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Efetividade das Medidas Protetivas na Violência Doméstica

O trabalho analisa a efetividade das Medidas Protetivas de Urgência na proteção de mulheres vítimas de violência doméstica no Brasil, destacando as dificuldades de implementação da Lei Maria da Penha. Apesar dos avanços legais, a pesquisa revela que as medidas ainda são pouco eficazes na prática, necessitando de melhorias nas políticas públicas e mobilização social. O estudo abrange o período de 2006 a 2024, evidenciando a importância da temática e os desafios enfrentados na aplicação das medidas protetivas.

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Efetividade das Medidas Protetivas na Violência Doméstica

O trabalho analisa a efetividade das Medidas Protetivas de Urgência na proteção de mulheres vítimas de violência doméstica no Brasil, destacando as dificuldades de implementação da Lei Maria da Penha. Apesar dos avanços legais, a pesquisa revela que as medidas ainda são pouco eficazes na prática, necessitando de melhorias nas políticas públicas e mobilização social. O estudo abrange o período de 2006 a 2024, evidenciando a importância da temática e os desafios enfrentados na aplicação das medidas protetivas.

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FACULDADE ESTÁCIO MACAPÁ

BACHARELADO EM DIREITO

GUSTHAVO LUIDY DA COSTA LIMA

Violência doméstica e medidas protetivas de urgência: efetividade e


desafios na proteção das vítimas

MACAPÁ,
2025.
2

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA:


EFETIVIDADE E DESAFIOS NA PROTEÇÃO DAS VÍTIMAS

Gusthavo Luidy da Costa Lima1

RESUMO. O presente trabalho tem como objetivo principal realizar uma análise minuciosa
sobre a efetividade das Medidas Protetivas de Urgência e sua apliabilidade na prática no
enfrentamento à violência doméstica contra a mulher no Brasil, com foco na evidenciação de
suas dificuldades de implementação. A realização deste se deu por meio de uma abordagem
qualitativa-descritiva, a fim de investigar os mecanismos legais identificados na lei Lei nº
11.340/2006 — conhecida como Lei Maria da Penha — e ainda, os avanços e principais
desafios referentes a essa legislação, considerando a realidade das vítimas. O recorte
temporal a que este estudo se submete corresponde os anos de 2006 a 2024, desde a criação e
promulgação da Lei Maria da Penha até os dias atuais, buscando evidenciar, por meio de
dados, a importãncia da temática pesquisada, com ênfase na resolução da questão problema,
que é: as medidas protetivas de urgência, conforme previstas na legislação brasileira, são
realmente eficazes no enfrentamento e na prevenção da violência doméstica contra a mulher?
Dessa maneira, conclui-se que mesmo que existam leis e outros instrumentos legais que
visam a proteção das mulheres vítimas de violência, na prática ainda existem falhas na
implementação dessas medidas, o que as tornam pouco eficazes e efetivas, necessitando de
mobilização social e de implementação de políticas públicas mais eficazes.

Palavras-chave: Violência doméstica. Medidas protetivas de urgência. Lei Maria da Penha.


Efetividade. Direitos das mulheres.

SUMÁRIO. Introdução. 1. Conceito e Tipos de Violência Doméstica. 2. Conceito


Histórico e Legal da Violência Doméstica no Brasil. 2.1. Criação e importância da Lei nº
11.340/2006 – Lei Maria da Penha. 3. Medidas Protetivas de Urgência (MPUs): conceito,
objetivos e aplicabilidade. 4. Efetividade das Medidas Protetivas de Urgência. 5.
Desafios e Fragilidades na Aplicação das Medidas Protetivas de Urgência. Conclusão.
Referências.

1
Bacharelando em Direito pela Estácio de Sá Macapá. E-mail: gusthavoluidylima@[Link]
3

INTRODUÇÃO

A violência doméstica contra a mulher se configura como uma das mais graves
violações dos direitos humanos e poder ser manifestada de diversas formas, a exemplo de
agressões físicas, sexuais, psicológicas, morais e até patrimoniais. No Brasil, para que as
mulheres possam ser protegidas de qualquer tipo de violência, foi promulgada a Lei nº
11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha, que marcou um avanço histórico e
significativo na proteção dos direitos da mulheres em situação de vulnerabilidade.
Um dos principais mecanismos previstos pela Lei Maria da Penha são as Medidas
Protetivas de Urgência (MPUs), que têm como principal objetivo proteger e resguardar a
integridade física, psicológica e moral das vítimas, mediante o afastamento do agressor e
restringindo que o mesmo dê continuidade nos episódios de violência.
Com foco neste contexto, o problema que será evidenciado neste estudo emerge da
necessidade de constatar a efetividade e eficácia dos dispositivos legais de proteção à
mulher vítima de violência. Para tanto, o problema de pesquisa que se busca investigar é: as
medidas protetivas de urgência, conforme previstas na legislação brasileira, são realmente
eficazes no enfrentamento e na prevenção da violência doméstica contra a mulher? Cabe
ressaltar que, mesmo diante da promulgação da Lei Maria da penha e demais leis criadas
para alterar esta, buscando avançar quanto à proteção às vítimas, os índices de agressão,
reincidência e feminicídio continuam altos, reflexo da existencia de falhas e ineficácia nessa
proteção.
Portanto, este trabalho torn-se essencial para a realização de uma análise crítica
minuciosa sobre a efetividade e os desafios encontrados na aplicação das MPUs, revelando
assim, a sua relevãncia social. Ademais, esta pesquisa propõe reflexões profundas sobre a
necessidade de aprimoramento das políticas públicas de proteção à mulher em situação de
vulnerabilidade. Dessa forma, espera-se contribuir para o conhecimento social e debate
jurídico acerca da garantia de direitos e da criação de uma cultura longe de violência.
Dessa maneira, o objetivo geral deste estudo é realizar uma análise minuciosa
sobre efetividade das Medidas Protetivas e Urgência e sua apliabilidade na prática no
enfrentamento à violência doméstica no Brasil. Esse objetivo geral se contempla mediante
as seguintes especificidades: compreender os fundamentos júridicos das MPUs; apresentar
dados sobre a sua efetividade na prática; e identificar os principais obstáculos à sua
aplicação efetiva.
4

O recorte temporal a que este estudo se submete corresponde os anos de 2006 a


2024, desde a criação e promulgação da Lei Maria da Penha até os dias atuais, buscando
evidenciar, por meio de dados, a importãncia da temática pesquisada, com ênfase na
resolução da questão problema. O recorte geográfico desta pesquisa tem foco no contexto
brasileiro, evidenciando dados de pelo menos dois estados brasileiros, a fim de demonstrar
como ocorre a aplicação das medidas protetivas em diferentes regiões brasileiras,
principalmente no estado do Amapá.
Diante do exposto, este estudo visa expor os aspectos legais referentes às medidas
protetivas de urgência e discutir de maneira detalhada os desafios e limitações dessas, a fim
de conscientizar a população e servir de base para novos e mais completos debates.

1. CONCEITO E TIPOS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

A palavra "violência" deriva do latim "violentia" e está relacionada ao uso da força,


vigor ou impulso para romper a integridade da vítima, seja física, psíquica, sexual ou moral.
Qualquer tipo de violência é uma violação dos direitos essenciais do ser humano (Essy,
2017, p. 4). Em regra, a violência resulta da ação ou força irresistível, praticadas na
intenção de um objetivo, que não se concretizaria sem ela. É o “emprego agressivo e
ilegítimo do processo de coação” (Lacerda, 2014, p. 2).
Essas considerações tornam evidentes que a violência é um termo de abrangência
notável que refere-se a qualquer comportamento, ação ou ato resultante em dano,
sofrimento, lesão física, psicológica, emocional ou morte de um indivíduo ou grupo de
pessoas. Sua manifestação pode se dar de inúmeras maneiras e contextos, englobando desde
agressões físicas e verbais até formas mais sutis, como negligência ou discriminação.
Importante notar que a violência pode ocorrer tanto em níveis individuais quanto em
âmbitos sociais e institucionais (Oliveira, 2023, p. 23).
Cabe ressaltar que, conceito de violência se difere do de lesão corporal, o termo
violência possui um conceito de proporções amplas, sendo um gênero detentor de
diversificadas espécies; violência vai bem além da agressão corporal, que afeta a
saúde de diferentes formas (Lacerda, 2014, p. 4).
Entretanto, no Direito Penal, a temática da violência é dividida em vis corporalis –
aquela violência que é empreendida sobre o corpo da vítima- e a vis compulsiva - que
corresponde a grave ameaça. No texto legal, o termo violência signfica a força física com
finalidade de vencer a resistência da vítima, isto é, a vis corporalis. Dessa maneira, a
5

violência pode ser imediata, quando empregada diretamente contra o próprio ofendido, e
mediata, quando utilizada por terceiro ou coisa que a vítima esteja diretamente vinculada
(Lacerda, 2014, p. 4).
Nesse aspecto o Conselho Nacional de Justiça –CNJ, elenca as formas de violência
existentes:

Quadro 1. Formas de violência

TIPO DE VIOLÊNCIA CARACTERÍSTICAS

É qualquer conduta - ação ou omissão - de discriminação, agressão ou coerção,


ocasionada pelo simples fato de a vítimaser mulher e que cause danos, morte,
Violência contra a mulher constrangimento, limitação, sofrimento físico, sexual, moral, psicológico, social,
político ou econômico ou perda patrimonial. Essa violência pode acontecer tanto
em espaços públicos como privados.

Violência sofrida pelo fato de se ser mulher, sem distinção deraça, classe social,
Violência de gênero religião, idade ou qualquer outra condição, produto de um sistema social que
subordina o sexo feminino.
Quando ocorre em casa, no ambiente doméstico, ou em uma relação de
Violência doméstica
familiaridade, afetividade ou coabitação.
Violência que acontece dentro da família, ou seja, nas relações entre os membros
da comunidade familiar, formada por vínculos de parentesco natural (pai, mãe,
Violência familiar filha etc.) ou civil(marido, sogra, padrasto ou outros), por afinidade (por exemplo,
o primo ou tio do marido) ou afetividade (amigo ou amiga que more na mesma
casa).
Ação ou omissão que coloque em risco ou cause dano àintegridade física de
Violência física
uma pessoa.
Tipo de violência motivada por desigualdades (de gênero, étnico-raciais,
Violência institucional econômicas etc.) predominantes em diferentessociedades. Essas desigualdades se
formalizam e institucionalizam nas diferentes organizações privadas e aparelhos
estatais, como também nos diferentes grupos queconstituem essas sociedades.

Acontece dentro de casa ou unidade doméstica e geralmenteé praticada por um


Violência intrafamiliar/ Violência
membro da família que viva com a ví[Link] agressões domésticas incluem: abuso
doméstica
físico, sexual epsicológico, a negligência e o abandono.

Ação destinada a caluniar, difamar ou injuriar a honra ou areputação da


Violência moral
mulher.
Ato de violência que implique dano, perda, subtração, destruição ou retenção de
Violência patrimonial
objetos, documentos pessoais,bens e valores.
Ação ou omissão destinada a degradar ou controlar as ações,comportamentos,
crenças e decisões de outra pessoa por meio de intimidação, manipulação, ameaça
Violência psicológica
direta ou indireta,humilhação, isolamento ou qualquer outra conduta que implique
prejuízo à saúde psicológica, à autodeterminação ouao desenvolvimento pessoal.
Ação que obriga uma pessoa a manter contato sexual, físico ou verbal, ou a
participar de outras relações sexuais com usoda força, intimidação, coerção,
Violência sexual chantagem, suborno, manipulação, ameaça ou qualquer outro mecanismo
queanule ou limite a vontade pessoal. Considera-se como violência sexual também
o fato de o agressor obrigar a vítimaa realizar alguns desses atos com terceiros.
Fonte: Elaborado pelos pesquisadores a partir das definições apresentadas pelo Conselho Nacional de Justiça
(2019).

De uma maneira mais específica, a violência contra a mulher, em suas diversas formas,
é uma das expressões mais cruéis da desigualdade de gênero. Em algumas culturas, essa
6

violência foi até naturalizada, sendo vista como parte da dinâmica social. A violência
doméstica, por exemplo, se configura como um dos maiores desafios enfrentados pelas
mulheres em todo o mundo (Lima; Sousa; Coelho, 2025, p. 416). É uma forma devastadora
de violência que transcende as barreiras físicas e emocionais, deixando cicatrizes profundas
nas vítimas e afetando não apenas a pessoa diretamente atingida, mas também as
testemunhas que muitas vezes são crianças ou outros membros da família (Oliveira, 2023,
p. 24). É um tipo de violência que não conhece fronteiras geográficas, ela é uniforme e
ocorre em diversas partes do mundo, não importando cultura, idade, classe social ou
religião (Lacerda, 2014, p. 8).
Para os efeitos da Lei Maria da Penha, configura-se como violência doméstica e
familiar contra a mulher qualquer “ação ou omissão baseada no gênero, que resulte em
morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial”, no
contexto dos diferentes âmbitos os quais essa mulher está inserida, como: a unidade
doméstica, familiar, ou relação íntima de afeto, mesmo que não haja coabitação. Dessa
forma, a violência doméstica é considerada um fenômeno social que atinge milhares de
mulheres no Brasil, colocando em risco sua integridade física, psicológica e moral
(Ramalho & Bandeira, 2024, p. 109).
Para Dias (2015, p. 24), esses atos de violência ainda são fortemente cultivados pela
sociedade com a prática de valores desiguais,

“a sociedade ainda cultiva valores que incentivam a violência, o que impõe a


necessidade de se tomar consciência de violência que a culpa é de todos. O
fundamento é cultural e decorre da desigualdade no exercício do poder, o qual gera
uma relação de dominante e dominado”.

Portanto, um requisito para a caracterização desse tipo de violência na Lei Maria da


Penha é o fato dela ser baseada no gênero, ou seja, fundada no controle e imposição do
gênero masculino sobre o gênero feminino, este em posição de subordinação. Esse requisito
é fundamentado na construção cultural e histórica dos estereótipos de cada gênero, onde o
gênero masculino sugere força e o feminino, vulnerabilidade (Lacerda, 2014, p. 14).
Em consonância com essa definição, o artigo 1º da Convenção Interamericana para
Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, conhecida como a Convenção de
Belém do Pará, coneitua esse tipo de violência e delineia os âmbitos nos quais essa
violência pode manifestar-se:
Artigo 1º: Para os efeitos desta Convenção, entender-se-á por violência contra a
mulher qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que cause morte, dano ou
sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública como na
7

esfera privada (Convenção de Belém do Pará, 1994).

Esta definição é fundamental para destacar que a violência de gênero não ocorre
necessariamente apenas em âmbito privado, mas transcedem para o domínio público.
Contudo, Esse fenômeno ainda é considerado de certa forma, invisível, uma vez que, as
vítimas se calam diante da submissão do ato violento gerado pelo agressor seja seu
parceiro íntimo ou familiar próximo (Caixêta Júnior & Gonçalves, 2023, p.179).
Nessa perspectiva, a violência doméstica representa uma das mais graves e frequentes
violações de direitos humanos, manifestando-se de maneira insidiosa e, em muitos casos,
invisível. É uma questão universal que atravessa fronteiras de classe social, idade e origem,
refletindo a estrutura patriarcal profundamente enraizada em diversas sociedades ao longo
da história (Arantes, 2024, p. 8).
A definição abrangente de violência doméstica abarca diversas formas de agressão,
como a violência física, verbal, emocional, sexual e financeira, todas elas acontecendo
dentro do espaço que deveria ser um refúgio de segurança e apoio (Oliveira, 2023, p. 26).
O artigo 7º da lei Maria da Penha apresenta as modalidades de violência contra as
mulheres que mais comumente são sofridas no âmbito familiar e doméstico e também nas
relações de afeto em geral, assim como relação às empregadas domésticas que muitas vezes
são alvo de agressões físicas e sexuais (Lacerda, 2014, p. 15). Portanto, em conformidade
com o Art. 7º, são formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras:
I - a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade
ou saúde corporal;
II - a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano
emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno
desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos,
crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação,
isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem,
ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio
que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação;
II - a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano
emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno
desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos,
crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação,
isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem,
violação de sua intimidade, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir
e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à
autodeterminação;
III - a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a
presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante
intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a
utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer
método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à
prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite
ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos;
IV - a violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure
8

retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de


trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos,
incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades;
V - a violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia,
difamação ou injúria.

2. CONTEXTO HISTÓRICO E LEGAL DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA NO BRASIL

Antes de analisarmos a história e a legalidade da violência doméstica no Brasil, é


importante atentar para o sentido intencional da ação ou omissão do comportamento
violento, pois desde os primórdios históricos, num contexto de insegurança e arbitrariedade,
emergente da necessidade de se empregar formas de manutenção do poder, o maior rigor da
punição sempre recaia sobre os mais frágeis, ou seja, mulheres, velhos e crianças (Parodi &
Gama, 2009, p.60). Nessa esteira, ao analisarmos a história, percebe-se que a violência
contra mulheres se reverberou pelo tempo, legitimada por regulamentações consuetudinárias
e legais patriarcais, que lhes impuseram diferentes condições de emancipação, liberdade e
comportamento, conforme veremos adiante (Gama, 2018, p. 13).
É evidente que a desigualdade entre os gêneros remonta à antiguidade, especialmente
em sociedades como a grega e a romana, onde as mulheres eram tratadas como propriedade
de seus maridos. Sua autonomia era severamente limitada: elas não podiam sair de casa sem
a autorização do homem e eram vistas unicamente como procriadoras. Essa visão de
subordinação perdurou por séculos e se aprofundou com a ascensão do patriarcado e da
Igreja, que impuseram normas que restringiam ainda mais os direitos das mulheres. Assim,
por muito tempo, a mulher foi vista como um ser destinado ao cumprimento de funções
limitadas à esfera doméstica, privada de direitos básicos, incluindo o direito de decidir sobre
sua própria vida (Naves et al., 2011).
É certo, portanto, que a questão de gênero está correlacionada a vida em sociedade,
tanto em relação aos conceitos do termo bem como a forma de como são estabelecidos os
relacionamentos entre os indivíduos. Realizando uma breve análise na antiga sociedade
Grega já é de fácil percepção a discrepância entre homens e mulheres. Desde essa época, as
mulheres já eram submissas e não gozavam dos mesmos direitos que os homens que podiam
até mesmo ser polígamos. Desta forma observa-se que a diferença entre gêneros vem se
arrastando de tempos remotos, podendo-se afirmar assim, que as mulheres já tinham os
direitos violentados e sofriam diversos tipos de violência em detrimento ao sexo masculino
(Funari, 2002, p. 14).
Diante do exposto, fica evidente que a violência em face do gênero é uma questão
histórica e cultural. Desde a formação das sociedades primitivas a mulher já era associada à
9

submissão, sendo que em algumas culturas a sua imagem era correlacionada à maldade
presente no mundo. Esses ideais foram se prolongando pelos anos e criando raízes culturais,
onde as pessoas passaram a tratar como normalmente os atos praticados em desfavor
das mulheres (Caixêta Júnior & Gonçalves, 2023, p. 181).
A exemplo, tem-se a colonização do Brasil pelos portugueses no início do século XVI
que trouxe consigo a cultura e tradições europeias, consolidando a sociedade patriarcal no
país. Neste cenário, foram impostos papeis rigidamente estabelecidos e regras explícitas para
cada membro desse grupo social (Oliveira, 2023, p 12). Na perspectiva de Essy (2017, p. 2),
o patriarcalismo, importo pelos portugueses, foi tido como o principal fator para a
hierarquização do poder dentro do contexto familiar, e esse fator, garantiu que a liberdade
feminina, tanto da esposa como das filhas, fosse severamente restringida pelos patriarcas,
que as viam como suas propriedades. Dessa forma, o papel designado à mulher era limitado
ao ambiente doméstico, com a responsabilidade de gerenciar o lar e obedecer às ordens do
marido (Essy, 2017, p. 2).
Como resultado, o objetivo central da sociedade patriarcal era destacar de forma
marcante as diferenças entre os gêneros. As mulheres eram vistas como figuras indefesas,
inconcludentes e proibidas de adotar comportamentos semelhantes aos dos homens, sendo
punidas em caso de adultério. Por outro lado, os homens representavam figuras fortes,
racionais e viam o adultério como algo comum e aceitável (Arantes, 2024, p. 11).
O contexto histórico da mulher no Brasil reflete, de certa forma, o processo de
mudança vivido em muitos países ao longo do século XX, especialmente após a
Segunda Guerra Mundial. Durante este período, muitas mulheres se viram forçadas a
assumir papéis que antes eram exclusivos dos homens, uma vez que eles estavam na
guerra ou haviam falecido no conflito. A entrada massiva das mulheres no mercado
de trabalho durante esse período representou um marco importante na luta pela igualdade,
pois muitas mulheres começaram a ganhar autonomia financeira e a adquirir maior
independência, desafiando os papéis tradicionais de gênero (Naves et al., 2011, p.).
Com o passar do tempo, as mulheres começaram a se organizar e a questionar esse
status quo, formando os primeiros movimentos feministas que visavam a transformação da
sociedade e a conquista de direitos iguais. Esses movimentos representaram uma resposta
direta à exclusão e subordinação histórica das mulheres (Ramalho & Bandeira, 2025, p.
416). Nesse contexto, os movimentos feministas desempenharam um papel fundamental,
buscando, por meio da conscientização e da pressão política, garantir que as mulheres
tenham acesso a direitos iguais aos dos homens e possam viver sem medo de violência
10

e discriminação (Naves et al., 2011, p.).


Diante de toda a trajetória histórica da mulher, é fundamental destacar um dos marcos
mais significativos dos movimentos feministas: a luta pelo direito ao voto. Em diversas
partes do mundo, as mulheres enfrentaram uma longa batalha para conquistar esse direito,
sendo que, em muitos países, essa conquista só ocorreu após duras manifestações. No
Brasil, durante o período colonial, as mulheres eram tratadas de maneira similar aos negros,
sem o direito de votar ou serem votadas, o que refletia a opressão estrutural que dominava a
sociedade da época. Essa desigualdade se estendeu por muitos anos, até que as mulheres
começaram a tomar as rédeas de sua própria história, buscando conquistar direitos básicos
por meio dos movimentos feministas (Ramalho e Bandeira, 2025, p. 417).
A priori, e de maneira geral, a expressão “violência contra a mulher” foi cunhada pelo
movimento feminista na década de 1960, quando da segunda onda do movimento, cujo
pleito focava-se na autonomia sobre o corpo, o direito à sexualidade e ao prazer. Esse
também foi o período de emersão do movimento feminista no Brasil, ainda sob o regime da
ditadura militar, sendo suas participantes mais ou menos intensamente vinculadas às
organizações e partidos de esquerda. A despeito disso, a literatura específica sobre o tema
começa a aparecer apenas na década de 1980, constituindo-se a violência contra a mulher
como uma das principais áreas temáticas dos estudos feministas no Brasil (Santos &
Izumino, 2014, p. 5).
Cabe ressaltar que mesmo quando o tema ingressou no Sistema de Segurança Pública
por meio da criação das Delegacias de Mulheres, em 1985, muito antes da tipificação da
violência doméstica e familiar contra a mulher (ocorrida quase duas décadas depois, com a
Lei Maria da Penha) e da qualificadora do homicídio de mulheres em razão do gênero
(feminicídio) , o termo “violência contra a mulher” não foi nem mesmo utilizado na Lei que
instituía o novo equipamento social do Sistema de Segurança (Decreto Estadual de São
Paulo Nº 23.769/1985).
Contudo, esses fenômenos tornam evidentes que a sociedade passava por algumas
mudanças em relação a participação da mulher em meio social, mas não o suficiente para
inseri-la nesse meio. Com a implantação do regime republicano brasileiro em 1889, que
marcou o declínio da monarquia e o começo da chamada República Velha, o poder patriarcal
foi mantido, mas de forma mais branda. Neste mesmo sentido, o Código Civil de 1916 ainda
manteve os princípios conservadores, com o homem como chefe da sociedade conjugal e a
mulher sendo colocada em uma posição de subordinação (Neri & Pontes, 2007, p.).
Com início em 1918, os movimentos sufragistas no Brasil, liderados pela classe média,
11

ganharam força e reivindicaram o direito ao voto feminino, culminando com a aprovação do


Código Eleitoral em 1932, que concedeu às mulheres o direito de votar e serem votadas
(Essy, 2017, p. 4). Apesar dos avanços legais, a igualdade de gênero ainda enfrentou
obstáculos, e somente em 1962, com a Lei 4.121/62 (BRASIL, 1962) que teve como mérito
abolir a incapacidade feminina, revogando normas discriminadoras constantes no Código
Civil de 1916, a mulher brasileira teve garantido o livre exercício de profissão e ingresso no
mercado de trabalho, o que trouxe mudanças significativas nos relacionamentos conjugais
(Neri & Pontes, 2007, p.).
Sobre o modelo familiar instaurado nessa época, Dias (2004, p. 22 – 24) afirma:
O modelo familiar da época era hierarquizado pelo homem, sendo que desenvolvia
um papel paternalista de mando e poder, exigindo uma postura de submissão da
mulher e dos filhos. Esse modelo veio a sofrer modificações a partir da Revolução
Industrial, quando as mulheres foram chamadas ao mercado de trabalho,
descobrindo assim, a partir de então, o direito à liberdade, passando a almejar a
igualdade e a questionar a discriminação de que sempre foram alvos. Com essas
alterações, a mulher passou a participar, com o fruto de seu trabalho, da mantença
da família, o que lhe conferiu certa independência. Começou ela a cobrar uma
participação do homem no ambiente doméstico, impondo a necessidade de assumir
responsabilidade dentro de casa e partilhar cuidado com os filhos (Dias, 2004, p.
22-24).

Já em 1988, a Constituição da República, considerada constituição cidadã, enfatiza a


equiparação entre homem e mulher, como por exemplo em seus artigos 5º, inciso I e 226, §
5º. In verbis:
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindose aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade
do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos
seguintes: I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos
desta Constituição; (...) Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial
proteção do Estado. [...] § 5º Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal
são exercidos igualmente pelo homem e pela mulher. (BRASIL, 1988)

Dessa forma, a questão da violência de gênero só começou a ganhar destaque no Brasil


nas últimas décadas do século XX. A emergência desse problema estava intrinsecamente
ligada à visibilidade crescente das experiências traumáticas enfrentadas por mulheres em
suas vidas domésticas. Antes da promulgação da Lei Maria da Penha, a violência doméstica
muitas vezes era tratada de forma negligente pelas autoridades e pelo sistema de justiça
criminal. As agressões ocorridas no ambiente doméstico eram minimizadas ou tratadas como
questões particulares, o que perpetuava o ciclo de violência e impedia que as vítimas
obtivessem a proteção necessária (Oliveira, 2023, p 15).
No entanto, mesmo com as lutas feministas e as vitórias ao longo do tempo, as
mulheres continuam a ser subvalorizadas e a enfrentar barreiras em várias áreas da
12

sociedade. No mercado de trabalho, por exemplo, a disparidade salarial entre homens e


mulheres ainda persiste, e, na esfera doméstica, as mulheres são frequentemente
responsabilizadas pela criação dos filhos, enquanto os homens são vistos como provedores.
Isso revela uma construção social que persiste, sublinhando a ideia de que o papel da mulher
é, muitas vezes, secundário, mesmo diante de todo o progresso já alcançado e o que se busca
alcançar (Ramalho & Bandeira, 2025, p. 416).
Contudo, cabe evidenciar que a promulgação da Lei Maria da Pennha, realizada no ano
de 2006, foi fundamental e representou um marco histórico na luta contra a violência de
gênero no Brasil, uma vez que estabeleceu mecanismos legais para prevenção desse tipo de
violência e para punição dos agressores.

2.1. CRIAÇÃO E IMPORTÂNCIA DA LEI Nº 11.340/2006 – LEI MARIA DA PENHA

A violência contra a mulher é uma característica básica dos problemas relacionados ao


gênero. Infere-se que esse dilema possui raízes históricas, fazendo parte, dessa forma, da
construção de uma cultura imprópria, propícia a atos violentos dirigidos contra as mulheres.
Como observado anteriormente, desde tempos remotos a figura feminina está associada à
submissão, principalmente no que tange as questões decisórias e às relações de poder
(Barros, 2018, p. 4).
Fica claro que, a questão da violência direcionada as mulheres é uma questão
enraizada na cultura brasileira, podendo ser verificada na própria história do país. Questões
culturais são extremamente difíceis de serem solucionadas, uma vez que, não se altera
uma cultura rapidamente, principalmente quando essa é passada de geração em
geração. Para compreender de forma clara a violência contra a mulher é preciso tomar
conhecimento de todos os seus tipos. Em virtude da desigualdade de gênero e em face da
complexidade da violência contra a mulher, foi inserida no ordenamento jurídico a lei n.
11.340/2006 (Brasil, 2006), intitulada como a lei Maria da Penha; que apresenta um conjunto
de medidas com o objetivo de proteger as mulheres, preservando seus direitos e contribuindo
com a construção de uma sociedade mais justa (Caixêta Júnior & Gonçalves, 2023, p. 181).
A Lei Maria da Penha pauta-se em, basicamente, três eixos: punição, proteção e
prevenção. O primeiro corresponde às medidas criminais de punição da violência, e prevê
procedimentos relativos ao inquérito policial, prisões e veto para aplicação da Lei
9.099/1995 (Lei dos Juizados Especiais Criminais) (Florêncio, 2016, p. 83). O segundo, é o
eixo de proteção, no qual destacam-se as Medidas Protetivas de Urgência, que objetiva
13

proteger a integridade física e os direitos da mulher, contemplando também medidas de


assistência de forma integral, com previsão de atendimento psicológico, jurídico e social. Por
fim, o terceiro eixo corresponde à prevenção, e engloba estratégicas de educação e
transformação cultural para coibir a reprodução social da violência e discriminação com base
no gênero. (Pasinato, 2012, p. 220)
Nessa perspectiva, a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) representa um marco
fundamental na luta contra a violência doméstica e familiar no Brasil. Ela foi criada com o
objetivo de oferecer mecanismos efetivos de proteção às mulheres em situação de
vulnerabilidade, rompendo com a ideia de que a violência no ambiente familiar seria uma
questão privada. A lei surgiu em um contexto de crescente pressão social e internacional para
que o Brasil adotasse medidas mais eficazes no combate à violência de gênero, sendo
considerada uma das legislações mais avançadas do mundo nessa área (Arantes, 2024, p. 21).
Sancionada em 7 de agosto de 2006, essa importante Lei teve seu nome escolhido em
razão do emblemático caso de repercursão e reconhecimento nacional e internacional, em
1983, da farmacêuca, cearence, Maria da Penha Maia Fernades, vítima de duas tentativas de
assassinato praticadas por Marco Antônio Heredias Vivero, seu marido na época. Após naos
de abusos constantes sofridos pela vítima e praticados por seu próprio compaheiro, Marco
Antônio atentou contra a vida de Maria da Penha pela primeira vez, dexando-a paraplégica
após ser alvejada enquanto dormia. Não obstante, o agressor tentou mais uma vez assassiná-
la, eletrocutando-a enquanto tomava banho.
Apesar das constantes agressões e tentativas de assassinato, Maria da penha denunciou
seu agressor e foi incansável na busca por proteção e justiça, contudo, apesar das evidências
claras, o processo judicial se arrastou por quase duas décadas, e o agressor foi condenado
apenas após 19 anos de luta judicial, cumprindo apenas dois anos de prisão em regime
fechado (Arantes, 2024, p. 21).
Como visto, o caso tramitou por anos nos tribunais brasileiros. Apesar de uma
condenação inicial em 1991 e outra em 1996, Marco Antônio continuou recorrendo em
liberdade. Apenas em 2002, mais de 19 anos após os crimes, foi cumprida uma pena efetiva
de dois anos de prisão. Essa demora e a falta de efetividade no julgamento impulsionaram
Maria da Penha a denunciar o Brasil à Comissão Interamericana de Direitos Humanos
(CIDH), com base nas Convenções de Belém do Pará e Americana de Direitos Humanos
(Barros Neto, 2024, p. 2).
A CIDH analisou o caso e constatou negligência estatal, responsabilizando o Brasil
por omissão e ineficácia judicial (Guerra, 2022, p.). Em 2001, o Estado foi condenado
14

a indenizar Maria da Penha em US$ 20 mil e a adotar medidas para prevenir a


violência contra as mulheres. Essa decisão marcou a primeira condenação de um país pela
Corte Interamericana de Direitos Humanos no contexto da violência doméstica e de gênero
(Barros Neto, 2024, p. 2).
Só após o Brasil ser condenado por negligência e omissão, percebeu-se a necessidade
de modificar o sistema judiciário brasileiro, principalmente em relação à morosidade
processual e à ausência de ferramentas eficazes na proteção às mulheres. Dessa maneira,
implementou-se a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) com o objetivo de previnir, punir
e erradicar a violência contra a mulher, tendo como um dos pilares as Medidas Protetivas de
Urgência (MPU), a fim de garantir que as vítimas tenham respostas rápidas e imediatas em
meio a situações de riscos iminentes.

3. MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA (MPUs): CONCEITO, OBJETIVOS E


APLICABILIDADE

Um dos principais instrumentos de proteção à mulher no Brasil são as Medidas


Protetivas de Urgência (MPUs), introduzidas pela Lei nº 11.340/2006 (BRASIL, 2006). A
referida lei, inspirada pelas orientações trazidas pela Convenção Interamericana para
Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, conhecida como “Convenção Belém
do Pará” (BRASIL, 1996), representou um significativo avanço no enfrentamento à
violência doméstica e familiar contra a mulher (Lobo, 2023, p. 2).
No âmbito da Lei Maria da Penha, as MPUs foram criadas com a finalidade de m
interromper o ciclo de violência e assegurar a segurança das vítimas (Ramalho & Bandeira,
2025, p. 109). Essas medidas têm como principal objetivo afastar o agressor do convívio
com a vítima, além de prover mecanismos de suporte imediato para evitar a continuidade do
ciclo de violência (Brasil, 2006).
Cabe ressaltar que, o mencionado dispositivo legal possui medidas protetivas que
podem ser aplicadas com a finalidade degarantir a segurança das vítimas, sendo que essas
medidas incluem a proibição do agressor de se aproximar da vítima, a suspensão da posse ou
porte de armas, a concessão de assistência psicológica e social à vítima, dentre outras
medidas (Santos; Silva; Pinto, 2023, p. 3722).
Dentro do contexto jurídico, as medidas protetivas são definidas como
providências urgentes que podem ser adotadas pelo juiz com o intuito de afastar o agressor
do ambiente de convivência com a vítima. A Lei Maria da Penha prevê uma série de ações
15

possíveis, como o afastamento do agressor do lar ou local de convivência com a vítima,


proibição de aproximação ou contato por qualquer meio, proibição de frequentar
determinados lugares que possam representar risco à integridade da mulher, e até mesmo o
afastamento do agressor do convívio com os filhos menores. Essas medidas têm caráter
emergencial e visam garantir a interrupção da violência, proporcionando à vítima um
ambiente mais seguro, afastando-a de situações que possam agravar o risco à sua vida ou à
sua saúde mental (Lima; Sousa; Coelho, 2025, p. 428).
As principais medidas protetivas aplicadas em juizado ao agressor, estão previstas em
Lei e são:
Art. 22. Constatada a prática de violência doméstica e familiar contra a mulher, nos
termos desta Lei, o juiz poderá aplicar, de imediato, ao agressor, em conjunto ou
separadamente, as seguintes medidas protetivas de urgência, entre outras:
I - suspensão da posse ou restrição do porte de armas, com comunicação ao órgão
competente, nos termos da Lei nº 10.826, de 22 de dezembro de 2003 ;
II - afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com a ofendida;
III - proibição de determinadas condutas, entre as quais:
a) aproximação da ofendida, de seus familiares e das testemunhas, fixando o limite
mínimo de distância entre estes e o agressor;
b) contato com a ofendida, seus familiares e testemunhas por qualquer meio de
comunicação;
c) freqüentação de determinados lugares a fim de preservar a integridade física e
psicológica da ofendida;
IV - restrição ou suspensão de visitas aos dependentes menores, ouvida a equipe de
atendimento multidisciplinar ou serviço similar;
V - prestação de alimentos provisionais ou provisórios.
VI – comparecimento do agressor a programas de recuperação e reeducação;
e (Incluído pela Lei nº 13.984, de 2020)
VII – acompanhamento psicossocial do agressor, por meio de atendimento
individual e/ou em grupo de apoio. (Incluído pela Lei nº 13.984, de 2020)

Com relaçao às medidas protetivas de urgência aplicadas à mulher vítima de violência


doméstica, tem-se:
Art. 23. Poderá o juiz, quando necessário, sem prejuízo de outras medidas:
I - encaminhar a ofendida e seus dependentes a programa oficial ou comunitário de
proteção ou de atendimento;
II - determinar a recondução da ofendida e a de seus dependentes ao respectivo
domicílio, após afastamento do agressor;
III - determinar o afastamento da ofendida do lar, sem prejuízo dos direitos
relativos a bens, guarda dos filhos e alimentos;
IV - determinar a separação de corpos.
V - determinar a matrícula dos dependentes da ofendida em instituição de educação
básica mais próxima do seu domicílio, ou a transferência deles para essa
instituição, independentemente da existência de vaga. (Incluído pela Lei nº 13.882,
de 2019)
VI – conceder à ofendida auxílio-aluguel, com valor fixado em função de sua
situação de vulnerabilidade social e econômica, por período não superior a 6 (seis)
meses. (Incluído pela Lei nº 14.674, de 2023)
Art. 24. Para a proteção patrimonial dos bens da sociedade conjugal ou daqueles de
propriedade particular da mulher, o juiz poderá determinar, liminarmente, as
seguintes medidas, entre outras:
I - restituição de bens indevidamente subtraídos pelo agressor à ofendida;
16

II - proibição temporária para a celebração de atos e contratos de compra, venda e


locação de propriedade em comum, salvo expressa autorização judicial;
III - suspensão das procurações conferidas pela ofendida ao agressor;
IV - prestação de caução provisória, mediante depósito judicial, por perdas e danos
materiais decorrentes da prática de violência doméstica e familiar contra a
ofendida..

Em 2018, a Lei nº 13.641 alterou dispositivos da Lei nº 11.340/2006, tornando crime o


descumprimento de medidas protetivas de urgência expedidas em razão de violência
doméstica, podendo haver a prisão em flagrante ou a solicitação de prisão preventiva
(Instituto Maria da Penha, 2018). Dessa forma, tanto as medidas aplicadas ao agressor
quanto as aplicadas à vítima são passíveis de descumprimento e, por isso, o descumprimento
de tais medidas se configura como crime sob pena de reclusão de 2 a 5 anos , e multas.
Além disso, em recente publicação, a Lei nº 14.550, de 19 de abril de 2023, alterou o
art. 19 da Lei Maria da Penha, para dispor sobre as medidas protetivas de urgência e
estabelecer que a causa ou a motivação dos atos de violência e a condição do ofensor ou da
ofendida não excluem a aplicação da Lei (Oliveira, 2023, p. 18). Nestes termos, dispõe:
Art. 19. [...] § 4º As medidas protetivas de urgência serão concedidas em juízo de
cognição sumária a partir do depoimento da ofendida perante a autoridade policial
ou da apresentação de suas alegações escritas e poderão ser indeferidas no caso de
avaliação pela autoridade de inexistência de risco à integridade física, psicológica,
sexual, patrimonial ou moral da ofendida ou de seus dependentes. § 5º As medidas
protetivas de urgência serão concedidas independentemente da tipificação penal da
violência, do ajuizamento de ação penal ou cível, da existência de inquérito policial
ou do registro de boletim de ocorrência. § 6º As medidas protetivas de urgência
vigorarão enquanto persistir risco à integridade física, psicológica, sexual,
patrimonial ou moral da ofendida ou de seus dependentes (Brasil, 2023).

Dessa maneira, fica claro que as medidas protetivas de urgência devem ser aplicdas
“em todas as situações de violência doméstica e familiar contra a mulher, visando proteger a
integridade da ofendida ou dos dependentes, enquanto persistir o risco” (Oliveira, 2023, p.
18) e são cabíveis de mudanças, renovação ou suspensão dependendo de suas
circunstâncias..
Ademais, a Lei Maria da Penha e essas medidas de proteção devem ser adotadas a
todas às mulheres, independentemente de raça, orientação sexual, classe social, idade, ou
qualquer outra característica, além de abranger variadas formas de violência (Santos; Silva;
Pinto, 2023, p. 3722), a fim evitar todo e qualquer tipo de violência, principalmente as letais.
É válido destacar que essas medidas não tem o objetivo apenas de proteger as vítimas e
prevenir novos casos de violência, mas de culpabilizar o agressor, que será submetido a
efeito dissuasório, não tolerando seus atos violentos, passíveis de consequências legais.
Essas medidas focam, ainda, na segurança emocional da vítima, garantindo suporte
17

psicológico e apoio em sua tomada de decisão. Para tanto, a LMP determina que a vítima e
sua família sejam encaminhados para uma rede de proteção assistencial, com assistência
jurídica, psicológica, com foco na reintegração social segura. Por isso, MPUs são tão
importantes e relevantes para a sociedade.
Além da função prática, a aplicação das medidas protetivas de urgência contribui para
sensibilizar a sociedade sobre a gravidade da violência contra a mulher, estimulando a
conscientização e a cultura de repúdio à violência e de respeito à dignidade humana (Santos,
2019).
Ademais, a recente lei 14.550/2023 definiu, ainda, com mais clareza, que causa ou
motivação dos atos de violência e a condição do ofensor ou da ofendida não excluem a
aplicação da lei 11.340/2006, sinalizando a necessidade de uma avaliação cautelosa e prévia
para a revogação da decisão concessiva de medidas protetivas de urgência (Brasil, 2023).
Em estudo publicado pelo Ministério Público de São Paulo, constatou-se a relevância
das medidas protetivas na prevenção de violências letais, indicando que, entre as mulheres
vítimas de feminicídio, apenas 3% possuíam decisão de proteção (São Paulo, 2018). Assim,
o estabelecimento de protocolos aptos a fomentar a intervenção precoce, respondendo com
eficiência às situações de violência contra a mulher, contribui para a redução das ocorrências
associadas à violência letal, reforçando a percepção de que o feminicídio é uma morte
evitável (Lobo, 2023, p. 90). A uniformização dos procedimentos é uma das medidas que
contribui para a previsibilidade na atuação judicial.
De acordo com o artigo 18 da Lei Maria da Penha, atribui a competência ao juiz para
decidir sobre a aplicação das medidas protetivas de urgência, com prazo máximo de 48
horas, refletindo a urgência da situação. O artigo 19 complementa essa ideia, ressaltando que
essas medidas podem ser concedidas imediatamente, dispensando audiência prévia ou
manifestação do Ministério Público. Contudo, é importante que o Ministério Público seja
informado sobre a concessão das medidas protetivas, que têm como objetivo garantir a
integridade da vítima, de seus familiares, bens e patrimônio (Oliveira, 2023, p. 46).
Nesse escopo, é importante destacar os diversos segmentos presentes na aplicabilidade
correta da mencionada lei, onde pode-se citar a atuação do Poder Judiciário, o qual tem um
papel fundamental em sua aplicação, uma vez queos juízes têm a autoridade para determinar
as medidas protetivas, além de julgar os casos de violência doméstica e familiar, e também
impor penalidades aos agressores, nos casos de acordo com a legislação vigente. Outrora,
observa-se também a atuação dos órgãos de segurança pública, precipuamente as polícias, as
quaisdesempenham um papel importante na aplicação da lei ao atender chamados de
18

emergência, além de tomaremmedidas iniciais com objetivo deproteger a vítima. A Lei


Maria da Penha estabelece que a polícia deve agir prontamente para garantir a segurança da
vítima e coletar evidências (Santos; Silva; Pinto, 2023, p. 3722).
Portanto, devido a natureza de urgência, a vítima pode solicitar o amparo dessas
medidas por meio da autoridade policial e/ou do Mnistério Público. Esses, encaminharão a
solicitação ao juíz, que terá até 48h para estudar o caso e tomar uma decisão baseada em suas
circunstãncias e legislação vigente. Contudo, em sua redação original, a lei não contemplou
procedimento para a tramitação e tampouco definiu a natureza jurídica, limitando-se a
estabelecer o prazo para encaminhamento pela autoridade policial do requerimento de
medidas protetivas formulado pela mulher (48 horas, em conformidade com o artigo 12,
inciso III) e o prazo judicial para conhecimento do pedido, com concessão ou denegação da
medida protetiva requerida (48 horas, segundo o artigo 18, inciso I) (Lobo, 2023, p. 3).
Assim, o mencionado dispositivo legal possui aplicabilidade ampla no Brasil e
desempenha um papel crucial na proteção das mulheres vítimas de violência doméstica
e familiar. Todavia, para que haja a eficácia da leisupracitada, há anecessidadede
umaimplementação adequada pelos órgãos competentes, como também
daconscientização da sociedade sobre a importância de combater a violência contra as
mulheres (Santos; Silva; Pinto, 2023, p. 3723).

4. EFETIVIDADE DAS MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA

Ao analisar o conceito, os objetivos e a aplicabilidade das MPUs, fica evidente que


essas representam um avanço significativo na legislação brasileira, contudo, a efetividade
dessas medidas, na prática, têm representado um desafio para o Brasil, reflexetindo o
aumento dos casos de violência contra a mulher no país. Para Monteiro (2019, p. 42) apesar
de a “Lei Maria da Penha possuir importantes dispositivos em prol da segurança e proteção
das vítimas de violência doméstica, o Poder Público ainda tem de superar diversos
problemas para que a efetividade de tais medidas possa ser alcançada.
É importante frizar que, para que as medidas protetivas de urgência sejam eficázes,
elas necessitam dependem de diversos fatores, entre eles deve estar a celeridade na
concessão, a efetividade na execução e o monitoramento contínuo dessas medidas.
Milhomem (2023) afirma categoricamente que “a sanção da Lei nº 14.550/23 representa um
avanço significativo no âmbito da proteção às mulheres vítimas de violência doméstica,
tendo em vista que a rapidez na adoção de medidas protetivas é fundamental para garantir a
19

segurança da vítima”. Contudo, mesmo com a sanção dessa referida Lei, as medidas
protetivas precisam ser acompanhadas de perto pelo Ministério Público e Defensoria pública,
a fim de garantir sua real efetividade.
Com relação as dificuldades na efetividade das medidas protetivas, dados recentes
indicam um aumeto significativos nos casos de violência contra a mulher e a concessão de
medidas protetivas de urgência. De acordo com Mendes (2024), só em 2023, o Rio Grande
do Sul teve média de 479 medidas protetivas consedidas por dia. Ao longo desse ano, houve
um total de 175.053 ordens judiciais emitidas com o intuito de proteger as mulheres vítimas
de violência doméstica só nesse estado brasileiro (Mendes, 2024).
Dados da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e
Familiar (CEVID) indicam que em janeiro de 2024 em comparação à janeiro do ano anterior,
houve um aumento de 26% na concessão de medidas protetivas às mulheres vítimas de
violência doméstica no Rio Grande do Sul. Esses dados mostram que essas vítimas estão
apresentando maior conscientização e tendo melhores respostas do sistema judiciário
(Mendes, 2024).
No estado do Amapá a realidade é ainda mais preocupante. De acordo com a 10ª
edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo Instituto de
Pesquisa DataSenado (2024), pelo menos 35% das mulheres do Amapá afirmam serem ou
terem sido vítima de algum tipo de violência doméstica (Brasil, 2024). Esse quadro revela
que mesmo diante dos avanços legislativos e constitucionais, a violência contra a mulher
ainda é persistente.
Contudo, o Governo Amapá não tem medido esforços para fornecer respostas
institucionais efetivas para amenizar esse cenário. Dados divulgados em janeiro de 2024,
mostram que, no Amapá, só em 2023 foram realizados mais de 10 mil atendimentos
relacionados à proteção de mulheres vítimas de violência. Os Centros de Referência da
Mulher, a Defensoria Pública, e o atendimento Disque 180 são os canais amapaenses que
tem atendido de forma direta essas vítimas (Portal Amapá, 2024). Esses dados são
fundamentais para evidenciar que, há uma demanada crescente por amparo institucional ao
mesmo tempo que há uma ampliação do acesso às redes de proteção.
Apesar dessa ampliação e do aumento no número de concessões, os desafios
existentes quanto a efetividade das medidas protetivas são evidentes, principalmente quando
relacionados ao descumprimento dessas por parte dos agressores, uma vez que, mesmo com
a concessão das medidas de proteção, muitas mulheres continuam sendo vítimas de violência
doméstica e familiar. No ano de 2022, apenas 11% das vítimas de feminicídiopossuiam
20

medidas protetivas deferidas a seu favor, o que reflete a ineficácia dessas medidas ana
prevenção de crimes mais graves (Dantas, 2025).
Cabe ressaltar que, a celeridade na concessão das MPUs é essencial para a proteção
das vítimas, tornando essas medidas mais efetivas e eficázes. Como observado
anteriormente, para que a medidas protetivas sejam mais efetivas, alterações legislativas
foram realizadas, buscando o aprimoramento da Lei Maria da Penha. Essa lateração tem o
objetivo de ampliar o alcance das MPUs, independente das características e circunstâncias
relativas a cada caso.
De acordo com Milhomem (2023):
A Lei nº 14.550/2023 alterou a Lei Maria da Penha para garantir maior proteção às
mulheres vítimas de violência doméstica e familiar, estabelecendo que a causa ou a
motivação dos atos de violência e a condição do ofensor ou da ofendida não
excluem a aplicação da lei.

Sabe-se, portanto, que os aspectos legais e tecnológicos são fundamentais para a


efetividade das medidas de proteção. Contudo, para maior efetividade dessas, deve-se
integrar, eficazmente, a esses dispositivos, diversos órgãos do sistema de justiça, a fim de
desenvolver maior e melhor apoio às vítimas, uma vez que a falta de comunicação e
informação entre essas instituições compromete diretamente a execução das medidas,
colocando em risco a segurança das mulheres.
A eficácia das medidas protetivas depende, em grande medida, de uma articulação
eficiente entre o sistema judiciário, as forças de segurança, os serviços de saúde e
assistência social, e outras instituições envolvidas no atendimento às vítimas de
violência. Quando essa integração é falha, há um risco elevado de que as mulheres
continuem desprotegidas e vulneráveis, mesmo com a existência de um arcabouço
legal robusto. Portanto, o sucesso dessas alterações legais não está apenas na sua
formulação, mas também na capacidade do Estado de garantir a efetiva
implementação e fiscalização dessas normas (Menezes; Novais, 2023).

5. DESAFIOS E FRAGILIDDAES NA APLICAÇÃO DAS MEDIDAS PROTETIVAS


DE URGÊNCIA

As medidas protetivas de urgência da Lei Maria da Penha desempenham um papel


crucial na proteção das vítimas de violência doméstica e familiar, criando um ambiente
seguro para sua recuperação emocional, rompendo com o ciclo de violência e permitindo a
reconstrução de suas vidas livres de abusos (Oliveira, 2023, p. 20).
Mesmo com a criação e implementação das medidads de proteção, plicadas por meio
de serviços de apoio em redes de assistência social disponibilizadas para as mulheres vítimas
de violência, a Lei Maria da Penha ainda enfrenta desafios significativos com relação a
21

proteção, punição e prevenção da violência doméstica, que fragilizam as denúncias e


descredibilizam sua relevência social. Na perspectiva de Santos, Silva e Pinto (2023, p.
3730) a eficácia dessa referida lei depende diretamente de sua implementação eficiente “em
conjunto com mecanismos que possam denotar a conscientização pública e, principalmente,
das vítimas, como também são necessários recursos e mudanças na cultura e contexto social”
(Santos; Silva; Pinto, 2023, p. 3730).
Nesse viés, ressalta-se a sensação de medo e insegurança como fatores para a não
aplicabilidade e ineficácia da medidas protetivas. Muitas vítimas, até chegam a denunciar,
mas desistem por medo das consequênncias desse ato, tanto para ela quanto para o
companheiro. Florêncio (2016, p. 95) corrobora com esta ideia quando afirma que muitas
vítimas “têm medo das consequências sobre o trabalho do companheiro/marido o que,
somado à dependência financeira, induzem à desistência ou mesmo dificultam sua ruptura
com o ciclo de violência”.
Além disso, a pressão psicológica dos filhos e familiares sobre a vítima reforçam, a
sensação de medo e contribuem para o surgimento de um sentimento de culpa, que acaba por
ser imprescindível para o não rompimento do ciclo de violência. Em 2023, o Fórum
Brasileiro de Segurança Pública realizou, em parceria com Instituto de Pesquisa Datafolha, a
4ª edição da pesquisa “Visível e Invisível: a vitimização de mulheres no Brasil” (FÓRUM
BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2023), na qual resultado demonstrou que
33,4% das mulheres brasileiras com 16 anos ou mais sofreram violência física e/ou sexual
em 2022 por parte de parceiro íntimo e, destas, 45% não denunciaram ou procuraram por
ajuda. A subnotificação dos casos dificulta o acesso às medidas protetivas e, muitas vezes
ocorre por medo de retaliação, vergonha , culpabilização ou por acreditar que a situação não
irá mudar (Oliveira, 2023, p. 21).
Cabe destacar ainda, que a persistência de uma cultura patriarcalista, baseada na
misoginia e desigualddae de gênero, é fundamental para a substimação da gravidade dos
casos de violência doméstica. Essa herança cultural, permite que a vítima seja culpabilizada
pelas agressões sofridas, o que “dificulta o combate à violência e prejudica a efetivação das
medidas protetivas” (Oliveira, 2023, p. 21).
Outro desafio enfrentado, segundo Carneiro (2010), é a grande demanda de casos de
violência doméstica, que sobrecarrega o sistema, somado à escassez de agentes, servidores,
juízes e promotores que não conseguem suportar o número de procedimentos e processos,
que a cada dia avoluma-se nas delegacias e judiciário. Tornando, assim, a análise e
concessão das medidas protetivas mais lentas, o que pode ser perigoso para a ofendida em
22

situação de urgência (Carneiro, 2010).


É relevante enfatizar que, mesmo havendo respaldo legal para a fiscalização e punição
pelo não cumprimento das medidas protetivas de urgência, em algumas situações o Estado
demonstra negligência em realizar tal ação. A falta de monitoramento e vigilância
adequados, justificada pela alta demanda e falta de recursos financeiros, compromete a
eficácia das medidas (Oliveira, 2023, p. 24).
Essa sobrecarga reflete a ausência de recursos financeiros para a contratação de
profissionais, afentando diretamente a oferta de serviços fundamentais para o acolhimento
das vítimas de violência doméstica, tornando as medidas protetivas de urgência inacessíveis
e ineficazes em muitos casos. Pode-se argumentar que um dos principais problemas no que
se refere à ineficácia das medidas protetivas de urgência está relacionado à falta de estrutura
para a fiscalização do cumprimento das medidas, uma vez que essas são concedidas. Isso se
deve em grande parte ao aparato estatal obsoleto e insuficiente que não oferece condições
básicas para que se possa conduzir uma fiscalização satisfatória, implicando em uma
omissão clara dos órgãos responsáveis (Santos, 2019, p. 4).
Ademais, o descumprimento das medidas protetivas de urgência representa um dos
maiores desafios para a eficácia dessas ferramentas jurídicas no combate à violência
doméstica. Mesmo quando concedidas, muitas vezes os agressores ignoram as restrições
impostas pela justiça, expondo as vítimas a novos riscos. Esse comportamento não apenas
reforça o ciclo de violência, mas também enfraquece a credibilidade e a eficácia do sistema
de proteção (Arantes, 2024, p. 33).
Indo mais além, entre os desafios encomtrados destacam-se a falha na fiscalização das
medidas protetivas de urgência, a desarticulação entre os órgãos do sistema de justiça e
assistência social e a falta de capacitação adequada dos profissionais que atuam na linha de
frente do atendimento às vítimas. Esses fatores contribuem para que muitas mulheres
permaneçam em ciclos contínuos de violência, mesmo após a concessão de medidas
protetivas. Além disso, a vulnerabilidade socioeconômica das vítimas também aparece como
um elemento central para a reincidência da violência doméstica, uma vez que muitas
mulheres não possuem condições financeiras e emocionais para romper com o agressor e
buscar apoio institucional de maneira efetiva (Pedrosa; Bolwerk; Oliveira, 2025, p. 13691).
Outro principal desafio é a falta de articulação entre os diferentes órgãos e instituições
responsáveis pela execução das medidas protetivas. Embora a lei preveja uma série de ações
que visam garantir a segurança da vítima, como o afastamento do agressor, o monitoramento
por tornozeleiras eletrônicas e o acolhimento em abrigos, a implementação dessas medidas
23

muitas vezes esbarra na deficiência de infraestrutura e na falta de capacitação das


autoridades envolvidas, como policiais, juízes e assistentes sociais. Um exemplo concreto
dessa falha é a frequente ausência de tornozeleiras eletrônicas em algumas regiões do país, o
que inviabiliza o monitoramento efetivo dos agressores e coloca as vítimas em risco
constante (Gomes et al., 2024, p. 13).
Além disso, a falta de representação jurídica formal e, mais especificamente, a
desinformação, é um fenômeno que impede muitas mulheres de compreenderem seus
direitos e os procedimentos necessários para a obtenção de proteção adequada (Ramalho &
Bandeira, 2024, p. 109), o que corrobora para o cenário preocupante relacionado à ausência
de denúcia e ineficácia da aplicação das medidas protetivas de urgência.
Assim, a complexidade da violência doméstica exige uma abordagem multifacetada,
que envolva a efetiva aplicação da Lei Maria da Penha, o fortalecimento das redes de
apoio às vítimas e a sensibilização das instituições públicas e da sociedade em geral para a
gravidade e os múltiplos aspectos dessa violência. A efetividade das medidas protetivas
depende não apenas de uma legislação rigorosa, mas também de uma atuação policial
qualificada, de um sistema de justiça eficiente e de um suporte psicológico e socialque
ofereça à mulher a confiança necessária para romper com o ciclo de violência (Lima; Souza;
Coelho, 2025, p. 432).

CONCLUSÃO

Com base nas informaçoes analisadas durante esta pesquisa, com foco na resposta à
questão problema levantada, é possivel afirmar que as Medidadas Protetivas de urgência são
importantes instrumentos jurídicos de proteção às mulheres em situação de vulnerabilidade,
uma vez que auxiliam diretamente no enfrentamento a todos os tipos de violência doméstica.
No entanto, o objetivo deste trabalho foi analisar se essas medidas de proteção estão
sendo realmente eficazes na proteção das mulheres vítimas de violência, o que pôde ser
evidenciado de forma negativa no decorrer desta pesquisa, uma vez que a efetivida das
MPUs dependem de uma série de fatores que transcedem a legislação.
Ficou evidente, portato, que mesmo que existam leis e outros instrumentos legais que
visam a proteção das mulheres vítimas de violência, na prática ainda existem falhas na
implementação dessas medidas, o que as tornam pouco eficazes e efetivas. A ausência de
monitoramento contínuo, a revitimização, a morosidade do sistema judicial e a falta de
articulação entre os órgãos de segurança pública são alguns dos desafios enfrentados e que
24

impedem a garantia de proteção integral às vítimas.


Dessa maneira, torna-se fundamental que o Estado invita mais na capacitação de
profissionais para que possam atuar diretamente na rede de roteção às mulheres, além de
ampliar o acesso à informação sobre os direitos de proteção às mulheres. A mobilização
social e a implementação de políticas públicas eficazes devem ser mecanismos suficientes
para garantir que as medidas protetivas de urgência cumpram fidedignamente seu dever:
proteger a vida e a dignidade das mulheres brasileiras.

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25

o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), e as Leis nºs 7.210, de 11


de julho de 1984 (Lei de Execução Penal), 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança
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