ARTIGO ORIGINAL
DOI: 10.18310/2446-48132021v7n1.3012g632
O uso dos fármacos na doença renal crônica
pelos pacientes em hemodiálise*
The use of drugs in chronic renal disease by hemodialysis
patients
Nathiele Carvalho Michel
Enfermeira pela Universidade Federal de Pelotas.
E-mail: nathii_mic@[Link]
Eda Schwartz
Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Docente na Faculdade de Enfermagem da Universidade
Federal de Pelotas. Pesquisador CNPQ.
E-mail: eschwartz@[Link].
ORCID: [Link]
Bianca Pozza dos Santos
Enfermeira. Doutora em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da
Universidade Federal de Pelotas.
E-mail: bibsantos3@[Link]
ORCID: [Link] 0000-0001-8844-4682
Fernanda Lise
Enfermeira. Doutora em Ciências pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da
Universidade Federal de Pelotas.
E-mail: fernandalise@[Link]
ORCID: [Link]
Resumo
Objetivo: Caracterizar o perfil socioeconômico dos pacientes com doença renal crônica em
tratamento hemodialítico, além de conhecer o grupo farmacológico dos medicamentos utilizados e
a quantidade de fármacos prescrita. Métodos: Estudo descritivo, de abordagem quantitativa. A
amostra foi composta por 70 participantes em tratamento hemodialítico, cadastrados no serviço no
período de 2015 e 2016. Resultados: A maioria dos participantes era do sexo masculino, na faixa
etária dos 60 anos ou mais, autodeclarados brancos, com renda familiar mensal entre um e dois
salários-mínimos. Os pacientes que declararam saber ler eram maioria, assim como os que residiam
na zona urbana, não moravam sozinhos e eram casados ou estavam em uma união estável. Com
relação aos medicamentos prescritos, observou-se o predomínio dos grupos farmacológicos das
Recorte do Trabalho de Conclusão de Curso “Doença renal crônica: A utilização dos fármacos pelos pacientes em
tratamento hemodialítico”, apresentado à Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), em
2017.
O uso dos fármacos na doença renal crônica pelos pacientes em hemodiálise
Vitaminas e Minerais, dos Anti-hipertensivos, dos Hormônios Glicoproteicos, bem como dos
medicamentos de controle do Fósforo no sangue, Antiulcerosos e Diuréticos. A maior parte dos
pacientes fazia uso de polifarmácia. A quantidade de fármacos prescrita aos pacientes participantes
do estudo variou de 02 a 18 medicamentos e o número médio encontrado foi de oito. Conclusões:
A quantidade de farmácos relaciona-se, possivelmente, devido ao grande número de comorbidades
associadas à doença renal crônica e devido ao conceito de polifarmácia adotado.
Palavras-chave: Insuficiência Renal Crônica; Farmacologia; Enfermagem.
Abstract
Aims: To characterize the socioeconomic profile of patients with chronic renal disease on
hemodialysis, besides knowing the pharmacological group of the drugs used and the prescribed
amount of drugs. Methods: This is a descriptive study, with a quantitative approach. The sample
consisted of 70 participants in hemodialysis treatment, enrolled in the service in the period of 2015
and 2016. Results: The majority of the participants were male, in the age group of 60 years old or
more, self-declared white, with monthly family income between one and two minimum wages.
Patients who stated that they could read were the majority, as well as those who lived in the urban
zone, did not live alone and were married or were in a stable union. With respect to the prescribed
drugs, we observed the predominance of the pharmacological4 groups of Vitamins and Minerals,
Antihypertensives, Glycoprotein Hormones, as well as Phosphorus control drugs in the blood,
Antiulcer and Diuretics. Most patients used polypharmacy. The amount of drugs prescribed to
patients participating in the study ranged from 2 to 18 drugs and the mean number found was eight.
Conclusions: The number of pharmacokinetics is possibly related to the large number of
comorbidities associated with chronic renal disease and due to the concept of polypharmacy
adopted.
Keywords: Renal Insufficiency, Chronic; Pharmacology; Nursing;
Introdução
Devido ao crescimento considerável dos casos de doença renal crônica (DRC) nas últimas décadas,
ela tornou-se um problema de saúde pública. Inúmeros motivos contribuíram para o seu aumento,
principalmente, a prevalência da obesidade, do diabete mellitus (DM), da hipertensão arterial
sistêmica (HAS), do tabagismo e do sedentarismo.1
Com essa constatação, identificar pacientes de risco assim como as pessoas com a DRC nos estágios
iniciais, além de oportunizar a otimização do cuidado, impedindo ou retardando a evolução da
doença, proporciona melhorias para a qualidade de vida e para a redução das taxas de
morbimortalidade.2 Nesse contexto, o monitoramento regular da glicemia e da pressão arterial de
pacientes diabéticos e/ou hipertensos e o rastreamento daqueles com alto risco de
desenvolvimento da doença renal facilitam a detecção precoce e a realização de intervenções que
impeçam ou que retardam o desenvolvimento da DRC.3
Ao se deparar com a DRC, poder-se-á precisar de terapia renal substitutiva (TRS), sendo ela
conservadora, ou com o uso de métodos dialíticos, ou ainda, por meio de transplante renal. Cada
uma das formas de tratamento tem suas particularidades e é muito importante que o paciente seja
orientado sobre as terapêuticas disponíveis no caso de a diálise ser indispensável. 4
Nesse contexto, quando se presta cuidados a um paciente com DRC, é preciso entender que suas
percepções e condições de qualidade de vida estão alteradas, e por vezes, comprometidas devido à
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nova rotina relacionada à TRS, à alimentação, ao uso de fármacos, às alterações corporais e sociais,
além da falta de disposição e de energia para a realização de atividades. Com isso, é essencial que
se possa contar com a ajuda da equipe de saúde para o enfrentamento dessas questões que não
são planejadas no curso normal da vida. Para tanto, a Enfermagem precisa estar preparada com
conhecimento técnico-científico, tal como disponível em prestar auxílio psicológico, além de outros
cuidados que as circunstâncias exigem.5
Quanto ao cuidado com a terapia farmacológica, este é parte importante da atenção à saúde, pois
não apenas salva vidas e previne doenças, mas também, promove a saúde. Cabe salientar que, o
regime farmacológico perante a presença da DRC varia de paciente para paciente, de acordo com
as necessidades.5 Tanto que, evidenciou-se um expressivo número de variedades de fármacos
prescritos de uso contínuo, sendo o principal a Furosemida, seguido do Carbonato de Cálcio, do
Nifedipino, do Enalapril e do Ácido Acetilsalicílico.6
Alguns pacientes podem precisar de diuréticos para elevar o volume urinário e diminuir o edema
corporal, ao mesmo tempo, outros podem precisar de anti-hipertensivos para o controle da HAS.
Com isso, percebe-se que os pacientes terão necessidades específicas, como o uso de Eritropoietina
Humana Sintética e/ou de Dióxido de Ferro, de suplementação nos casos de deficiência de Ácido
Fólico, de Complexo B, de Cálcio ou de Fósforo. 7 Entretanto, alguns desses fármacos poderão vir a
serem mal tolerados devido a seus efeitos colaterais, como os captadores de fósforo, que
frequentemente, não são tolerados ao nível gastrointestinal, porém, se não forem ingeridos
habitualmente, os níveis de fósforo no sangue aumentam. 8
Ademais, na DRC, o uso contínuo de fármacos se torna uma rotina a ser seguida, atentando-se para
o tipo, para a dosagem e para os horários estabelecidos. Embora o médico seja o responsável pela
prescrição, o papel da equipe de Enfermagem que acompanha o paciente, visando o cuidado
integral, é essencial, pois é ela quem reforça a importância da adesão à medicação, da presença dos
efeitos colaterais, da desmistificação referente aos receios sobre o uso e da automedicação, além
das orientações quando se depara com o uso incorreto e/ou impróprio. 5
Como o nível de compreensão dos pacientes pode interferir na adesão ao tratamento
farmacológico, e em decorrência disso, pode-se evidenciar casos de superdosagem ou subdosagem
medicamentosa, a equipe de saúde próxima deve estar atenta, a fim de identificar falhas e auxiliar
no uso dos medicamentos, tanto em relação à dosagem, quanto nos efeitos colaterais que podem
vir a ocorrer. Sendo assim, um dos principais papéis do enfermeiro, como gestor do cuidado, é estar
atento a promoção da assistência adequada também com relação ao uso de fármacos.
Baseado nesse exposto, o presente estudo teve por objetivo caracterizar o perfil socioeconômico
dos pacientes com doença renal crônica em tratamento hemodialítico, além de conhecer o grupo
farmacológico dos medicamentos utilizados e a quantidade de fármacos prescrita.
Métodos
Estudo descritivo, de abordagem quantitativa, sendo um recorte da macropesquisa “Atenção à
saúde nos serviços de terapia renal substitutiva da Metade Sul do Rio Grande do Sul”. Com
financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), Edital
Universal 2014, aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Enfermagem, com o
parecer de número 1.386385.
Para o desenvolvimento deste estudo, foi eleito um serviço de nefrologia pertencente a um hospital
de grande porte na cidade de Pelotas, RS. A amostra foi composta por 70 pacientes em tratamento
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hemolítico, cadastrados no serviço da unidade de terapia renal substitutiva, no período de 2015 e
2016, que aceitaram participar do estudo.
Assim, foram escolhidas no instrumento composto de questões fechadas aquelas variáveis
relacionadas ao perfil sociodemográfico dos pacientes (idade, município, mora sozinho, sexo,
cor/raça, estado civil, sabe ler e renda familiar). Além disso, incluiu-se a variável da questão
norteadora do estudo referente aos medicamentos utilizados como auxiliares para o tratamento da
DRC e qual a sua quantidade.
As questões fechadas dos formulários relacionadas ao perfil sociodemográfico foram codificadas e
a questão aberta referente à questão norteadora do estudo foi tabulada e agrupada, seguida de
codificação. Após, os dados foram digitados para montagem do banco de dados e para posterior
análise estatística no programa Stata®. A análise dos dados ocorreu por meio da estatística
descritiva, utilizando-se frequências absolutas, relativas e médias.
Resultados e discussão
Dos 70 pacientes que participaram do estudo no serviço de nefrologia elegido, 64,29% eram do sexo
masculino. A distribuição da população por idade apresentou predomínio de 58,21% na faixa etária
dos 60 anos ou mais. A maior parte dos pacientes autodeclarou a cor da pele branca, 72,86%. A
maioria possuía renda familiar mensal entre um e dois salários-mínimos, 44,29%.
Em relação à escolaridade, os pacientes que sabiam ler somaram 81,43%. Quanto à procedência,
dos 69 pacientes que responderam à questão, 59 (85,51%) residiam na zona urbana, apenas 15,71%
moravam sozinhos e 57,14% autodeclaram estado civil casado ou união estável (Tabela 1).
No presente estudo, a distribuição do acometimento da DRC, por gênero, mostrou maior frequência
de pessoas do sexo masculino, o que vem confirmar com os dados obtidos nas pesquisas realizadas
nos municípios de João Pessoa/PB, em que de 245 pacientes, 61% eram do sexo masculino 9 e de
Passo Fundo/RS, em que 77,8% dos 90 entrevistados eram do sexo masculino. 10 Os dados obtidos
podem sugerir que os homens adoecem mais, de modo crônico, do que as mulheres pois
possivelmente procuram menos os serviços de saúde como atitude de autocuidado. Tal fato pode
estar associado ao senso comum histórico de que o homem é um ser forte, que raramente fica
doente, motivo pelo qual a procura pelos serviços de saúde apresenta predominância feminina,
tornando-os mais suscetíveis ao desenvolvimento de doenças crônicas do que as mulheres.
Quanto à variável relacionada à idade, constatou-se que no serviço de nefrologia em questão, os
pacientes apresentavam idade superior a dos demais estudos, que evidenciam que a idade média
dos pacientes em TRS varia de 40 a 59 anos. Em uma investigação realizada, 26,00% dos
participantes tinham entre 40 e 49 anos de idade e 24,00% tinham entre 50 e 59 anos. 9 Também,
uma pesquisa apresentou uma incidência maior de pacientes na faixa etária de 49 a 59 anos, sendo
40,63% dos entrevistados.11
No que diz respeito à cor da pele, o estudo em questão apontou maiores incidências de pacientes
autodeclarados brancos, fato não observado entre outras pesquisas, como o realizado no município
de Picos/PI, que evidenciou prevalência da cor negra 36,08%. 12 Essa discordância pode estar
associada à distribuição populacional, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), pois no censo de 2010, a variável referente à população residente na região sul do país,
apenas 4,0% dos entrevistados autodeclararam possuir a cor da pele preta, sendo o menor
percentual regional.13
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O uso dos fármacos na doença renal crônica pelos pacientes em hemodiálise
A informação referente à questão econômica vai ao encontro a outro dado obtido no estudo, que
aponta que a maior parte dos pacientes em TRS possuem níveis socioeconômicos mais baixos,
apresentando uma renda familiar mensal de um a dois salários-mínimos, resultado identificado em
outras análises como a realizada em Passo Fundo/RS, no qual 35,6% dos pacientes informaram
possuir uma renda familiar entre um e dois salários-mínimos.10 Ou a desenvolvida em Rio
Branco/AC, em que 89,4% dos entrevistados, apesar de disporem de uma profissão definida, não
possuem um trabalho, o que não os afasta do compromisso quanto ao sustento familiar, cuja
maioria das vezes (42,3%), o paciente é o responsável a partir da renda mensal de um salário-
mínimo proveniente do auxílio-doença.14
Já o número de indivíduos que não sabem ler, encontrado no estudo, foi semelhante ao achado de
uma pesquisa, em que os pacientes que sabiam apenas assinar o próprio nome representavam
18,03% do total e inferior a outro estudo, cuja taxa de indivíduos analfabetos e semianalfabetos era
igual a 32,81%.11,14 Foi observado, por meio de relatos dos participantes, que essa condição refletia
em maiores dificuldades no entendimento de orientações e da dimensão do procedimento
hemodialítico, o que pode acabar por prejudicar ainda mais a condição de saúde. 11
Com referência à variável relacionada à procedência dos usuários entrevistados, não foram
encontradas muitas pesquisas que abordassem esse ponto. Somente encontrou-se uma, na qual
73,2% dos investigados residiam na área urbana.14
Em relação à variável estado civil, os casados apresentaram um percentual superior a metade dos
pacientes em TRS no serviço analisado. Esse fato indica semelhança com os estudos em que,
respectivamente, 68,1% e 66,7% dos entrevistados se autodeclararam casados. 10,15
Ainda, a maior parte dos participantes da pesquisa atual referem não morar sozinhos, resultado
equivalente ao encontrado na análise realizada em Goiânia/GO, em que apenas uma minoria
declarou morar sozinho. O autor comparou também o funcionamento físico, os efeitos da DRC e a
função sexual das pessoas que moravam sozinhas com aquelas que moravam com familiares,
havendo discordâncias estatísticas em todas essas dimensões. Os valores atribuídos a pacientes que
moravam sozinhos foram menores que os demais, indicando que o grupo em questão apresenta
uma condição de bem-estar inferior aos pacientes que moravam com familiares. 16
Na Tabela 2, apresentam-se os grupos farmacológicos dos medicamentos utilizados pelos pacientes
entrevistados. No N referente ao total, foram obtidos valores superiores aos 70 respondentes, pois
todos os pacientes utilizavam mais de uma medicação (entre 02 e 18), com isso, tem-se um N
superior a 100%.
Sobre os grupos farmacológicos, observou-se que o predomínio das vitaminas e dos minerais
representaram 26,55% dos medicamentos prescritos. Os medicamentos de controle do Fósforo no
sangue 5,73%, os Anti-hipertensivos, grupo que engloba também os hipotensores-arteriais,
somaram 12,95% do total, enquanto os Diuréticos representaram 5,08%. Hormônios Glicoproteicos
8,68%, bem como os antiulcerosos representaram 5,40%.
Em um estudo realizado, os grupos de medicamentos mais utilizados pelos entrevistados foram os
vitamínicos e minerais, os diuréticos, os hipotensores e os hormônios. Observou-se ainda, que nos
perfis epidemiológicos diferentes, os grupos farmacológicos eram semelhantes ainda que em ordem
diferente de prevalência.10
Na DRC, os níveis de cálcio, de fósforo e de seus hormônios reguladores, hormônio da paratireóide
e calcitriol, são alterados por inúmeras razões, sobretudo, devido a redução da eliminação renal de
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O uso dos fármacos na doença renal crônica pelos pacientes em hemodiálise
fósforo, da produção do calcitriol pelo rim e pela hipocalcemia em decorrência desses dois
processos. No tratamento desse desequilíbrio, são utilizados vitaminas, minerais e fármacos para o
controle do fósforo no sangue.15 Juntos, esses grupos farmacológicos representam 32,28% do total
de fármacos utilizados, sendo as vitaminas e os minerais o grupo mais prevalente da amostra obtida
neste estudo.
A DRC e a HAS frequentemente estão associadas, e os principais mecanismos patogênicos da HAS
na DRC são a sobrecarga de volume e a maior ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona.
Todas as classes de anti-hipertensivos são eficazes na redução da pressão arterial dos pacientes, no
entanto, o tratamento anti-hipertensivo em pacientes com DRC não visa apenas a redução da
pressão arterial, mas também, a redução da proteinúria, do risco cardiovascular e o ritmo de
progressão da doença. Assim, o tratamento deve ser individualizado a partir da causa da DRC e da
presença de doença cardiovascular preexistente ou não. Se levar em consideração que a
hipervolemia é um importante determinante da elevação da pressão arterial nos pacientes, conclui-
se que os diuréticos devem ser incluídos na maioria dos esquemas anti-hipertensivos.15,17 Neste
estudo, os anti-hipertensivos e os diuréticos são respectivamente o segundo e o sexto grupo
farmacológico mais utilizado.
A anemia é uma complicação da DRC, ocasionada basicamente pela deficiência de eritropoietina,
um hormônio glicoproteico produzido, sobretudo, no rim. Em resposta a hipóxia, o paciente com
DRC em TRS apresenta um estado inflamatório crônico, em decorrência da má resposta à ação
medular da eritropoetina, acarretando no desenvolvimento de anemia, na desnutrição, no
agravamento da aterosclerose e no aumento da mortalidade. 18 Fato esse que explica a alta
incidência do hormônio glicoproteico nos resultados obtidos, 8,68%.
Outro grupo medicamentoso que se destacou pela prevalência é o dos antiulcerosos. Um estudo
realizado apontou que medicamentos desta classe estavam presentes em 91,5% das 422 prescrições
analisadas. Os autores associam o uso destes medicamentos à prevenção de disfunções gástricas
causadas pela politerapia (uso concomitante de cinco fármacos ou mais), e ressaltam que essa
prática terapêutica deve ser mais estudada, visto que a história natural das doenças sugere que no
adoecimento há interação de um agente etiológico e um fator de risco, portanto, nos casos em que
se evidencia a politerapia e a prescrição de antiulcerosos para tratar “supostas” enfermidades que
possam vir a acontecer, os outros fármacos prescritos estão sendo vistos como agentes etiológicos
ou fatores de riscos. Os mesmos salientaram ainda que, independente da resposta, é necessário que
se busque evidências plausíveis, focadas na prevenção e no cuidado ao paciente. 19
No que se refere à Tabela 3, 92,2% dos pacientes faziam o uso de cinco medicações ou mais, e a
quantidade de fármacos prescrita aos pacientes participantes do estudo variou de 2 a 18
medicamentos. O número médio encontrado foi de oito medicamentos, referente à 12,05% dos
participantes da pesquisa.
O estudo em questão observou que a maior parte dos pacientes, 92,20 %, faz o uso de polifarmácia.
Concorda-se com o resultado encontrado em uma pesquisa realizada no noroeste do estado do Rio
Grande do Sul, que dos 91 entrevistados, apenas 17 não faziam o uso de cinco medicamentos ou
mais.15
É comum que pacientes renais crônicos apresentem outras morbidades crônicas, como HAS, DM e
problemas cardíacos que demandam controle medicamentoso. 20 Em um estudo realizado, dos 99
entrevistados, 55 responderam possuir outro tipo de doença, além da DRC, e desses, 53% relataram
ser portadores de hipertensão arterial, que vai ao encontro ao achado discutido anteriormente
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O uso dos fármacos na doença renal crônica pelos pacientes em hemodiálise
quanto ao uso de anti-hipertensivos e hipotensores arteriais.21
Na maioria das vezes, os protocolos terapêuticos dessas patologias preveem a combinação de vários
medicamentos, e com isso, a prescrição para os idosos, grupo mais prevalente nesta modalidade,
acometidos com uma ou mais doenças crônicas, possuindo alta probabilidade de ser apontada como
polifarmácia.22 Assim, os resultados apresentados em dois estudos podem ter relação com o perfil
dos pacientes participantes, em que prevaleceram os indivíduos idosos, que são mais suscetíveis ao
desenvolvimento de doenças crônicas.21,22
A prática da polifarmácia não quer dizer necessariamente que a prescrição e o uso dos fármacos
estejam equivocados. Por vezes, mostra-se necessária e precisam apenas de uma abordagem mais
criteriosa, pois como já foi exposto anteriormente, os pacientes, principalmente os idosos,
apresentam mais de um sintoma ou doença, acarretando na necessidade do uso de diversos
medicamentos, a fim de garantir uma qualidade de vida melhor. 23
Com relação à média de medicamentos utilizados, um estudo realizado em Porto Alegre/RS obteve
resultados de cerca de 6,3 fármacos por paciente, um número igualmente elevado de
medicamentos por paciente. O autor associa esse resultado à complexidade da DRC, cujo manejo
requer o uso de diversos medicamentos, com o objetivo de adiar a progressão da doença, controlar
as complicações correlacionadas e tratar as comorbidades. 24
Uma elevada quantidade de medicamentos prescritos pode dificultar o cumprimento do
tratamento, favorecendo esquecimento, o que também pode refletir em uma baixa adesão
medicamentosa. Para evitar esses resultados, sugere-se o tratamento supervisionado, uma
estratégia para ajudar na adesão terapêutica, cujo paciente é acompanhado com mais frequência
pelos profissionais da equipe de saúde, e não deve ser visto somente como uma supervisão da
administração de medicamentos, porém, como um conjunto de ações que possibilitem um vínculo
maior entre os profissionais, os pacientes e os familiares. 20
Conclusões
Este estudo buscou conhecer o perfil socioeconômico dos pacientes de um serviço de nefrologia da
cidade de Pelotas/RS, o grupo farmacológico dos medicamentos utilizados e a quantidade de
fármacos prescrita. Observou-se predominância de indivíduos do sexo masculino, na faixa etária dos
60 anos ou mais, autodeclarados brancos, com renda familiar mensal entre um e dois salários-
mínimos. Os pacientes que sabem ler eram maioria, assim como os que residiam na zona urbana,
não moravam sozinhos e eram casados ou estavam em uma união estável.
Com relação aos medicamentos prescritos, observou-se o predomínio dos grupos farmacológicos
das Vitaminas e Minerais, dos Anti-hipertensivos, dos Hormônios Glicoproteicos, bem como dos
medicamentos de controle do Fósforo no sangue, Antiulcerosos e Diuréticos. A maior parte dos
pacientes fazia uso de polifarmácia, 92,2%. A quantidade de fármacos prescrita aos pacientes
participantes do estudo variou de 02 a 18 medicamentos e o número médio encontrado foi de oito.
Esses números se dão, possivelmente, devido ao grande número de comorbidades relacionadas à
DRC.
As limitações deste estudo são referentes à dificuldade na obtenção de informações sobre os
fármacos prescritos aos pacientes, de modo que estes dados eram coletados diretamente dos
prontuários e alguns apresentavam-se incompletos ou desatualizados. Além do mais, os resultados
obtidos demonstraram que o paciente com DRC precisa de uma atenção diferenciada quanto ao seu
tratamento farmacológico, que possibilite a criação de estratégias de promoção à saúde mais
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O uso dos fármacos na doença renal crônica pelos pacientes em hemodiálise
específicas para estas pessoas, abordando aspectos relevantes com relação a prevenção, o
tratamento, o curso da doença e ao autocuidado.
Quanto ao cuidado de enfermagem, ele deve partir de uma relação em que se permita a criação de
vínculos e de troca de conhecimentos, de maneira que os profissionais valorizem o ser humano,
respeitando sua singularidade, superando as intervenções tradicionais com o auxílio do paciente,
da equipe e da comunidade, no que tange ao uso de fármacos e outros. Para tanto, é importante
que sigam sendo desenvolvidos estudos nesta área a fim de investigar aspectos que permitam
otimizar o cuidado interdisciplinar de pessoas submetidas à TRS, oportunizando melhorias na
qualidade de vida delas.
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utilizados e possíveis interações medicamentosas em doentes renais crônicos. Sci Med
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Submissão: 17/02/2020
Aceite: 16/09/2020
Saúde em Redes. 2020; 6(2):11-24
23 Saúde em Redes. 2021; 7(1)
O uso dos fármacos na doença renal crônica pelos pacientes em hemodiálise
APÊNDICES
Tabela 1 – Caracterização do perfil socioeconômico dos pacientes com a doença renal crônica em
tratamento hemodialítico de um serviço da unidade de terapia renal substitutiva. Pelotas, RS, Brasil 2017.
Total
Variáveis
N %
Sexo
Masculino 45 64,29
Feminino 25 35,71
Idade
18 a 29 anos 5 7,46
30 a 39 anos 4 5,97
40 a 49 anos 6 8,96
50 a 59 anos 13 19,40
60 a mais 39 58,21
Cor da pele
Branco 51 72,86
Preto 11 15,71
Pardo 7 10,0
Amarelo 1 1,43
Renda familiar
Menos 1 salário 6 8,57
1 a 2 salários 31 44,29
2 a 3 salários 24 34,29
3 salários ou mais 9 12,86
Sabe ler
Não 13 18,57
Sim 57 81,43
Procedência
Rural 10 14,49
Urbana 59 85,51
Mora sozinho
Não 59 84,29
Sim 11 15,71
Estado civil
Casado/união estável 40 57,14
Solteiro 20 28,57
Divorciado 5 7,14
Viúvo 5 7,14
Fonte: Recorte da macropesquisa “Atenção à saúde nos serviços de terapia renal substitutiva da Metade
Sul do Rio Grande do Sul”.
Saúde em Redes. 2020; 6(2):11-24
23 Saúde em Redes. 2021; 7(1)
O uso dos fármacos na doença renal crônica pelos pacientes em hemodiálise
Tabela 2 – Grupos farmacológicos utilizados pelos pacientes com a doença renal crônica em tratamento
hemodialítico de um serviço de terapia renal substitutiva. Pelotas, 2017.
Total
Variáveis
N %
Grupos farmacológicos utilizados (n=70)
Analgésicos Não Opióides 21 3,44
Anti-inflamatório Não Esteróide 30 4,91
Vitaminas e Minerais 162 26,55
Hipnóticos e Sedativos 2 1,31
Antidepressivos e Antimaníacos 17 2,78
Ansiolíticos 7 0,16
Anti-hipertensivos e Hipotensores Arteriais 79 12,95
Diuréticos 31 5,08
Antiarrítmicos 19 3,11
Antilipêmicos 22 3,60
Antianginosos 11 1,80
Antiagregante Plaquetário 16 2,62
Antiulcerosos 33 5,40
Insulinas e Outros Agentes Antidiabéticos 19 3,11
Hormônio Glicoproteico 53 8,68
Hormônio Hiperparoideano 6 0,98
Anti-histamínico 11 1,80
Controle do Fósforo no Sangue 35 5,73
Outros grupos Farmacológicos 36 5,90
Fonte: Recorte da macropesquisa “Atenção à saúde nos serviços de terapia renal substitutiva da Metade
Sul do Rio Grande do Sul”.
Tabela 3 – Quantidade de farmacológicos utilizados pelos pacientes com a doença renal crônica em
tratamento hemodialítico de um serviço de terapia renal substitutiva. Pelotas, 2017.
Total
Variáveis
N %
Quantidade de fármacos utilizados (N=64)
2 2 3,13
4 3 4,69
5 1 1,56
6 6 9,38
7 7 10,94
8 8 12,50
9 5 7,81
10 4 6,25
11 7 10,94
12 7 10,94
13 6 9,38
14 6 9,38
16 1 1,56
18 1 1,56
Fonte: recorte da macropesquisa “Atenção à saúde nos serviços de terapia renal substitutiva da Metade Sul
do Rio Grande do Sul”.
Saúde em Redes. 2020; 6(2):11-24
23 Saúde em Redes. 2021; 7(1)