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Amor e Separação no Direito de Família

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O Amor e a lei

O Processo de Separação no
Tribunal de Família
"Qual é o traumatismo que interessa ao psicanalista, senão o do amor? Sem
dúvida é um paradoxo comparar o amor a um fato violento, mas não é o que
acontece quando aquele a quem o impulso do coração apela é um sedutor que
se esquiva?" (Pommier,1992)

"A sexualidade é sempre traumática."(Lacan,1975).

Aquele a quem amamos diretamente ou pelo avesso, corresponda ao nosso apelo ou dele se esquive,
tem sempre a estrutura de um objeto, pois empresta seu corpo para que nossas fantasias sejam ali
depositadas.

Nas Varas de Família ouvimos o eco das apelações insatisfeitas, os desencontros amorosos causando a
Fernanda O t o n i demanda de uma reparação, esperando que a lei possa colocar-se em boa posição, regular o irregulá¬
de Barros vel.

Psicanalista
Psicóloga Judicial do A frustração conjugal ao criar a demanda jurídica provoca a instituição de uma lei. Os operadores
Tribunal de Justiça do jurídicos são chamados para intervir neste terreno criado pelos artifícios da subjetividade humana, as
Estado de Minas Gerais normas colocam-se na função de regular o caos deflagrado, a objetividade jurídica encontra-se diante
Membro da Associação
Iberoamericana de do muro que a trama subjetiva das relações impõe... "o que não tem governo e nem nunca terá, o que
Psicologia Jurídica não tem juízo. .."(Buarque, 1976)
Em matéria de Direito de Família o mal estar partes litigantes tornam público o testemunho
causado pelo desencontro amoroso, pelo mal de uma experiência íntima, privada.
entendido próprio do litígio conjugal, tem
letras, páginas e nome próprio: processo de Atos e pactos consentidos na experiência da
conjugalidade são oferecidos ao olhar do
separação.
Tribunal causando horror, capturando o Juízo
com argumentos e cenas impactantes, fora da
Trata-se de uma separação... um tempo que
estrutura prevista pela ordem moral e social.
destina-se a perder esse objeto antes adora-
Tais cenas foram, na maioria das vezes, vividas
do, agora degradado, mas que ainda está em e permitidas durante o pacto conjugal, de
cena no teatro das utopias, a serviço da acordo com a estrutura subjetiva, de acordo
alienação, encobrindo o real do desamparo com as tramas simbólicas que enredam o
que toda separação revela. sujeito amoroso em um jeito de amar que
constitui uma situação de amor.
Tramas e dramas tecidos pelos arranjos da
conjugalidade, pelas ficções construídas por As relações expostas sem cobre leitos,
cada cônjuge envolvido no processo judicial desnudas de sua privacidade horrorizam e
atravessam as páginas dos autos processuais sob efeito d'isso precipitam posições defensi-
vas ou paralisantes, cai o ideal de neutralida-
"como se" fossem a expressão da verdade.
de e veremos fantasias em cascatas produzin-
Por outro lado, a pressuposta neutralidade do do a leitura do processo.
juiz na leitura e interpretação do texto da lei,
Capturados pelas ditames das próprias
na análise das provas de cada caso e em toda fantasias, pela lei do particular, teremos como
condução do processo configura-se como instrumento condutor o próprio inconsciente.
mais uma ficção do Direito pois não desconsi-
deramos a interferência da subjetividade do É importante considerar a ambiguidade
jurista na formulação de sua convicção e na peculiar a toda estrutura subjetiva, seus
construção da sentença. arranjos simbólicos, a via de mão dupla pela
qual esta transita, a divisão que ela causa...
Está em dia a frase: Cada cabeça uma
pode ser de um jeito mas também suporta o
sentença.
seu avesso.
O Tribunal de Família é um campo onde a
A Justiça como uma demanda simbólica
ficção desfila. Em Direito de Família, onde a
também padece desses atributos... o que se
questão da moral e da subjetividade colocam- pede quando clama-se por justiça?
se de forma determinante, é grande a
tendência em permitir que valores morais e A Justiça enquanto ideal é uma ficção, cada
pessoais sirvam de tela na interpretação do um tem uma ideia sobre isso... Basta pergun-
tar o que é Justiça que encontraremos uma
comportamento alheio.
infinidade de arranjos simbólicos tentando
Porque o Tribunal de Família torna-se um definir tal conceito que permanece inatingí-
vel enquanto algo objetivável, sendo sempre
terreno fértil para as projeções subjetivas?
na ordem do singular a sua apropriação. O
Dentre as várias possibilidades de responder a sujeito jurídico e a justiça são noções ideológi-
cas e ficcionais.
esta questão, podemos pensar que a cena
apresentada no processo litigioso é aquela
Hans Kelsen já dizia... "a justiça é um bem que
constitutiva da sexualidade humana, em suas se demanda porque não é dada..."(1974)
possíveis e inimagináveis vestes, onde as portanto, para fazer justiça faz-se necessário
operar os dispositivos do direito para fazer deste ato, me desato e encontro nesta carne
valer a justiça possível, ou seja, o texto da leipodre o sem-sentido exato do meu despre-
que todos devem saber. zo... não te amo mais."E a lei sobre este dirá:
És responsável por seu ato, descumpriu o
Perguntaram a Jesus: "Como fazer para ser
projeto da civilização. Para ser cidadão é
bom e só fazer o bem?" Jesus respondeu: Bom
preciso reconhecer a lei da cidade que diz:
só Um o é, portanto deves seguir os manda-
"Deverás amar o próximo como a ti mesmo."
mentos"... o que está no texto da lei, pois nada
pode garantir o bem e o bom... a estrutura
Este recorte ilustra a especificidade da
pode falhar e falha, portanto é necessário
estrutura subjetiva, pois um sujeito nunca se
que haja um texto a seguir, onde haja o
relaciona com outro sujeito e sim com um
exercício da justiça do possível.
objeto, é o reconhecimento da existência do
Se todos amássemos uns aos outros em outro que nos permite perceber que lá onde
harmonia, se esta estrutura fosse infalível, não desejamos um objeto idêntico as nossas
haveria necessidade do mandamento, da lei. fantasias e desejo, insiste a diferença, ou seja,
Há a lei porque esta estrutura manca, pois, o sujeito inapreensível em sua singularidade,
muitas vezes o ódio que advém de um ato inexplicável e que faz mancar a demanda
diferente de nosso desejo nos faz idealizar objetal.
uma sociedade de iguais... arquitetar um
plano diabólico que iria extinguir do mundo Bem... O que fazer da nossa prática, uma vez
tudo aquilo que se encontrasse entre o desejo que no mundo nada está preparado para
e sua realização, uma necessidade de trazer ao homem satisfação, uma vez que o
aniquilar aquilo que é desigual ao ideal... homem não pode formular nenhum princí-
faríamos isto toda vez que o outro nos desse a pio para o seu desejo, uma vez que ele não
medida de nossa frustração... se não houvesse pode tudo dizer...tudo saber e que não existe
lei... se não estivesse escrito em algum lugar nem existirá uma ordem moral ou social que
que poderá haver um retorno desse ato sobre corresponda aos seus anseios, que lhe
nós. garanta felicidade e harmonia?

E só está escrito porque vivemos numa A ética nos aponta que não devemos recuar
civilização e esta é plural e não igual como diante da possibilidade de construção de
desejaríamos que fosse em nossos inconfessá- uma nova posição diante do Outro,
veis sonhos... (que a civilização fosse a
extensão da ditadura do desejo. Um império "A metáfora do laço social significa essencial-
sem limites.) mente, metabolizar e humanizar o discurso do
Outro, assinalando ao poder e aos sujeitos a
Poderíamos escutar a exposição de sua posição no espaço das trocas humanas."
motivos daquele que comete um ato fora (Legendre,1983),portanto um lugar a ser
da lei: inventado em cada caso, espaço da diferen-
ça, um lugar problematizado.
"Não te amo mais, por me traíres, não
encontrar onde procuro o que não há... Por É inegável o entrelaçamento entre Direito de
tanto mato, degrado, roubo, executo neste Família e a estrutura subjetiva das relações:
corpo sem meu gosto a marca do meu gozo. lugar contraditório, onde o instrumento
Mesmo que digam não... é esta a ordem que jurídico é insuficiente para dar conta de se
me invade... vou ao ato pois tenho urgência inserir dentro da objetividade que este
higiênica... de fazer precipitar deste lugar que campo almeja, pois o fenômeno do impasse
me enlouquece um objeto qualquer. E depois litigioso ocorre num terreno onde a antino¬
mia e a ambiguidade são elementos relevan- sua ficção sobre a sua história e em torno d'isso
tes, próprios do campo simbólico, da estrutu- sustenta-se um saber que é transmitido e
ra da ficção. repetido "como se" fosse a verdade, mas é
uma construção absolutamente particular.
Entrelaçamento que abriu a possibilidade de
construção de um campo denominado de "Percebemos que numa situação de litígio
'Psicologia Jurídica', mas que teve num cada parte vem trazendo uma história e que
primeiro momento o entendimento de ser um estas histórias nunca se casam. Há um litígio
lugar pericial... antigamente, (pensamos no para além do conjugal, um litígio estrutural
tempo como lógico), era um lugar que que atravessa os discursos de todos desta
desejava tudo saber sobre o melhor para a organização familiar. Cada um do seu canto,
criança, a família e a convivência familiar tem uma história própria para contar, cada um
adequada aos princípios da moral e da ordem defendendo a sua versão, dos pais aos filhos,
pública... transmissão do mal-entendido que estrutura
todos os discursos. Esta história não é destituí-
Era uma vez... a perícia da de saber, mesmo diante de tantas versões,
ela suporta algo da verdade do sujeito, um
O campo da psicologia jurídica inseriu-se no ponto irredutível."(Otoni de Barros,1997)
ordenamento jurídico, como prova processu-
al. Seu lugar: PERÍCIA. A prova pericial é um A verdade tem sempre estrutura de ficção... já
dispositivo jurídico que auxilia na formação dizia Santo Agostinho... "fictio figura veritatis."
da convicção do Juíz, para que este julgue,
intervenha na vida privada de uma forma que A partir da implicação da psicanálise neste
pode almejar ser educativa, preventiva ou campo gostaria de problematizar a atuação do
punitiva. Para que o Estado determine o que é perito, esta função pericial, perguntando:
o melhor para o indivíduo e para a sociedade. Onde encontrar esta verdade?
O perito deve trazer aos autos um laudo com
argumentos técnicos que esclareça sobre a Se a psicologia jurídica tem como fundamento
verdade do fato posto em questão pelo Juízo. no campo jurídico oferecer a verdade aos
autos, sabemos que esta verdade é sempre
De imediato percebemos que este modelo pelas metades, não é possível apreender toda
servia aos paradigmas de um Estado a verdade do sujeito. Impossível responder à
Intervencionista em oposição a concepção de demanda de dar provas da verdade. Existem
um Estado Plural. Voltaremos a isto mais certas verdades que determinam a vida do
tarde, fica aqui apenas um recorte que aponta sujeito mas que são inconscientes e desta
para a questão ideoló[Link] perpassa a forma inapreensíveis; o sujeito para guardá-
noção de verdade no campo jurídico. las em seu estatuto estruturante se defende
delas e não as revelam, a não ser enquanto
Os processos são literaturas ficcionais, onde tropeços, nas entrelinhas. O que temos acesso
versões distintas tentam provar a sua veracida- é ao saber do sujeito em torno da sua verdade
de, num desejo de tudo dizer sobre a verdade e toda estrutura de saber é ficcional.
do casal. Lugar repleto de a/versões, campo
imaginário e fantasmático, onde o outro é Por outro lado, o sujeito da psicanálise é o
sempre responsável pelo caos deflagrado. sujeito do inconsciente de impossível
apreensão na sua totalidade, pois ele só
A psicanálise nos aponta que a verdade é aparece quando desaparece a razão. Já o
sempre não toda, impossível de ser apreendi- sujeito que o direito aborda é uma noção
da em sua consistência. Não existe uma ideológica: sujeito cartesiano, livre para
verdade única sendo que cada um constrói a discernir entre o bem e o mal, consciente de
seus atos, segundo os paradigmas de uma muitos limites a construção de um diagnósti-
ideologia da ordem pública e moral instituída co sobre estes dados escutados de uma fala
por um Estado Maior. mal dita.

Poderíamos dizer que existe um reconheci- O setting pericial não pode oferecer ao
mento por parte do campo jurídico do sujeito sujeito esse convite a sua aparição, pois
do inconsciente. Ao criar o campo da "psicolo- aquilo que for dito poderá ser lido por seus
gia jurídica" podemos nos atrever em interpre- "piores inimigos" e vir a público. Coisas que o
tar este ato como um reconhecimento de que sujeito guarda mesmo de si.
existe algo no discurso apresentado nos autos
Qual a função de um laudo pericial que
que está fora de ordem, a constatação de um
revela aquilo que ainda está velado, porque
certo caos deflagrando atos insanos ou
foi o resultado de testes, entrevistas, dinâmi-
estranhos a um sujeito consciente de si.
cas, etc...Qual o efeito desta revelação no
campo do sujeito e em suas relações sociais e
A partir dessa constatação solicita-se uma
no próprio campo do direito? Qual é a ética
perícia, esperando que o perito vasculhe a que sustenta esta atuação no campo da
nebulosa alma humana e apresente as provas "psicologia jurídica"?
da verdade mascarada por estes atos insa-
nos... que dê sentido ao sem sentido derrama- "As pessoas envolvidas no processo judicial
do nas páginas processuais. Ou seja, que este perdem num só golpe o saber que construí-
sujeito inconsciente, loucura anunciada nos ram sobre si e a condução da sua história de
processos, seja traduzido ao sujeito cartesia- vida, alienados a um laudo que os revela
no, que o faça constar nos autos, que transfor- numa intimidade desconhecida e submeti-
me em consciente aquilo que é inconsciente, dos a decisão de um outro(Juiz)sobre um ser
traduzindo-o, interpretando os atos do sujeito onde não se reconhece.
para o Juízo.
A posição cartesiana do perito serve, apenas,
É Gerard Pommier quem nos fala da impossi- para garantir a onipotência narcísica do
bilidade de tradução do inconsciente, pois profissional que acredita ser possível
não se encontra em lugar acessível.(1990) responder a demanda jurídica com a verdade
cartesiana. Nada serve ao sujeito pois não
Aquele que vem para uma entrevista nas salas provoca uma retificação subjetiva e nem
do "Setor de Psicologia Jurídica" segue uma serve à Justiça, pois o saber apresentado
como verdade cristalizada é uma "ficção
determinação do Juiz ...querendo ou não ele
psicológica"."(Otoni de Barros, 1997)
tem que se submeter a esta avaliação pericial.

E preciso rever os conceitos e paradigmas,


Este não vem disposto a falar da sua intimida-
para estarmos mais próximos de uma posição
de, mas vem sobretudo falar aquilo que pode
ética. Caso contrário a intervenção no
lhe favorecer para ganhar a sua verdade,
campo jurídico de conceitos psicológicos
advogam em causa própria, dizem o que
operará como um instrumento de alienação
pensam que podem e não falam sobre o que e subordinação do sujeito à um discurso do
acredita ser tropeço. Trazem a escrita da sua mestre, que pretende saber sobre o que é o
versão numa falação ao infinito, por não melhor, a serviço do poder.
querer saber daquilo que é irredutível no
discurso. Pierre Legendre, jurista e psicanalista francês,
já dizia que a grande arma do poder é fazer-
Este depoimento está prejudicado pois o se amar, o amor do censor, amamos aquele
sujeito não está ali numa posição de quem fala que tem o poder e em quem supomos o saber,
de si. A resistência é consciente e isto coloca numa alienação servil.(1983)
O direito na modernidade teve sua estrutura na onde a fratura de sua inconsistência permane-
manutenção deste estado das coisas, que cia encoberta pelos suportes dogmáticos
assegurou, na sociedade contemporânea, as teóricos. "Todos iguais perante a lei", um
mesmas funções e finalidades anteriormente movimento de exclusão da diferença.
sustentadas pelas práticas religiosas.
Qual outro lugar seria possível para a Psicologia
"O que m u d o u foi apenas o envólucro do Jurídica, pensando na reformulação de seus

discurso que, no seu interior, mantém intocável conceitos e paradigmas, dentro da discussão

a relação de autoridade estabelecida para atual de u m estado plural, onde a diferença


esteja incluída em seu projeto e m oposição a
domesticar os homens. O que está em jogo nas
u m estado intervencionista que através de sua
tramas institucionais, c o m o também nos textos
intervenção exerce o controle das demandas
jurídicos, é a produção e a reprodução de u m
sociais para ajustá-las a um projeto ideológico
fazer crer, que não modifica quanto a sua
d o poder?
função de reger, dominar e condicionar o
género humano."(Phillippi,1994)
U m lugar a ser inventado no caso a caso, u m
lugar c o m p r o m e t i d o c o m a ética, u m lugar
O campo da "Psicologia Jurídica" serviu por
mediador, promovendo a possibilidade de
muito t e m p o c o m o u m lugar de onde o sistema
uma operação simbólica, u m deslocamento da
jurídico retirou instrumentos de interpretação
demanda... uma retificação subjetiva, onde
das cenas familiares apresentadas, arraigada e m
ocorra u m processo de separação.
crenças teóricas próprias a cada linha de
pensamento psicológico, produzindo u m corpo A implicação do sujeito no processo de
de provas, que objetivavam a reprodução d o subjetivação conduz o deslocamento da
discurso da o r d e m , submetendo os envolvidos posição alienada da vítima que necessita da
aos ditames deste saber. Neste c a m p o , na proteção intervencionista do Estado para uma
análise das provas apresentadas, ou seja, dos posição responsável de q u e m sustenta na
testes psicológicos, das análises das entrevistas, própria carne a operação de perda que toda
das dinâmicas familiares realizadas, retirava-se ruptura traz e assina c o m sua letra, de próprio
o material necessário para a formulação de uma p u n h o , os termos da separação.
sentença psicológica, vulgo, laudo psicológico,
tendo-se garantido a realização do ritual O que está em discussão não são as técnicas e
processual técnico-psicológico necessário para
formulação da convicção.

Estavamos no registro da legalidade da subjeti¬


vidade, ou seja, legalizar, regulamentar a
subjetividade das relações através de um
documento chamado parecer psicológico,
estudo psicológico, laudo psicológico, c o m o
queiram... u m parecer positivo.

Se no discurso da revolução francesa, "liberda-


de, igualdade e fraternidade" extraimos o
assentamento do pensamento moderno,
extraimos também a face dogmática, utópica e
positivista d o direito e consequentemente da
"psicologia jurídica" trabalhando a serviço de
uma regulamentação das relações e do
comportamento, c o m diagnósticos positivos
dogmas psicológicos ou jurídicos, mas um demanda pela qual se situam em posição de
modelo de sociedade, o lugar do sujeito no serem gratificados ou não pela resposta do
projeto da civilização. outro (...) o estágio segundo da relação dual, na
medida em que se institui o apelo e a resposta,
É Jeanninne Phillippi quem declara uma nova sob o qual se estabelece o nível da frustração.
proposta para a subjetividade, a partir do (...) Aterceira dimensão que lhe dá seu sentido,
estatuto de sujeito: aquela da lei, sob uma forma que sempre está
latente no exercício do jogo.(...) A instituição de
"Na orientação que se trata de articular com o uma lei ou de uma regularidade concebida
universo subjetivo do sujeito as suas implica- como possível... é nesse momento que se
ções simbólicas, desvendam-se lugares pouco estabelece o que está fundamentalmente no
explorados que envolvem a inscrição de seres jogo e que lhe dá seu sentido intersubjetivo,
humanos em mundos que eles próprios terão situando-o numa dimensão não mais dual, e
de ressignificar sem a mediatização de nenhu- sim ternária."(1995)
ma instância superior que lhes retire aquilo que
lhes compete originalmente, isto é, a capacida-
de de construir e reconstruir os caminhos de No Tribunal assistimos ao que antecede a
suas existências."(1994) demanda - a frustração causada pela falta de
objeto... o outro falta ao sujeito para responder
suas fantasias - registra-se sob o nome de
A Clínica no Judicial petição inicial a demanda jurídica, ou seja, a
expressão do litígio, que é uma expectativa de
(A Psicanálise implicada no campo da retificação e recuperação da falta. O próximo
Psicologia Jurídica) passo é aguardar o terceiro tempo, digo, o
Para além da perícia ...a mediação. instituto da lei.

A demanda endereçada ao campo jurídico é O campo da psicologia jurídica deve ser o de


povoada de fantasias e frustrações, estrutura restituir àquele que a procura a dignidade de ser
simbólica da demanda, coisas sobre as quais o autor de sua história, trabalhando no sentido de
jurídico não pode regular, mas que no campo promover uma implicação deste na tecitura
da psicologia jurídica pode e deve haver um discursiva e simbólica que apresenta, desmon-
espaço para retificação subjetiva, ou seja, tando as ficções onde o sujeito se encontrava
operar nesta demanda original um desbasta¬ alienado, originalmente, ao enderaçar à Justiça,
mento que a reduza a uma demanda própria ao este Outro, os desígnios de sua vida.
campo jurídico e que os restos deste recorte
possam ter outro endereço. A função deste novo campo, nesta perspectiva,
seria desbastar a demanda jurídica de seus
Esta é a particularidade da subjetividade excessos fantasmáticos, para reduzi-la ao ponto
que possibilite a realização da função jurídica,
humana. Lacan, em seu Seminário "Relação
ou seja:" a implicação da parte naquilo que ela
de objeto", nos apresenta os tres tempos da
pede ou impede através da demanda. "(Cyro
subjetividade:
Marcos da Silva-O GLOBO, 15/11/97)(12)
"Os três tempos da subjetividade, na medida
Ao campo jurídico restará o que lhe é próprio,
em que esta se realciona com a frustração, sob a
ou seja, a instituição da lei onde esta não está,
condição de se tomar esta última no sentido da
operando um basta na invasão do gozo,
falta de objeto, serão facilmente encontrados
retornando ao cotidiano a necessidade de se
por vocês se refletirem inicialmente na posição
submeter a todo instante a uma dada regulari-
zero do problema, a instituição do símbolo
dade da ordem sobre a desordem.
puro de mais ou menos, presença ou ausência,
que nada mais é que a posição objetivável. (...) Neste trabalho a verdade se reduz à verdade do
O segundo tempo (...) é uma espécie de sujeito e este tem que se responsabilizar pelos
efeitos disto, de não ter provas e as garantias, de
furo do conjugal, com um lugar onde não é
reconhecer a diferença, e desta forma reconhe- possível complemento, tamponamento, mas
cer o Outro. que paradoxalmente é o que possibilita
continuar a desejar. Não existe um culpado
É um trabalho necessário e possível que resgata a
pelo desencontro amoroso, pois o desencontro
responsabilidade do sujeito pelos seus atos, num
já estava lá na singular forma de amar. A
reconhecimento do Outro e do desigual,
extirpando a violência do direito, que ao excluir conjugalidade é um exercício litigioso,
a diferença transforma-se em violento censor. confronto de diferenças, estruturado em torno
da ficção de amor que cada um construiu, de
"Não são necessárias verdades absolutas e valores forma ímpar. Se o amor já não faz laços ou "se o
universais." (Baratta,1994). É possível reconhe- anel que tu me deste era vidro e se quebrou",
cer a existência de um juízo alheio, diferente do uma separação se faz necessária.
nosso ideal de justiça, renunciando a violência Trabalharemos, a psicologia jurídica dentro ou
de um juízo único, sem abandonar o direito. É o fora dos tribunais, no sentido de escutar desta
exercício de uma ética da diferença, ou seja, ficção singular que o sujeito apresenta, como a
temos que seguir o mandamento de amar ao
sua verdade, a formulação de uma saída para o
próximo como a si mesmo, apesar do paradoxo
impasse da conjugalidade. Uma saída sem par.
que este mandamento impõe.
Trata-se de um compromisso ético."(Otoni de
Na distância entre eu e o outro há o espaço da Barros, 1996)
diferença, o limite de nossa convivência se
Muito ainda teremos que inventar, mas o
encontra no reconhecimento de que o próximo
não é um igual e sim diferente, e para conviver- importante é dar o primeiro passo, romper com
mos na cidade, sermos cidadãos é preciso saber estruturas ultrapassadas e nos lançarmos neste
desta medida, para cumprirmos a difícil tarefa de desafio de construir uma prática comprometida
realizar o projeto de civilização. com a ética, onde a cidadania e a diferença
"Se no instante da paixão, uma escultura tenham o seu lugar na construção de uma nova
encobria o furo, fazendo promessas, alianças... aliança, ou seja, um outro modo de enlaçar
No desenlace se trata de um reencontro com o neste mundo as questões do amor e da lei.

Fernanda Otoni de Barros


Rua Espírito Santo, 2727/408 - Lourdes CEP: 30160-032 / Belo Horizonte-MG

Baratta, A. (1994). A Lei e o Ideal Democrático. Conferência Silva, C. M . da. (1997). Defesa d oCidadã[Link] O Globo, Referências
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