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Didática da História em Moçambique

O documento aborda a relação entre História Nova, História Temática e História Local no contexto do ensino de História em Moçambique. Discute a importância de integrar a História Local como método didático para tornar o ensino mais dinâmico e significativo, além de apresentar as características e possibilidades da História Temática. O trabalho visa demonstrar como essas abordagens podem enriquecer o aprendizado e a compreensão histórica dos alunos.
Direitos autorais
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Didática da História em Moçambique

O documento aborda a relação entre História Nova, História Temática e História Local no contexto do ensino de História em Moçambique. Discute a importância de integrar a História Local como método didático para tornar o ensino mais dinâmico e significativo, além de apresentar as características e possibilidades da História Temática. O trabalho visa demonstrar como essas abordagens podem enriquecer o aprendizado e a compreensão histórica dos alunos.
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2

Albertina Nhachengo
Américo Alfredo Muianga
Berta Sebastião Nhabete
Inês Jerónimo Cossa
Josefa João Tavane
Josina Rui Jonas
Lúcia Raimundo
Luciano João
Pedro Alfiafo Matsome
Orlando Joaquim Langa

Tema: História nova e Ensino de História: História temática e História local

Universidade Pedagógica
Maputo
2025
3
4

Albertina Nhachengo
Américo Alfredo Muianga
Berta Sebastião Nhabete
Inês Jerónimo Cossa
Josefa João Tavane
Josina Rui Jonas
Lúcia Raimundo
Luciano João
Pedro Alfiafo Matsome
Orlando Joaquim Langa

Curso de Licenciatura em Ensino de História


4º Ano
Cadeira: Didáctica de História III

Tema: História nova e Ensino de História: História temática e História local

Trabalho de pesquisa a ser apresentado na


Faculdade de Ciências Sociais e Filosóficas, na
Cadeira de Didáctica de História III , para efeitos
de avaliação, sob orientação da docente: Neuza
Monteiro.

Universidade Pedagógica
Maputo
2025
5

Índice
Introdução..............................................................................................................................................4

História Temática...................................................................................................................................5

Características........................................................................................................................................5

História temática no contexto moçambicano..........................................................................................5

Possibilidades didácticas de abordagem da história temática no ensino de história................................6

Conceito, origem e evolução da História nova.......................................................................................7

Aplicação da história nova.....................................................................................................................8

Conceito, origem e evolução da História Local....................................................................................10

O contexto da integração da História Local no Ensino.........................................................................10

O interesse pela pesquisa em História Local........................................................................................12

Objectivos do ensino da História Local................................................................................................14

A importância do ensino da História Local..........................................................................................14

Estratégias Metodológicas para abordagem da História Local.............................................................16

Conclusão.............................................................................................................................................18

Referências Bibliográficas....................................................................................................................19
6

Introdução

O termo “História Nova” ou “Nova História” foi lançado em 1978 por alguns membros do
chamado grupo dos Annales, conforme Guy Bourdé e Hervé Martin. Enquanto proposta teórica,
nasceu, de acordo com Peter Burke, juntamente com a fundação da revista Annales, criada para
“promover uma nova espécie de História”, por isso os historiadores ligados à Nova História são
vistos como herdeiros da Escola dos Annales. No presente trabalho discutimos a historiografia
dessa tendência teórica, seus conceitos, como também sua aplicação prática como teoria para
compreensão histórica.

Dessa maneira, com o intuito de aproximar a História da realidade do aluno, pode se utilizar de
história local como método didático, trazendo assim uma aproximação entre os alunos e os
conteúdos históricos, mesmo àqueles postos nos livros didáticos. Os meios tecnológicos para que
haja essa discussão sobre história local se faz indispensável na medida em que contribuem para
melhor compreensão por parte do aluno, levando imagens, textos, vídeos, articulando sempre as
histórias, “O uso de diferentes fontes e linguagens no ensino de História tem contribuído não só
para ampliar o campo de estudo da disciplina, como também estabelecer um novo conceito de
ensino-aprendizagem, tornando o processo mais dinâmico, significativo e prazeroso”1.

Pretendemos abordar como o ensino de história, a história nova e a história local podem ser
aliados no processo de ensino-aprendizagem. Buscaremos demonstrar como a historiografia local
que vem se tornando um campo crescente dos estudos históricos, pode ser um meio de
aproximação entre a história e os alunos. Constatamos essa importância durante uma experiência
de intervenção em sala de aula, a fim de tornar aula mais lúdica e dinâmica. Desta forma
percebemos que o ensino de história através da história local atrai de forma perceptível atenção
dos alunos, fazendo assim com que haja um bom rendimento da aula. Sendo assim o presente
trabalho visa demonstrar como a história local pode ser um método a ser adicionado no currículo
escolar voltado para o ensino de História.

1
(MEDEIROS; 2005, p.60-61)
7

História Temática

A corrente da História temática é uma abordagem histórica que surgiu no século XX, ela se
diferencia das demais correntes por centrar seu trabalho em temas e problemas históricos mais
amplos, ao invés de se centrar em eventos e personagens.

É a observação sobre os factos históricos, eventos, evoluções, que se dissociam da abordagem


linear e cronológica da História e do próprio eurocentrismo. Nesse contexto, se pega em
diferentes factos e se faz uma discussão, mas sem se afastar da metodologia científica da história.

Essa corrente busca compreensão mais profunda e significativa da história, indo além de simples
descrição de factos e abordando temas como “movimentos sociais, problemas sociais, história da
arte, politica, manifestações culturais e património histórico”.

Características

 Busca por uma compreensão mais profunda das estruturas e processos históricos;
 Analisa as causas dos factos ou eventos e busca pela inserção desses factos em grandes
eventos;
 Despreocupação em relatar factos (historiografia enciclopédica);
 Aborda os conteúdos de maneira inter-disciplinar, já que a história é ciência não é uma
disciplina isolada.
 Defende o estudo amplo sobre a história, o que dá uma compreensão mais ampla da
história, evitando percepções simplificadas.
 Dá ao professor o papel de seleccionar os conteúdos na elaboração de curricula.
 A aprendizagem desses conteúdos é significativa e relevante, já que se aborda conteúdos
de conhecimento geral, o que gera mais debates.

História temática no contexto moçambicano

A história temática no contexto moçambicano pode ser abordada a partir de diversos temas,
como a luta pela independência, a guerra civil, a diversidade cultural e os desafios
socioeconômicos.
8

 Luta pela Independência: Moçambique conquistou sua independência de Portugal em


1975, após uma longa guerra de libertação liderada pela FRELIMO (Frente de
Libertação de Moçambique).
 Guerra Civil: Após a independência, o país enfrentou uma guerra civil entre a
FRELIMO e a RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana), que durou até 1992,
resultando em consequências devastadoras para a população e a infraestrutura.
 Diversidade Cultural: Moçambique é rico em diversidade étnica e cultural, com mais
de 40 grupos étnicos, cada um contribuindo com suas tradições, línguas e práticas.
 Desafios Socio-econômicos: O país enfrenta desafios como a pobreza, a desigualdade
e a necessidade de desenvolvimento econômico, agravados por desastres naturais e
crises políticas.

Possibilidades didácticas de abordagem da história temática no ensino de história.

Várias são as possibilidades de trabalhar com a história tematica na aula de História, podemos
olhar sobretudos para temas ligados a cidadania: diferenças e desigualdades; Cultura e trabalho;
Transporte e comunicação no caminho da globalização; Nações e nacionalismos. Estes temas
podem ser trabalhados ao longo de um semestre/trimestre, um ano, ou de forma mais alongada,
de acordo com o que o professor acreditar ser mais produtivo. Esses eixos temáticos, baseados
em questões pertinentes ao mundo presente, se dividiriam em temas e esses, por sua vez, em
subtemas.

As temáticas devem ser organizadas em torno da problematização de aspectos da existência


social, envolvendo conceitos estruturadores, outros conceitos que os alunos deverão construir ao
longo do processo de ensino ou questões importantes para a sociedade em que vivemos. Os eixos
se dividem em temas e estes, em subtemas que recortam conteúdos programáticos, assuntos ou
estudos de caso, que podem sofrer acréscimo ou subtracção. O importante é perceber, nesses
exemplos, a possibilidade de estudar os conteúdos de forma articulada em torno de uma
problemática determinada, e não de forma linear e fragmentada2.

Porém, trabalhar com temas variados em épocas diversas, de forma comparada e a partir de
diferentes fontes e linguagens, constitui uma escolha pedagógica que pode contribuir de forma
2
(SILVA, 1999)
9

significativa para que os educandos desenvolvam competências e habilidades que lhes permitam
apreender as várias durações temporais nas quais os diferentes sujeitos sociais desenvolveram ou
desenvolvem suas acções, condição básica para que sejam identificadas as semelhanças,
diferenças, mudanças e permanências existentes no processo histórico3.

Conceito, origem e evolução da História nova

O termo “História Nova” ou “Nova História” foi lançado no em 1978 por alguns membros do
chamado grupo dos Annales, conforme Guy Bourdé e Hervé Martin. Segundo Jacques Le Goff,
os historiadores ligados a esse movimento teórico-historiográfico procuraram construir “uma
história do poder sob todos os seus aspectos, nem todos políticos, uma história que inclua
notadamente o simbólico e o imaginário”4 e, ainda, buscaram evitar qualquer determinismo
estrito e privilegiaram explicações plurais das inter-relações dialéticas entre as diversas
instâncias do real, o esclarecimento dos múltiplos códigos que regem a vida social. Dessa forma,
a Nova História, conhecida como a terceira geração dos Annales, se abriria ao diálogo com as
mais diversas ciências: antropologia, sociologia, literatura, geografia, psicologia, entre tantas
outras, além de ampliar seu olhar sobre as fontes.

Uma história-problema, que se resumia no uso de hipóteses explícitas pelo historiador, hipóteses
abertas que serviriam de fio condutor para a pesquisa, articulando todos os seus passos
analíticos”5. Nesse sentido, sem desconsiderar as continuidades entre essa proposta, conforme a
citação,dos “pais fundadores” e da chamada Nova História, Dosse afirmou que a segunda
rompeu com a primeira ao retirar o homem do “horizonte primeiro da cena social do passado” e
abandonar toda a relação dialética passado/presente/futuro e a perspectiva globalizante em
proveito de uma “história em migalhas”6. Assim, em sua visão, teria surgido com o intuito de
fazer uma História total, centrada no homem e suas relações com o meio, a Nova História se
fragmentaria para estudar as mentalidades e imaginários em suas mais variadas estruturas e
temporalidades.

3
(HENTZ, 2015)
4
(LE GOFF, 1998, p. 8)
5
(DOSSE, 1992, p. 9)
6
(DOSSE, 1992, p. 11)
10

Desde seu nascimento, a Escola dos Annales e sua herdeira Nova História não apenas se
dividiram em gerações, mas também em tendências. Em sua primeira fase investiu nos estudos
dos fenômenos de longa duração, manifestações religiosas e na biografia (de forma a estabelecer
a relação indivíduo-coletividade); na “Era Braudel”, nos estudos econômicos, demográficos,
principalmente os quantitativos e seriais (como na história dos preços); no florescer da História
das Mentalidades buscou inserir os “excluídos” na história e assim abriu-se para as tendências da
história das religiões, de gênero, da vida privada, da sexualidade, da loucura, e acabou por
fragmentar-se em nome dessa nova tendência: as mentalidades; em sua última (até agora) fase
encontramos a Nova História Cultural, que tende centrar-se nos estudos culturais das massas
anônimas, das questões populares e que, através de sua proposta de análise micro-histórica,
acabou se voltando para o modelo febvriano, olhar ao indivíduo como representante de uma
coletividade.

Dentro de tantas e variadas tendências, alguns pontos são comuns, assim podemos entender as
continuidades entre essas quatro fases, que são a preocupação com a noção de tempo em “longa
duração” e a diversificação das fontes para estudo da História, com a inserção de documentos
antes desacreditados, como: obras de literatura, documentos pessoais, monumentos, etc.7

Aplicação da história nova

 Em seu método é preciso termos em mente que a proposta central é analisar de forma
quantitativa as questões culturais da História. Para tanto, elegeu alguns princípios:
 Aparelhagem mental ou mentalidades é aquilo que muda mais lentamente no tempo
(por mais que a quarta geração recuse esse conceito, ao aplicar o conceito de cultura
se aproxima muito dessa definição).
 Utiliza-se de todo e qualquer documento – tudo é fonte.

7
Já nos disse Jacques Le Goff: “Tudo é fonte para o historiador das mentalidades” (1976, p. 75)
11

 Privilegia as fontes que conduzem à psicologia coletiva das sociedades (como


documentos literários e artísticos, próprios do imaginário, o que lhe permite
quantificar as manifestações).
 Centra-se no estudos dos “gestos maquinais”, hábitos que vêm de longe e que
testemunham “em favor da extensa repercussão dos sistemas de pensamento”8.
 Seu interesse centra-se em alguns fenômenos essenciais: as heranças, as perdas, as
rupturas, a tradição, sempre com o intuito de perceber os processos de longa duração.
 A partir desses princípios, a terceira geração dos Annales definiu alguns passos
metodológicos a serem seguidos:
 Fazer o inventário das fontes;
 Analisar os locais de produção das fontes inventariadas;
 Analisar os meios de produção dessas fontes;
 Compreender e estudar o vocabulário empregado, seus significados no momento de
produção do documento;
 Perceber a sintaxe dos termos, seus lugares-comuns;
 Analisar as concepções de tempo e espaço presentes no discurso documental, seus
quadros lógicos;
 Traçar as relações entre textualidade e intertextualidade, ou seja, texto e contexto.
 Analisar as heranças culturais das fontes;
 As possíveis estratificações sociais de seu tempo;
 Precisar com clareza o período estudado e no qual se inserem as fontes.

O método proposto pela geração das mentalidades apresenta-se de forma geral ao historiador,
que acaba por ficar livre para aliar-se a outros métodos mais precisos, como são os casos
relativos a trabalhos em história oral (entrevistas), imprensa (análise de conteúdo), música,
gênero, pesquisas de opinião, econômica, demográfica, entre tantas outras tendências. No
entanto, o mais importante nessa longa trajetória analítica que traçamos neste ensaio é
percebermos que entre todas as “gerações” do movimento dos Annales existiu um ponto comum

8
(LE GOFF, 1976, p. 72)
12

– sua visão teórica. Imersos em um tempo no qual as visões teóricas se dividiam entre o
materialismo economicista, o idealismo hegeliano e o historicismo metódico, os annalistes
defenderam que a interpretação dos fenômenos deve sempre partir do princípio de que os
homens fazem a história e sua consciência é fruto da ação do tempo e das mentalidades formadas
em grandes estruturas sociais, econômicas e religiosas e não apenas pela interferência da
materialidade; não são as idéias que fazem o homem, ou sua relação com o trabalho, e também
ele não é um agente hegemônico. O homem é ator e roteirista da história, ele a escreve, mas
recebe do tempo heranças de padrões sociais, costumes, crenças e hábitos sobre os quais não age,
é influenciado, sem ao menos saber sua origem.

Conceito, origem e evolução da História Local

A História local, segundo Goubert (1988), é aquela que diz respeito a uma ou poucas aldeias, a
uma cidade pequena ou média (um grande porto ou uma capital estão além do âmbito local) ou a
uma área geográfica que não seja maior do que a unidade provincial comum (como um country
inglês, um contado italiano, uma land alemã, um pays, em francês). Por seu turno Horn e
Germinari (2010, p. 118), referem que a história local é aquela que desenvolve análise de
pequenos e médios municípios, ou de áreas geográficas limitadas e não muito extensas”.

Toledo também dá seu contributo quanto ao conceito de história local. O autor entende a história
local como uma modalidade de estudos históricos que, ao operar em diferentes escalas de
análises, contribui para a construção de processos interpretativos sobre as diferentes formas de
como os actores sociais se constituem historicamente. Ou seja, interessa-se pelos modos de viver,
colectivos e individuais, dos sujeitos e grupos sociais situados em espaços que são
colectivamente construídos e representados, na contemporaneidade, pelo poder político e
económico, sob a estrutura de ‘bairros’ e ‘cidades’ 9. Barros partilha da mesma opinião com
Toledo que vê a história local como:

Uma modalidade de estudos históricos que contribuiu para a construção dos processos
interpretativos sobre as formas como os actores sociais se constituem historicamente em seus

9
(Toledo, 2010, p. 751)
13

modos de viver, situados em espaços que são socialmente construídos e repensados pelo poder
político e econômico na forma estrutural de bairros e cidade (Barros, 2013, p. 21).

Barros acrescenta que a mesma (História Local) trata de assuntos referentes a uma determinada
região, município, cidade, distrito, localidade. Apesar de estar relacionada a uma história global,
a história local se caracteriza pela valorização dos particulares, das diversidades; ela é um ponto
de partida para a formação de uma identidade regional e local.

O contexto da integração da História Local no Ensino

É importante ressaltar que durante muito tempo o ensino de história não deu relevo as vivências
dos estudantes e, muito menos, promoveu a valorização de outros sujeitos nas construções das
histórias e isso, certamente, configurou um dos reforços – que permeiam a História do ensino de
história – de que a disciplina é algo demasiadamente abstrato e, porque não, sem valor para a
vida prática dos educandos. Uma narrativa linear de fatos seletos, marcada por personagens e
acontecimentos simbólicos, com causa e consequência e sem relações de utilidade na vida
cotidiana dos alunos, foi o que predominou nas aulas de História, como ratifica Laville (1999).

A história local tem se mostrado necessária por oferecer esse contraponto, por viabilizar o
entendimento do entorno do discente e por articular o passado e o presente nos vários espaços
onde esse indivíduo frequenta, como por exemplo, escola, casa, cidade, trabalho e etc., e por
situá-lo nas problemáticas do momento.

Concatenando com os propósitos da história local na contemporaneidade, observa-se que na


proximidade, na vivência cotidiana e nos espaços onde o sujeito tem, no mínimo, uma leve
identificação com o lugar, se torna mais aprazível fazer relações, ou seja, partindo de um aporte
entre o que se vive, instiga-se o intervir e, assim, a ações de maneira mais espontâneas que vão
sendo amadurecidas ao longo do tempo – pensamento crítico.

A integração da História Local no Ensino acontece numa altura em que vivemos num mundo
globalizado onde somos obrigados a pertencer à aldeia global, mas mesmo tempo devemos
exaltar a nossa identidade cultural através da preservação da cultura e história moçambicanas. A
pertinência da história local reside pelo facto de esta constituir um dos elementos fundamentais
14

para a reivindicação e o resgate da cultura, história e identidade locais dos povos cujas suas
manifestações culturais, históricas são marginalizadas. A história local valoriza a diversidade
cultural e histórica dos povos colocando em causa a ideia da formação da civilização universal
através do fenómeno da globalização.

A integração da história local nos programas curriculares do ensino básico, na disciplina de


história deveu-se aos seguintes factores:

 A necessidade de ajustar os conteúdos à realidade concreta do aluno;


 O desfasamento da acção educativa relativamente à cultura e tradições culturais que influi no
valor atribuído pelas comunidades à escola e na consequente retenção escolar10;
 O facto de o currículo anterior ser demasiado rígido e prescritivo, deixando pouca margem de
adaptação a nível regional e local, para além de que maior parte dos conteúdos ensinados aos
alunos terem uma relevância praticamente insignificante para os alunos11;
 A necessidade do envolvimento efectivo das comunidades do processo de ensino e
aprendizagem visando garantir o acesso e a retenção dos jovens na escola, em particular
raparigas;
 A necessidade de tornar a escola num espaço de interacção entre as culturas das comunidades
e os novos paradigmas da cientificidade12.

O interesse pela pesquisa em História Local

Apesar de se tornar uma prática muito difundida recentemente, as pesquisas em História Local
são uma prática antiga do ocidente que começou com a história das famílias, dos feudos,
passando para as províncias, as paróquias, os condados. Segundo Goubert (1992, p. 46), antes do
século XVIII, como a locomoção humana era mais lenta, e mais difícil, a grande preocupação
que perpassava a cabeça desses homens e mulheres era sua circunvizinhança, daí o motivo de
privilegiarem a História Local. A grande preocupação era compreender melhor a sua pequena
vila para dela se usufruir da melhor maneira possível. Neste período, a História Local
apresentava algumas características com algumas semelhanças à história positivista no tocante
10
(Conceição, R. et all, 1998, p.14)
11
(PCEB, 2008, p.15)
12
(PCEB, 2008, p. 13)
15

aos sujeitos históricos, ao privilegiar determinados indivíduos em detrimento de outros. Para


enfatizar este ponto recorremos a Goubert quando refere que as discussões sobre a História Local
não passava de hagiografias, isto é, endeusamento de determinados indivíduos, por meio de
biografias, com o propósito de eternizar, quiçá imortalizar algum nome, ou mesmo grande
homem. Se o espaço restrito, a lenta e a difícil deslocação das pessoas contribuiu para
desenvolvimento de pesquisas sobre a História Local, a revolução industrial tornou fácil e mais
flexível a circulação de pessoas e ideias, contribuindo para o descenso da História Local
associada também a emergência do positivismo.

O regresso a História Local deve-se a necessidade de sustentar a tese segundo a qual uma história
séria deveria se respaldar na precisão dos factos. É neste contexto que a História Local passa a
ser vista com novos olhos, uma vez que, factos precisos devem ter uma dimensão espacial e
temporal bem próximos. Assim, o pesquisador começa a se preocupar com as proximidades do
seu objecto de estudo e, neste sentido, a cidade ganha novas luzes e o local mais espaço.

Para o caso moçambicano, dado que os conteúdos dos livros didácticos eram caracterizados por
abordagens generalistas, isto é, que não consideravam a diversidade cultural, implicando numa
exclusão cultural, a História Local veio a colmatar, pelo menos intencionalmente, esta ausência
da diversidade cultural nos livros didácticos. De facto, segundo Lima, (2001), citado por
Ferrasoli, (2013) as obras elaboradas de forma genérica, desconsideram as especificidades de
cada região, as diversidades étnicas, geográficas, históricas, culturais e tantas outras
heterogeneidades. Nesse quadro, as abordagens genéricas dos livros didácticos em particular, os
de história, têm impacto negativo para o aluno.

Como refere Freitas (1993, p. 131) os currículos genéricos e monoculturais negam, ao aluno, a
compreensão da história do município, da localidade na qual está inserido, impede a
possibilidade de reflexão sobre o que acontece no espaço da sua vivência e omite os aspectos
políticos, sociais e culturais do seu entorno. É neste contexto que surge a preocupação pela
abordagem da História Local nos currículos escolares na disciplina de história, pois abre
possibilidades ainda inexploradas para aprender a construção do ser cidadão e o resgate da
identidade13. Ademais, constitui um princípio metodológico que encontra a sua validade ao

13
(Ferrasoli, 2013)
16

atender os pressupostos da construção de um conhecimento que interage com um saber que se


torna significativo e consciente, constituindo-se em sua relevância social. Também designada
como a História do lugar, ela aproxima-se do seu quotidiano, na sua família e dos seus
companheiros para a compreensão de si mesmo como sujeito histórico, agente do seu fazer e do
viver. A História Local tem um carácter formativo ao situar o aluno no seu contexto de
vivência14. Fabregat (1991) é de opinião de que a história local leva o aluno a estudar primeiro a
evolução histórica da sua comunidade, conhecer a organização material, as actividades
económicas, culturais da mesma. A se enveredar por esta via em Moçambique, acabará com a
tendência dos programas curriculares de ensino de história que dão maior ênfase a abordagem de
temas de história nacional, de África e universal em detrimento da história local.

Objectivos do ensino da História Local

Entre os objectivos do ensino de história local destaca-se a importância do aluno em conhecer e


aprender a valorizar “o património histórico da sua localidade, de seu país e do mundo” 15. Por
seu turno, Silva (sd, p. 387) refere que a finalidade do ensino da história local visa:

A sensibilização dos alunos para a importância dos problemas do meio onde a escola se insere.
Propõe a integração de conhecimentos veiculados pela chamada escola paralela, bem como
recomendar a sensibilização dos alunos para a preservação dos valores da identidade local, no
contexto da unidade nacional.

O INDE (2007) refere que o ensino da história local visa educar os indivíduos para
desenvolverem valores e atitudes positivas da sociedade em que vivem; no respeito pelo
próximo; valorização das experiências locais no Processo de Ensino e Aprendizagem,
articulando os conteúdos propostos nos programas de ensino com a realidade local.

A importância do ensino da História Local

Quanto à importância, a história local ajuda a satisfazer as necessidades locais e alimenta a


história geral. Mendes (2000) citando Oliveira Martins, refere que:
14
(Gasparello, 2001, p. 89)
15
(Schimidt; Cainelli, 2004, p. 114)
17

A história local é importante, não só pelo seu valor cognitivo como também afectivo e patriótico.
Segundo o autor, os subsídios principais para a história geral de um país consiste nas
monografias locais, onde se estuda a arqueologia e a história, as biografias e as tradições, com os
documentos à vista e à mão os arquivos municipais e particulares. Um corpo de monografias
destas, relativas aos principais concelhos do reino, formaria um tesouro de inestimável valor para
o estudioso; ao mesmo tempo que serviria para arraigar nas localidades esse amor da terra, base
natural e necessária do sentimento mais abstracto a que se chama patriotismo. O autor acrescenta
ainda: «O estudo monográfico das localidades ministra ao saber geral subsídios da maior valia, e
além de fixar e esclarecer as tradições, afervorando o amor da terra, é também um estímulo e um
incentivo para a descentralização (a nível político administrativo). Oliveira Martins salienta as
diversas potencialidades da história local, em termos científicos (contributo para a história geral),
patrióticos (reforço da identidade, amor à localidade e à pátria) e político-administrativos (ao
favorecer a descentralização e, consequentemente, ao limitar os efeitos nocivos da centralização).

A importância da história local está na história elaborada com base nas realidades particulares
dos locais, trabalhando com a diferença, com a multiplicidade, apresentando o que há de
concreto na dinâmica social e no quotidiano das pessoas que viveram longe dos grandes
centros16.

O ensino da História local pode desempenhar um papel importante na configuração da identidade


ao incorporar a reflexão sobre o indivíduo nas suas relações pessoais com o grupo de convívio,
suas afectividades, sua participação no colectivo e suas atitudes de compromisso com classes,
grupos sociais, culturais, valores e com gerações passadas e futuras17.

É a partir do local que o aluno começa a construir sua identidade e a se tornar membro activo da
sociedade civil, no sentido de que faz prevalecer seu direito de acesso aos bens culturais,
representados aqui pelo património histórico cultural, tanto em sua forma material ou imaterial.
Assim, o entendimento da importância desse patrimônio faz-se presente no estudo da História
Local, que pode e deve ser estimulado nas escolas.

16
(Silva e Nogueira, 2010, p. 233)
17
(Barros, 2013, p. 6).
18

História local permite ao educando perceber-se como sendo parte integrante da história, não
simples espectador do ensino desta, mas objecto e sujeito, construtor de factos e acontecimentos
que não lineares, mas permeados de descontinuidade própria do processo histórico. A história
local pode ajudar educandos compreender o seu entorno, identificando o passado e o presente
nos espaços onde vivem, pode contribuir para a construção de uma história mais plural, que não
silencie as diferentes realidades. O estudo da história local pode ser feito por meios de fontes,
escritas, iconográficas, orais, e também por meios de documentos contemporâneos.

Enquanto estratégia de aprendizagem, a história local, pode garantir o domínio do conhecimento


histórico. Seu trabalho no ensino possibilita a construção de uma história plural, que não silencie
a multiplicidade das realidades. Para ensinar história a partir da experiência de vida do aluno, é
necessária uma perspectiva teórico- metodológica que fale da vida das pessoas, das memórias e
lembranças dos sujeitos de todos segmentos sociais. È preciso dar voz à história desses sugeitos
que sempre estiveram excluídos dos conteúdos ensinados. O trabalho com a história local no
ensino da história facilita, também, a construção de problematização, a apresentação de várias
historias lidas com base em distintos sujeitos da história, bem como de histórias que forem
silenciadas, isto é, que não foram institucionalizadas sob a forma de conhecimento histórico.
Ademais, esse trabalho pode favorecer a recuperação de experiências individuais e colectivas do
aluno, fazendo -o vê-las como constitutivas de uma realidade histórica mais ampla e produzindo
um conhecimento que, ao ser analisado e retrabalhado, contribui para a construção de sua
consciência histórica.

Como elemento constitution da transposição didactica do saber histórico para saber escolar a
história local pode ser vista como estratégia Pedagógica, trata-se de uma forma de abordar a
aprendizagem, a construção e compreensão do conhecimento histórico com propsiçōes que
podem ser articuladas com os interesses do aluno, dias aproximaçōes, cognitivas, suas
experiências culturais e com a possibilidade de desenvolver actividades directamente vinculadas
à vida quotidiana.
19

Estratégias Metodológicas para abordagem da História Local

Na nossa opinião e em função do que constatamos durante a observação, sugerimos a elaboração,


pelos alunos, da árvore genealógica descrevendo os nomes e a história da sua própria família
com ajuda dos pais e encarregados de educação, pode constituir o primeiro caminho para
aprender a história. Tendo em conta que o objectivo da história local é ensinar a história partindo
da realidade mais próxima do aluno, a narração da história da família através da descrição da
árvore genealógica, pode estimular os alunos o gosto pela história, por constituir a realidade mais
próxima do aluno seguida da escola e da comunidade em torno dela. A abordagem sobre a
história da escola, quer pelos professores ou pelos membros da comunidade é crucial para a
compreensão da realidade mais próxima pelos alunos na medida em que vão conhecer a biografia
da própria escola.

Com o ensino da história local, a escola ajuda a transmitir a herança histórica e cultural que a
comunidade considera relevante para a educação dos seus membros, as novas gerações em
particular. Ao reconhecer o seu passado, as suas crenças, comportamento e modos de vida da
comunidade a que pertence, o aluno estará a se identificar com os traços culturais e com a
história desta comunidade formando-se assim, a identidade cultural. O ensino da história local é
importante para a formação da identidade cultural na medida em que os conteúdos que ela
transmite aos alunos são seleccionados no seio da própria comunidade, identificam-se com eles;
ajuda os alunos a compreenderem a história e a cultura local onde ele e a escola estão inseridos.

De acordo com Neves (1997, pág.7), "[...] a construção do conhecimento a partir da vivência,
portanto, do local e do presente, é melhor a forma de superior falsa dicotomia entre a produção e
a transmissão, entre pesquisa e o ensino, divilgação, enfim, entre o saber e o fazer.

A história local no ensino não deve ser tratada apenas como um conteúdo a ser ensinado, mas
constituir-se em uma estratégia Pedagógica que trate metodologicamente os conteúdos a partir da
realidade local. Ela deve ser escrita a partir das novas fontes: a Identificação das edificações
antigas, do traçado ruas, da memória dos mais antigos das mudanças do quotidiana urbano que
só pode ser observada pelos olhares mais antentos ou orientados. Seu estudo constitui o ponto de
partida de aprendizagem histórica, uma vez que permite a abordagem constituintes mais
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próximos em que se inserem as relações Sociais entre os Professores, os estudantes e o meio.


Nessa perspectiva, o ensino-aprendizagem da história local configura-se como um espaço-tempo
de reflexão critica acerca da [Link] e, sobretudo, referência para o processo de
construção das [Link] sujeitos e de seus grupos pertença. A história do lugar como
objecto de estudo ganha, necessariamente, contornos temporais e espaciais. Não se trata,
portanto, ao se proprem conteúdos eacolares da história local, de entendê-los apenas na história
do presente ou de determinado passado, mas de procurar Identificar a dinâmica das
transformaçōes do espaço e articular esse processo às relações externas, a outros lugares

Conclusão

Este trabalho demonstrou ser fundamental que o ensino de história incorpore em seu conteúdo
metodologias, que possam inserir em sala de aula o quotidiano dos alunos sobre a importância de
uma história local que valorize suas memórias.

Os autores citados reforçam a valorização desses temáticas que favoreçam uma compreensão
dialógica sobre o papel do ensino de história e sua reconstrução das identidades histórica
colectivas e individuais. Devemos valorizar a memória dos sujeitos históricos que constroem
suas histórias diariamente, pois o ensino de história local permite que possamos dar vozes à
aqueles autores que estiveram marginalizados pela história oficial. O ensino de história tem
como principal pressuposto formar cidadãos que possam ser críticas com a realidade na qual
estão inseridos devido ao facto de que seus conceitos e conteúdos possam fazer com que os
alunos debatem sobre o que está acontecendo não somente sobre o passado, mas também sobre o
presente.

Podemos perceber ainda que o ensino de história e a história local, podem constituir o método
didático de ensino-aprendizagem. Dessa maneira vale ressaltar que os professores podem utilizar
desse método como forma de aproximar os alunos do ensino e também por estabelecer uma certa
conexão entre a localidade de vivências desses alunos e a história da mesma.

Podemos concluir também que a história local vem tomando grande proporção nas pesquisas
acadêmicas, o que contribui para a realização destas aulas com auxílio de história local, pois um
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ponto importante é que tenhamos essa percepção de buscar tornar os estudos acadêmicos
compreensíveis para os diversos níveis da sociedade. Como já abordamos durante o texto, o
ensino de história local contribui para diversos fatores como valorização da cultura local, do
patrimônio e contribui para a construção de identidade do indivíduo.

É necessário, portanto, que tenhamos essa compreensão da importância de fazer o diálogo entre o
ensino de história e história local, mesmo tendo suas problemáticas e seus cuidados, como ocorre
em todas as áreas, fazendo-se importante na medida que contribui de forma significante no
desenvolvimento do ensino.

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