ENGENHARIA BIOQUÍMICA
Marcos Henrique de Araújo
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SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO À BIOTECNOLOGIA ............................................................ 3
2 ENGENHARIA GENÉTICA I ...................................................................... 29
3 ENGENHARIA GENÉTICA II ..................................................................... 49
4 ENZIMAS E PROCESSOS FERMENTATIVOS ............................................. 67
5 BIOTECNOLOGIA APLICADA E MEIO AMBIENTE ..................................... 86
6 MICROBIOLOGIA INDUSTRIAL E BIOTECNOLOGIA APLICADA NA
AGRICULTURA ........................................................................................ 114
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1 Introdução à Biotecnologia
A biotecnologia está presente em nosso dia a dia, contribuindo de forma significativa
para a nossa qualidade de vida.
O avanço das pesquisas principalmente nas áreas da biologia molecular e celular;
engenharia genética; microbiologia; e química e engenharia de processos
impulsionaram a biotecnologia nas últimas décadas, proporcionando a otimização, a
ampliação e o surgimento de novos processos industriais que contribuíram para a
descoberta de novos metabólicos destinados a uma variedade de aplicações industriais
nos setores alimentício, químico, petrolífero, têxtil, fármaco, ambiental, mineração,
calçados, cosméticos, dentre outros.
Essa evolução no desenvolvimento de tecnologias e produtos evidenciou o importante
papel da biotecnologia ao proporcionar os mais variados benefícios trazidos à
sociedade, melhorando a vida e a saúde das pessoas.
Nesse bloco, vamos apresentar um breve histórico da biotecnologia, a descoberta dos
processos fermentativos, a conservação dos alimentos, a extração de produtos de
origem vegetal e os tipos de microrganismos utilizados nos estudos de interesse
biotecnológico, além da evolução das mais variadas técnicas que envolvem tanto a
biotecnologia clássica quanto a biotecnologia moderna, aplicadas nos mais diversos
setores produtivos.
1.1 História da Biotecnologia Clássica e Moderna
Existem uma grande diversidade de definições para o termo Biotecnologia. Essas
variações de conceitos ocorrem devido ao avanço das pesquisas sobre o conhecimento
dos seres vivos adquiridos pelo homem ao longo do tempo nas múltiplas áreas do
conhecimento que envolvem essa ciência (GUSMÃO, 2017). Dentre as várias
definições, apresentamos alguns conceitos sobre o termo “biotecnologia”, já descritos
em diversos estudos.
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Conjunto de técnicas aplicadas na manipulação de seres vivos, ou parte destes, para
fins econômicos, por meio da produção de bens e serviços, utilizando-se de uma
diversidade de antigas e modernas tecnologias que envolvem, desde processos de
fermentação, até experimentos em manipulação genética que resultarão, ao longo do
tempo, em grandes avanços na área da biologia molecular. (FIGUEIREDO et al, 2006).
Segundo MALAJOVICH (2011), a biotecnologia pode ser definida de uma forma mais
ampla como uma “atividade baseada em conhecimentos multidisciplinares, que utiliza
agentes biológicos para fazer produtos úteis ou resolver problemas”.
De acordo com BRASIL (2010), o termo biotecnologia pode ser apresentado como “um
conjunto de técnicas de natureza variada que envolve uma base científica comum, de
origem biológica, e que requer crescentemente o aporte de conhecimento científico e
tecnológico, oriundos de outros campos do conhecimento”.
Apesar do termo biotecnologia ser utilizado somente no início do século XX, estima-se
que os princípios da biotecnologia clássica já eram aplicados pelo homem desde a
antiguidade, apesar do desconhecimento da existência dos microrganismos e da
genética. Entretanto, com base no conhecimento empírico, existia o uso de técnicas de
preparação na conservação dos alimentos e bebidas por meio dos processos de
fermentação, na domesticação de animais, no cultivo de plantas e na extração de
produtos de origem vegetal para o tratamento de infecções. (MALAJOVICH, 2011).
Segundo SILVEIRA (2002), a biotecnologia Tradicional ou Clássica é caracterizada por
apresentar um conjunto de técnicas amplamente disseminadas que se utilizam de
seres vivos encontrados em seu ambiente natural ou melhorados pelo homem, por
meio da aplicação de técnicas de isolamento, seleção e cruzamentos genéticos entre
espécies compatíveis.
Presume-se que, em 8.000 a.C., na região da Mesopotâmia, os povos selecionavam as
melhores sementes produzidas pelas plantas para a obtenção de um aumento na
produtividade de sua colheita. Registros históricos também apontam o uso da
biotecnologia em processos de fermentação do trigo e uva para a produção de vinho e
pães, respectivamente, datados de 7.000 a.C. e na fermentação do leite por meio da
manipulação de leveduras e bactérias em 3000 a.C, para a fabricação de queijos
(EMBRAPA 2011).
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Apesar do grande uso dos processos de fermentação ao longo da história, somente na
segunda metade do século XVII, após a descoberta da célula pelo cientista inglês
Robert Hooke ao examinar cortiça de vegetal ao microscópio, houve o avanço de
novas descobertas no campo da biologia. Na década seguinte, em 1675, o naturalista
holandês Antony van Leeuwenhoek construiu seu próprio microscópio, permitindo
observar pela primeira vez protozoários, bactérias e células animais (BORÉM, 2005).
Porém, somente em 1839, o botânico Matthias Schleiden e o zoólogo Theodor
Schwann publicaram a Teoria Celular, reconhecendo a célula como unidade
morfológica e fisiológica dos seres vivos, fundamental para a manutenção da vida.
O químico francês Louis Pasteur, em 1862, por meio da realização de estudos na
indústria vinícola, descobriu a ação dos microrganismos no processo de fermentação,
trabalho esse apresentado a Societé de Sciences de Lille. Elaborou também a Teoria
Germinal das doenças infecciosas onde enfatiza-se que a maioria dessas doenças são
causadas por microrganismos e, no desenvolvimento de metodologias para combater
os agentes infecciosos, como a adoção de noções básicas de esterilização podem
prevenir infecções nos procedimentos cirúrgicos.
Nesse mesmo período, o cientista alemão Robert Kock desenvolveu técnicas para o
estudo de microrganismos, publicando os Postulados de Kock, teoria essa que associa
um microrganismo específico a uma doença específica, representando um grande
avanço no estudo das doenças infecciosas.
Podemos destacar também, a contribuição do monge austríaco Gregor Mendel que,
em 1866, conseguiu elucidar os segredos da hereditariedade ao realizar experimentos
com ervilhas, sendo reconhecido posteriormente como o Pai da Genética (EMBRAPA
2011).
Na primeira metade do século XIX, o pesquisador Frederick Griffith descobriu o
princípio genético da transformação que demonstrou a capacidade de transferência de
informação genética de uma linhagem bacteriana a outra.
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O ano de 1953 foi considerado um marco para a ciência, com a descoberta da
estrutura química da molécula do DNA pelos cientistas da Universidade de Cambridge,
James Watson e Francis Crick, contribuindo diretamente para o avanço dos estudos na
área da genética e biologia molecular. Eles demonstraram que o modelo da molécula
de DNA apresenta duas fitas de nucleotídeos pareadas entre si, por meio do
estabelecimento da combinação entre as bases químicas desses nucleotídeos: Adenina
(A) associando-se a Timina(T) e a base Citosina(C) associando-se com a Guanina(G).
Essas duas cadeias de nucleotídeos estão unidas por pontes de hidrogênio e
apresentam a forma helicoidal ou em dupla-hélice.
A partir do conhecimento da molécula de DNA, foi possível entender os mecanismos
de replicação desse ácido nucléico, responsável pela transmissão dos caracteres
hereditários de geração e consequentemente perpetuação das espécies.
Com a divulgação do modelo de DNA proposto por Watson e Crick, houve uma
revolução em estudos realizados, principalmente nas áreas da genética e biologia.
Surge, no início dos anos 70, a Biotecnologia Moderna, por meio do desenvolvimento
de pesquisas envolvendo a manipulação genética e a utilização de técnicas de DNA
recombinante, possibilitando a ciência da biotecnologia interagir com as diversas áreas
do conhecimento como a citologia, biologia molecular, genética, microbiologia,
farmacologia, química, dentre outras, para o melhoramento de plantas, animais e
microrganismos, além de outras aplicações na saúde e na indústria. Portanto, a
biotecnologia moderna desenvolve os seus estudos com partes de organismos (células
e moléculas), frequentemente modificando-as com técnicas de engenharia genética.
No ano de 1972, surge a engenharia Genética, com o experimento realizado por
cientistas americanos ao ligarem plasmídeo de DNA bacteriano de [Link] com o
genoma do papilomavírus.
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Outro experimento de transformação gênica ocorreu em 1973 realizada na Califórnia
pelos pesquisadores Hebert Boyer e Stanley Cohen ao construírem um gene com parte
do plasmídeo bacteriano e parte do DNA de um sapo (Xenopus laevis). Esse estudo
abriu um novo caminho na área do melhoramento genético e desenvolvimento de
variedades (BORÉM e VIERA, 2005).
Em 1975, devido ao aumento considerável de experimentos com DNA recombinante,
foi realizada a Conferência de Asilomar nos Estados Unidos, onde diversos especialistas
se reuniram para estabelecer normas para a regulamentação dos experimentos com
DNA-recombinante.
Um importante fato a ser destacado, que contribuiu diretamente para a popularização
da biotecnologia, foi o estudo realizado por Kary B. Mullis, em 1983, que utilizou uma
técnica de reação de polimerização em cadeia (PCR), permitindo ampliar o material
genético em tubos de ensaio, contribuindo para a aplicação desse processo em
diversas áreas da biotecnologia (FERRO, 2010).
Nesse mesmo período, técnicas de DNA recombinante foram utilizados na produção
do hormônio de crescimento humano e insulina humana e os primeiros experimentos
de Engenharia Genética em plantas.
Um marco importante a ser destacado na história da biotecnologia moderna no ano de
1997, foi a publicação do estudo que originou o primeiro mamífero clonado, a ovelha
Dolly, por meio da transferência nuclear de células somáticas.
Em 1999 é apresentado os resultados referentes ao sequenciamento do primeiro
cromossomo humano. Nesse mesmo ano, pesquisadores descobrem que as células
tronco podem ser estimuladas a produzir diversos tipos celulares.
No início do século XXI foi publicado nas revistas Science e Nature, o rascunho do
sequenciamento do genoma humano. Simultaneamente, outros estudos estavam em
desenvolvimento, como o sequenciamento do genoma do arroz e banana, de grande
importância agronômica para os países em desenvolvimento e a obtenção de células
do sangue por meio do cultivo de células troco embrionárias. Inicia-se a utilização de
células tronco adultas para o tratamento de diversas doenças como diabetes, doenças
de Chagas e leucemia. (MALAJOVICH,2011).
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A engenharia genética, por meio da transferência de genes entre espécies diferentes,
origina um organismo geneticamente modificado (OGM) e na fusão celular que
consiste na formação de uma célula originada a partir da fusão de duas células
diferentes, constitui o principal campo de pesquisa que envolvem a biotecnologia
moderna (BORÉM e VIEIRA, 2005).
Experimentos em clonagem; alimentos transgênicos; fermentações industriais;
desenvolvimento de fármacos; vacinas e novos testes diagnósticos; sequenciamento
de genomas; construção de célula sintética; uso de microrganismo na agricultura e
recuperação de áreas degradadas; controle biológico; identificação das regiões ativas
do genoma humano; e desenvolvimento do rascunho do proteoma humano são
exemplos atuais das principais técnicas relacionadas à biotecnologia moderna.
A figura 1.1 representa as diversas técnicas aplicadas relacionadas à biotecnologia:
Fonte: adaptado de Malajovich,2011.
Figura 1.1 - Principais técnicas relacionadas à biotecnologia
1.2 Tipos Celulares de Interesse em Biotecnologia
A biotecnologia se baseia na utilização de sistemas celulares para desenvolver
processos e produtos de interesse econômico e social. Dentre os muitos organismos
que apresentam grande interesse biotecnológico, podemos destacar:
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Archaea
As Arqueobactérias, ou arqueas, apresentam estrutura celular procariótica como as
bactérias, porém a sua estrutura evolutiva é distinta do grupo das eubactérias. O grupo
de Archeas, denominado Euryarchaeota, apresenta uma grande diversidade de
espécies que vivem em ambientes extremos, como os organismos denominados
halófilos extremos, que habitam ambientes naturais com grandes concentrações de
sais ou vivem em ambientes salinos artificiais, como a superfície de alimentos
salgados. Outros microrganismos que vivem em sedimentos pantanosos, pertencentes
a esse mesmo grupo são considerados metanogênicos, pois apresentam a capacidade
de produzir gás metano (MADIGAN, 2010).
Outros grupos de arqueas habitam outros tipos de ambientes inóspitos em regiões que
apresentam extremos térmicos, como fontes termais submarinas, fendas quentes,
águas antárticas profundas e gelo marinho.
Devido a essas particularidades, os estudos realizados com os microrganismos halófilos
tem aumentado consideravelmente para serem utilizados em processos industriais
que exigem condições extremas de temperatura, na produção de metano em reatores
experimentais e no tratamento de efluentes (MALAJOVICH, 2011); (MANFIO, 2003).
Bactérias
As eubactérias ou bactérias pertencem ao Reino Monera por apresentar célula
procarionte, são microrganismos unicelulares, encontrados em todos os locais da
Terra, na superfície e no interior dos organismos multicelulares. Essa capacidade de se
adaptar em diversos tipos de habitats se deve a capacidade de utilizar uma variedade
de nutrientes como fonte de carbono, ser resistente a temperaturas diversas e, em
algumas espécies, o desenvolvimento de esporos, ou seja, apresentar estruturas
resistentes que protegem a bactéria em ambientes adversos e grande capacidade de
multiplicação.
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Em relação a morfologia das bactérias, elas podem ser esféricas (cocos); alongadas
(bacilos); e helicoidais (espiroquetas). Podem se apresentar de forma isolada (menos
frequente), pares ou agrupadas em colônias. Muitas se locomovem livremente ou com
o auxílio de estruturas locomotoras denominadas flagelos.
A fixação ao substrato ou organismo hospedeiro ocorre pela presença das fímbrias,
filamentos curtos presentes na superfície da membrana bacteriana e a produção de
biofilmes secretados pelas bactérias dotadas de cápsula, que permitem uma maior
aderência ao meio.
A célula bacteriana representada na figura 1.2 apresenta a membrana plasmática que
separa o meio intracelular do meio extracelular; sob essa membrana, temos uma
camada rígida e espessa, a parede celular e, em alguns grupos de bactérias, pode
apresentar uma terceira camada especial denominada parede celular.
No citoplasma bacteriano, encontramos o genoma em forma circular, denominado
nucleóide. Além do DNA presente, as bactérias podem apresentar outros
cromossomos menores, contendo informação genética, chamados de plasmídeos.
Esses plasmídeos são importantes nas pesquisas que envolvem a biologia molecular,
como nas técnicas de DNA recombinante, facilitando a transferência de genes para
organismos diferentes (JUNQUEIRA e CARNEIRO,2013).
Fonte: FONTURA; VILARREAL, 2014.
Figura 1.2. Célula bacteriana
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As bactérias podem ser classificadas de acordo com a sua estrutura da parede celular.
Utiliza-se a técnica de Coloração de Gram, que identifica esses microrganismos em
bactérias Gram positiva, que apresentam em sua parede celular camadas do composto
orgânico peptideoglicano e bactérias Gram negativas, dotadas de uma camada fina de
peptideoglicano e lipoproteínas.
Dentre as bactérias do pertencentes ao grupo das Gram positivas, podemos citar como
exemplos, os microrganismos do gênero Clostridium (algumas espécies causadoras do
tétano e botulismo); Mycobcterium (algumas espécies causam a tuberculose);
Streptomyces (produção de antibiótico pela indústria farmacêutica); Frankia (fixadora
de nitrogênio no interior das raízes de plantas lenhosas não leguminosa). Dentre as
bactérias Gram negativas, podemos destacar a Escherichia coli (presente no trato
digestivo); Pseudomonas (alguns grupos causam infecções hospitalares); Salmonella
(intoxicação alimentar); Neisseria (algumas espécies causam meningite) (MALAJOVICH,
2011).
As bactérias apresentam grande importância ambiental, pois reincorporam o carbono
orgânico dissolvido no meio aquático, perdido das teias alimentares, desenvolvendo
um papel importante na base dos níveis tróficos de cadeias alimentares, comparados
aos fitoplânctons. As bactérias, ao serem predadas pelos protozoários, contribuem
para a ciclagem de nutrientes nos ecossistemas aquáticos, regulando parte do fluxo de
energia nos níveis tróficos das cadeias alimentares (MANFIO, 2003).
Outras ações realizadas pelas comunidades microbianas merecem destaque, como a
decomposição de matéria orgânica, promovendo a ciclagem de nutrientes; a
degradação de compostos recalcitrantes no solo; a participação nos ciclos
biogeoquímicos do carbono e nitrogênio.
Micoplasmas
Os micoplasmas são bactérias que apresentam um tamanho muito pequeno, podendo
apresentar um tamanho variável entre 150nm até 300 nm. A estrutura celular dos
micoplasmas são semelhantes às bactérias, excetuando-se pela ausência de parede
celular e o seu nucleóide (DNA) é aproximadamente 10 vezes menor do que o genoma
presente nas bactérias (JUNQUEIRA e CARNEIRO, 2013).
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Os micoplasmas são denominadas bactérias oportunistas, pois se aproveitam da queda
de imunidade do indivíduo para se desenvolverem.
Um importante representante desses microrganismos é o Mycoplasma pneumoniae
(MP), patógeno bacteriano comum, sendo a principal causa de pneumonia adquirida
na comunidade (PAC), particularmente entre crianças em idade escolar e adolescentes.
Cianobactérias
As cianobactérias ou cianofíceas, são organismos procariotos e morfologicamente
podem ser unicelulares, coloniais e filamentosos. Apresentam sacos membranosos no
interior da célula, contendo clorofila e outros compostos responsáveis pelo processo
fotossintético, além de uma estrutura similar à de uma bactéria, pois apresentam
organelas celulares presentes em uma célula bacteriana, como a parede celular,
nucleóide, ribossomos e cápsula.
Existem cianobactérias que apresentam a capacidade de reduzir amônia, conseguindo
sintetizar uma grande variedade de compostos orgânicos e a possibilidade de
sobreviver em situações adversas, onde os recursos são escassos (JUNQUEIRA e
CARNEIRO, 2013).
A grande maioria das cianobactérias habitam a água doce, com poucos representantes
marinhos. Também podem ocupar habitats variados, encostas úmidas, rochas, águas
permanentes e solos úmidos.
Alguns gêneros como a Anabaena, Anacystis e Oscillatoria são utilizados como
indicadores de águas poluídas, pois são frequentemente envolvidos em “blooms” de
algas, conferindo odor , sabor e cor características, constituindo um problema a águas
de abastecimento, além do entupimento de canos, filtros, além de apresentar
toxicidade, morte de peixes e intoxicações nos seres humanos.
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Protozoários
O Reino Protista engloba os protozoários e certos grupos de algas. Os protozoários são
caracterizados por serem organismos eucarióticos, heterótrofos (na sua maioria),
unicelulares ou apresentando formas coloniais. Esses microrganismos são comumente
encontrados em ambientes úmidos, marinhos, de água doce, podem apresentar vida
livre, ou associados a outros organismos, como os comensais e parasitas.
Os protozoários são classificados de acordo com a sua forma de locomoção, podendo
ser por projeções do citoplasma, denominadas de pseudópodos (Sarcodina); presença
de flagelos (Mastigophora); cílios (Ciliaphora); e nos representantes não dotados de
estruturas locomotoras (Sporozoa).
Coleções hídricas com a presença de matéria orgânica, muitas vezes podem apresentar
culturas de bactérias, servindo de alimento para os protozoários. Devido a essa
característica, esses organismos podem ter uma função importante no tratamento
biológico de águas residuárias. Acredita-se que os protozoários também desenvolvam
esse papel em seu ambiente natural.
São importantes em estudos de biologia molecular para produção de novos testes
diagnósticos e vacinas, devido à grande variedade de protozoários parasitas do
homem, causadores de diversas doenças como a Malária, Doença de Chagas,
Leishmaniose e protozoários como Giardia spp., Cryptosporidium spp.,
Cyclosporacayetanensis, Toxoplasma gondii responsáveis por doenças de veiculação
hídrica que, devido a sua resiliência à cloração, adquirem elevada persistência
ambiental, sendo uma constante preocupação para as estações de tratamento de
água, indústrias de alimentação e frequentadores de água de recreação (SELEGHIML,
2011; FRANCO, 2007).
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Algas
As algas denominadas são organismos pluricelulares, autótrofos e habitantes do meio
aquático, apresentando o corpo denominado de talo, sem diferenciação de raízes,
caules e folhas. Podem apresentar formas variadas, desde simples filamentos até
lâminas largas ramificadas.
Muitas dessas algas são de vida livre, presente nos sedimentos do fundo, fixos em
substratos rochosos e recifes de corais ou flutuantes na superfície.
Na área ambiental, as microalgas podem ser consideradas indicadoras de poluição. Os
processos de eutrofização das águas ocorrem devido ao excesso de matéria orgânica
presente, ocasionando a proliferação de microalgas e consequentemente a liberação
de toxinas no recurso hídrico, o aumento no consumo de oxigênio e a morte de
organismos pertencentes as cadeias tróficas do ecossistema (MALAJOVICH, 2011).
As algas merecem destaque, devido a sua importância econômica, pois fornecem uma
diversidade de componentes químicos que podem ser utilizados no branqueamento do
papel, na fabricação de tintas, cosméticos, na produção de fármacos e como aditivos
na indústria de alimentação, sendo incluídos na alimentação humana como
complementos nutricionais e substitutos proteicos, como os aminoácidos, ácidos
graxos e vitaminas. (REYNOL, 2010; MALAJOVICH, 2011).
Fungos
O reino Fungi é composto por organismos eucarióticos, podendo ser unicelulares
(leveduras) ou, em sua grande maioria, por fungos filamentosos, sendo onipresente na
natureza, com aproximadamente 1,5 milhão de espécies. Estima-se que apenas 5% da
diversidade de fungos é atualmente conhecida, com aproximadamente 69.000
espécies descritas. São caracterizados por apresentar um talo composto por filamentos
denominados hifas que, através do seu crescimento e ramificações, formam um
conjunto denominado micélio, tecido responsável por todas as funções vegetativas do
organismo.
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Quanto a sua nutrição, são considerados organismos aclorofilados, heterótrofos,
obtendo os seus nutrientes pelo processo de absorção por meio da secreção de
enzimas secretadas pelo micélio.
Muitas espécies de fungos são classificadas como parasitas para humanos, plantas,
animais e outras apresentam valor ecológico e econômico, podendo ser utilizados em
diversos setores da indústria. Devido a sua grande diversidade e presença em todos os
tipos de ambientes, o estudo dos fungos se dividiu em diversas especialidades que
influenciaram diretamente áreas da biotecnologia, envolvendo uma grande variedade
de produtos, alimentícios, farmacêuticos, bebidas alcoólicas devido as propriedades
fermentativa e enzimática desses organismos (OLIVEIRA, 2014).
As leveduras são denominadas ascomicetos unicelulares e apresentam grande
importância para o homem, pois são capazes de fermentar os carboidratos, quebrando
as moléculas de glicose para formar o álcool etílico e gás carbônico. Devido a essa
propriedade, as leveduras são utilizadas pelos mestres cervejeiros, vinhateiros para a
obtenção do álcool e pelos padeiros que usam o gás carbônico para o crescimento das
massas de pães e bolos.
Geralmente, as linhagens de uma espécie de leveduras denominada Sacharomyces
cerevisae, representados na Figura 1.3, são muito utilizadas para a produção de
bebidas fermentadas, no preparo da massa do pão e em estudos de laboratório no
campo da genética.
Fonte: DAS MURTEY; RAMASAY, 2016.
Figura 1.3. Levedura da espécie Saccharomyces cerevisiae
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Podemos citar outro representante dos ascomicetos, os fungos pertencentes ao
gênero Penicillium, de onde extraiu-se pela primeira vez, a penicilina, um antibiótico
bastante utilizado no tratamento de infecções respiratórias e em doenças sexualmente
transmissíveis. Outros gêneros de Penicillium, contribui para o sabor e odor de
determinados queijos, entre eles temos o P. roquefortii e P. camembertii.
Além do potencial industrial, os fungos desempenham um importante papel na
natureza, por meio da decomposição da matéria orgânica do solo, proporcionando a
ciclagem do carbono, nitrogênio e outros compostos do solo; da formação de
interações ecológicas mutualísticas simbióticas entre os fungos e raízes de plantas
(micorrizas), melhorando a qualidade do solo e contribuindo no desenvolvimento da
planta; da recuperação ambiental, tanto na reciclagem de resíduos agroindustriais,
quanto na biodegradação de materiais tóxicos, apresentando uma importante função
econômica, social e ambiental (SILVA e MALTA, 2016).
Vírus
Os vírus são conjuntos de genes capazes de se transferir de uma célula para outra e de
fazer uso das atividades das organelas da célula hospedeira para replicá-los e transferi-
los para o exterior para que possam infectar novas células. Pela necessidade de se
aproveitar da maquinaria celular da célula parasitada, os vírus são classificados como
parasitas obrigatórios de bactérias, plantas e animais (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2013).
A partícula viral completa e extracelular é denominada vírion, sendo constituído por
uma cápsula proteica denominada capsídeo que envolve um ácido nucléico DNA ou
RNA. Existe uma grande variação relacionadas a morfologia, complexidade das
partículas virais de acordo com a diversidade de famílias existentes. A grande maioria
dos vírions possui dimensões ultramicroscópicas, com diâmetro que varia entre 15 e
22 nanômetros e só pode ser visualizada sob microscopia eletrônica (ME).
Em alguns grupos de vírus, ocorre a presença de um invólucro composto por dois
fosfolipídios derivados da membrana plasmática e proteínas codificadas pelo genoma
viral.
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Fonte: Swiss Institute of Bioinformatics; Goldsmith, C. apud Khan Academy, 2016.
Figura 1.4 - Estrutura de uma partícula de Zica
1.3 Aplicações da Biotecnologia
Alimentação
A biotecnologia tem um importante papel na produção de alimentos. Leveduras,
fungos filamentosos, bactérias e algas podem ser usados para a obtenção direta de
alimentos ao transformar uma matéria-prima e fazer parte daquele alimento.
As enzimas são muito utilizadas na modificação da matéria prima, pois atuam para
uma menor formação de produtos tóxicos ou não desejáveis e na substituição de
ingredientes químicos no processo.
Esse composto orgânico é muito utilizado no setor de bebidas e alimentos, por meio
da clarificação de sucos e vinhos; do tratamento do malte para a elaboração de
cerveja; da fabricação de pães, bolos e biscoitos; da fabricação de laticínios e
adoçantes.
Para que as enzimas produzidas de forma natural pelos microrganismos possam
atender a demanda em escala industrial, é necessária a otimização dos processos
fermentativos e da engenharia genética, constituindo um dos principais metabólitos
de origem microbiana muito utilizado na indústria de alimentos.
O aparecimento dos organismos geneticamente modificados (OGMs) estão
contribuindo para uma revolução na indústria de alimentação, como a otimização da
produtividade agrícola. Por meio do avanço das pesquisas na área da Engenharia
Genética foi possível desenvolver sementes resilientes ao uso de herbicidas, pragas e
alterações climáticas.
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O aumento dos benefícios nutricionais como a redução de gordura saturada no óleo,
arroz, batata e milho ricos em betacaroteno, compostos bioativos como os
flavonoides, licopeno e vitamina E que previnem o envelhecimento e o aparecimento
de tumores, são alguns exemplos da aplicação da biotecnologia no desenvolvimento
de uma grande diversidade de produtos.
A Spirulina, por exemplo, é uma cianobactéria mundialmente conhecida por seus
inúmeros benefícios. Altamente rica em proteínas, minerais e vitaminas, estando
presente na alimentação humana há mais de dois mil anos, com diversos relatos de
consumo por povos incas, africanos, asiáticos e europeus e, atualmente, é consumida
em cápsulas ou tabletes como suplemento alimentar proteico.
Na microbiologia, temos a utilização de fungos e bactérias nos processos de
fermentação, por meio da utilização de leveduras para a preparação de pão, bolos e na
produção de bebidas alcoólicas como o vinho, cerveja e espumantes.
Fungos pertencentes ao gênero Penicillium estão presentes na indústria de fármacos
para a produção do antibiótico penicilina e na indústria de alimentos, fornecendo o
sabor característicos de queijos, como o Roquefort e o Camembert.
As chamadas bactérias lácteas dos gêneros Streptococcus e Lactobacillos são
responsáveis pela produção de probióticos importantes na composição das bactérias
presentes no trato intestinal, promovendo o bom funcionamento do órgão e
auxiliando no combate a várias doenças. Além disso, esses compostos fornecem outros
produtos para a indústria de alimentos como os estabilizantes e acidulantes.
Meio ambiente
Atualmente, a biotecnologia aplicada ao meio ambiente surge como uma alternativa
importante e efetiva para enfrentar os crescentes desafios relacionados a variedade e
diversidade de impactos ambientais, por meio de ações de prevenção, monitoramento
e recuperação de áreas degradadas.
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Uma estratégia preventiva muito adotada decorre da utilização de tecnologias limpas
integrada aos processos, produtos e serviços para aumentar a ecoeficiência, reduzir o
volume de resíduos gerados, evitando danos ao homem e ao meio ambiente.
Linhagens de bactérias Pseudomonas são utilizadas na eliminação de poluentes
derivados do petróleo e na remoção do mercúrio presente em águas contaminadas.
É feita também a substituição de processos e produtos industriais por outros que
apresentam menor toxicidade e menor impacto ambiental, principalmente nos setores
que envolvem a indústria de celulose, calçados, têxtil, alimentos, dentre outros setores
de produção.
A biorremediação é considerada uma tecnologia emergente, por meio da utilização de
seres vivos na descontaminação ou redução na concentração de poluentes presentes
no meio ambiente, principalmente em solos contaminados.
Diversos estudos envolvem a utilização de microrganismos na descontaminação de
águas superficiais que contem metais pesados, por meio da imobilização dos íons
metálicos por ação bacteriana, impedido que esse contaminante atinja o lençol
freático; na recuperação de metais na atividade mineradora; na utilização de
microbianos que secretam substâncias que promovem a precipitação de metais sob
uma forma não solúvel; na adsorção de íons metálicos sobre a superfície celular do
agente microbiano; no melhoramento genético de microrganismos que apresentam
tolerância aos metais pesados (SCHENBERG, 2010).
A utilização de combustíveis fósseis é um dos principais contribuintes no aumento dos
gases de efeito estufa na atmosfera, interferindo diretamente nas alterações
climáticas.
A levedura S. cerevisae, até hoje, é o microrganismo mais utilizado na microbiologia
industrial para a produção de etanol, devido aos excelentes resultados obtidos, como a
velocidade no processo de fermentação e o elevado rendimento do produto gerado. O
aumento da utilização do etanol como substituto aos combustíveis fósseis é uma
alternativa biotecnológica de mitigação dos prováveis impactos ambientais.
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,
Outros estudos envolvem bactérias que produzem polímeros poli-hidroxialcanoatos
(PHA) em forma de grânulos quando estão em ambientes que apresentam altas
concentrações de carbono. Esse composto apresenta propriedades similares aos
plásticos de origem petroquímica. Essa característica do PHA apresenta grande
relevância nas questões relacionadas à preservação ambiental, pois é produzido por
microbianos a partir do uso de recursos renováveis, utilizando-se da cana de açúcar
como matéria prima de baixo custo. Para que essa possibilidade seja viável, existem
pesquisas realizadas com o melhoramento genético de C. necator para o
aproveitamento de sacarose, fornecedora do carbono, elemento químico fundamental
na produção de PHA (SCHENBERG,2010).
Para resolver a questão do lixo urbano e industrial, a substituição de plásticos de
origem petroquímica por plásticos produzidos por micro-organismos seria altamente
desejável, uma vez que os biopolímeros são materiais biocompatíveis e totalmente
biodegradáveis. A estimativa é de que os rejeitos plásticos lançados em aterros
aumentam em 404% o peso total do lixo, e o problema é agravado pelo fato de que os
materiais plásticos atualmente produzidos são de difícil decomposição, permanecendo
no meio ambiente por várias centenas de anos.
Entretanto, o preço dos biopolímeros ainda não é capaz de competir com o dos
plásticos convencionais, sendo necessário otimizar as linhagens microbianas, bem
como os processos de recuperação e extração, mas, especialmente, reduzir os custos
com a matéria-prima (Choi & Lee, 1999). É possível, entretanto, prever que a situação
atual se modifique, à medida que o petróleo se torne escasso, tornando os produtos
obtidos a partir de matérias-primas renováveis de menor custo que os produtos da
indústria petroquímica (Schenberg, 2010).
20
,
Agricultura
Com o avanço dos estudos na área da tecnologia, pudemos constatar grandes avanços
no setor agrícola, por meio da cultura de tecidos in vitro, uso de marcadores
moleculares e engenharia genética, tendo como objetivo o melhoramento de várias
culturas, como soja, milho, algodão, tomate, cana de açúcar, principalmente
relacionados a resistência da planta das alterações climáticas, resistências a pragas,
aumentando a produtividade, na qualidade de frutos, melhoria na qualidade do solo,
proteção ambiental e redução de custos.
Dentre as diversas iniciativas que estão relacionadas aos organismos geneticamente
modificados (OGMs), podemos citar como exemplo:
A alteração do genoma da soja por meio da introdução de genes da bactéria
Bacillus thuringiensis(Bt) encontrada no solo. Esse microrganismo sintetiza
proteínas toxicas para certas pragas que parasitam a planta da soja, como a
lagarta-da-soja Anticarsia gemmatalis que, ao ingerirem a proteína, acabam
morrendo.
A soja transgênica resistente ao herbicida glifosato.
O arroz geneticamente modificado rico em betacaroteno.
Plantas que impedem a formação de cristais de gelo na superfície foliar.
Frutos que retardam o amadurecimento, apresentando um maior tempo de
duração.
Comercialização do arroz Bt na China e do feijão resistente ao vírus no Brasil
(GUSMÃO, 2017; MALAJOVICH, 2011).
Atualmente, diversos estudos estão sendo realizados sobre o grão de bico na África, a
berinjela na Índia, o milho resistente à seca nos Estados Unidos e na África sub-
sahariana.
21
,
Os microrganismos presentes em alguns tipos de solo e superfícies de certas plantas,
tem a capacidade de liberar substâncias tóxicas fatais para larvas de insetos. O gene
codificador presente na proteína já está sendo inserido no genoma da planta de
algodão e milho para que essa toxina seja diretamente sintetizada pela planta,
dispensando o uso de inseticidas no combate dessa praga.
Pecuária
A biotecnologia é uma forte ferramenta para a pecuária. Fertilização in vitro,
clonagem, marcadores moleculares, modificação do genoma, inseminação artificial,
superovulação e preservação de embriões, biologia de células tronco, vacinas e
medicamentos veterinários são exemplos da intervenção da biotecnologia na pecuária.
Em relação aos marcadores genéticos, eles possibilitam ao criador de gado, por
exemplo, verificar a qualidade de cada animal, por meio de características presentes
como a maciez da carne, ganho de peso, maturidade sexual, dentre outras, sendo
possível selecionar os melhores animais que apresentam os atributos desejáveis
(GUSMÃO, 2017).
Na alimentação dos animais, atualmente, existem estudos envolvendo o
desenvolvimento de um tipo de alfafa transgênica com menor teor de lignina,
melhorando a digestão animal; a modificação genética de plantas forrageiras trouxe
bons resultados com ovelhas que foram alimentadas, com ganho de peso e bom
crescimento da lã.
Outro exemplo está na adição de aminoácidos, como a lisina, na composição de rações
destinadas a criação de animais para o abate teve um significativo crescimento na
última década.
Saúde
As potencialidades da utilização da biotecnologia no campo da saúde são diversas,
apresentando um amplo espectro de aplicações que contribuem para o sistema
organizacional do setor e no desenvolvimento da indústria de saúde no mundo.
22
,
No desenvolvimento e na produção de biofármacos, os antibióticos utilizados no
tratamento de infecções causadas por microrganismos apresentam grande destaque
entre os produtos obtidos por fermentação e nos processos da melhoria genética dos
agentes biológicos utilizados nas pesquisas (LIMA E MOTA, 2003).
As pesquisas realizadas na área da biotecnologia, tem o importante papel no controle
das doenças infecciosas de origem bacteriana e viral. A revolução no campo das
vacinas, por meio da engenharia genética, foi possível desenvolver uma variedade
vacinas utilizando-se de técnica do DNA recombinante, como a vacina contra a
hepatite B, onde o gene do vírus HBV codificador do antígeno é inserido em uma
levedura para que o antígeno específico seja sintetizado.
Atualmente, os estudos estão concentrados nas denominadas vacinas gênicas ou
vacinas de DNA. Os genes específicos que sintetizam um determinado antígeno são
clonados e o material genético é injetado diretamente no tecido muscular do indivíduo
ou animal a ser vacinado, desenvolvendo a resposta imunológica esperada.
Na área dos diagnósticos, tivemos o desenvolvimento de uma grande variedade de
testes rápidos utilizando-se apenas uma amostra de sangue, de fácil leitura e de maior
sensibilidade e precisão, reduzindo-se os custos, comparando-se aos antigos testes
convencionais. Outro avanço a ser destacado é a utilização de marcadores capazes de
detectar doenças em seu estágio inicial, melhorando o prognóstico do paciente e a
identificação de inúmeros genes associados a doenças genéticas (REIS, 2009).
Energia
Devido ao grande impacto ambiental originado pela queima dos combustíveis fósseis e
as limitações das reservas mundiais de petróleo para atender a demanda mundial, a
bioenergia surge como importante alternativa, reduzindo a dependência desse
mineral, os custos de mitigação de emissões de carbono e, ao mesmo tempo,
adotando um modelo de produção de energia renovável e sustentável.
23
,
Existe uma grande variedade de tecnologias de conversão energética da biomassa,
incluindo a gaseificação, recuperação de energia de resíduos sólidos urbanos e gás de
aterro sanitário, como o metano, além do etanol e biodiesel, biocombustíveis
utilizados no setor do transporte (GOLDEMBERG, 2009).
Nos dias atuais, prioriza-se a produção de biocombustíveis direcionando basicamente
no etanol, por meio de processos de fermentação do açúcar ou amido e na produção
de biodiesel derivado de óleos vegetais, como o girassol, dendê, soja, mamona, palma
e amendoim.
Desde 2014, já existe no Brasil em escala fabril a produção de etanol celulósico, a
partir da biomassa presente na palha da cana de açúcar por meio da utilização da
biotecnologia. Na produção do etanol, a levedura Saccharomyces cerevisiae consome a
sacarose e frutose presente no caldo de cana, mas, para degradar os açúcares
presentes no bagaço, foi necessário produzir uma nova linhagem transgênica da
levedura, capaz de reconhecer o composto orgânico e degradá-lo para que seja
possível produzir o etanol celulósico.
A evolução da indústria da biotecnologia nos últimos anos está conduzindo uma
diversidade de estudos que desenvolvem processos de produção mais avançados que
os existentes, como a maior fixação de carbono nas raízes, enzimas de biodiesel,
bioprocessamento de lignocelulose, alterações genéticas para a aquisição de matérias
primas de biomassa e no desenvolvimento de microrganismos fotossintéticos que
produzem lipídios ou hidrocarbonetos e apresentam um ótimo potencial para
produção de biocombustíveis. (GOLDEMBERG, 2009).
Indústria
A biotecnologia industrial envolve a aplicação de processos produtivos sustentáveis, na
área de produtos químicos, materiais e combustíveis. A biotecnologia moderna utiliza
em seus processos enzimas e microrganismos para atender os diversos setores da
indústria de fármacos, papel e celulose, química, materiais e polímeros, nutrição
animal, energia, têxtil, através da utilização de matérias-primas renováveis.
24
,
As enzimas são moléculas proteicas utilizadas na catalização de reações biológicas que,
acelerando a velocidade das reações químicas, otimizando o processo industrial,
tornando mais eficiente e contribuindo diretamente para a sustentabilidade industrial
e ambiental.
Na indústria biotecnológica, as enzimas são consideradas um dos produtos mais
explorados. Podemos citar o setor farmacêutico como principal usuário e produtor das
enzimas utilizadas na produção de medicamentos, no desenvolvimento de novos
produtos, em diagnósticos clínicos e terapias diversas.
O aumento nos estudos de engenharia enzimática para a busca de novas enzimas
aplicadas na melhoria dos processos industriais associadas à tecnologia do DNA
recombinante e expressão heteróloga de enzimas são fundamentais no
desenvolvimento de novos produtos industriais obtidos pela via enzimática
(MONTEIRO e SILVA, 2009).
A tabela abaixo representa tipos de produtos e serviços de origem biotecnológica, em
diferentes setores da economia.
Tabela 1.1 - Produtos e serviços de origem biotecnológica em diferentes setores
SETORES TIPOS DE PRODUTOS OU SERVIÇOS
Energia Etanol, biogás e outros combustíveis (a
partir da biomassa).
Indústria Butanol, acetona, glicerol, ácidos,
vitaminas etc. Numerosas enzimas para
outras indústrias (têxtil, de detergentes
etc.).
Meio Ambiente Recuperação de petróleo,
biorremediação (tratamento de águas
servidas e de lixo, eliminação de
poluentes).
Agricultura Adubo, silagem, biopesticidas,
biofertilizantes, mudas de plantas livres
de doenças, mudas de árvores para
reflorestamento. Plantas com
características novas incorporadas
(transgênicas): maior valor nutritivo,
resistência a pragas e condições de
cultivo adversas (seca, salinidade etc.).
25
,
Pecuária Embriões, animais com características
novas (transgênicos), vacinas e
medicamentos para uso veterinário.
Alimentação Panificação (pães e biscoitos); laticínios
(queijos, iogurtes e outras bebidas
lácteas); bebidas (cervejas, vinhos e
bebidas destiladas); aditivos diversos
(shoyu, monoglutamato de sódio,
adoçantes etc.); proteína de célula única
(PUC) para rações; alimentos de origem
transgênica com propriedades novas.
Saúde Antibióticos e medicamentos para
diversas doenças, hormônios, vacinas,
reagentes e testes para diagnóstico,
tratamentos novos etc.
Fonte: Malajovich 2011.
Conclusão
Segundo a Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU, a Biotecnologia pode ser
definida como “qualquer aplicação tecnológica que faça o uso de conhecimentos sobre
os processos biológicos e sobre as propriedades dos seres vivos, com o fim de resolver
problemas e criar produtos de utilidade”.
Portanto, os avanços científicos e tecnológicos que envolvem a ciência Biotecnologia
representam um instrumento de grande potencial para o desenvolvimento de
processos de produção sustentáveis baseados em aplicações na área da biotecnologia,
visando a otimização de processos e responsabilidade na utilização dos recursos
naturais, como forma de assegurar uma melhor qualidade de vidas as pessoas e
manutenção da preservação ambiental.
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28
,
2 ENGENHARIA GENÉTICA I
A Engenharia Genética ou tecnologia do DNA recombinante pode ser caracterizada por
um conjunto de processos que permitem a manipulação do genoma de agentes
biológicos ou parte destes, por meio da identificação, isolamento e multiplicação de
genes, tendo como objetivo gerar produtos e serviços.
A descoberta das enzimas de restrição revolucionou a biologia molecular, pois
possibilitou montar moléculas de DNA recombinantes e manipulá-las com extrema
precisão trazendo enorme avanço na área da medicina e consequentemente na área
industrial.
Dentre as diversas aplicações através da tecnologia do DNA recombinante, podemos
regular um gene ou um conjunto de genes; desenvolver vacinas e terapias gênicas;
produzir substâncias úteis como a insulina humana e o hormônio de crescimento;
desenvolver alimentos transgênicos; produzir enzimas e medicamentos; desenvolver
diagnósticos de doenças genéticas e aprimorar o melhoramento genético artificial de
plantas e animais.
Nesse bloco, vamos abordar o código genético, conhecendo a estrutura química dos
ácidos nucleicos e suas respectivas funções, estabelecer as associações entre DNA,
cromatina, cromossomos, genes e as principais técnicas de DNA recombinante.
2.1 Ácidos Nucleicos
Os ácidos nucleicos são macromoléculas intracelulares informacionais que controlam
os processos relacionados ao metabolismo celular, produção de macromoléculas,
diferenciação celular e a transmissão de caracteres hereditários de geração a geração.
Distingue-se dois tipos de ácidos nucleicos, o ácido desoxirribonucleico (DNA) e o ácido
ribonucleico (RNA), que apresentam constituição química e funções biológicas
distintas.
29
,
DNA - Estrutura e Função
A molécula de DNA foi descoberta em 1869 pelo pesquisador alemão Johann
Miescher, ao tentar elucidar quais componentes químicos estavam presentes no
núcleo celular dos leucócitos. Na análise do núcleo dessas células, identificou
compostos ácidos, ricos em fósforo e nitrogênio, o qual denominou de nucleínas.
Posteriormente ele identificou os mesmos elementos químicos em espermatozoides
do salmão e gemas de galinha.
Nove anos mais tarde, Albrecth Kossel verificou a presença de bases nitrogenadas na
nucleína, justificando a descoberta feita por Miescher ao detectar a grande presença
de nitrogênio no núcleo celular. Em 1889, Richard Altmann, conseguiu purificar a
nucleína e constatar o alto grau de acidez, denominando-a de ácido nucléico.
Foi demonstrado mais tarde que, na degradação do ácido nucleico, era obtido como
produto dois tipos de bases púricas, adenina e guanina e dois tipos de bases
pirimídicas, timina e citosina, além de um carboidrato pentose desoxirribose e fósforo.
No início do século XX, foi identificada, em leveduras, a presença de outro tipo de
ácido nucleico que possuía uma base pirimídica uracila substituindo a base timina e o
glicídio ribose em vez da desoxirribose. A partir dessas descobertas, foram
denominados dois tipos de ácidos presentes no núcleo celular, o ácido
desoxirribonucleico (DNA) e o ácido ribonucleico (RNA). Em 1912, os cientistas Phoebis
Levene e Walter Jacobs identificaram que os ácidos nucleicos eram constituídos por
unidades denominadas de nucleotídeos. Portanto, o DNA e o RNA são moléculas
orgânicas que apresentam, na sua estrutura química, polinucleotídeos (USP, 2017a).
O DNA ou ácido desoxirribonucleico é uma molécula responsável por armazenar e
transmitir a informação genética (código genético), sendo encontrado nos
cromossomos nucleares mitocôndrias e nos cloroplastos presentes em células
vegetais.
30
,
A primeira evidência que o DNA é o material hereditário da célula surgiu em 1928 por
meio do experimento com bactérias Streptococcus pneumoniae, causadoras da
pneumonia em camundongos, realizado pelo médico Fred Griffith.
Nesse experimento foram utilizados dois grupos de pneumococos. Meio de cultura,
contendo bactérias capsuladas, virulentas, que causavam a pneumonia nos
camundongos denominadas de bactérias S e outra cultura de bactérias não
capsuladas, não virulentas, que não causavam a pneumonia nos animais, identificadas
como bactérias R.
Cultura de bactérias R vivas não causadoras de pneumonia em camundongos foram
misturadas com outra cultura contendo bactérias S capsuladas mortas pelo calor. Esse
inóculo foi injetado nos camundongos, o que resultou em sua morte devido a
pneumonia. Esse resultado foi surpreendente, pois bactérias vivas R e S mortas
injetadas isoladamente nos animais não provocavam a morte. A hipótese considerada
é que o genoma bacteriano referente a bactéria S, transformou o DNA das bactérias
vivas não virulentas em bactérias virulentas causadores da pneumonia (USP,2017).
A figura 2.1 representa o experimento realizado pelo pesquisador Griffith, que
comprovou a transformação de bactérias não virulentas (R) em bactérias virulentas (S)
causadoras de pneumonia em camundongos.
31
,
Fonte: ITURRA, S.D.
Figura 2.1. Experimento de Griffith – Transformação Bacteriana
A confirmação da hipótese lançada por Griffith, somente ocorreu 16 anos após o
experimento realizado pelo médico. Os cientistas americanos Oswald Avery, Colin
MacLeod e Maclyn McCarty repetiram o processo de transformação in vitro de
pneumococos realizado por Griffith, mas substituíram as células mortas pelo calor por
um extrato composto por bactérias S, capazes de provocar a pneumonia e trataram
esse material com enzimas específicas que degradam proteínas (proteases),
carboidratos(amilases), RNA (ribonucleases) e concluíram que a ação dessas enzimas
não afetou o poder de transformação das bactérias. Quando o extrato foi submetido à
ação da enzima que degrada o DNA (DNAse), perdeu sua ação de transformar uma
bactéria R em uma bactéria S, comprovando que a molécula de DNA é a responsável
pela transmissão da virulência para as bactérias vivas (RODRIGUEZ, 2004).
Outro estudo que comprovou o DNA como o material genético responsável pela
transmissão dos caracteres hereditário foi realizado pelos pesquisadores Alfred
Hershey e Marta Chase ao realizarem experimentos com o vírus bacteriófago T2 que
infectam bactérias Escherichia coli que geralmente se hospedam no intestino dos
animais e servem de modelo para diversos estudos de biologia molecular.
32
,
O vírus bacteriófago T2 apresenta sua estrutura composta por uma cápsula de
proteínas ou capsídeo que envolve o DNA viral. No experimento para comprovar o
DNA como material genético ocorreram dois cultivos. No cultivo 1 foi adotado o
seguinte método:
1. Marcaram o bacteriófago em uma solução, contendo enxofre radioativo
incorporado nas proteínas dos vírus (cor rosa).
2. Os fagos radioativos foram misturados com culturas de bactérias, infectando
esses microrganismos.
3. A mistura foi agitada para que ocorresse o descolamento dos fagos aderidos a
parede celular das bactérias.
4. A solução foi centrifugada, fazendo com que as bactérias se sedimentassem no
fundo do tubo de ensaio e os fagos mais leves ficassem em suspensão no
líquido.
5. A radioatividade foi medida no sedimento e no líquido da solução.
No cultivo 2 a metodologia aplicada foi:
1. Os fagos foram marcados em uma solução contendo o fósforo radioativo que
foi incorporado ao DNA do fago (azul).
2. O material foi agitado e centrifugado.
3. Medição da presença de radioatividade no sedimento formado na solução após
a centrifugação.
O resultado obtido foi que nas proteínas marcadas no cultivo 1, a radioatividade se
manteve fora da célula, enquanto o DNA marcado como radioativo no cultivo 2 foi
observado no interior da célula. As células bacterianas marcadas com DNA radioativo
liberaram novos fagos contendo fósforo radioativo. Os cientistas chegaram à
conclusão que o DNA dos fagos entra nas células bacterianas, enquanto as proteínas
dos fagos não penetram, concluindo que o DNA funciona como material genético no
bacteriófago T2, pois, a partir dele, pode ser formado tanto o DNA como proteínas
virais (REECE,2015).
33
,
Outro experimento importante foi realizado pelo bioquímico Erwin Chargaff na
segunda metade do século XX. Ele aplicou métodos de cromatografia para quantificar
a porcentagem de cada base nitrogenada em amostras de DNA pertencente a diversas
espécies de animais e diferentes órgãos da mesma espécie. Os resultados obtidos
foram que, apesar da composição das bases nitrogenadas das amostras de DNA
apresentarem uma variação de uma espécie para a outra, elas eram constantes entre
indivíduos de uma mesma espécie. Outra constatação foi que a proporção entre as
bases nitrogenadas Adenina(A) – Timina(T) e Guanina(G) – Citosina(C) de uma
molécula de DNA são sempre iguais, ou seja, enquanto a proporção entre as bases
apresentam variações entre as espécies, o total de bases púricas (A +T) é igual ao total
de bases pirimídicas (G+C ).
Nesse período, muitas pesquisas realizadas eram dedicadas a análise química do DNA,
enquanto outros estudos abordavam a estrutura da molécula. Merece destaque o
estudo realizado pelo cientista Maurice Franklin, considerado um dos pioneiros na
descoberta da estrutura helicoidal do DNA por meio da obtenção de uma imagem de
raio X do DNA, contribuindo para novas descobertas relacionadas a elucidação da
estrutura molecular do ácido nucleico.
Nesse mesmo período, a biologia teve um grande avanço a partir do modelo da
estrutura molecular do ácido nucleico (DNA) apresentados pelos cientistas James
Watson e Francis Crick em 1953.
Nesse modelo proposto, a molécula de DNA apresenta uma dupla cadeia de
polinucleotídeos dispostos em hélice ao redor de um eixo imaginário (dupla hélice),
constituída pela polimerização de subunidades menores chamadas de nucleotídeos.
Cada nucleotídeo é composto por um açúcar pentose (desoxirribose) associado a um
grupo fosfato ligado e uma base nitrogenada do tipo purinas (adenina e guanina) ou
pirimidinas (citosina e timina).
34
,
As bases nitrogenadas são constituídas por anéis de carbono e nitrogênio. As bases
purinas adenina(A) e guanina(G) apresentam um anel simples, enquanto as bases
pirimidinas citosina(C) e timina(T) apresentam dois anéis de carbono e nitrogênio
(JUNQUEIRA e CARNEIRO, 2013).
O açúcar pentose desoxirribose e o grupo fosfato são os componentes presentes no
nucleotídeo que não apresentam variações, apresentando função estrutural na
molécula de DNA.
Essa dupla cadeia de nucleotídeos se enrola, originando uma estrutura helicoidal
(dupla-hélice), associadas entre si por pontes de hidrogênio, responsáveis pela
estabilidade da hélice. Essa estrutura, muitas vezes, é comparada de forma análoga a
uma escada enrolada sobre si mesma, onde os “corrimãos” são constituídos pela parte
não variável da molécula (açúcar e fosfato) e os “degraus da escada” formados por
pares de bases associadas aos pares e obedecendo a seguinte combinação A-T ou G-C,
resultando em cadeias complementares. A estrutura química da molécula de DNA
associada a proteínas básicas denominadas de histonas é chamado de nucleossomo
(FARAH,1997).
A figura 2.2 representa uma hélice de DNA formada por duas cadeias de
polinucleotídeos emparelhadas por pontes de hidrogênio entre as bases nitrogenadas.
35
,
Figura 2.2 Associação dos nucleotídeos das cadeias de DNA
RNA – Estrutura e Função
A molécula de RNA ou ácido ribonucleico apresenta uma semelhança estrutural à
molécula de DNA, tendo em sua composição química os nucleotídeos. Apesar dessa
similaridade química com o DNA, a molécula de RNA apresenta algumas diferenças
como um filamento único de nucleotídeos (exceto em alguns vírus); açúcar pentose
denominado ribose; a presença da base nitrogenada uracila (U), substituindo a base
Timina (T) presente no DNA.
Em relação a questão estrutural e funcional, existem três variedades de ácidos
ribonucleicos:
RNA transportador ou RNA de transferência (tRNA): sintetizados inicialmente
sobre filamentos de DNA (código genético), sofrem um processo de
encurtamento (splicing) e migram para o citoplasma com a função de associar-
se a aminoácidos presentes no meio celular, transportá-los e posicioná-los
corretamente nas cadeias de polinucleotídeos nos complexos de ribossomos e
mRNA denominados de polirribossomos. A cada três bases de nucleotídeos do
tRNA ocorre a combinação com um tipo de aminoácido específico que é capaz
de reconhecer qual o local da molécula de mRNA constituída por três bases
denominadas de códon, estabelecendo uma associação códon (trincas de bases
do mRNA) com anticódons (trincas de bases do tRNA).
36
,
RNA mensageiro (mRNA): sintetizado a partir da transcrição de um segmento
de uma das fitas de DNA constituinte do cromossomo presente no núcleo
celular. Após o processo de transcrição, o mRNA é exportado para o citoplasma
celular, associando-se ao ribossomo e formando o complexo poliribossomos.
Esse filamento de RNA se apresenta em trincas de nucleotídeos (códon) que
contém a informação genética elaborada pela molécula de DNA para que seja
combinado com o tRNA (anticódon) e ocorra a síntese de uma nova proteína.
RNA ribossômico (rRNA): molécula sintetizada no núcleo celular, associa-se a
proteínas, originando a organela celular denominado ribossomo. Os
ribossomos presos aos filamentos da fita de mRNA formam os chamados
polirribossomos, responsáveis pelo processo de síntese proteica (JUNQUEIRA E
CARNEIRO, 2013).
Replicação, transcrição e tradução
A duplicação ou replicação da molécula de DNA, a síntese da molécula de RNA a partir
do DNA e a combinação dos códons do mRNA com os anticódons do tRNA são
denominados processos de replicação, transcrição e tradução, respectivamente.
A replicação consiste na separação das cadeias da molécula de DNA, onde cada fita
livre serve de molde para a síntese de uma nova cadeia complementar, obedecendo o
pareamento de bases nitrogenadas de acordo com o modelo proposto pelos cientistas
Watson e Crick.
A duplicação da molécula de DNA denominada semiconservativa, requer que os
desoxirribonucleotídeos livres no meio celular se posicionem sobre uma cadeia de
nucleotídeos molde para que se forme uma nova cadeia complementar à cadeia de
nucleotídeos do DNA original (molécula mãe), resultando em uma cópia idêntica de
uma molécula preexistente.
Um novo nucleotídeo é adicionado pelas enzimas polimerases do DNA à cadeia em
crescimento se o último nucleotídeo estiver corretamente pareado ao nucleotídeo
correspondente a cada molde.
37
,
Apesar da replicação da molécula de DNA ser considerada um processo bastante
complexo, estima-se que a formação de uma nova molécula de DNA apresenta alta
precisão no pareamento das bases nitrogenadas, com apenas um erro na replicação de
108 bases. Essa eficiência no acerto das combinações de bases deve-se a ação de
enzimas polimerases do DNA que atuam na conferência na associação das bases
nitrogenadas, removendo, em sua maioria, as associações incorretas. Essa
autocorreção é importante, pois a porcentagem de incorporação de nucleotídeos é
elevada, da ordem de 1 em cada 100 mil nucleotídeos (JUNQUEIRA e CARNEIRO,
2013).
Figura 2.3 - Replicreplação da molécula de DNA
Na transcrição ocorre a síntese da molécula de RNA, utilizando-se como molde a
molécula de DNA. No início do processo, abre-se a dupla hélice de DNA, separando as
duas sequências de polinucleotídeos, para que novas sequências de nucleotídeos se
associem a uma das fitas do DNA, estabelecendo o pareamento das bases, originando
uma molécula de RNA.
No processo de tradução, as bases nitrogenadas (trincas) do tRNA se associam aos
códons (trincas do mRNA), traduzindo o código genético em aminoácidos que se ligam
e formam uma cadeia polipeptídica, originando uma nova proteína, de acordo com o
código genético elaborado pelo DNA e transcrito para o mRNA.
38
,
Esses processos onde o DNA atua como molde para a síntese de RNA, em que essas
moléculas orgânicas em células eucarióticas migram para o meio citoplasmático onde
determinam qual a sequência e os tipos de aminoácidos para a produção de uma
determinada proteína, foi denominado pelos pesquisadores Watson e Crick em 1956
de dogma central da biologia (figura 2.4).
Figura 2.4 - Fluxo de informação genética.
2.2 Cromatina, cromossomos e genes
No núcleo das células eucarióticas, o DNA se associa a proteínas complexas originando
a cromatina, constituinte do material genético. A organização da cromatina é
considerada dinâmica, pois o seu grau de condensação depende do estado fisiológico
da célula e o estado de diferenciação que se altera de acordo com a fase do seu ciclo
celular e com o seu grau de atividade. Quando se inicia o processo de divisão celular, o
núcleo apresenta a cromatina altamente condensada, constituindo os cromossomos.
Cromatina e cromossomos representam dois aspectos morfológicos e fisiológicos da
mesma estrutura.
39
,
Figura 2.5 - Compactação do DNA até a formação de cromossomos
A cromatina apresenta porções distintas denominadas de eucromatinas e
heterocromatinas, identificadas de acordo com o seu grau de compactação. A
eucromatina expõe regiões do cromossomo que apresentam um padrão normal de
condensação e distensão durante o ciclo celular, apresentando a porção de áreas do
genoma onde está ocorrendo a expressão gênica. A heterocromatina apresenta
regiões do cromossomo condensadas por todo o ciclo celular e transcricionalmente
inativas.
Nas espécies animal e vegetal, o DNA nuclear está dividido em uma série de diferentes
cromossomos, o qual se denomina cariótipo. O cariótipo pode ser definido como “um
conjunto de características constantes dos cromossomos da espécie, quanto a número,
tamanho e morfologia” (JUNQUEIRA e CARNEIRO,2013). A representação do cariótipo,
nas células somáticas dos eucariontes, os cromossomos ocorrem aos pares, sendo um
cromossomo de origem paterna e outro de origem materna e são denominados de
cromossomos homólogos, pois apresentam o mesmo tamanho, a mesma forma e a
mesma sequência de genes.
40
,
Nas células humanas temos um cariótipo composto por 46 cromossomos ou 23 pares,
dos quais 44 são denominados cromossomos autossomos e 2 são cromossomos
sexuais e são identificados como XX no sexo feminino e XY no sexo masculino.
A figura 2.6 apresenta o ideograma no qual os cromossomos são ordenados aos pares
de acordo com sua morfologia e tamanho.
Figura 2.6 - Cariótipo humano masculino.
Um gene é constituído por um segmento de DNA, apresentando uma sequência de
nucleotídeos que expressa uma determinada cadeia polipeptídica ou proteína
específica. Diferentes genes se manifestam de acordo com as fases do
desenvolvimento do organismo, havendo um controle eficiente na definição do
momento em que os genes devem ser ativados e em que intensidade para a síntese de
uma determinada proteína (FARAH, 1996).
Os genes presentes nas células eucarióticas podem ser classificados em três
categorias:
Gene de cópia única - Corresponde a fração maior do genoma, onde cada
sequência de nucleotídeo está presente uma única vez no genoma de uma
célula haplóide (gameta), pertencendo a um grupo dos genes estruturais,
responsáveis pela codificação de proteínas.
41
,
Gene medianamente repetitivos - Apresenta sequências de nucleotídeos que se
repetem de forma moderada entre 100 e 10.000 cópias de cada um desses
genes no genoma. Os genes que codificam o RNA ribossômico e os
responsáveis pela síntese das proteínas são os principais representantes desse
grupo de genes.
Gene de alta repetição - Representa a menor fração do genoma, apresentando
sequências de nucleotídeos acima de 10.000 cópias de cada gene. São
denominados DNA satélite, podendo aumentar o número de cópias de um
gene em diferentes fases do desenvolvimento. Esse grupo de genes facilita a
cópias adicionais de genes por parte de uma célula, proporcionando aumentar
a produção de um determinado RNA de acordo com as suas necessidades
metabólicas (JUNQUEIRA E CARNEIRO, 2013).
Na ativação de um determinado gene, a molécula de DNA se desenrola para que se
inicie o processo de transcrição do RNA. Já no processo de divisão celular (mitose e
meiose), ocorre a condensação máxima do DNA.
Nos últimos anos, os avanços ocorridos na Genética, principalmente por meio do
Projeto Genoma, possibilitaram o mapeamento e sequenciamento de todos os genes
que constituem o código genético humano.
Além dos estudos relacionados ao sequenciamento gênico, as pesquisas direcionaram-
se também à identificação de importantes elementos na sequência da molécula de
DNA que participam do processo de regulação celular, fornecendo base para a
variabilidade humana. Entender os mecanismos celulares, compreendendo como as
partes das células, como os genes, proteínas e outras moléculas se organizam e
trabalham em conjunto na criação de organismos vivos.
A elucidação detalhada de como os genes e sequências de DNA trabalham juntos,
associados a interação ambiental, levarão a novas descobertas relacionadas aos
aspectos da saúde humana envolvidas nos processos normais como também na
patogênese das doenças.
42
,
2.3 Manipulação do DNA
Técnicas aplicadas na engenharia genética envolvem uma diversidade de
procedimentos que modificam o genoma de um organismo, por meio de técnicas de
manipulação do DNA, denominadas de tecnologia do DNA recombinante contribuíram
para a revolução dos estudos em biologia molecular.
Essa tecnologia permite o isolamento, o sequenciamento e a alteração de genes
específicos que podem ser multiplicados e introduzidos em células que não expressam
a característica do determinado gene, contribuindo para a produção de proteínas
necessárias para que uma determinada função celular seja realizada.
Podemos citar a inserção de genes específicos no nucleóide bacteriano para que
ocorra a produção em quantidades suficientes para a comercialização de proteínas
específicas como, por exemplo, a insulina artificial obtida por meio da bactéria
Escherichia coli que, ao ser geneticamente modificada, produz o hormônio responsável
pelo controle da glicemia (JUNQUEIRA E CARNEIRO, 2013).
As técnicas de DNA recombinante surgiram em meados dos anos 70 com a utilização
de plasmídeos bacterianos e genomas virais denominados vetores de clonagem que
apresentavam as chamadas enzimas de restrição, que permitiam cortar a molécula de
DNA em determinados pontos, isolando fragmentos do genoma para serem
introduzidos no DNA de uma célula hospedeira, originando um DNA recombinante e
essa célula, ao se dividir, replica a molécula do fragmento de DNA inserido. Esse
processo é denominado clonagem do DNA (CANDEIAS, 1991).
As bactérias são as células procarióticas mais utilizadas como células hospedeiras
capazes de replicar fragmentos de DNA. Esses microrganismos apresentam, em seu
citoplasma, pequenas moléculas circulares de DNA denominadas de plasmídeos que
portam genes não essenciais para a manutenção do metabolismo bacteriano, mas são
importantes na transferência de características genéticas da bactéria para outra célula,
constituindo, portanto, como um importante vetor de fragmentos de DNA entre
células e grande capacidade de replicação do segmento desses fragmentos presentes
no interior da célula hospedeira.
43
,
A tecnologia do DNA recombinante depende da utilização de enzimas modificadoras
de DNA denominadas enzimas de restrição ou endonucleases, sendo reconhecidas
como as principais ferramentas da engenharia genética. Essas enzimas, produzidas por
diferentes grupos de bactérias utilizadas em experimentos laboratoriais, realizam a
clivagem do DNA em sequências específicas da molécula (sítios de restrição) para que
seja possível isolar e manipular os genes de forma individual. Essas enzimas funcionam
como tesouras moleculares, apresentando a capacidade de reconhecer e cortar a
sequência correta de nucleotídeos do DNA. Cada enzima tem a sua especificidade,
possuindo um padrão único de corte da molécula de DNA (CANDEIAS, 1991;
CORDEIRO, 2003; LIMA, 2008).
Dentre as diversas técnicas de DNA recombinante, as mais importantes são:
Hibridação de ácidos nucleicos
Consiste em uma técnica na qual uma sonda de DNA ou RNA é utilizada para localizar
um gene ou molécula em uma célula ou tecido. As diversas técnicas de hibridação de
ácidos nucleicos apresentam um princípio comum: uma população conhecida de
moléculas de ácidos nucleicos ou oligonucleotídeos sintéticos são utilizados para
identificar uma população desconhecida e complexa presentes em uma amostra-teste
de grande interesse biológico.
Na amostra teste a ser estudada, podemos encontrar moléculas de DNA, como
também, moléculas de RNA ou mRNA que foram sintetizadas por um tipo de célula ou
tecido específico. Para que ocorra a hibridação dos nucleotídeos, o DNA sofre um
processo de desnaturação, sendo submetido a temperaturas de 90-100°C ou tratado
com uma substância alcalina, tendo como objetivo separar as cadeias da molécula.
Cada tipo de molécula presente nessa população é denominado de sonda, pois
realizará uma sondagem para localizar os ácidos nucleicos de interesse presentes na
amostra teste. A sonda é previamente marcada e misturada à amostra teste,
permitindo o pareamento da sequência de nucleotídeos da sonda e as fitas
complementares da sequência-alvo presente em uma determinada amostra.
44
,
Clonagem de DNA
Essa técnica consiste em inserir na molécula de DNA de uma célula hospedeira, um
fragmento isolado de DNA, resultando em uma molécula de DNA recombinante. Caso
a molécula de DNA recombinante se replique em uma determinada célula hospedeira,
teremos como resultado grandes quantidades da sequência de DNA que foram
inseridas (figura 2.7). A clonagem de DNA de células eucarióticas é muito utilizada
para síntese de proteínas em grandes quantidades, sendo utilizadas em pesquisas e
em processos biotecnológicos.
Os experimentos de clonagem de DNA são importantes na identificação de genes que
controlam o crescimento e diferenciação celular, podendo atuar nos genes
responsáveis pelo aparecimento de tumores. Esses genes podem ser inseridos em
células germinativas, possibilitando o estudo da atuação desses componentes
químicos nos organismos multicelulares.
Figura 2.7 - Clonagem Molecular
Mutagênese do DNA clonado
A mutagênese do DNA clonado consiste em uma técnica no qual ocorre a alterações
em sequências de DNA clonado, tendo como objetivo produzir versões modificadas de
genes que posteriormente são introduzidos no meio celular, favorecendo os estudos
dos processos que expressam o funcionamento dos genes e a função dos produtos
sintetizados por esses genes.
45
,
Com a descoberta de técnicas de DNA recombinante, muitas contribuições ocorreram
em diversas áreas, dentre elas podemos citar (FARAH, 1996):
Estudo dos genes
Por meio do isolamento de genes permite entender os mecanismos que
regulam a expressão de um determinado gene em um tecido.
Diagnóstico clínico
A possibilidade de conhecer as alterações nos nucleotídeos da molécula de
DNA que provocam mutações, auxiliam no diagnóstico e tratamento de
doenças genéticas e na determinação de indivíduos portadores do gene
mutante, mas que não apresentam manifestações clínicas, podendo transmitir
uma determinada doença genética aos seus descendentes.
Terapia gênica
Procedimento que consiste no melhoramento genético por meio da correção
de genes alterados que provocam uma determinada doença.
Melhoramento genético
Inserção de novos genes em espécies de animais e plantas, produzindo
alimentos com maior teor proteico, resistentes a pragas e maior resiliência às
adversidades ambientais.
Criação de modelos animais
Promover mutações em genes específicos em células germinativas de animais
para estudar doenças genéticas que ocorrem no homem.
Obtenção de grande quantidade proteínas raras
Sintetizar em grande escala proteínas para o tratamento de doenças humanas e
na produção de proteínas.
46
,
Conclusão
Com o avanço das pesquisas de biologia molecular ao longo do tempo, foi possível
codificar a molécula de DNA, abrindo caminho para o rápido progresso da genômica e
o potencial de suas aplicações permitiram modificar o genoma de um organismo, por
meio do desenvolvimento de uma grande variedade de técnicas de engenharia
genética.
A tecnologia do DNA recombinante possibilitou o isolamento e a caracterização de
genes específicos. Isso trouxe muitas vantagens, principalmente nas áreas da saúde,
pecuária e agricultura. Dentre essas contribuições, podemos citar como exemplos o
desenvolvimento de alimentos transgênicos; a possibilidade de diagnósticos mais
específicos que envolvam doenças hereditárias; a produção em quantidades comercial
de proteínas; o desenvolvimento de vacinas; a recuperação de áreas por meio da
biorremediação; e a correção de doenças utilizando-se da inserção no genoma de
genes corretivos.
A prática da engenharia genética levanta aspectos relacionados à ética, sendo
necessário abrir um amplo debate de discussão que envolva a comunidade científica,
os órgãos regulamentadores e a própria sociedade por meio da provocação de
reflexões para solucionar problemas e ter como objetivo único trazer benefícios para
melhoria na qualidade de vida das pessoas.
REFERÊNCIAS
CANDEIAS, J. A. N. A engenharias genética. Rev. Saúde Pública. São Paulo: 1991.
CORDEIRO, M. C. R. Engenharia genética: conceitos básicos, ferramentas e aplicações.
Planaltina: Embrapa Cerrados, 2003.
FARAH, S. B.; DNA: segredos e mistérios. São Paulo: Sarvier, 1997.
ITURRA. Experimento de Griffith. Wikimedia Commons, S.D.
JUNQUEIRA, L. C.; CARNEIRO, J. Biologia Celular e Molecular. 9° ed. Rio de Janeiro:
Guanabara Koogan, 2013.
47
,
LIMA, L. M. Conceitos básicos em técnicas de biologia molecular. Campina Grande:
Embrapa, 2008.
NATIONAL HUMAN GENOME RESEARCH INSTITUTE. Human Male karyotype.
Wikimedia Commons, 2012. Disponível em: <[Link] Acesso em: 17
ago. 2020.
REECE, J. B.; WASSERMAN, S. A.; URRY, L. A.; CAIN, M. L.; MINORSKY, P. V.; JACKSON,
R. B. Biologia de Campbell 10° ed. Porto Alegre: Artmed 2015.
RODRIGUEZ, M. B. É o DNA. Ciência Hoje, 2004.
USP - UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Biologia Molecular. O ácido desoxirribonucleico:
DNA. 2017a.
USP - UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Biologia Molecular. A replicação do DNA. 2017b.
USP - UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Biologia Molecular. Transcrição e
Processamento do RNA. 2017c.
48
,
3 ENGENHARIA GENÉTICA II
A possibilidade de conhecer o sequenciamento dos genes e os mecanismos de ação
responsáveis pelas características normais ou patológicas de um indivíduo
proporcionou, ao longo dessas últimas décadas, uma verdadeira revolução nos
procedimentos médicos, no diagnóstico cada vez mais preciso e na maior eficiência no
tratamento de diversas doenças, incluindo as pessoas portadoras de distúrbios
genéticos.
Abriu-se um enorme campo experimental de pesquisa na área da genética, como o
desenvolvimento de técnicas de terapia gênica que tem a capacidade de utilizar o
próprio gene para melhorar o tratamento de doenças, incluindo os indivíduos
portadores de distúrbios genéticos ou até mesmo na substituição de genes defeituosos
por meio da implementação de métodos seguros e eficientes de transferência gênica
para células humanas.
Atualmente, novas ferramentas de engenharia genética estão sendo aplicadas em
estudos que envolvem a correção de erros genéticos por meio da adição, substituição
ou inativação de genes e no corte de alta precisão da sequência de nucleotídeos da
molécula de DNA.
Nesse bloco vamos abordar o início do projeto genoma, seus objetivos e os resultados
obtidos após a conclusão do sequenciamento do genoma humano, e a revolução da
engenharia genética por meio da aplicação de novas técnicas de terapia genética.
3.1 Projeto Genoma
O projeto genoma coordenado pelo Departamento de Energia do Instituto Nacional de
Saúde dos Estados Unidos e desenvolvido por uma associação de consórcios ou redes
de pesquisa, iniciou-se em 1990, tendo como objetivos principais:
Descobrir o conjunto completo de genes humanos e torná-los acessíveis para
estudos biológicos adicionais;
49
,
Mapear e sequenciar os pares de bases de nucleotídeos que constituem o
genoma dos seres humanos;
Armazenar e desenvolver ferramentas para analisar as informações contidas
nos bancos de dados gerados; examinar questões relacionadas à conclusão da
sequência de DNA humano e ao estudo da variação genética humana;
Desenvolver tecnologia para análise abrangente da expressão gênica;
Comparar o funcionamento dos genes humanos com o genoma dos
camundongos;
Estudar a variabilidade entre os seres humanos e realizar o treinamento de
pesquisadores para trabalhar na área da genética (USP, 2001).
Considerado na época como um dos principais campos de inovações tecnológicas,
representou o começo de uma grande revolução na área da medicina, possibilitando,
no futuro, um conhecimento mais aprofundado de uma grande variedade de
distúrbios genéticos, ampliando testes de diagnósticos mais específicos, o
conhecimento de predisposição aumentada para certas doenças como hipertensão,
câncer, doença de Alzheimer, diabetes, no tratamento antes do aparecimento de
sintomas e no desenvolvimento de vacinas de DNA que poderão eliminar doenças
epidêmicas como a AIDS (CORRÊA, 2002; ZATZ, 2000).
Os principais resultados obtidos da primeira publicação do sequenciamento genético
foram os seguintes:
O genoma humano apresenta 23.686 genes, 3,2 bilhões de nucleotídeos;
O tamanho médio de cada gene é constituído por 3.000 bases;
50% dos genes identificados tem função desconhecida;
99,99% dos indivíduos apresentam a mesma sequência gênica;
Apenas 2% do genoma codifica ações para a produção de proteínas;
50
,
O cromossomo 1 apresenta o maior número de genes (3.168) e o cromossomo
sexual Y a menor quantidade de genes (344);
Mais da metade do genoma apresenta sequências repetidas que não codificam
proteínas, mas contribuem para o entendimento da estrutura do cromossomo;
Algumas sequências de genes específicos foram associadas com diversas
doenças e disfunções que incluem doenças musculares, surdez e câncer de
mama;
O genoma apresenta milhares de locais onde a diferença se concentra em
apenas uma base (USP, 2001).
O DNA constitui o material genético dos seres vivos, sendo responsável pela
transmissão dos caracteres hereditários e a base de quase todos os aspectos da saúde
humana. Conhecer a sequência e o trabalho que os genes realizam em conjunto ou
isolados e a interação dessa molécula química com o meio ambiente favorecerá o
descobrimento de vias envolvidas nos processos normais e no desenvolvimento de
doenças, apresentando uma grande revolução no modo de diagnosticar, tratar e
prevenir essas patologias, promovendo, consequentemente mudanças profundas na
prática clínica e saúde pública.
A farmacologia está associada à genômica por meio dos estudos desenvolvidos no
projeto genoma. Estes possibilitaram correlacionar variações na sequência dos
nucleotídeos da molécula de DNA à identificação de subgrupos de pacientes e a
respostas a tratamentos médicos, auxiliando na produção de novas drogas específicas
para o tratamento desses indivíduos selecionados, personalizando o tratamento.
Outros benefícios são esperados a partir dos diversos estudos que virão pós o
sequenciamento do genoma humano, fazendo com que ocorra o surgimento de novas
ferramentas de biotecnologia e criando um vasto campo de possíveis aplicações nas
mais diversas áreas, dentre elas podemos citar (USP, 2011):
51
,
Medicina Molecular: precisão no diagnóstico de doenças; detectar
predisposição genética para doenças; produzir fármacos baseados em estudos
moleculares; utilização de terapia gênica como medicamento; criação de
drogas baseadas no tipo genético do indivíduo.
Genômica microbiana: desenvolvimento de fontes de energia mais limpas;
melhorar o monitoramento ambiental na detecção de poluentes presentes;
proteção do indivíduo de armas químicas, biológicas e pandemias;
desenvolvimento de técnicas emergentes, como a biorremediação, na
recuperação de áreas degradadas.
Avaliação de riscos: indivíduos expostos à radiações e substâncias tóxicas.
Antropologia, evolução e migração humana: estudar a evolução utilizando
como base as mutações ocorridas na linhagem germinativa; pesquisar a
migração de grupos populacionais distintos baseados em marcadores de
herança materna; estudar as mutações presentes no cromossomo Y para
rastreamento de linhagens e migração de machos; realizar a comparação dos
pontos de quebra na evolução de mutações com idade populacional e eventos
históricos.
Identificação por meio do DNA: identificar suspeitos de crimes ou excluir
pessoas acusadas erroneamente de crime por meio do exame de DNA;
estabelecer relações de paternidade ou apresentação de outros graus de
parentesco; detectar microrganismos poluentes do solo, água, ar e alimentos;
selecionar sementes ou animais com o perfil genético procurado para a
reprodução.
Agropecuária e bioprocessamento: criação de culturas resistentes a pragas,
agrotóxicos e adversidades ambientais; melhorias de culturas para a produção
de bioenergia; desenvolver biopesticidas; melhoramento genético por meio do
cruzamento de plantas e animais.
52
,
Houve uma certa expectativa nessa primeira versão do genoma humano publicada em
2001, mas os estudos realizados ao longo do tempo demonstraram que a ciência e os
resultados esperados não são rápidos. O descobrimento da sequência é a primeira
etapa para entendimento do genoma, mas é necessário identificar os genes e os seus
respectivos elementos de controle, suas funções exercidas de forma isolada ou em
conjunto, entender como partes de genes são usadas na construção dos diferentes
produtos no processo de splicing do RNAm para a codificação de proteínas, a
complexidade existente entre as milhares de alterações químicas pelas proteínas e a
diversidade de mecanismos reguladores que controlam os processos e as relações
existentes entre as variações do genoma e as características observáveis e ou
detectáveis em um indivíduo (fenótipo).
Um exemplo da dificuldade de obtenção de resultados para terapias genéticas é que,
em trinta anos, 2.926 tratamentos que modificam o funcionamento dos genes foram
testados em seres humanos, mas apenas 5 chegaram ao mercado (ZORZETTO, 2019b).
Fonte: Journal of Gene Medicine apud ZORZETTO, 2019b.
Figura 3.1. Evolução das terapias gênicas
53
,
Com o desenvolvimento avançado de técnicas de sequenciamento e a evolução da
bioinformática foi possível identificar 4147 genes associados a 6499 doenças, sendo
possível estabelecer uma comparação entre indivíduos saudáveis com pessoas
portadores de diferentes enfermidades monogênicas.
Atualmente já existe, no sistema de saúde público brasileiro especializado em doenças
raras, um medicamento ministrado em crianças portadoras de atrofia muscular espinal
que ameniza as dores causadas pelo problema de origem genética, modificando o
funcionamento de gene ao aumentar a produção da proteína SMN, fundamental na
sobrevivência das células medulares do sistema nervoso central. O surgimento desse
medicamento é resultado dos desdobramentos do sequenciamento do genoma
humano iniciado na década de 90, proporcionando análises mais rápidas e precisas dos
genes e o surgimento de novas terapias e tratamentos com grande potencial de cura.
Apesar do grande avanço nas pesquisas genômicas relacionadas as doenças raras, não
podemos dizer o mesmo sobre as doenças que atingem um maior número de pessoas
como os problemas cardiovasculares, as diabetes, alguns tipos de câncer e as doenças
degenerativas do sistema nervoso central. A explicação se deve à complexidade e
diversidade de fatores que influenciam o desenvolvimento dessas doenças, pois são
resultantes da ação de vários genes que interagem entre si e com o meio ambiente,
dificultando identificar os responsáveis pelo surgimento da doença.
Mesmo diante dessas dificuldades, as inúmeras pesquisas que abordam as
informações sobre alterações genéticas têm contribuído, por exemplo, para a
determinação de características genética de alguns tipos de tumores, identificando o
tipo de câncer e o seu grau de agressividade (ZORZETTO, 2019a).
A contribuição para a evolução das pesquisas trazidas pelo Projeto Genoma trouxe
como resultado, até os dias atuais, o sequenciamento do genoma de quase 19.000
organismos, sendo: 3,5 mil vírus; 14,7 mil bactérias; 400 animais e plantas unicelulares
e multicelulares.
54
,
3.2 Terapia Gênica
No início do século XXI, com o sequenciamento do genoma humano, com a aplicação
da informática para o desenvolvimento das ferramentas de comparação de genes e
com o recorrente aumento nas pesquisas que envolvem a engenharia genética, surge a
disponibilidade de novas técnicas. Dentre elas podemos citar a terapia gênica. Trata-se
de uma metodologia aplicada em tratamentos terapêuticos. Por meio do DNA
recombinante, ocorre a inserção de genes de interesse (chamado de transgene) em
uma célula alvo, transportados por vetores, que são classificados como virais
(retrovírus, adenovírus e vírus adeno-associados) ou não virais, para efetuar a
correção, substituição ou tratamento de um gene atípico presente em uma região
conhecida (LINDEN,2010).
O vetor (vírus ou molécula) deve apresentar certas características como, por exemplo,
não provocar rejeição do sistema imunológico do hospedeiro; ter uma resposta
duradoura; apresentar eficiência na expressão do gene específico da célula-alvo; ser
possível sintetizar de forma eficiente (MENCK; VENTURA, 2007).
Esses vetores podem ser transportados de duas formas. No tipo “in vivo” vetores
eficientes são utilizados para introduzir o gene diretamente na célula ou órgão-alvo,
levando a expressão do transgene. Já no tipo “ex vivo” as células são retiradas do
paciente, cultivadas in vitro e posteriormente são introduzidos nas células do indivíduo
os vetores contendo os genes terapêuticos, expressando o gene exógeno desejado
(AZEVEDO, 2009).
A possibilidade de interferir no genoma humano por meio da terapia gênica permitiu a
transferência totalmente controlada e programada artificialmente dos genes e fez com
que nascesse um novo caminho para a resolução de problemas relacionados à saúde
humana, contribuindo na ampliação e no tratamento de doenças hereditárias
adquiridas durante a vida, como os tumores, doenças cardíacas e as infecções virais
(MENCK e VENTURA, 2007).
55
,
Um dos tipos celulares bastante utilizados pela terapia gênica são as células tronco do
organismo que estão presentes no indivíduo adulto. Classificadas como células
multicelulares, pois apresentam a capacidade de dar origem a diferentes linhagens de
células que desempenham funções específicas, como as células tronco
hematopoiéticas que produzem todas as células do sangue. A introdução de um
determinado gene terapêutico nesses tipos celulares distintos ativa esse gene para que
a proteína de interesse seja sintetizada (NARDI, 2002).
Outra técnica de terapia gênica desenvolvida e regulamentada pela Lei de
Biossegurança 11.105/05 consiste no uso de células tronco embrionárias para fins
terapêuticos e de pesquisa, apresentando-se como a principal esperança da ciência no
tratamento de diversas doenças neuromusculares degenerativas e de diversos
transtornos que, até o presente momento, não tem tratamento. Essas células-tronco
originadas da massa interna indiferenciada de embriões humanos apresentam as
propriedades de pluripotência, pois podem regenerar todo o tipo de células de um
corpo e ter a capacidade de se multiplicar indefinidamente.
A utilização de técnicas de DNA recombinante na alteração de genoma para promover
a sua correção por meio da substituição ou suplementação da expressão do gene
disfuncional a partir da introdução de uma ou mais cópias de um determinado gene
terapêutico teve como ideia inicial a aplicação em portadores de doenças
monogênicas, ou seja, doenças causadas por mutação em um único gene. Entretanto,
a terapia gênica não é exclusivamente aplicada nesse tipo de paciente (figura 3.1), pois
a medicina moderna trata de uma grande diversidade de doenças complexas em que
as causas primárias são desconhecidas e essa importante ferramenta da engenharia
genética pode intervir na progressão da doença, alterando mecanismos biológicos das
células, dos órgãos e sistemas afetados pela doença (LINDEN, 2010).
56
,
Fonte: adaptado de Linde, 2010.
Figura 3.2 - Modalidades principais de terapia gênica.
Os métodos utilizados para a inserção dos genes nas células alvo são classificados nas
seguintes categorias:
Métodos biológicos
Emprego de organismos que possuem a capacidade de transferir material genético.
Dentre os principais estudos que envolvem vetores de transmissão gênica, temos os
vírus como os agentes mais utilizados no desenvolvimento protocolos que envolvem
terapia gênica, pois apresentam grande eficiência de selecionar e inserir o genoma no
interior da célula hospedeira selecionada, expressando suas proteínas com uma
elevada taxa de transdução e rápida transcrição do genoma colocado em seu interior
(LUSTOSA; QUEIROZ, 2019).
Os grupos de vírus mais utilizados são adenovírus, retrovírus e adenoassociados. Todas
as classes de vírus utilizadas em processos de terapia gênica sofrem alteração por meio
da inativação do gene responsável pela replicação virótica, impedindo que ocorra o
ciclo lítico infeccioso do vírus (ROMANO et al.,2000).
A categoria dos adenovírus tem como característica não integrar o seu genoma ao DNA
do hospedeiro, fazendo com que o material genético viral fique livre no núcleo da
célula hospedeira, transcrevendo de forma simultânea com os genes dessa célula
(PEREIRA, 2015).
57
,
Os retrovírus constituem um grupo de vírus muito utilizado em experimentos clínicos
que envolvem a terapia gênica, pois apresentam grande eficiência na fusão com o
genoma da célula hospedeira e expressão do gene por um longo período. Essa
habilidade de entrar nas células-alvo, transcrever o seu RNA em DNA e integrar-se ao
cromossomo da célula hospedeira e produzir, por meio do gene selecionado, a
proteína esperada no tratamento terapêutico (CHIROTTO FILHO; MACHADO, 2019).
Os vetores adenoassociados são utilizados em culturas in vivo, apesar de apresentar
limitações relacionadas ao tamanho do transgene a ser transportados, possui alta
porcentagem de transferência de genes a muitas células hospedeiras.
Métodos químicos:
O vetor utilizado é alguma substância de origem química que auxilia na entrada do
gene na célula hospedeira. Nesse método são aplicadas as seguintes técnicas:
Co-precipitação de fosfato de cálcio - para introduzir o DNA no meio celular, o
material genético é imerso em uma solução contendo DNA carreador, solução
tampão e fosfato de cálcio. Geralmente os compostos utilizados são catiônicos
(carga positiva) que se combinam com cargas negativas dos fosfatos que
compõem o nucleotídeo do DNA, originando um complexo, facilitando a
entrada na célula. Por se tratar de um método simples, seguro e de baixo custo,
é muito utilizado na produção de vetores virais (NARDI et al, 2002).
Lipossomos: são vesículas catiônicas compostas por duas camadas de lipídios
em meio aquoso, capazes de formar um complexo com o DNA e, ao ser inserido
no citoplasma celular da célula alvo, o DNA é liberado. Esse complexo tem a
capacidade de expressar genes que interferem na resposta imune celular
quando injetados em células tumorais da pele, inibindo o crescimento e
regressão da doença (MENCK; VENTURA, 2007).
Por apresentar certas características químicas, facilitam a entrada de substâncias
terapêuticas no tratamento do câncer e em problemas cardiovasculares.
58
,
Métodos físicos
O transgene é introduzido de maneira mecânica nas células. Envolvem quatro técnicas
distintas:
Microinjeção: Consiste na introdução de fragmentos de DNA diretamente no
núcleo da célula alvo. Apesar de ser uma técnica antiga e apresentar uma
vantagem devido a pequena quantidade de DNA utilizado, esse método não
alcançou sucesso pois a quantidade de células transformadas é muito baixa e a
necessidade de profissionais especializados na manipulação do equipamento
utilizado no desenvolvimento do procedimento (NARDI et al,2002).
Gene Gum: Utilização de esferas de ouro ou tungstênio envolvidas pelo DNA
são aceleradas e transportadas por um gás que projeta as esferas contra as
células para que ocorra a penetração do DNA no meio celular. Esse método foi
adaptado para utilização in vivo nas vacinas de DNA.
Eletroporação: As células são preparadas em uma solução contendo DNA
plasmidial e submetidas a pulsos elétricos que formam poros na membrana
celular para facilitar a entrada do DNA. Esse método, apesar de apresenta uma
grande eficiência na velocidade de células transfectadas em um curto período,
tem desvantagens relacionadas a mortalidade celular, devido a voltagem
aplicada à célula (PEREIRA, 2015).
Plasmídios: Inserção de plasmídios contendo o DNA recombinante no interior
da célula. A vantagem desse processo se deve à possibilidade da não limitação
do tamanho do fragmento de DNA inserido.
Os experimentos que envolvem a terapia gênica apresentam as seguintes etapas:
O isolamento do gene;
A construção do vetor;
Transferência do gene para as células do tecido alvo;
Expressão do gene terapêutico, sintetizando a proteína codificada.
59
,
3.3 Novas Ferramentas da Engenharia Genética
CRISPR/Cas
Nos últimos anos, tem aumentado a quantidade de estudos que têm por finalidade
desenvolver técnicas de genoma por meio de ferramentas que permitem modificar o
genoma através de um conjunto de moléculas que quebram o DNA, promovem a sua
alteração, fazendo uso dos próprios mecanismos naturais de reparo sem se utilizar de
genes de outros organismos.
No início de 2012 surge uma tecnologia de edição de genoma denominada CRISPR (do
inglês Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats), desenvolvido a
partir de mecanismos moleculares do sistema imunológico bacteriano que se utiliza de
uma molécula de RNA para guiar uma nuclease (Cas9) até se parear com as bases de
uma sequência-alvo de DNA a ser modificada (figura 3.3).
Figura 3.3 Edição de Genoma - Sistema CRISPR/Cas9
A estrutura genética do CRISPR, no sistema bacteriano, apresenta repetições
palindrômicas curtas, agrupadas e regularmente interespaçadas. As repetições,
quando transcritas, formam o RNA transativador (ou RNA guia) que serve para guiar a
enzima Cas9, uma nuclease, ao alvo, provocando quebras na fita dupla.
Posteriormente a essa clivagem, a própria maquinaria molecular do organismo,
responsável em corrigir erros no genoma, é utilizada para alterar a sequência de DNA.
60
,
Esse sistema de edição de gene serve para reparar mutações no genoma como
também para introduzir novas alterações genéticas, sendo adotado para a edição e
modificação de genomas em vários tipos celulares, incluindo células-tronco; na terapia
de câncer; doenças cardiovasculares; distúrbios genéticos; no desenvolvimento de
vacinas e novas drogas; no tratamento de infecções; na medicina regenerativa, dentre
outras aplicações (AREND, 2017 e DIAS; DIAS, 2018).
O sistema CRISPR/Cas9 surgiu com uma proposta de vanguarda que integra a
praticidade, objetividade e especificidade. Nos estudos que utilizam a edição de genes,
temos uma diversidade de pesquisas que não envolvem somente as aplicações
exclusivamente da área da saúde, mas também a extensão dessa ferramenta em
ramos da biotecnologia, por meio da manipulação de animais, na produção de
combustíveis, alimentos e na variação genética de microrganismos (DIAS; DIAS, 2018).
Benefícios da utilização do sistema CRISPR/Cas9:
Edição de genomas;
Desenvolvimento de medicamentos;
Produção de vacinas;
Manipulação de microrganismos;
Aconselhamento genético;
Produção de biocombustíveis;
Melhoramento genético;
Produção de alimentos.
Muitas dessas técnicas de edição de genoma estão sendo aplicadas na área da
agricultura, tendo como objetivo principal desenvolver plantas melhores que aqueles
que lhes deram origem e tendo como distinção ser uma espécie que apresenta uma
nova variação genética sem possuir um gene de outra espécie (NEPOMUCENO, 2017).
61
,
A tecnologia CRISPR/Cas; ao permitir a possibilidade de editar a sequência do genoma
de vírus, fungos, plantas, animais e embriões humanos; é considerada uma técnica
revolucionária, apesar de envolver discussões relacionadas aos aspectos éticos de sua
utilização.
Apesar dos questionamentos envolvidos, muitos países, como os EUA, já liberaram a
comercialização de alimentos que envolve essa tecnologia porque acreditam que essa
ferramenta de edição de genoma não envolve a transferência de genes entre espécies,
não existindo a possibilidade de risco. Seguindo essa política de liberação, grandes
empresas de tecnologia desenvolveram um milho que apresenta alta resiliência a
períodos de estiagem que, em breve, estará no mercado em um tempo bem menor
comparado ao que levaria um melhoramento convencional e em pesquisas realizadas
em espécies transgênicas (YANAGUI, 2016).
O uso dessa ferramenta biotecnológica de edição de genoma oferece outra vantagem
importante, além da rapidez no desenvolvimento de um novo produto, como já foi
citado, temos o fato de ser uma técnica de alta precisão, pois permite controlar genes
e possibilita a criação de novos produtos que não diferem daqueles que sofreram
processos naturais de mutação. Isso resulta em um menor custo para o agricultor
(DIAS et al, 2019).
A interferência por RNA (RNAi)
A interferência por RNA (RNAi) é um mecanismo celular responsável pelo
silenciamento gênico que atua sobre o mRNA ao desligar a expressão de determinados
genes que suprimem a produção de uma proteína específica de um organismo.
Investimentos em pesquisas realizados por multinacionais da área da biotecnologia
estudam o RNAi como uma nova tecnologia da engenharia genética empregada no
controle de pragas e no melhoramento de plantas.
62
,
A empresa norte-americana de biotecnologia Monsanto está desenvolvendo um tipo
de spray que controla o besouro da batata. Inseto que causa sérios danos ao
desenvolvimento das plantas, comprometendo a sua produtividade. Quando aplicado
na plantação, moléculas de RNA presentes no composto criado, penetram no inseto,
selecionam e se ligam a uma molécula de mRNA com o objetivo de desligar uma
determinada proteína específica. Uma das vantagens citadas no desenvolvimento
dessa nova ferramenta biotecnológica está na possibilidade de selecionar o gene alvo e
efetuar a inativação da expressão do gene de forma temporária, sem haver a
necessidade de alteração no genoma, o que ocorre com os organismos geneticamente
modificados, reduzindo o custo e acelerando o processo de tramitação para a
aprovação pelos órgãos reguladores.
No meio científico existem algumas preocupações relacionadas aos possíveis riscos
existentes ao utilizar a tecnologia do RNAi no controle de pragas. Ao inativar a
produção de proteínas de um inseto praga, existe a probabilidade de atingir outros
insetos importantes no equilíbrio do ecossistema, que apresentam um mRNA
semelhante ao do inseto a ser combatido. Portanto, existe a necessidade de
conhecimento de genomas dos insetos presentes no meio para que a tecnologia do
RNAi seja aplicada com segurança (YANAGUI, 2016).
Prime editing (DNA)
Atualmente a tecnologia, conhecida como "prime editing" (edição de qualidade) é o
mais recente avanço no campo da engenharia genética desenvolvida pela equipe do
Instituto Broad, ligado à universidade de Harvard e ao MIT (Massachusetts Institute of
Technology) nos Estados Unidos, como uma nova ferramenta tecnológica que funciona
como um "editor de texto genético" capaz de reescrever o DNA com precisão.
A diferença principal existente entre a técnica Crisp e a prime editing é que essa nova
tecnologia apresenta alta precisão no acerto do alvo e corte da molécula de DNA para
que um gene seja inserido ou deletado. Anteriormente, a edição de genes apresentava
muitos problemas no processo devido a erros nos locais do corte ou na ocorrência de
imperfeições. Outra vantagem importante do prime editing está na capacidade de
corrigir seções menores, com até um único nucleotídeo, da sequência de três bilhões
que compõem a molécula de DNA e constituem o genoma humano.
63
,
O “prime editing” foi utilizado com sucesso em experimentos realizados para correção
de erros genéticos na anemia falciforme, doença hereditária causada por uma
mutação que torna uma base Adenina (A) em um Timina (T), alterando o formado da
hemácia, o que impossibilita o transporte de sangue pelas hemácias e a doença de
Tay-Sachs, que afeta os nervos e, com frequência, é causada por uma mutação que
adiciona quatro letras extras de código no DNA. Existem aproximadamente 75 mil
mutações que causam doenças nos seres humanos e a utilização dessa nova
ferramenta tecnológica “prime editing", segundo os pesquisadores envolvidos, tem o
potencial para corrigir 89% dessas mutações (GALLAGHER, 2019).
Conclusão
O sequenciamento do genoma humano, ao proporcionar a possibilidade de identificar
e localizar no DNA quais são os genes responsáveis por todas as nossas características
normais e patológicas, trará como resultado ao longo do tempo, uma revolução,
principalmente na área de terapia gênica, por meio da prevenção de diversas doenças
e na adequação do tratamento de acordo com o perfil genético do indivíduo.
Na agricultura, a evolução nos estudos relacionados à biotecnologia vegetal é notória
devido ao melhoramento genético de plantas, à produção de biocombustíveis e ao
combate efetivo de pragas.
Apesar do avanço de pesquisas que envolvem as novas tecnologias aplicadas na edição
de genomas e da real possibilidade de criar benefícios à sociedade, é fundamental
conhecer quais os possíveis riscos, muitas vezes desconhecidos, em uma possível
aplicação dessa tecnologia, sendo necessário uma rigorosa avaliação dos aspectos
científicos, éticos e sociais envolvidos.
REFERÊNCIAS
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Possibilidade de Edição Genômica para a Cardiologia. Arq. Bras. Cardiol, 108(1):81-83,
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Janeiro, 12(2):277-299, 2002.
DIAS, G.; SILVA, M.; CARNEIRO, P. A engenharia genética de precisão: Status atual e
perspectivas regulatórias para as novas ferramentas de melhoramento genético.
Céleres - Your Agribusiness Intelligence, 2019.
DIAS, C. A. P.; DIAS, J.M.R. Sistema Crisp/Cas como uma nona ferramenta
biotecnológica na edição de genomas: aplicações e implicações. Rev. AMBIENTE
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genéticas” no futuro. BBB NEWS, 2019.
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Tratamento de Doenças: Uma Revisão de Literatura. Brasília: UniCEUB, 2019.
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Técnicas de Terapia Gênica. Foco: Caderno de Estudos e Pesquisas. Faculdades
Integradas Maria Imaculada - FIMI, 2019.
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artigos/proxima-fronteira-tecnologica-da-agricultura/>. Acesso em: 16 maio 2020.
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<[Link] Acesso em: 20
jul. 2020.
66
,
4 ENZIMAS E PROCESSOS FERMENTATIVOS
Presentes na civilização desde 4.000 anos a. C., as enzimas são proteínas que
apresentam propriedades catalíticas e são largamente aplicadas na indústria
alimentícia e farmacêutica, na indústria têxtil, de papel e celulose.
Com as novas descobertas, as enzimas passaram a ser cada vez mais empregadas,
movimentando um mercado mundial de enzimas industriais estimado hoje em US$ 2,3
bilhões anuais e com atuação em três segmentos. As enzimas destinadas a indústrias
de tecidos e de produtos de limpeza, as enzimas para alimentos e bebidas e as enzimas
para ração animal.
No setor alimentício as aplicações das enzimas estão concentradas na área de álcool e
derivados; óleos e gorduras; produtos de panificação; amido e açúcares; bebidas
alcóolicas; laticínios e derivados; e sucos de frutas.
Nesse bloco estudaremos as enzimas e suas aplicações, os processos fermentativos, os
principais tipos de fermentação e os seus respectivos produtos gerados.
4.1 Enzimas
As enzimas são moléculas proteicas constituídas por polímeros de aminoácidos que
apresentam a capacidade de diminuir a energia de ativação de uma reação química,
acelerando, consequentemente, a velocidade dessa reação. São consideradas como
um dos pilares das diversas formas de seres vivos existentes, pois, ao controlar a
velocidade das reações químicas que ocorrem no meio intracelular, promovem o
equilíbrio dinâmico da maquinaria dos organismos celulares (JUNQUEIRA;
CARNEIRO,2013).
Essas moléculas são consideradas como os catalizadores biológicos mais eficientes
existentes, pois, ao longo dos processos evolutivos, cada enzima foi otimizada para
realizar as suas funções em uma determinada e específica reação química, ou seja,
cada enzima catalisa um tipo de reação química ou, dependendo da enzima, uma
classe de reações que apresentam estreitas relações entre elas (MADIGAN, 2010).
67
,
Além da eficiência e do grande poder catalítico, as enzimas apresentam certas
características importantes como:
Podem ser reguladas por diferentes estratégias (ativadas ou inibidas);
Apresentam elevado rendimento, pois, no final da reação, gera-se apenas os
produtos desejáveis ou úteis às células;
São específicas quanto aos substratos/produtos e/ou localização tecidual;
Ao catalisar reações específicas relacionadas evitam reações competidoras;
São utilizadas para a síntese in vitro, tanto no laboratório experimental quanto
na produção industrial;
São os efetores da informação genética presente no DNA, pois são produzidas
pelo próprio material genético;
Embora grande parte das moléculas enzimáticas sejam proteínas sintetizadas
pelo DNA, existem alguns RNA denominados ribozimas que desempenham
papel enzimático. (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2013).
Ação Enzimática
O reagente, ou composto que sofre a ação enzimática é denominado de substrato(S).
Essa combinação origina um complexo enzima-substrato. Posteriormente, com o
avanço da reação, o produto(P) é liberado e a enzima responsável pela ativação da
reação química retorna ao seu estado natural, podendo atuar diversas vezes
(MADIGAN, 2010). A molécula de enzima geralmente é maior que o substrato e
apresenta um ou mais centros-ativos que se associam ao substrato, originando o sítio-
ativo e facilitando a transformação do substrato no produto. A reação pode ser
representada como a seguir:
E+S E-S E+P
68
,
A forma tridimensional da molécula de enzima é fundamental para a formação do sítio
ativo, pois a conformação tridimensional é complementar ao substrato, formando um
encaixe preciso para que exista a possibilidade da ação enzimática, originando um
modelo denominado “chave-fechadura” (figura 4.1).
Figura 4.1 - Ação catalítica das enzimas, modelo chave – fechadura.
A característica de especificidade das enzimas é muito variável; algumas atuam em
apenas um tipo de molécula, não atacando nem os isômeros que têm a mesma
conectividade, mas que diferem no arranjo de seus átomos no espaço. Podemos citar
como exemplo, a desidrogenase láctica que só opera sobre o L- lactato, não agindo
sobre a sacarose. Existem casos em que temos enzimas atuantes sobre vários
compostos que apresentam alguma característica estrutural comum, como as
fosfatases que hidrolisam uma diversidade de ésteres do ácido fosfórico (JUNQUEIRA;
CARNEIRO, 2013).
Muitas enzimas contêm pequenas moléculas não proteicas, podendo ser um íon
metálico ou molécula, denominado cofator, necessário para que a ação catalítica
ocorra. Quando esse cofator é uma molécula é chamado de coenzima. As coenzimas se
ligam fracamente às enzimas e apenas uma dessas moléculas podem se associar a uma
diversidade de enzimas diferentes. Além disso são termoestáveis, ao contrário das
enzimas que se desnaturam e ficam inativadas quando expostas a temperaturas
elevadas (MADIGAN, 2010).
69
,
O complexo originado pela união entre a enzima e o cofator, denomina-se holoenzima
e, caso o cofator seja removido, a porção proteica da enzima é inativa e chamada de
apoenzima.
Nomenclatura das enzimas
Um método utilizado para classificação de uma enzima é a designação pelo nome do
substrato onde ocorre a atuação da enzima, acrescentando-se o sufixo (ase). Por
exemplo, a lactose (substrato), dissacarídeo presente no leite e seus derivados é
hidrolisada por uma enzima chamada de lactase. Muitas enzimas não seguem essa
forma de nomeação, como a enzima pepsina presente no suco gástrico.
Com o avanço no isolamento e identificação de novas enzimas, a União Internacional
de Bioquímica criou uma Comissão Internacional para estabelecer os critérios para
classificar as enzimas. Foi adotado sistema formal de nomenclaturas de enzimas no
qual dividiu as enzimas em seis classes (tabela 4.1) de acordo com o tipo de reação que
catalisam.
Tabela 4.1 – Principais classes de enzimas segundo a nomenclatura da Comissão de
Enzimas, União Internacional de Bioquímica. Na classificação completa, cada classe
deste quadro é subdividida.
Fonte: Adaptado de Junqueira; Carneiro, 2013.
70
,
Fatores que influenciam a atividade enzimática
Alguns fatores provocam alterações das atividades enzimáticas, dentre eles podemos
destacar:
Temperatura - Pode ser considerada a mais importante. Por apresentar
estrutura proteica, temperaturas elevadas rompem as ligações responsáveis
por estabilizar a estrutura espacial da enzima, ocorrendo a sua desnaturação.
Em temperaturas baixas o frio deprime a atividade enzimática.
PH - A alteração do pH ideal para que ocorra uma ação enzimática causa
diminuição da velocidade da reação, independentemente se essa alteração é
para cima ou para baixo. Se ocorrer mudanças drásticas no pH, poderá ocorrer
desnaturação proteica.
Substrato - Quanto maior for a concentração do substrato, maior será a
velocidade da reação, até que atinja a velocidade máxima. Há uma velocidade
máxima a ser alcançada e isso depende da quantidade de enzimas que podem
catalisar uma reação específica. Em alta concentração de substrato, a enzima
se encontra em saturação. Isso quer dizer que seu sítio ativo permanece
sempre ocupado por moléculas de substrato.
Inibição enzimática - As atividades enzimáticas são sensíveis a muitos fatores
físicos e químicos capazes de interferir no funcionamento adequado dessas
enzimas e de promover a sua inibição. A inibição enzimática pode ser
classificada em competitiva e não competitiva.
Inibição Competitiva - Quando uma substância inibidora possui semelhanças
estruturais ao substrato específico da enzima, apresenta resistência a ação
enzimática e se liga à enzima livre. Tipo de ocorrência onde o inibidor compete
com o substrato específico da enzima para se localizar no centro ativo. Uma
maior quantidade de substrato dificulta a ação da substância inibidora em
estabelecer a associação com a enzima.
Inibição não competitiva (figura 4.2) - Quando a substância não se liga à enzima
em seu estado livre, mas se combina ao complexo enzima-substrato,
promovendo a inativação.
71
,
Fonte: MANN, 2007.
Figura 4.2 Esquema da inibição enzimática competitiva (A) e competitiva (B).
4.2 Fermentação
A fermentação é um processo de reação biológica anaeróbica que consiste na
degradação da glicose em vários produtos para a obtenção de energia em forma de
ATP (adenosina trifosfato). O ATP é a molécula química responsável pelo
armazenamento de energia para a realização das atividades celulares.
A fermentação ocorre em duas etapas:
Glicólise - Degradação da molécula de glicose em ácido pirúvico. A glicólise
anaeróbia ou fermentação consiste na quebra da molécula de glicose (C₆H₁₂O₆),
sem consumo de oxigênio, em uma sequência de 10 reações químicas
mediadas por enzimas que promovem a quebra gradual do polissacarídeo em
duas moléculas de ácido pirúvico (C3H4O3) ou piruvato.
Redução do ácido pirúvico - Em condições anaeróbias, a redução da molécula
de ácido pirúvico conduz à formação dos produtos de fermentação (dependem
da molécula orgânica que é produzida a partir do ácido pirúvico). Isso ocorre de
duas formas e origina dois processos distintos. Eles são a fermentação alcoólica
e a fermentação láctica.
72
,
Fermentação alcoólica
A fermentação alcoólica tem sido utilizada pela humanidade desde a mais remota
antiguidade. A partir de cereais e frutas, os egípcios há mais de 4.000 anos já
fabricavam pães e bebidas alcóolicas, mesmo desconhecendo o processo de
fermentação. Os primeiros registros que indicam que a fermentação ocorria devido a
um processo químico com a ação de microrganismos apareceram por volta do século
XIV (HENRIQUES, 2014).
Na fermentação alcoólica (Figura 4.3), ocorre a degradação de moléculas de açúcar, no
interior das células de microrganismos (leveduras) originando o ácido pirúvico que se
transforma em álcool etílico e gás carbônico.
Fonte: GUARITA, 2016.
Figura 4.3 - Esquema da fermentação alcoólica.
A equação geral da fermentação alcóolica pode ser representada da seguinte forma:
Equação 4.1 - Equação geral da fermentação alcoólica
Um dos organismos bastante utilizados na fermentação alcoólica são as leveduras,
dentre eles o fungo unicelular conhecido como fermento biológico Saccharomyces
cerevisae, que realiza a fermentação do açúcar para que tenha a produção dos
nutrientes necessários para a sua manutenção e, consequentemente, a formação do
etanol como subproduto (HENRIQUES, 2014).
73
,
Na fermentação alcoólica, além do tipo de levedura, diversos fatores ambientais
podem influenciar no desempenho das leveduras no processo. Dentre esses fatores
podemos destacar:
Temperatura - As leveduras apresentam uma temperatura ótima para alcançar
sua melhor produtividade; não são tolerantes a temperaturas extremas,
podendo ter um desempenho bem abaixo do esperado ou até mesmo cessar a
sua atividade. Além disso, o excessivo aumento da temperatura aumenta a
probabilidade do crescimento de contaminantes.
PH - Grande parte das leveduras apresentam um pH ótimo para o seu melhor
desenvolvimento (entre 3 e 6). Na produção de etanol, quando se utiliza a
levedura Sacharomyces cerevisae, o pH ótimo se situa na faixa 4-5. Caso o pH
não esteja nesse limiar, aumentando para 7, por exemplo, a reprodução da
levedura é afetada, diminuindo o rendimento de etanol com o aumento da
produção de ácido acético (STECKELBERG, 2001).
Oxigênio - A presença de oxigênio em altas concentrações inibe a fermentação
alcoólica, alterando o processo de fermentação e, consequentemente, o
rendimento dos produtos gerados.
Fermentação láctica
A fermentação láctica é um processo bioquímico anaeróbio em que o ácido pirúvico é
transformado em ácido láctico, geralmente por bactérias do gênero Lactobacillus que
fermentam o leite.
Figura 4.4 - Representação esquemática da transformação do ácido pirúvico em
ácido láctico
74
,
O ácido láctico é o produto final da reação e não sofre mais oxidação. A maior parte da
energia produzida pela reação permanece armazenada no ácido. Dois importantes
gêneros de bactérias que realizam fermentação láctica são os Streptococcus e os
Lactobacillus. Os microrganismos que produzem somente ácido láctico são conhecidos
como homoláticos ou homofermentativos. A fermentação do ácido láctico realizada
por alguns microrganismos pode resultar na deterioração de alimentos, mas também
pode produzir chucrute a partir de repolho, conservas de pepino, e iogurte a partir de
leite.
Fermentação acética
A fermentação acética é uma reação química que consiste na oxidação parcial do
álcool etílico, com produção de ácido acético, consumo de O2, ocorrendo liberação de
energia. A oxidação segue de acordo com a equação básica:
Figura 4.5 - Esquema da equação de oxidação do etanol em ácido acético
O vinagre é o produto microbiano resultante da conversão de álcool etílico em ácido
acético por gêneros de bactérias acéticas aeróbias estritas como a Acetobacter e
Glunobacter. Esses grupos de bactérias são tolerantes ao pH ácido da substância
gerada no processo.
O ácido acético é produzido por métodos químicos em qualquer substrato que tenha
álcool, enquanto o produto vinagre é resultante da presença de substâncias presentes
no material inicial e aquelas geradas no processo de fermentação.
A oxidação do etanol, ocorre por meio de duas reações sequenciais catalisadas pelas
enzimas álcool desidrogenase (ADH) e aldeído desidrogenase (ALDH) associadas à
membrana. Essas enzimas catalisam reações de oxidação denominadas fermentação
oxidativa, pois consistem na oxidação incompleta do álcool acompanhado pelo
acúmulo do produto de oxidação no meio de crescimento (MADIGAN, 2010; ZILLIOLI
2011).
75
,
Qualquer fonte de carboidrato suscetível de fermentação pode ser utilizada na
produção de vinagre. Uma grande variedade de matérias-primas é empregada na
fabricação desse produto como maças, uvas, arroz, cana de açúcar, milho, dentre
outros.
4.3 Processos de Fermentação
Na microbiologia industrial, o termo fermentação se refere a qualquer processo
microbiano que ocorra em grande escala. Os microrganismos, por meio dos processos
de fermentação, possibilitam a produção em larga escala de enzimas que apresentam
alto grau de pureza. As enzimas são consideradas catalisadores naturais de grande
aplicação nas mais variadas atividades industriais como os setores de papel e celulose,
farmacêutico, têxtil e alimentício, na produção de aditivos, produtos químicos e em
tratamentos ambientais.
O agente biológico utilizado na produção dessas enzimas deve apresentar certas
características como a capacidade de crescer e sintetizar o produto em grande escala;
não ser patogênico; produzir esporos que facilitam a inoculação em fermentadores;
ser de fácil manipulação genética; apresentar crescimento rápido; sintetizar o produto
desejado em um período de tempo curto; crescer em meios de cultura líquidos; ser um
processo de baixo custo (MADIGAN,2010).
O processo de fermentação se inicia com a escolha do agente biológico ideal
(microrganismo ou enzima); a transformação da matéria prima; a separação; e
purificação do produto.
O termo fermentador é usado como sinônimo de biorreator, designando o recipiente
ou tanque onde ocorre o processo biotecnológico. No processo fermentativo, diversos
fatores são controlados e monitorados, dentre eles temos: fatores físicos
(temperatura, tempo, pressão, nível de agitação, atividade de água e vazão de gases e
líquidos); fatores químicos (pH, oxigênio dissolvido, sólidos solúveis); e fatores
biológicos (crescimento microbiano e medida de contaminação.
76
,
Fonte: CRUZ, 2016
Figura 4.6 Processo biotecnológico.
Quanto à natureza do meio de fermentação, os métodos utilizados em processos
fermentativos para a produção de enzimas podem ser realizados no meio líquido,
designado de fermentação submersa (FS) quanto no meio sólido (FES).
Fermentação Submersa (FS)
A fermentação submersa (FS) pode ser definida como aquela cujo “substrato fica
dissolvido ou suspenso em pequenas partículas no líquido, normalmente água, que
chega a constituir cerca de 90 a 99% da massa total do material a ser fermentado”
(NASCIMENTO, 2015).
Considerada como um tipo de processo fermentativo mais antigo utilizado pelo
homem. Existem registros datados de 1000 a.C. em que eram utilizados esse método
para a produção de bebidas alcoólicas e molho à base de soja.
Os fermentadores apresentam diversidade de tamanhos, apresentando escala
laboratorial, com capacidade volumétrica de 5 a 10L, até em escala industrial com
capacidade de 500.000 litros. Esses fermentadores industriais podem ser classificados
de acordo com o tipo de processo (aeróbio ou anaeróbio). No caso dos fermentadores
aeróbios, para manter a homogeneização e aeração adequadas, são dotados de
agitadores, mecanismos de aeração para a introdução de ar estéril, controle da
temperatura e pH (MALAJOVICH, 2011).
77
,
Os fermentadores industriais (Figura 4.4), geralmente são cilíndricos, de aço
inoxidável, fechado e dotados de dispositivos para aeração e controle do processo.
Devido à grande demanda de oxigênio exigido pelo meio de cultura, dois dispositivos
garantem a aeração adequada. São eles o aspersor (aerador) e o impulsor (agitador).
Figura 4.7 - Fermentador industrial
Como uma das vantagens da FS, podemos destacar que, devido ao uso de
computadores para modelar os processos fermentativos industriais, existe a facilidade
na manipulação e no monitoramento do processo, desde a formação do produto até o
consumo do substrato, envolvendo o controle de diversos parâmetros presentes na
fermentação (temperatura, pH, esterilidade e oxigenação, uniformidade na cultura de
microrganismos submersos, menor tempo de fermentação).
A principal desvantagem a ser destacada consiste no grande volume de resíduos
gerados e o problema na separação do produto gerado misturado ao substrato
(MONTEIRO; SILVA, 2009).
Fermentação em Substrato Sólido (FES)
A FES pode ser definida como um processo de cultivo de microrganismo em um
substrato sólido, sem a presença de água livre, mas com o controle da manutenção de
umidade mínima suficiente para a manutenção das atividades metabólicas e
crescimento do microrganismo.
78
,
Estudos demonstraram vantagens na utilização de FES no cultivo de fungos
filamentosos, pois o meio criado se assemelha ao ambiente natural desses seres vivos;
maior rendimento comparando-se a FS; menor demanda de energia, o uso de reatores
menores proporciona economia de espaço; manutenção da estabilidade a certas
variações de temperatura e pH; adaptação a substratos apresentando menor taxa de
inibição; menor volume de efluente produzido; a possibilidade de utilizar resíduos
agroindustriais como substrato sólido ricos em fontes de carbono (RAIMBAULT,1998).
Em relação as desvantagens, temos a limitações de tipos de microrganismos capazes
de crescer em sistemas que apresentam baixa umidade e a dificuldade em monitorar
variáveis difíceis de controlar em substrato sólido como a temperatura e controle de
gases, influenciando negativamente no crescimento microbiano e nos resultados dos
metabólitos resultantes no processo.
Apesar da FES ser indicada para o desenvolvimento de enzimas e outros metabólitos
por fungos, a necessidade de agitar o leito do biorreator para dissipar o calor gerado
no processo, acaba causando danos nos filamentos de fungos, interferindo no
rendimento do processo (MONTEIRO; SILVA, 2009 e NASCIMENTO, 2015).
No caso da variável temperatura, a liberação de calor decorre do crescimento
microbiano em meio aeróbio e, devido à ausência de água, esse calor é difícil de ser
removido em virtude da baixa condutividade do substrato sólido. Essa problemática
aumenta quando temos esse processo em escala industrial.
A presença de água em um bioprocesso facilita o processo de adsorção de nutrientes
por parte dos microrganismos e consequentemente na estabilidade das estruturas e
funções biológicas desses agentes no meio. Para que ocorra o desenvolvimento dos
microrganismos no substrato sólido, é fundamental o controle da umidade pois evita-
se uma possível de desnaturação das proteínas celulares, o baixo crescimento
microbiano e a minimização na geração de metabólitos esperados no processo
(FARINAS et al., 2014).
79
,
O fator aeração é fundamental na manutenção do equilíbrio no processo de
fermentação em substratos sólidos, pois mantém as condições aeróbias do meio,
remove o dióxido de carbono gerado, regula a temperatura e nível de umidade. Na FES
os microrganismos têm acesso livre ao oxigênio presente no ar, diferentemente da FS
que, devido à baixa solubilidade desse gás na água, tem a baixa concentração de
oxigênio como fator limitante do crescimento (RAIMBAULT, 1998).
As alterações do pH no meio ocorrem devido às atividades metabólicas que ocorrem
durante o crescimento microbiano. Esse pH pode ser diminuído quando existe a
secreção de ácidos ou aumentado quando houver a assimilação de ácidos orgânicos
em nutrientes presentes. O ajuste desse pH no decorrer do processo é bastante
complexo e geralmente ocorre no início da FES.
Devido à grande heterogeneidade de substratos, atualmente, a tendência é a
utilização de resíduos agroindustriais na composição dos substratos. Resíduos de
laranja, mandioca, bagaço de cana, polpa de café, farelos de cereais, dentre outros são
grandes fornecedores de carbono e energia que influenciam diretamente no bom
crescimento microbiano (FARINAS et al., 2014).
Biorreatores de FES
A maior parte dos estudos relacionados à fermentação em substrato sólido publicados
nos últimos anos estão voltados para a produção em pequena escala nos laboratórios.
O aumento da escala de produção enzimática seria o ideal, pois diminuiria os custos
envolvidos no processo. Entretanto, a dificuldade para elevar o escalonamento está
em encontrar solução, manter a umidade ideal do substrato e remover o calor gerado
(FONSECA, 2012).
Ao longo do tempo, houve avanços que buscaram desenvolver melhorias nos projetos,
na operação e no escalonamento da FES. Os biorreatores são classificados de acordo
com o seu volume útil e geometria espacial.
A seguir, apresentamos alguns tipos de biorreatores:
80
,
Biorreatores do tipo bandeja - equipamento composto por várias bandejas que
recebem o substrato e que são mantidas em temperatura controlada em que
ocorre a circulação do ar. Apesar de ser considerado um biorreator simples e
um dos mais antigos FES, diversos estudos foram publicados nos últimos anos,
destacando experimentos realizados com a utilização de substrato composto
por resíduos agrícolas, como o farelo de trigo e casca de soja para a avaliação
do potencial desse tipo de substrato. A desvantagem de utilizar esse
equipamento encontra-se na quantidade de bandejas utilizadas no processo,
dificultando a produção em alta escala (FARINAS et al.,2014).
Fonte: ASTOLFI, 2017.
Figura 4.8 - Esquema de um biorreator de bandeja.
Biorreatores do tipo leito empacotado - Constituído por colunas onde o
substrato está contido em uma base com perfurações e o ar úmido é forçado
através leito do substrato. Pode apresentar um revestimento no qual circula a
água para o resfriamento e controle da temperatura. Os problemas
encontrados no processo estão relacionados a remoção do calor, na ampliação
da escala e o crescimento microbiano não uniforme (FARINAS et al. 2014).
Biorreatores do tipo tambor rotativo - Os modelos de tambor horizontal podem
ser rotativos, perfurados ou apresentar pás misturadoras que tem como
finalidade agitar o substrato.
81
,
O tambor rotativo apresenta um cilindro que gira para misturar o
material fermentado e distribui o ar no interior do biorreator, muitas
vezes revestido por uma “jaqueta” para controle da temperatura. A
agitação do substrato facilita a troca de gases da cultura com o meio. O
calor é removido pela convecção do ar interno por meio das paredes e o
controle da umidade é feito por meio de borrifos de água no substrato.
No biorreator horizontal rotativo, existe a dificuldade no controle de
temperatura devido ao aumento de partículas no substrato durante o
crescimento do micélio.
O modelo de biorreator rotativo com pás apresenta uma menor
aglomeração de partículas no substrato e maior eficiência na troca de
oxigênio. A maior desvantagem nesse processo é que o mesmo deve ser
realizado com apenas 30% da capacidade máxima do tambor para que a
mistura seja eficiente (FARINAS et al., 2014 e FONSECA, 2012).
Para escolher o meio fermentativo é importante verificar alguns fatores que propiciem
ao microrganismo o melhor ambiente para que o processo seja realizado e obtenha o
resultado esperado. A fermentação sólida é mais indicada para os fungos, pois esse
ambiente, ao se assemelhar ao habitat natural desses agentes biológicos, proporciona
uma melhor adaptação e, consequentemente, um maior crescimento, enquanto as
leveduras e bactérias tem grande capacidade de absorção de nutrientes em meio
líquido. Quando se trata de produção enzimática por enzimas em grande escala, o tipo
de substrato de alto valor pode impactar em um grande aumento no valor final do
produto. Outro fator a ser considerado é a composição química, pois o indutor correto
vai ser fundamental para a produtividade da enzima (NASCIMENTO,2012).
Uma outra classificação para os processos fermentativos se refere ao modo de
operação ou condução do processo. Neste quesito, os processos podem ser:
82
,
Descontínua ou Batelada - Adiciona-se a matéria prima e o inóculo escolhido ao
fermentador. A fermentação ocorre até o esgotamento dos nutrientes. O
processo é concluído e o produto retirado e o fermentador é esvaziado, limpo e
esterilizado para iniciar um novo processo.
Batelada alimentada - Corrente de nutrientes é adicionado ao biorreator, sem
que o efluente e células sejam removidos. Posteriormente o processo é
interrompido e o produto é extraído.
Contínuo - O acréscimo de nutrientes e a retirada do produto ocorrem de
forma simultânea durante o processo, funcionando como uma linha
ininterrupta de corrente de alimentação e saída de produto, eliminando tempo
improdutivo e trazendo como resultado maior produtividade.
Conclusão
Os processos fermentativos têm uma grande importância em vários setores de
interesse para a sociedade, seja na indústria química, farmacêutica e na agricultura,
bem como na indústria de alimentos.
Podemos concluir que a fermentação é imprescindível na nossa sociedade, pois muitos
dos alimentos consumidos pelos seres humanos são produzidos desta maneira. Além
da aplicação de uma grande diversidade de enzimas em várias áreas da atividade
industrial, tendo uma participação econômica muito importante e significativa para a
sociedade.
REFERÊNCIAS
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ago. 2020.
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fermentação em estado sólido para produção de enzimas de interesse agroindustrial.
2014. IN: NAIME, J. M.; MATTOSO, L. H. C.; SILVA, W. T. L.; CRUVINEL, P. E.; MARTIN-
NETO, L.; CRESTANA, S. Conceitos e aplicações da instrumentação para o avanço da
agricultura. Brasília: Embrapa, 2014.
FONSECA, R. F. Sistema de controle de fluxo, temperatura e umidade relativa do ar
para processos de fermentação em estado sólido. Dissertação de Mestrado, São
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Tomar, 2014.
JUNQUEIRA, L.C.; CARNEIRO, J. Biologia Celular e Molecular. 9° ed. Rio de Janeiro:
Guanabara Koogan, 2013.
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Brock. Porto Alegre: Artmed, 2010.
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Feffer do Instituto de Tecnologia ORT. 2012.
MONTEIRO, V. N.; SILVA, R. N. Aplicações Industriais da Biotecnologia Enzimática,
Revista Processos Químicos, 2009.
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Submersa utilizando a Torta da Polpa e Fungos Isolados do Fruto da Macaúba
(Acrocomia aculeata). Dissertação de Mestrado. Belo Horizonte, 2015.
RAIMBAULT, R. General and microbiological aspects of solid substrate fermentation.
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STECKELBERG, C. Caracterização de leveduras de processos de fermentação alcoólica
utilizando atributos de composição celular e características cinéticas. Tese
(doutorado). Campinas, 2001.
85
,
5 BIOTECNOLOGIA APLICADA E MEIO AMBIENTE
A biotecnologia ambiental é uma importante área que abrange a utilização e aplicação
de uma diversidade de técnicas biológicas importantes e necessárias para enfrentar os
desafios cada vez maiores da degradação ambiental, visando o uso do meio ambiente
de forma sustentável, por meio da atuação nas áreas de prevenção, monitoramento e
restauração.
Considerada uma ciência multidisciplinar envolvendo aspectos legislativos,
normativos, tecnológicos, científicos, sociais e econômicos, a biotecnologia ambiental
é caracterizada por ser um sistema de conhecimento científico e de engenharia que
tem como objetivo desenvolver e aplicar técnicas e processos biológicos relacionados
a tecnologias limpas e desenvolvimento sustentável, como a produção de materiais
biodegradáveis; a resolução, mitigação e/ou prevenção de problemas de
contaminação ambiental; e a produção de combustíveis menos poluentes, alternativos
aos derivados de petróleo, como os biocombustíveis.
Nesse bloco nós vamos abordar três importantes aplicações da biotecnologia
ambiental. Elas são a biotecnologia aplicada a biorremediação, a produção de
materiais biodegradáveis e a bioenergia.
5.1 Biotecnologia aplicada a Biorremediação
Com a rápida expansão do desenvolvimento tecnológico e industrial, ocorreu, nas
últimas décadas, o surgimento de uma grande variedade de substâncias químicas
sintetizadas pelo homem para serem utilizadas nos mais diversos processos industriais.
Pelo uso intenso de produtos químicos e disposição final inadequada, estima-se que as
atividades antrópicas contribuem anualmente com o descarte aproximado de 2,5
bilhões de toneladas de substâncias químicas liberadas no meio ambiente.
86
,
Muitas dessas substâncias presentes no meio são consideradas xenobióticas, pois são
moléculas químicas estranhas ao ambiente natural, sendo a maioria compostos de
origem sintética, aplicadas principalmente na indústria química e de materiais, como
os corantes, agrotóxicos, plásticos, polímeros, fármacos, dentre outros, podendo
permanecer no ambiente em concentrações tóxicas (GAYLARDE et al., 2005 e
MALAJOVICH, 2011).
Com isso, o solo, águas superficiais e subterrâneas são o alvo constante das
contaminações antrópicas por meio da composição e concentração de compostos
químicos, como os hidrocarbonetos e os metais pesados, colocando em risco à saúde
das pessoas e o equilíbrio dos ecossistemas (LINS et al., 2016).
Esses contaminantes denominados de xenobióticos são classificados em:
Biodegradáveis: passíveis de serem transformados totalmente em moléculas
mais simples e sem nenhum poder de toxicidade;
Persistentes: não degradáveis de acordo com a condição ambiental;
Recalcitrantes: resistentes a degradação na maioria dos ambientes.
Uma alternativa ecologicamente adequada para a remediação de áreas contaminadas
é a biorremediação, que consiste em uma técnica baseada na remoção ou degradação
bioquímica dos contaminantes por meio de atividades de plantas, microrganismos
(bactérias, fungos) presentes ou adicionados ao local de contaminação. Segundo a
Agência de Proteção Ambiental Americana (US-EPA), a biorremediação pode ser
definida como “o processo de tratamento que utiliza a ocorrência natural de micro-
organismos para degradar substâncias toxicamente perigosas, transformando-as em
substâncias inócuas” (PEREIRA E FREITAS, 2012).
Geralmente, as técnicas químicas envolvem a ação dos microrganismos em promover
a degradação da molécula recalcitrante, tendo como objetivo principal realizar a
mineralização do contaminante por meio da sua transformação em produtos que
apresentem baixa ou nenhuma toxicidade, como a água e o dióxido de carbono
(ANDRADE et al., 2010).
87
,
As tecnologias de biorremediação podem ser classificadas em “In situ” ou “Ex situ”.
Podemos mencionar como exemplos os solos contaminados por hidrocarbonetos onde
o tratamento ocorre no local (In situ); caso seja removido para tratamento em local
externo (Ex situ - Off site) ou após a escavação, o solo é descontaminado no próprio
local (Ex situ - On site).
Geralmente, no processo de biorremediação, utilizam-se da ocorrência de
microrganismos nativos encontrados no próprio ambiente impactado, denominados
autóctones; da introdução de novos organismos idênticos à população nativa
existente no local; ou a inserção de microrganismos geneticamente modificados que
apresentam a capacidade de degradar a substância recalcitrante, sendo transformados
em compostos menos perigosos ao meio ambiente ou tornando as moléculas mais
fáceis de serem degradadas (GAYLARDE [Link], 2005 e SILVA, 2012).
Diversos fatores ambientais influenciam a atividade microbiana, interferindo
diretamente na eficiência do processo de biorremediação. Dentre esses fatores
podemos citar:
A quantidade e tipos de microrganismos que tenham condições de metabolizar o
contaminante químico. Em muitas situações, a biodegradação completa de um
determinado xenobiótico necessita da ação conjunta de um grupo de microrganismos
portadores de enzimas específicas que atuam individualmente em cada etapa do
processo de degradação, pois, na maioria das vezes, nenhum microrganismo vai
apresentar todas as enzimas necessárias para a metabolização completa de um
composto químico recalcitrante.
Outro fator biológico que pode contribuir em uma maior eficiência no processo de
biorremediação do solo consiste na troca de plasmídeos (segmentos de DNA
bacteriano) entre grupos de bactérias da mesma espécie ou de espécies diferentes.
Essa troca de genes proporciona o aumento da variabilidade genética no meio,
podendo influenciar a disseminação e o aumento potencial de diversos tipos de
enzimas importantes no processo catabólico das moléculas recalcitrantes (GAYLARDE
[Link], 2005).
88
,
O solo é considerado um parâmetro físico que influencia na degradabilidade de um
composto químico, podendo limitar a ação dos microrganismos, caso as condições da
matriz onde se encontra o contaminante não forem favoráveis às atividades
desenvolvidas por esses seres vivos. Em certos casos, o solo por meio da propriedade
de atração de cargas opostas, promove a adsorção de moléculas do poluente,
diminuindo consideravelmente a biodisponibilidade do poluente.
As relações existentes entre a temperatura e a atividade microbiana são
determinantes no processo de biorremediação. Apesar de a maioria dos processos de
biodegradação ocorrerem em uma faixa ampla de temperatura (25°C – 35°C), nas
regiões de ocorrência de temperaturas mais baixas, a atividade metabólica do
microrganismo diminui consideravelmente, diminuindo ou até mesmo interrompendo
a degradação da substância química.
Muitos fatores químicos também influenciam no aumento ou redução da taxa de
degradação do poluente. A composição química do solo, os nutrientes, o teor de
umidade, a quantidade de oxigênio presente e o PH, por meio dos efeitos dos íons H+
na permeabilidade celular e na atividade enzimática, determinam a velocidade da
atividade microbiana.
Em certas situações, a baixa atividade de biodegradação de um determinado
contaminante ocorre pela inexistência ou população reduzida de microrganismos que
apresentam enzimas capazes de degradar o composto químico ou a população
microbiana existente é ideal, mas direcionam o seu metabolismo para degradar
substâncias que apresentam estrutura química simples, deixando de atuar em
contaminantes que apresentam moléculas recalcitrantes (GAYLARDE, 2005; JACQUES
et al., 2007; ANDRADE et al.,2010).
Os estudos realizados indicam que as condições climáticas do Brasil e outros fatores
como a disponibilidade de nutrientes, o teor de umidade do solo, a quantidade de
oxigênio, dentre outras condições ambientais, converge para a aplicação das técnicas
de biorremediação de contaminantes presentes no solo. A tabela 5.1 apresenta as
principais vantagens e limitações relacionadas a biorremediação de solo:
89
,
Tabela 5.1 - Vantagens e limitações da biorremediação de solos
Fonte: ANDRADE [Link]., 2010.
A biorremediação é considerada uma tecnologia emergente complexa, havendo a
necessidade de cumprir etapas de reconhecimento e avaliação do sítio contaminado,
caracterização do tipo de contaminante, e os seus respectivos riscos ao ecossistema/
saúde humana e legislação vigente. A Figura 5.1 apresenta um esquema geral das
etapas de implementação de um processo de biorremediação:
90
,
Fonte: Adaptado de GAYLARDE et al., 2005.
Figura 5.1 Esquema geral das etapas para definição e implementação de um processo
de biorremediação.
Na escolha de um processo de biorremediação, além do conhecimento dos fatores que
podem influenciar no resultado da biorremediação, como o teor da umidade, as
variações de temperatura, o tipo de solo, a concentração de oxigênio e matéria
orgânica presente, também é fundamental saber quais os tipos de contaminantes
estão presentes, a respectiva extensão da área contaminada, os riscos e os custos
envolvidos. Desta maneira será possível escolher a técnica mais adequada para a
situação apresentada.
As principais metodologias aplicadas em processos de biorremediação de áreas
contaminadas são:
Biorremediação passiva ou intrínseca
Consiste no monitoramento da capacidade de ação dos microrganismos nativos
degradarem o contaminante presente no local, havendo a descontaminação do
ambiente. Por não existir qualquer intervenção relacionada ao acréscimo de nutrientes
ou qualquer adequação do meio, esse processo é considerado muito lento, podendo
exigir a utilização de outras técnicas ou a necessidade de um período longo de
monitoramento da área (MORAIS FILHO; CORIOLANO, 2016).
91
,
Além da ação dos microrganismos nativos, o solo contaminado sofre os processos
naturais de intemperismo, como a lixiviação que promove o deslocamento ou arraste
vertical de materiais presentes no solo para as camadas mais profundas e a
volatilização do próprio contaminante, reduzindo a concentração do agente poluidor.
Atenuação Natural Acelerada (ANA) ou Bioestimulação
A técnica denominada atenuação natural de biorremediação in-situ consiste em
estimular o crescimento da população microbiana nativa por meio da introdução de
nutrientes, seja na forma de fertilizantes orgânicos e/ou inorgânicos na área
contaminada, regulação de pH, temperatura e aeração, favorecendo o aumento da
população de microrganismos e consequentemente a aceleração do processo de
degradação do contaminante. A vantagem de aplicar essa técnica é apresentar custo
inferior comparado às demais técnicas de biorremediação.
Bioaumento
A bioaumentação é uma técnica utilizada tanto in situ quanto ex situ, caracterizada
pela adição de microrganismos biodegradadores exógenos (alóctones), bactérias e, em
alguns casos, fungos, aumentando a microbiota presente na área contaminada. Além
dos microrganismos exógenos, muitos dos produtos utilizados apresentam em sua
composição micronutrientes, enzimas de ação externa e surfactantes que estimulam a
ação das bactérias sobre os compostos químicos.
Esse processo é indicado para ser implementado em regiões que apresentam baixa
taxa de biodegradação e tem como finalidade acelerar a degradação do composto
poluente e reduzir o tempo de adaptação que antecede o processo de degradação
realizada pelos microrganismos autóctones (ANDRADE, 2010 e HOELSCHER et al.,
2019).
Bioventilação
A bioventilação se baseia no estímulo da degradação in situ de qualquer composto
degradável na presença de oxigênio pelos microrganismos existentes no solo
contaminado. Essa técnica consiste no fornecimento de oxigênio ao solo, aumentando
o fluxo de ar e favorecendo a ação desses microrganismos, consequentemente
acelerando o processo.
92
,
Essa técnica é indicada na restauração de solos contaminados por hidrocarbonetos
derivados do petróleo, solventes não clorados e alguns grupos de pesticidas. Algumas
limitações para a adoção do bioventing está relacionada a baixa permeabilidade do
solo, a existência de zonas saturadas, proximidade da região contaminada com a
superfície do lençol freático, reduzem ou inviabilizam a eficiência dessa técnica
(HOELSCHER, et al. 2019).
Biosparging
Essa técnica de biorremediação in situ consiste em estimular, por meio de injeção de
ar e nutrientes na zona saturada, os microrganismos autóctones responsáveis pela
biodegradação dos compostos orgânicos.
Landfarming
O processo de biorremediação denominado “ladfarming” (traduzido, do inglês, lavoura
da terra) consiste em misturar o material contaminado (lodo ou sedimento) com os
primeiros 30 cm de solo não contaminado de uma terra extensa, onde os
microrganismos heterotróficos presentes no solo são estimulados com operações de
aração, adição de nutrientes e controle de umidade para promover a redução da
concentração do contaminante.
O landfarming pode ser considerado também um sistema de tratamento de resíduos,
sendo uma técnica bastante utilizada pelas refinarias e indústrias petroquímicas para o
tratamento dos seus resíduos. Nesses casos, deve ser destinada uma área exclusiva
para receber o material oleoso contaminante que deve ser espalhado sobre a
superfície do solo, originando uma camada denominada reativa onde haverá a
atividade microbiana para a degradação dos constituintes do resíduo a ser tratado.
O landfarming apresenta algumas vantagens como a facilidade na operação e no baixo
custo por unidade de volume de resíduo tratado. Os problemas encontrados que
podem limitar o uso da técnica são:
93
,
Erros na operação do processo.
Fatores ambientais desfavoráveis que influenciam na degradação.
Os contaminantes não localizados na superfície do solo não podem ser tratados
no local.
Alguns contaminantes presentes nos resíduos dos hidrocarbonetos não são
totalmente degradados no processo.
Alta concentração de metais inibem a atividade microbiana de degradação.
O tratamento ex situ exige uma grande área para tratamento.
Os contaminantes voláteis emitidos na atmosfera, tais como solventes, devem
sofrer pré-tratamento (JACQUES et al., 2007 e HOELSCHER, et al. 2019).
Biopilhas
A técnica ex situ de tratamento do solo por biopilhas envolve a disposição do material
contaminado em pilhas, de forma a favorecer a ação dos microrganismos na
biodegradação do material contendo poluentes. Anterior ao processo de biopilhas, o
solo a ser descontaminado deve passar por testes físico-químicos e de ensaios
biológicos para verificar a viabilidade de realizar o tratamento por meio da análise do
material , tendo como objetivo avaliar o tipo e concentração dos poluentes, presença
de inibidores da biodegradação, composição do material e os teores ideais umidade,
temperatura, oxigênio e nutrientes para que sejam obtidos os resultados esperados
pós tratamento (ANDRADE et al.; 2010 e HOELSCHER, et al. 2019).
Após essa análise, o solo é colocado em camadas (pilhas), onde ocorre o
monitoramento e controle de fatores que estimulam a atividade microbiana, como a
aeração, quantidade de nutrientes e umidade do solo. As biopilhas devem ser
instaladas em uma base impermeável para que o material contaminante não migre
para subsuperfície do solo e cobertas por membranas impermeáveis para evitar a
dispersão de contaminantes voláteis para a atmosfera e proteger o solo das
intempéries (ANDRADE et al., 2010).
94
,
As biopilhas podem ser classificadas em estáticas ou dinâmicas. No tratamento de solo
com biopilhas, instala-se um sistema de aeração constituído por uma rede de tubos
conectados a uma bomba de vácuo. Já nas biopilhas dinâmicas, o processo de aeração
envolve o revolvimento das pilhas com a utilização de maquinário (HOELSCHER, et al.
2019).
A principal vantagem relacionada ao uso dessa técnica está no controle das condições
físicas, biológicas e químicas da matriz de solo contaminada, favorecendo uma maior
eficiência e celeridade no processo. Por se tratar de um processo ex situ, as
desvantagens da utilização de biopilhas estão:
Nos custos e riscos envolvidos na escavação.
No armazenamento, transporte e redisposição do solo contaminado.
No contato com materiais particulados contaminados por meio da
possibilidade de inalação de vapores.
Na propagação da contaminação para outros meios (ANDRADE et al.; 2010
HOELSCHER, et al. 2019).
Biorreatores
Os biorreatores são muito utilizados como processo de biorremediação em solos que
apresentam altas concentrações de hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAPs).
Nessa técnica o solo é acondicionado no interior de um tanque que sofre a agitação
mecânica com o objetivo de aumentar a aeração e homogeneização na distribuição do
contaminante disponibilizado para a população de microrganismos responsáveis pela
degradação do poluente. Para otimizar o crescimento microbiano, deve existir o
monitoramento dos fatores que influenciam na degradação do contaminante, como a
quantidade ideal de nutrientes, o nível de aeração, controle do pH e a temperatura
ótima que tornam o processo mais eficiente. Após a redução da concentração dos
contaminantes, a suspensão é desidratada e a água pode ser reutilizada no biorreator.
95
,
A vantagem de utilizar biorreatores consiste na rapidez do tratamento e a
possibilidade de obtenção de uma alta taxa de biodegradação. Os fatores que podem
inviabilizar a escolha dessa técnica estão relacionados ao alto custo do tratamento e a
quantidade de solo a ser tratado é limitada pelo tamanho dos biorreatores (PEREIRA &
FREITAS,2012; HOELSCHER, et al. 2019).
5.2 Biotecnologia aplicada a produção de materiais biodegradáveis
A produção em larga escala dos materiais sintéticos à base de plástico começou por
volta dos anos 50. Devido as propriedades físicas e químicas dos plásticos desses
polímeros conferirem inúmeras vantagens em relação a outros materiais, como
resistência à corrosão, apresentar isolamento térmico e elétrico, ser facilmente
moldado, excelente impermeabilidade à água, flexibilidade suficiente para permitir
deformação sob pressão e boa resistência química à temperatura ambiente e ser um
produto de baixo custo, a sociedade moderna tornou-se dependente da utilização de
materiais plásticos para produzir embalagens e os mais variados produtos
descartáveis.
Durante muito tempo, além das dificuldades de reciclagem do plástico, não foi dada a
atenção necessária aos impactos ambientais causados pelo descarte inadequado desse
material que se acumula e contamina o solo, mananciais e oceanos, podendo se
fragmentar em pequenas partículas plásticas, os chamados microplásticos, que
acabam participando dos níveis tróficos das cadeias alimentares, comprometendo a
alimentação e sobrevivência desses animais. Estima-se que, até 2050, existirão, pelo
menos, mais 12 mil milhões de toneladas de plástico no meio ambiente.
O aquecimento do mercado consumidor, o aumento nos custos das matérias primas
extraídas do petróleo e a possibilidade de esgotamento de suas reservas associada a
pressão ambiental, levou o setor de plásticos a investir em diversos estudos
relacionados ao desenvolvimento de produtos originados de fontes renováveis que
substituíssem os derivados de petróleo, envolvendo diversas famílias de bioplásticos,
polímeros renováveis (base verde), como as poliaminas, policaprolactonas, polilactato,
e polihidroxialcanoatos (PHAs), podemos citar a produção de plásticos recicláveis a
partir do etanol da cana-de-açúcar e polímeros biodegradáveis.
96
,
Dentre os tipos de plásticos degradáveis, destacamos:
Plástico Biodegradável - Material decomposto pela ação de enzimática de
microrganismos em curto período, convertendo a matéria em dióxido de
carbono, metano, água, compostos inorgânicos e biomassa.
A biodegradação pode ocorrer tanto na presença de oxigênio (aeróbia), quanto
na ausência dele (anaeróbia). Estes processos são representados pelas
seguintes reações:
Biodegradação Aeróbica:
CPOLÍMERO + O2 CO2 + H2O + CRESÍDUO + CBIOMASSA
Biodegradação Anaeróbica:
CPOLÍMERO CO2 + CH4 + H2O + CRESÍDUO + CBIOMASSA
Plástico semi-biodegradável - Apresentam amido agregado a uma poliolefina e,
quando descartado, as bactérias decompõem apenas a porção orgânica.
Plástico fotodegradável - Material degradado pela ação da luz natural, altera a
estrutura do polímero, facilita a ação dos microrganismos.
Plástico oxidegradável - O plástico se degrada por meio de um aditivo aplicado
em sua composição, potencializando a ação da temperatura, radiação
ultravioleta e oxigênio, causando o efeito de oxidação e fragmentação do
material (LOPES, 2013).
Os polímeros biodegradáveis podem ser originados a partir de fontes naturais
renováveis como a cana-de-açúcar, batata, milho, celulose ou serem sintetizados por
bactérias por pequenas moléculas como o ácido butírico ou o ácido valérico dando
origem ao polihidroxibutirato (PHB) e ao polihidroxibutirato-co-valerato (PHB-HV), ou
serem derivados de fonte animal, como a quitina (BRITO, et al. 2011).
97
,
Com isso, o desenvolvimento de novos polímeros derivados de fontes renováveis tem
assumido uma posição de destaque, tanto pelas questões ambientais como a
possibilidade de oferecem a possibilidade de desenvolvimento de produtos
inovadores.
O avanço da biotecnologia fornece novas rotas para os biopolímeros por meio de
processos fermentativos por microrganismos como no caso do Polihidroxialcanoatos
(PHA) ou por polimerização química de substratos produzidos, pelo menos
parcialmente, por fermentação de bactérias como o poliácido láctico (PLA ), (BASTOS
2007).
A figura 5.2 representa alguns polímeros biodegradáveis classificados acordos com sua
fonte de obtenção:
Fonte: Adaptado de Avérous e Boquillon (2004) apud Calegari; Oliveira, 2016.
Figura 5.2 - Classificação de alguns polímeros biodegradáveis de acordo com sua
fonte de obtenção.
Polímeros do Amido
O amido é um polissacarídeo presente nos vegetais como material orgânico
responsável pelo metabolismo energético, sendo considerado o polissacarídeo mais
versátil para o uso em polímeros, podendo ser transformado em produtos químicos
como o etanol e ácidos orgânicos e utilizado na produção de biopolímeros, por meio
de processos de fermentação ou hidrólise. Nas aplicações industriais, o amido
geralmente é retirado de sementes de cereais, raízes e tubérculos e raízes (BRITO et
al., 2011).
98
,
O amido termoplástico (TPS) é um material amorfo ou semicristalino composto pelo
amido plastificado por uma mistura de plastificantes.
Apesar do baixo custo de produção, uma desvantagem do amido termoplástico está
relacionada a sua fragilidade devido a sensibilidade à umidade, principalmente após o
envelhecimento do produto. Para sua viabilidade comercial, o amido é misturado a
outros polímeros para alterar suas propriedades e diminuir a sua sensibilidade a água.
O amido tem sido aplicado na confecção de espumas, sacolas, produtos de higiene
pessoal e itens moldados.
Ácido Poliláctico ou Polilactato (PLA)
O poliácido láctico ou PLA (chamado também de PDLA, PLLA) é um polímero sintético
composto por moléculas de ácido lático (C3H6O3), termoplástico, semicristalino,
biocompatível e biodegradável utilizado em diversos tipos de embalagens como, por
exemplo, sacolas plásticas de mercado, talheres, copos, bandejas, pratos, vidros,
tampas, garrafas, tubetes, fibras têxteis, filmes para a agricultura, embalagens
termoformadas, interiores de automóveis, tapetes, carpetes, tecidos para roupa,
material para implantes cirúrgicos, pinos, placas, parafusos, fibras de sutura, dentre
outros produtos.
As propriedades mecânicas do PLA podem ser comparáveis aos polímeros derivados
do petróleo, apresentando capacidade de moldagem, elasticidade, rigidez,
transparência e comportamento termoplástico, apresentando similaridade ao
polietileno tereftalato (PET) (BRITO et al., 2011).
O PLA se degrada tanto em condições aeróbias como em condições anaeróbicas de
compostagem e, em poucas semanas, quando expostos à altas temperaturas e elevada
umidade sofre degradação por hidrólise seguida pela ação bacteriana.
99
,
Poliidroxialcanoatos (PHAs)
Polímeros Polihidroxialcanoato (PHA) é o termo dado à família de poliésteres naturais
que possuem como fonte uma variedade de microrganismos que os acumulam sob a
forma de grânulos intracelulares, como reserva energética. Os PHAs apresentam um
material muito flexível e atóxico, termoplástico, com alto grau de polimerização,
cristalinos, opticamente ativos e insolúveis em águas, semelhante aos plásticos de
origem petroquímica, além de serem biodegradáveis.
Os PHAs podem ser produzidos de diferentes métodos como produção química;
produção biotecnológica como culturas recombinantes; culturas com vários tipos de
bactérias; culturas portadoras de mutação; combinação de produção biotecnológica e
química; isolamento de fontes naturais. A Figura 5.1 representa um esquema fechado
da produção de PHA.
A cana-de–açúcar, por meio do processo químico da fotossíntese, sintetiza o composto
orgânico carboidrato, como matéria prima para a produção de PHA. A bactéria
específica acumuladora de PHA utiliza o carboidrato como fonte de açúcar para a
transformação em polímero e posterior transformação em produto plástico (ALVES,
2016).
O tipo de PHA produzido é determinado pelo material usado pela bactéria como fonte
de carbono, suas vias metabólicas e o tipo de enzima de síntese que ela apresenta é
chamada de PHA sintase. Essa enzima é considerada a responsável pelo processo de
união dos monômeros, formando o polímero que é acumulado pela bactéria.
100
,
Fonte: Adaptado de GARCIA, 2006.
Figura 5.3 - Ciclo fechado para a produção e degradação de PHA.
Atualmente existem diversos estudos sobre os poliidroxialcanoatos, principalmente no
setor de embalagens e aplicações na área da medicina. Apesar do PHA apresentar um
mercado potencial, podendo incluir uma grande diversidade de embalagens, itens de
uso descartáveis, utilidades domésticas, eletrodomésticos, adesivos, tintas entre
outros, o grande problema está relacionado ao custo elevado de produção, quando
comparado aos polímeros de origem petroquímica (BRITO, et al., 2011).
Poliésteres Alifáticos-Aromáticos
O policaprolactona (PCL) é um polímero sintético com propriedades de origem
petroquímica, solúvel em diversos tipos de solventes e biodegradável. Aplicado na
produção de biomateriais, devido a apresentação de propriedades como baixa
toxicidade e alta capacidade de degradação, possibilitando a atualização desse
material como matrizes transportadoras de substâncias como os fármacos e
amplamente utilizado como plastificante sólido de policloreto de vinila (PVC) ou para
aplicações de poliuretano (MANCIPE, et al., 2019).
101
,
5.3 Bioenergia
As fontes de energia são classificadas em não renováveis constituídas pelas fontes
fósseis e nucleares; e as renováveis que podem ser repostas rapidamente pela
natureza. A Figura 5.2 representa a classificação dessas fontes e as respectivas
energias geradas.
Fonte: Adaptado de Goldemberg e Lucon, 2007.
Figura 5.4 - Fontes de geração de energia.
Nos últimos anos, as energias renováveis estão aumentando a sua participação na
elaboração das políticas de adoção das matrizes energéticas de diversos países. No
caso do Brasil, o Balanço Energético Nacional (BEN) de 2016 demonstrou que o país
mantém sua participação de energias renováveis na matriz energética entre as mais
altas do mundo.
102
,
Bioenergia é a energia química contida ou derivada da biomassa de origem animal,
vegetal ou de resíduos derivados de plantas, sendo considerada como fonte
constituída de matéria orgânica capaz de ter aproveitamento energético (FGV
ENERGIA, 2019).
O processo químico de fotossíntese transforma a energia solar e CO2 em biomassa
que, quando submetida ao processo de conversão, libera energia em forma de calor,
combustível e eletricidade, devolvendo para a atmosfera, após sua utilização, o dióxido
de carbono, estabelecendo um ciclo sustentável.
A bioenergia pode ser classificada em:
Tradicional - Consiste na combustão de biomassa em formas como resíduos de
animais, madeiras e carvão.
Moderna - Incluem o uso de bagaço e outros vegetais para a produção de
biocombustíveis líquidos; biorrefinarias; biogás a partir da digestão anaeróbica
de resíduos; e o uso de pellets de madeira para aquecimento.
As principais matérias utilizadas para a conversão da biomassa são a madeira, amido,
açúcar, plantas oleaginosas (palma, soja, colza). Além disso, são realizados estudos
sobre o uso de outras matérias-primas, como gramíneas e matéria orgânica que
possuem lignina e celulose originados do setor agrícola.
O aproveitamento da energia contida na biomassa tem um papel significativo para
aumentar fornecimento de energia e trazer benefícios como a diminuição da
dependência energética relacionada ao petróleo e a redução dos impactos ambientais,
principalmente em países que apresentam grande densidade populacional e demanda
energética crescente, como China, Brasil e Índia.
A biomassa é classificada em três categorias. Elas são os vegetais não lenhosos, os
vegetais lenhosos e os resíduos orgânicos. Vem ganhando destaque os resíduos
orgânicos devido ao alcance de dois objetivos importante. Diversos processos
produtivos geram rejeitos orgânicos que podem ser aproveitados como insumos para a
produção energética; e a eliminação do resíduo orgânico e a sua utilização aumentam
a produção de energias alternativas renováveis, contribuindo para o suprimento da
demanda crescente por energia nas próximas décadas e promovendo ganhos
ambientais (BIERNASKI,2019).
103
,
O Brasil é considerado, em função de sua grande disponibilidade de biomassa, um país
com um dos maiores potenciais para a produção de bioenergia. A Lei 13.576/17 que
dispõe sobre a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), destaca a
importância da agregação de valor à biomassa brasileira, como na preservação
ambiental, para a promoção do desenvolvimento, inclusão econômica e social do país
(BRASIL, 2017).
Existem alguns questionamentos relacionados aos impactos ambientais causados pelo
uso da biomassa devido a liberação de material particulado na atmosfera, porém,
segundo o Plano Nacional de Energia 2030, que tem como objetivo o planejamento de
longo prazo do setor energético do país, orientando tendências e balizando as
alternativas de expansão desse segmento nas próximas décadas, a conversão da
biomassa associada à eficiência energética e tecnológica representa baixo impacto
ambiental, pois considera-se que a biomassa vegetal captura o dióxido de carbono
durante a sua fase de desenvolvimento, antes de se tornar insumo para a geração de
energia, totalizando durante todo o seu ciclo de vida, baixas emissões de carbono
(BIERNASKI,2019).
O aproveitamento bioenergético no setor elétrico no Brasil é realizado principalmente
por meio do uso de biomassa proveniente da lenha, bagaço de cana e lixivia. Somente
em 2017, a geração de bioeletricidade a partir do bagaço de cana contribuiu com
11,3% da demanda final de energia. Para o aproveitamento dessa matéria orgânica,
outras rotas importantes também são utilizadas, embora em pequena escala, como a
utilização resíduos domésticos, industriais e agropecuários. Quando temos a
participação total da bioenergia sustentável (cana-de-açúcar, biodiesel e biogás) esse
índice sobe para 18,2%; ao considerarmos outras fontes bioenergéticas sem termos a
garantia do processo sustentável (casca de arroz, lixívia, óleos vegetais), o percentual
de participação atinge 21,6% (FGV ENERGIA ,2019).
Em relação a agricultura de energia, o Brasil apresenta algumas vantagens para liderar
o mercado bioenergético no mundo, pois apresenta a possibilidade de incorporação
de novas áreas anteriormente destinadas a produção agrícola, sem competir com o
fornecimento de alimentos; a utilização de áreas degradadas por pastagens para
plantio de cana-de-açúcar e outras culturas, favorecendo a produção de álcool e outras
proteínas vegetais, contribuindo para a fertilidade do solo; e a possibilidade de ter
uma variedade de cultivos ao longo do ano (GOLDEMBERG, et al., 2008).
104
,
As plantas fibrosas são as mais indicadas como produtoras de biomassa para atender
as necessidades energéticas do Brasil, pois apresenta as seguintes vantagens:
Alta taxa fotossintética.
Boa produção de biomassa sem requerer grandes concentrações de nutrientes
e água.
Crescimento contínuo e possibilidade de colheita durante grande parte do ano.
Possibilidade de produção em grande escala.
Exploração sustentável com menor manejo do solo, uso de fertilizantes e
insumos.
Eficiente transformação em formas utilizáveis de energia (MATSUOKA, et al.;
2012).
Diversos produtos são gerados a partir da biomassa. Dentre eles podemos citar:
Biocombustíveis líquidos
Bioetanol
O etanol ou o álcool etílico é uma substância com fórmula molecular (C2H5OH)
produzido desde eras remotas pelo processo de fermentação dos açúcares
encontrados em cereais, beterraba e cana. Atualmente, na fabricação do bioetanol
utiliza-se a biomassa lignocelulósica, proveniente de resíduos orgânicos como o sabugo
e a palha do milho; o bagaço, as pontas e as palhas da cana-de-açúcar; e o conceito de
biorrefinarias que surgem como um novo caminho para ampliação da produção do
etanol no país (BASTOS, 2007).
O Brasil e os EUA são considerados os maiores produtores e usuários de bioetanol
como combustível para transporte. Estudos sobre o ciclo de vida do combustível
etanol indicam a possibilidade de redução de 76% dos gases de efeito estufa para o
etanol produzido a partir da cana -de açúcar. Com a evolução de novas tecnologias, os
processos se tornam mais eficientes na utilização da biomassa e na formação de
coprodutos comercializáveis e produtos químicos, contribuindo para a redução de
custos.
105
,
Diferentes rotas tecnológicas (figura 4.5) podem ser aplicadas no processo de
produção do etanol utilizando-se biomassa açucarada (cana-de-açúcar e beterraba),
biomassa amilácea (milho, trigo e mandioca) e biomassa celulósica.
A produção de etanol a partir da cana consiste na recepção da matéria prima; no
preparo e moagem; e no tratamento e fermentação do caldo da cana de forma direta
ou de misturas de caldo e melaço provenientes da produção do açúcar.
Na rota celulósica utiliza-se um polissacarídeo de estrutura lignocelulósica composto
por celulose, hemicelulose e a lignina, (material estrutural do vegetal não
transformado em etanol). A produção do etanol a partir dessa biomassa envolve
processos de hidrólise ácida (processo químico) ou enzimática (processo
biotecnológico), para a obtenção dos açúcares e, posteriormente, a fermentação
(BASTOS, 2007).
Fonte: BNDES & CGEE, 2008.
Figura 5.5 - Diferentes rotas tecnológicas para a produção do etanol
106
,
Biodiesel
O biodiesel é um combustível biodegradável derivado de fontes renováveis que pode
ser obtido a partir de matérias primas a partir de gordura de origem animal e espécies
de vegetais como a soja, mamona, colza (canola), amendoim, pinhão–manso, palma
(dendê), girassol e óleos utilizados em frituras.
A Lei 11.097/05 que introduziu o biodiesel na matriz energética brasileira define esse
biocombustível como:
Biodiesel: biocombustível derivado de biomassa renovável para uso em motores a
combustão interna com ignição por compressão ou, conforme regulamento, para
geração de outro tipo de energia, que possa substituir parcial ou totalmente
combustíveis de origem fóssil.
A utilização do biodiesel apresenta uma série de vantagens, pois esse biocombustível é
produzido a partir de fontes renováveis, utilizado para a geração de energia e
transportes em substituição ao óleo diesel, contribuindo consequentemente para a
mitigação dos impactos originados pelos gases do efeito estufa, provenientes, na
maioria das vezes, pela queima dos combustíveis fósseis, além da geração de
empregos em toda a cadeia produtiva dos biocombustíveis (SEBRAE, 2008).
A composição do óleo vegetal consiste em uma molécula de glicerol ligada a três de
ácido graxo, denominada de triglicérides e ácidos graxos livres. O processo químico
mais utilizado no Brasil para produção do biodiesel é a transesterificação alcalina, onde
os triglicerídeos presentes no óleo são transformados em moléculas menores de
ésteres de ácido graxo (biodiesel) a partir de um agente transesterificante (álcool
primário) e um catalisador (base ou ácido).
A reação química de transesterificação ocorre em um reator com agitação não
enérgica, em uma temperatura ambiente ou até 70° C, para que o álcool não seja
evaporado. A temperatura ideal para a obtenção de um melhor rendimento no
processo está fixada em 45° C.
107
,
É adicionado ao óleo previamente aquecido uma mistura contendo o álcool e o
catalisador. A reação se dá por completa quando a solução voltar a coloração original
após o escurecimento da mistura. O tempo necessário para realizar o processo
depende da matéria prima, álcool e tipo de catalisador utilizados.
Para a separação dos produtos originados, é feita a decantação, onde a fase superior
corresponde ao biodiesel e a fase inferior ao subproduto glicerina; o resíduo do
catalisador e parte do álcool que não reagiu; água; sabão; e traços de glicerídeos e
ésteres (BARROS; JARDINE, 2008).
A tecnologia empregada na produção do biodiesel envolve muitos conceitos de
engenharia química, como as reações químicas, operações unitárias e o controle de
processos.
Bioeletricidade
A bioeletricidade é uma energia limpa e renovável, gerada a partir da combustão da
biomassa. No Brasil, grande parte da produção de bioeletricidade é proveniente dos
resíduos de cana-de-açúcar onde, para cada tonelada da cana moída para a fabricação
do etanol e açúcar, são gerados 450 kg de resíduos (bagaço, palha e pontas) com
elevado teor de fibras, muitas vezes promovendo a autossuficiência energética da
usina sucroalcooleiras e o excedente vendido para o sistema elétrico nacional. Em
2010, a produção de bioeletricidade no Brasil foi equivalente à energia necessária para
atender 20 milhões de pessoas (ÚNICA, 2011).
O processo da produção de bioeletricidade apresenta as seguintes etapas:
O bagaço e a palha (poder calorífero quase duas vezes superior ao bagaço da
cana) são enviados para a alimentação das caldeiras na usina.
Ocorre a geração de vapor pela caldeira e três formas de energia são
produzidas:
108
,
Energia térmica utilizada no processo de produção do etanol e açúcar;
A energia mecânica para movimentar o maquinário e equipamento de
extração e preparação do caldo;
As turbinas de geração, transformando em energia elétrica (ÚNICA,
2011).
Biogás
O biogás é o gás produzido a partir da decomposição de matéria orgânica por
microrganismos. As principais fontes de produção de biogás são a biomassa agrícola
(restos de cultura) e resíduos orgânicos (materiais de aterro sanitário e estrume de
animais). Estima-se que, anualmente, a biodegradação natural da matéria orgânica em
meio anaeróbico, libera entre 590 – 800 milhões de toneladas de metano na
atmosfera.
A produção de biogás é considerada como um processo de baixa emissão de carbono e
mitigador da poluição causada caso a totalidade de resíduos orgânicos não fossem
aproveitados para a geração de energia e liberassem no meio ambiente as altas
concentrações de carbono presentes no gás metano. Além disso, a própria energia
elétrica gerada pelo próprio biogás nas regiões de agropecuária pode ser utilizada
pelos moradores locais, diminuindo os custos comparando-se com a energia pública
fornecida.
O principal método de produção de biogás consiste na participação de comunidades
de bactérias para realizar o processo de degradação das cadeias bioquímicas que
constituem a biomassa para que seja liberado o gás metano. Em digestores
anaeróbicos, no processo de hidrólise, ocorre a liberação de enzimas extracelulares
responsáveis pelo início da degradação dos compostos orgânicos presentes no
substrato, seguido do processo de fermentação, onde os produtos gerados da hidrólise
são convertidos em ácido acético, hidrogênio e dióxido de carbono. Bactérias
participantes das reações consomem o oxigênio residual no digestor, proporcionando
a ação de bactérias anaeróbicas que controlam a produção de metano dos produtos da
acidogênese (MILANEZ, 2018).
109
,
Nas plantas industriais a matéria orgânica é degradada pelos microrganismos em um
reator controlado, gerando um biogás com 50% - 70% de metano. Esse processo pode
sofrer alterações, tendo como objetivo elevar a concentração de metano e aproximar
esse gás do gás natural derivado do petróleo, havendo, portanto, a necessidade de
adoção de métodos de absorção, adsorção, filtração por membrana e separação
criogênica que levam a melhoria do produto gerado. Na figura 5.6, está exemplificado
processo de fabricação do biogás (MILANEZ, 2018).
Fonte: RABONI; URBINI, 2014.
Figura 5.6 - Processo de fabricação do biogás
O potencial do biogás não está limitado à geração de energia renovável, mas também
no fornecimento de gás para veículos destinados, por exemplo, ao transporte coletivo
e nas operações agropecuária, substituindo gradativamente o uso do diesel e
contribuindo para a redução de CO2 na atmosfera.
110
,
Conclusão
O sistema energético mundial é fortemente dependente dos combustíveis fósseis,
levando a exaustão gradativa das reservas de recursos minerais existentes e
contribuindo para as alterações climáticas ocasionadas pelo aquecimento global.
No Brasil, para que se construa uma sociedade baseada em um desenvolvimento
sustentável, é fundamental a substituição de produtos por outros com maior
aceitabilidade ambiental, o aumento da participação do uso de energias renováveis em
todas as suas variantes (biomassa sólida, biogás e biocombustíveis) e para todos os
seus usos (transporte, calor e eletricidade), promovendo um equilíbrio entre a
conservação e exploração dos recursos naturais e um melhor aproveitamento e
tratamento dos resíduos gerados.
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113
,
6 MICROBIOLOGIA INDUSTRIAL E BIOTECNOLOGIA APLICADA NA
AGRICULTURA
Introdução
O crescimento populacional, a exploração dos recursos naturais e a adoção de um
modelo não sustentável de consumo pela sociedade moderna. Todos estes fatores
contribuíram para a degradação ambiental, afetando diretamente a saúde humana, o
equilíbrio dos ecossistemas e a qualidade dos recursos naturais.
Nas últimas décadas, a questão ambiental vem ganhando espaço, marcado pela
pressão da sociedade civil organizada em promover ações que protejam o meio
ambiente por meio do uso sustentável e racional dos recursos naturais.
Essas mudanças contribuíram para o avanço de pesquisas na área da biotecnologia por
meio do desenvolvimento de novas ferramentas de engenharia genética com o
objetivo de obter uma melhor eficiência na produtividade, reduzir os custos do
processo e, ao mesmo tempo, ter o compromisso socioambiental.
Nesse bloco, vamos estudar a utilização de microrganismos vivos em processos
industriais com o objetivo de sintetizar metabólitos em larga escala para a obtenção de
produtos e processos de interesse comercial, ambiental e social; a síntese de produtos
ligados à área da saúde como a produção de antibióticos e vitaminas; a evolução das
ferramentas biotecnológicas aplicadas no setor agrícola para a obtenção de alimentos
modificados geneticamente, no combate as pragas e na melhoria dos processos,
garantido um alimento de melhor qualidade, preocupando-se com níveis adequados
de segurança alimentar e ambiental.
6.1 Crescimento Microbiano e seus Metabólitos
A Microbiologia Industrial se utiliza de microrganismos cultivados em larga escala,
dedicados a síntese de produtos comerciais, ou para a realização de importantes
transformações químicas. Teve a sua origem a partir de processos de fermentação
alcoólica para a produção de vinho e cerveja, sendo posteriormente na síntese de
fármacos, aditivos alimentares, enzimas e produtos químicos, como o próprio etanol
(MADIGAN, 2010).
114
,
Os produtos da microbiologia industrial podem corresponder ao próprio agente
microbiano, por exemplo, as leveduras cultivadas para fins alimentícios, além das
substâncias produzidas pelas células.
Na microbiologia, o crescimento é caracterizado como um aumento no número de
células. Cada célula microbiana apresenta um tempo de vida e, para que a espécie seja
mantida, é necessário o crescimento contínuo de sua população. A curva de
crescimento microbiano, quando ocorre em um sistema fechado, em uma condição
denominada cultura batelada, apresenta as seguintes fases:
• Fase Lag
Quando uma população de bactérias for inoculada em um meio nutriente líquido, o
crescimento vai ocorrer somente após um período de adaptação, podendo ser breve
ou longo, pois vai depender do histórico do inóculo e dos fatores ambientais
envolvidos.
• Fase Exponencial
Fase em que ocorre um tempo de geração constante no número de organismos
presentes na cultura. Esse período varia de acordo com as condições ambientais do
meio e pelas características genéticas do inóculo. Geralmente a limitação do
crescimento exponencial ocorre pelo consumo dos nutrientes presentes na cultura ou
pelo acúmulo de substâncias tóxicas excretadas pelos agentes microbianos.
• Fase Estacionária
Corresponde a taxa zero de crescimento da cultura microbiana. Nessa fase podem
prosseguir o metabolismo energético, processos biossintéticos e divisão celular, mas
não há o aumento da população microbiana, havendo um equilíbrio entre a taxa de
crescimento e a taxa de morte.
115
,
• Fase de Morte
Quando uma população atinge a fase estacionária, as células poderão permanecer
vivas por um determinado período, seguido posteriormente pela fase de morte e em
muitas situações a lise celular.
Os principais representantes de seres vivos utilizados na microbiologia industrial são os
fungos (leveduras e bolores) e determinados grupos de bactérias. Com o avanço da
biotecnologia, novas técnicas foram aplicadas para a seleção de linhagens de
microrganismos capazes de sintetizarem o produto em alta escala, viabilizando
economicamente o processo.
Os microrganismos utilizados nos processos industriais devem apresentar certas
características como a capacidade de crescer e produzir o metabólito de interesse em
escala industrial; produzir esporos ou célula especial reprodutiva que possam ser
inseridos em grandes fermentadores industriais; apresentar um tempo de geração
curto, sintetizando o volume do produto desejado em um curto período; capacidade
de crescer em meio de cultura líquido; sintetizar o metabólito esperado a um custo
baixo; não pode ser patogênico, evitando a possível contaminação do produto e do
meio externo ao fermentador e apresentar fácil manipulação do seu genoma para
possibilitar a seleção de linhagens que favoreçam um produto de melhor qualidade e
com um maior rendimento (MADIGAN, 2010).
Na microbiologia industrial existem dois tipos de metabólitos de interesse:
• Metabólitos primários
Os metabólitos primários são produzidos durante a fase exponencial de crescimento
microbiano. O álcool etílico, produzido por meio de processos de fermentação de
leveduras e bactérias, é considerado um típico produto proveniente do metabólito
primário, pois é originado simultaneamente ao crescimento microbiano.
116
,
• Metabólitos secundários
Os metabólitos secundários são compostos extracelulares secretados no meio de
cultura e os seus produtos são sintetizados próximo à fase final do crescimento
microbiano e têm sido isolados e caracterizados principalmente para fins industriais.
Os fungos filamentosos são agentes biológicos que apresentam uma produção
superior de biossíntese de grandes quantidades de metabólitos secundários
comparados a outras classes de microrganismos. O primeiro registro da produção de
um metabólito fúngico importante foi a penicilina, produzida pelo fungo pertencente
ao gênero Penicillium e descoberto em 1928 pelo pesquisador inglês Alexander
Fleming, sendo posteriormente o primeiro antibiótico produzido em escala industrial
(SPECIAN, 2014).
Os metabólitos secundários apresentam as seguintes características:
A sua síntese é influenciada por condições ambientais, parâmetros de
fermentação como tempo, temperatura, pH e nutrientes e está intimamente
dependente das condições de cultivo;
Geralmente são produzidos em grande escala;
São sintetizados durante o processo de esporulação por fungos e bactérias
produtoras de esporos;
Em muitas situações são sintetizados diversos produtos químicos distintos, mas
que foram originados a partir de metabólitos estreitamente relacionados.
Geralmente, os metabólitos secundários são constituídos por moléculas complexas,
que necessitam de uma série de reações químicas mediadas por enzimas para que
possam ser sintetizados. Podemos citar como exemplo a síntese do antibiótico
tetraciclina que, para serem produzidos, 72 tipos de enzimas participam do processo.
Apesar dessas reações ocorrerem durante o metabolismo secundário, os compostos
iniciais que originam essas vias biossintéticas decorrem do metabolismo primário
(MADIGAN, 2010).
117
,
Alguns processos biotecnológicos exigem grandes investimentos, portanto são
vendidos a um preço elevado devido ao alto valor agregado, por apresentar mão de
obra qualificada e um nível avançado de tecnologia envolvida. Nessa categoria,
podemos incluir os produtos da indústria farmacêutica, do setor agrícola, as enzimas,
os aminoácidos e as vitaminas.
Outra via biotecnológica que sintetizam produtos em grande escala, mas que
envolvem processos que necessitam de menores investimentos, apresentam um valor
agregado intermediário, portanto um menor preço de mercado, temos, alguns tipos de
solventes, polímeros e ácidos orgânicos.
Nos dias atuais, com o avanço tecnológico e a participação de grandes empresas no
mercado da biotecnologia industrial, alguns metabólitos merecem destaque na
diversidade de pesquisas e no surgimento de novos produtos, como os bioplásticos, os
biocombustíveis e as enzimas (MALAJOVICH, 2012).
Como alguns dos principais metabólitos primários e secundários de grande interesse
comercial, podemos citar álcoois e Solventes; Ácidos Orgânicos; Aminoácidos;
Polissacarídeos; Vitaminas; Nucleotídeos; e Nucleosídeos.
6.2 Produtos Para Indústrias Ligadas à Saúde
O interesse da microbiologia industrial está na aplicação de conhecimentos científicos
básicos para o uso de agentes microbianos para a obtenção de produtos e processos
de interesse comercial, ambiental e social. Dentre a diversidade de produtos de origem
microbiológica fabricados comercialmente, destacamos:
• Antibióticos
Os antibióticos são compostos naturais, sintéticos ou semi-sintéticos, sendo
considerados metabólitos secundários típicos. Os antibióticos naturais são produzidos
pelos fungos e bactérias, junto a outros compostos durante a fermentação.
118
,
A produção biotecnológica de antibióticos consiste em processos fermentativos de
alguns microrganismos, como Penicillium spp e Streptomyces spp. No caso da
produção dos antibióticos semi-sintéticos, como a penicilina G de maior valor
industrial, ocorrem os processos de fermentação e posteriormente purificação e
alterações originadas por reações de química orgânica.
Apenas no século XIX descobriu-se a possibilidade de alguns grupos de microrganismos
serem responsáveis por doenças infecciosas. O pesquisador francês Louis Pasteur, ao
realizar experimentos com bactérias participantes de processos fermentativos,
constatou uma ampla distribuição desses microrganismos no meio ambiente e, desta
forma, contribuiu para o desenvolvimento de vacinas contra as doenças antraz, cólera
aviária e raiva.
Posteriormente, na segunda metade do século XIX, o médico alemão Robert Kock
identificou microrganismos responsáveis por diversas doenças como tuberculose,
cólera e febre tifóide, o que fizeram elaborar os postulados de Kock, associando um
microrganismo específico a uma doença específica (OLIVEIRA et al., 2016).
Nesse mesmo período, começava o desenvolvimento de pesquisas que estudavam
agentes químicos que apresentassem atividade antibiótica. No início do século XX, o
biólogo bacteriologista alemão Paul Ehrlich, ao pesquisar a possibilidade de
determinadas substâncias químicas serem utilizadas no combate a infecções,
desenvolveu o primeiro antibiótico de origem sintética, derivado do arsênico no
tratamento da sífilis.
O grande avanço no tratamento das infecções bacterianas ocorreu com a descoberta
do bacteriologista Alexander Fleming ao observar uma cultura de estafilococos
contaminados por um fungo Penicilium notatum, identificou uma substância produzida
pelo fungo que impedia o crescimento bacteriano. Essa substância extraída do fungo,
denominada penicilina, quando aplicada em animais, demonstrou sua eficácia no
combate a infecções bacterianas, sendo introduzida como terapêutico somente nos
anos 40 e, após o processo de industrialização desse medicamento, iniciou-se um
rápido crescimento na descoberta de novos antibióticos (OLIVEIRA et al., 2016 e
MAJALOVICH, 2016).
119
,
Os avanços da biotecnologia contribuíram para o surgimento de novos antibióticos
eficientes no combate as infecções causadas por agentes microbianos cada vez mais
resistentes, devido as rotas diversas de síntese e biossíntese dos antibióticos
produzidos desde a primeira metade do século XX como a penicilina, já citada, a
estreptomicina, tetraciclina, eritromicina, dentre outros (PEREIRA, OLIVEIRA, 2016).
As matérias primas ideais para a produção de antibióticos são aquelas que oferecem
um meio de cultura favorável para o crescimento do microrganismo responsável pela
produção do antibiótico. Os resíduos derivados da indústria agrícola, como a água de
milho, arroz ou trigo e meios contendo glicose ou melaço, são ricos em fontes de
carbono e muito utilizados para a produção da penicilina.
Para a produção comercial do antibiótico, utiliza-se fermentadores industriais de larga
escala. O processo utilizado é a fermentação submersa em que o agente microbiano
produtor se desenvolve em meio líquido de cultura rico em nutrientes, favorecendo a
produção de metabólitos de forma rápida e obtendo uma maior produtividade (LIMA,
et al., 2001).
A produção da penicilina G é realizada em fermentadores de 40.000 – 200.000 litros e
consiste em um processo aeróbio, com absorção de oxigênio. A temperatura ótima
para produção se encontra entre 25-27⁰C e o pH do meio deve ser constante de 6,5,
onde a fermentação leva cerca de 120 a 160 horas.
O processo se inicia com a utilização do inóculo de esporos em concentrações ideais
para que ocorra a formação de pellets (agregados de células) que passam por etapas
de crescimento até alcançar a etapa de produção, onde o meio de cultura é
alimentado com a quantidade ideal de nutrientes. Por se tratar de um metabólito
secundário, durante a fase de crescimento, pequenas quantidades de antibiótico são
produzidas, porém, quando a fonte de carbono se aproxima da exaustão, inicia-se a
produção da penicilina (MADIGAN, 2010 e LIMA, et al., 2001).
Ao término da fermentação, é necessário purificar o produto, separando de forma
eficiente o antibiótico excretado no meio de cultura e retirar a porção do antibiótico
aderido ao micélio (hifas celulares dos fungos) por meio de adsorção, troca iônica ou
precipitação química, para que se tenha a obtenção de um produto cristalino e de alta
pureza (MADIGAN, 2010 e PEREIRA; OLIVEIRA, 2016).
120
,
• Aminoácidos
Os aminoácidos consistem em uma categoria de composto orgânico bastante
heterogêneo que possibilitam a manutenção da vida, pois compõem a estrutura
química das proteínas e possuem grande potencial para aplicações biotecnológicas.
Os aminoácidos apresentam uma estrutura geral que consiste em um grupo amina (-
NH2), um grupo carboxílico (-COOH) e uma cadeia lateral ou grupo R, de dimensão e
características variáveis, ligados a um carbono saturado. Na natureza existem 21
aminoácidos diferentes e eles se diferem entre si pelo radical R que varia de um tipo
de aminoácido para outro.
Fonte: Elaborado pelo autor.
Figura 6.1 - Fórmula estrutural geral de um aminoácido.
Os aminoácidos são classificados em:
Essenciais - São aqueles que não são sintetizados pelo organismo (isoleucina,
leucina, valina, fenilalanina, metionina, treonina, triptofano, lisina e histidina).
Não Essenciais - São aqueles que são sintetizados pelo organismo (alanina,
ácido aspártico, asparagina, ácido glutâmico, serina).
Semi-essenciais ou precursores - Sintetizados a partir de outros precursores
presentes na dieta (arginina [glutamina/glutamato], cisteína [aspartato],
glutamina [ácido glutâmico, amônia], glicina [serina, colina], prolina
[glutamato], tirosina [fenilalanina]).
121
,
Esse composto orgânico pode ser produzido industrialmente por hidrólise de
proteínas, por síntese química ou por métodos biotecnológicos que incluem a catálise
enzimática, a semi-fermentação e a fermentação. Alguns grupos de microrganismos
são utilizados em pesquisas para a produção comercial de aminoácidos, como
bactérias E. coli, Brevibacterium flavum e espécies pertencentes aos gêneros
Corynebacterium e Bacillus. (MADIGAN, 2010 e MORAES, 2014).
Os aminoácidos são utilizados amplamente na indústria química como matéria prima;
na indústria alimentícia como os aditivos alimentares e no enriquecimento de ração
animal; na indústria farmacêutica como suplementos nutricionais; e na produção de
cosméticos.
Dentre os diversos tipos de aminoácidos utilizados na indústria alimentícia, podemos
citar como exemplo:
O ácido glutâmico para realçar o sabor dos alimentos;
O ácido aspártico e fenilalanina são dois importantes aminoácidos,
componentes do adoçante artificial aspartame e presentes em alimentos
considerados de baixa caloria e livres de açúcar;
Os aminoácidos L-alanina são adicionados em sucos de frutas para melhorar o
sabor e a L-cisteína tem ação antioxidante nos sucos de frutas e melhora a
qualidade do pão durante a cocção;
A combinação entre os aminoácidos triptofano com a L-histidina apresentam
ação antioxidante, evitando, por exemplo, a rancificação do leite em pó
(MADIGAN, 2010; MORAES, 2014).
• Vitaminas
As vitaminas são constituídas por um grupo de moléculas orgânicas de diferentes
classes químicas utilizadas como suplementos alimentares e ração animal, sendo
essenciais para a manutenção do metabolismo dos seres vivos. Muitas vitaminas são
produzidas em escala industrial por síntese química ou fermentação por meio da
utilização de microrganismos.
122
,
Dentre as vitaminas mais importantes obtidas exclusivamente por via biotecnológica
temos:
Vitamina B2 (riboflavina)
A riboflavina é uma vitamina de coloração amarelada, produzida por síntese química
ou fermentação. Atualmente são utilizados na síntese dessa vitamina o fungo Ashbya
gossypii e a bactéria Bacillus subtilis selecionados por meio de técnicas de engenharia
genética para a obtenção de melhores linhagens e consequentemente otimização do
processo. A produção dessa vitamina é destinada para a produção de ração, alimentos
e produtos farmacêuticos (MADIGAN, 2010 e FELIPE; BICAS, 2016).
Vitamina B12 (cobalamina)
É produzida exclusivamente pelo processo de fermentação realizada por linhagens de
microrganismos bacterianos selecionados da espécie Pseudomonas denitrificans e
Propionibacterium freudernreichii. Para obter grandes quantidades dessa vitamina
utiliza-se, no meio de cultura, melaço de beterraba que contém a betaína, substância
estimuladora do processo e pequena quantidade de sais de cobalto. A deficiência de
vitamina B12 no ser humano promove a baixa produção de hemácias e distúrbios no
sistema nervoso central. Nos animais, a obtenção da B12 ocorre via alimentação ou
pela absorção dessa vitamina produzida por bactérias presentes na flora intestinal
(FELIPE; BICAS, 2016).
6.3 Biotecnologia e Novos Alimentos
Ao longo da história, a biotecnologia revolucionou a agropecuária com tecnologias que
permitiram identificar e selecionar genes responsáveis pela codificação de
características benéficas, contribuindo para o melhoramento genético vegetal e
animal, no desenvolvimento de produtos veterinários, defensivos agrícolas e
fertilizantes organominerais.
123
,
Atualmente, a pressão mundial relacionada à segurança alimentar e proteção
ambiental cresce cada vez mais, pois estima-se que, em 2050, a população mundial
atingirá a marca de 9 bilhões de habitantes. Nesse contexto, novas ferramentas de
biotecnologia aplicadas na área da agricultura têm contribuído na melhora dos níveis
de segurança alimentar, na criação de alimentos modificados geneticamente e na
adoção de práticas agrícolas sustentáveis, diminuindo a pressão sobre os recursos
naturais (DIA, et al., 2019).
Dentre os estudos e biotecnologias aplicadas no setor agrícola que vêm ganhando
importância nos últimos anos, podemos citar:
• Organismos Geneticamente Modificados - OGMs
As denominadas “novas biotecnologias” associadas à tecnologia de DNA recombinante
permitiram a alteração de segmentos de genoma de qualquer organismo para
favorecer a aquisição de características desejáveis, dando origem aos Organismos
Geneticamente Modificados (OGMs).
A transgenia, que permite a transmissão e expressão dos genes entre espécies
diferentes, tem gerado grande impacto nas pesquisas agropecuárias, contribuindo
para a obtenção de novas características agronômicas e nutricionais desejáveis nos
cultivos de plantas e na criação de animais, no aumento da eficiência produtiva e na
maior resistência a pragas, doenças e estresse ambiental (CARRER, 2010 et al;
GUIMARÃES; PEREIRA, 2019).
Na área da biotecnologia houve um grande avanço em pesquisas que envolvem
alterações no genoma da planta para a criação de vegetais resistentes a pragas,
temperaturas extremas e no aumento da capacidade de retenção de CO2, resultando
em uma melhor eficiência do processo fotossintético. Atualmente, os estudos se
concentram em conhecer com maior profundidade a ação de genes específicos e na
produção de alterações genéticas em plantas com maior segurança e precisão.
124
,
Além das plantas geneticamente modificadas, houve a aplicação dessa tecnologia de
alteração gênica em microrganismos que promovem relações simbióticas e em
promotores de crescimento de plantas. No caso dos organismos simbiontes, como os
rizóbios, a finalidade principal da alteração dos genes está relacionada ao aumento da
produtividade da cultura que se beneficia dessa relação ecológica simbiótica com o
microrganismo, absorvendo uma maior quantidade de nutrientes e aumentando a sua
competitividade no meio (ANDRADE; NOGUEIRA, 2005).
A introdução desses OGMs (plantas e microrganismos) no meio ambiente, embora
tragam uma diversidade de benefícios para o setor agrícola, podem ter efeitos
adversos, promovendo alterações na biota do solo e nos ciclos biogeoquímicos,
comprometendo os serviços ecossistêmicos. O cultivo de plantas OGMs podem
apresentar os seguintes riscos potenciais ao equilíbrio ambiental:
a) O fluxo gênico para espécies selvagens pode se beneficiar de vantagens
oferecidas pelo OGMs, favorecendo o aumento das populações de erva
daninhas.
b) A população de organismos não alvo, como a biota do solo e os insetos
inimigos naturais presentes na cultura podem ser prejudicados pela introdução
da planta ou microrganismo geneticamente modificado no solo, colocando em
risco a biodiversidade local.
c) A introdução de novos genes no meio pode levar a extinção de população de
espécies de plantas selvagens e no surgimento de novas cepas resistentes não
controlados pelo homem (BENEDITO; FIGUEIRA, 2005).
A Lei de Biossegurança (11.105/05) determina normas de segurança e mecanismos de
fiscalização de atividades que envolvam OGMs, obrigando que qualquer organismo
modificado geneticamente seja submetido a criteriosa avaliação feita pela Comissão
Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), instância colegiada responsável pelos
critérios de avaliação dos OGM.
125
,
Dentre as principais atribuições da CTNBio está propor a Política Nacional de
Biossegurança estabelecendo normas técnicas de segurança e pareceres técnicos
referentes à proteção da saúde humana, dos organismos vivos e do meio ambiente,
para atividades que envolvam a construção, experimentação, cultivo, manipulação,
transporte, comercialização, consumo, armazenamento, liberação e descarte de OGM
e derivados (CAPALBO, 2016).
Para disponibilizar produtos seguros obtidos pela biotecnologia à sociedade, o
manuseio de OGMs exige uma avaliação de biossegurança dos produtos gerados,
devido às incertezas sobre os impactos e efeitos desses transgênicos sobre a saúde do
homem, animais e meio ambiente.
• Marcadores Moleculares
O marcador molecular é definido como uma sequência de DNA que é diferente entre
os organismos estudados, essa diferença é chamada de poliformismo.
A utilização dessa ferramenta genômica se mostra de grande utilidade, sobretudo em
programas de melhoramento genético, por meio da construção de genótipos que
seriam dificilmente produzidos apenas com a seleção fenotípica; na associação com
genes de resistência contra pragas e agentes patogênicos; na identificação de novos
princípios ativos ou plantas que apresentam proteínas de uso na indústria de
alimentos, fármacos e cosméticos.
• Edição de Genomas
Nos dias atuais, novas técnicas de manipulação genética denominadas Tecnologias de
Melhoramento (NTM) estão em ascensão.
As técnicas de chamadas de nucleases, TALENs (transcription activator-like effector
nucleases), mutagênese dirigida por oligonucleotídeos e CRISPR são exemplos de
técnicas que envolvem a edição de genoma por meio da quebra do DNA e posterior
reparação com as devidas alterações realizadas sem inserir no material genético genes
de outras espécies. Por exemplo, utilizar essa nova tecnologia na criação de um vegetal
com uma nova variação gênica, sem possuir algum segmento genômico de outra
espécie e que apresente qualidades superiores idênticos aos vegetais que lhes
originaram (DIAS, et al., 2019).
126
,
Essas novas ferramentas biotecnológicas possuem a capacidade de delimitar
sequências específicas de nucleotídeos da molécula de DNA, eliminando genes fracos e
inserindo características novas. Atualmente, a CRISPR consiste na tecnologia mais
moderna, pois, ao utilizar sequência de RNA para guiar uma nucleasse (Cas9) até o
ponto específico da molécula de DNA que será alterada, tem mostrado uma maior
precisão e bons resultados para a edição de genes (NEPOMUCENO, 2017; FIGUEIREDO,
2015).
• Controle biológico de pragas
O RNA de interferência (RNAi) é uma nova técnica de engenharia genética que está
sendo desenvolvida e pode ser aplicada no combate a pragas e no melhoramento
genético das plantas. O estudo se concentra na pulverização de uma solução contendo
RNA em uma plantação de batatas. As moléculas de RNA penetram no inseto praga
denominado besouro-da-batata e se associam ao RNAm para desativar a expressão de
um determinado gene responsável pela produção uma proteína, sem a qual o inseto
não sobrevive.
A principal vantagem apontada pela empresa norte americana Monsanto, responsável
pela pesquisa, seria o desligamento da expressão gênica do organismo alvo (praga),
não interferindo no genoma da planta, encurtando o processo de aprovação da técnica
e, consequentemente, reduzindo os custos do produto a ser comercializado.
Especialistas contrários a essa técnica acreditam que o RNA específico utilizado para
inibir a ação gênica do besouro pode apresentar semelhança com RNAm do besouro e
atingir outros insetos não pragas, como os polinizadores. Para garantir a aplicação
dessa técnica com a segurança devida, será necessário conhecer o genoma das
espécies dos outros insetos importantes para o equilíbrio ecológico (YANAGUI, 2016).
Outra biotecnologia desenvolvida para o combate de determinados insetos-praga são
as plantas Bt. Pesquisadores identificaram a presença da bactéria Bacillus thuringiensis
(Bt) que apresenta genes capazes de produzirem um tipo de proteína tóxica (Cry) para
alguns tipos de insetos. Isolaram o segmento de nucleotídeos produtores dessa
proteína no DNA de plantas, como a soja, milho e algodão, para que elas
desenvolvessem resistência aos insetos-praga. Ao ingerirem a folha da planta
geneticamente modificada e portadora do gene responsável pela produção da
proteína, a proteína se liga ao receptor de membrana das células intestinais do inseto,
provocando a sua morte.
127
,
Muitas vantagens são obtidas na utilização dessa técnica como por exemplo:
A redução na aplicação de agrotóxicos.
O aumento na produtividade da lavoura.
Um melhor desenvolvimento da planta e qualidade da safra.
Uma menor exposição do agricultor aos defensivos agrícolas.
Uma redução do custo de produção.
Um ganho ambiental devido à menor aplicação de produtos químicos e a não
emissão de CO2 na aplicação do herbicida.
Conclusão
Tradicionalmente, a aplicação da biotecnologia na indústria de alimentos resumia-se a
produção de pães, queijos, aditivos, álcool e iogurte. Com a evolução nas pesquisas e
avanços nos processos biotecnológicos, os microrganismos têm sido amplamente úteis
para a humanidade e atualmente representam uma tecnologia promissora em diversos
ramos da biotecnologia, sendo utilizados nos mais diversos processos microbiológicos
industriais nas áreas da saúde, alimentar, têxtil e de tratamento de resíduos.
Na agricultura, a criação de novas ferramentas na área da biotecnologia revolucionou
o setor no país na seleção de genes que expressam características genéticas benéficas,
no combate as pragas e no aumento da produtividade, contribuindo para o
desenvolvimento de uma agricultura sustentável e na preservação dos recursos
naturais.
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