UNIVERSIDADE LICUNGO
FACULDADE DE LETRAS E HUMANIDADES
CURSO DE AGRO-PECUÁRIA
Ângelo Marques Namutete
Actividades Pecuários e a sua Relação com o Clima
Quelimane
2022
Ângelo Marques Namutete
Actividades Pecuários e a sua Relação com o Clima
Trabalho de pesquisa a ser
apresentado na cadeira de MEIC,
recomendado pelo:
Docente: Dr. Sérgio Augusto
Quelimane
Índice
Introdução...................................................................................................................................3
1. Impacto das Mudanças Climáticas na Agro-pecuária.............................................................4
1.1. Importância da Pecuária e seus Impactos Ambientais.........................................................5
1.2. Impactos Ambientais decorrentes da Pecuária....................................................................6
Conclusão....................................................................................................................................9
Referências Bibliográficas........................................................................................................10
2
Introdução
Moçambique é vulnerável às mudanças climáticas devido a sua localização geográfica,
zona de convergência inter-tropical e a jusante de bacias hidrográficas partilhadas (MICOA,
2012). De acordo com Brito (2014), Moçambique é o terceiro país mais afectado pelos
desastres naturais em África, e é o segundo mais vulnerável a eventos extremos na África
Austral, como secas, cheias e ciclones tropicais, podendo esperar mudanças nos padrões
sazonais de precipitação frequência, intensidade, abrangência, duração e período de
ocorrência.
Os efeitos das Mudanças Climáticas (MC) inclui ainda efeitos económicos negativos
devido a recessão económica em virtude da baixa produção agrícola.
Por outro lado, a agricultura é uma actividade que depende directamente do clima e das
alterações nesse componente podem ter sérios reflexos sociais e económicos. Os impactos das
mudanças climáticas podem se constituir numa séria ameaça para a agricultura, por colocar
em risco a preservação dos sistemas agrícolas actuais.
Apesar do impacto da mudança do clima no conjunto do sector agrícola, os agricultores
familiares são os agentes mais vulneráveis e precisarão de mais suporte para se adaptar. O
sector agrário em Moçambique é constituído essencialmente pelo sector familiar, que pratica
uma agricultura de subsistência, sendo que nas zonas rurais a agricultura familiar é constituída
essencialmente por pequenas explorações (aquelas que cultivam menos de 5ha) ocupando
mais de 95% da área cultivada do país.
Esta situação, exige dos agricultores que desenvolvam formas de se adaptar às mudanças
climáticas baseadas no seu conhecimento local e tradicional. Contudo, esta situação pode ser
minimizada ou ate revestida através do saber local que as comunidades detém, pois este saber
ou conhecimento desempenha um papel importante para a sobrevivência das comunidades,
alem do mais a inclusão do saber local faz com que as comunidades se sintam parte integrante
em projectos que visam trazer acções e medidas para minorar os danos sofridos com as MC
3
1. Impacto das Mudanças Climáticas na Agro-pecuária
A agricultura é uma actividade amplamente dependente de factores climáticos, cujas
alterações podem afectar a produtividade e o maneio das culturas, dai que vários estudos vem
sendo desenvolvidos no mundo e em Moçambique visando avaliar o impacto das mudanças
climáticas sobre a produção agrícola, uma vez que esta afecta a fisiologia das plantas, à
disponibilidade de água, a fertilidade dos solos, a erosão, a dinâmica de pragas e doenças, a
salinização dos solos, além de outros aspectos, podem ser directamente afectados por estas
mudanças.
Neste sentido haverá perdas no rendimento e pode haver migração de culturas de uma
região para outra (BM, 2013). A redução da precipitação e aumento da temperatura estão a
afectar os sectores de recursos agrícolas e naturais com sérias implicações na produção de
alimentos, nos rendimentos e nos serviços ecossistémicos (alimentos, combustível lenhoso,
medicamentos, madeira, fibra, recursos genéticos, regulação da água, regulação do clima,
regulação de doenças, controlo da erosão, recreação e ecoturismo).
As projecções também indicam que as mudanças climáticas, se não forem abordadas,
reduzirão ainda mais a produtividade agrícola decorrente da deterioração do ambiente de
produção, e como consequência os países dependem altamente da agricultura e com grande
parte da população em situação de insegurança alimentar (Pritchard & Amthor, 2005).
Entretanto, a seca afecta a agricultura porque uma grande porção de terras agrícolas é
irrigada pela chuva e com as mudanças climáticas a precipitação tem sido baixa, irregular e
com início tardio e término precoce (MICOA, 2005). As inundações e cheias afectam a
agricultura porque uma porção significativa de terras está dentro das bacias hidrográficas
internacionais partilhadas que são propensas às inundações, causando problemas humanitários
imediatos, elas abrandam o crescimento económico a longo termo.
Os impactos na economia local e nacional incluem a redução do rendimento familiar,
redução da actividade económica, redução da produção agrícola, inflação desemprego e a
redução do rendimento nacional, nota-se que, a perda de culturas em cheias intensas resulta
tanto de "afogamento" por falta de oxigénio nas plantas ou de as culturas serem varridas pelas
correntes de água. Para além disso, poderão ocorrer igualmente algumas perdas de reservas
alimentares nas áreas submersas - cereais e outros produtos correrem o risco de
apodrecimento mesmo que tenham permanecido na água por pouco tempo (EMBRAPA,
4
2011). Os outros impactos das cheias incluem a perda de animais por afogamento, perda do
rendimento ou equipamento e infra-estrutura agrícola. Além disso, o esforço de alívio e
reconstrução sobrepõe-se aos programas de desenvolvimento na alocação dos fundos
disponíveis (MICOA, 2005).
Neste contexto, de acordo com o INGC (2009) citado por Recha & Chiulele (2017), os
impactos previstos das mudanças climáticas sobre as principais culturas de Moçambique
incluem:
O aumento da temperatura resultará numa redução dos rendimentos das culturas, tais
como milho, algodão, amendoim, sorgo e soja;
Consequências negativas para segurança alimentar e rendimento familiar devido à
redução do rendimento da maioria das culturas.
1.1. Importância da Pecuária e seus Impactos Ambientais
Os sectores pecuários, assim como todas as actividades, são geradores de resíduos, e
potencialmente produtores de impactos ambientais. Para Cunha e Guerra (2009), as áreas
rurais são as que mais afectam o meio ambiente, devido à ocupação de grandes extensões de
áreas para práticas da actividade agro-pecuária.
Devido ao custo elevado para a recuperação das áreas degradadas, a mesma não ocorre e
as terras ficam abandonadas por tempo indeterminado.
Derisio (2007), afirma que a poluição desencadeada pela actividade agro-pecuária é feita
através dos defensivos agrícolas, de fertilizantes, de excrementos de animais e de erosões.
Além desse tipo de poluição, existem ainda aqueles que ocorrem por motivos acidentais,
que além de prejudicar o solo, também afecta a água.
Tendo em vista que a pecuária representa cerca de 20% do total da biomassa animal
terrestre, ela pode ser considerada uma das responsáveis pela redução da biodiversidade, já
que é o grande motor do desmatamento causado pela expansão das pastagens. (Souza, 2010).
Não obstante as plantas comporem parte dos ecossistemas e serem factores decisivos
para a conservação do meio ambiente, métodos de manutenção inadequados, geralmente não
causam impactos positivos para o meio ambiente, no qual a actividade está inserida.
5
Dentre os principais impactos negativos, podemos citar: redução da biodiversidade de
espécies; erosão, compactação, redução da fertilidade dos solos, com salinização e
desertificação de áreas; contaminação dos solos, ar, água, fauna e flora por agro-tóxicos e
fertilizantes; poluição do ar por fumaça e material particulado, devido às queimadas; aumento
da velocidade do vento, devido ao desmatamento (Leite et al., 2011).
A pecuária é de suma importância para o país, principalmente por sua participação na
economia do Moçambique, no entanto, há muitos aspectos negativos gerados por esta
actividade, como a degradação e a poluição dos solos e da água.
Assim podendo ser repensada de forma a conciliar o meio ambiente com o
desenvolvimento económico.
1.2. Impactos Ambientais decorrentes da Pecuária
A remoção da cobertura vegetal para formar as pastagens, além de comprometer a
biodiversidade, também compromete o ciclo da água, pois reduz a infiltração e o
armazenamento, liberando gás carbónico para atmosfera contribuindo para a mudança
climática, aumentado a velocidade de lixiviação, assim causando a compactação e erosão no
solo.
Para Araújo, Almeida e Guerra (2008), o solo e a água são recursos de suma importância
para a humanidade, porém esses recursos são poucos preservados e mal avaliados quanto sua
divisão de uso e desgaste, sendo 11% da área mundial para uso agropecuário. Ainda destacam
que a erosão é a perda da camada superficial do solo provocada pela acção da água, do vento
e das condições físicas e climáticas, e o solo quando perde esta camada não retém mais água
para as plantas e os nutrientes necessários para o vegetal, assim ocorrendo a degradação.
As principais fontes de poluição são a partir de resíduos animais, antibióticos e
hormônios, produtos químicos de curtumes, fertilizantes e pesticidas utilizados nas terras
cultiváveis e sedimentos provenientes de pastagens erodidas.
Números globais não estão disponíveis, mas nos Estados Unidos, estima-se que o gado é
responsável por 55% da erosão e sedimentos nas terras cultiváveis, 37% da utilização de
pesticidas, 50% do uso de antibiótico 1/3 das cargas de nitrogénio e fósforo em recursos de
água doce (Souza, 2010).
6
Segundo Souza (2010) a pecuária afecta também a reposição de água doce através da
compactação do solo, diminuindo a infiltração para os lençóis freáticos e a degradação das
margens dos rios.
Para Ribaski et al. (2005) o plantio de árvores em pastagens pode resultar em vários
benefícios para os componentes do ecossistema: clima, solo, microrganismos, plantas
forrageiras e animais. Dessa forma, o pecuarista, além de garantir condições ambientais mais
propícias para suas pastagens e criações, garante, também, um suprimento de madeira (para
uso próprio ou no comércio), sem que para isso tenha que abandonar sua vocação para a
pecuária.
Herrero et al. (2000) afirma que com o sistema de integração lavoura-pecuária, as áreas
de menor produção durante a entressafra, poderão abrigar grande parte do rebanho bovino e
permitir a formação da cobertura que conserva a umidade e alimenta as plantas e
microrganismos no solo, trazendo maior estabilidade para o Sistema de Plantio Directo.
Desta forma pode-se conciliar benefícios temporários produzindo pasto de boa qualidade
na entressafra e a longo prazo, devido a palhada para o Sistema de Plantio Directo.
Em relação ao Sistema de Plantio Directo, a palhada propícia ao solo protecção, rotação
de culturas, e consequentemente economia de máquinas, equipamentos e mão-de-obra. Já a
integração lavoura-pecuária elimina ou reduz de forma significativa as causas da degradação
física, química e biológica do solo, resultante das explorações (Herrero et al., 2000).
Nesses sistemas, as espécies arbóreas também têm o potencial de melhorar os solos por
numerosos processos. Em síntese, as árvores podem influenciar na quantidade e
disponibilidade de nutrientes dentro da zona de actuação do sistema radicial das culturas
associadas, principalmente pela possibilidade de recuperar nutrientes abaixo do sistema
radicial das pastagens e reduzir as perdas causadas pela lixiviação e erosão, aumentando,
consequentemente, a disponibilidade desses nutrientes pela maior quantidade de matéria
orgânica depositada no solo e pelo processo de ciclagem de nutrientes.
Integração lavoura-Pecuária (ILP) ou Sistema Agro-pastoril é definido como um sistema
de produção que integra os componentes agrícola e pecuário em rotação, consórcio ou
sucessão, na mesma área e no mesmo ano agrícola ou por múltiplos anos (Balbino, 2012).
7
É uma técnica, também conhecida como rotação de culturas anuais com pastagens, onde
os produtores utilizam a terra para a produção animal e vegetal, assim realizando um
revezamento de acordo com a época do ano. Entre os benefícios encontrados na implantação
da técnica estão: o aumento na renda, melhora da situação do solo, melhor aproveitamento do
maquinário, além de aumento da necessidade de mão-de-obra, gerando mais empregos locais
(Dias, 2013).
Como um exemplo deste sistema, no caso da soja e do milho, o plantio é realizado na
primavera. A colheita é em Fevereiro e marco.
Ainda segundo Dias (2013) a ILP é uma forma sustentável de produção, onde as
plantações de soja e outras leguminosas fixam nitrogénio no solo. Ao plantar gramíneas para a
pastagem do gado, não será necessário adicionar nitrogénio, isso traz economia ao produtor e
ao mesmo tempo diminui a contaminação ao meio ambiente e riscos a saúde humana.
A integração lavoura-pecuária possui diversas vantagens, podendo ser destacada pela
diminuição da necessidade de grandes áreas, e desta forma, diminuindo a pressão por
ocupação de novas áreas. Com a tecnológica avançada haverá a recuperação e reabilitação de
pastagens e lavouras degradadas, assim considera-se o uso eficiente da terra.
8
Conclusão
A agro-pecuária é uma actividade amplamente dependente de factores climáticos, cujas
alterações podem afectar a produtividade e o manejo das culturas, além de factores sociais,
económicos e políticos. As condições de adaptação de estabelecimentos agrícolas à mudança
do clima podem ser bem variáveis, colocando-os em posições mais ou menos vulneráveis, em
função de diferentes cenários climáticos.
Segundo as previsões de longo prazo, as regiões tropicais e subtropicais seriam as mais
afectadas pela mudança do clima. Aponta-se também que países em desenvolvimento poderão
ser mais vulneráveis às alterações climáticas, devido às economias de baixo capital, à
deficiência de mercados, à predominância de actividades agrícolas, entre outros factores.
Entretanto, são raras as análises feitas sobre este tema em Moçambique, que dêem subsídio a
essas hipóteses e suas possíveis implicações na agricultura.
9
Referências Bibliográficas
Araújo, M. (2010). Impactos ambientais nas margens do Rio Piancó causados pela agro-
pecuária. Revista Brasileira de Gestão Ambiental.
Balbino, L. et al. (2012). Agricultura sustentável por meio da integração lavoura-pecuária-
floresta (iLPF). Internacional Plant Nutrition Institute.
Banco Mundial (2013). Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial 2013: Visão geral: A
Mudança do Clima para o Desenvolvimento. Washington DC.
Dias, V. (2013). Integração lavoura-pecuária é alternativa sustentável. São Paulo, Brasil.
EMBRAPA. (2011). Mudanças Climáticas Globais e Agricultura. Embrapa-meio ambiente.
São Paulo.
FAO (2006). Food and Agriculture Organization of the United [Link] of Fishery
Statistics. Summary table.
Herrero, M.; et al. (2000). Sistema Santa Fé – Tecnologia Embrapa: Integração Lavoura-
pecuária pelo consórcio de culturas anuais com forrageiras, em áreas de Integração
Lavoura-pecuária, nos sistemas directo e convencional. Santo António de Goiás, Brasil:
Embrapa Arroz e Feijão.
INGC (2009). Synthesis report. INGC Climate Change Report: Study on the impact of climate
change on disaster risk in Mozambique. [vanLogchem B and Brit R (ed.)]. INGC,
Mozambique.
Leite, S. et al. (2011). Impactos ambientais ocasionados pela agro-pecuária no Complexo
Aluízio Campos. Brasil: Revista Brasileira de Informações Científicas.
MICOA. (2005) Avaliação da vulnerabilidade as mudanças climáticas e estratégias de
adaptação. Maputo.
Pritchard, S. G., & Amthor, J. S. (2005). Crops and environmental change: an introduction to
effects of global warming, increasing atmospheric CO2 and O3 concentrations, and soil
salinization on crop physiology and yield. New York: Food Products Press.
Recha J. W., Chiulele R.M. (2017). Mozambique climate smart agriculture [Link]
Guideline. Pretoria: Vuna.
10