21/04/13 Envio | Revista dos Tribunais
O TRESPASSE: A ALIENAÇÃO DO
ESTABELECIMENTO EMPRESARIAL E A CLÁUSULA
DE NÃO RESTABELECIMENTO
O TRESPASSE: A ALIENAÇÃO DO ESTABELECIMENTO EMPRESARIAL E A
CLÁUSULA DE NÃO RESTABELECIMENTO
Revista dos Tribunais | vol. 792 | p. 116 | Out / 2001
Doutrinas Essenciais de Direito Empresarial | vol. 1 | p. 1077 | Dez / 2010DTR\2001\470
Maria Antonieta Lynch de Moraes
Mestre e Doutoranda em Direito Privado na Universidade Federal de Pernambuco. Professora de
Direito Comercial na Universidade Católica de Pernambuco e na Faculdade de Direito de Caruaru.
Advogada.
Área do Direito: Geral
Sumário:
[Link]ções iniciais - [Link] componentes do estabelecimento empresarial -
[Link] e clientela - [Link] empresarial: objeto de negócio jurídico - [Link]:
características - 6.O trespasse e a sucessão - 7.O trespasse e o passivo - 8.A livre iniciativa e a
livre concorrência versus a cláusula de não-restabelecimento - 9.O Projeto do Código Civil e o
direito de empresa - 10.O trespasse e a locação empresarial - 11.O estabelecimento empresarial
virtual, o trespasse e a locação empresarial - [Link]
1. Considerações iniciais
Quando o comerciante - pessoa física ou pessoa jurídica - se propõe a efetivar a atividade de
mediador 1 na cadeia econômica, figurando como intermediário entre a produção e o consumo,
precisa ter disponíveis certos elementos que possibilitem a prática profissional da atividade
proposta.
2
Essa reunião de elementos utilizados pelo comerciante denomina-se fundo de comércio, azienda,
3
estabelecimento comercial ou empresarial, 4 negócio comercial ou casa de comércio.
Segundo Carvalho de Mendonça, 5 fundo de comércio é o complexo de meios idôneos, materiais e
imateriais, pelos quais o comerciante explora determinada espécie de comércio; é o organismo
econômico aparelhado para o exercício do comércio.
Para Oscar Barreto Filho 6 é o complexo de bens, materiais e imateriais, que constituem o
instrumento utilizado pelo comerciante para a exploração de determinada atividade mercantil.
Verificamos, portanto, que o estabelecimento empresarial é um instrumento indissociável da
empresa, sem o qual não é possível a prática da exploração empresarial. É, portanto, uma
realidade funcional.
Num enfoque jurídico temos que o estabelecimento empresarial é um conjunto de bens
heterogêneos, um complexo de coisas que pode ser classificado como: bem móvel, bem coletivo
do tipo universalidade de fato, não-consumível e infungível.
Da análise da sua natureza destacamos as seguintes considerações:
• o estabelecimento empresarial é uma universalidade de fato, ou seja, uma reunião de bens
ligados por uma destinação unitária determinada pela vontade do comerciante;
• o estabelecimento empresarial não tem personalidade jurídica, não sendo, portanto, sujeito de
direito;
• o estabelecimento empresarial não é ente despersonalizado, característica das universalidades
de direito;
• o estabelecimento empresarial integra o patrimônio do comerciante, com ele não se confundindo;
• o estabelecimento comercial difere também da atividade econômica explorada (empresa);
• o estabelecimento empresarial é mero instrumento da atividade econômica (empresa) do
comerciante (firma individual ou sociedade).
2. Elementos componentes do estabelecimento empresarial
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O estabelecimento empresarial é composto por um conjunto de bens heterogêneos, de natureza
material e imaterial.
Os bens materiais correspondem às coisas corpóreas, que podem ser objeto de domínio, tais como
as mercadorias, a mobília, os utensílios, os veículos, as máquinas, as instalações etc.
Os bens imateriais são aqueles que não ocupam espaço no mundo físico, tendo existência ideal.
São, principalmente, as criações intelectuais, as prestações decorrentes de direitos obrigacionais,
as marcas, o título de estabelecimento, a insígnia, os privilégios industriais, os sinais e expressões
de propaganda, o ponto comercial, entre outros.
3. Aviamento e clientela
Entre os elementos imateriais, merecem destaque o aviamento 7 e a clientela, pois são
importantíssimos na teoria do estabelecimento empresarial, já que neles se fundamenta a razão de
ser da tutela que o direito confere ao estabelecimento como objeto unitário.
Porém, a presente análise não incidirá na natureza dos citados elementos, posto que as
divergências doutrinárias não nos permitem sermos breves.
Ao direito interessa proteger o conjunto de elementos componentes do estabelecimento
empresarial, pois reunidos consubstanciam a causa material do aviamento.
O aviamento é o resultado de um conjunto de variados fatores pessoais, materiais e imateriais,
que conferem a dado estabelecimento empresarial in concreto a aptidão de produzir lucros. 8 É
uma expectativa de lucros futuros, de mensuração variável, que se acumula lentamente, de forma
quase imponderável.
O aviamento representa um acréscimo de valor, algo que se junta à soma dos valores dos
elementos singularmente considerados, em virtude de sua organização na unidade técnica do
estabelecimento, que os torna aptos a produzir novas riquezas. É um sobrevalor que surge com a
criação da casa comercial e perdura até a sua extinção.
Não existe estabelecimento sem aviamento.
O aviamento é, portanto, um interesse econômico relevante, que recebe proteção legal em função
do estabelecimento, e sua existência é perceptível quando ocorre o trespasse, momento em que
se atribui ao aviamento uma valoração.
A noção de aviamento sem dúvida está ligada à noção de clientela: 9 - 1 0 conjunto de pessoas
que, de fato, mantém com o estabelecimento relações continuadas de procura de bens e de
serviços e que constitui exatamente a manifestação externa do aviamento. É difícil definir de
forma precisa a relação entre os dois conceitos, vez que se entrelaçam. Suas relações são
estreitas.
A clientela representa um objeto de direito assim como o aviamento, ao qual se atribui um valor
econômico de notória relevância e que é protegido de forma indireta, mediante a tutela do
estabelecimento e a repressão às práticas desleais.
Verificamos, portanto, que a proteção que incide no aviamento e na clientela materializa-se
através das normas que tutelam o estabelecimento empresarial.
4. Estabelecimento empresarial: objeto de negócio jurídico
Como objeto de direito o estabelecimento empresarial pode figurar em vários negócios jurídicos
que tenham por destinação a transferência de titularidade da esfera patrimonial de um sujeito para
a de outro diferente ou em que apenas ocorra a transferência do direito de uso ou de gozo a
outrem.
Assim podemos citar as seguintes relações:
• negócios de alienação inter vivos a título oneroso (cessão ou trespasse, permuta, conferência
em sociedade, dação em pagamento) ou a título gratuito (doação);
• negócios de alienação mortis causa (sucessão legítima ou testamentária);
• negócios de gestão para fim de desfrute (arrendamento, usufruto, comodato, constituição de
dote) ou de garantia (penhor). 1 1
5. Trespasse: características
Chama-se trespasse ou traspasso 1 2 o contrato de compra e venda do estabelecimento
empresarial através do qual ocorre a transferência de sua titularidade.
Este contrato é muitas vezes conhecido no mundo empresarial por meio da expressão "passa-se o
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ponto".
Por este contrato, o comerciante (trespassante) obriga-se a transferir o domínio do complexo
unitário de bens instrumentais que servem à atividade empresarial, e o adquirente (trespassário)
obriga-se a pagar pela aquisição.
É um contrato consensual porque se perfaz pela simples anuência dos contraentes, sem
necessidade de outro ato; é oneroso, pois traz vantagens para ambas as partes, onde cada
contratante suporta um sacrifício de ordem patrimonial com o intuito de obter vantagem
correspondente, de forma que ônus e proveito fiquem numa relação de equivalência; é
sinalagmático ou bilateral perfeito, porque ambos os contraentes se obrigam reciprocamente,
sendo credores e devedores uns dos outros; é comutativo, pois as partes podem antever o que
receberão em troca das prestações que realizarem; é não-solene, sendo desnecessário que se
perfaça através de instrumento público, porém não pode deixar de ter forma escrita para regular
as relações entre os contratantes.
Segundo Carvalho de Mendonça, 1 3 a venda do estabelecimento como entidade unitária
compreende todos os elementos que o integram principal ou acessoriamente. Abrange assim o
aviamento, a clientela, o material, os utensílios, as máquinas, as mercadorias, as marcas de
comércio, as patentes, a insígnia e os segredos de fabricação, salvo estipulação expressa em
contrário. Assim, o alienante tem a obrigação legal de fazer boa ao adquirente a coisa vendida, o
que acarreta a proibição de se restabelecer no mesmo ramo.
A tradição ocorre, com a verificação do inventário e mediante a entrega das chaves do
estabelecimento. À falta de inventário, há de se presumir que se incluem todos os bens, forma
conhecida como "de portas fechadas", em que não há qualquer reserva.
6. O trespasse e a sucessão
O trespasse ocorre quando o estabelecimento deixa de integrar o patrimônio de um empresário e
passa a ser objeto de direito de propriedade de outro.
Assim, o estabelecimento que pertencia a um determinado comerciante individual ou coletivo não
mais lhe pertence.
Não ocorrendo a transferência do estabelecimento, pode ocorrer a cessão de quotas sociais de
uma sociedade, situação em que o estabelecimento não muda de titular, tendo apenas alteração
na composição societária do comerciante coletivo o que não tipifica a transferência da
titularidade, mas apenas a transferência de participação societária.
Nesse caso os credores continuam titulares de seus direitos de crédito, independentemente da
alteração societária.
Os esclarecimentos anteriores interessam, pois no trespasse não há sucessão, podendo, contudo,
ocorrer de se proceder à inserção de cláusula específica, dispondo que o adquirente se
responsabiliza pelo passivo do alienante. Nesse caso, considera-se sucessor o adquirente,
sucessão esta oriunda de contrato.
7. O trespasse e o passivo
Em relação aos débitos, fundamental é mencionar que o passivo não integra o estabelecimento do
empresário, ou seja, o passivo não compõe o objeto transacionado quando o adquirente efetua o
trespasse. 1 4
A regra no direito brasileiro é a de que o adquirente não se obriga pelas dívidas de seu antecessor,
ou seja, os credores do alienante não são credores do adquirente. Não há sub-rogação em
decorrência do trespasse.
Não obstante, a regra geral da não-responsabilização não é absoluta, ou seja, independentemente
de acordo, o adquirente é sucessor legal do alienante, em relação às obrigações trabalhistas 1 5 e
tributárias. 1 6
8. A livre iniciativa e a livre concorrência versus a cláusula de não-restabelecimento
Ab initio devemos tratar do princípio da livre iniciativa, posto que figura como fundamento da
ordem econômica e da República.
18
Temos, portanto sem dúvida um Estado onde o "livre mercado" é protegido.
A livre iniciativa envolve a liberdade de indústria e comércio, ou liberdade de empresa e a de
contrato. Isso significa que a todos é livre o exercício de qualquer atividade econômica,
desenvolvendo-se no quadro estabelecido, independentemente de autorização de órgãos públicos,
salvo nos casos previstos em lei.
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Outro dos princípios da ordem econômica - além do atinente à livre iniciativa - é o da livre
concorrência.
A livre concorrência 1 9 - 2 0 é princípio geral para o fomento da sociedade, permitindo aos seus
agentes econômicos o desenvolvimento de ações próprias para incremento do mercado. É o livre
jogo das forças do mercado na constante disputa de clientela. Essa disputa é salutar numa
economia de mercado, pois impulsiona a competitividade das empresas, forçando-as a um
constante aprimoramento dos seus métodos tecnológicos, dos seus custos, enfim, na permanente
busca de condições mais favoráveis ao consumidor.
A livre concorrência no campo das atividades econômicas é manifestação da liberdade de
iniciativa, constituindo um fenômeno natural, legítimo e indispensável ao progresso e bem-estar da
sociedade.
Situação diversa, contudo é a concorrência desleal, 2 1 - 2 2 que, pelo seu caráter ilícito, deve ser e
é reprimida, pois ao direito constitucional de explorar atividade econômica, expresso no princípio
da livre iniciativa, corresponde o dever, imposto a todos, de respeitá-lo.
No caso da alienação do estabelecimento empresarial, a observância aos princípios da livre
iniciativa e da livre concorrência manifesta-se através de uma limitação, que consiste no
impedimento do restabelecimento da parte alienante.
Temos, portanto, que a continuidade do exercício da atividade econômica do comerciante-
alienante fica adstrita a determinadas condições que têm o intuito de evitar que essa prática
mercantil assuma as características de concorrência desleal.
Assim, a doutrina e a jurisprudência admitem a estipulação de convenções impedientes ou
restritivas de liberdade econômica, visando preservar a clientela.
Diante da carência legal específica sobre a matéria, Carvalho de Mendonça 2 3 fundamenta a
vedação do restabelecimento em dispositivos da disciplina geral da compra e venda mercantil,
expondo o que se segue:
"Uma das garantias devidas pelo vendedor é fazer boa ao comprador a coisa vendida, e não
inquietá-lo na sua posse e domínio (CCom, arts. 214 e 215). Conseguintemente, ao vendedor não
é lícito, sem autorização do comprador, fundar estabelecimento em que lhe possa retirar toda ou
parte da clientela. Esta turbação por parte do vendedor importaria privar o comprador, em todo ou
em parte, da coisa vendida".
24
Sobre o assunto João da Gama Cerqueira expõe com clareza:
"A hipótese verifica-se, com relativa freqüência, nas vendas de estabelecimentos comerciais ou
industriais, obrigando-se o vendedor a não se estabelecer de novo com o mesmo gênero de
comércio ou indústria. É a chamada cláusula de interdição de concorrência. O comprador não visa
apenas à aquisição do estabelecimento com as suas mercadorias e outros elementos materiais que
o compõem, mas, principalmente, à sua freguesia, a qual, com toda a probabilidade, se manteria
fiel ao antigo proprietário, se este voltasse a se estabelecer com o mesmo negócio ou indústria.
Como a clientela não pode ser objeto de venda ou cessão, o adquirente do estabelecimento
procura garanti-la, fazendo incluir no contrato a referida cláusula, pela qual o vendedor,
obrigando-se a não fazer concorrência ao comprador, renuncia implicitamente à clientela que
formou".
Incontestável, portanto, é a possibilidade da pactuação da cláusula proibitiva, contudo certo é
que ela não pode ser absoluta, uma vez que se estabelecida de forma ilimitada, sem quaisquer
restrições, seria incompatível com os preceitos constitucionais que garantem a livre iniciativa e a
livre concorrência.
Estipulação nesses termos seria juridicamente nula e economicamente absurda já que
representaria a morte do comerciante.
Podemos concluir, portanto, que é lícita a estipulação contratual que obsta o restabelecimento,
desde que subordinada a condições temporais, geográficas e substanciais.
Dessa forma temos que:
• no que se refere ao aspecto temporal, a convenção impediente não pode impor ao alienante uma
abstenção permanente de concorrência, pois configuraria uma renúncia definitiva ao direito de
exercer determinada atividade econômica, o que é irrenunciável por excelência;
• no que se refere ao objeto da convenção, ou seja, ao aspecto substancial do pactuado, a
restrição está relacionada ao ramo de atividade desenvolvida pelo estabelecimento titular da
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clientela e não a outro tipo de atividade;
• e, finalmente, no que se refere ao aspecto geográfico, a abstenção da concorrência restringe-
se à zona em que ela se trava, não sendo válida fora do âmbito de influência dos
estabelecimentos concorrentes.
Resta agora esclarecer como se determina essa condicionalidade para a validade da cláusula, uma
vez que o nosso direito nada dispõe a respeito.
25
Sobre o assunto, Oscar Barreto Filho expõe:
"Na falta de lei expressa, em nosso país, não se deve admitir duração do pacto por prazo superior
a cinco anos, que é o geralmente aceito pela legislação e pela jurisprudência de outros países e
que é também fixado pelo Dec. 24.150, 2 6 de 1934, como bastante para estabilizar o aviamento do
fundo, em relação ao seu titular. Admite-se, portanto, a validade da cláusula interditória de
concorrência, se limitada razoavelmente no tempo e no espaço. Os nossos tribunais ainda têm
reconhecido a validade da cláusula, quando restrita no espaço e não no tempo ou vice-versa.
Dessume-se dos julgados que prevalece o critério da razoabilidade na apreciação dos requisitos de
duração e extensão da proibição convencional, de modo a excluir a possibilidade de concorrência
qualificada pelo alienante do fundo".
Como vimos no comentário transcrito, a jurisprudência entre nós admite o pacto de não-
restabelecimento pelo prazo de cinco anos.
Em matéria de direito comparado podemos citar o Código Civil italiano 2 7 dispondo de forma
expressa que o vendedor não pode, antes de um qüinqüênio, a contar da transferência, abrir nova
empresa que, pelo objeto, localização ou outras circunstâncias seja idônea para desviar a clientela
do estabelecimento transferido.
Dessa forma verificamos que a cláusula de não-restabelecimento representa uma garantia que o
adquirente tem da integridade do valor despendido ao remunerar o estabelecimento. 2 8
Após analisar as limitações da cláusula expressa, surge outra questão: a omissão da estipulação e
seus efeitos. Predomina na doutrina o entendimento de que se reputa implícita a cláusula de não-
restabelecimento, não sendo possível que o alienante atue em competição direta com o
adquirente.
Seguindo essa posição, Carvalho de Mendonça 2 9 afirma que não há necessidade de estipulação
formal pela qual o vendedor se obrigue a não se restabelecer.
Concluindo, podemos afirmar que só é lícito o restabelecimento do alienante se expresso no
contrato.
Logo, em ocorrendo a violação da regra expressa ou implícita, poderá o adquirente promover ação
visando à interdição do novo comércio e à indenização por perdas e danos diante da perda de
clientela e da redução do aviamento.
O restabelecimento indireto, ou seja, aquele realizado através de pessoas interpostas ou ainda
como sócio ou empregado de empresa concorrente também é proibido.
Segundo Fábio K. Comparato, 3 0 também é "perfeitamente legítima a estipulação da cláusula de
não-restabelecimento nos negócios de cessão de controle, máxima quando o cedente goza de
grande prestígio no setor empresarial em questão e exercia, efetivamente, as funções de
empresário, na companhia cujo controle cedeu".
Assim, para evitar discussões acerca da possibilidade ou não do restabelecimento, deve-se inserir
nos contratos de trespasse a cláusula de interdição de novo estabelecimento, visando impedir o
enriquecimento indevido do alienante, através do desvio eficaz de clientela, que naturalmente
ocorrerá se este continuar praticando a atividade que está transferindo.
9. O Projeto do Código Civil e o direito de empresa
Infelizmente o direito brasileiro ainda não dispõe de normas específicas sobre a matéria, porém
esta lacuna não deve permanecer por muito tempo, pois já há previsão sobre o assunto no Projeto
de Código Civil, que teve sua versão final aprovada pelo Senado Federal em 12.12.1997.
Pela primeira vez numa codificação civil brasileira a empresa é alvo de regulamentação em seus
diversos ângulos. Sem dúvida esta tendência tem inspiração no direito italiano que, unificando o
direito privado, regula a empresa no Código Civil.
Assim, o Livro II do Projeto do Código Civil dispõe sobre o direito de empresa dos arts. 965 a
1.194.
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De forma específica e inovadora sobre o estabelecimento temos os arts. 1.141 a 1.148.
10. O trespasse e a locação empresarial
Com freqüência verificamos que o c omerciante se encontra num imóvel 3 2 locado, quando da
prática de sua atividade mercantil. Neste, o comerciante faz surgir um elemento que integra o
estabelecimento empresarial que é o ponto comercial.
O ponto , que pertence ao comerciante, difere do imóvel no qual a atividade é praticada, podendo
ser considerado como o local qualificado onde se situa e ocorre uma determinada atividade
empresarial.
Diante do árduo e lento esforço do comerciante em criar o ponto comercial, a lei concede-lhe uma
proteção especial para conservar este bem imaterial. A sua conservação materializa-se através do
direito de obter a renovação compulsória do contrato de locação, possibilitando sua permanência
no imóvel ou pela percepção de uma indenização. 3 3
Quando da venda do estabelecimento empresarial é de extrema importância observar a
problemática da cessão da locação, pois o imóvel não integra o trespasse.
Assim temos situações nas quais a negociação se deverá efetuar com o alienante-comerciante e
com o proprietário-locador.
Quando assim se configura a questão, mister se faz verificar os termos que envolvem o contrato
de locação mercantil. O adquirente do fundo de comércio deve negociar a compra do fundo com o
locatário-comerciante e o uso e gozo do bem imóvel, ou seja, o contrato de locação, com o
proprietário-locador, sem o que não terá como praticar sua atividade naquele espaço físico.
Para que o adquirente possa praticar a atividade dando continuidade ao trabalho do alienante-
comerciante é imprescindível ter a anuência do locador para que a cessão da locação ocorra, o
que nem sempre acontece.
Com o intuito de evitar aborrecimentos deve o comerciante inserir no contrato de locação
mercantil, quando da elaboração do ajuste, uma cláusula estipulando anuência prévia do locador
diante de eventual cessão.
O adquirente do estabelecimento, quando beneficiado pela cessão, aproveita-se dos prazos
relativos ao alienante para fins de ajuizamento de ação renovatória.
11. O estabelecimento empresarial virtual, o trespasse e a locação empresarial
O comércio é atividade inerente ao homem e está presente desde a fase primitiva da sociedade,
sempre em permanente evolução. Paralela à atividade comercial a sociedade avança de forma
avassaladora devendo citar a tecnologia e a informação como importantes ambientes de
desenvolvimento.
O comércio eletrônico (comércio-e) surge num novo ambiente de desenvolvimento, que é o
ambiente virtual, conhecido como "cyberespaço", que se vem tornando o maior centro de
comércio e informação do planeta.
O comércio-e, atividade de intermediação de produtos ou prestação de serviços realizados
através de meios eletrônicos num estabelecimento virtual, consubstancia-se através da rede
mundial de computadores "internetenáutico" ou fora dela, sem deixar de caracterizar a virtualidade
do negócio.
A evolução mostra-nos que mercadores passaram a comerciantes e que comerciantes evoluíram
para "mercanautas".
No momento, interessa-nos analisar o estabelecimento empresarial virtual, que, semelhante ao
físico, é um conjunto de bens materiais e imateriais utilizados pelo comerciante como instrumento
para o exercício da atividade empresarial. O que diferencia o estabelecimento físico do virtual não
é a sua constituição, mas, sim, a virtualidade do acesso.
Assim, se para a consecução de uma determinada compra e venda o consumidor necessita se
deslocar para um espaço físico determinado, temos o estabelecimento clássico. Se, contudo, o
consumidor não tiver que se deslocar fisicamente e sua compra efetivar-se por via de transmissão
eletrônica de dados, temos o ambiente virtual.
Verificamos, pois, que a virtualidade ou imaterialidade do estabelecimento é caracterizada pela
forma de acessibilidade do consumidor. 3 4 Portanto, a natureza jurídica do estabelecimento físico e
do virtual em nada difere.
Sendo o estabelecimento empresarial virtual um complexo unitário composto pelos mesmos bens
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que integram o estabelecimento físico, não há óbice à possibilidade de ele figurar como objeto num
trespasse. Uma peculiaridade que simplifica o contrato que tem por objeto o estabelecimento
virtual é aquela referente à desnecessidade da cessão da locação para continuar no espaço físico.
Como vimos anteriormente quando ocorre o trespasse é importante garantir a permanência do
adquirente no imóvel para proteger o ponto comercial, sem o que as vantagens da alienação são
bem menores.
Esse cuidado, contudo, não impera quando o estabelecimento é virtual, posto que, nessas novas
casas de comércio, não ocorre a formação do ponto comercial "físico", já que na maioria das vezes
o consumidor nem sequer sabe onde se localiza geograficamente o estabelecimento nem precisa
ter esta ciência, porque as transações comerciais eletrônicas dispensam o deslocamento dos
consumidores até o imóvel onde está situado o estabelecimento.
Desse modo, em se tratando de empresa virtual, não é necessário se preocupar com a renovação
compulsória do contrato de locação do imóvel onde se instala a empresa virtual para garantir a
efetividade econômica do trespasse.
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(1) A intermediação desenvolve-se por meio dos distribuidores e transformadores da produção
originária, ou seja, através dos comerciantes e dos industriais.
(2) Fonds de commerce é a expressão utilizada pelos franceses.
(3) Expressão oriunda da influência do direito italiano.
(4) Renomados autores fazem distinção entre fundo de comércio e estabelecimento comercial. Por
exemplo, temos o italiano Ercole Vidare para quem o fundo de comércio representa o complexo do
ativo e do passivo, dos direitos e obrigações pertinentes a um negócio ou estabelecimento
mercantil, ao passo que o estabelecimento representa o lugar onde o comerciante exercita o
comércio e administra os seus negócios (Cf. Amador Paes de Almeida. Locação comercial. 9. ed.
São Paulo : Saraiva, 1997. p. 3). Contudo os doutrinadores pátrios consideram os termos
sinônimos.
(5) MENDONÇA, Carvalho de J. X. Tratado de direito comercial brasileiro. 17. ed. Rio de Janeiro :
Freitas Bastos, 1963. 1.ª parte, vol. V, p. 15-16.
(6) Teoria do estabelecimento comercial. 2. ed. São Paulo : Saraiva, 1988. p. 75.
(7) "El aviamento constituye así la aptitud de la hacienda, como instrumento de una empresa,
para producir benefícios, el plus valor que la hacienda como instrumento de una empresa respecto
de la suma de los valores de los distintos bienes que la componen, aisladamente considerados.
Este plus no representa por esto una entidad de la hacienda" (ASCARELLI, Tullio. Iniciación al
estudio del derecho comercial. Barcelona : Bosch, 1964. p. 290).
(8) BARRETO FILHO, Oscar. Op. cit.,. p. 169.
(9) No nosso país as palavras clientela e freguesia são usadas como sinônimas.
(10) A clientela pode ser entendida como o fluxo de adquirentes de produtos e serviços produzidos
pelo estabelecimento.
(11) BARRETO FILHO, Oscar. Op. cit., p. 206.
(12) O tema em questão ganhou importância a partir de uma contenda judicial que envolvia a
alienação do fundo de comércio da Fábrica de Juta de Santana, aforada em São Paulo, em 1913.
Tínhamos de um lado a Companhia Nacional de Tecidos de Juta, como autora - adquirente do
fundo de comércio -, patrocinada por José Xavier Carvalho de Mendonça, e, do outro, como réus -
alienantes - o Conde Álvares Penteado e a Companhia Paulista de Aniagem, defendidos pelo não
menos ilustre Rui Barbosa. Ocorreu que, à época, o Conde Álvares Penteado efetuou a venda do
estabelecimento empresarial e restabeleceu-se. A adquirente do fundo promoveu ação requerendo
a condenação em indenização, uma vez que segundo ela a venda do estabelecimento comercial
importava em considerar implícita a transferência da clientela, o que fora ameaçado quando o
Conde fundou nova fábrica no mesmo bairro em que funcionava a anterior. A defesa concentrou-
se na tese de que a renúncia ao direito do exercício de certo ramo de negócio teria que ser
expressa, o que não ocorrera. Para Rui Barbosa, a clientela não é elemento do fundo, podendo até
constituir valor à parte e "ser objeto de convenção autônoma". Dessa forma, mesmo contrariando
a posição predominante que sustenta ser desnecessária a estipulação formal, expressa, pela qual
o vendedor se obriga a não se restabelecer, a defesa restou vencedora.
(13) Tratado de direito comercial brasileiro. 6. ed. Rio de Janeiro : Freitas Bastos, 1960. 2.ª
parte, vol. VI, p. 154-155.
(14) BARRETO FILHO, Oscar . Op. cit., p. 228-229.
(15) A CLT nos seus arts. 10 e 448 estatui que "a mudança na propriedade ou estrutura jurídica
da empresa não afetará os contratos de trabalho dos respectivos empregados".
(16) O Código Tributário Nacional também excepciona a intransmissibilidade dos débitos do
adquirente do fundo de comércio ao preceituar no art. 133: "A pessoa natural ou jurídica de direito
privado que adquirir de outra, por qualquer título, fundo de comércio ou estabelecimento
comercial, industrial ou profissional, e continuar a respectiva exploração, sob a mesma ou outra
razão social ou sob firma ou nome individual, responde pelos tributos, relativos ao fundo ou
estabelecimento adquirido, devidos até a data do ato: I - integralmente, se o alienante cessar a
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exploração do comércio, indústria ou atividade; II - subsidiariamente, com o alienante, se este
prosseguir na exploração ou iniciar dentro de seis meses, a contar da data da alienação, nova
atividade do mesmo ou em outro ramo de comércio, indústria ou profissão".
(18) Livre mercado é o mercado que se auto-regula, ou seja, é nele que se formam as regras.
(19) "O direito da concorrência engloba o conjunto das regras que têm por objeto a intervenção
do Estado na vida econômica para garantir que a competição das empresas no mercado não seja
falseada por meio de práticas colusórias ou abusivas. As práticas colusórias resultam de ajuste ou
acordo que tenha por objeto ou como efeito restringir a concorrência. As práticas abusivas
consistem na exploração do poder de mercado em prejuízo da concorrência" (FARIA, Werter R.
Direito de concorrência e contrato de distribuição. Porto Alegre : Fabris, 1992. p. 7).
(20) A noção tradicional de concorrência pressupõe "uma ação desenvolvida por um grande
número de competidores, atuando livremente no mercado de um mesmo produto, de maneira que a
oferta e a procura provenham de compradores ou de vendedores cuja igualdade de condições os
impeça de influir, de modo permanente ou duradouro, no preço dos bens ou serviços" (VAZ, Isabel.
Direito econômico da concorrência. São Paulo : Saraiva, 1993. p. 27).
(21) A concorrência desleal seria, portanto, a competitividade que objetiva a conquista de
clientela, através de meios desonestos e ilícitos. A doutrina, diante das dificuldades em conceituar
a concorrência desleal, obteve apoio legal no sentido de caracterizar a concorrência desleal,
enumerando uma série de atos que uma vez praticados a configurariam.
(22) Há duas formas de concorrência que o direito repudia, para fins de prestigiar a livre iniciativa:
a desleal e a perpetrada com abuso de poder. A primeira é reprimida em nível civil e penal, e
envolve apenas os interesses particulares dos empresários concorrentes. A segunda, reprimida
também em nível administrativo, compromete as estruturas do livre mercado e são chamadas de
infração da ordem econômica. A desleal não compromete as estruturas da livre concorrência; de
outro, a infração da ordem econômica, que as compromete.
(23) Tratado de direito comercial brasileiro, cit., 2.ª parte, vol. VI, p. 157-158.
(24) Tratado da propriedade industrial. Rio de Janeiro : Forense, 1956. v. 2, p. 384-385.
(25) Op. cit., p. 254.
(26) Este decreto foi revogado expressamente pela Lei 8.245/91 (LGL\1991\30) que dispõe sobre
o mesmo assunto.
(27) Art. 2.557 do Código Civil italiano: "Chi aliena l'azienda deve antenersi, per il período de
cinque anni dal transferimento, dall'iniziare uma nuova impresa che per l'oggetto, l'ubicazione o
altre circonstanze sai idônea a sviare la clientela dell'azienda ceduta ...".
(28) COELHO, Fábio Ulhoa. Curso de direito comercial. São Paulo : Saraiva, 2000. v. 1, p. 118.
(29) Tratado de direito comercial brasileiro, cit., 2.ª parte, vol. VI, p. 158.
(30) O poder de controle na sociedade anônima. 2. ed. São Paulo : Ed. RT, 1977. p. 221-222.
(31) "Art. 1.141. Considera-se estabelecimento todo complexo de bens organizado para o
exercício da empresa, por empresário, ou sociedade empresária. Art. 1.142. Pode o
estabelecimento ser objeto unitário de direitos e de negócios jurídicos, translativos ou
constitutivos, que sejam compatíveis com a sua natureza. Art. 1.143. O contrato, que tenha por
objeto a alienação, o usufruto ou o arrendamento do estabelecimento, só produzirá efeitos quanto
a terceiros, depois de averbado à margem da inscrição do empresário, ou da sociedade
empresária, no Registro das Empresas, e de publicado na imprensa oficial. Art. 1.144. Se ao
alienante não restarem bens suficientes para solver o seu passivo, a eficácia da alienação do
estabelecimento depende do pagamento de todos os credores, ou do consentimento destes, de
modo expresso ou tácito, em trinta dias a partir de sua notificação. Art. 1.145. O adquirente do
estabelecimento responde pelo pagamento dos débitos anteriores à transferência, desde que
regularmente contabilizados, continuando, porém, o devedor primitivo solidariamente obrigado pelo
prazo de um ano, a partir, quanto aos créditos vencidos, da publicação, e, quanto aos outros, da
data do vencimento. Art. 1.146. Não havendo autorização expressa, o alienante do
estabelecimento não pode fazer concorrência ao adquirente, nos cinco anos subseqüentes à
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transferência. Parágrafo único. No caso de arrendamento ou usufruto do estabelecimento, a
proibição prevista neste artigo persistirá durante o prazo do contrato. Art. 1.147. Salvo disposição
em contrário, a transferência importa a sub-rogação do adquirente nos contratos estipulados para
exploração do estabelecimento, se não tiverem caráter pessoal. Os terceiros poderão, porém,
rescindir o contrato dentro em três meses a contar da publicação da transferência, se ocorrer
justa causa, ressalvada, neste caso, a responsabilidade do alienante. Art. 1.148. A cessão dos
créditos referentes ao estabelecimento transferido produzirá efeito em relação aos respectivos
devedores, desde o momento da publicação da transferência, mas o devedor ficará exonerado se
de boa-fé pagar ao cedente".
(32) Não se inclui no trespasse a alienação do imóvel, posto que, ainda que integrante do
patrimônio do comerciante, não integra o fundo de comércio, que só abrange bens móveis. A
transação relativa ao imóvel, em ocorrendo, deverá se aperfeiçoar num documento em apartado.
(33) A Lei 8.245/91, no art. 51 , assegura o direito à renovação do contrato de locação ao
empresário que explora o mesmo ramo de atividade econômica há no mínimo três anos
consecutivos em imóvel locado por prazo determinado pelo mínimo de cinco anos ininterruptos,
sendo, porém, aceita a soma de prazos de contratos determinados. Através do direito à
renovação, o legislador protege o fundo de comércio tentando evitar ou minimizar prejuízos para o
locatário-empresário que certamente sofrerá um abalo pecuniário com a interrupção da atividade
se o deslocamento ocorrer.
(34) COELHO, Fábio Ulhoa. Op. cit., p. 34.
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