Material escrito 3 – OBJETO
Leitura sugerida:
• Freud, S. (1905 [2016]). “A Descoberta do Objeto” - Três ensaios sobre a teoria
da sexualidade. Em S. Freud, Obras completas, volume 6: três ensaios sobre a
teoria da sexualidade, análise fragmentária de uma histeria ("O caso Dora") e
outros textos. São Paulo: Companhia das Letras.
• Freud, S. (1914 [2010]). Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos
homens. Em S. Freud, Obras completas, volume 9: Observações sobre um caso
de neurose obsessiva [“O Homem dos ratos”], Uma recordação de infância de
Leonardo da Vinci e outros textos. São Paulo: Companhia das Letras.
Leitura complementar:
• Coelho Jr., N. E. (jul/dez de 2001). A noção de objeto na psicanálise
freudiana. Ágora, 4, pp. 37-49. Disponível em
[Link]
14982001000200003&lng=pt&tlng=pt
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO 2
AS PULSÕES E SUA RELAÇÃO COM OS OBJETOS 3
A DESCOBERTA DO OBJETO 5
ESCOLHA DE OBJETO 6
Escolha de objeto “por apoio” (ou anaclítica) 7
Escolha de objeto narcísica 8
AUTORES PÓS-FREUDIANOS E AS RELAÇÕES OBJETAIS 9
Melanie Klein 9
D. W. Winnicott 14
REFERÊNCIAS 16
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INTRODUÇÃO
“A noção de objeto é encarada em psicanálise sob três aspectos principais:
A) Enquanto correlativo da pulsão, ele é aquilo em que e por que esta procura atingir
a sua meta, isto é, um certo tipo de satisfação. Pode tratar-se de uma pessoa ou de
um objeto parcial, de um objeto real ou de um objeto fantasístico.
B) Enquanto correlativo do amor (ou do ódio), trata-se então da relação da pessoa
total, ou da instância do ego, com um objeto visado também como totalidade
(pessoa, entidade, ideal, etc.) (o adjetivo correspondente seria “objetal”).
C) No sentido tradicional da filosofia e da psicologia do conhecimento, enquanto
correlativo do sujeito que percebe e conhece, é aquilo que se oferece com
características fixas e permanentes, reconhecíveis de direito pela universalidade dos
sujeitos, independentemente dos desejos e das opiniões dos indivíduos (o adjetivo
correspondente seria “objetivo”)” (Laplanche & Pontalis, 2001, p. 321).
O termo objeto se encontra presente em praticamente toda a obra de Freud, sendo
que, por isso, seria inimaginável encerrarmos nossas considerações em uma definição do tipo
“de significado”. Presente em expressões como escolha de objeto, amor de objeto, relação de
objeto, perda de objeto, investimento de objeto etc., esse conceito é, ainda, fundamental para
a compreensão do que é sujeito para Freud.
Para compreendermos a noção freudiana de objeto vamos partir, primeiro, do que ela
não é: uma “coisa” inanimada e manipulável. Esse, definitivamente, não foi o sentido adotado
por Freud para definir o termo Objekt que, em sua obra, estaria mais relacionado com o
sentido “da língua clássica (“objeto da minha paixão, do meu ressentimento, objeto amado,
etc.)” (Laplanche & Pontalis, 2001, p. 321). Ou seja: ainda que haja o objeto externo,
totalmente pertencente à realidade compartilhada, a concepção psicanalítica de objeto o
toma como uma representação psíquica e não como algo completamente externo ao sujeito,
cuja existência e significado possam ser pré-concebidos de forma universalmente abrangente.
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AS PULSÕES E SUA RELAÇÃO COM OS OBJETOS
Um princípio básico da teoria psicanalítica freudiana é a existência das pulsões 1 .
Segundo Zimerman, Freud conceituou a pulsão em 1915 como “o representante psíquico dos
estímulos somáticos” (1999, p. 77), cujos componentes seriam:
1) Fonte (no alemão original é quelle) diz respeito ao órgão, partes do corpo ou
zonas erógenas, de onde procedem os estímulos. 2) Força (drang) refere-se a
uma quantificação da energia que busca descarga motora, sendo que esse
aspecto da pulsão é o que fundamenta o ponto de vista “econômico”. 3)
Finalidade (ziel) consiste na necessidade de uma “satisfação” imediata, a qual,
originalmente, só pode ser obtida por meio de uma “descarga” motora ou pela
eliminação do estímulo procedente de alguma fonte. 4) Objeto (objekt)
constituía-se para Freud “naquilo em relação ao qual ou pelo qual a pulsão é
capaz de atingir a sua finalidade” (Ibidem).
Conceituando o termo pulsão como uma fonte inata de excitação, de origem somática,
que impulsiona o sujeito a executar a descarga dessa excitação em determinado alvo
(descarga esta que se faz necessária devido à existência do princípio da constância, que impele
o organismo a trabalhar em um nível de excitação o mais baixo possível) temos, então, que “o
objeto é o meio pelo qual a pulsão pode atingir o seu alvo, ou seja, a experiência de satisfação”
(Birman, 2017, p. 100).
A pulsão se dirige aos objetos quando eles se mostram úteis para reduzir a tensão
promotora do desprazer, sob a regência do princípio do prazer (experiência de satisfação).
Segundo Birman, o objeto “seria o aspecto mais variável na pulsão, não sendo ligado a ela
originalmente. Ao contrário, o objeto apenas se acopla à pulsão para tornar possível sua
satisfação, não existindo qualquer relação de necessidade intrínseca entre um e outro. Por
1
Princípio este que será apresentado apenas de forma introdutória nesse texto e será melhor aprofundado no
próximo módulo do Material Escrito do curso.
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isso mesmo o objeto pode ser mudado, desde que promova satisfação como o anterior”
(Ibidem).
Apesar da possibilidade de troca de objeto para a obtenção da satisfação pulsional,
existe a possibilidade de uma pulsão se ligar rigidamente a um objeto e não se desligar dele
facilmente, ao que denominamos fixação. É o caso de muitas das perturbações psíquicas,
como as neuroses por exemplo, onde a mobilidade ou plasticidade – característica básica da
pulsão – fica prejudicada e cede lugar à fixação objetal.
Como citado anteriormente, uma das características da pulsão é o fato desse tipo de
excitação ser inata: desde o nascimento somos seres pulsionais. Entretanto, para Freud, a
relação com objetos de satisfação da pulsão não nasce com o sujeito - ela é, portanto,
adquirida. Em seu texto Introdução ao narcisismo, de 1914, Freud traz a ideia de um
“originário investimento libidinal2 do Eu, de que algo é depois cedido aos objetos, mas que
persiste fundamentalmente, relacionando-se aos investimentos de objeto como o corpo de
uma ameba aos pseudópodes que dele avançam”, e segue estabelecendo uma relação de
proporção entre os tipos de investimento libidinal: “Enxergamos também, em largos traços,
uma oposição entre libido do Eu e libido de objeto. Quanto mais se emprega uma, mais se
empobrece a outra” (1914 [2010], p. 17).
Temos, então, que nessa fase pertencente ao desenvolvimento sexual regular do ser
humano, denominada narcisismo, a criança busca a satisfação de suas pulsões em si mesma
e, mais especificamente, em partes de si mesma (boca, ânus etc.). Isso evidencia o fato de que
é característica da infância a relação com objetos parciais (partes de si mesma ou partes de
outrem), o que será melhor explicado posteriormente.
Vale ressaltarmos a importância dos objetos na constituição do ego a partir das
experiências do narcisismo: nos constituímos através da incorporação, da introjeção e da
identificação com objetos; ou seja, os objetos participam de maneira bastante significativa da
nossa constituição egóica.
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Ainda estudaremos esse conceito mais adiante no curso, mas, por hora, entendamos libido como uma energia
originada nas pulsões sexuais e investida em objetos visando a satisfação.
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A DESCOBERTA DO OBJETO
Em seu texto Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905, Freud afirma que “a
descoberta do objeto é, na verdade, uma redescoberta” (p. 143). Isso porque
“Quando a primeiríssima satisfação sexual ainda é vinculada à ingestão de alimento,
o instinto sexual tem um objeto fora do próprio corpo, no seio da mãe. Ele o perde
somente depois, talvez justamente na época em que se torna possível, para a
criança, formar uma ideia total da pessoa a quem pertence o órgão que lhe traz
satisfação. Então o instinto sexual se torna, por via de regra, autoerótico, e somente
após a superação do período de latência é restabelecida a relação original” (Freud,
1905 [2016], p. 142 e 143)
Em outras palavras, o primeiríssimo objeto de satisfação experienciado pelo bebê é o
seio da mãe (objeto parcial), que desperta a sensação de prazer relacionada à região oral –
são os cuidados maternos que erogenizam o corpo do bebê. Depois disso, o bebê passa a
reconhecer a região oral de seu corpo como uma zona erógena capaz de lhe proporcionar a
sensação de satisfação (objeto parcial, autoerotismo). Assim a criança segue, evolutivamente,
relacionando-se com objetos parciais até que, na puberdade, torna-se capaz de então
relacionar-se com objetos totais. Nas palavras de Freud:
“Enquanto os processos da puberdade estabelecem o primado das zonas genitais e,
no homem, a preponderância do pênis erétil indica imperiosamente a nova meta
sexual – a penetração num orifício corporal que excita a zona genital –, efetua-se, do
lado psíquico, a descoberta do objeto, que já era preparada desde a primeira
infância” (1905 [2016], p. 142).
Assim, podemos entender que, para o autor, a sexualidade infantil é
caracteristicamente autoerótica, ou seja, marcada pela presença de pulsões parciais, que se
descarregam através de um prazer localizado em um órgão específico, onde o tipo de objeto
visado não é tão relevante (o foco está na zona erógena estimulada e não no objeto externo)
e que apenas a partir da puberdade é que advém em completude uma escolha de objeto, na
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qual a vida sexual se unifica e se orienta definitivamente a outrem, agora reconhecido como
objeto total.
Apesar de, num desenvolvimento tido como saudável, serem superadas as relações
objetais características da infância, vemos que nunca escaparemos inteiramente à sua
influência. Ao contrário disso, as experiências infantis serão determinantes para o modo como
escolheremos os objetos nos quais investiremos nossa energia pulsional. Vejamos a seguir:
ESCOLHA DE OBJETO
“Ato de eleger uma pessoa ou um tipo de pessoa como objeto de amor.
Distingue-se uma escolha de objeto infantil e uma escolha de objeto pubertária,
sendo que a primeira traça o caminho da segunda.
Para Freud atuam na escolha de objeto duas modalidades principais: o tipo
de escolha de objeto por apoio e o tipo narcísico de escolha de objeto” (Laplanche
& Pontalis, 2001, p. 154).
O primeiro ponto que gostaríamos de destacar sobre escolha de objeto é que não
estamos, de forma alguma, falando sobre uma escolha puramente intelectual, em um
cardápio conhecido e consciente de opções de objetos. O que abordamos com esse termo,
empregado por Freud desde 1905 no texto Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, “evoca
o que pode haver de irreversível e de determinante na eleição pelo sujeito, num momento
decisivo da sua história, do seu tipo de objeto de amor” (Laplanche & Pontalis, 2001, p. 154).
Trata-se de uma escolha pautada na história psíquica de cada um e bastante marcada por
conteúdos inconscientes, geralmente associados à infância do sujeito.
Cabe aqui entendermos a diferença conceitual entre um objeto pulsional e um objeto
de amor. Segundo Laplanche e Pontalis, “o primeiro refere-se essencialmente como suscetível
de proporcionar satisfação à pulsão em causa. Pode tratar-se de uma pessoa, mas isso não é
condição necessária, pois a satisfação pode ser fornecida particularmente por uma parte do
corpo” (2001, p. 323). Temos, portanto, que no objeto pulsional a ênfase incide em sua relação
com a satisfação e que podemos estar nos referindo, por exemplo, a objetos e pulsões parciais
(característica infantil).
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Já sobre o objeto de amor (em oposição ao objeto de ódio), Laplanche e Pontalis
afirmam que “os termos amor e ódio não devem ser utilizados para as relações das pulsões
com os seus objetos, mas reservados para as relações do ego total com os objetos” (Ibidem)
e, mais adiante, explicam que “Freud reserva a expressão “escolha de objeto” para a relação
da pessoa com os seus objetos de amor, que, também eles, são essencialmente pessoas
totais” (Ibid., p. 324). Ou seja, ao falarmos em “objeto de amor” estamos supondo a existência
de um ego já constituído, capaz de reconhecer a outrem também como pessoa total
(característica pós-pubertária).
Podemos identificar nos escritos de Freud dois tipos distintos de escolhas objetais: a
escolha de objeto “por apoio” (ou anaclítica) e a escolha de objeto narcísica.
Escolha de objeto “por apoio” (ou anaclítica)
“Tipo de escolha de objeto em que o objeto de amor é eleito a partir do modelo das
figuras parentais na medida em que estas asseguram à criança alimento, cuidados e
proteção. Fundamenta-se no fato de as pulsões sexuais se apoiarem originalmente
nas pulsões de autoconservação” (Laplanche & Pontalis, 2001, p. 155)
Na escolha de objeto por apoio, entende-se que a escolha sexual se apoia nas vivências
infantis relacionadas às pulsões de autoconservação – basicamente o seio materno e a
proteção paterna – o que advém do fato de que, inicialmente, a criança experiencia as
primeiras satisfações sexuais por ocasião dos aparelhos que servem para a conservação da
vida e essas funções de autoconservação indicam à sexualidade um primeiro objeto: o seio
materno. A partir daí, “a criança aprende a amar outras pessoas que ajudam no seu estado de
desamparo e que satisfazem as suas necessidades” (Laplanche & Pontalis, 2001, p. 155),
apoiada nas imagens dos parentais.
Nas palavras de Freud, “Os instintos sexuais apoiam-se de início na satisfação dos
instintos do Eu, apenas mais tarde tornam-se independentes deles; mas esse apoio mostra-se
ainda no fato de as pessoas encarregadas da nutrição, cuidado e proteção da criança
tornarem-se os primeiros objetos sexuais, ou seja, a mãe ou quem a substitui” (1914 [2010],
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p. 32). E, mais adiante, o autor diz que a pessoa, ao fazer uma escolha de objeto por apoio,
ama:
“a) a mulher nutriz,
b) o homem protetor
e a série de substitutos que dele derivam” (1914 [2010], p. 36)
Escolha de objeto narcísica
“Tipo de escolha de objeto que se faz com base no modelo da relação do sujeito com
a sua própria pessoa, e em que o objeto representa a própria pessoa sob este ou
aquele aspecto” (Laplanche & Pontalis, 2001, p. 156)
Freud conceituou a escolha de objeto do tipo narcísica ao observar as escolhas objetais
dos homossexuais. Para o autor, haveria ali o indício de que um sujeito poderia fazer escolhas
objetais não a partir da reprodução de uma relação de objeto preexistente, mas sim a partir
do modelo da relação do sujeito consigo mesmo. Nas palavras do autor,
“De modo especialmente nítido em pessoas cujo desenvolvimento libidinal sofreu
perturbação, como pervertidos e homossexuais3, descobrimos que não escolhem
seu posterior objeto de amor segundo o modelo da mãe, mas conforme o de sua
própria pessoa. Claramente buscam a si mesmas como objeto amoroso,
evidenciando o tipo de escolha de objeto que chamaremos de narcísico” (1914
[2010], p. 32)
Assim, a pessoa que ama conforme o tipo narcísico, segundo Freud, ama:
“a) O que ela mesma é (a si mesma),
b) o que ela mesma foi,
c) o que ela mesma gostaria de ser,
d) a pessoa que foi parte dela mesma.” (Freud, 1914 [2010], p. 36)
3
Gostaríamos de ressaltar que algumas palavras utilizadas por Freud em seus escritos adquiriram caráter
pejorativo em tempos posteriores ao do autor. É importante termos em mente a localização cronológica do
texto lido para não o interpretarmos incorretamente.
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No entanto, seria muito ingênuo pensarmos que uma pessoa poderia fazer sempre o
mesmo tipo de escolha objetal, bem como seria um grande equívoco pensarmos que aos
homossexuais caberiam invariavelmente as escolhas narcísicas e aos heterossexuais caberiam
invariavelmente as escolhas por apoio. Como bem alerta Freud,
“não concluímos que as pessoas se dividem em dois grupos bem diferenciados,
conforme sua escolha de objeto obedeça ao tipo narcísico ou ao “de apoio”.
Preferimos supor, isto sim, que para cada pessoa ficam abertos ambos os caminhos
da escolha de objeto, sendo que um ou outro pode ter preferência. Dizemos que o
ser humano tem originalmente dois objetos sexuais: ele próprio e a mulher que o
cria, e nisso pressupomos o narcisismo primário de todo indivíduo, que
eventualmente pode se expressar de maneira dominante em sua escolha de objeto”
(1914 [2010], p. 32 e 33).
AUTORES PÓS-FREUDIANOS E AS RELAÇÕES OBJETAIS
Muitos foram os autores pós-freudianos que se debruçaram sobre a questão das
relações objetais, dentre os quais gostaríamos de destacar as importantes contribuições de
Melanie Klein e de D. W. Winnicott, por serem representantes de dois grupos distintos em
psicanálise: o dos autores que consideram que o recém-nascido é capaz de reconhecer um
objeto desde o seu nascimento e o dos autores que consideram a existência de uma fase
anobjetal no início da vida de um sujeito em desenvolvimento normal.
Melanie Klein
Melanie Klein foi uma psicanalista austríaca que viveu entre 1882 e 1960 e que se
debruçou em especial a estudar a aplicabilidade da psicanálise a crianças bastante jovens,
ainda em idade pré-edípica. Klein ampliou significativamente a teoria psicanalítica e foi uma
de suas principais expoentes, embora divergisse de Freud em alguns pontos relevantes de sua
teoria. Uma das divergências bastante significativas encontra-se na localização das relações
objetais no desenvolvimento do sujeito: para Klein, não há a fase anobjetal inicial postulada
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por Freud, mas, sim, uma capacidade inata de relacionar-se com objetos, ainda que bastante
primitiva, como veremos a seguir.
Os conceitos kleinianos muitas vezes se referem a elementos muito primitivos da
psique humana e, como bem alertou Melanie Klein (1946), a descrição destes processos tão
primitivos desemboca em uma grande dificuldade porque muitos destes processos se referem
a épocas em que o bebezinho ainda não conseguia pensar com palavras.
Klein postulava a importância para o bebezinho das suas relações com os objetos que
o cercam, e que estes desde o início já eram percebidos de modo diferenciado do ego do bebê,
é isto o que significa que para ela existem relações objetais desde o início da vida.
Segundo Hinshelwood (2004), ao analisar as crianças Melanie Klein descobriu que elas
brincavam com objetos (brinquedos) e que, do ponto de vista das crianças, os brinquedos
estavam vivos, sendo percebidos como amorosos, ameaçadores, patéticos etc. Deste modo,
para ela, na mente das crianças existe uma relação plena e intensa com os objetos (incluindo
aqui os brinquedos) que poderiam sentir, viver e até morrer. Esta descoberta mostra que os
objetos para Klein tinham uma importância muito maior, diferente das descrições de como
Freud os entendia. Com este pensamento ela se contrapôs à ideia de descargas pulsionais
sobre objetos passivos: para ela os objetos seriam telas da vida de fantasia das crianças.
• As primeiras relações objetais
Ao nascer, segundo Klein, o bebê se relaciona com objetos que já se apresentam com
uma distinção primitiva do ego. Assim, para ela, existem relações com os objetos desde o
início da vida. Estas relações seriam o resultado da tendência do bebê para projetar sobre os
objetos suas sensações corporais: assim, os objetos bons seriam aqueles que causam
sensações de prazer e os objetos maus, aqueles que causam frustração.
Dentro da teoria kleiniana podemos falar em algumas qualidades opostas dos objetos:
eles poderiam ser objetos internos ou externos, bons ou maus, parciais ou totais. A seguir
iremos descrever o que se entende por cada um destes conceitos.
• Objeto parcial
Klein compreendeu que o bebezinho tem apenas percepções parciais dos objetos de
seu mundo, devido tanto a sua neurofisiologia, que no início da vida é muito imatura, quanto
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ao seu incipiente desenvolvimento emocional. Por isso, a primeira parte da mãe com a qual o
bebezinho se relaciona é sua capacidade de alimentá-lo, que Klein chamou de seio.
O seio foi então compreendido como o primeiro objeto parcial e, apenas por ser um
objeto parcial, pode ser sentido como um seio bom quando atende as necessidades do bebê
ou, ao contrário, como um seio mau, quando o frustra.
Como explica Hinshelwood (2004) o objeto, no início, é mais simples, emocional e
intencional, isto é, o objeto frustra ou satisfaz. Desta maneira, o seio não pode, no início,
convocar as diversas imagens e significados que terá mais tarde na vida. É um objeto que tem,
sob o ponto de vista do bebê, uma relação muito mais simples com este: toca sua bochecha,
introduz um seio na boca com propósitos bons ou maus. Apesar de ter apenas estas
qualidades ínfimas, esse objeto é completamente real para o bebê. Apesar de serem
chamados de objetos parciais, do ponto de vista do bebê, essa parte (seio bom ou mau) é tudo
o que existe. Ou seja, o bebê entende que a mãe que frustra é um objeto e que a mãe que o
atende é outro.
O bebezinho, com sua primitiva capacidade de ver, ouvir ou sentir tem uma limitada
percepção da fonte real de suas sensações, que se desenvolve com a maturação de seu
sistema nervoso e dos órgãos de percepção de distância (olhos e ouvidos).
A experiência dos objetos parciais se contrapõe a experiência dos objetos totais, cujas
caraterísticas são notavelmente diferentes.
• Objeto total
Esse termo pertence ao trabalho de Karl Abraham sobre “As vicissitudes do objeto e
sua relação com desenvolvimento da libido” (Abraham 1924 apud Hinshelwood, 2004). Klein
ampliou a teoria de Abraham ao incluir os objetos parciais e o amor parcial.
A aptidão de perceber uma pessoa tal como ela é na realidade constitui um avanço
maior do que o simples amadurecimento do aparato perceptual. Com o desenvolvimento
(fisiológico e emocional) o objeto bom, que satisfaz as necessidades do bebê, e o objeto mau,
que o deixa esperando, passam a ser percebidos como pertencendo a mesma pessoa: um
objeto total (Klein, 1935). Mais do que isso: não é só que seja a mesma pessoa, sua presença
física, mas o bebezinho também passa a ter uma capacidade maior de perceber a realidade
emocional do objeto. O objeto total tem sua própria disposição de sentimentos e motivos
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misturados e é suscetível de sofrimento, da mesma maneira que o sujeito. Com a ampliação
do desenvolvimento emocional, o bebê passa a perceber que os objetos não se definem mais
pelos sentimentos e necessidades dele próprio, mas passam a ser mais objetivamente
percebidos: amplia-se a capacidade do bebê de perceber a realidade tal como ela é.
• Objeto bom
Esse termo representa um objeto parcial que atende psiquicamente a sensação de
uma necessidade satisfeita. Podem existir uma pluralidade de objetos bons associados com a
necessidade de uma determinada satisfação e, do mesmo modo, uma pluralidade de objetos
maus. Na realidade, existem muito poucas pessoas na vida do bebê, mas ele os percebe como
uma multidão de objetos porque se apresentam com diferentes aspectos (Klein, 1952). Na
fase mais inicial o objeto bom tem uma grande importância porque sua introjeção constitui a
base da estabilidade do ego. Por sua condição de núcleo do ego, sua perda produz insegurança
extrema.
O objeto bom mais conhecido é o seio bom, que atende as necessidades do bebê, não
o faz esperar, alivia suas angústias. O leite quentinho que chega não é só alimento, mas vem
junto com aconchego, carinho, a sensação de ser compreendido e amado.
• Objeto mau
Na vida inicial o bebê entende as sensações corporais desprazerosas como sendo
provocadas por um objeto mau (com motivos malignos). O objeto mau contrasta com seu
oposto, o objeto bom, que deriva de sensações corporais prazerosas e apresenta motivações
benignas intencionais. Por exemplo, durante a lactância, um objeto frustrador induz a fome
(objeto mau), e é compensado por um objeto que satisfaz, que alivia a fome. Estas concepções
primitivas são indicadas pelos termos seio bom e seio mau. Assim como o seio bom abrange
muito mais do que a simples alimentação, toda forma de frustração - frio, dor, calor excessivo,
barulho excessivo, susto - irá ser interpretada como sendo causada por um seio mau (que
frustra intencionalmente).
No início da vida esses pares de objetos são percebidos estritamente divididos e muito
bem separados. Com o desenvolvimento emocional o bebezinho vai adquirindo percepções
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mais realistas e chega a perceber objetos dotados de características e motivos bons e maus,
misturados.
• Objetos internos
Para Hinshelwood (2004) a concepção kleiniana do termo objetos internos diz respeito
sempre a experiência extremamente primitiva dos objetos internos como algo real, concreto,
localizado fisicamente no interior do eu (do corpo), que tem seus próprios motivos e intenções
com relação ao ego e com relação a outros objetos. Esse modo de vivência de objetos internos
persiste durante todo o desenvolvimento e dura toda a vida: não obstante, se agregam outros
modos superpostos de viver e perceber a realidade. Com o desenvolvimento da
sensorialidade do bebê, há a ampliação da sua capacidade de perceber a realidade ao seu
entorno, o que resulta no que se denomina representações mentais de objetos internos e
externos.
Para exemplificar esse conceito, tomemos por exemplo um bebezinho com fome: suas
sensações corporais produzem uma experiência subjetiva e psicológica. Seu mal-estar é
atribuído à presença de algo malévolo em sua barriguinha, que causa seu sofrimento pela
fome. Neste exemplo, o objeto é sentido como estando dentro do bebê, na barriguinha
portanto, ao que denominamos objeto interno (e mau, neste caso).
Um objeto interno bom acontece quando, ao ter sua fome saciada, o bebezinho sente
que o leite quente proporciona sensações de alívio e bem-estar na sua barriguinha; sente-se
contendo dentro de si um objeto interno bom. A capacidade de conter um objeto bom dentro
de si está associada a sentimentos de ser uma pessoa boa, sendo essa a base da autoestima.
• Objetos externos
É importante ter cuidado com o que se compreende por objeto externo, pois seu
significado varia de acordo com o ponto de vista de cada sujeito. O objeto externo do ponto
de vista de um sujeito pode ser diferente do objeto externo do ponto de vista de um
observador objetivo. Os kleinianos tendem a compreender o objeto externo de acordo com a
percepção que o próprio paciente tem dele. Portanto, a percepção do objeto externo poderá
estar distorcida pelas projeções que o sujeito faz de suas expectativas. Segundo essa
concepção, o sujeito terá uma maior ou menor capacidade de ver o objeto externo tal como
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é na realidade (teste de realidade) de acordo com seu amadurecimento emocional, embora
sempre haja a presença de uma subjetividade nessa percepção.
D. W. Winnicott
Psicanalista e pediatra inglês que viveu entre os anos de 1896 e 1971, Winnicott
integrou o chamado “grupo independente” ou “grupo do meio” na Sociedade Britânica de
Psicanálise (BSP), diferenciando-se tanto do pensamento kleiniano quanto do pensamento
annafreudiano, que dividiam a BSP na época.
Muitas foram as contribuições de Winnicott à teorização acerca das relações objetais
iniciada por Freud. Sua linha de pensamento concorda com os escritos freudianos no que
tange à existência de um período anobjetal no início da vida do bebê, considerando-se um
desenvolvimento normal. Para Winnicott, assim como para Freud, a primeira fase da vida de
um bebê é marcada por uma relação de indiferenciação entre o recém-nascido e a figura
materna (amálgama mãe-bebê). No entanto, para Winnicott, nessa fase inicial é desejável que
o bebê viva a ilusão de que todos os objetos que o satisfazem foram criados por ele próprio,
a partir de suas necessidades. Por exemplo, nesse período inicial o bebê sente que, ao ter
fome, ele próprio cria o seio que o alimenta, a partir de suas próprias necessidades. À mãe
caberia o papel de apresentar o objeto real (seio) no momento exato em que o bebê o cria
imaginativamente, mantendo o bebê nesse estado de ilusão de onipotência durante o tempo
necessário ao seu processo de amadurecimento. A esse objeto que o bebê tem a ilusão de ter
criado e que ainda não é percebido como objeto externo, Winnicott dá o nome de objeto
subjetivo.
Observando bebês, em sua prática clínica, Winnicott notou que por volta dos 4 a 6
meses de idade era bastante comum que o bebê se ligasse a um objeto especial (paninho,
ursinho, franjas de um xale, ponta de um cobertor etc.). Esse uso auxiliava o bebê a tolerar a
ausência física da figura materna e a entrar no estado de relaxamento necessário aos
momentos de sono. A esse objeto Winnicott nomeou objeto transicional e o localizou em
“uma área intermediária de experiência, entre o polegar e o ursinho, ente o erotismo oral e a
verdadeira relação de objeto, entre a atividade criativa primária e a projeção do que já foi
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introjetado” (Winnicott, 1951 [1975], p. 14). O objeto transicional, para o autor, representava
a primeira posse não-eu, ou seja, o primeiro objeto pertencente ao bebê que nem estava
totalmente sob o domínio de sua ilusão de onipotência (não visto como tendo sido criado pelo
próprio bebê), nem pertencia integralmente à realidade objetivamente percebida.
Winnicott destaca que
“é verdade que a ponta do cobertor (ou o que quer que seja) é simbólica de algum
objeto parcial, tal como o seio. No entanto, o importante não é tanto seu valor
simbólico, mas sua realidade. O fato dele não ser o seio (ou a mãe), embora real, é
tão importante quanto o fato de representar o seio (ou a mãe)” (1951 [1975], p. 19).
Para o autor, o objeto transicional pertence à zona intermediária da jornada de
amadurecimento que o bebê trilha, desde o objeto puramente subjetivo até a objetividade
propriamente dita e, apesar de consistir em um período do desenvolvimento maturacional,
nota-se a permanência dessa terceira área da experiência também na vida adulta, no âmbito
das experiências culturais e da vida religiosa, por exemplo (Winnicott, 1959 [1994]).
As experiências transicionais guiam o bebê rumo à percepção do mundo objetivo, onde
a criança conseguirá perceber o objeto da realidade compartilhada como um elemento
separado de si próprio. A essa terceira percepção de objeto, definitivamente amadurecida,
Winnicott nomeia de objeto real. Ao adquirir a capacidade de reconhecer objetos reais a
criança estaria, para o autor, capacitada a fazer relação de uso de objeto, ou seja, de
relacionar-se com os objetos reconhecendo-os tais como eles são, e não como elementos
criados por ele próprio ou como um feixe de projeções suas. Nessa etapa do desenvolvimento
a criança entrará em contato com a ambivalência inerente a todas as relações objetais (o amor
e o ódio que não são excludentes, mas sim concorrentes e intrínsecos a qualquer relação de
objeto amadurecida), com os sentimentos de culpa e as possibilidades de reparação. Trata-se
de uma importante aquisição do processo de amadurecimento individual.
Resumidamente, segundo a teoria winnicottiana, o amadurecimento emocional
saudável passaria pelas relações com objeto subjetivos, objetos transicionais e objetos reais.
Apesar da suposta progressão entre os tipos de relações objetais, o autor reconhece que
características dos três estágios de desenvolvimento permanecem presentes na vida adulta,
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sobretudo nas experiências culturais e religiosas e em momentos de maior fragilidade
emocional, onde recorremos ao controle como substituto da ilusão de onipotência para nos
sentirmos mais seguros diante de adversidades.
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