Grupos de Poupança e Desenvolvimento Rural
Grupos de Poupança e Desenvolvimento Rural
RESUMO
O estudo reflecte uma discussão sobre Grupos de Poupança e Crédito Rotativo como vector
de desenvolvimento para as comunidades rurais em Moçambique. Apresenta reflexões sobre a
influência destes Grupos de Poupança e Crédito Rotativo no nível de vida dos seus integrantes
e no desenvolvimento das comunidades em que elas se inserem. O trabalho foi desenvolvido à
base de pesquisa bibliográfica. Para compreender o fenómeno dos Grupos de Poupança e
Crédito Rotativo, buscou-se um suporte teórico-conceitual sobre os Grupos de Poupança e
Crédito Rotativo e desenvolvimento. As conclusões enfatizam a capacidade dos Grupos de
Poupança e Crédito Rotativo impactar positivamente na vida dos seus integrantes
proporcionando mudanças e melhorias no seu nível de vida e como eficazes para a solução
dos problemas de acesso ao crédito.
Palavras-chave: Grupos de Poupança e Crédito Rotativo. Desenvolvimento. comunidades
rurais.
ABSTRACT
The study reflects a discussion on Savings and Rotating Credit Groups as a development
vector for rural communities in Mozambique. It presents reflections on the influence of these
Savings and Rotating Credit Groups on the living standards of their members and on the
development of the communities in which they are located. The developed work based on
bibliographical research. To understand the phenomenon of the Savings and Rotating Credit
Groups, a theoretical-conceptual support sought on the Savings and Rotating Credit Groups
and development. The conclusions emphasize the capacity of the Savings and Rotating Credit
Groups to positively impact on the lives of their members providing changes and
improvements to their standard of living, and they are knew as effective in solving problems
of access to credit.
Keywords: Savings and Rotating Credit Groups. Development. Rural Communities.
1
Mestre em População e Desenvolvimento pela Universidade Eduardo Mondlane (UEM),
sultanesadia@[Link].
RESUMEN
El estudio es una reflexión sobre los Grupos de Ahorro y Crédito Rotativo como vector de
desarrollo para las comunidades rurales de Mozambique. Presenta reflexiones sobre la
influencia de estos Grupos de Ahorro y Crédito Rotativo en el nivel de vida de sus miembros
y en el desarrollo de las comunidades en las que se encuentran. El trabajo se desarrollo a
partir de una investigación bibliográfica. Para comprender el fenómeno de los Grupos de
Ahorro y Crédito Rotativo, se buscó un soporte teórico-conceptual sobre los Grupos de
Ahorro y Crédito Rotativo y el desarrollo. Las conclusiones destacan la capacidad de los
Grupos de Ahorro y Crédito Rotativo para incidir positivamente en la vida de sus miembros a
través del aumento de la producción, el empleo y los ingresos, propiciando cambios y mejoras
en su nivel de vida y también se ha considerado eficaz para resolver los problemas de acceso
al crédito de las personas sin acceso al crédito formal y también como aliado para reducir la
pobreza en las comunidades rurales.
Palabras Clave: Grupos de ahorro y crédito rotativo. Desarrollo. Comunidades rurales.
1. INTRODUÇÃO
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A CARE é uma organização humanitária dedicada à luta contra a pobreza, está em Moçambique há mais de 20
anos. Os GPC foram introduzidos em Moçambique por volta da década de 90 pela CARE (para mais detalhes
veja [Link] asp).
3
Financial Sector Deepening Mozambique.
prática nossas vontades, interagindo com o mundo em que vivemos e o influenciando (SEN,
2000).
É nesse âmbito que se pretende analisar os Grupos de Poupança e Crédito Rotativo
como vectores de desenvolvimento para as comunidades rurais em Moçambique, para o
alcance desse objectivo procurou-se verificar as características, a organização e o
funcionamento dos Grupos de Poupança e Crédito Rotativo, descrever a natureza das
actividades económicas praticadas pelos membros dos Grupos de Poupança e Crédito
Rotativo e verificar o impacto socioeconómico destes Grupos de Poupança e Crédito Rotativo
sobre o desenvolvimento das comunidades rurais.
Para a consecução desses objectivos foram consultados diversos artigos através da
revisão bibliográfica onde se fez uma leitura aprofundada sobre os Grupos de Poupança e
Crédito Rotativo, e desenvolvimento, nas publicações, livros, teses, dissertações, relatórios,
artigos de revista, relatórios de consultoria, o que possibilitou o reconhecimento dos aspectos
importantes que cercam o presente estudo. O método bibliográfico é composto pelo “[...]
conjunto de conhecimentos reunidos nas obras. Tem como base fundamental conduzir o leitor
a determinado assunto […]” (FACHIN, 2001 apud DORIGUEL e BONACHELA, 2017).
O artigo está estruturado da seguinte maneira: de início é apresentada a introdução e a
metodologia juntamente com a descrição do estudo, de seguida discutir-se-á os conceitos de
Grupos de Poupança e Crédito Rotativo e Desenvolvimento. Em sequência, os resultados são
discutidos onde mostraremos as características organização e funcionamento dos Grupos de
Poupança e Crédito Rotativo, as actividades desenvolvidas pelos membros destes grupos e o
impacto socioeconómico dos mesmos sobre o desenvolvimento das comunidades rurais. Por
fim, apresentam-se as considerações, seguida das referências bibliográficas citadas no
presente estudo.
Para Massarongo et al., (sd) os GPC4 são um conjunto de pessoas que se reúnem por
afinidade, vizinhança ou associativismo em actividades socioeconómicas para realização de
4
Grupos de Poupança e Crédito.
poupanças, que por sua vez são usadas para a concessão de crédito dentro do próprio grupo,
através do pagamento de uma determinada taxa de juros. De acordo com GPCR5 (2016, p. 7)
apud Rosário (2020, p. 198) os Grupos de Poupança e Crédito Rotativo (PCRs) vulgarmente
denominados ASCAS “são formas organizativas de promoção do acesso da população de
baixa renda aos serviços financeiros, particularmente nas zonas rurais”.
Na concepção de Meneses (2011, p. 31):
Os Grupos de Poupança e Crédito Rotativo (PCR) constituem um sistema micro
financeiro adaptadas as comunidades com baixos rendimentos, visando melhorar as
condições socio-económicas das pessoas rurais e a sua capacidade de assegurar uma
melhor sustentabilidade para elas próprias e suas famílias, oferecendo-lhes o acesso a
um sistema de poupança e crédito permanente aos grupos interessados na organização
e funcionamento dos mesmos.
Souza Jr. (2002) citado por Rosário (2014) definiu por sua vez o desenvolvimento
como sendo a tentativa de solucionar os problemas da pobreza, nutrição, esperança de vida,
mortalidade infantil, redistribuição do rendimento, educação, água potável e saneamento
básico, entre outros problemas sociais de que padece a humanidade. Como sustenta Oliveira
(2002) pensar em desenvolvimento é, antes de qualquer coisa, pensar em distribuição de
renda, saúde, educação, meio ambiente, liberdade, lazer, dentre outras variáveis que podem
afectar a qualidade de vida da sociedade, para Neto e Garcia (1987) apud Barros (2016)
5
Grupos de Poupança e Crédito Rotativo.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
3.1 Descrição, organização e funcionamento dos Grupos de Poupança e Crédito Rotativo
Segundo Honohan e Beck (2007), apud Fumo (2015) em África o sistema financeiro
formal abrange apenas 20% das famílias, razão pela qual algumas famílias mais carenciadas,
optam pelo sistema informal para participarem dos mercados financeiros. Assim, destacam-se
os Grupos de Poupança e Crédito Rotativo, estes grupos existem de modo informal, em todo o
continente africano. Como forma de minimizar o limitado acesso das pessoas ao dinheiro,
alguns actores têm estado a promover programas de Poupança e Crédito Rotativo (PCR),
forma de operação financeira com base comunitária, onde os membros locais obtêm crédito
para satisfazer algumas necessidades CAPAINA (2017). Conforme explica Trindade (2018),
existem em todo o país vários tipos de associações de poupança e crédito rotativo, sendo
algumas mais comuns no sul, outras no norte, tanto no meio rural assim como no meio
urbano.
Como refere Rosário (2020, p. 197) "a sua característica é o envolvimento da
comunidade e dos seus membros na gestão das estruturas financeiras locais, uma metodologia
que permite substituir as garantias formais por garantias morais". Como aponta Fumo (2015)
a partir da metodologia de poupança e crédito rotativo formalizada e difundida pela CARE,
surgiram várias formas de poupança que geram créditos para os próprios poupadores. As
principais modalidades são as ROSCAS6 (Rotating Savings and Credit Associations) e as
ASCAS7 (ROCHA 2004, MATIAS 2005 citado por FUMO 2015).
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Uma ROSCA típica é formada por um grupo de dez a quinze pessoas de uma comunidade de vizinhos,
empregados de uma empresa ou comerciantes que se encontram em uma área periodicamente e depositam, em
um fundo comum, um valor previamente acordado. Em cada encontro do grupo um de seus membros, em regime
rotativo, recebe a soma total do fundo, podendo o beneficiado ser outorgado de diferentes formas como sejam
por sorteio, prévio atendimento, entendimento na reunião ou por lance (RUTHERFORD, 2000 apud FUMO,
2015).
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Nas ASCAS, os créditos não são automáticos para todos os membros do grupo, devendo ser autorizados por
um comité, e o mutuário deve oferecer garantias para a sua eleição. Geralmente o ciclo de poupança das ASCAS
tem a duração de um ano, mas pode ser dissolvida antes, com a distribuição de seu património, entre os
participantes (RUTHERFORD, 2000 apud FUMO, 2015).
Conforme argumenta Fumo (2015), o xitique é a forma mais simples desta abordagem,
pela qual um grupo de pessoas, social e economicamente próximas se juntam para realizar em
conjunto operações de poupança e de crédito, que não conseguiriam fazer de maneira isolada.
O xitiki8 é uma das práticas de poupança e crédito rotativo mais conhecidas e comuns no sul
de Moçambique, especialmente na cidade de Maputo (TRINDADE, 2018). Cunha (2011)
apud Trindade (2018) argumenta, que o xitiki tem sido analisado fundamentalmente como
uma prática comum de poupança e crédito rotativo entre um grupo restrito de pessoas,
normalmente mulheres.
Neste estudo abordaremos os Grupos de Poupança e Crédito Rotativo (GPCR's)
vulgarmente denominados ASCAS onde a sua criação é feita por promotores ou supervisores
e cada membro deposita um valor conforme as suas possibilidades, estes grupos geralmente
têm maior incidência nas zonas rurais.
Conforme explicam Ali et al., 2014, p.140:
O processo de criação dos GPC é feito pelos supervisores e/ou promotores
contratados pelos operadores que, durante um certo período de tempo (geralmente um
ciclo), fazem um acompanhamento aos grupos. Ao fim de um ciclo de
acompanhamento, espera-se que os grupos atinjam maturidade e não dependam do
acompanhamento sistemático de um promotor/animador remunerado pelo operador.
Nos casos em que, após o fim do ciclo, os grupos ainda necessitam de
acompanhamento, estes, geralmente, remuneram o animador ou facilitador que os
assiste (por sessão solicitada pelo grupo), com base nas contribuições dos membros
do grupo.
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Xitiki escrito por outros também como Xitique é uma palavra local dado às poupanças rotativas e grupo de
crédito (ROSCA), também conhecido como carrossel. Xitique geral é um sistema similar ao Susu na África
Ocidental, onde o participante paga um montante fixo a um colector e recebe o seu próprio dinheiro de volta,
menos uma comissão, a intervalos regulares (FSDMoç8., 2017, p. 28).
Em cada reunião, cada pessoa deposita conforme as suas possibilidades e estes valores
variam geralmente de 10,00 a 500,00 Meticais (GPCR, 2016). Conforme Capaina (2017)
explica o montante mínimo de poupança depende da capacidade financeira dos membros,
podendo mudar, normalmente, o grupo mantém um montante colectivo através do pagamento
de um valor fixo, que o membro deve fazer sempre que realiza a poupança como um fundo
(social) para gastos sociais no grupo. Os membros funcionam como poupadores e mutuários,
as operações monetárias são anotadas nas cadernetas individuais e numa caderneta colectiva
do grupo. O grupo tem um caderno que fica arquivado na mala para o registo de todas as
transações semanais dos membros (OPHAVELA, 2021). Ali & Ibraimo (2014, p. 144 apud
Rosário, 2020, p. 201) explanam:
A gestão do funcionamento do grupo e o registro das operações são feitos por um
comité de gestão eleito pelo grupo, os valores monetários das poupanças e
remanescentes (após empréstimos ou cobranças de juros, fundo social e multas)
movimentados no grupo são depositados numa caixa ou cofre com duas ou três
chaves, controlado pelo guardião de caixa.
GPCR menciona que "para abrir a mala são necessárias 3 pessoas, o que melhora, até
certo ponto, a segurança dos depósitos" (GPCR, 2016, p. 2). Assim, GPCR explica que:
No fim do ciclo, as poupanças são redistribuídas pelos donos. Os juros acumulados
são também distribuídos entre os sócios, em geral proporcionalmente às poupanças de
cada membro. Pelo facto do cálculo ser complexo, muitas vezes repartem o valor por
igual entre membros. Os grupos constituem também um ‘fundo social’ de valores
muito baixos e sem juros, com vista a cobrir as despesas de funcionamento e
providenciar créditos (GPCR, 2016, p. 2).
Outro importante aspecto apontado por (Massarongo et al., sd/,) é que os empréstimos
adquiridos no grupo são de curto prazo e com taxas de juro relativamente altas, que rondam
entre 5% a 30% dependendo da decisão do grupo, conforme ainda explicam os autores e
segundo as normas de funcionamento dos grupos, o reembolso dos empréstimos fora dos
prazos definidos são sancionados com o pagamento de uma multa previamente estipulada
pelo grupo. Como explica Fumo (2015) nos regulamentos/estatutos dos grupos de PCR, os
créditos tem a duração de um mês sendo sujeito a multa, o membro que não devolver o valor
emprestado depois de um mês, o valor da multa é igual ao valor dos juros mensais. Contudo
de acordo com Fumo (2015, p. 57):
Existem casos em que o membro não consegue devolver o valor do crédito. Nestes
casos, o grupo faz desconto directo do valor de crédito pedido e dos correspondentes
juros no acto da divisão dos fundos gerados no fim do ciclo, este procedimento
aplica-se para membros com valores poupados superiores ao valor em dívida. Para
membros cuja poupança é inferior ao valor em dívida procede-se a penhora dos bens
duráveis do membro (rádio, bicicleta, geleira).
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Ministério da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Local.
3.2 Atividades desenvolvidas pelos membros dos Grupos Poupança e Crédito Rotativo
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Dado que as actividades não demandam qualificações além das mais básicas, e dificilmente diversificam e
criam ligações, o número de pessoas que entram para o desenvolvimento das mesmas actividades tende a
reproduzir-se muito rapidamente.
grupos nas suas zonas de actuação, directamente (em Cabo Delgado e Norte de Nampula), ou
por via de ONG’s locais contratadas para o efeito.
Como refere Meneses (2011, p.15):
As comunidades pesqueiras têm-se confrontado com condições sociais desfavoráveis
resultantes da prática de actividades da pesca artesanal de baixa produtividade, perdas
do pescado após captura, deficientes condições de comercialização dos produtos e
insumos da pesca, condicionando-lhes baixa rendibilidade da actividade e como
consequência enfrentam dificuldades relacionados com saúde, habitação condigna,
nutrição rica, limitado e complexo acesso por parte dos pescadores artesanais aos
serviços financeiros (crédito) para realização de actividades de geração de rendimento
de forma a melhorar as condições de vida.
rotativo nas províncias de Nampula e Sofala, os membros destes grupos afirmaram concordar
que a participação no PCR melhorou o padrão de vida da sua família, certamente pelo facto de
a renda proveniente da poupança contribuir para acumulação de bens duráveis como por
exemplo congelador, geleira, chapas de zinco, cimento, blocos, cadeiras entre outros, para
além do facto de a participação no grupo contribuir para uma maior coesão social entre os
seus membros. Segundo este autor serve também para pagar despesas ocasionais e urgentes
das famílias, tais como doenças ou propinas escolares.
No mesmo sentido Rosário (2020) apurou que a maioria dos participantes dos grupos
de poupança e crédito rotativo tem a consciência da importância desses serviços, uma vez que
os mesmos afirmam que com o serviço já conseguem realizar poupanças, acumulam os seus
activos, melhoraram a dieta alimentar e conseguem fazer frente as emergências que surgem.
Mais da metade dos adultos em idade de trabalhar não tem acesso a serviços financeiros,
especialmente em áreas rurais de países em desenvolvimento (FSD Moç., 2017). Para Rosário
(2020, p. 205) "a presença das solteiras (os) como integrantes dos grupos de poupança e
crédito mostra que elas/eles são as mais necessitadas (os), são eles (as) que têm dificuldade
em arranjar emprego, têm pouco apoio do companheiro (a), por isso, acabam recorrendo aos
grupos como um meio de sobrevivência".
Os GPCR têm implicado várias mudanças na vida das comunidades. O processo de
desenvolvimento resultante do GPCR implica mudanças e transformações no quotidiano das
comunidades ao impulsionar o crescimento económico através do incremento e
aperfeiçoamento da actividade económica e consequente ampliação do número de postos de
trabalho oferecidos, e ainda pela melhoria das condições de vida e do bem-estar dos seus
integrantes (acesso a saúde, educação, alimentação, compra de bens duráveis e moradia
condigna).
De acordo com Rosário (2020, p. 208):
Esta actividade permite também desenvolver relações sociais de inter-ajuda que
possibilitam solucionar emergências e fortificação de laços de afinidade e
solidariedade entre os membros. Ou seja, verificou-se que ocorrem contribuições
eventuais fora do GPCR (entre os membros que têm uma certa afinidade) para casos
de falecimento, imprevistos (assaltos e/ou destruição de residência, compra de
material escolar dos filhos etc.).
Fumo (2015) no seu estudo constatou que a participação nos grupos da PCR por parte
das famílias rurais, tem um efeito positivo, na vida destas, na medida em que nestes grupos,
cria-se o hábito da poupança, através da qual as famílias conseguem acumular bens duráveis,
iniciar pequenos negócios, assim como pagar a educação e saúde dos filhos, para além de
melhorar a literacia financeira e coesão social dos participantes.
Assim percebemos que para além dos benefícios económicos estes grupos acabam
tendo uma função social onde os seus membros se ajudam em caso de infortúnios ou
situações inesperadas através da solidariedade existente resultante da integração nos grupos.
O enfoque de desenvolvimento humano defende o desenvolvimento como um
processo de alargamento de oportunidades e eleição de todas as pessoas – homens, mulheres,
adultos, anciãos e crianças – duma sociedade (NUSSBAUM, 2002; SEN, 2012 e 2003 apud
CAPAINA, 2017).
Para além dos benefícios acima mencionados estes grupos de poupança também
servem para aumentar o empoderamento das mulheres nas comunidades, sendo este um dos
desafios actuais da sociedade. De acordo com Ali et al., (2014) evidencia-se o reforço do
papel socioeconómico da mulher, pois esta tem sido vista como sendo mais vulnerável em
termos do seu enquadramento socioeconómico. Ainda de acordo com estes autores grande
parte dos operadores, como a CARE e outros, no início da promoção dos GPC tinham e
continuam a ter um enfoque nas mulheres que se encontram em situação economicamente
vulnerável, com o intuito de possibilitar uma maior participação destas nos GPC e na
comunidade e fortalecer o seu papel, de modo a que estas possam ter maiores capacidades de
gestão dos seus recursos e de liderança. Como referenciado no Perfil de Género (2016) a
pobreza extrema tem um grande impacto especialmente nas mulheres e raparigas, e têm
contribuído para a sua situação precária no país (USAID GENDER 2013 apud MGCAS
2016). Como argumenta Capaina (2017) as finanças e os órgãos de tomada de decisão são
vistos como recursos cujo acesso permite a esta mulher ter capacidade de produção e de
desenvolvimento. Ainda para o mesmo autor aspectos como a capacidade de obter renda, o
papel económico fora da família, (…) contribuem positivamente para trazer força à voz e à
acção das mulheres – reforçando o seu estatuto social no funcionamento da unidade doméstica
e da sociedade em geral – isso através de sua independência e autonomia (IBIDEM, 2017,
p.7).
Estes GPCR possibilitam o aumento da capacidade das mulheres de participarem na
sociedade através do seu envolvimento em pequenos negócios, visto que muitas delas tem
rendimentos insuficientes para cobrir as suas necessidades domésticas, e estarem inseridas
nestes grupos garante-lhes mais renda e autonomia económica e financeira através dos quais
contribui para que possam ter acesso a alimentação, saúde e educação dos filhos,
proporcionando uma redução da pobreza e contribuindo assim para o alcance de 5º Objectivo
de Desenvolvimento Sustentável da ONU de alcançar a igualdade de género e empoderar
todas as mulheres e meninas até 2030.
Os GPCR acabam sendo um aliado na Estratégia Nacional de Inclusão Financeira11
(2016-2022) em Moçambique por facilitar a inclusão financeira nas comunidades rurais
através das suas actividades de poupança e crédito rotativo. De acordo com os Grupos de
Poupança e Crédito Rotativo (sd/) os PCR funcionam como mecanismo de inclusão financeira
pois em zonas onde não existem instituições financeiras formais são alternativa de acesso a
recursos financeiros. Acrescenta Rosário (2020) que a metodologia de Poupança e Crédito
Rotativo se revelou um factor fundamental de “educação financeira”, permitindo na prática
que essa população conheça e entenda conceitos financeiros básicos como poupança, capital,
juros, prazo de crédito, obrigação de pagamento do crédito, etc. Para o FSD. Moç. (2017) o
aumento dos grupos informais de poupança, conhecidos como ASCAs, são frequentemente o
primeiro passo importante para a inclusão financeira. O foco da inclusão financeira na agenda
de desenvolvimento deriva da correlação positiva entre a pobreza e o acesso a finanças, que
tem sido diagnosticada em diferentes estudos (COUNTS, 2008; YUNUS, 2010; AYYAGARI,
BECK & HOSEINI, 2013 apud ALI ET AL., 2014). Ainda segundo Ali et al., (2014) a
expansão do acesso a serviços financeiros para os mais pobres é vista como um mecanismo de
redução da pobreza.
No entender de Sen (2000), a avaliação de desempenho de uma sociedade deve ir além
do crescimento económico, é importante uma avaliação de como as pessoas estão na saúde, na
educação e nas demais dimensões de seu bem-estar. O objectivo é a liberdade, a fim de que os
indivíduos não sofram privação de capacidades e estejam livres para viver do modo que
preferirem.
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A inclusão financeira é essencial para um desenvolvimento económico sustentável. A sua importância tem-se
elevado à medida que, internacionalmente, se reconhece o papel que a mesma tem no estímulo à poupança
financeira, no financiamento à economia e, consequentemente, na expansão da actividade económica, geração de
renda e redução da pobreza, resultando no desenvolvimento económico, na redução das desigualdades sociais e
na melhoria do bem-estar da população, no geral (BANCO DE MOÇAMBIQUE, 2021).
[Link]ÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALI, R.; IBRAIMO, Y.; MASSARONGO, F.; MASSINGUE, N.;. Grupos de Poupança e
Crédito Rurais como Opção para a Inclusão Financeira: Uma Análise Crítica. Desafios para
Moçambique 2014, p. 137- 162.