0% acharam este documento útil (0 voto)
9 visualizações17 páginas

Desafios Políticos na Educação Atual

O artigo discute como as políticas educacionais influenciam a construção da cidadania, destacando a relação entre modelos de Estado e educação. A autora argumenta que o neoliberalismo transforma a educação em mercadoria, priorizando a formação de indivíduos adaptados ao mercado de trabalho, em detrimento da formação cidadã. Além disso, a privatização da educação pode aprofundar a exclusão social, minando o acesso à educação como um direito universal.

Enviado por

jady64060
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
9 visualizações17 páginas

Desafios Políticos na Educação Atual

O artigo discute como as políticas educacionais influenciam a construção da cidadania, destacando a relação entre modelos de Estado e educação. A autora argumenta que o neoliberalismo transforma a educação em mercadoria, priorizando a formação de indivíduos adaptados ao mercado de trabalho, em detrimento da formação cidadã. Além disso, a privatização da educação pode aprofundar a exclusão social, minando o acesso à educação como um direito universal.

Enviado por

jady64060
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

travessias número 02

revistatravessias@[Link]
ISSN 1982-5935

DESAFIOS POLÍTICOS PARA EDUCAÇÃO

POLITICAL CHALLENGES FOR EDUCATION


Graziela Rossetto Giron 1

RESUMO: O presente artigo se propõe a discutir em que consistem as


políticas públicas, mais especificamente as políticas educacionais, e como
estas influenciam na construção do conceito de cidadania. O texto aponta
que, para cada modelo de Estado, corresponde também um modelo de
educação, uma vez que o projeto educativo veicula uma imagem de
homem e de mundo que se deseja alcançar ou formar. Portanto, falar de
política educacional implica em considerar que a mesma articula-se à
construção de um projeto de sociedade e de cidadania. Compreender
quais são as políticas educacionais que orientam, atualmente, a educação
ajuda a clarificar as relações de poder que se estabelecem entre o Estado
e a sociedade, como também, o tipo de indivíduo que se está formando a
partir dessas políticas.

Palavras-chave: políticas educacionais; neoliberalismo; cidadania.

ABSTRACT: This article propose a discussion if wath consist the public


politics, more especific the educacional's politics, and how this thinks
influence in construction of in the concept of citizenship. The text apoint
for the each model of States, correspondent a model of education too,
because wich of all educacional's project make an imagine to the man
wich will catched or formed. Therefore, talk the education politics
implicate in considerat wich an education politics articulate, with a
construction the project of the society an citizenship. Understand what
are the education politics wich orientate the education, at this moment,
help a clarify the relations of the power wich firm between the State and
society, and the kind of person wich stay development this politics.

Keywords: education politics; neoliberalism; citizenship.

Políticas públicas e neoliberalismo

1 Professora da rede municipal de ensino de Caxias do Sul- RS. Licenciada em Ciências,


Pedagogia, especialista em Formação para Educação a Distância, e Mestre em
Educação. Contato: gironfamilia@[Link]

Graziela Rossetto Giron [Link]/travessias


II
A consciência da política surgiu pela primeira vez com Aristóteles, filósofo
grego que
afirmou que “o homem é um animal político”. O ser humano tem a
capacidade de organizar-se socialmente, assumindo a partir de suas
atitudes, do seu modo de pensar e decidir, posições políticas. A política
nasce, quando os homens começam a se organizar em sociedade, fazendo
escolhas para viabilizar a convivência em grupo. É nesse momento que
aparecem as diferentes posições políticas, diferentes concepções que
refletem uma idéia de homem, mundo e sociedade, que nunca são
neutras, mas reveladoras de como as pessoas são, pensam, ou entendem
o mundo.
Entretanto, quando se fala em políticas públicas deve-se ter em
mente as estruturas de
poder e de dominação presentes no tecido social; destas derivam as
políticas. As políticas públicas foram e são implementadas, reformuladas
ou desativadas de acordo com as diferentes formas, funções e opções
ideológicas assumidas pelos dirigentes do Estado, nos diferentes tempos
históricos. Com relação à proposição de políticas educacionais isso não é
diferente.
A cada modelo de Estado também corresponde uma proposta de
educação, uma vez
que “todo projeto educativo, todo discurso educativo veicula uma imagem
de homem, uma visão de homem” (GADOTTI, 1984, p. 144) que se deseja
formar. Dito de outra forma, a política educacional defendida por um
determinado governo reflete como ele entende o mundo e as relações que
se estabelecem na sociedade.
Segundo Ozga (2000), os governos usam a educação com fins
específicos como:
melhoramento da produtividade econômica; treino de mão-de-obra;
mecanismo de escolha e seleção para as oportunidades existentes; um
meio de transmissão cultural, através da qual as identidades nacionais
podem ser promovidas ou alteradas; e por fim, como lugar de preservação
e valorização de idéias e heranças relativas à identidade nacional.
De acordo com Saviani (1986), educação e política são práticas
distintas; no entanto,
mantém uma íntima relação:
III

[...] a educação depende da política no que diz respeito a


determinadas condições objetivas como a definição de
prioridades orçamentárias que se reflete na
constituiçãoconsolidação-expansão da infra-estrutura dos
serviços educacionais etc.; e a política depende da educação no
que diz respeito a certas condições subjetivas como a aquisição
de determinados elementos básicos que possibilitem o acesso à
informação, a difusão das propostas políticas, a formação de
quadros para os partidos e organizações políticas de diferentes
tipos, etc. (p. 89).

Dessa forma, falar em política educacional implica em considerar


que “a mesma
articula-se ao projeto de sociedade que se pretende implantar, ou que
está em curso, em cada momento histórico, ou em cada conjuntura,
projeto este que corresponde [...], ao referencial normativo global de uma
política”. (AZEVEDO, 2001, p. 60).
No que se refere às idéias e concepções sobre a constituição do
Estado, da política e
do ato de governar, ao longo do processo de formação histórica, alguns
pensadores políticos defenderam diferentes modelos de Estado. O Estado
liberal, proposto por Adam Smith 2
(escocês do século XVIII considerado o
fundador da ciência econômica), baseou-se na livre iniciativa e na isenção
ou não intervenção do Estado nos processos sociais. Porém, no fim do
século XX, o liberalismo político e o liberalismo econômico juntam-se em
um projeto hegemônico denominado neoliberalismo, em que o Estado
mínimo e a ampliação das relações mercantis são a tônica do processo. Os
principais mentores dessa proposta foram: Ronald Reagan (1980/1988) e
George Bush (1988/1992) nos EUA, e Margareth Thatcher (1979/1990) e
John Major (1990/1997) na Inglaterra. 3

Segundo Ball (1998, p. 126), o neoliberalismo “é aquilo que se poderia


chamar de
ideologias de mercado”, ou seja, uma proposta vinda do liberalismo que
se tornou “neo” por focalizar sua atenção nos aspectos econômicos das
propostas liberais. No neoliberalismo, ao invés da igualdade de valores de
direitos entre os seres humanos e do reconhecimento e respeito às

2 Para esse teórico, o homem é sempre impulsionado por algum interesse pessoal e
egoísta, e isso conduz o indivíduo, de modo natural, a preferir a modalidade de
investimento capaz de beneficiar a sociedade, pois aquilo que é vantajoso para ele
também será para a sociedade. Existe, portanto, nessa concepção de Estado, uma
noção
IV
diferenças (núcleo moral do liberalismo), o que é priorizado são as
reinterpretações econômicas que se possa fazer a respeito de cada um
desses aspectos.
O neoliberalismo expressou uma saída política, econômica, jurídica e
cultural específica
para a solução dos problemas cíclicos da economia do mundo capitalista.
Provocou uma modificação organizacional, estrutural e funcional do
Estado, minimizando o seu papel (no que diz respeito à garantia dos
direitos sociais), tendo como principal preocupação limitar a esfera de
influência do público no privado. Isto é: “a globalização do capitalismo e
de seu comparsa político, o neoliberalismo, funciona, de forma conjunta,
para naturalizar o sofrimento, para destruir a esperança e para aniquilar
a justiça.” (McLAREN, 1998, p. 88).
Dito de outra forma, a visão neoliberal propõe a precarização do Estado,
revelando o
fortalecimento da concepção de Estado mínimo, segundo a qual ele deixa
de “promover políticas sociais básicas, transferindo a responsabilidade
para a própria sociedade, dada a suposta incapacidade deste Estado de
responder a todas as demandas sociais”. (CRUZ, 2003, p. 12). Com a
restrição e/ou diminuição das funções do Estado, ocorre o repasse de
demandas para a iniciativa privada, ou seja, para a esfera do mercado, o
que reforça a segmentação social da população, uma vez que somente
terão acesso ao serviço privado aqueles que dispõe de uma boa condição
financeira. Ou seja, os direitos sociais se tornam mercadorias e o
movimento

de ordem natural que permite que a economia se auto-regule e encontre o equilíbrio


sem que o Estado precise intervir, pois a livre-concorrência e a liberdade de mercado
solucionariam os problemas econômicos.
3
A chegada ao poder dos governos de Thatcher e Reagan ocorreu sob a égide da
supremacia do mercado. Deu-se início a uma ofensiva política e social, cujo principal
objetivo era destruir o conjunto das instituições e das relações sociais que,
pretensamente, teriam engessado o capital no primeiro mandato de Roosevelt (EUA).
Houve uma liberalização e desregulamentação financeira que conduziram a um
crescimento muito rápido dos ativos financeiros. Essas reformas estruturais de
liberalização, desregulamentação e privatização, se realizaram no sentido de restaurar
o poder de dominação capitalista, objetivando fundar uma economia de mercado
integrada globalmente.

econômico restringe a esfera social da cidadania em favor da projeção do


mercado. Essa nova tendência teórica e política de ordenamento do
mundo capitalista:
V

[...] questiona e põe em xeque o próprio modo de organização


social e política gestado com o aprofundamento da intervenção
estatal. Menos Estado e mais mercado é a máxima que sintetiza
suas postulações, que tem como princípio chave a noção de
liberdade individual. (AZEVEDO, 2001, p. 11).

Neoliberalismo e educação

Ao contrário do que pregava o liberalismo clássico (que tinha por


base a defesa da
liberdade do indivíduo), o neoliberalismo reduziu o indivíduo a um mero
consumidor, onde o que passa a ser priorizado não é a liberdade da
pessoa, mas a liberdade econômica das grandes organizações que detêm
o poderio financeiro mundial.
E o que isso tudo tem a ver com a educação? Segundo Marrach
(1996) a retórica
neoliberal atribui um papel estratégico à educação ao:

¾ preparar o indivíduo para adaptar-se ao mercado de trabalho,


justificando que o mundo empresarial necessita de uma força
de trabalho qualificada para competir no mercado nacional e
internacional;

¾ fazer da escola um meio de transmissão da ideologia dominante


e dos princípios doutrinários do neoliberalismo, a fim de
garantir a reprodução desses valores;

¾ incentivar que a escola funcione de forma semelhante ao


mercado, adotando técnicas de gerenciamento empresarial,
pois essas são mais eficientes para garantir a consolidação da
ideologia neoliberal na sociedade.
Percebe-se que o discurso educativo neoliberal configura-se a
partir de uma
reformulação dos enfoques economicistas da teoria do capital humano, 3

em que a educação é definida como uma atividade de transmissão do

3 A teoria do capital humano colocou de forma precisa e unidirecional a relação entre


educação e desenvolvimento econômico, no contexto histórico de um capitalismo
baseado num modo de regulação fordista. Sob essa perspectiva, os conhecimentos que
aumentam a capacidade de trabalho constituem um capital que, como fator de
produção, garante o crescimento econômico de modo geral e, de forma particular,
contribui para incrementar o ingresso individual de quem o possui. (GENTILI, 1995).
VI
estoque de conhecimentos e saberes que qualificam para a ação
individual competitiva na esfera econômica, basicamente, no mercado de
trabalho.
No entanto, o discurso utilizado para definir o papel da educação
numa perspectiva
neoliberal é diferente daquele utilizado pela teoria do capital humano.
Nos anos 50 e 60, a educação era considerada um investimento
(individual e social), e o mercado daria conta de gerar uma multiplicação
de oferta de empregos e um aumento geral da riqueza para aqueles que
tivessem acesso à educação. Estudar significava, portanto, garantir um
lugar num mercado de trabalho em permanente e ilimitada expansão.
Porém, com os limites estruturais do fordismo e o esgotamento das
condições políticas
e econômicas que garantiam a sua reprodução ampliada, o neoliberalismo
impõe um outro desafio à educação: formar para que os indivíduos
tenham competências num mercado de trabalho cada vez mais restrito,
quando “os melhores”, e somente estes, conseguirão ter sucesso
econômico (ou emprego).
Sendo assim, no enfoque neoliberal, cabe à educação o papel de legitimar
novos e
velhos processos de exclusão verificados também no contexto social. Para
isso, devem difundirse no interior do sistema educacional as relações
mercantis de concorrência, isto é, “no discurso neoliberal a educação
deixa de ser parte do campo social e político para ingressar no mercado e
funcionar a sua semelhança”. (MARRACH, 1996, p. 43). Trata-se da
crescente subordinação ao econômico e da transformação da própria
educação em mercadoria, quando pais e alunos passam a ser vistos como
consumidores, e o conteúdo político da educação é substituído pelos
direitos do consumidor.
Os neoliberais acreditam que o poder público pode e deve dividir ou
transferir para o
setor privado as suas responsabilidades na área da educação,
favorecendo, com isso, o aquecimento do mercado e a melhoria na
qualidade dos serviços educacionais. É o que se chama privatização do
ensino. Os pais, como consumidores, têm direito de matricular seus filhos
numa escola que melhor contemple seus interesses. Esse movimento gera
uma disputa entre as escolas (competição), no sentido de oferecer um
VII
melhor “produto” (educação) aos seus “consumidores” (pais e alunos), o
que acaba qualificando o processo educativo.
Porém, quando se delega a oferta escolar para a iniciativa
privada, ocorre a fragilização e desagregação da escola pública
(minimizando a garantia de acesso à educação como direito de todos), e
modifica-se o padrão do ensino público (uma educação que contemple a
diversidade), pois existe a necessidade de adequar o currículo às
exigências do mercado (mais treinamento e menos formação escolar
stricto sensu). Ou seja, quando o Estado privatiza a escola pública 4
nega,
de certa forma, o direito à educação a maioria da população,
aprofundando os mecanismos de exclusão social aos quais estão
submetidos os setores populares.
O discurso educacional neoliberal está centrado na expressão qualidade
total 6, que à
primeira vista aparenta: excelência no ensino e na pesquisa; professores
competentes; alunos aptos para ingressarem no mercado de trabalho;
currículo com conteúdos científicos e tecnológicos atualizados. No
entanto, representa mais um ponto de vista empresarial do que
educacional, visto que traz em seu bojo um raciocínio tecnicista baseado
na produtividade e objetivando a performatividade na educação. A “escola
de qualidade” defendida pelos neoliberais, é aquela que apresenta um
ensino e uma gestão eficiente para competir no mercado, referendando a
idéia de que o aluno é um consumidor do ensino e o professor um
profissional bem treinado, tendo como principal incumbência preparar os
educandos para, mais tarde, se inserirem no mercado de trabalho. 7

A homogeneização dos conteúdos, a utilização de uma prática pedagógica


voltada para
o “saber fazer” (ou pelos menos fornecer as bases instrumentais para a
aquisição do saber fazer) e a implementação de uma política de avaliação
nacional (com o objetivo de mensurar o desempenho dos alunos e,

4 No livro escrito por Regina Magalhães de Souza, intitulado Escola e juventude, a


autora faz uma reflexão interessante sobre o que está acontecendo com a escola
pública nos dias de hoje. A autora diz que a escola tem se caracterizado pela efetiva
ausência de um projeto educativo que lhe dê substância e fundamento, bem como pela
fragilidade de integração de seus alunos com a organização. A principal habilidade
desenvolvida na escola resume-se no desenvolvimento da capacidade do indivíduo de,
pelo exercício do pensamento instrumental, adaptar-se a um meio social de regras
instáveis. “Em síntese, não é mais o disciplinamento da força de trabalho o que
promove a escola, mas a adaptação do indivíduo à instabilidade, à ausência de
autoridade e de critérios, à prevalência dos interesses
VIII
conseqüentemente, do sistema educacional vigente) são ações que visam
a garantir o controle e a efetivação da proposta educativa neoliberal. Em
outras palavras, no modelo educacional proposto pelo neoliberalismo, “a
escola que na origem grega designava o lugar do ócio, é transformada em
um grande negócio”. (SHIROMA et alii, 2004, p. 120).
Segundo Candeias (1995, p. 167), “o que se percebe é que para as
massas, para o
comum das pessoas, aprender a ler, escrever e contar [...] é mais do que
suficiente para o papel que delas se espera: o de subordinados”. Quando
se quer subalternos eficientes (tanto nas empresas como na sociedade),
pessoas que saibam apenas acatar e cumprir ordens, sem muita iniciativa
e criatividade, adotam-se práticas pedagógicas que defendem a
simplificação e o pragmatismo dos conteúdos, como forma de expansão
massiva dos setores com necessidades de

individuais sobre os coletivos, ao descrédito da justiça e da lei, característicos da vida


contemporânea”. (SOUZA, 2003, p. 183).
6
Esse conceito tem sido muito utilizado por representantes empresariais no tocante à
redução de custos, aumento da produção, diminuição da mão-de-obra, aumento da
produtividade e, portanto, ao lucro empresarial.
7
Nesse sentido, cabe aqui uma ressalva feita por Marrach (1996): mesmo que o
discurso neoliberal aponte que a educação tem o papel estratégico de preparar mão-
de-obra para o mercado de trabalho, a revolução tecnológica tem ocasionado um
grande índice de desemprego estrutural, o que nos remete a pensar que a escola não
está conseguindo cumprir nem mesmo as funções primordiais atribuídas a ela pelo
modelo neoliberal. Souza (2003) diz que a escola não está mais conseguindo formar e
disciplinar a força produtiva como acontecia nos anos 70 e 80. “Em meio ao crescente
desemprego e à grande competição por postos de trabalho, o próprio mercado tem se
encarregado de formar sua mão-de-obra.” (SOUZA, 2003, p. 10). E acrescenta: “Uma
vez que as possibilidades de inserção profissional estão cada vez mais limitadas, cabe
lembrar que o grau de escolaridade é necessário, mas não suficiente para garantir a
ocupação; [...] a seleção do mercado de trabalho caracteriza-se por um credencialismo
que remete para segundo plano o conhecimento e as formações escolares, fazendo da
escola regular não a agência formadora de mão-de-obra, mas uma mera distribuidora
de certificados.” (p. 36-37).

mão-de-obra barata e com pouca formação. Ou seja, o currículo deve


apenas informar a não formar a massa .
Apesar do modelo neoliberal basear-se na desigualdade social, a escola
vende a idéia
de que o sucesso depende do empenho e desempenho de cada um,
reforçando a lógica de que, numa sociedade moderna, só vencem os
melhores, e que, se o aluno não conseguiu atingir os resultados
esperados, a culpa não é da escola (ou da sociedade), mas dele, que não
teve competência para atingir os objetivos propostos.
IX
A educação tem grande importância para o projeto neoliberal, pois
legitima a
desigualdade (base do sistema econômico capitalista). Partindo do
pressuposto que a educação possibilita aos alunos as mesmas
oportunidades, a educação prova que desigualdade é eticamente justa,
por ser uma opção individual. O maior problema é que esse discurso
desmonta toda e qualquer possibilidade de construção de um espírito
solidário e cooperativo entre as pessoas, acirrando cada vez mais a
disputa e a competição, o que contribui para o reforço da ideologia
excludente pregada por esse modelo econômico.

A educação no Brasil

No fim dos anos 80 e 90, começaram a circular no meio educacional,


palavras como:
qualidade total, modernização do ensino, adequação ao mercado de
trabalho, competitividade, eficiência e produtividade, fruto da ideologia
neoliberal. Atribuiu-se à educação, a responsabilidade de dar sustentação
à competitividade do país, pois enquanto consenso mundial, se
disseminou a idéia de que para “sobreviver à concorrência do mercado,
para conseguir ou manter um emprego, para ser um cidadão do século
XXI, seria preciso dominar os códigos da modernidade”. (SHIROMA et
alii, 2004, p. 54).
Documentos provenientes de organismos internacionais como:
Banco Mundial (BM), Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco
Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), Banco
Interamericano de Desenvolvimento (BID), Organização Mundial do
Comércio (OMC), Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
(PNUD), Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL),
Associação Latino-Americana para o Desenvolvimento Industrial e Social
(ALADIS), propalaram soluções consideradas cabíveis aos países em
desenvolvimento, no que tange tanto à educação quanto à economia.
A partir da Conferência Mundial de Educação para Todos (1990),
realizada em Jontiem (Tailândia), financiada pela Organização das Nações
Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), Fundo das Nações
Unidas para a Infância (UNICEF), o PNUD e BM, ficou acordado com
X
representantes de diversos governos e entidades não-governamentais,
associações profissionais e educadores do mundo inteiro, que todos se
comprometeriam em garantir uma educação básica de qualidade para
todas as crianças, jovens e adultos do seu país. (MELO, 2004).
A Educação Básica deveria dar conta de atender as necessidades básicas
da aprendizagem, 5
visando: a redução da pobreza; o aumento da produtividade dos
trabalhadores; a redução da fecundidade; a melhoria da saúde, além de
dotar as pessoas de atitudes necessárias para participar plenamente da
economia e da sociedade. Ou seja, investir na educação básica
contribuiria para formar trabalhadores mais adaptáveis, capazes de
adquirir novos conhecimentos sem grandes dificuldades, atendendo
assim, a nova demanda do mercado globalizado. 6

Essas reformas consistem na retomada dos pressupostos liberais,


impondo aos países
em desenvolvimento, diretrizes políticas de ajuste estrutural conveniente
aos interesses do capital estrangeiro, como: redução dos gastos públicos
com os setores sociais; uniformização e a integração dos países às
políticas econômicas globais; restrição da criação científica e tecnológica
para os países pobres; e um investimento na educação, principalmente,
com o objetivo de proporcionar à população a aquisição de competências,
habilidades e valores mínimos, necessários ao mercado.
No caso do Brasil, a implementação dessas políticas internacionais teve
início no
governo Itamar Franco, a partir da elaboração do Plano Decenal de
Educação para Todos. 7
Porém, foi no governo de Fernando Henrique
Cardoso que a reforma anunciada se concretizou. Essas reformas
educacionais se realizaram “como elemento do projeto neoliberal de
sociedade, num processo histórico de mundialização do capital”. (MELO,

5 Esse conceito refere-se àqueles conhecimentos teóricos e práticos, às capacidades,


aos valores e às atitudes indispensáveis ao sujeito para enfrentar suas necessidades
básicas em sete situações: 1) sobrevivência; 2) desenvolvimento pleno de suas
capacidades; 3) vida e um trabalho digno; 4) participação plena no desenvolvimento; 5)
melhoria na qualidade de vida; 6) tomada de decisões informadas; 7) possibilidade de
continuar aprendendo. (SHIROMA et alii, 2004).
6 Essas proposições também foram explicitadas no Consenso de Washington (1989),
reunindo nos EUA, técnicos do BM, do FMI e do BIRD, com o objetivo de discutir as
reformas econômicas e educacionais que deveriam ser adotadas pelos países em
desenvolvimento.
7 A partir desse plano, o Brasil traçou as metas locais (contemplando aspectos
referendados no acordo firmado em Jontiem), acenando aos organismos internacionais
que o projeto educacional por eles prescrito seria aqui implantado.
XI
2004, p. 163). Em 20 de dezembro de 1996 foi promulgada a Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394), uma lei de educação
que objetivou a aquisição de novas competências e habilidades pelos
indivíduos, no intuito de promover a uniformização da integração global
do mercado.
Segundo Demo (1997), a nova LDB possibilitou alguns avanços, mas
também
retrocessos à educação nacional. Com relação aos avanços, o autor
ressalta: a integração da educação infantil como parte do sistema
educacional; a obrigatoriedade da escolarização no
Ensino Fundamental, ligada a padrões de qualidade (embora não sejam
claramente explicitados); ênfase na gestão democrática (pedagógica e
administrativa); avanço na concepção de educação básica (vista como
sistema de educação e não de ensino); institucionalização da Década da
Educação. 8

Com relação aos “ranços” da Lei, Demo (1997) comenta: que apesar de
introduzir
alguns componentes atualizados e interessantes, a Lei não é inovadora,
predominando no corpo da mesma uma visão tradicional que impede de
perceber o quanto às oportunidades de desenvolvimento dependem da
qualidade educativa da população; referenda a aquisição e não a
construção do conhecimento, contrariando as modernas teorias de
educação; apesar do avanço nos processos avaliativos do rendimento
escolar, nem sempre a aprendizagem é o fim maior, passando a idéia de
que o aluno tem de progredir a qualquer custo; a valorização do
magistério não acontece no sentido de melhoria tanto do salário quanto
da formação continuada dos professores; a formação docente não é
pautada no ensino, pesquisa e extensão, mas na aplicação prática do
conhecimento.

8 A Década da Educação consiste num documento que apresenta uma série de


propostas para a educação brasileira, para serem cumpridas a partir da publicação da
LDB e num prazo de dez anos, como: matrícula de todos os educandos no Ensino
Fundamental a partir dos 7 anos; oferta de cursos presenciais e a distância aos jovens
e adultos insuficientemente escolarizados; realização de programas de capacitação
para todos os docentes em exercício; integração de todos os estabelecimentos de
educação fundamental no sistema nacional de avaliação do rendimento escolar;
esforço no sentido de transformar as escolas da rede urbana em escolas de tempo
integral; admissão somente de professores habilitados em nível superior ou pela escola
normal.
XII
A atual LDB “trata-se de um saber pensar que, de maneira alguma, basta-
se com o
pensar, pois sua razão de ser é a de intervir” (DEMO, 1997, p. 78),
estabelecendo uma relação muito próxima entre educação e qualificação
profissional, faltando-lhe a percepção da importância da educação como
processo de humanização e reconstrução social.
Nesse contexto, a proposta educativa referendada pela lei máxima da
educação em
nosso país, tem provocado (entre outras coisas): o desmonte dos sistemas
educativos públicos; estimulado a privatização do ensino de forma
competitiva; restringido e separado os diferentes níveis de ensino
(dificultando, inclusive, o acesso ao conhecimento). Ou seja, através da
desregulamentação dos critérios legais foi ampliado o setor educativo
privado, fazendo com que a oferta escolar pública fosse deslocada para a
particular, desresponsabilizando, assim, o Estado da tarefa de educar.
Essa estratégia de desresponsabilização do Estado para com a educação
está
contribuindo para a redução de ofertas dos serviços educacionais ao povo
brasileiro, uma vez que ao transferir a educação para a esfera do
mercado, esta deixa de ser direito universal e passa a ser condição de
privilégio (se torna seletiva e excludente), na medida em que, só alguns
conseguem ter acesso e se manter no sistema educativo.

Por meio de entidades públicas não governamentais, o Estado


convoca a iniciativa privada a compartilhar das responsabilidades
pela educação, reafirmando a velha tese da social-democracia de
que se a educação é uma questão pública não é necessariamente
estatal. (SHIROMA et alii, 2004, p. 116).

Educação e cidadania: reflexões finais

De acordo com Schugurensky (1999), ao longo da história da humanidade


tem-se
observado a existência de inúmeras definições do conceito de cidadania,
pois são várias as maneiras de abordar dinâmicas de inclusão e exclusão,
de entender o que é considerado direito e/ou responsabilidade de um
indivíduo na sociedade. “Na tradição liberal, a noção de cidadania se
refere às expectativas e à normatividade que regem as relações entre
XIII
indivíduos e Estadonação”. (SCHUGURENSKY, 1999, p. 189). Desde o
pós-guerra, o debate sobre cidadania tem dado ênfase à distinção entre
direitos civis, políticos e sociais, caracterizado pela Declaração Universal
dos Direitos Humanos (teoria de Marshall) e a crescente consolidação do
Estado de Bem-estar social.
Em contrapartida, sob a influência do modelo neoliberal, o “conceito de
cidadão
compete com o conceito de consumidor ou cliente” (SCHUGURENSKY,
1999, p. 189), ou seja, o discurso que antes era centrado em direitos
inalienáveis do indivíduo passa a ser substituído por um discurso que
privilegia a competitividade, a individualidade e a eficiência, tendo em
vista satisfazer as exigências do mercado e da economia mundial.
Como já foi dito anteriormente, a educação, nos diferentes momentos
históricos, esteve
ligada a uma determinada visão social, foi usada para se ganhar espaço e
projeção na sociedade. Isso deve-se ao fato de que, o projeto de educação
revela um tipo de interesse a ser defendido, ou seja, traz em seu bojo a
defesa de uma concepção de sujeito e de sociedade que se pretende
implementar. Segundo Freire (1998, p. 28), a partir do sistema educativo
adotado por um país, pode-se contribuir para a reprodução de uma
ideologia dominante ou trabalhar a favor da emancipação de uma
sociedade, “[...] quando se reforça a capacidade crítica do educando, sua
curiosidade, sua insubmissão”.
Na proposta educativa referendada pela lógica neoliberal (onde as
práticas sociais estão
alicerçadas numa relação meramente econômica), a concepção de
sociedade e de cidadania que vem a tona é aquela que prima pela ética
utilitarista, pelo individualismo, pela exclusão e pela competitividade.
Dito de outra forma, quando as políticas educacionais implementadas são
fruto de uma ideologia onde “a educação é condição necessária para a
reprodução econômica e ideológica do capital” (CRUZ, 2003, p.16), ideais
como: igualdade de oportunidades, participação e autonomia, passam a
ser subordinados à lógica racional do mercado, e as reformas na área
educacional ficam reduzidas ao cumprimento de objetivos que atendem,
prioritariamente, ao imperativo econômico.
No entanto, uma forma de se romper com esse ciclo de crueldades e de
marginalização
XIV
social imposto pela lógica neoliberal, é acreditar e lutar por um outro
modelo de educação; uma educação comprometida com a formação de
indivíduos críticos e conscientes do seu papel social, pautada na
construção democrática e no diálogo.
A Educação Popular surge em contrapartida a esse modelo de educação
neoliberal;
fundamenta-se nos princípios de uma educação emancipatória e
humanizadora, em que a razão de ser do ato de educar não é apenas
capacitar os indivíduos (por meio de transferência de conhecimentos) a
viverem e se adaptarem ao mundo em que vivem, mas torná-los
conscientes. Atribuir à educação uma finalidade utilitária, destinando-a a
formatação e adaptação das pessoas à sociedade, é algo muito cruel.
“Ainda que represente uma escolha de saberes, de sentidos, de
significados, de sensibilidades e de sociabilidades, entre outras, a
educação não pode preestabelecer de maneira restrita modelos de
pessoas”. (BRANDÃO, 2003, p. 21).
A Educação Popular é uma proposta educacional voltada aos
interesses populares (produzida pelas classes populares ou para as
classes populares 9
) visando, fundamentalmente, a ser uma educação
democrática, ou seja, propiciar maior conscientização aos excluídos da
sociedade, para que lutem pela garantia dos seus direitos como cidadãos.
Suas práticas estão, predominantemente, voltadas para o exercício da
cidadania, para a afirmação e o desempenho do papel que as classes
populares deveriam assumir no cenário político e social.
A implementação de uma educação comprometida com a mudança social
tem um
importante papel a cumprir, pois auxilia na promoção e aquisição de
saberes e competências necessárias, para que as pessoas possam
participar dos processos de deliberação e de tomada de decisões na
sociedade, resgatando o direito de ser cidadão na plenitude da palavra.
Investir numa educação que se alinhe com os interesses e os projetos
sociais dos menos favorecidos, que promova o desenvolvimento de
sujeitos com capacidade de analisar criticamente a realidade e

9 Classes populares são aquelas que vivem uma condição de exploração e de


dominação no capitalismo, sob múltiplas formas. Exploração que se liga tipicamente à
atividade produtiva, mas se produz e se reproduz em outras dimensões do processo
econômico, como nos planos social e político. (WANDERLEY, 1986).
XV
transformá-la, é urgente, principalmente quando se deseja construir uma
sociedade digna e humana, que privilegie o “ser” em detrimento do “ter”.

Referências bibliográficas:

AZEVEDO, Janete M. Lins de. A educação como política pública.


Campinas, SP: Autores Associados, 2001. v. 56. (Coleção Polêmicas do
Nosso Tempo).

BALL, Stephen. Cidadania global, consumo e política educacional. In:


SILVA, Luiz Heron (Org.). A escola cidadã no contexto da
globalização. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.

BARROSO, João. Gestão local da educação: entre o Estado e o mercado, a


responsabilização coletiva. In: MACHADO, Lourdes Marcelino;
FERREIRA, Naura Syria Carapeto (Org.).
Política e gestão da educação: dois olhares. Rio de Janeiro: DP&A,
2002.

BRANDÃO, Carlos R. A pergunta a várias mãos: a experiência da


pesquisa no trabalho do educador. São Paulo: Cortez, 2003.

CANDEIAS, Antônio. Políticas educativas contemporâneas: críticas e


alternativas. Revista Educação & Realidade, v. 20, n.1, jan/jun. 1995.

CRUZ, Rosana Evangelista. Banco Mundial e política educacional:


cooperação ou expansão do capital internacional? Curitiba: UFPR, 2003.

DEMO, Pedro. A Nova LDB: Ranços e Avanços. Campinas, SP: Papirus,


1997.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática


educativa. São Paulo:
Paz e Terra, 1998.
XVI
GENTILI, Pablo. O que há de novo nas novas formas de exclusão
educativa? Neoliberalismo, trabalho e educação. Revista Educação &
Realidade, v. 20, n.1, jan./jun. 1995.

GADOTTI, Moacir. A educação contra a educação. Rio de Janeiro: Paz e


Terra, 1984.

McLAREN, Peter. Traumas do capital: pedagogia, política e práxis no


mercado [Link]: SILVA,
Luiz Heron (Org.). A escola cidadã no contexto da globalização.
Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.

MARRACH, Sonia Alem. Neoliberalismo e educação. In: GHIRALDELLI


JÚNIOR, Paulo (Org.). Infância, educação e neoliberalismo. São Paulo:
Cortez, 1996.

MELO, Adriana Almeida Sales. A mundialização da educação:


consolidação do projeto neoliberal na América Latina. Brasil e Venezuela.
Maceió: Edufal, 2004.

OZGA, Jenny. Investigação em políticas educacionais: terreno de


contestação. Porto: Porto, 2000.

SAVIANI, Demerval. Escola e democracia. São Paulo: Cortez, 1986.

SCHUGURENSKY, Daniel. Globalização, democracia participativa e


educação cidadã: o cruzamento da pedagogia e da política pú[Link]:
SILVA, Luiz Heron. Século XXI: Qual conhecimento? Qual currículo?
Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.

SOUZA, Regina Magalhães de. Escola e Juventude: o aprender a


aprender. São Paulo:
Educ/Paulus, 2003.

SHIROMA, Eneida O; MORAES, Célia M; EVANGELISTA, Olinda. Política


educacional.
Rio de Janeiro: DP&A, 2004.
XVII
WANDERLEY, Luis Eduardo W. Educação popular e processo de
democratização. In: Brandão, Carlos Rodrigues (Org.). A questão
política da Educação Popular. São Paulo:
Brasiliense, 1986.

Você também pode gostar