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Perspectiva de Gênero no Direito Brasileiro

O documento analisa a importância da perspectiva de gênero no direito brasileiro, destacando a necessidade de reconhecer desigualdades para garantir direitos, especialmente no combate à violência contra as mulheres. A pesquisa aborda marcos legais como a Lei Maria da Penha e a Lei Mariana Ferrer, enfatizando a importância de um judiciário que considere as especificidades de gênero e as interseccionalidades. A efetivação da igualdade de gênero no sistema jurídico é apresentada como um desafio contínuo que requer mudanças estruturais e culturais.

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Perspectiva de Gênero no Direito Brasileiro

O documento analisa a importância da perspectiva de gênero no direito brasileiro, destacando a necessidade de reconhecer desigualdades para garantir direitos, especialmente no combate à violência contra as mulheres. A pesquisa aborda marcos legais como a Lei Maria da Penha e a Lei Mariana Ferrer, enfatizando a importância de um judiciário que considere as especificidades de gênero e as interseccionalidades. A efetivação da igualdade de gênero no sistema jurídico é apresentada como um desafio contínuo que requer mudanças estruturais e culturais.

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A PERSPECTIVA DE GÊNERO PARA O DIREITO BRASILEIRO

RECONHECER DESIGUALDADES PARA GARANTIR DIREITOS

ANA GABRIELA MANICA BROD

Foz do Iguaçu
2023
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO......................................................................................................................3

2 JUSTIFICATIVA...................................................................................................................4

3 DESENVOLVIMENTO.........................................................................................................5
3.1 GÊNERO E DIREITO..........................................................................................................5
3.1.1 A importância da perspectiva de gênero para o enfrentamento da violência contra as mulheres
.....................................................................................................................................................6
[Link] Julgamento com perspectiva de gênero: como funciona?..............................................7

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................................8

REFERÊNCIAS........................................................................................................................9
9

1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem como propósito analisar de forma breve a relevância de


julgar com perspectiva em gênero. A Constituição Federal de 1988, compreende como princípio
norteador a igualdade entre homens e mulheres 1, e, apesar do afirmado, a intervenção do Estado
ainda se faz necessária, como dispõe em seu artigo 226, §8º 2, é dever do Estado instituir e assegurar
mecanismos para coibir a violência intrafamiliar (MOREIRA, 2016, p. 29).
No Brasil, a promulgação da Lei nº 11.340 de 2006, conhecida como Lei Maria
da Penha, tornou-se um marco de políticas públicas voltadas a mulheres em situação de violência
(LINHARES; VASCONSELOS; 2023, p. 81). Nesse passo também, a Lei nº 13.104/2015 tipificou
o crime de feminicídio como um crime de homicídio qualificado, aumentando a sua pena e o
colocando no rol de crimes hediondos.
Essas mudanças politizaram os debates e levantaram pautas, mas é o suficiente?
São muitos desafios a percorrer (MOREIRA, 2016, p. 31), a rede de acolhimento ainda é falha e
instável, falta a base da perspectiva de gênero. O amadurecimento institucional do judiciário
brasileiro é recente, portanto, objetivo da presente pesquisa não é esgotar as fontes de informações,
mas sim, compreender o tema-problema por meio da bibliografia doutrinária e científica.

1
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade,
nos termos seguintes: I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;
2
§8º O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para
coibir a violência no âmbito de suas relações.
9

2 JUSTIFICATIVA

O Brasil é um país construído em cima de sangue, lágrimas e suor escravocrata


(NASCIMENTO, 1978, p. 48), as influências do racismo, patriarcado e machismo se entrelaçam
com todas as áreas do Direito, o que afeta diretamente a interpretação e aplicação da lei.
O Supremo Tribunal Federal (STF) em números é representado em 1,8% por mulheres
ministras em toda sua história: “Desde 1891, 170 magistrados passaram pela corte. Foram apenas
três do gênero feminino, nenhuma delas era negra” (ZANLORENSSI; FRONER, 2023).
Se analisarmos quanto a população carcerária feminina, tem-se pelo levantamento do World
Female Imprisoment List (2022) que na América Latina as mulheres presas estão em número
emergente. Enquanto o Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial com a maior população
carcerária feminina.
Esse tema vai além da mera análise jurídica, as interseccionalidades denunciam a
universalidade do Direito como instituição dogmática, o olhar generalizado do judiciário fornece
um tratamento desigual e preconceituoso, é estruturante (KITAMURA apud BAIRROS, 2021, p.
18).
9

3 DESENVOLVIMENTO

3.1 GÊNERO E DIREITO

Não há um momento exato em que o conceito gênero foi introduzido como objeto
de estudo dentro do campo do Direito, percebe-se apenas que é um movimento recente, tem-se, por
exemplo, a promulgação da Convenção de Belém do Pará de 1996 como um marco. Tinha como
proposta punir e erradicar a violência contra a mulher, obrigando os Estados a modificar padrões
socioculturais de comportamentos de homens e mulheres, bem como, combater conceitos de
inferioridade e superioridade de qualquer dos gêneros:

Para os efeitos desta Convenção, entender-se-á por violência contra a mulher


qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento
físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública como na esfera
privada.

Então, a Lei 11.340 de 2006, Lei Maria da Penha (LMP), cria um paradigma para
as tratativas de violência doméstica e familiar contra a mulher no Brasil, embasada na garantia de
direitos tipifica esta violência como qualquer ação ou omissão pautada em gênero:

Art. 5º Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e familiar contra a
mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão,
sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial:

As propostas das leis citadas acima se encontram com o Protocolo de Julgamento


com Perspectiva em Gênero (2021, p. 35), a sociedade brasileira é estruturalmente desigual em
termos históricos e antropológicos.
O Direito como instrumento é mantido por essa sociedade, mesmo que de forma
inconsciente e involuntária seus servidores estão sujeitos a repassarem os mesmos estereótipos de
patriarcalismo e racismo (BAGGENSTOSS; DE OLIVEIRA; TONELI, 2022, p. 7).

3.1.1 A importância da perspectiva de gênero para o enfrentamento da violência contra as mulheres

O objetivo descrito no prefácio do Protocolo é: “um instrumento para que seja


alcançada a igualdade de gênero” (CNJ, 2021, p. 7), distanciando o judiciário do ideal universalista
e fazendo com que sejam consideradas as especificidades de cada pessoa envolvida, evitando
qualquer tipo de discriminação.
9

Não obstante, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 5 e 16 da


agenda 2030 da ONU tem como prospecção alcançar a igualdade de gênero e promover o acesso à
justiça construindo instituições eficazes, responsáveis e inclusivas (CANDIDO; CANGUÇU, 2021,
p. 5).
Segundo Soraia da Rosa Mendes (2012, p. 187) a criminologia é um discurso de
homens para homens, sobre mulheres. Em 2020, o caso Mariana Ferrer tomou proporção nacional
em razão do tratamento omisso do juiz durante uma audiência de instrução pelo interrogatório hostil
efetuado pelo advogado da parte ré.
Mariana Ferreira Borges havia sido vítima de abuso, durante a audiência de
instrução fora questionada quanto ao seu comportamento, suas vestimentas e fotos de cunho pessoal
em trajes de banho foram projetadas para o corpo julgador.
Após a repercussão, a Lei nº 14.245/2021 (Lei Mariana Ferrer) surgiu, tem como
pretensão a garantia dignidade e segurança para vítimas de crimes sexuais durante a
processualística.
Fica exemplificado pelo artigo a seguir:

Art. 400-A. Na audiência de instrução e julgamento, e, em especial, nas que


apurem crimes contra a dignidade sexual, todas as partes e demais sujeitos
processuais presentes no ato deverão zelar pela integridade física e psicológica da
vítima, sob pena de responsabilização civil, penal e administrativa, cabendo ao juiz
garantir o cumprimento do disposto neste artigo, vedadas:
I - a manifestação sobre circunstâncias ou elementos alheios aos fatos objeto de
apuração nos autos; II - a utilização de linguagem, de informações ou de material
que ofendam a dignidade da vítima ou de testemunhas.

E a perspectiva de gênero seria eficaz nesse caso? A lei só foi sancionada depois
de finalizada a instrução do caso Mariana Ferrer, a audiência não foi anulada, o rito seguiu e o
suspeito foi inocentado: “El estado opresor es un macho violador” (CADENA, 2021, p. 14).

[Link] Julgamento com perspectiva de gênero: como funciona?

Após a promulgação da Lei Maria da Penha políticas públicas de enfrentamento a


violência doméstica foram instituídas. Em 2007, o Pacto Nacional de Enfrentamento à Violência
contra as Mulheres foi criado no intuito de uma atuação conjunta entre os governos estaduais e
municipais, instituindo rede de enfrentamento e de apoio para mulheres em situação de violência
(SETENTA; LOPES, 2022, p. 7).
Uma linha de amadurecimento vem sendo trilhada, a Lei 13.104 de 2015 tipificou
9

o crime de feminicídio como qualificadora e o colocou na lista de crimes hediondos. No ano de


2018, a Lei 13.772 alterou a Lei Maria da Penha (LMP) determinou que a violação da intimidade da
mulher caracteriza violência doméstica e familiar, tipificando o registro não autorizado de conteúdo
íntimo e privado.
Em vista disso, o Plenário do Conselho Nacional de Justiça propôs o Protocolo de
Julgamento com Perspectiva em Gênero (2021) que tem o objetivo orientar magistrados(as) e
servidores(as) em como julgar com atenção às desigualdades baseadas no gênero (SETENTA;
LOPES, 2022, p. 8). O Ato Normativo 0001071-61.2023.2.00.0000 tornou obrigatória a proposta do
Protocolo, as Cortes deverão promover cursos de formação quanto ao tema.
Ainda, no escopo de mudanças recentes, a Lei 14.541 de 2023 determina o
funcionamento ininterrupto das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM), a
proposta é de que esteja aberta todos os dias da semana, incluindo feriados, durante 24h e que o
atendimento das vítimas seja realizado preferencialmente por servidoras mulheres. O treinamento
dos funcionários para um atendimento digno também foi determinado, além da obrigatoriedade de
disponibilizar número de telefone e/ou de mensagem eletrônica para fácil acesso. O Estado deve
garantir não apenas o acesso à justiça, mas o acesso de forma digna e efetiva.
9

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Julgar em perspectiva de gênero não se resume a analisar por meio de princípios,


doutrinas e precedentes atuais, mas sim, reconhecer a particularidade de cada caso que chega ao
judiciário. A efetivação e democratização dos direitos das mulheres tem base no direito à igualdade
entre homens e mulheres, e, o acesso à justiça com equidade, para que possam em matéria
processual as diferenciações sejam analisadas, para que as interseccionalidades de raça e gênero
sejam consideradas e não pautadas na universalidade.
O Brasil tem um cenário alarmante de violências contra as mulheres, romper esse
estigma pode fazer com que o judiciário não seja conivente com a reprodução de preconceitos e
estereótipos de gênero. O Direito deve se ressignificar conforme a sociedade que o envolve,
avanços são necessários e imprescindíveis para que a igualdade deixe de ser princípio ideal e passe
a ser realidade palpável.
9

REFERÊNCIAS

BAGGENSTOSS, Grazielly Alessandra; DE OLIVEIRA, João Manuel; TONELI, Maria Juracy


Filgueiras. O gênero produzido pelo discurso jurídico no Brasil: reflexões a partir de categorias
políticas do direito no Brasil. Captura Críptica: direito, política, atualidade, v. 11, n. 1, p. 26-46,
2022.

BRASIL. Lei nº. 11.340 de 07 de agosto de 2006. Lei da Violência Doméstica e Familiar contra a
Mulher (Lei Maria da Penha). Brasília, DF: Senado Federal. 2006.

BRASIL. Lei Mariana Ferrer. Lei n. 14.245/2021. Altera os Decretos-Leis nos 2.848, de 7 de
dezembro de 1940 (Código Penal), e 3.689, de 3 de outubro de 1941 (Código de Processo Penal), e
a Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995 (Lei dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais), para
coibir a prática de atos atentatórios à dignidade da vítima e de testemunhas e para estabelecer causa
de aumento de pena no crime de coação no curso do processo (Lei Mariana Ferrer).

BRASIL. Lei nº. 14.541 de 03 de abril de 2023. Dispõe sobre a criação e o funcionamento
ininterrupto de Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher. Presidência da República,
2023.

CADENA, Kenia Berenice Ortiz. Performance feminista “un violador en tu camino”: El cuerpo
como territorio de resistencia y subversiva resignificación. Encartes, v. 4, n. 7, p. 265-291, 2021.
Disponível em: [Link]
un_violador_en_tu_camino.pdf. Acesso em: 14 de abril de 2023.

CANDIDO, Wesley Pereira; CANGUÇU, Luan Ribeiro. Análise da ODS 5: igualdade de gênero
nas organizações. Brazilian Journal of Business, v. 3, n. 3, p. 2349-2363, 2021.

CIDH –Comissão Internacional de Direitos Humanos. Convenção Interamericana para Prevenir,


Punir e Erradicar a Violência contra A Mulher, “Convenção de Belém do Pará”.
Disponível em: [Link] Acesso em: 11
de abril de 2023.

CONVENÇÃO INTERAMERICANA para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher -


Convenção de Belém do Pará, 1994. Disponível em:
<[Link]
%C2%BA%201.973%2C%20DE%201%C2%BA,9%20de%20junho%20de%201994>. Acesso
em: 09 de abril de 2023.

DE CARVALHO LINHARES, Élyda Mary; DE VASCONCELOS, Verônica Acioly. A aplicação


da perspectiva de gênero na investigação criminal de feminicídio1. Práticas exitosas e inovadoras
em pesquisa, 2023.

FAIR, Helen; WALMSLEY, Roy. World female imprisonment list. London: International centre
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[Link]
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9

FRONER, Mariana; ZANLORENSSI, Gabriel. Mulheres representam 1,8% dos ministros na


história do Supremo. Disponível em:
[Link]
%C3%B3ria-do-Supremo. Acesso em: 09 de abril de 2023.

KITAMURA, Camila Marques Leoni. A violência contra as mulheres e o feminicídio. Orientador:


Rafael de Paula Aguiar Araújo. 2021. Dissertação (Mestrado) – Programa de Ciências Sociais,
PUC-SP, São Paulo/SP, 2021.

MENDES, Soraia da Rosa. Criminologia feminista: novos paradigmas. Imprenta: São Paulo,
Saraiva, 2017. Descrição Física: 246 p. ISBN: 9788547219901.

MOREIRA, Laís de Araújo. Direito e gênero: a contribuição feminista para a formação política das
mulheres no processo de (re)democratização brasileiro. Periódico do Núcleo de Estudos e
Pesquisas sobre Gênero e Direito Centro de Ciências Jurídicas, v. 5, n. 01, 2016. Disponível
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NASCIMENTO, Abdias do. O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo


Mascarado. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1978, p. 48.

Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres / Política Nacional de Enfrentamento à


Violência contra as Mulheres Brasília: Secretaria Especial de Políticas para Mulher. Disponível
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SETENTA, Aline; LOPES, Saskya Miranda. A perspectiva de gênero no Direito brasileiro:


Avanços e retrocessos no combate à violência contra a mulher. Revista Direito e Feminismos, v. 1,
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