células, este açúcar difunde-se para os
elementos do tubo crivoso, levando ao aumento da pressão
osmótica no seu interior.
A água vinda do xilema entra nas células crivosas, aumentando a
pressão de turgescência.
A diferença de pressão entre diferentes locais do floema provoca o
movimento em massa da seiva floémica.
Locais de consumo
Os solutos são descarregados do interior dos tubos crivosos,
através de células de companhia, e transportados para os órgãos
de consumo ou de armazenamento. Pode ocorrer gasto de energia.
A saída da sacarose torna o interior das células crivosas
hipotónico, o que provoca a saída de água, por osmose, em
direção ao xilema, fazendo diminuir a pressão no floema. Dessa
forma, mantém-se o gradiente de pressão de turgescência entre os
locais de produção e os de consumo, necessário ao fluxo de
massa.
A sacarose, assim, mobilizada, pode ser consumida ou
armazenada.
[Link] nos animais
2.1. Sistemas de transporte
Os animais necessitam de realizar trocas com o meio ambiente
de forma a manterem o funcionamento das suas células. Nesse
sentido, elas têm de receber continuamente nutrientes e oxigénio e
de eliminar dióxido de carbono.
Animais sem sistema circulatório
Nos animais invertebrados mais simples, como a hidra e a
planária, não existem sistemas de transporte, ocorrendo a troca
direta de substâncias entre as células e o meio.
Animais com sistema circulatório
Nos animais mais complexos, a distribuição de matéria pelos
diferentes tecidos é garantida por sistemas especializados de
transporte. Estes sistemas possuem sempre três componentes:
Fluido circulante, que garante o transporte de substâncias
Órgão propulsor, que impulsiona o fluido circulante
Sistema vascular, formado por uma rede de vasos que permite a
circulação do fluido circulante pelo corpo do animal
Os sistemas circulatórios podem ser classificados em abetos ou
fechados
Sistema circulatório aberto
O fluido circulante sai através das lacunas, que, no seu
conjunto, constituem o hemocélio. Nestes animais, característicos
de vários invertebrados, como os artrópodes (insetos, aracnídeos e
crustáceos) e a maioria dos moluscos (caracol e mexilhão), não há
distinção entre o fluido circulante e o líquido intersticial que banha as
células, pelo que esse fluido se designa por hemolinfa. Nos sistemas
abertos, o fluxo da hemolinfa ocorre tipicamente a baixa pressão e
baixa velocidade, sendo consequentemente o transporte de
nutrientes e de gases realizado de forma lenta, o que se reflete numa
baixa disponibilidade de oxigénio para as células. O fluxo da
hemolinfa é pouco controlado, não havendo mecanismos que
permitam a variação e a orientação do fluxo para uma parte
específica do organismo.
Nos insetos, o sistema circulatório é constituído por um vaso
dorsal. Este vaso tem dilatações com capacidade contrátil que, no
seu conjunto, constituem um coração tubular. A contração deste
coração impulsiona a hemolinfa no seu interior para as artérias,
obrigando-a a sair do sistema vascular e a passar para as lacunas,
onde banha diretamente as células. O relaxamento da musculatura
do vaso dorsal faz com que o fluido regresse ao coração, entrando
pelos ostíolos, pequenos orifícios laterais existentes na sua parede.
Nos insetos, ao contrário do que acontece noutros
invertebrados com sistemas abertos, os gases são transportados
diretamente do meio até às células, sem a intervenção da hemolinfa.
Sistema circulatório fechado
Num sistema circulatório fechado, presente em alguns
invertebrados, como a minhoca (anelídeo), bem como em todos os
vertebrados, o sangue circula sempre no interior de vasos
sanguíneos, nunca se misturando com o fluido intersticial que banha
as células.
Nos sistemas fechados, a pressão e a velocidade a que o
sangue circula são maiores do que nos sistemas abertos, verificando-
se também um controlo sobre o direcionamento do sangue para
órgãos e tecidos específicos. Estes aspetos possibilitam um maior
fornecimento de oxigénio às células, o que se traduz numa maior
eficiência na produção de energia.
No sistema circulatório da minhoca, destacam-se dois vasos
principais que se dispõem ao longo do corpo do animal: um vaso
dorsal, com capacidade contrátil e com válvulas internas, e um vaso
ventral. O vaso dorsal impulsiona o sangue para a região anterior,
onde se localizam os arcos aórticos, ou corações laterais. Estas
estruturas, com capacidade contrátil, bombeiam o sangue para o
vaso ventral, que o transporta para a região posterior, ao longo da
qual vai sendo distribuído pelos tecidos, através de uma rede de
capilares
Circulação nos vertebrados
Nos vertebrados, o sistema circulatório é constituído por uma
rede vascular com maior grau de desenvolvimento e por um coração
musculosos com dois tipos de cavidades, as aurículas e os
ventrículos.
A partir do coração, o sangue é impulsionado para vasos de
grande calibre, as artérias, que partem dos ventrículos e se vão
ramificando em vasos menores, as arteríolas, que por sua vez, se
dividem em capilares. As células presentes na parede destes vasos
realizam trocas com o líquido intersticial que banha as células. Os
capilares reúnem-se em vasos de maior calibre, as vénulas, que
confluem nas veias. Estes vasos possuem válvulas no seu interior que
impedem o regresso do sangue, conduzindo-o de regresso ao
coração. Nas artérias, o sangue circula com maior pressão, sendo a
espessura da camada muscular superior à das veias, o que lhes
permite uma maior capacidade de distensão e de contração.
Com base em aspetos estruturais e funcionais característicos do
sistema circulatório dos diversos vertebrados, distinguem-se dois
tipos de circulação: circulação simples e circulação dupla.
A circulação simples é característica dos peixes. Nestes
vertebrados, o coração é constituído por uma aurícula e um
ventrículo, e o sangue passa apenas uma vez no coração em cada
circulação completa. Neste órgão, apenas circula sangue venoso, ou
seja, pouco oxigenado. O sangue venoso entra na aurícula, que, ao
contrair-se, o envia para o ventrículo. A contração do ventrículo
impulsiona o sangue diretamente para as brânquias, onde ocorrem as
trocas gasosas que o enriquecem em oxigénio, tornando-o arterial.
A circulação dupla distingue-se da circulação simples pelo facto
de o sangue efetuar dois trajetos distintos com início e fim no
coração: a circulação pulmonar, ou pequena circulação, e a circulação
sistémica, ou grande circulação.
A circulação dupla é mais eficiente do que a circulação simples,
uma vez que o sangue flui com uma maior velocidade e pressão, o
que favorece uma distribuição mais eficaz de oxigénio e de nutrientes
pelos tecidos. Estes aspetos resultam do facto de o sangue oxigenado
nos capilares pulmonares regressar ao coração, de onde é novamente
impulsionado para a circulação sistémica.
Os anfíbios apresentam uma circulação dupla incompleta uma
vez que o coração, com três cavidades (duas aurículas e um
ventrículo), não garante a separação entre a circulação sistémica e a
circulação pulmonar. A aurícula direita recebe sangue venoso e a
esquerda, sangue arterial, que impulsionam para o ventrículo, onde
se verifica a mistura dos dois tipos de sangue.
A generalidade dos répteis possui um ventrículo parcialmente
dividido por um septo. Apesar dessa divisão, nestes animais ocorre
também mistura de sangue no ventrículo. Por essa razão considera-se
que mos répteis a circulação é dupla e incompleta.
As aves e os mamíferos possuem uma circulação dupla
completa, caracterizada pela separação total entre a circulação
pulmonar e a circulação sistémica. Nestes animais, o coração possui
quatro cavidades: duas aurículas e dois ventrículos. A existência de
um septo interventricular completamente formado impede a
comunicação entre os ventrículos. No lado direito do coração, apenas
circula sangue venoso e, no lado esquerdo, apenas sangue arterial.
O sangue venoso, proveniente da circulação sistémica, é
encaminhado para a aurícula direita, através das veias cavas,
enquanto o sangue arterial, proveniente dos pulmões, entra na
aurícula esquerda através das veias pulmonares.
A existência de dois ventrículos completamente separados, nas
aves e nos mamíferos, faz com que o sangue seja bombeado do
coração a pressões e a velocidades elevadas para as respetivas
circulações.
À medida que o sangue se afasta do coração, a pressão e a
velocidade do fluxo vão diminuindo Após a passagem do sangue
pelos capilares sistémicos, a velocidade do sangue volta a aumentar,
auxiliada pela contração dos músculos esqueléticos sobre as veias. As
válvulas existentes no interior destes vasos orientam o fluxo em
direção ao coração.
Na circulação dupla e completa, o transporte do sangue ocorre
a pressões superiores às da circulação simples o que contribui para
um maior aporte de oxigénio e nutrientes às células, assegurando
taxas metabólicas mais elevadas e, consequentemente, uma maior
produção de energia.
2.2. Fluidos circulantes
O equilíbrio do meio interno das células é condição essencial
para o seu normal funcionamento. Nos mamíferos, esse equilíbrio é
mantido através das trocas constantes entre o fluido intersticial e o
sangue. O sangue é um tecido constituído por uma fração líquida, o
plasma, e uma fração celular.
O plasma funciona como veículo de transporte de nutrientes,
gases, hormonas e substâncias de excreção. A fração celular integra
as hemácias, envolvidas no transporte de oxigénio, os leucócitos, que
intervêm na defesa do organismo, e as plaquetas, que participam no
processo de coagulação do sangue.
Nos tecidos, ao nível dos capilares sanguíneos, ocorre a saída
de plasma, alguns tipos de leucócitos e pequenas moléculas e iões
para o exterior destes vasos, passando a constituir a linfa intersticial,
que ocupa os espaços intercelulares. O contacto deste fluido com as
células permite a passagem de substâncias, como os nutrientes e o
oxigénio, para o interior das células e a saída de dióxido de carbono,
e de outros resíduos para este fluido. Uma parte da linfa intersticial é
continuamente drenada para o sistema linfático, passando a
constituir a linfa circulante.
Transformação e utilização de energia pelos
seres vivos
1. Produção de energia nas células
1.1. Metabolismo celular – conceitos básicos
Processo anabólico – síntese de moléculas mais complexas e
com mais energia acumulada do que nos reagentes iniciais. No
anabolismo predominam as reações endoenergéticas, ou seja,
reações que ocorrem com consumo de energia.
Processo catabólico – ocorre a degradação de compostos
iniciais mais complexos do que os produtos a que dão origem. Nos
processos catabólicos predominam as reações exoenergéticas, em
que há libertação de energia, sendo os produtos das reações
energeticamente mais pobres do que os reagentes que lhes deram
origem.
Os processos catabólicos e anabólicos completam-se, uma vez
que a energia libertada nos processos degradativos (catabolismo) é
utilizada nos processos de síntese (anabolismo). Nas células de todos
os seres vivos, a molécula de ATP (adenosina-trifosfato) é o principal
interveniente nas transferências de energia entre as reações
exoenergéticas e endoenergéticas.
A energia libertada em reações exoenergéticas é utilizada na
ligação de uma molécula de ADP a um grupo fosfato (Pi). A hidrólise
do ATP, por quebra da ligação do grupo fosfato , liberta energia para
reações endoenergéticas.
Uma outra forma de transferência de energia nas reações
químicas consiste na transferência de eletrões entre moléculas,
em reações de oxidação-redução. A oxidação e a redução estão
sempre acopladas; quando uma substância é oxidada, os eletrões
perdidos são transferidos para outra substância, reduzindo-a. As
moléculas reduzidas ficam, assim, com mais energia do que a que
tinham antes, enquanto as moléculas oxidadas ficam com menos
energia.
[Link] produção de energia nas células
A produção de energia metabólica ocorre nas células de todos
os organismos através de processos de natureza catabólica. Nesses
processos, verifica-se a transferência de energia química de
diferentes compostos orgânicos, principalmente s glicose, para as
moléculas de ATP.
Os processos de produção de energia podem decorrer em
anaerobiose, ou seja, sem consumo de oxigénio – como é o caso da
fermentação – ou em aerobiose, com consumo de oxigénio – como é
o caso da respiração aeróbica. Todos os processos são iniciados com a
glicólise, que ocorre no citoplasma da célula.
Glicólise – oxidação parcial de uma molécula de glicólise e a sua
transformação em duas moléculas de ácido pirúvico, ou piruvato.
A glicólise decorre
ATP. No final desta fase, a hexose
resultante é desdobrada em duas trioses.
Ao longo da
oxidação-redução que permitem a
+¿¿
transferência de eletrões e de iões H
para moléculas de NAD+ ¿¿, que passam,
assim, ao seu estado reduzido - NADH.
Durante a fase de rendimento, ocorre
também a síntese de quatro moléculas de
ATP. No balanço energético da glicólise,
regista-se, contudo, um ganho de apenas
duas moléculas de ATP, uma vez que
outras duas são consumidas na fase de
ativação da glicose.
Fermentação
A fermentação permite a produção de ATP através da oxidação
incompleta da glicose em condições anaeróbias. Este processo, que
acontece no citoplasma das células, compreende duas etapas
essenciais:
Glicólise, comum a todos os tipos de fermentação
A redução do ácido pirúvico, que ocorre devido à captação de
iões H +¿¿ e de eletrões cedidos pelo NADH. Esta molécula passa ao
seu estado oxidado - NAD+ ¿¿-, ficando disponível para intervir em
novas reações de oxidação-redução
A fermentação láctica pode verificar-se em algumas
bactérias, plantas e, em determinadas condições, nas células
musculares dos animais, como o ser humano. Nesta fermentação, o
ácido pirúvico é reduzido a ácido láctico, ou lactato, uma molécula
orgânica com três átomos de carbono.
A fermentação alcoólica, frequente em alguns fungos, como
as leveduras, e em algumas bactérias, o ácido pirúvico sofre
descarboxilação, com libertação de dióxido de carbono, dando origem
a uma molécula orgânica que é reduzida a álcool etílico, ou etanol.
Respiração aeróbia
No final da fermentação, são libertadas moléculas orgânicas
que possuem ainda uma quantidade elevada de energia química. Na
respiração aeróbica, o ácido pirúvico é completamente oxidado,
dando origem a uma quantidade considerável de energia na forma de
ATP. Este processo ocorre em condições de aerobiose, designando-se
por seres aeróbios os organismos que produzem energia por esta via.
A respiração aeróbia compreende várias etapas sequenciais,
iniciando-se pela glicólise. As etapas seguintes são a formação de
acetil-coenzima A, o ciclo de Krebs e a cadeia transportadora de
eletrões ou cadeia respiratória, que nas células eucarióticas ocorre no
interior da mitocôndria. Estes organelos encontram-se delimitados por
duas membranas. A membrana interna um conjunto de pregas ou
invaginações – as cristas mitocondriais -, orientadas para o interior do
organelo, que se encontra preenchido pela matriz mitocondrial. A
formação de acetil-coenzima A e o ciclo de Krebs ocorrem na matriz
mitocôndria, enquanto a cadeia respiratória se desenrola nas cristas
da membrana interna.
Depois de transportado para a matriz mitocondrial, o ácido
pirúvico sofre oxidação e descarboxilação no processo de formação
de acetil-coenzima A.
A ligação do grupo acetil a uma molécula com quatro átomos de
carbono, na matriz mitocondrial, dá início ao ciclo de Krebs.
Esta etapa da respiração aeróbia constitui uma via metabólica
de natureza cíclica, uma vez que o produto final dessa série de
reações corresponde à molécula que inicia a via metabólica. Neste
ciclo ocorrem reações de descarboxilação e de oxidação de vários
compostos, que resultam, respetivamente, na libertação de dióxido
de carbono e na redução de NAD+ ¿¿ e de FAD. À semelhança do NADH,
o FADH 2, intervém no ciclo como transportador de eletrões
e de hidrogénio.
Na etapa final da respiração aeróbica – cadeia
transportadora de eletrões -, as moléculas de NADH e de FADH 2
sofrem oxidação, transferindo eletrões para complexos de proteínas
dispostas em cadeia na membrana interna das mitocôndrias. Ao longo
dessa cadeia respiratória, os eletrões vão libertando energia que
permite o movimento dos iões H +¿¿ da matriz para o espaço
intermembranar da mitocôndria. O retorno desses iões à matriz
fornece energia necessária para a produção de ATP num processo de
fosforilação oxidativa.
Quando os eletrões atingem o último transportador da cadeia,
são transferidos para o oxigénio, que funciona como o aceitador final
de eletrões, sendo por eles reduzido. O oxigénio combina-se com os
hidrogénios presentes na matriz mitocondrial, formando moléculas de
água.